sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

3086) "O Reino de Kiato" (18.1.2013)





(capa da 1a. edição)



Entre os romances utópicos que a literatura brasileira produziu no começo do século 20, O Reino de Kiato (No país da verdade) de Rodolfo Teófilo (1853-18921932), publicado em 1922, não traz nenhuma novidade ao gênero (repete a fórmula com zelo de principiante e deslumbramento de recém-chegado), mas pode suscitar boas discussões sobre que tipo de utopia os nossos escritores enxergavam para o país. 

Teófilo foi um sanitarista que realizou em Fortaleza campanhas de vacinação contra a varíola, durante uma das mais mortais epidemias dessa doença, a partir de 1900. 

Seus romances regionalistas (que não li) parecem ter adotado a veia naturalista de descrição minuciosa de fatos desagradáveis (a doença, etc.). Em Kiato, ele vai na direção contrária. 

Seu protagonista é o cientista norte-americano John King Paterson, que mais uma vez confirma a falta de jeito dos escritores brasileiros para criar nomes em inglês, os quais nunca soam plausíveis. 

Ao viajar para a Europa a fim de divulgar um remédio que inventara para curar as neuroses, Paterson vai aportar acidentalmente numa ilha, o Reino de Kiato, onde encontra um país que resolveu todos os seus problemas, principalmente os três que Teófilo considera “fatores da degeneração do gênero humano”: o álcool, a sífilis e o tabaco.

O Brasil daquela virada de século devia mesmo ser um país insalubre, porque esses romances utópicos insistem sem parar na importância da limpeza, da higiene, da ausência de vícios. Insistem também na eugenia, no que eles chamam “o aprimoramento físico e mental da raça”. 

Os habitantes de Kiato têm mais de dois metros de altura, trabalham com alegria nas tarefas da roça, e vivem num mundo absolutamente organizado, onde as mulheres se dedicam somente às tarefas do lar, os impostos são pagos com alegria nas repartições do governo, a população obedece feliz ao toque de recolher às dez horas da noite.

É típico de certas utopias começarem, lá pelo meio do livro, a parecer distopias. 

A ânsia civilizatória de Rodolfo Teófilo o faz imaginar uma nação feliz que mais parece um pesadelo, um país onde não existe polícia porque todos os cidadãos obedecem alegremente a tudo que o Rei Pantaleão III determina. 

Por ingenuidade sociológica, os autores que imaginam sociedades perfeitas sempre criam projetos totalitários, eugênicos, higienistas e repressores. Durante o tempo que vive em Kiato, Paterson não conversa com nenhum habitante local, apenas com seu hoteleiro, William Robert, inglês como ele. É como se aqueles cidadãos felizes fossem robôs inacessíveis, ou a Utopia não passasse de um museu holográfico com o qual não fosse possível interagir.








quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

3085) O scroll e o códice (17.1.2013)




“Mestre Além tinha setenta anos mas sabia ler desde os nove, quando começou a ajudar o padrasto a conferir as entradas e saídas em sua modesta tenda, da qual dependia o pão e o futuro de cada pessoa naquela casa. 

"Das faturas e recibos passou às Escrituras Sagradas e destas à literatura. Descobriu que ler era uma maneira rápida de acumular conhecimentos e depois, numa discussão, soterrar com eles a maioria dos adversários. Não era preciso que os conhecimentos tivessem alguma importância. O diálogo humano não era vencido pelo significado das palavras, mas pelo poder encantatório de uma voz, suas cadências e ressonâncias, seus longos floreios de frases dando uma volta sobre si mesmas e laçando um nó perfeito.

“Um livro era um rio, era um fluxo, era uma fita de papel gravado que daria a volta à noite em oitenta dias. Um scroll: dois rolos giratórios, um largando, o outro colhendo, e no relâmpago de cada instante essa fita ia sendo mostrada aos olhos e depois levada para sempre. Um texto era uma linha, um cordão, um cordel, um fio de letras sem fim.  Do alfa ao ômega sem uma sutura sequer.

“E então sucedeu o inesperado. 

"Começaram-se a fazer uns livros em formas de caixa, retangulares, e lá dentro uma aberração, um livro assassinamente fatiado. Como uma pilha de retalhos que um felino raivoso rasgou. 

"Ele segurava aquelas contrafações, erguia a tampa de madeira-com-couro-ou-com-veludo e era instruído a tomar nas pontas dos dedos um canto geométrico qualquer e erguê-lo, com um movimento sempre numa mesma direção. No início esse cacos, todos parecidos, revelavam-se como que empilhados com um mínimo de senso, pois, se o que se lia em algum deles se interrompia, por uma abençoada fortuna recomeçava milagrosamente no fragmento imediatamente abaixo, e em alguns casos no verso do próprio quadrado já lido. 

"Isso lhe causou no início um pouco de medo. O livro não era mais algo contínuo que fluía como uma onda, parecia-se mais a uma justaposição de partículas, ou de padrões estáveis de energia.

“Alguns desses livros saltavam raivosos e fechavam-se sozinhos quando eram largados; outros deixavam-se abrir mansamente, e relaxavam abertos sobre a mesa, sem exigir nenhum esforço adicional.  

"Era estranho ver uma história escrita e perceber que essa história escrita não dependia de estar fluindo, se desenrolando, para acontecer. Acontecia; mesmo retalhada em quadros, em datilogramas, e mesmo que o mundo ondulado e íntegro por onde ela antes escorria já não existisse mais, aqueles recortes quadrados diziam a mesma coisa, e faziam dançar e ondular a fita luminosa de memórias que brotava num murmúrio em Mestre Além.”





quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

3084) Os monstros de Augusto (16.1.2013)






Numa palestra recente na Paraíba, num prolongamento das comemorações do centenário do Eu de Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna comentou a obra e o estilo do poeta. Lembrou que o professor de escola pública eleito como “O Paraibano do Século” morreu com apenas 30 anos, e que foi esnobado em vida por muita gente importante, inclusive Olavo Bilac, que ao ouvir falar de sua morte e ler um dos seus sonetos teria proferido a frase fatal: “Não se perdeu grande coisa”. Observou Ariano que desde então a fama de Bilac só fez cair e a de Augusto só fez crescer. Parece até que o urubu que pousara na sorte do defunto se transferiu o poeta do “Caçador de Esmeraldas”.

Ariano fez uma comparação muito perceptiva entre Augusto dos Anjos e Garcia Lorca, talvez um dos últimos poetas com quem alguém compararia Augusto. Lorca era de um vitalismo, uma exuberância, uma alegria de viver, uma sensualidade e uma extroversão que nada têm a ver com o poema do tamarindo.  Mas Ariano observou que ambos são poetas muito mais da imagem do que do conceito. Embora a poesia de Augusto abra muito espaço para o conceito (as reflexões científicas, metafísicas, etc.), ele é tão visual quanto Lorca. Igualmente hábil na conjuração de imagens inesperadas, vívidas, desconcertantes e inesquecíveis. Ariano se referiu ao famoso verso: “Somente a ingratidão, esta pantera, foi tua companheira inseparável...” e disse brincando que plagiou essa pantera de Augusto a vida inteira.

Ele citou também a quadra famosa de “Queixas Noturnas”: “Quem foi que viu a minha Dor chorando? / Saio. Minh’alma sai agoniada. / Andam monstros sombrios pela estrada / e pela estrada, entre estes monstros, ando!”. Ariano usou este verso num dos sonetos (“A Estrada”) do seu ciclo de “iluminogravuras”. Estes versos me lembram um poema dramático de Guerra Junqueiro em que um peregrino caminha pelo mundo rodeado de monstros. Cada vez que ele reza, os monstros tornam-se mais diáfanos, menos materiais, e cada vez que sua fé fraqueja os monstros se revigoram. (Não encontrei este texto na Internet – vou ter que procurar numa biblioteca de verdade.)

O verso de Augusto me sugere tanto o poema de Junqueiro quanto alguma HQ desenhada por H. R. Giger, ou um quadro de Dali. Este é o poder do poema “imagético”: evocar uma imagem sem descrevê-la. Assinalar a presença do monstro, para que o leitor caminhe entre os monstros que ele terá que evocar do seu repertório de referências. Os monstros sombrios existem na memória e na imaginação de cada um, e mesmo que os monstros que eu vejo sejam desconhecidos de Augusto, foram evocados por ele, graças à faísca de sua frase.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

3083) Que calor é esse (15.1.2013)




Meu amigo! Que calor é esse. A esquadria de alumínio derreteu e colou, ainda bem que a janela estava aberta. O calor tá tão grande que eu deixei uma xícara de café em cima da mesa e meia hora depois ela tinha esquentado. A água fria do chuveiro vem mais do que morna. E quando a gente sai e se enxuga, quando vê já está enxugando o suor. Se ligar o ar condicionado, é melhor vedar a porta com fita crepe. Na rua, nem é bom falar; a gente sua no sol e seca na sombra, ou o contrário, e perde meio litro dágua a cada cem metros. Vi gente com bolsa de soro fisiológico presa nas costas tipo mochila. Sentei na janela do ônibus e quando desci tinha bronzeado o lado esquerdo do rosto. Nos relógios digitais da calçada a temperatura aumenta mais depressa do que a minutagem. Meu amigo! Isso é calor ou o test-drive do fim do mundo? O único gole gelado da cerveja é o primeiro. Tem gente procurando gordo na calçada pra poder andar na sombra. Saí ontem de tarde e precisei entrar em dezessete Bancos pra dar uma aliviada. Recuperei palavras em desuso: canícula, soalheira, rechinar, ignívomo. O pior é que tem hora que não é só o sol em si, é que parece que alguém só de sacanagem cobriu a cidade com uma redoma. Não sopra uma brisa, não corre um ventinho sequer, o mormaço nos envolve como um casulo invisível e pegajoso. É preciso fazer força pra respirar; o ar se faz de difícil, só entra à custa de muito assédio, muita coerção, quando não de ameaça pura e simples. O ventilador está ligado mas nem com a mão à frente dele a gente sente alguma coisa. O ar quente não sobe mais, fica depositado no chão, sem forças. Você anda na rua forçando a passagem através desse aluvião de moléculas exaustas. Meu amigo! Pense num contêiner de metal largado no Saara. E o Sol? Perderam o controle sobre esse cidadão, ou então a órbita da Terra está se aproximando. O danado queima com força, parece ter intenções malévolas, parece ser algo de ordem pessoal. Sem falar que o dia diminuiu, mal escurece no oeste já começa a clarear do outro lado, e recomeça o tempo de fritura e ebulição. Ontem fiz um pedido no disk-japa; quando chegou, o sashimi estava assado. Meu amigo! Aqui em casa os quadros estão suando tinta. Em cada lugar que eu paro deixo uma poça de mim. Essa noite sonhei que era Joana d’Arc, pode uma coisa dessa? Entrei na sala e tinha uma planta se abanando com as próprias folhas. É engano meu ou as paredes estão se envergando? Me distraí parado e o sapato grudou no piso, só saí porque me descalcei. Mas tudo bem. Fui na janela agora e lá vem um paredão de nuvens de chumbo, crescendo por cima dos prédios. Acho que agora as coisas vão melhorar.


domingo, 13 de janeiro de 2013

3082) Ruínas (13.1.2013)




(Ian Ference)


Ruínas urbanas mostram como o metabolismo da civilização parece com o do corpo humano. Morte e nascimento o tempo inteiro. Não apenas a destruição violenta das guerras, terremotos, catástrofes; mas a do abandono político, do descarte imobiliário, da obsolescência física por desmando ou falta de planejamento. Construções que perdem a função e não são demolidas, apenas deixadas de lado para que a Natureza reabsorva suas matérias primas.

Hospitais caindo aos pedaços ou indústrias tomadas pelo matagal bravio são contrapartidas concretas, visíveis, para todos os outros tipos de estagnação e desmoronamento. Grandes grupos financeiros que quebram, afundam e são canibalizados pelos Bancos maiores. Partidos políticos cujas lideranças debandam após a primeira grande crise, deixando atrás de si apenas uma legenda baldia a ser ocupada pela matilha anônima de oportunistas e aproveitadores. Sobrenomes aristocráticos cuja liquidez financeira se esvai, na lenta sangria que faz definhar uma geração após a outra; e que tentam manter-se à tona do anonimato mediante colunas sociais e matrimônios políticos. Empresas que floresceram e incharam, primeiro graças ao protecionismo, depois ao monopólio, mas cuja espinha é quebrada por uma reviravolta tecnológica e sobrevivem vendendo as partes não-vitais de sua estrutura, até se desfazerem num farelo de ações sem valor.

Por toda parte percebemos essas lentas implosões sociais; às vezes levam um século para chegar ao fim. Estruturas vazias de vida, ou vazias da energia necessária para mantê-las vivas; estádios de arquibancadas derruídas cercando um enorme atoleiro; colégios desabando sob tetos apodrecidos de chuva; fábricas habitadas somente por lagartixas e lacraus. A pressa com que a arquitetura e a engenharia põem de pé essas estruturas arrogantes é inversamente proporcional ao tempo que a Natureza dedica a varrê-las do mapa com o vento suave da passagem dos anos. As ruínas célebres do mundo (pirâmides, coliseu) funcionam como um relógio em contagem regressiva, rumando para o oblívio mas parecendo nos dizer que seu terrível recado ainda não foi escutado por todos.

Um prédio em decomposição é a derrota da aparência para a funcionalidade. Como se aquela estrutura fosse uma obra de arte cujo impulso inicial foi dado pela Razão. Ela o criou com sua auto-suficiência e seu entusiasmo às cegas, mas após esse gozo precoce retirou-se, deixando o corpo, indefeso, entregue às forças lentas do Inconsciente, da Natureza e do Acaso.  Uma ruína é cega e julga-se invisível, mas está sempre brotando na paisagem como um dente podre no sorriso de um candidato ou “o câncer que nasce nos lábios da miss”.


sábado, 12 de janeiro de 2013

3081) O texto e o resto (12.1.2013)





Quando a Jovem Guarda tomou conta do Brasil de 1965 em diante (mais ou menos), e Roberto Carlos fazia estremecer a Tradicional Família Brasileira berrando seu slogan punk-satânico “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, a Igreja Católica começou a constatar uma enorme evasão dos jovens, que antes eram obrigados pelos pais a assistir a missa todo domingo. A missa estava agora às moscas, porque a galera só queria saber dos carangos, das garotas papo-firme, das botinhas sem meia. Deve ter havido algum serão no Vaticano, e eles tomaram uma sábia decisão: toda missa agora teria um conjunto de iê-iê-iê (o termo “banda de rock” não existia ainda) tocando as músicas do momento, para atrair os jovens de volta. Dito e feito. Os jovens afluíam à catedral para ver os conjuntos; mas assim que o conjunto parava de tocar ia todo mundo embora e o padre ficava pregando no deserto.

Me lembro disso quando vejo o mercado editorial discutindo certas vantagens do livro eletrônico, principalmente quando se fala no livro eletrônico infantil. A vantagem do livro eletrônico, por exemplo, é que além das ilustrações coloridas ele tem ilustrações animadas e sonoras. Não mostra apenas um patinho cor-de-laranja na lagoa azul: o patinho consegue nadar de um lado para o outro, a água se espalha em ondas, e apertando um botão ouve-se o “quac, quac” inconfundível. E assim por diante.

Minha questão: o uso de animações, sons, imagens em movimento nos livros infantis não iria justamente afastá-los do mais importante, o hábito de ler um texto?  Quando os padres católicos começaram a chamar os conjuntos de Jovem Guarda queriam atrair os jovens para ver a missa, mas de nada adiantou – os jovens só se interessavam pela Jovem Guarda que eles ofereciam. No caso dos livros, a infância é um momento crucial para a criança, em fase de alfabetização, descobrir o prazer de ler o texto, de sair soletrando letrinha por letrinha, formando o som das palavras e evocando através delas as idéias correspondentes. Um livro de literatura deve privilegiar o texto, não o resto.

Reconheço inclusive o importantíssimo papel das ilustrações nos próprios livros de papel: sei de livros infantis meus que venderiam muitíssimo menos se fossem apenas o texto nu, o preto no branco da folha. Mas a melhor maneira de tirar os guris da frente da TV e atraí-los para o livro não é transformando o livro numa sucursal da TV. Os textos, as palavras escritas, são o objetivo do livro. São um desafio e uma recompensa que é impossível obter de outra forma. Se não fizermos uma pessoa começar a amar o texto na infância, que chance haverá de que ela o ame no futuro?



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

3080) Alegria de pobre (11.1.2013)






Tempos atrás, durante um trabalho que fiz para TV, vi dezenas de entrevistas com estrangeiros que vivem no Brasil ou que conhecem bem nosso país.  Perguntava-se a eles por que motivo gostavam do Brasil, dos brasileiros, o que achavam que havia de especial em nossa terra.  Algumas respostas repetiam-se, com insistência.  Uma delas era que os brasileiros são geralmente alegres, “inclusive os pobres”, diziam eles com espanto.

O que faz pessoas muito pobres serem alegres? E a questão não é apenas serem pobres, é estarem mergulhados em outros problemas, resultantes ou não da pobreza: doença, violência, etc. Ainda assim, uma grande parte dessas pessoas (claro que não são todas) consegue, no meio dos problemas, rir, brincar, dizer piadas ao longo do dia, reunir-se para cantar, dançar, etc.  Visitantes que vêm de países mais ricos e mais soturnos ficam perplexos diante dessa aparente alienação. Já ouvi comentários tipo “se não passassem o domingo tocando violão e bebendo cachaça, talvez já estivessem numa situação financeira muito melhor!”. Pra vocês verem o quanto gente rica pode ser obtusa.

Acho que esses pobres descobriram uma coisa elementar: o nosso estado de espírito (alegria ou tristeza) resulta em grande parte de uma decisão nossa. É decisão nossa ficar alegre ou ficar triste. Como quem diz: “Já que estou lascado, pelo menos vou ficar alegre durante algum tempo, pra desgraça não ser completa”. E ficam de fato alegres, mas não devido ao violão e à cachaça. Ficam porque escolheram. Por outro lado, um sujeito mais “bem de vida”, com casa própria, com poupança, bem de saúde, etc., pode perder o emprego e ficar em depressão, mesmo sem problemas urgentes batendo à sua porta. A depressão é também uma decisão sua, mesmo que seja uma decisão meio inconsciente. Ele está mergulhado numa ética meio calvinista, de que “o trabalho enobrece”, de que nossa existência se define pelo trabalho que executamos. E quando o cara está sem trabalho sente-se inferiorizado, amputado, impotente. E para ele a reação moralmente correta é entristecer-se com isso. No Japão, p.ex., acontece muito.

Tanto alegria quanto tristeza podem estar embutidas em nossa cultura coletiva, podem ser consideradas reações normais numa cultura e moralmente condenáveis em outra. Num indivíduo, claro, podem ser influenciadas por fatores genéticos, pelos distúrbios da química interna de cada um. Mas em grande parte derivam do fato de que certas culturas consideram a alegria uma resposta legítima a uma situação difícil e impossível de resolver pela própria pessoa; e outras culturas louvam a tristeza como uma resposta mais honrosa, mais moralmente nobre.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

3079) Leitura e diversão (10.1.2013)




(ilustração: Valentine Rekunenko)


Qual seria o motivo sério que poderíamos opor ao da leitura por diversão, por entretenimento? Estudo, pesquisa? Aprimoramento espiritual? Elevação intelectual? Isso pode até ocorrer, mas não é em função disso que eu leio, e acho que o mesmo ocorre a muita gente. 

Quando leio autores ditos difíceis estou disposto a investir um certo esforço em busca de uma experiência mental que eu não teria de outra forma. Quando leio para me divertir, procuro um livro que não vai me exigir muito esforço e que provavelmente vai me dar uma experiência não-problemática, relaxante. 

Claro que de pessoa para pessoa essas receitas variam. Ler Guimarães Rosa (a cujo estilo estou habituado) para mim é uma diversão, mais do que ler certos autores jovens de hoje, nos quais preciso passar meia hora em cada página, porque eles usam uma organização de prosa com que não tenho familiaridade.

A literatura nos propõe uma “experiência recompensadora”. Lemos livros para viver indiretamente experiências alheias, projetadas nos personagens e situações que imaginamos a partir dos textos. Essas experiências são recompensadoras de vários modos, dando-nos acesso a uma percepção da vida humana mais intensa do que a da vida real, porque é uma experiência distanciada. 

Uma experiência maleável: podemos voltar atrás e reler um capítulo inteiro, aprofundando e enriquecendo a primeira leitura. 

Experiência virtual: o caráter não concreto da experiência nos permite vivenciar situações que não ousaríamos vivenciar na vida real, ou que, se vivenciadas, nos trariam mais ansiedade do que prazer (histórias de terror ou de violência, p. ex.). 

Experiência impermeável: com exceção dos efeitos psicológicos, nada do livro passa para a vida do leitor, nada contamina seu corpo, nada o atinge fisicamente.

O que nos diverte, afinal, lendo um criador de situações torturadas como Dostoiévski? Em casos assim, a diversão não nasce das situações em si (elas são muitas vezes penosas) mas do fato de que podemos vivenciá-las sem compromisso, sem nenhum grau de envolvimento que não dependa unicamente de nossa decisão. 

A angústia dostoievskiana é só dele, e podemos até usá-la como um recurso que nos faz retornar mais relaxados para uma vida real em que tragédias íntimas daquela dimensão raramente acontecem. 

Por outro lado, se o livro nos propõe uma “realidade projetada” que gostaríamos de experimentar sem reservas (uma história de amor feliz, uma história, engraçada, etc.), basta-nos reduzir o foco de distanciamento e mergulhar de cabeça no mundo da narrativa; esta é a experiência proposta pela ficção dita escapista ou de mera diversão.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

3078) Checkpoints (9.1.2013)





O conceito de checkpoint é típico da informática e pode ser decisivo para a trans-humanidade do futuro, quando formos capazes de transferir nossas mentes para um suporte eletrônico (“copiar meu cérebro inteiro num pen-draive”). Nos games de ação, o checkpoint é aquele ponto ao qual você retorna toda vez que morre.

Digamos que é um jogo de II Guerra Mundial. Você está oculto no mato, numa colina, vendo lá embaixo uma ponte que precisa atravessar. Na cabeça de cá da ponte há uma pequena casamata de proteção, ocupada por inimigos. Você desce a colina atirando granadas, disparando a metralhadora. Os soldados da casamata respondem ao seu fogo. Ao chegar perto, você é atingido e morre. Black-out. Quando você recomeça, está de volta ao checkpoint, que é no mato, sobre a colina.

Mas digamos que você desce atirando, mata os inimigos e se refugia dentro da casamata. Você conquistou este ponto, e ele é agora o seu checkpoint. Sua tarefa passa s ser cruzar a ponte sob fogo inimigo e chegar ao lado oposto, onde há um jipe abandonado que pode ser útil para fugir. Você corre pela ponte, atirando. Se for atingido e morrer, você já não volta para o mato, na colina; volta para a casamata, um checkpoint mais avançado. Desse modo, cada posição conquistada faz com que você não precise recomeçar o jogo do zero, e assim você vai avançando.

Quem usa computador, quando precisa dar uma mexida mais profunda, dispõe de um recurso de salvar as configurações do sistema no momento atual, antes de começar a fazer alterações. Se der uma zebra, é para esses estado de coisas que você volta, quando botar ele para funcionar de novo. O mesmo quando a gente aperta “Ctrl + B” para salvar um arquivo. Se o computador apagar de repente, está tudo salvo até aquele ponto.

Uma utilização clássica desse conceito na FC é uma série de contos de John Varley, dos quais o mais famoso é “The Phantom of Kansas” (1976), em que a memória humana é salva em bancos e transferida para um novo corpo, quando a pessoa morre. Digamos que o cara salvou sua memória em 1 de janeiro pela última vez; se ele morrer no dia 15, ao despertar está de volta ao estágio anterior, e só perde o que lhe aconteceu nestes últimos quinze dias. A solução seria salvar de minuto em minuto – o que seria impraticável. Essa diferença (memórias recentes não recuperáveis) dá origem a tramas policiais, de mistério, etc., porque o personagem é capaz de “ressuscitar” mas está com “amnésia” quanto aos dias mais recentes. Ele só lembra o que lhe aconteceu até o checkpoint, ou seja, a última vez em que salvou sua própria personalidade no Banco. É um retrato literariamente plausível de um cenário futuro.



terça-feira, 8 de janeiro de 2013

3077) "Estrela Distante" (8.1.2013)






Este romance curto de Roberto Bolaño (1996) saiu pela Companhia das Letras e depois (a edição que tenho) na coleção da Folha de S. Paulo de capa dura, vendida nas bancas. O autor explica, numa nota inicial, que é uma expansão do último capítulo de seu A Literatura Nazista na América, coletânea de contos sobre escritores imaginários, um exercício meio borgiano em que Bolaño imagina toda uma fauna de nazistas, fascistas e simpatizantes da direita em geral, produzindo poesia, romance e até mesmo ficção científica no continente americano. O autor dedicou-se a expandir a história daquele último personagem, transformado aqui em Carlos Wieder, tenente da força aérea chilena, torturador, serial killer, que se infiltra como espião em grupos de poesia de vanguarda.

Essas biografias fictícias são o espaço ideal para Bolaño desenvolver sua prosa, jornalística no que este termo tem de melhor. Descrições breves e vívidas, com mergulhos ocasionais e surpreendentes na subjetividade do narrador, que na maior parte do tempo está apenas reconstituindo e comparando suas próprias lembranças e as lembranças alheias. Como em Os Detetives Selvagens (http://bit.ly/WnNhCq), Bolaño monta o mosaico do personagem de fora para dentro; não temos acesso à consciência de Wieder, e na verdade pouquíssimas falas suas são reproduzidas. Vemos o monstro pelo lado de fora, pelos relatos de como ele cruzou na vida de numerosas pessoas. Se bem que o narrador de Bolaño ousa descrever (sob o pretexto de estar supondo, estar imaginando como as coisas aconteceram) até mesmo um dos mais arrepiantes crimes do chileno.

Wieder é um criminoso que incomoda até os fascistas. O capítulo 6 narra o episódio em que ele cai em desgraça dentro do regime Pinochet, pela sua ousadia, crueldade e morbidez desafiadora. Lembra o nazista culto do conto “Deutsches Requiem” de Borges; lembra por outro lado o personagem de Dirk Bogarde no filme O Porteiro da Noite de Liliana Cavani. Tem a serenidade dos psicopatas movidos a certeza: “dominante, seguro, os olhos como que separados do corpo, como se olhassem a partir de outro planeta”. O narrador do livro (um possível Bolaño que jamais diz o próprio nome) cita um oficial de Pinochet para quem Wieder “não fez mais do que aquilo que todos os chilenos tiveram de fazer, deveriam ter feito ou quiseram mas não puderam fazer”. Na terrível reta final, o narrador diz: “Esta é a minha última transmissão a partir do planeta dos monstros. Não mergulharei nunca mais no mar de merda da literatura. De agora em diante, escreverei meus poemas com humildade e trabalharei para não morrer de fome e não tentarei publicar nada”.