sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

3050) Décio Pignatari (7.12.2012)




(Décio Pignatari, entre Haroldo e Augusto de Campos)


A morte de Décio Pignatari (1927-2012) deixa Augusto de Campos como o último sobrevivente (após a morte também de seu irmão Haroldo) da trinca concretista paulistana que realizou aquele fenômeno chamado por um grande jornal, com involuntária propriedade, de “O Rock-and-Roll da Poesia”. O Concretismo foi um movimento literário pra ninguém botar defeito. Teve militantes denodados, adversários de peso, polêmicas explosivas, sempre emergindo à tona ao fim de cada década. Ainda hoje há quem o odeie, porque os “três poetas de Perdizes” eram polemistas capazes de demolir (ou pelo menos trincar) uma reputação literária com um artigo de jornal cheio de provas irrefutáveis, e de reduzir a pó um poema mediante um adjetivo bem encaixado. Arranjaram desafetos pela vida afora. Quando achavam que um texto era uma porcaria diziam isso sem meias palavras.

Apesar da imensa contribuição que trouxe para nossa crítica literária e para a teoria poética, o Concretismo tornou-se antipático por causa dessa atitude de “donos da verdade” que os membros da trinca adotavam de vez em quando. Como acontece com quem funda um movimento, eles parecem ter acreditado em algum instante que toda a literatura e toda a poesia do mundo tendiam a se tornar aquilo que eles estavam descobrindo. Todo sujeito que cria uma nova maneira de ver as coisas pensa que está zerando a história do pensamento. Não está.

Pignatari tem ensaios brilhantes sobre comunicação, linguagem, jornalismo, poesia, propaganda, etc.  Teve a sorte de realizar seu trabalho intelectual mais maduro durante o florescimento dos cursos universitários de Comunicação, onde sua obra foi muito adotada e estudada – nem sempre com discernimento, é claro, mas a culpa nesses casos nem sempre é do autor. Suas coletâneas de textos (Contracomunicação, Informação. Linguagem. Comunicação, Semiótica & Literatura) são utilíssimas ainda hoje. Neste último, em vários capítulos ele analisa do ponto de vista semiótico a obra de Edgar Allan Poe, mostrando as sonoridades e correspondências ocultas por trás dos nomes dos personagens e das funções estruturais de textos como “O Corvo”, “Berenice”, “A Queda da Casa de Usher”, etc.

Pignatari foi uma das grandes mentes modernistas brasileiras, “modernismo” compreendido aqui como um movimento estético típico da cultura industrial, cultura de massa, envolvendo poesia, design, artes gráficas... Um modo de ver a linguagem, e principalmente a poesia, que ajudou a arejar um ambiente literário pomposo e vazio, em que os temas só eram entendidos em seu aspecto sentimental, e a forma poética só era encarada em suas funções ornamentais e exibicionistas.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

3049) Ser comunista (6.12.2012)






Tanto esquerda quanto direita já fizeram tentativas de impor ao mundo real conceitos abstratos extraídos de um silogismo filosófico qualquer. É uma atitude que, previsivelmente, é encampada com facilidade por intelectuais jovens com muita leitura e pouca vivência nas ruas. Você desenvolve uma argumentação veemente numa lógica irretorquível. Quando vai botar em prática, leva uma rasteira da Realidade. Nada mais irritante para um filósofo do que predizer uma castástrofe e não vê-la acontecer. Ou vê-la, dependendo do caso.

O marxismo sempre teve um lado ficção científica, no aspecto teórico. Ele se apresentava como uma interpretação científica da realidade, para se distinguir do socialismo utópico ou do comunismo  primitivo dos índios. O Materialismo Científico não era muito diferente da Psico-História de Hari Seldon, na trilogia da Fundação de Asimov. Uma teoria ambiciosa, assustadoramente veraz, com duas tintas de ingenuidade messiânica e mais quinze gotas de militarismo introjetado. Perto da seriedade do marxismo, qualquer outra teoria da história humana fica parecendo inventada por Robert Sheckley ou Douglas Adams.

As pessoas mais honestas, altruístas e corajosas que já conheci estão nestes dois grupos: as pessoas religiosas e os comunistas. Dois grupos que, em muitas circunstâncias, não se veem com bons olhos. Um erro da esquerda é um revolucionarismo que desdenha a alegria e tudo submete a uma moral puritana e sombria. Karel Tchápek, o autor de “A Fábrica dos Robôs”, disse certa vez:

“Numa de suas baladas o poeta comunista Jiri Wolker diz: ‘Nas profundezas do coração de vocês, meu povo, eu posso ver o ódio’. É uma palavra horrível, mas o mais interessante é que é totalmente inadequada. Nas profundezas do coração dos pobres o que existe mesmo é uma alegria espantosa e bela. O operário no torno conta piadas e se diverte muito mais do que o dono ou o diretor da fábrica. Pedreiros de construção se divertem mais do que o mestre-de-obras ou o proprietário.  E se dentro de uma casa houver uma pessoa cantando, é muito mais provável que seja a criada do que a patroa. Esse povo a que chamam proletário tem uma inclinação natural para uma concepção de vida quase infantil de tão alegre; o pessimismo comunista e o seu ódio melancólico são injetados artificialmente neles, e através de condutos impuros. Chama-se a adoção dessa depressão desesperada ‘a educação das massas rumo ao revolucionarismo’ ou ‘a reafirmação da consciência de classe’. Os pobres, tendo tão pouco de seu, passam agora a ser privados de sua primitiva alegria de viver; este é o primeiro pagamento que fazem para chegar a um mundo melhor no futuro”.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

3048) Gibson e o futuro (5.12.2012)






Um artigo de James Turner no portal O’Reilly Radar (http://oreil.ly/MSg64z) discute a obra de William Gibson (Neuromancer principalmente) perguntando: “A FC previu o futuro?  Adivinhou, trinta anos atrás, como seria o nosso presente?” Turner observa que Gibson errou em muitos detalhes técnicos. Em alguns casos a realidade se desenvolveu de maneira oposta ao que ele imaginara em seu livro, mas ele soube captar bem o Zeitgeist, o espírito do tempo. Captou a sensação sufocante de vigilância eletrônica, da existência de uma “matrix” (embora ele evite este termo) e de uma guerra feroz travada nas trincheiras digitais. Gibson acertou só um pouco na evolução da informática, diz Turner, e acertou muito mais no que previu da Distopia em nosso futuro.

Diz ele: “O mais interessante é que Gibson errou por completo na questão de onde estariam sendo travadas as batalhas. No universo de Gibson, as corporações se enfrentam disputando segredos de negócios, com ‘assassinos’ informáticos altamente preparados travando elegantes batalhas contra ‘firewalls’ meticulosamente construídos. No mundo real, os defensores estão sendo superados numericamente, travando uma guerra desesperada em frágeis plataformas de software contra hackers semi-instruídos que desferem descargas cada vez mais maciça de ataques baseados na força bruta. E, ao invés de planos tecnológicos de valor inestimável, a riqueza que essas empresas tentam proteger são bens mundanos: números de cartão de crédito, músicas, filmes”.

Gibson nunca escondeu que quando escrevia Neuromancer seu conhecimento de computadores era apenas superficial.  Ele misturou suas leituras, intensas mas desordenadas, e jogou tudo na página em branco. Sobre vírus, ele diz (em 1990): “Não percebi o quanto esse conceito era esotérico na época. Presumi que todo mundo sabia a respeito, pelo menos o pessoal de informática. Na verdade, nem todos sabiam”.

Prever o futuro é O Sonho Burguês. Controlar, dominar o tempo como dominamos o espaço. A Ciência cartesiana surgiu para isto: para dar ao Poder econômico a capacidade de antever fatos, tendências, consequências. A Revolução Industrial, a Era Espacial e a Era Atômica são indissociáveis de “experiências controladas com resultados previsíveis”. Quando os escritores relaxam sua verve literária e se concentram em tentar adivinhar o que vai acontecer daqui a 30 anos, estão se curvando diante da pressão burguesa pelo Utilitarismo, pelo Controle do Futuro. A tentação de prever é um dos maiores riscos que a FC corre, assim como a tentação de defender uma ideologia política é um dos maiores riscos da literatura social, realista, do mainstream.



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

3047) Molyneux e os games (4.12.2012)







A revista “Wired” de novembro trouxe uma interessante matéria sobre Peter Molyneux, criador de videogames famosos como “Populous” (1989), “Theme Park” (1994), “Dungeon Keeper” (1997), “Black x White” (2001). Ele percorreu uma rápida carreira um tanto parecida com a de George Lucas. O sucesso como criador o conduziu a posições cada vez mais altas na cadeia de comando. Segundo a revista, a partir da série “Fable” (2004 em diante), Molyneux vendeu sua empresa para a Microsoft e pareceu entrar num declive de criatividade. Não tinha mais as idéias originais e surpreendentes que lhe deram fama. Estava, como se diz, tocando a bola no meio de campo, envolvido cada vez mais com a administração e menos com a imaginação criadora.

Surgiu então no Twitter um “alter ego” que se apresentava como “Peter Molydeux” (com a sugestão de ser um “duplo” sutilmente implantada, “dois”,  no nome). Esse tuiteiro desconhecido posava de criador de games e lançava para o alto uma série de idéias para jogos, desde as mais impossíveis e absurdas até as mais intrigantes e realizáveis. Dizia ele, em 140 caracteres: “Você vive numa casinha feita de armas de fogo. Você precisa usar as armas para se proteger, mas também precisa manter seus filhos protegidos por paredes e teto”. “Um jogo de guerra em que, no final, você caminha por um cemitério olhando para as lápides de todos os que você matou e fazendo um minuto de silêncio em cada uma”. “Imagine um jogo que dura para sempre onde seus filhos e seus netos prosseguirão, usando seu perfil”. “E se seu corpo fosse em forma de ampulheta? Um game intensamente acrobático onde você tem que manter a areia sempre caindo, sem nunca parar”.

domingo, 2 de dezembro de 2012

3046) A cantora virtual (2.12.2012)




(Hatsune Miku)


Ela é projetada no palco à frente da banda, que são músicos de carne e osso, tocando instrumentos de verdade. Ela, a estrela, é feita do que parecem ser feitas as estrelas: luz, vibrações, campos de energia que produzem em 3-D a silhueta de uma lolita nipônica cantando uma mistura de holo-karaokê com visual de hentai preteen. Na platéia, os teens analógicos pagam ingressos, compram bonecos, escrevem fanfic, compõem muitas das canções que ela canta no show.  É um show interativo, um mega-game em que você vê no palco algo que foi em parte criado por você. 

É uma coisa parecida com os Gorillaz, a banda cujos personagens só existiam em desenho animado, e a música era cantada e tocada por músicos atrás de uma cortina, ou coisa parecida. É o caso de Rei Toei, a “idoru” pop de William Gibson, cujo ser holográfico não se limitava ao palco, mas frequentava restaurantes, dava entrevistas em público. Interativa. Alumiosa. 

É assim que um homem a vê pela primeira vez: “E então os olhos dela encontraram os de Lanney. Foi como se ele cruzasse uma linha. Na estrutura do rosto dela, na geometria de ossos que o moldava, estavam codificadas histórias de fugas de dinastias inteiras, e privações, e migrações terríveis. Ele viu lápides funerárias nas escarpas de prados alpinos, com neve em fileiras sobre os seus lintéis. Uma fila de pôneis, hirsutos, o seu bafo branco e gelado, seguindo em trilha no alto de um canyon.  As curvas do rio lá embaixo eram riscas distantes de prata.  Chocalhos de ferro balançando nas rédeas, espalhando um clangor ao por-do-sol. Lanney estremeceu. Sentiu na boca um gosto de metal estragado”.

Por trás da mulher holográfica capaz de ter um olhar assim, existe tecnologia. O mesmo homem reflete depois: “Ela não é de carne, é de informação. Ela é a ponta de um iceberg, não, de uma Antártica de informação. (...) Ela induzia a visão nodal de uma maneira nunca vista; ela a induzia como narrativa”.  O olhar eletrônico dela é um teste de Rorschach subliminar, infravisível, capaz de bombardear uma descarga de ícones instantâneos bem na medula do inconsciente.

A cantora audiovirtual tem voz proporcionada por dubletes, ou tem voz sintetizada na mesma mesa que sintetiza as melodias que ela vai cantar?  Hatsune Miku (http://bit.ly/RuzsRD) está nas luzes da ribalta, ela própria é na verdade uma das muitas luzes dessa ribalta, e o que se pode dizer que alguém que é feita somente de informação e luz. Se estamos chegando à borda exterior do universo trans-humanista, os primeiros batedores que vêm ao nosso encontro são assim, digitais, holográficos, transparentes, súcubos angelicais, geishas skinpunks. 


sábado, 1 de dezembro de 2012

3045) Do Oral ao Digital (1.12.2012)



(A Morte de Sócrates)


São evidentes as semelhanças entre a Cultura Digital de hoje (Internet, mp3, computadores, smartphones, etc.) e a Cultura Oral de antigamente (comunidades rurais, tecnologia zero, contatos face-a-face, etc.). Esa Cultura Oral é a tese, o início; a Cultura Moderna urbana (a indústria, a tecnologia, o comércio) é a antítese, que veio para produzir algo novo. A Cultura Digital vai ser essa síntese, quando se instaurar por completo dentro dos nossos hábitos, do nosso cotidiano e principalmente dentro do nosso mercado de trabalho (ou seja, quando for possível ganhar a vida no interior dela).

Na Cultura Oral, as criações artísticas (histórias, anedotas, canções, danças) eram feitas por indivíduos mas esse autor isolado rapidamente desaparecia, e até mesmo não fazia questão de aparecer. Na modernidade (a indústria fonográfica, editorial, etc), o autor individual passou a ser reconhecido, celebrado, remunerado. A Cultura Digital está nos levando de volta à situação anterior. O que é necessário é fazer uma síntese entre os aspectos positivos de uma e de outra.

Na Cultura Oral, as pessoas produziam histórias e canções para falar de si, para comentar a vida comunitária, para exprimir seus impulsos de transcendência (refletir sobre o mundo, a vida). Foram os “primitivos” que inventaram o conceito de “Arte pela Arte”, não foram os burgueses.  A burguesia (o mundo moderno) impôs de vez o conceito de Arte por Profissão. (E olhe, nada tenho contra isto – sou um artista profissional.) Como vamos fazer a síntese? Porque o mundo nos empurra (caso o mundo não acabe por outros fatores) cada vez mais na direção de um futuro voltado à Arte pela Arte.

Na Cultura Oral, uma obra não tem uma forma fixa; cada vez que é reproduzida sofre interferências. Uma anedota não tem uma “versão original” – tem uma historieta básica que cada um reproduz ao seu modo, com suas palavras. Peças da “Commedia dell’Arte”, canções populares, mitos e lendas, romances em verso, histórias de trancoso, nada disto tem um Original, só tem versões. Já a Modernidade produziu o conceito de uma obra escrita, impressa, registrada, arquivada, e qualquer reprodução tem que ser feita igualzinha a esse original, sem mudar uma vírgula. Interferências nesse original são severamente punidas. (Em princípio, ninguém mexe num texto de Shakespeare ou num romance de Balzac.) Na Cultura Digital, a facilidade de mexer e propagar essas alterações torna inviável essa vigilância. Vai ser preciso encontrar uma síntese; talvez escritores e compositores passem a produzir obras já contando com as possíveis intervenções alheias, quem sabe até estimulando-as, dialogando com elas.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

3044) Fuleco é de lascar (30.11.2012)




Estou puxando pela memória para tentar lembrar alguns exemplos de casos assim, em que pessoas, por falta de familiaridade com um idioma que estão estudando ou utilizando, produzem verdadeiras aberrações linguísticas ou termos sem sentido. Foi o caso da escolha do nome para o mascote da Copa do Mundo. (Pensando bem, o próprio conceito de mascote da Copa do Mundo já é uma idiotice.) (Pensando melhor ainda, Copa do Mundo também.)

A Fifa encarregou pessoas de sugerir nomes pro boneco a partir de palavras-símbolo referentes ao Brasil, à ecologia, etc.  “Zuzeco”, por exemplo, foi uma solução proposta por eles – uma mistura de “azul” (o nosso céu) e “ecologia”. Chinfrim, mas vamos em frente. Fiquei muito perplexo com outra escolha: “amijubi”. O mascote se chamaria Amijubi. Por que? Amizade e júbilo.  Pense numa palavra-naftalina do nosso idioma, é esta última. Ao longo de toda minha vida só a vi por escrito, e mesmo assim na imprensa de jornal pré-1960 e em discursos de inauguração de alguma coisa. Nunca vi um único brasileiro usar a palavra “júbilo” numa conversa.

Vai ver que eles pensaram o mesmo, e a terceira solução – e que parece já estar definitivamente aceita – foi “Fuleco”. Por que? Futebol e ecologia. Nada contra os dois, mas fuleco é de lascar.  Lembra fuleiro, fulo, furreca. Uma mistura de Fu-Manchu com Cacareco. Lembrei-me daquele livro “English as she is spoke”, um guia de idiomas, aparentemente autêntico, onde o autor pretende ensinar inglês ao leitor mas vê-se que não tem a menor idéia do que está fazendo. O título, que queria ter dito “O inglês como ele é falado”, é uma amostra das distorções e desinformações do autor.

Não custava nada chamarem o mascote de Tatu-Bola. Primeiro porque ele é um tatu-bola mesmo, e por isto foi escolhido. Segundo porque é um nome oferecido de bandeja pelo povo (incluindo-se aí os zoólogos e os dicionaristas) do país que sedia a Copa. Custava nada ser tatu-bola?  Este episódio, por mais que seja inspirador de galhofas, pode dar também uma dose de melancolia. O mundo globalizado está virando um grande mal entendido entre culturas, entre idiomas, entre hábitos e crenças. Daqui a pouco não se acha no planeta um par de pessoas que interpretem os mesmos fatos da mesma maneira.

Eu nada tenho contra palavras inventadas, mas eu gosto de snark e não gosto de Zuzeco, e gosto de supercalifragilisticspiralidocious e não gosto de Amijubi.  Gosto de nonada, parangolé, zazueira, crisbeles, riverão, alfômega, panamérica, solaris, ciberespaço, grokkar, robot, grifinória, ludopédio, convescote, monstruário, baurets, in-a-gadda-da-vida... mas não gosto de Fuleco.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

3043) F de Foguete (29.11.2012)



(Elon Musk)


A espaçonave tem sido um símbolo da ficção científica desde o seu começo. O primeiro livro sobre a ida de um artefato mecânico à Lua foi Da Terra à Lua de Julio Verne (1865), mas não se tratava de um foguete, e sim de uma bala de canhão. Balões e veículos de formatos improváveis (e meios de propulsão mais improváveis ainda) foram numerosos no século 19, pela imaginação de H. G. Wells, Garrett P. Serviss e outros. A Encyclopedia of Science Fiction de John Clute menciona como duas das mais convincentes espaçonaves do início da pulp fiction as que aparecem em The Shot into Infinity”de Otto Willi Gail (1925) e The Voyage of the Asteroid de Laurence Manning (1932). Cito estas datas porque aqui no Brasil já tínhamos em 1923 pelo menos duas obras: A Liga dos Planetas de Albino Coutinho, com seu “aeroplano”, além do cordel História do Homem que Subiu Em Aeroplano até a Lua atribuído a João Martins de Athayde, mas cujo verdadeiro autor talvez seja Leandro Gomes de Barros.  Espaçonaves cientificamente canhestras, mas em todo caso são provas de que a FC no Brasil surgiu par-a-par com a dos EUA e Europa.

Elon Musk é um jovem (nasceu em 1971) empresário dos EUA que está tentando reaquecer sozinho a corrida espacial. Segundo ele, a astronáutica dos foguetes está mais do que defasada, tanto no aspecto técnico quanto no econômico. Parece delírio? Bem, ele é o criador do PayPal, uma das coisas que deram mais certo até hoje no mundo da web. Diz Musk (http://bit.ly/Rc9t45) que a tecnologia aeroespacial não experimentou melhorias materiais desde os anos 1960, e na verdade pode até ter regredido. Para ele, “as empresas aeroespaciais têm uma incrível aversão ao risco”, e seu excesso de cuidado chega até o ponto em que, num engraçado paradoxo, “um componente que nunca foi ao espaço não pode ir ao espaço”.

Além disso, diz ele, a febre de terceirização faz essas empresas delegarem tarefas a subcontratantes que por sua vez chamam outros, a um ponto em que “é preciso cruzar quatro ou cinco camadas de poder até chegar a alguém que esteja de fato fazendo alguma coisa”. Por isso, diz ele, o voo espacial é tão caro. Isso, e os custos de produção dos foguetes (que ele afirma ser capaz de reduzir a 10% dos custos atuais). “Imagine”, diz ele, “se cada avião durasse apenas uma viagem. Não haveria transporte aéreo”.  O projeto de Musk é enviar um foguete tripulado a Marte em 10 ou 20 anos, a um custo muitíssimo inferior ao que vem sendo praticado pela NASA. A antiga inequação “Estado paquidérmico x Empresariado ágil” parece estar emergindo de novo, após meio século de corrida espacial financiada pelos governos.



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

3042) Droga e liberdade (28.11.2012)






No filme The Corporation, a certa altura os realizadores questionam o uso maciço de propaganda dirigido às crianças nos EUA para que comprem (ou peçam aos pais) brinquedos, doces, etc.  Os entrevistadores perguntam se não é eticamente errado manipular com publicidade as mentes despreparadas dos pirralhos, fabricando desejos, num momento em que elas não têm uma visão crítica sobre o que estão assistindo. Uma executiva responde, rindo: “But it’s just a game!”. É só um jogo! Para a mentalidade dos executivos, é um jogo de números entre as empresas, como o Banco Imobiliário. Eles precisam melhorar a relação dos números da própria empresa (vendas, lucro, etc.), e a relação entre os números da empresa e os dos concorrentes.

Todos nós somos assim, não é mesmo? Todos somos politicamente corretos, religiosos, bons cidadãos, mas no momento em que alguém bota um putufú de dinheiro em cima da mesa e diz: “Será seu, se você fizer tal e tal coisa”, argumentos brotam dos lugares mais inesperados da nossa mente, convencendo-nos de que não estamos fazendo aquilo pelo dinheiro, mas por uma lista de motivos nobres que daria duas voltas-à-esquina. Se uma fábrica de pipoca me oferecesse um salário mensal de 100 mil reais para dirigir seu setor de publicidade, forçando todas as crianças da Paraíba a comerem pipoca desenfreadamente, eu pensaria: “Ora... Pipoca é milho!  É cultura indígena! O milho faz parte de nossa dieta desde tempos imemoriais. Contém amido!  Melhor vê-los comendo pipoca do que mascando chicletes”. E assim por diante.

Não é impossível que alguns fabricantes e vendedores de crack, metanfetamina, heroína, etc., sejam cidadãos corretos em sua vida doméstica: bons pais, bons maridos... Podem ser honestos, incapazes de desviar para si um só centavo que não seja seu.  E se lhes perguntarem pela destruição causada pela droga que vendem, eles responderão, como o químico nerd de Breaking Bad: “Compra droga quem quer, usa quem gosta. São adultos, e são livres para escolher”.  Ora, ninguém é livre para escolher. Nossas escolhas aparentemente livres são sempre influenciadas por alguém de fora. Nossa liberdade de escolha se dá sempre num corredor de pressões e proibições. O fantasma da liberdade (como dizia Buñuel) nos faz imaginar que somos sempre donos das nossas opções, mas agimos dentro de limitações estabelecidas por quem nos explora. Uma criança é livre para escalar um parapeito e pular de um vigésimo andar. Mas essa “livre” escolha a precipita numa situação em que fica impedida de escolher, para sempre. A droga é uma livre escolha que em alguns casos conduz ao cancelamento de todas as liberdades.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

3041) "Laranja Mecânica" (27.11.2012)




Está saindo pela Editora Aleph (SP) uma edição comemorativa dos 50 anos de “Laranja Mecânica” de Anthony Burgess. É um clássico da ficção científica psicossocial.  O romance pressupõe três coisas: 1) a proliferação de gangs criminosas de jovens urbanos, num grau que a Londres de 1962 mal seria capaz de imaginar); 2) a utilização, pelo Estado, de técnicas de lavagem cerebral, ou condicionamento por aversão; 3) a contaminação da gíria dos jovens londrinos com termos vindos da língua russa.  É uma FC voltada para a sociologia e a psicologia. Não precisa de aliens, espaçonaves, pistolas de raios.

Burgess escreveu o livro numa Inglaterra cujas principais tribos de delinquentes juvenis eram os mods, os rockers e os teddy-boys. Eram a “juventude transviada” de uma época em que o rock começava a fazer soar seus primeiros acordes e as drogas eram consumidas em pequenos focos isolados. Ele tentou revestir sua extrapolação futurista de traços não-realistas, para ressaltar seu lado alegórico: roupas, hábitos, linguagem.  Queria que a violência do livro fosse “mais simbólica do que realista”. Não previu que seu livro e o filme resultante, de Stanley Kubrick, se transformariam em influência e (em alguns aspectos) em modelo.

A tradução de Fábio Fernandes enfrenta com criatividade o desafio de ter que inventar e adaptar palavras o tempo todo. O mais interessante desta edição comemorativa é a inserção de textos e entrevistas de Burgess, em que ele conta uma viagem sua a Leningrado, explica a origem do título, e faz uma avaliação de suas intenções ao escrever o livro. Ele quis fazer uma discussão sobre o livre-arbítrio – um criminoso tem tanto direito a fazer escolhas quanto nós?  “O homem ou a mulher que nunca fez o mal não pode saber o que é o bem”, diz Burgess. “Não sei a medida de livre-arbítrio que o homem possui de verdade, mas sei que o pouco que parece ter é precioso demais para ser usurpado, por melhores que sejam as intenções do usurpador”.

Burgess afirma que o editor norte-americano de “Laranja Mecânica” decidiu cortar o 21º. capítulo da edição inglesa. Achava esse capítulo (que mostra um Alex mais amaciado, menos radical, preparando-se para entrar na vida adulta) “britânico demais, ameno demais”.  (Este capítulo está incluído na edição brasileira.) Segundo Burgess, foi essa edição incompleta que Kubrick adaptou para o cinema. Por que Burgess não protestou, não interferiu, não os processou? Talvez porque tenha visto nesse corte um exercício do livre-arbítrio alheio. A possibilidade de dois finais diferentes para a história meio que simboliza a nossa liberdade (e paradoxalmente a nossa obrigação) de escolher.