quinta-feira, 25 de abril de 2013

3169) "Repossession Man" (25.4.2013)





Nos anos 1950, os rebeldes sem causa dos EUA e os “angry young men” da Grã-Bretanha batiam de frente com pais caretas, moral e politicamente conservadores. O filme Repo Man de Alex Cox (1984) é de uma geração depois disto, e tem um perfil interessante. É um desses filmes rebeldes e roqueiros que a toda hora escapam por entre as frestas da indústria.  Em parte mostra o que significa ser punk: a briga surda e não-violenta entre o rapaz Emilio Estevez e seus pais é uma briga perfeitamente normal. Ou seria, se os pais não estivessem fumando baseados e não tivessem investido todas as suas economias num pastor evangélico.

O personagem Otto começa a trabalhar como “Repo(ssession) Man”, o cara a quem cabe tomar de volta os automóveis que foram comprados e não foram pagos. O filme, mais do que ser uma análise do meio social e cultural dos “repo men”, parece um filme financiado e co-roteirizado por repomen do mundo real. Tem a trilha sonora de alta octanagem e mistura de cenas de brigas, de perseguição, cenas que o diretor traz prontas na cabeça e depois dá um jeito de encaixar na história.

Meu personagem favorito é um maluco que vive elaborando teorias da conspiração e imagina que os discos voadores são máquinas do tempo, e que as pessoas desaparecidas nas grandes cidades foram na verdade enviadas para o Passado. Para quê? Não se sabe, porque tudo é muito mais complexo e cheio de surpresas do que a gente imagina. Nas franjas da cultura roqueira paira sempre esse universo cinza e pegajoso das fantasias cósmicas ou de espionagem megacorporativa, a noção (que a paranóia das drogas certamente deixa mais vívida) de que o mundo é manipulado por forças malignas que desconhecemos.

O filme tem uma cena em que um cara entra num carro e faz ligação direta dos fios da ignição. Isso durou uns trinta segundos, mostrando todas as tentativas de fazer o motor pegar, e foi uma eternidade, porque em filme americano o normal é um corte rápido e o carro já vai de estrada afora, satisfeitão. O plano insuportável deste filme amadorístico me abriu os olhos para a possível cronometragem de um roubo-de-carro real.

Há uma subtrama alienígena sobre alguma coisa radioativamente mortal na mala de um carro, o que acaba se tornando um “deus ex machina”, um raio mortal lançado por Zeus. Quando é preciso matar um personagem, basta fazê-lo abrir a mala desse carro. É um momento Arquivo X na história, mas feito num clima meio de humor, meio de filme-B-de-alien, que é o que Repo Man acaba sendo mesmo. Filme sem compromisso com bilheteria, a não ser o propósito de se pagar e poder fazer outro. Como aliás deveriam ser todos os filmes.




quarta-feira, 24 de abril de 2013

3168) Resolvi gostar (24.4.2013)





(by Jon Kuta)



O bisturi me descascou como uma cebola, desdobrou origamis das minhas vísceras, foi deixando listras de fogo-napalm por onde passava, e enquanto isso as algemas laceravam meus pulsos e eu cravava os dentes no trapo cheirando a querosene que me mandaram morder num acesso de piedade. A dor quando surge colapsa todo o resto do Real. Somente ela existe no Universo, somente os seus dois polos: o corpo que a sente e ela que ferve nesse corpo, como o bilhão de explosões nucleares que o Sol ruge por minuto. 

Resolvi gostar. Resolvi me entregar por completo àquela dor. Desisti de lutar contra ela, de pedir que parasse, resolvi aceitar que ela fazia parte de mim ou eu que fazia parte dela, e assim deixar que a dor crescesse a ponto de dissolver o conflito.

Fui manipulado como cabra-cega, seduzido por hipóteses e promessas, enleado por sorrisos, tapinhas nas costas e adiantamentos bancários, e todo dia pisava numa armadilha, caía numa arapuca, despencava num alçapão. Assinei folhas em branco confiando na descrição do que em breve seria impresso ali. Aceitei sem checar. Acreditei sem conferir. Fiz de conta que não vi o que se escancarou na minha frente, fiz de conta que não entendi o fato consumado que rolava de boca em boca. Fui bobo da corte, peão no roque alheio, inocente útil... 

Resolvi gostar. Virou um teste de até-onde-isso-vai. Virou uma experiência de laboratório onde o rato resolveu assumir o controle porque entendeu, enfim, que era uma experiência. Resolvi entender. Me interessei por tudo, como quem pela primeira vez entende um jogo de críquete, e transformei meu opróbrio em espetáculo.

Me depuseram, me manietaram, me sacanearam, me expuseram ao ridículo, me traíram, me bateram a carteira, me rasgaram os documentos, me enxovalharam a reputação em todos os órgãos de imprensa em quarenta idiomas, arrastaram minha estátua puxada por burros e alvejada por ovos podres. 

Meus partidários, meus cupinchas e meus apaniguados foram os primeiros a esfregar a sola suja do pé na minha cara. As mulheres me enxotaram rua afora com vassouras. As crianças surgiram excitadas à janela e gritaram à minha passagem seu primeiro palavrão. Aguentei as gargalhadas impiedosas dos bem-falantes, a mangação dos mendigos, a maledicência dos despeitados, o chute-no-traseiro com o sapato feroz dos ressentidos. 

Resolvi gostar. Resolvi permitir que aquele enxovalhamento fosse uma lavagem, uma purgação, um massacre de mim mesmo, uma sessão de bate-tapete que improvavelmente me restituísse a mim mais cru, mais mineral, mais resíduo de essência indestrutível. Àquela altura valia tudo. E eu só gosto quando chega nesse ponto.









terça-feira, 23 de abril de 2013

3167) Monteiro Lobato e Mark Twain (23.4.2013)





O que há em comum entre esses dois escritores, além do fato de que estão entre os primeiros que li, e os mais queridos? Uma porção de coisas.  Ambos foram escritores com uma obra para adultos séria e relevante, mas acabaram se tornando famosos como autores para jovens, em função de seus livros de maior sucesso. A imensa maioria dos que os conhecem leram apenas essas obras infanto-juvenis e desconhecem seus livros mais complexos.

Monteiro Lobato é famoso pela sua série de romances do Sítio do Picapau Amarelo, mas só é conhecido no Brasil. Às vezes imagino o susto e o maravilhamento de meninos ingleses, japoneses, norte-americanos, quenianos, se pudessem ler boas traduções dessas obras e conhecer um mundo de surpresas inesgotáveis. Mark Twain escreveu alguns livros com as aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, dois garotos rurais num ambiente mais realista do que o de Lobato, mas igualmente divertido. Aliás, Lobato fez adaptações de livros de Twain para a Editora Brasiliense, e talvez tenha sido através dele que muitos brasileiros conheceram o norte-americano.

Ambos tiveram flertes com a ficção científica. Lobato com o histórico O Presidente Negro (1926) e alguns volumes infantis (A Chave do Tamanho, Viagem ao Céu, A Reforma da Natureza); Twain com Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889), uma história clássica de viagem no tempo, mesmo que sem explicação técnica de como isso aconteceu, e numerosos contos já reunidos em coletâneas. Ambos tiveram interesse pelo lado prático da literatura: Lobato criando a Companhia Editora Nacional e outros empreendimentos semelhantes, e Twain investindo todo seu dinheiro (e dos amigos) numa máquina impressora que pretendia concorrer com o linotipo. (Ambos deram com os burros nágua e perderam fortunas.)

E ambos foram acusados de racismo por terem escrito romances em que adultos negros apareciam sendo maltratados ou ridicularizados por crianças brancas: a Tia Nastácia de Lobato e o escravo Jim de As aventuras de Huck. Uma acusação injusta por ignorar a pressão da mentalidade do tempo em que viveram. Talvez o mesmo venha a acontecer conosco, que os acusamos. Se o Brasil virar um dia uma democracia racial sem Casa Grande nem Senzala, nossos descendentes nos considerarão racistas e escravocratas pelo fato de que pagávamos pessoas negras para cozinharem nossa comida, lavarem nossa roupa e cuidarem dos nossos bebês. Achamos tudo isto uma coisa normal, faz parte do mecanismo social em que crescemos, e é difícil para nós imaginar que os brasileiros do futuro talvez olhem para nós com repulsa e mandem tirar nossos livros das bibliotecas eletrônicas de suas escolas.



sábado, 20 de abril de 2013

3166) Os Davis e os Golias (21.4.2013)




(Clayton Christensen)


Li mais duas matérias, num curto intervalo, dizendo sempre a mesma coisa. As megaempresas estão entrando num atoleiro preparado por elas mesmas, por seus métodos “certinhos” de buscar maxieficiência; e no espaço de seu desmoronamento surgem empresas pequenas, rápidas, que (ao contrário delas) correm riscos, fazem apostas, e se contentam com lucros menores mas certos.

A Wired de março traz uma entrevista (http://bit.ly/X3bbHe) com Clayton Christensen, autor de The Innovator’s Dilemma (1997) e The Innovator’s Solution (2003), onde argumenta que as grandes empresas preocupam-se demais com “fazer tudo de acordo com o manual” e isto lhe tira a flexibilidade de intuir o futuro e adaptar-se a ele. São dependentes do que já têm, e do que já sabem e podem fazer. E são vulneráveis ao que ele chama “inovações disruptivas” – invenções ou processos criados por companhias menores, menos lucrativas, mais ágeis, mais aflitas, precisando arriscar tudo numa cartada. Quando a cartada dá certo, a pequena companhia se agiganta e as gigantes desmoronam. Christensen apontou isso no mercado de disk-drives, de injeção eletrônica de carros, de cerâmica.

Christensen foi chamado pelo CEO da Intel, Andy Grove, e disse-lhe: “Não tenho uma opinião sobre a Intel, mas minha teoria tem”. Alertado, Grove comprou duas companhias pequenas (Cyrix e AMD) e produziu o processador Celeron. Christensen vê algumas área onde, agora, os Golias estão sendo engolidos pelos Davis: jornalismo, mercado editorial, tudo (segundo ele) “que depende de publicidade”, e a educação de alto nível. Jornalismo e educação estão começando a enfrentar concorrência via Web. A concorrência é heterogênea, difusa, mas de vez em quando surge um foco de alta qualidade. Ele cita um curso online de contabilidade da Brigham Young University que ajudou a fechar o curso de contabilidade de Harvard.

Algo parecido diz Bill Harris em seu blog Dubious Quality (http://bit.ly/XHZcBL), comparando o mercado de videogames com o de petróleo. As grandes companhias cresceram tanto que cada passo que dão custa fortunas. Só podem apostar no que é 100% certo (o que é raro aparecer). Resolvem comprar pequenas companhias de filão lucrativo, mas o leilão com os concorrentes é pesado. O lucro delas se torna um prejuízo: o preço não compensa.

Quanto mais exemplos chegarem mais nítida irá ficando essa tendência das atividades de alta previsibilidade, que já dominaram o mundo, serem suplantadas pela de alta incerteza. As disciplinas da certeza, da comprovação absoluta, dos vários níveis de redundância retroalimentada, darão lugar às que abraçam o acaso, o risco, o improviso e a imperfeição.



3165) O Samurai sem Sono (20.4.2013)



(by Gabriel Tavares)


Sua lâmina era capaz de passar pela asa de um beija-flor em pleno voo sem tocá-la.  Seus olhos eram capazes de dizer quantos grãos havia num punhado de sal. A chuva o fustigava sem enfraquecê-lo, o sol do deserto colidia com ele e recuava. Ao longo das Sete Ilhas, e das encostas do Monte Kuju até a baía de Wakaba, até as crianças reconheciam ao longe seu vulto magro e hirsuto, mas eram poucos os que sabiam o som da sua voz. Caminhava devagar como alguém que reduz o passo ao se aproximar do lugar para onde se dirige. Dizia-se dele que seus olhos brilhavam no escuro; que era capaz de passar um ano sem comer; que comandava as mulheres e os animais com o pensamento.

Uma crônica da Casa de Kenji relata um episódio provavelmente veraz de seu passado: que teria sido o causador (por arrogância e um erro de cálculo) da morte de alguém de sua família. Desde esse dia, jurou viver como um misto de mendigo e monge. Lutou por seis anos para o clã dos Hashikaya e aceitava como pagamento apenas um pão por dia. Data dessa época a lenda de que jamais dormia.  Pode ser um exagero causado pelo seu hábito de a qualquer hora do dia ou da noite estar em campo aberto, de espada em punho, treinando combinações complexas de aparas e de estocadas, ou postado imóvel sob uma árvore, aguardando a queda de alguma folha seca para seccioná-la no ar. “Ele não dorme”, diziam os guerreiros, e os velhos murmuravam (e as mulheres e crianças repetiam): “Quem não dorme é porque não morre”.

As crônicas do período Edo registram fatos como a batalha de Kan-Chi, em que ele sozinho bloqueou um exército no meio de uma ponte por uma manhã inteira, até a chegada de reforços.  Contam como ele travou duelos pessoais, em dias sucessivos, contra oito espadachins do clã Hinoruke, abatendo-os um a um; como, sem escudo no campo de batalha, sua espada veloz rebatia as flechas disparadas contra seu corpo. Durante os combates, não rugia nem blasfemava como a maioria dos soldados; executava seus gestos com a energia vibrante de quem dança, e com o olhar meio ausente de quem confere uma conta.

Sua morte, como sua vida, está soterrada por lendas. A mais recorrente delas o mostra encurralado por cem soldados que atearam fogo à choupana onde ele se refugiara, e depois espalharam as cinzas durante seu trajeto de volta, ao longo das quinze milhas, anunciando aos camponeses a morte do Samurai Sem Sono. Surgiu daí a versão de que essas cinzas são capazes de se recompor, brotando dos rios, da relva, dos bambuzais, um torvelinho de pó de onde surge, como um raio de prata, a lâmina vingadora de injustiças e de traições, a espada mais veloz das Sete Ilhas.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

3164) TV e entrevistas (19.4.2013)





Tem coisas que só a vida ensina, e a primeira delas é a vida propriamente dita. Não temos manual de instruções para a maioria das coisas que nos acontecem. Algo que a gente rala muito para aprender, e nunca aprende, é dar entrevistas para a TV. Políticos, artistas, etc acabam aprendendo pela prática intensa, fazem isso quase todo dia. Mas o que dizer do cidadão comum a quem isso só ocorre, sei lá, uma vez por ano? Quando chega a próxima vez ele nem lembra mais o que fez na anterior.

Posso compartilhar algumas pequenas coisas que aprendi à força de fazer bobagem. Tempos atrás, quando alguém me entrevistava para um programa qualquer, eu começava expondo minhas premissas, em função da pergunta que me fôra feita, para chegar, triunfalmente, à conclusão. Em geral, isto me requeria 3 ou 4 minutos de resposta, o que em termos de televisão é uma eternidade. A consequência é que ainda durante as premissas eu era interrompido pelo repórter, que agradecia minha participação e chamava a central. Ou então fazia outra pergunta – e tudo recomeçava.

A lição que aprendi foi: quando a TV fizer uma pergunta, responda direto com a conclusão. De maneira direta, concisa, e por mais que a conclusão pareça gratuita sem ter sido preparada pelas premissas. Quanto mais inesperada ou surpreendente ela for, melhor, porque o repórter vai ficar intrigado com uma resposta tão curta e direta, e vai perguntar: “Por quê”, ou “Como assim?” – e aí vai lhe dar todo o tempo necessário para você apresentar suas premissas.

Do mesmo jeito, se pedirem para você tocar uma música, ataque direto no primeiro verso. Não invente de tocar a introdução instrumental, se não corre o risco de ver os créditos do programa subirem na tela antes mesmo de você poder cantar “Ouviram do Ipiranga as margens plááácidas...” ou seja lá qual for o verso inicial da sua música.

A TV só tem tempo para pílulas, comprimidos, conclusões bem sintéticas com começo e fim (de preferência sem “meio”). Responder perguntas da TV é uma arte que eu não domino até hoje, e olha que já dei centenas de entrevistas, desde as de 30 segundos até as de um programa inteiro. O raciocínio mais curto de que sou capaz é do tamanho de um destes artigos, o que me inviabiliza para a filosofia eletrônica. Na TV, a gente tem que ir direto à parte principal. Nada de ordem cronológica dos fatos, por exemplo. Craques do futebol brasileiro? Vá direto a Neymar. Se der tempo, lembre Pelé e Garrincha.  Se pedirem mais, aí sim, fique livre para ir de Leônidas e Zizinho até Zico e Ronaldo.

Fale do aqui e agora. TV é como Twitter: depois de um certo ponto, nada do que você disser sobreviverá à edição.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

3163) 32 razões (18.4.2013)





(by Lauren Simonutti)



Porque nem sempre o que é planejado acontece conforme o plano, pois planejar é uma atividade autônoma que se desprega da realidade à medida que avança. 

Porque foi cientificamente provado que existe uma relação entre o zumbir das abelhas e o abrir das corolas. 

Porque qualquer teoria pode ser filosoficamente provada desde que inclua termos como “a menos que” ou “quase sempre”. 

Porque esqueci.

Porque o arquivo que continha o texto foi dado como “corrompido” e eu tive que fazer outro usando o mesmo título. 

Porque é algo assim, tipo, feijoada vegetariana, ou cerveja sem álcool, ou café descafeinado. 

Porque toda cidade é uma cicatriz na natureza. 

Porque cada um ficou esperando que o outro fizesse e quando se tocaram acabou sendo feito por um terceiro. 

Porque tem gente que escolhe o cavalinho onde vai pular antes mesmo de ver o carrossel dar uma volta inteira. 

Porque tinha muita gente esperando e achei melhor começar logo.

Porque choveu de novo. 

Porque pensei que ia ser às 4 da tarde, deixa que era às 14 horas. 

Porque apareceu uma tartaruga parada na porta do meu quarto e estou há três dias com medo de tropeçar nela. 

Porque faltou água na barbearia. 

Porque disseram que tem um míssil pronto para cair lá no momento em que eu aparecer. 

Porque só fiquei sabendo  quando já era possível dizer que só fiquei sabendo quando não dava mais tempo.  

Porque ninguém nunca parou para pensar sobre a quantidade de acidentes mortais de que a gente escapa a cada minuto.

Porque eu espero tanto pelos outros, por que alguém não pode esperar por mim? 

Porque joguei dois dados e deu 13. 

Porque é mais fácil ressuscitar um morto do que recompor um vidro quebrado. 

Porque os interesses do país têm que prevalecer sobre os nossos, principalmente quando vêm ao encontro dos nossos interesses. 

Porque é melhor o cansaço da missão cumprida do que o nervosismo do tomara-que-alguém-resolva. 

Porque ninguém precisa ficar sabendo.

Porque não importa a idéia que você esteja defendendo, sempre vai haver um trecho da Bíblia que parece apoiá-la. 

Porque eu não nasci pra cortar jaca nem pra descascar abacaxi. 

Porque se eu for me preocupar com isso a cerveja esquenta e o café esfria.

Porque os únicos números verdadeiros, inteiriços, são os números primos; os demais são pecinhas de Lego encaixadas. 

Porque as surpresas acontecem quando menos se espera. 

Porque passei do ponto e o ônibus não parou. 

Porque as estatísticas indicavam outro resultado, e eu mais uma vez acreditei. 

Porque não existe "Guerra Santa", visto que toda guerra, mesmo para combater o Mal, é uma aliança com ele. 

Porque chega de dizer “chega” quando a gente sabe muito bem que vai ter que suportar muito mais. 








quarta-feira, 17 de abril de 2013

3162) Livros clandestinos (17.4.2013)




Meu nome é Sonntag, e sou bombeiro. Meu pai o foi também, e queimou muitos livros. Quando começou a salvá-los às escondidas, foi descoberto e morto pelas forças de segurança. 

Cresci ouvindo este exemplo ameaçador. Tornei-me bombeiro para conhecer essas obras proibidas, mesmo correndo o risco de ser executado. Enganava-me. Hoje em dia o Sistema balança, racha-se em fendas; a corrupção impera. Encontram-se livros à venda nos mercados negros de armas, de próteses, de venenos. 

Minhas leituras fervorosas e às escondidas são alimentadas por essa rede escusa de delinquentes, que fervilha nas favelas, nas ruínas ocupadas, nos casebres de beira-rio. Não se consegue saber de onde extraem esses tesouros.

Há boatos sobre bibliotecas soterradas, mas a verdade é que livros já não são impressos há mais de dois séculos. O papel é descartável, perecível. Cada exemplar merece ser preservado, porque tudo que está impresso é precioso. O que foi confiado ao papel constitui o esqueleto, a estrutura da existência humana; os pixels coloridos da TV são mera distração ou adorno. 

Daí que cada folha impressa valha uma pequena fortuna: trechos de romances dos quais não sabemos título nem autoria, mas que por isso mesmo tornam-se mais cheios de mistério e de valor. Não direi que entendo tudo que leio, mas nesses momentos sinto-me compartilhando um ritual místico de transcendência, ainda que numa língua que me é desconhecida.

Muito ouvi falar em Shakespeare; para mim, são onze páginas arrancadas não sei de onde e costuradas umas às outras, pelas quais paguei uma pequena fortuna, no meu tempo de estudante. 

Tornei-me bombeiro e aumentei meu capital. Em menos de dois meses na corporação reuni exemplares completos de obras como “Meu Nome é uma Bala”, “Férias de Amor”, “Apólogos Edificantes”, “As Libertinas”, “Anais da Câmara de Vereadores”. Tornei-me capitão, e entrei para um grupo de jovens oficiais progressistas que lutam discretamente pelo fim do banimento.

Visados pelo Governo, temos que dobrar nossas precauções para que não encontrem nossos tesouros. Compro tudo que me aparece pela frente. Somente nesta semana um traficante vendeu-me vinte páginas de um livro do célebre Nabokov, a história marítima da caça a uma baleia; outro, um conto de Baudelaire intitulado “O poço e o pêndulo”; de um terceiro adquiri sonetos de Homero. 

Nomes que evocam memórias de um tempo mítico em que a cultura era acessível a todos. Tesouros que guardo num cofre por trás de uma parede secreta, feliz em saber que por mais que as ditaduras massacrem a cultura e o saber não há como destruir as grandes obras do pensamento humano.





segunda-feira, 15 de abril de 2013

3161) Executivos zumbis (16.4.2013)





Um título assim é muito sugestivo para uma comédia de terror, mas a história por trás dele, além de real, é muito pouco cômica. “Zombie Executives” é o termo que está sendo adotado nos EUA para designar CEOs, diretores, etc. de empresas que, mesmo quando a empresa vai mal, não podem ser demitidos.

Numa empresa que tem acionistas, estes votam periodicamente para os cargos de direção e, se o desempenho dos atuais diretores é considerado insatisfatório, eles são substituídos. Afinal, é o dinheiro dos acionistas que eles estão administrando. Ou seja: as empresas funcionam mais ou menos como as repúblicas democráticas dizem funcionar. Votamos em prefeitos, governadores, presidentes, etc., e quando achamos que uma determinada equipe não está cuidando bem das coisas, votamos em seus adversários.

Mas no mundo corporativo norte-americano o bicho está pegando. Numa matéria no “NY Times” (http://nyti.ms/1102n32) James B. Stewart diz conhecer pelo menos 41 casos em que os diretores perderam direito ao cargo por ter recebido menos de 50% dos votos de confiança dos acionistas, mas que mesmo, assim continuam a exercê-los, baseados em firulas legais. Uma delas é o uso do chamado “sistema de pluralidade”, em que os diretores concorrem sem oposição e basta terem um voto para serem eleitos. Em outros casos, como na Iris International (empresa da área médica, na Califórnia) os acionistas rejeitaram todos os 9 diretores numa votação em maio de 2011. Os diretores renunciaram coletivamente aos seus cargos e ao mesmo tempo rejeitaram essa renúncia; e continuaram à frente da empresa.

Stewart dá nomes a muitas delas: Loral Space & Communications, Mentor Graphics, Boston Beer Company, Vornado Realty Trust, Chesapeake Energy, Oklahoma State University, Union Pacific… Em alguns casos os CEOs tiveram 70% de rejeição, mas os acionistas – teoricamente os donos da empresa – não conseguem mandá-los embora.

Filmes comentados aqui (Trabalho Interno, Margin Call), etc., mostram a ilimitada arrogância, ambição e desonestidade com que muitos indivíduos em cargos desse tipo afundaram a economia dos EUA, e por tabela a do mundo, no abismo em que estamos atualmente. (Acha que a crise passou, caro leitor? Pergunte aos seus netos daqui a uns tempos.) Quando alguém chega ao Poder, a primeira coisa que faz é mexer em estatutos, regimentos, etc. preparando uma brecha para se perpetuar legalmente no cargo. Os norte-americanos estão cada vez mais reféns de uma geração de Zumbis de Terno Armani, que sabem que serão a última geração de bilionários do planeta, e que por isso mesmo pretende fazer a banda tocar até este Titanic desaparecer no plâncton.



domingo, 14 de abril de 2013

3160) A ética de Bombaim (14.4.2013)




Estou lendo aos poucos, sem pressa de terminar, o enorme Bombaim: Cidade Máxima de Suketu Mehta (Companhia das Letras, 2011, 583 pags.). Você acha que o Brasil tem problemas, caro leitor? Não direi que não tem, mas peço que imagine os problemas da Índia, que em alguns aspectos parece muito com nosso país, só que tem 1,2 bilhão de pessoas amontoadas num território com menos da metade do nosso. 

Suketu Mehta foi criado em Bombaim, morou em Nova York, e voltou para sua cidade natal, agora chamada de Mumbai, para escrever sobre a Bombaim que tinha conhecido. O livro é uma reportagem panorâmica sobre favelas, terroristas, políticos, travestis; sobre o trânsito, a moradia, o crime, a arte, o transporte. Bombaim, com 20 milhões de habitantes, tem uma das maiores densidades populacionais do mundo.

Mehta voltou a sua cidade e se assustou com o que lhe acontecera em apenas 21 anos. As filas são gigantescas e estão por toda parte. Ninguém respeita o espaço alheio, o direito alheio. Para conseguir o serviço mais banal ou o direito mais elementar é preciso ser amigo de alguém, ou subornar um funcionário. Diz ele: 

“Um homem que ganhou dinheiro de modo desonesto é mais respeitado do que um que ganhou dinheiro trabalhando, porque a ética de Bombaim é a da ascensão rápida e a fraude é um atalho. Uma fraude demonstra bom senso comercial e agilidade mental. Qualquer um é capaz de trabalhar duro e ganhar dinheiro. O que há de admirável nisso? Mas uma fraude bem executada, isso, sim, é uma beleza”.

Nos EUA, Mehta absorveu o estilo norte-americano, que oscila entre o sossegadamente-pacato e o politicamente-correto. Ao voltar para sua cidade, sentiu-se (e foi tratado) como um estrangeiro. 

“Brigamos para conseguir descontos que não têm valor algum para nós: dez rupias são apenas 40 cents. Se perdermos 40 cents em Nova York, jamais perceberemos; aqui é uma questão de princípio. Isso porque, quando somos roubados em dez rupias, os outros tiram suas conclusões: não somos daqui, não somos indianos, por isso merecemos ser roubados, pagar mais do que eles. Portanto, levantamos a voz e exigimos que nos cobrem o preço correto, o que está no taxímetro, pois não agir assim equivale a aceitar a condição de estrangeiros. Somos indianos e vamos pagar preços indianos!”.

Toda sociedade dividida é assim; o que dizer da Índia, suas castas, suas centenas de etnias e/ou religiões? O pesadelo de abundância e de miséria existente na Índia parece um Brasil elevado ao quadrado. A Bombaim/Mumbai deste livro dá arrepios, ao pensarmos que estamos lendo a história de nossas metrópoles dentro de mais uma década.