sexta-feira, 13 de abril de 2012

2843) Obsolescência (13.4.2012)



Uma página interessante faz uma avaliação do grau de obsolescência de vários tipos de controles e consoles para games, desde os mais antigos. Christian Sandvig (http://bit.ly/Iu8p6J) é professor de “Tecnologias da Comunicação e Sociedade” na Universidade de Illinois, e comenta: “Minhas tecnologias tornaram-se obsoletas, em sua esmagadora maioria, devido a avanços tecnológicos ou a defeitos. Além disso, algumas se tornaram obsoletas devido ao aparecimento de produtos mais atraentes injetados no mercado pela cultura de consumo intenso cada vez mais presente nos EUA. Concordo com quem diz que as tecnologias estão sendo substituídas muito antes de se tornarem de fato obsoletas. Um bom exemplo disso é quando Slade diz que telefones celulares fabricados para durar cinco anos estão sendo descartados depois de dezoito meses”.

Pode-se “tomar o pulso” do descontrole industrial de uma civilização quanto ela vai na direção de um destes extremos: 1) ser incapaz de substituir produtos obsoletos por produtos novos que cumpram bem a função; 2) aposentar cedo demais produtos ainda válidos, simplesmente para convencer o consumidor a comprar um produto novo do qual ele, na verdade, ainda não precisa. No primeiro caso, a economia vai mal porque está lenta, preguiçosa, recessiva, ou então não tem o know-how necessário para resolver seus próprios problemas. No segundo caso, está acelerada demais, como uma pessoa que tomou estimulantes em excesso e perdeu a capacidade de administrar direito o que faz.

Diz Sandvig: “As empresas que produzem eletrônicos deviam ser obrigadas pelo governo a oferecer algum tipo de subsídio para motivar e ajudar o comércio num plano de recolhimento e reciclagem do lixo eletrônico. Até mesmo o consumidor poderia ganhar um pequeno desconto na compra de um equipamento novo se trouxesse o equipamento velho e o devolvesse. Isto manteria o fluxo da inovação tecnológica, diminuiria o lixo eletrônico, e manteria satisfeitos os consumidores”. É um ponto de vista correto, mas parece mais próprio da sociedade norte-americana. Aqui no Brasil, pela minha experiência, um eletrônico só vai pro lixo quando já deu tudo que tinha que dar. Televisão, celular, notebook, monitor de PC , tudo isso é repassado para outra pessoa (filho, pais idosos, amigo, empregada, porteiro do prédio) quando a gente compra um novo. A obsolescência é gradual – quando a gente está com mais grana, compra um modelo novo, e repassa o antigo para quem não pode comprar. A ida pro lixo não é imediata, é o fim de uma longa cadeia de presentes ou de transações informais, numa sociedade de classes mais próximas e mais permeáveis.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2842) 500 contos de fadas (12.4.2012)



A literatura oral é um sambaqui de narrativas despedaçadas e sepultadas juntas. A maior parte da literatura oral que conhecemos hoje em dia é, ironicamente, literatura-oral-por-escrito: as coletâneas dos Irmãos Grimm, de Sílvio Romero, de Câmara Cascudo, etc. Ninguém mais conta histórias em casa. Quem conta é a televisão, cujo encanto não discuto; e já existe a profissão de contador de histórias com cobrança de ingresso. É uma oralidade diferente daquela dos tempos dos Irmãos Grimm.

Por falar neles, foi descoberto na Alemanha o arquivo de um historiador amigo deles, Franz Xaver vom Schönwerth (1810-1886), que dedicou-se, naquela mesma época, a escutar e copiar histórias narradas à viva voz por camponeses, trabalhadores, pessoas idosas. Seus trabalhos foram publicados em três livros saídos em 1857, 1858 e 1859, mas não obtiveram a mesma repercussão dos livros dos Grimm, e logo foram esquecidos. Agora, uma pesquisadora, Erika Eichenseer, deu uma geral nos arquivos dele e encontrou cerca de 500 contos orais por ele transcritos, muitos dos quais jamais registrados em outras coletâneas.

Muita gente se pergunta: quem cria os contos de fadas? É o mesmo que perguntar: quem inventa as anedotas? Dificilmente vemos uma anedota ser atribuída a alguém – não me refiro a episódios pitorescos da vida real, mas às piadas de português, de bêbado, de papagaio, etc.; o feijão com arroz da mesa de botequim. Quem inventa essas piadas, e quem inventa contos populares como Chapeuzinho Vermelho ou Rapunzel? Já vi artigos bastante sérios discutindo se esses contos orais tinham “origem erudita” (eram inventados por escritores cultos e depois propagados pelo povão) ou “origem popular” (eram inventados pelo povão e depois propagados pelos escritores cultos). É uma dicotomia típica de quem divide a humanidade em eruditos e populares. Eu divido a humanidade em pessoas com talento fabulatório (capazes de criar histórias) e pessoas sem talento para inventá-las, mas que gostam de ouvi-las e repeti-las. Em qualquer classe social encontramos esses dois tipos.

Saber inventar histórias não é efeito colateral de ser pobre nem de ser rico, é algo que depende de outros fatores. Sugiro a leitura do longo prefácio de Ítalo Calvino para suas Fábulas Italianas, onde ele confessa na maior cara-de-pau que, após registrar algumas variantes de um conto popular, decidiu mudar o final por conta própria porque achava que assim ficava melhor. Atitude não de erudito, mas de fabulador. Quem inventa as histórias? Gente como Ítalo Calvino, amas-de-leite, professoras de italiano, sapateiros... Fabuladores, de todas as classes sociais.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

2841) Dinheiro é droga (11.4.2012)




O Capitalismo começa como uma espécie de realismo pragmático, mas depois de um certo ponto degenera em delírio quantitativo. 

No começo, ele é materialista até a medula. Escarnece da religião, faz pouco das ideologias, torce o nariz para a arte, dá um chega-pra-lá em todos os subjetivismos e diz que no mundo somente as coisas materiais contam. Só conta o que dá resultado, o que gera riqueza, o que produz. 

É nessa fase, por exemplo, que as manifestações artísticas são enxotadas para o sótão dos “Passatempos Para Gente Desocupada”. Por que perder tempo com coisas que provocam apenas prazer estético e enriquecimento espiritual? Já que ninguém pode quantificar prazer estético, ninguém pode lucrar planejadamente com ele. Quanto ao enriquecimento espiritual, pra começo de conversa não existe essa coisa chamada espírito.

Na sua fase produtiva, o capitalismo impõe um culto à produção, à matéria, às transformações das matérias primas em produtos. Esse culto é tão forte que contaminou o próprio comunismo, em suas tentativas falhadas de substituir o adversário. Estatizando o Capital e glorificando o Trabalho, o comunismo perpetuou e ampliou as ladainhas à máquina, à indústria, à produtividade, à transformação da natureza. 

Materialista por definição, o comunismo foi, neste aspecto, uma mutação avançada do capitalismo. Só existe o que é “material”.

O que destruiu o capitalismo e vai destruir o mundo (não se enganem) é o estágio seguinte, em que a Matéria cede lugar ao Símbolo. 

O capitalismo deixa de ser concreto e passa a ser abstrato. Já não conta mais quantas moedas de ouro você possui, e sim quantos zeros você acumula em suas contas bancárias. 

O Capitalismo Financeiro sucedeu ao Capitalismo Produtivo e começou a tirar milhões de coelhos virtuais de dentro da inesgotável cartola das manipulações bancárias. É irônico que um sistema de pensamento tão voltado para o que é sólido tenha se desmanchado no ar com tanta facilidade; e que as “águas glaciais do cálculo egoísta” tenham se evaporado nessa neblina impalpável, nessa nuvem dos trilhões de dólares inexistentes que são negociados todos os dias nos mercados mundiais. 

Trilhões de zeros que bancos, empresas e países vendem, compram, revendem, emprestam, dividem, partilham, multiplicam, como se esses zeros todos valessem alguma coisa, como se existisse algum lastro produtivo (ouro, prata, grãos, capim, sei lá, qualquer coisa que servisse para algo no mundo real). 

O Capitalismo embebedou-se de Capital, passou a se alimentar não de produção mas de ficções financeiras, como um drogado que deixa de comer e de beber água, para poder continuar se drogando.





2840) Detetives psíquicos (10.4.2012)



(At the European Concert, Seurat, 1887-1888)

A paranormalidade é uma zona crepuscular entre a ciência e as doutrinas espiritualistas. Envolve uma quantidade enorme de fatos extraordinários (telepatia, precognição, psicometria, clarividência, etc.), para os quais a ciência ainda não tem explicação. As doutrinas espiritualistas os explicam com a sua hipótese padrão, a de que os seres humanos possuem uma alma que sobrevive à morte do corpo físico e é capaz de se comunicar com os vivos, em circunstâncias especiais. Os dois grupos trabalham com critérios e parâmetros diferentes, e cada um recusa os parâmetros do outro. É como aquela discussão entre um cosmólogo e um bispo, em que o cosmólogo se queixou de que ninguém era capaz de provar cientificamente a existência de Deus. O bispo retrucou que ninguém conseguira provar teologicamente a existência do Universo. (Talvez o bispo não estivesse bem informado, porque me parece que muitos dos filósofos cristãos aceitam, sim, a existência do Universo – se bem que como um efeito colateral da existência de Deus.)

Teorias à parte, o que existe é um impressionante acúmulo de fatos paranormais. Como não há explicação científica para eles, muitos cientistas tentam desqualificá-los com acusações de charlatanismo, auto-sugestão, alucinação, coincidências, histórias mal contadas, testemunhas não confiáveis, etc. Colin Wilson é um dos mais dedicados pesquisadores desses fatos, conhecido dos leitores brasileiros, nessa área, pelo ótimo O Oculto (Ed. Francisco Alves). Estive relendo The Psychic Detectives (1984), em que ele examina a paranormalidade em geral e depois se concentra na atividade dos detetives psíquicos, indivíduos a quem a polícia recorre quando não consegue elucidar um crime ou localizar uma pessoa desaparecida. Esses “psíquicos” (a palavra em português é apenas adjetivo, mas em inglês é usada também como substantivo, designando a pessoa que tem essa capacidade) são capazes de “ver” flashes do crime apenas pegando numa peça de roupa, numa fotografia, num papel manuscrito ou em qualquer objeto que tenha estado em contato com ela. Às vezes basta-lhes olhar um mapa para indicar com precisão o local do crime ou o local onde a vítima foi oculta.

Wilson compara esses psíquicos a concertistas musicais, e diz: “Esse nível de habilidade é mantido por uma prática constante, esforço constante; até mesmo um grande pianista sabe que precisa praticar várias horas por dia. Uma das razões pelas quais os psíquicos são muito mais erráticos do que os pianistas é, sem dúvida, que eles tendem a ser preguiçosos a respeito do seu dom, aceitando-o como algo natural, que não precisa ser desenvolvido”.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

2839) Ching e Kong (8.4.2012)



(Liou Seng-Sen e Liou Tang-Sen, 1903)

Irmãos siameses, unidos por uma faixa abdominal. Quando tinham seis meses de idade deram entrada no Centro Cirúrgico do Hospital Central de Beijin para serem separados (a ciência da época já dominava essa técnica). Os médicos não conseguiram, porque os gêmeos resistiram a doses elefantinas de anestésico, permaneceram acordados, e pulavam tanto que os médicos acharam mais prudente adiar a cirurgia. Quando completaram um ano, foi feita nova tentativa, mas uma médica começou a chorar quando viu os dois (mais uma vez despertíssimos, depois de litros de Nembutal) abraçarem-se um ao outro, fazendo que “não” com a cabeça. Os pais (que planejavam doar um e ficar com outro) tiveram que se resignar, mas a essa altura uma estação de TV já estava comprando a briga e criou um reality show baseado na dupla.

Uma bateria de testes revelou aos cientistas algo que os pais já tinham percebido, ou seja, que os meninos eram anormalmente inteligentes, sendo que Ching era metódico, paciente, com aptidão para as matemáticas, e Kong era um capeta indomesticável (tinha sido ele o escolhido para doação). Quando começaram a andar, era Kong quem arrastava o irmão para as travessuras e pequenas surtidas de vandalismo doméstico, e era Ching que depois relatava tudo aos pais, mesmo sofrendo beliscões e cusparadas. Tornaram-se adolescentes por entre bebedeiras e meditações zen. Só namoravam garotas grandalhonas, uma de cada vez (achavam obsceno sair com duas). Câmaras os acompanhavam à distância (Kong não gostava delas e especializou-se em alvejá-las com bodoques, e depois com armas de ar comprimido). Não frequentaram escolas; uma multinacional custeou seus estudos. Eram imprevisíveis: nas aulas de literatura Ching dedicava-se aos Surrealismo e à poesia beat, e Kong logo tornou-se um expert em Emily Dickinson.

Aos 31 anos apaixonaram-se pela Dra. Musatra, uma bióloga da Nova Guiné que criou uma ONG apenas para estudá-los. A doutora percebeu que com o passar dos anos a faixa abdominal que os unia estava se tornando mais curta, o que ameaçava a vida dos dois. Numa manobra audaciosa ela os raptou do Hospital Central de Beijin, onde viviam até então. Passaram-se dois anos de buscas e investigações até que a Dra. Musatra foi localizada, sob nome falso, num centro médico de Durban. Ali, ela apresentou seu marido Chong, e provas irrefutáveis (com copioso material audiovisual) de que nos dois últimos anos os dois irmãos tinham se fundido um ao outro, transformando-se numa única pessoa. A comunidade científica rejeitou as provas irrefutáveis, pôs o casal em prisão domiciliar e procura até hoje os irmãos desaparecidos.

sábado, 7 de abril de 2012

2838) Habilidades obsoletas (7.4.2012)

Este saite, Obsoleteskills.com (http://obsoleteskills.com/skills/skills), é uma simples lista de habilidades que desapareceram ou estão em vias de desaparecer do nosso mundo, em geral por causa da substituição de uma tecnologia por outra mais nova. 

A lista é longa e heterogênea, e mistura desde alguns herméticos segredos de processamento de dados ou de programação de computadores, envolvendo sistemas ou linguagens que não se usam mais, até bobagens cotidianas. Mas são muito úteis, por exemplo, para quem quer escrever um conto ou romance ambientado 10 ou 20 anos atrás. 

Tendemos a esquecer (ou no caso dos mais jovens, a não saber) como se faziam tais e tais coisas naquele tempo. Um leitor ou crítico mais perspicaz pode captar num segundo esses anacronismos ou erros de continuidade, cada vez mais numerosos num mundo que muda depressa. 

Cada item tem uma ficha onde se registram os seguintes aspectos: Área (ciência, arte, moda, etc.); Época em que se tornou obsoleto; Tornado obsoleto por (a tecnologia que o suplantou); Conhecimentos requeridos; Em que situações era útil; e em seguida comentários. 

Algumas habilidades estão mesmo em desuso, e sugiro ver os itens “Mumificação”, “Caçar um Mamute Peludo”, “Pintar paredes de caverna”, etc. Mas outros fizeram parte da minha vida: “Hifenizar palavras e justificar a margem direita ao datilografar”, “Preencher cartões no arquivo de uma biblioteca”, “Encher uma caneta no tinteiro”, “Ajustar o horizontal e o vertical de um aparelho de TV”, “Rebobinar o filme ao devolvê-lo na locadora”, “Datilografar ponto de exclamação” (digitava-se um apóstrofo, dava-se o retrocesso, e digitava-se um ponto embaixo dele), “Usar uma esferográfica para rodar fita cassete frouxa antes de pôr pra tocar”... 

Aos poucos estamos entrando num mundo em que não se usa mais “Amolar navalhas”. Somente os filmes mudos nos lembram que um dia foi preciso saber “Dar partida no carro com uma manivela”. Creio que muitos marinheiros ainda sabem “Usar um sextante”, mas fora da Marinha ninguém sabe nem o que é isso. 

O mais interessante é o fato de que, se estamos ficando burros por um lado (desaprendendo coisas) estamos ficando inteligentes (e aprendendo) pelo outro. O ser humano é adaptável. Eu já traduzi dezenas de laudas por dia usando um computador em que para escrever “í” tinha que apertar “Ctrl + 131”, e as outras vogais acentuadas eram Ctrl+197, Ctrl+135... Eu fazia isso com uma velocidade que espantava as pessoas, e agora nem lembro mais como era. 

O ser humano é plástico, flexível, maleável, adaptativo. Daqui a 20 anos estaremos dominando habilidades que não somos sequer capazes de imaginar.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

2837) Por que Deus (6,4,2012)



(Zeus e Tétis no Monte Olimpo, por Ingres, 1811)

“Os pobres precisam de Deus” (disse-me Zezim Lourenço, dono de uma birosca na favela do Gaiamum), “porque ser pobre é viver em carne viva e com nervo exposto. Deus é um lubrificante espiritual para reduzir as esfoladuras do Ser. Precisamos de Deus como da aspirina, da vaselina, do tylenol. Num mundo onde ninguém nos responde, nada melhor que alguém de quem não esperamos respostas, apenas um ocasional milagre. Mais que isto: num mundo manipulado por potestades invisíveis que do dia para a noite fazem desabar catástrofes inesperadas sobre nossas cabeças, nada melhor do que crer numa criatura benigna capaz do mesmo, mas ao nosso favor. Deus é o raio que a harmonia do Universo fará cair do céu na cabeça do mau vizinho”.

“A classe média precisa de Deus” (disse-me Léa Rubião, dona de uma confecção de roupa infantil na Praça da Redentora), “por necessitar de força de arranque, de empuxo, de impulso de ascendência vertical rumo às coberturas do planeta. A classe média é a única que conta apenas consigo e depende apenas de si. Precisa de uma rede protetora por baixo dos trapézios econômicos entre os quais se joga; de um advogado que justifique seus ocasionais maus passos; de um treinador que a incentive aos berros rumo a marcas cada vez maiores; de um padrinho todo-poderoso que lhe sussurre ao ouvido: Vá, minha filha, enriqueça e deixe as teorias comigo”.

“Os ricos precisam de Deus” (disse-me Zse Zse Montanardi, viúva do ministro Junqueira), “para dar uma textura inconsútil às suas experiências sensoriais. Precisa de um diapasão cósmico harmonizando seus sonhos e seus prazeres, precisa de um Abstrato com inicial maiúscula. Não o vemos com pasmo e reverência, mas com paternalismo, e um confortável aconchego. O mundo material é nosso, e quem nos impede de com um estalo de dedos criar um mundo espiritual que também o seja? Ting-ling-ling! Tocamos uma campainha cósmica e Deus apareceu. Deus é um mordomo a quem delegamos o que não nos interessa”.

“Os intelectuais precisam de Deus” (disse-me Julio Weissenberg, entre baforadas de cachimbo, no recolhimento de sua biblioteca no condomínio Alephville) “porque precisam de desafios à sua altura. Que desafio maior do que provar o improvável, racionalizar o absurdo, dar nó em pingo dágua, algemar a cobra, extrair a raiz de menos um? Para o intelectual Deus é a soma entre a pedra filosofal, a quadratura do círculo, o moto perpétuo e a teoria do campo unificado. O simples fato de Deus não existir demonstrou a necessidade de inventá-lo para preencher sua própria ausência. Porque não seria justo passarmos milênios acumulando tanta pólvora e não termos um fogo capaz de consumi-la”.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

2836) Intuição (5.4.2012)




(Brian Eno)

A intuição é um recado instantâneo do inconsciente para o consciente, dizendo: “Esqueça como estava fazendo, faça assim”. 

Descrever o processo desta maneira mostra as terríveis limitações da nossa linguagem. A primeira delas, e uma das mais graves, é tratar dois conjuntos de processos como se fossem pessoas: o Sr. Inconsciente Ferreira da Silva é um senhor idoso, de óculos, cara de intelectual, enquanto que o Sr. Consciente Araújo dos Santos é um rapaz de 30 anos, ansioso, magro, jeito de workaholic. Quanto o mais jovem está estressado demais, o mais velho vem em seu socorro... Não, não é bem assim que as coisas acontecem.

Talvez cada um deles se assemelhe não a uma pessoa, mas a um escritório cheio de gente atarefada, trabalhando em grupos de dez pessoas, que se desmancham e se reagrupam em blocos de cinco ou de vinte, os quais logo se desfazem e voltam a se organizar em outras formações, tudo isto visto através daquelas câmaras aceleradas que reproduzem em alguns segundos algo que levou horas para acontecer. 

Talvez seja assim a mente humana. E de repente no andar térreo, o que recebe as visitas (o Consciente) chega correndo, esbaforido, um sujeito do sótão ou do porão (o Inconsciente), com um recado urgente: “É para cortar a comparação com pessoas e usar escritórios!”. Alguém do escritório do térreo pode até perguntar: “Como assim, escritórios?! Por que?”. Mas o mensageiro também não sabe; fica sendo escritórios mesmo, e acabou-se.

O compositor e produtor musical Brian Eno afirmou (http://bit.ly/wo8kaR) que a intuição e a lógica não são necessariamente conflitantes. A intuição é uma avaliação de nossas experiências passadas e de outras referências, mas feita de modo tão rápido que não percebemos, porque o foco de nossa atenção está voltado para outro ponto qualquer. De repente, o resultado surge pronto. 

O que ocorre (agora sou eu que estou falando) é que muitas vezes a lógica está tocando a campainha há duas horas, sem que ninguém atenda, e a intuição cochicha: “Empurra a porta pra ver se não está aberta”. Às vezes está; às vezes não. Nossa mente é como um rio largo que vai fluindo numa única direção quando o terreno é desimpedido, mas quando encontra um terreno montanhoso ele se subdivide em vários braços, cada um procurando caminho por uma trajetória diferente.

Diz Eno: 

“A intuição não é uma voz quase mística que vem de fora e fala através de nós, mas uma espécie de processamento rápido e imperfeito de nossas experiências prévias. Esse instrumento produz às vezes resultados impressionantes a grande velocidade, mas é bom lembrar que de vez em quando pode estar totalmente equivocado”.





quarta-feira, 4 de abril de 2012

2835) Dicionário Aldebarã IV (4.4.2012)




O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres. Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura. Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Otumburã”: estilo de música folclórica em que letra e música são improvisadas livremente, desde que repitam trechos melódicos tradicionais, à guisa de refrão. “Ammau”: teclado que projeta e mistura luzes coloridas em formas abstratas, arte muito apreciada pelos aldebarãs, principalmente nas noites nubladas. “Umblô”: festa popular em que cada pessoa da aldeia se veste e se caracteriza como outra, e cada participante fica tentando adivinhar quem é o homenageado de cada um. “Liargen”: o hábito de, ao ir embora, deixarmos pequenos presentes escondidos na casa onde fomos recebidos como hóspedes.

“Mung”: pequena bolsa ou saquinho de pano onde os aldebarãs guardam as sementes das frutas que comem, para semeá-las depois em qualquer terreno. “Nuspemp”: quadro-mural existente nos quartos de hotel, onde os aldebarãs deixam fotos, frases, comentários para serem vistos (e levados embora) pelo próximo hóspede daquele quarto. “Zuim-zum”: sistema de pequenas portinholas nas paredes e no teto que, ao serem abertas ou fechadas em múltiplas combinações, mantêm ventilação permanente nas casas dos aldebarãs. “Stinchars”: edifícios horizontais que se acomodam às ondulações do terreno, de modo que nas partes onde o terreno se eleva o prédio tem apenas um andar, e nos vales chega a ter seis ou sete.

“Varkonks”: pequenos batráquios onívoros que durante as refeições são colocados em baixo e em volta da mesa, mantendo o chão escrupulosamente limpo. “Farginny”: arte vegetal com múltiplos enxertos superpostos num mesmo tronco produzindo efeitos cromáticos, aromáticos, etc. “Ollikonks”: bebida gasosa dos trópicos, que a cada gole dá a sensação de beatitude absoluta durante meio minuto, mas o efeito se dissipa e produz amnésia, e a pessoa bebe mais. “Amahliam”: a sensação que temos ao colocar na boca um copo ou xícara e constatar que a bebida está na exata temperatura ideal. “Kerfash”: echarpes finíssimas que as mulheres aldebarãs usam, com cores indicando o seu estado de espírito (levam várias na bolsa para trocar durante o dia). “Rundelph”: os cinco dias mensais de trabalho voluntário não remunerado que todo aldebarã pratica nas comunidades pobres. “Lumielm”: ceias periódicas de confraternização entre amigos em que, no final, cada um se ergue e explica aos demais o que está comemorando.

terça-feira, 3 de abril de 2012

2834) Chico Anysio (3.4.2012)



O humor popular brasileiro tem camadas que foram se superpondo ao longo dos anos, cada uma delas alimentando-se das mais antigas. Primeiro veio o circo (vou logo avisando que esta cronologia é totalmente arbitrária e sem comprovação empírica). Depois veio o teatro, que se tornou uma espécie de circo oficializado (me refiro ao teatro de comédia, ao teatro de revista, ao teatro de humor musical, etc.). Depois veio o rádio, que arrebanhou seus redatores e atores do meio teatral e circense, onde estavam as pessoas que sabiam dizer coisas engraçadas e fazer vozes engraçadas. Depois veio o cinema, com as chanchadas cariocas e as comédias matutas paulistas, tipo Mazzaropi. E por fim veio a TV, que começou como uma espécie de rádio filmado, teatralizou-se à medida que pôde investir no visual, botou o cinema no bolso e acabou atingindo a maioridade como linguagem. Chico Anysio fez parte dessa maioridade, expandindo sua dramaturgia de esquetes e de tipos populares à medida que a TV incorporava novos recursos e novas linguagens.

Chico sempre se cercou de bons redatores (tiremos o chapéu ao finado Arnaud Rodrigues!). Até Lula Queiroga já escreveu para ele. Muita gente do público pensa que um humorista inventa todas as piadas que diz, o que é o mesmo que pensar que todo cantor compõe tudo que canta. Redator de humor é uma profissão ainda mais invisível do que compositor de música popular. Do famoso Bob Hope conta-se que estava na sala de redação quando um dos escritores levantou-se e foi saindo. Hope perguntou onde ele ia, o cara respondeu que ia no banheiro. E ele: “Pode ir, mas continue pensando”. Inventar piadas é um ofício torturante. A piada pode ter um milhão de qualidades: ser original; ser bem escrita; tocar em assuntos importantes; surgir no momento oportuno; etc. Mas se lhe faltar essa única qualidadezinha (ser engraçada), babau tia Chica.

O talento maior de Chico Anysio era a criação de personagens, onde ele elevou ao quadrado uma característica do humor popular, que é lidar com pessoas que se definem por uma característica central e imutável. Fulano é impaciente; Sicrano é maria-vai-com-as-outras; Beltrano dá trambique em mulher boba... Chico era um ótimo imitador de vozes (nem todo ator-humorista tem esse talento) e superpôs essa qualidade ao cacoete do personagem; em cima disso, colocou visual, figurino, etc. incomuns. Num estalo de dedos, havia um transe mediúnico em que ele “recebia” o personagem inteiro, mal lhe vestia a indumentária. O tipo, o texto, a voz, a roupa: com esse quarteto de elementos ele criou 200 personagens e teria criado 2.000 se não fosse para tão longo humor tão curta a vida.