Isto me volta à mente com o lançamento recente de Edgar
Allan Poe, o Mago do Terror de Jeanette Rozsas (Melhoramentos). É um livro
agradável, muito ilustrado, com cronologia e bibliografia, e, até onde pude ver
(não li o livro todo), dramatiza de maneira não-invasiva os fatos conhecidos da
vida de Poe, um dos escritores mais biografados e mais estudados do mundo (até
eu já fiz um livro sobre ele). Poe se relacionou e se correspondeu com centenas
de pessoas que deixaram testemunhos escritos sobre sua convivência. É possível
reconstituir encontros que teve com A ou B, diálogos, reuniões, conferências
que proferiu, fatos da sua vida pessoal, etc.
O biógrafo-romancista tem em mãos duas ou três versões incompletas de
uma briga de Poe com Fulano, por exemplo; cabe a ele escrever a cena como se a
tivesse presenciado, tentando manter-se fiel aos documentos que são de
conhecimento público, e usando sua “licença para mentir”, mas mentir no bom
sentido – preencher com material “neutro” os trechos que ninguém sabe como
aconteceram.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
2914) Biografia romanceada (5.7.2012)
quarta-feira, 4 de julho de 2012
2913) Ser célebre (4.7.2012)
Um número imenso de páginas (cartas, diários, relatos de
viagens, etc.), escritas nos séculos 18 e 19 antes da invenção da fotografia, é
dedicado a encontros que o autor teve com personalidades ilustres do seu tempo:
estadistas, artistas, aristocratas, etc.
Daria uma antologia que poderia furtar o título do livro de Peter Brook, Encontros com Homens Notáveis.
Stendhal conta um episódio divertido de sua estadia em Terracina
(Itália) em 1817, quando, conversando com um grupo de italianos, entabulou um
diálogo sobre música com um homem jovem, de cabelos claros, bem apessoado;
Stendhal teceu os maiores elogios às óperas de Rossini, dizendo ser o único
compositor de gênio daquela época, e pelas risadas dos outros acabou descobrindo
que o jovem sentado à sua frente era o próprio Rossini.
Era uma época em que o nome de um indivíduo podia ser famoso
e respeitado em toda a Europa sem que se tivesse uma idéia muito clara de como
era seu rosto. A fotografia não tinha sido inventada. Nobres e reis eram
conhecidos através de pinturas, desenhos e gravuras, que, como se sabe, nem
sempre são unânimes em sua reconstrução de fisionomias, além de correrem o
risco de ficarem rapidamente defasadas porque o indivíduo envelheceu, engordou,
etc. Quantas pessoas, na Paris de Maria Antonieta, tinham visto de perto o
rosto de Maria Antonieta? Há um
interessante filme sobre Napoleão (A Roupa Nova do Imperador, de Alan Taylor,
2001) em que ele foge do exílio, retorna a Paris para reconquistar o trono, mas
a conspiração que o ajudou é desmontada. Ele se vê sozinho, anônimo e sem
dinheiro numa cidade onde ninguém o reconhece, e não adianta dizer que é
Napoleão porque há centenas de malucos dizendo o mesmo.
terça-feira, 3 de julho de 2012
2912) Os poemas de Darcy (3.7.2012)
Já aos 70 anos, depois de sucessivas batalhas contra o
câncer, Darcy Ribeiro botou na cabeça que ia ser poeta. Já tinha sido
antropólogo, educador, ministro, reitor, vice-governador, romancista... por que
não poeta? Esse “por que não poeta?” só
ocorreria a um sujeito com um ego fenomenal, e era o caso do autor de O
Processo Civilizatório. Por sorte, o seu ego era contrabalançado pelo senso
crítico de quem teve formação científica, por um senso de humor permanente, presente
até em suas obras mais sisudamente teóricas, e por um espírito de
auto-depreciação que, curiosamente, acompanha muitos indivíduos narcisistas.
(Por mais e melhor que façam, eles sempre torcem o nariz diante dos próprios
feitos, porque sua expectativa íntima é sempre de que são capazes de fazer
muito mais e melhor.)
Eros e Tânatos – a poesia de Darcy Ribeiro (Rio, Ed.
Record, 1998) reúne esses poemas que são bem descritos pelo título. São
meditações recorrentes e infatigáveis sobre amor, sexo e morte, escritas por um
sujeito de imensa vitalidade, que, aos 70 anos e no meio da queda-de-braço
final com o câncer, sabia que estava com os dias contados. (E não sabemos
disso, nós todos? Não, não sabemos.) A
parte erótica tem a euforia desbragada e rabelaisiana de um Henry Miller, a
celebração do sexo como prazer animal, gozo físico, seja ou não temperado pelo
afeto. A alegria de viver no sentido mais biológico do termo, elevada ao
quadrado como reação aos violentos golpes da doença e da velhice, em versos bem-humorados
de sexo explícito que infelizmente não tenho espaço para reproduzir aqui. E a
morte, algo que o autor reconhece como fatalidade científica, mas com a qual
não se conforma: “Hoje fiz 70 anos. Quisera 700”. “Acho que sei, afinal, a que vim / e já me vou”.
domingo, 1 de julho de 2012
2911) Supervilão séc. 21 (1.7.2012)
Os
super-vilões da narrativa popular são encarnações monolíticas do Mal:
Fu-Manchu, Prof. Moriarty, Dr. No, Lex Luthor.
O desafio da literatura contemporânea é criar vilões que exprimam o lado
maligno do mundo mas tenham também uma dimensão realista, para torná-los
acreditáveis pelo menos durante o tempo da leitura. Se a literatura aceitou há
muito tempo o fato de que nenhum herói é sem defeitos, não custa admitir que
nenhum vilão é sem qualidades. Um vilão
que, quem sabe, possa até nos despertar um pouco de identificação, de inveja.
Hubertus
Bigend (BÁI-jend) é o inesperado vilão que William Gibson criou em sua recente
trilogia (Reconhecimento de Padrões, 2003; Spook Country, 2007; Zero
History, 2010). Bigend é um bilionário
capaz de em poucos minutos, ao celular, mover montanhas de dinheiro e mudar a
vida de pessoas cuja existência ele desconhece e minimiza. Bigend não é um paranóico
delirante que quer “ser o dono do mundo”, seja isto o que for. É uma mistura de Eike Batista com Steve
Jobs. Tem uma empresa, a Blue Ant, que
se apresenta como agência de publicidade, de marketing, de investigação de
modas e tendências, mas serve de fachada para suas manobras por baixo do
pano. Fisicamente, Bigend parece com
“Tom Cruise submetido a uma dieta de sangue de virgens e trufas de chocolate”.
sábado, 30 de junho de 2012
2910) Hora do recreio (30.6.2012)
(esculturas: William Bally, 1831)
A pior aula é a de matemática, pra não falar da de geografia, se bem que a unanimidade é a de desenho. O engraçado é que cada um de nós, mesmo detestando todas, detesta mais uma do que as outras. Às vezes discutimos tanto isto que perdemos minutos preciosos em que poderíamos brincar no pátio, jogar bola na quadra ou no ginásio, zoar na lanchonete. Vida de aluno interno é todo dia a mesma coisa, a mesma coisa, é de enlouquecer. Ainda sirenes tocando toda noite. Um de nós disse um dia, “nós somos um loop de imagens, eu tenho a impressão que todo dia eu digo isso de novo”, e rimos, e depois outro disse, “não, eu acho que nossos pais nos botaram aqui pra se ver livres de nós, eles têm a esperança que a gente se suicide”, e rimos, e outro disse, “nós não somos estudantes, somos espiões estrangeiros, e na verdade estamos num campo de concentração, eles nos deram uma droga pra gente pensar que tem 10 anos de idade e está no colégio”, e houve uma risadaria geral, na mesma hora cada um de nós pegou uma arma, uma régua (metralhadora), uma bola-de-papel (granada), e começamos a guerra, “morre, espião!”. Estamos em guerra (as explosões, os sinos). Nossos pais, na visita semanal, nos dizem que apesar do sofrimento e das baixas estamos ganhando, mas as despesas estão cada vez maiores e é melhor continuarmos aqui do que ir lá para fora. Sobem nuvens grossas de fumaça preta. Temos mais raiva da guerra do que das aulas. O bom mesmo são os recreios: uma vez na manhã, outra depois do almoço, outra no meio da tarde. É tanta coisa boa que ficamos ansiosos porque não podemos ter tudo ao mesmo tempo, os snacks e os refris da lanchonete, o corredor de fliperamas, as armas do play, os wargames do lan-room, e nós nos empurramos, nos acotovelamos, brigamos por uma cadeira, por um monitor, por uma bola, por uma posição no time. Se fosse só isso! Mas temos as aulas, a obrigação de estudar história, ética pública, bases constitucionais, metodologia das ciências, “para quando houver paz”, bradam os professores. Um dia um de nós quis saber por que motivo não havia meninas no colégio, e alguém disse, “porque eles estão nos treinando para ser homossexuais”, e nós rimos, e outro disse, “não, porque eles vão nos mandar para morrer na guerra e deixar a população com um homem para cada dez mulheres”, e todo mundo achou graça. Oba! Recreio de novo. Não está chovendo mas nos mandaram para o ginásio, nunca vimos o ginásio tão cheio, tão apertado, a gente mal consegue respirar, ainda bem que daqueles tubos lá no alto estão saindo jatos de vapor, estamos pensando agora que deve ser alguma coisa para que a gente consiga respirar melhor.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
2909) Antonio Silvino (29.6.2012)
Uma foto tem circulado nas redes sociais, mostrando dois
homens de terno, frente a frente. São eles o presidente-ditador Getúlio Vargas
e o ex-cangaceiro Antonio Silvino, que recebera indulto após 23 anos de cadeia,
por bom comportamento (havia sido condenado a 239 anos). Diferentemente de
Lampião, que em vinte anos de cangaço nunca foi preso, Silvino cumpriu pena,
alfabetizou-se na prisão, converteu-se ao protestantismo e trabalhou em vários tipos de artesanato até
receber o indulto de Vargas. São duas histórias diferentes, dois finais
diferentes. Lampião, que era 23 anos
mais novo, morreu numa emboscada na gruta de Angicos em 1938. Silvino, aprisionado em 1914 (antes mesmo de
Lampião entrar para o cangaço) morreu em 1944, na casa de uma prima, em Campina
Grande. (Quando eu era menino, várias vezes me mostraram a vilazinha humilde
onde ele findou seus dias, em frente à Praça Félix Araújo, esquina com a
Arrojado Lisboa).
A carreira de Silvino está documentada nos folhetos de
Francisco das Chagas Batista, que cobrem suas aventuras até 1912. Uma ótima avaliação deles está em Memória
de Lutas de Ruth Brito Lemos Terra (Global, 1983), onde ela compara a
abordagem de Chagas Batista, mais documental, com a de Leandro Gomes de Barros,
mais fantasiosa e romantizada. Tal como Lampião, Silvino foi exaltado por
poetas e escritores como um guerreiro nobre e ético. Em As Infâncias de
Quaderna, de Ariano Suassuna, é ele quem resgata o menino Quaderna, raptado
por ciganos, e o devolve à família; em Menino de Engenho, José Lins do Rego
reconstitui uma visita do cangaceiro ao coronel José Paulino, que o recebe à
mesa, com todas as honras.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
2908) O Quarto do Pânico (28.6.2012)
Recebi
(não, desta vez não é piada) uma circular eletrônica enaltecendo a utilidade do
Quarto do Pânico, e me propondo uma avaliação sem compromisso. Para quem não
sabe, o nome desse produto vem do filme com Jodie Foster, em que ela e a
filhinha se trancam nesse cômodo para escapar de ladrões que invadem sua
casa. Por causa do filme, o nome pegou,
o que aliás não acho muito bom em termos de marketing – deviam chamar de
“Quarto Salva Vidas”, “Quarto de Segurança”, algo com um astral mais
positivo. O tal cômodo é um aposento
blindado, no interior da casa, onde os moradores podem se refugiar e se trancar
por dentro na hipótese de um assalto. O
quarto tem blindagem para resistir até a armas de fogo pesadas. Tem energia com “No Break”, independente do
resto da casa. Tem câmaras que
monitoram as partes internas e externas da casa, para que a família, ao se
esconder ali, possa ver o que está acontecendo à sua volta. Tem linhas de comunicação (rádio, celular,
etc.) com várias alternativas para pedidos de socorro à polícia, aos vizinhos
ou a uma empresa de segurança previamente contratada. Tem oxigênio, água, comida, tudo que as pessoas possam precisar
para passar um tempo razoavelmente longo até que os assaltantes desistam ou o
socorro apareça.
A
instalação (é cara, viu?) geralmente aproveita um espaço já existente (closet,
banheiro, etc.) que não perde a utilidade no dia-a-dia normal, mas fica
acessível para que as pessoas cheguem rapidamente a ele, se fechem por dentro,
e acionem o socorro. O Quarto do Pânico é a versão contemporâneo dos abrigos
nucleares dos anos 1950-60, quando, principalmente nos EUA, havia o pânico de
uma guerra atômica. Muita gente cavou porões e os equipou com ar condicionado,
água, mantimentos, gerador de eletricidade, etc., para se esconder em caso de
guerra. Devia haver condições suficientes para que a família esperasse a queda
dos níveis de radioatividade lá fora (meses? anos? não sei). Bob Dylan fez uma canção famosa ironizando
esse medo, “Let Me Die In My Footsteps”.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
2907) Um pequeno tesouro (27.6.2012)
Era tia-avó da minha esposa, e morava
sozinha num casarão, numa capital nordestina cujo nome não preciso revelar.
Quando tive que deixar São Paulo e passar uma semana lá, para trabalhar numa
auditoria, minha mulher telefonou-lhe sem me consultar e as duas resolveram que
eu me hospedaria na casa dela (a tia aproveitaria para me conhecer e, segundo
minha mulher, “dar a nota”). Ficar na casa de uma pessoa de 70 anos não estava
nos meus planos. Não que pretendesse cair na farra. Mas depois de um dia duro
de trabalho, discutindo, argumentando, a única coisa que me interessa é tomar um
banho, e depois dois uísques, sozinho, em silêncio, na beira da piscina do
hotel. Mas esposa é esposa, e lá fui eu.
Dona Frederica me surpreendeu,
não apenas por aparentar bem menos idade, mas porque na primeira noite em que
voltei encontrei-a escutando música diante de uma garrafa de Dimple e um balde
de gelo. Sentei ao lado e enveredamos numa longa cadeia de associação de idéias
envolvendo boleros cubanos, orquestras tropicais e a arte da dança de salão,
que ela me confessou não praticar há vinte anos, desde a morte do marido. Na
segunda noite lá estava o Dimple, e desta vez conversamos sobre horóscopo, tipos
psicológicos; ela contou “causos” saborosamente escabrosos ocorridos com amigas
de juventude. Na terceira noite, Dimple e cinema (ela adorava musicais da
Metro).
terça-feira, 26 de junho de 2012
2906) "Blade Runner" 30 anos (26.6.2012)
Uma coisa fascinante no capitalismo é a capacidade que ele
tem de nos fazer comprar a mesma coisa mais de uma vez. Ele cria em nós,
primeiro, uma fascinação inesgotável por um produto; depois, nos ensina a fazer
minúsculas, sutilíssimas distinções entre aspectos deste produto; em seguida,
oferece-nos versões quase idênticas do produto, mas com diferenças suficientes
para que digamos: “Quero todas duas!”. Ou todas três, ou trinta.
Blade Runner (1982), foi um fracasso de bilheteria nos
EUA, onde custou cerca de 28 milhões de dólares e rendeu 27. (Rendeu um pouco mais
no mercado externo, mas em termos da contabilidade dos estúdios, que precisam
de retorno rápido, isso não pesou muito.) Ao completar 30 anos, foi preparada
uma caixa especial, custando cerca de 50 dólares, com nada menos de dez horas
de cenas extras, e três versões integrais do filme.
Ao todo, existem cinco versões. Primeiro houve a versão
original, exibida nos cinemas, e a versão internacional, que é quase a mesma,
com a adição de algumas cenas de violência. Em 1992, o diretor Ridley Scott
produziu a “Versão do Diretor” (“Director’s Cut”), removendo a narração em
“off” e modificando algumas cenas, mas ainda assim não ficou satisfeito (ele é
considerado um perfeccionista capaz de enlouquecer qualquer equipe), e em 2007
ele concluiu o chamado “Final Cut”, onde modificou tudo que achou necessário
(inclusive chamando a atriz Joanna Cassidy para refazer, 25 anos depois, cenas
que tinham sido feitas por uma dublê). E
existe uma quinta versão chamada “Work print”, que seria uma primeira edição do
material filmado, com muitas cenas que foram excluídas depois. (Ao que parece,
a caixa inclui as versões 1, 4 e 5.)
A cultura de massas é considerada o reino do descartável, do
superficial. Supõe-se que o espectador
vê um filme, dá tchau e vai ver o próximo. Pertence ao mundo acadêmico essa
disposição para examinar e comparar diferentes versões de uma obra. Quantas
teses não já foram escritas comparando a versão em folhetim e a versão em livro
de alguma obra de Dostoiévsky ou Dickens? Mas a tendência das últimas décadas é
a de estimular a produção dessas versões, em primeiro lugar para vender as
duas, é claro, mas com um efeito colateral: a criação de uma faixa crescente do
público cada vez mais atenta a detalhes e a variantes. Isto é resultado do
videocassete e do DVD, que pela primeira vez deram ao espectador comum a
possibilidade de rever uma cena quantas vezes quisesse, parando, voltando,
vendo de novo – uma experiência de espectador totalmente diferente da
experiência passiva, meramente receptiva, do espectador tradicional do cinema.
domingo, 24 de junho de 2012
2905) "Tango de volta" (24.6.2012)
(Julio Cortázar)
Julio
Cortázar foi um constante experimentador de formas narrativas, na estrutura
aleatória e ziguezagueante de O Jogo da Amarelinha, na mescla de narrativa
literária e notícias de jornal de Livro de Manuel, nos “almanaques” de
estrutura verbo-visual como A Volta ao Dia em 80 Mundos. Mas no interior de seus contos ele sempre
estava testando novas maneiras de contar a história. Uma de suas experimentações mais constantes é
com o ponto de vista narrativo. Um conto narra uma história que acontece, mas,
quem está contando a história?
“Tango
de volta” é um dos contos de Queremos tanto a Glenda (1980, publicado no
Brasil como Orientação dos gatos). É um conto narrado na 1ª. pessoa, e o
narrador, como é de hábito em Cortázar, principia com um longo parágrafo
aparentemente caótico em que salta de um ponto para outro entre informações
desencontradas, referindo-se a pessoas como se imaginasse que já as conhecemos,
comparando fragmentos de informações como se já as tivesse fornecido antes. A
esse longo parágrafo segue-se outro que começa, paradoxalmente: “Como sou muito
convencional, prefiro pegar desde o começo...”. Segue-se uma história em que
uma argentina, Matilde, abandonou o marido no México e voltou a Buenos Aires, de
onde forjou um atestado de óbito para dizer que era viúva, casou com um homem
rico, teve um filho, e agora vê o primeiro marido rondando sua casa, namorando
sua empregada Flora, tentando se infiltrar lá dentro.
O
leitor prevê mais uma das bem urdidas histórias de crime de Cortázar. (É engraçado,
nunca vi nenhuma delas nas antologias de contos policiais. Rotularam o rapaz de
“autor fantástico” e pronto, morreu aí.) Tudo é narrado numa “falsa 3ª. pessoa”
do ponto de vista de Matilde, a esposa, e depois de duas páginas já esquecemos
que tudo começara com um “eu”. O conto vai até um desfecho violento, e no
último parágrafo sabemos quem é o narrador: é o médico ou enfermeiro que chegou
à casa logo após o crime, e a história é extraída da empregada, Flora, levando-o
a reconstituir tudo que se passou. Acontece que tirando o primeiro e o último
parágrafo tudo se passa dentro da mente de Matilde. Pegando os fragmentos de
fatos fornecidos por Flora, o narrador romanceia por conta própria o que teria
se passado na mente da mulher, seus medos, suas culpas, sua paranóia. É um
narrador não-confiável, porque, embora os fatos provavelmente sejam aqueles, o
texto está cheio de conjeturas e adivinhações do que Matilde teria sentido e
pensado, e que ele não poderia conhecer. É mais uma das muitas experiências de
Cortázar sobre um”eu” narrador que nunca é o “eu” narrador da literatura
convencional.
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