domingo, 18 de março de 2012

2821) O inferno do plágio (18.3.2012)




Acusado de ter cortado e colado centenas de trechos de dezenas de autores para compor seu romance policial de estréia, Assassin of Secrets (sob o pseudônimo de Q. R. Markham), Quentin Rowan está sendo o plagiador mais em evidência na imprensa mundial. O plágio é uma coisa engraçada. De um modo geral é considerado (pelo menos nos ambientes que eu frequento) um crime vergonhoso, comparável moralmente à delação. E no entanto a maioria das pessoas já plagiou ou já foi plagiada em alguma medida, mesmo nas atividades mais discretas e nos contextos mais obscuros.

Rowan fez uma colcha-de-retalhos com parágrafos alheios, na ingênua esperança de que ninguém achasse familiar alguma dessas frases e fosse checar no livro original. (O que aconteceu, claro.) Faltou-lhe senso prático; fez o que fez numa espécie de delírio manso. Faltou-lhe inclusive um pouco de sofisticação intelectual, porque eu no lugar dele diria que estava fazendo “metaficção”, “mash-up narrativo”, “colagem pós-moderna”, qualquer coisa que me possibilitasse pelo menos bloquear a acusação de plágio e manter o livro nos balcões das lojas. Não seria o primeiro.

Jonathan Lethem, que publicou um artigo sobre plágio consistindo quase inteiramente de frases alheias (com créditos revelados no final), disse sobre Rowan: “Parece que ele fez algo muito mais trabalhoso do que simplesmente sentar e escrever um livro. Compor um texto a partir de outros não é um passatempo de preguiçoso. Falo como quem já fez isto: é uma imensa quantidade de trabalho”. Um dos autores copiados por Rowan, Charles McCarry, escreveu ao seu agente literário: “Hi, Jack. Pobre sujeito: tanto cortar-e-colar, e nenhum prazer de verdade. (...) Pode declarar também: Ele não me causou nenhum mal, e não tenho ressentimento contra ele”.

Pressionado pela obrigação de ser “geniozinho”, Rowan, ao invés de escrever um livro, preferiu o caminho mais tortuoso, mais cansativo, menos lógico, e mais arriscado. Ele diz: “Quando eu era garoto, tinha a sensação de uma expectativa a meu respeito. Era uma dessas coisas estranhas – eu pensava que meus pais ficariam decepcionados se eu me tornasse, por exemplo, um mero cirurgião ou um mero advogado”. A obrigação do sucesso intelectual pesa tanto quanto (ou mais do que) a obrigação do sucesso financeiro.

Rowan é símbolo e sintoma de uma época de bolhas financeiras, quebra do sistema de crédito bancário, etc., uma época em que o mundo ocidental falsificou um cheque e começou a gastar por conta, alucinadamente, porque sabia que a inexistência de fundos não tardaria a ser descoberta. No futuro será reconhecido como o autor emblemático do começo do século 21.

sábado, 17 de março de 2012

2820) Dickens Digital (17.3.2012)



(Charles Dickens no começo da carreira)

Livros de papel ou livros digitais? Até parece o debate na Idade Média sobre a quantidade de anjos que era capaz de dançar na ponta de uma agulha (agora são pixels e bytes). Há partidários eloquentes e extremados de ambos os lados da discussão. Num artigo no Guardian (http://bit.ly/yJfVK9), Henry Porter comenta algumas declarações recentes do romancista Jonathan Franzen, para quem o papel impresso dá uma sensação de continuidade e permanência, enquanto que a tela digital parece conter apenas um texto provisório, que pode vir a ser modificado a qualquer instante. E Porter faz uma comparação com Charles Dickens, cujos 200 anos de nascimento comemoram-se este ano.

Dickens foi, como muito escritores de sua época, um palestrante incansável. Viajava pelo mundo fazendo palestras, para auditórios repletos, porque seus livros eram best-sellers. Foi um desses escritores cujo sucesso popular deixa a crítica de pé atrás, como ocorreu com Balzac, Jorge Amado e tantos outros. Porter comenta: “Nos últimos anos de sua vida, Charles Dickens caiu na estrada para cumprir uma extenuante agenda de leituras públicas, que certamente apressaram sua morte. Na magnífica biografia que fez sobre o escritor, Claire Tomalin descreve como ele se arrastou de auditório em auditório, sozinho exceto pelos personagens que carregava na mente: alquebrado, mal alimentado e mortalmente exausto, mas com uma urgente necessidade de se comunicar com seus leitores. Essas leituras, precursoras das modernas festas literárias, nos lembram que o objetivo primordial de um romancista é entrar em contato com pessoas. (...) Se Dickens fosse vivo hoje, adivinhe quem estaria blogando, tuitando de vez em quando, montando websaites literários, exumando algumas obras antigas e recolocando-as em circulação sob a forma de e-books. Dickens detestava muitos dos seus editores, que ele considerava parasitas preguiçosos e desonestos; e ele ficaria entusiasmado com todas as oportunidades que temos hoje de fazer uma conexão direta entre autor e leitor”.

Escritores são indivíduos, cada um tem seu jeito, sua índole. Não é por terem a mesma profissão que têm a mesma personalidade. Alguns adoram falar em público e dar entrevistas; outros detestam. Alguns querem ter controle total e estrito sobre cada linha que escrevem, e querem controlar cada centavo que entra e que sai; outros querem semear livros à mancheia para atingir o maior número possível de pessoas, e se no meio do processo conseguirem o suficiente para viver com um pouco de conforto, ficarão felizes. Ao que tudo indica, estes últimos sobreviverão melhor, e serão mais felizes, nos tempos que estão chegando.

sexta-feira, 16 de março de 2012

2819) “Drive” (16.3.2012)




Este filme de Nicolas Winding Refn é à primeira vista apenas mais um thriller policial em que indivíduos truculentos praticam roubos e abatem a tiros quem se atravessar na sua frente. Muda somente o ponto de vista, porque agora a história não se concentra nos assaltantes, e sim no motorista. É um piloto de automóvel cheio de recursos e com muito sangue frio, que trabalha numa oficina e de vez em quando faz bico como dublê, em cenas de acidentes com carros. Ele não assalta: apenas se aluga aos assaltantes, com o compromisso de ficar à espera durante o golpe, e depois fugir com os bandidos, deixando-os em lugar seguro. Não pega em armas, não atira, não fica com a grana, a não ser o pagamento combinado pelos seus serviços.

Parece um thriller tradicional, misturando a espetacularidade das perseguições de carros e a trama intrincada, surpreendente, de todas as histórias que envolvem gangsters, uma rapaziada especialista em mentir, enganar, trair, dissimular. História com gangster está sempre sujeita a reviravoltas, porque eles nunca são o que fingem ser, e eles mesmos não sabem quando estão fingindo ou sendo.

Este filme, no entanto, tem menos a ver com o Passado (o thriller tradicional) do que com o Futuro, que são os videogames. Ele absorve de maneira muito eficaz a estética dos videogames, e, para além da estética, aquilo que podemos definir precariamente como o clima, o espírito dos games. Aquela sensação de quem está numa espécie de vácuo iluminado, onde coisas existem mas parecem apenas aparências coloridas e translúcidas, carentes de substância, o que não impede de nesse mundo haver também vida, amor e morte.

Ryan Gosling, que faz o “driver”, tem a inexpressividade de uma estátua da Ilha da Páscoa, e isso é proposital. Ele se comporta do início ao fim (num gestual certamente preparado com infinitos cuidados e ensaios) como um “carinha”, um “avatar” que é manipulado pelo jogador num game. A caminhada rítmica, um tanto mecânica. A violência que irrompe de repente, num frenesi de energia de que aquele corpo apático parecia incapaz. Os gestos entrecortados ou abruptos, o rosto parado enquanto os olhos giram nas órbitas até enquadrar o interlocutor; e então um sorriso deliberado que acontece apenas na boca, a resposta numa voz que parece gravação, e depois o sorriso se desfazendo em retrocesso até o rosto voltar à impassibilidade anterior. É assim que (pelas limitações da computação gráfica atual) os personagens de videogames agem; e é assim que o ator mimetiza esse tipo de ação. Para atrair, seduzir e convencer os espectadores para quem o videogame é o Presente, e o cinema o Passado.

quinta-feira, 15 de março de 2012

2818) O 39 e o 24 (15.3.2012)



Um dos cacoetes do pensamento mágico é fazer associações de idéias entre duas coisas não-relacionadas, e, a partir daí, agir como se elas fossem uma só. Vêm daí os dois grandes princípios da magia. Na magia por semelhança, coisas com formato igual ou aparência igual são a mesma coisa, por isso fazer um bonequinho de alguém e espetar-lhe agulhas vai provocar dores naquela pessoa, Na magia por contato, qualquer coisa que esteve em contato íntimo com alguém mantém esse contato mesmo depois de afastada. Simpatias amorosas, p. ex., exigem, para fazerem efeito, uma cueca, uma raspa de unha, um cacho de cabelo da pessoa.

Um princípio menor, mas interessante, é o que faz associações desse tipo com números, o que é um problema sério, porque número é um negócio danado pra reaparecer no caminho da gente. Em chinês, por exemplo, o som do número “quatro” parece com o da palavra “morte”, daí que os chineses fazem verdadeiras ginásticas para evitá-lo. Muitos prédios na China, por conta disto, não têm quarto andar – como muitos nos pragmáticos Estados Unidos não têm o 13o.

Fiquei sabendo de uma ótima que ocorre com o número 39 no Afeganistão. Numa cidade qualquer havia um cafetão cujos serviços prostitucionais eram contratados através de telefones onde sempre aparecia o número 39. O 39 ficou com péssima reputação; há movimentos para não comprar carros em cuja placa ele apareça, casas com essa numeração, etc. O número é desagradável; dá azar. Nos colégios, alunos a quem cabe esse número são vítima de ridicularização e bullying. Recentemente, um encontro político oficial teve que pular o 39 ao enumerar os comitês de discussão técnica. O líder religioso Ataula Fawzi protestou energicamente: “Se as autoridades que representam o povo afegão atuam desta maneira diante da comunidade internacional, o que se pode esperar de um taxista ou comerciante iletrado?"

Ridículo? Nem tanto, amigos. É a mesma sina do número 24 em nossa cultura, que devido ao jogo do bicho ficou associado ao veado, e este (por motivos que nunca entendi) ao homossexualismo. O tempo todo vejo gente evitando o assento 24, o quarto 24, a senha 24... Ter esse número como símbolo do homossexualismo é uma coisa arraigada em nossa mentalidade de rua. (Diga-se de passagem, só homem dá atenção a isso, nunca vi uma mulher prestar atenção nesse número.) Na minha infância, um dos momentos culminantes do rito-de-passagem do primeiro dia de aula era a primeira chamada, quando aguardávamos, com excitação crescente, a quem caberia o número maldito, e consequentemente a vaia, os impropérios, as casquinadas escarninhas, o opróbrio, o vitupério, a desmoralização.

quarta-feira, 14 de março de 2012

2817) A máquina e as peças (14.3.2012)




Vi recentemente A Invenção de Hugo Cabret, filme que me trouxe de volta à obra de Martin Scorsese, diretor que admiro mas cujos últimos filmes não me dei o trabalho de ver. Hugo Cabret é uma homenagem ao cinema antigo e ao artesanato mecânico. Pensando no modo como ele mostra o lado humano das máquinas, lembrei destas dicas deixadas por ele numa entrevista, para os jovens cineastas.

“1) Escolha uma profissão pela qual você tenha um amor eterno, e mergulhe totalmente na sua arte. 2) Dentro da sua área de interesse, torne-se um historiador das conquistas passadas dos indivíduos que ajudaram a fazer a indústria evoluir. 3) Use os estilos e os padrões dos que praticaram esse ofício no passado e no presente, para formar uma base sólida”.

Estes três princípios parecem uma descrição do filme Hugo Cabret: a luta dos personagens para consertar uma máquina que se quebrou, para encontrar uma informação que se perdeu, preservar coisas preciosas ameaçadas de extinção, descobrir a função de uma pequena peça aparentemente sem importância. Vemos também um filme que em plena sofisticação tecnológica do 3-D digital não deixa de nos lembrar que um recurso assim é tão ingênuo (e talvez seja tão duradouro) quanto o susto dos primeiros espectadores do cinema ao verem o trem se aproximando na tela. Scorsese faz paralelos explícitos das aventuras de Hugo com as acrobacias e “lições de abismo” de Harold Lloyd, com as aventuras ferroviárias de Buster Keaton.

Scorsese usou seu dinheiro e seu poder no cinema norte-americano para trabalhar pelo cinema antigo e pelo Cinema de Arte, independentemente de sua nacionalidade. Já vi várias entrevistas suas, por exemplo, colocando nas alturas um cineasta como Glauber Rocha – ou seja, alguém cujo cinema era praticamente uma destruição, uma vandalização do cinema de Scorsese. Sua empresa The Film Foundation (http://bit.ly/c8kc8h) tem restaurado dezenas de filmes que sofreram diferentes tipos de cortes, remontagem, deterioração, etc. Scorsese aconselha, em suas dicas: “Embora você deseje apaixonadamente criar uma obra que seja autenticamente sua, reconheça que você é apenas uma peça num grande quebra-cabeças. Sua obra é criada a partir dos que vieram antes de você. E as futuras gerações de criadores vão construir a obra deles em cima do legado que você lhes deixar. É como diz no filme o menino Hugo Cabret: “Eu percebi um dia que o universo é completo, não vem com peças sobressalentes. No universo não há nenhuma peça sobrando, tudo tem uma função. Isso me deu a certeza de que eu também tenho uma função no mundo, estou aqui para ser importante em algum aspecto”.

terça-feira, 13 de março de 2012

2816) Moebius (13.3.2012)




Faleceu dias atrás o grande Jean Giraud, conhecido como Moebius, um dos maiores quadrinhistas da minha memória afetiva. Conheci os desenhos de Moebius nas páginas da antiga revista Heavy Metal (que na França se chamava Métal Hurlant), e depois ele começou a pipocar no cinema, ou assinando séries próprias de histórias em quadrinhos. Meus preferidos são O Incal, com argumento de Alejandro Jodorowski, e A Garagem Hermética de Lewis Carnelian: space-operas que correspondem a um conceito proposto por Brian Aldiss, “barroco cinemascope” (“widescreen baroque”): tramas calidoscópicas em imagens gigantescas, fervilhantes de detalhes que vão do mais cientificamente plausível ao mais surrealistamente improvável. Paisagens urbanas captadas em alucinantes planos gerais repletos de personagens, gadgets, objetos, formas não-identificáveis, uma proliferação de detalhes cuja exuberância foi aprendida e expandida por outros desenhistas depois dele. Situações que mesclam folhetim e desenho animado, com personagens de romance-de-Legião-Estrangeira envolvidos em aventuras intergalácticas.

Moebius foi um desenhista capaz de começar uma história mostrando um astronauta numa paisagem bizarra... Está perdido... Aproxima-se um veículo... Descem três criaturas bizarras (cada uma diferente das outras)... Há um diálogo banal de motorista com caroneiro... Vão parar num bordel submarino ou num tiro-ao-alvo subterrâneo... E a história vai avançando meio sem propósito, meio sem enredo. Percebemos então (vi depoimentos confirmando isso) que Moebius desenhava a história quadro a quadro, sem saber o que iria acontecer no quadro seguinte. Isso dava a essas histórias um clima meio philip-k-dickiano, aquela sucessão de pequenos espantos diante do insólito, porque o próprio autor está se espantando com o que lhe vem à cabeça e à caneta.

Outra obra inesquecível é Les Maitres du Temps (1982), desenhado por ele e dirigido por René Laloux, adaptando um romance de FC de Stefan Wul chamado, na edição portuguesa da Coleção Argonauta, O Vagabundo das Estrelas, uma bela história de aventuras e de paradoxo temporal. Moebius tem aquele charme indefinível de grande parte da FC francesa, que sabe misturar, à imaginação delirante da pulp fiction, questões políticas, metafísicas ou filosóficas, coisas que assustam os norte-americanos mas os franceses tratam com a naturalidade de quem saboreia um croissant. Os franceses (Moebius é simbólico disto) nunca levaram muito a sério a colonização da galáxia (que os EUA até hoje creem ser possível). Para Moebius, de maneira exemplar, a FC estava mais próxima de André Breton do que de Wernher von Braun.

domingo, 11 de março de 2012

2815) Os Vendilhões do Tempo (11.3.2012)





Será sempre assim em todos os lugares, em todas as eras? As mais nobres aspirações da Filosofia e da Ciência deverão sempre acabar se curvando diante da cupidez humana, da cobiça burra? Será que a única utilidade de nossas funções mentais mais elevadas é a satisfação de instintos rudimentares, sem a qual não sobrevivemos, ou, pior, sem a qual não somos felizes? 

Cruzo a Praça da Bandeira sem nada para fazer neste interminável domingo de sol. Desempregado, divorciado, sozinho, esnobado pelos falsos amigos, vivendo de dinheiro emprestado pela dona da pensão.

Na praça as cabines se enfileiram, e junto de cada uma um malandro de boné. Vou me aproximando e ouço o pregão. 

-- Um dia no Dilúvio, segurança total, local com abrigo!

Vou passando. 

-- Assassinato de Kennedy, chefia! Gramado, armazém ou coreto! Binóculo grátis!. 

Penso nos quatro Prêmios Nobel sucessivos para as equipes de Weinsberg, Nakamura, De Sotto; na revolução que poderíamos ter realizado nas interpretações da História, num entendimento mais profundo das dinâmicas sociais, no contato tete-a-tete com homens e mulheres de um estofo moral e intelectual superior ao nosso. 

Ao invés disso, o que criamos? Esse varejo insuportável de vans temporais, de táxis-bandalhas que não fazem outra coisa senão costurar o “continuum” com o ir e vir de analfabetos funcionais que pensam estar se tornando mais alguém pelo simples fato de poderem passar algumas horas na corte de Luís XIV (sem entender uma palavra do que se conversa lá, diga-se de passagem, e sem suportar a fedentina) ou de ver Carlos Gardel cantando ao vivo numa biboca de esquina, só para voltarem a Campina Grande e dizerem que ele “está cantando cada vez melhor”.  

Foi para isto que demos um nó-moebius nas leis da natureza? Que sacrificamos a evolução natural do mundo civilizado, ficando assim como estamos hoje, congelados num eterno presente, marcando passo, deixando de ganhar centímetros de futuro simplesmente porque temos disponíveis milhões de léguas de um passado ininteligível para visitar?

Chego na ala do comércio estatal. O gordinho de camiseta anuncia: 

-- Batalha dos Guararapes! Programa educacional! Traga a família inteira, inclusive a sogra, nunca se sabe o que pode acontecer! 

Pra que serve meu PhD em Fractalismo Quântico? O mundo virou um camelódromo de turnês instantâneas, turismo dos sem-noção. Suspiro, paro na última cabine, uma mulher magra berra no megafone: 

-- Duas horas no Baile da Ilha Fiscal! -- Pergunto quanto, ela diz: -- Dois trilhões e meio de brasilreais, tá na promoção! 

Conto minhas moedas, estendo para ela: 

-- Se eu não quiser voltar, não insista.










sábado, 10 de março de 2012

2814) Policiais e detetives (10.3.2012)




(Agatha Christie)

O romance policial evoluiu em dois troncos paralelos, que têm pouco a ver um com o outro. De um lado, a linha intelectual, onde o assassinato é um enigma que precisa ser resolvido pela inteligência de um detetive que, em geral, não faz mais do que olhar a cena do crime, conversar com os suspeitos, pensar bem muito e depois dizer quem foi (autor típico: Agatha Christie). Do outro lado, a linha ativista, em que o detetive interroga suspeitos de modo anticonvencional, vai pra cama com as suspeitas, dá porrada a torto e a direito, e no fim esbarra por acaso com o criminoso e o executa a tiros (autor típico: Dashiell Hammett).

Por isto há tantos mal entendidos quando alguém diz: “Você me sugere algum livro policial?”. É preciso saber do que o outro gosta, porque em ambos os subgêneros há coisa muito boa e muita coisa ruim. Por exemplo: hoje em dia a crítica não suporta nem as elucubrações intelectuais de S. S. Van Dine nem a truculência de Mickey Spillane.

Alguns autores corajosos tentem de vez em quando misturar os dois tipos de narrativa. Philip Marlowe, o detetive de Raymond Chandler, faz o tipo inteligente e durão. O que impede de classificá-lo totalmente na linha dos intelectuais é o fato de que as histórias de Chandler são mais realistas do que as de Agatha Christie, ou seja, são histórias desorganizadas, em que as pessoas praticam atos meio gratuitos, esquecem-se de algo, interferem sem querer nas ações dos outros, de modo que deduzir os crimes cometidos por elas envolve sempre uma margem enorme de pressuposições, de raciocínios incompletos e argumentos tipo “não sei por quê, mas só pode ter acontecido assim”.

Quanto mais intelectualizada uma história policial, ou seja, quanto mais amarradinha for a narrativa em termos de pistas, oportunidades, deduções e explicação do crime, menos realista ela é, porque as coisas raramente acontecem assim na vida real. Ler livros sobre crimes reais é sempre muito educativo para comparar com esse tipo de literatura, porque na vida real os crimes são mal-feitos, mal planejados, mal executados, feitos de improviso, no calor do momento e dos acessos de fúria. Por outro lado, os crimes planejados e executados com precisão requerem para isto uma mente patologicamente fria, intelectual. O romance policial intelectualista tem expandido nestas últimas décadas um subgênero importante: romances onde os detetives precisam reconstituir e entender a personalidade de um serial killer. O serial killer tornou-se o vilão preferencial dos nossos tempos. Uma figura composta, em partes iguais, de inteligência excepcional, egoísmo, sadismo, desprezo patológico pela vida humana.

sexta-feira, 9 de março de 2012

2813) A mão de tinta (9.3.2012)




(Ezra Pound, por Wyndham Lewis)


Existe hoje um frenesi de novidade, de originalidade, de ter que estar todo dia fazendo alguma coisa pela primeira vez. Não nego a importância da primeira vez. Tudo tem que nascer em algum ponto, tem que começar em algum ponto. Mas a segunda vez é tão importante quanto a primeira. 

Lembram daquele lugar comum da crítica, “o segundo disco (filme, romance) é mais difícil de fazer do que o primeiro”? Se é mais difícil (e muitas vezes é mesmo) é porque essa segunda vez pede alguma coisa que a primeira não pôde dar, e não poderia.

Muitas coisas na cultura são como a pintura de uma casa, onde geralmente não basta dar uma mão de tinta, tem que dar depois a segunda, a terceira. À tinta não basta estar ali, precisa estar ali com mais peso, mais espessura, não só para não largar, como também para que sua luminosidade e sua cor sejam vistas com mais firmeza. 

(Não sabemos, mas quando vemos uma parede bem pintada vemos essas várias camadas sobrepostas de cor, umas através das outras, porque a luz as atravessa e se reflete várias vezes simultâneas por entre elas.) 

A segunda mão de tinta vem para salvar a primeira, a terceira vem para salvar a segunda. Como o tempo deixamos de perceber que são muitas, parecem uma só, e a intenção é esta.

De modo parecido, nas artes e nas culturas as coisas têm que ser ditas muitas vezes e por muitas vozes. Quanto mais pessoas aderem a uma nova forma de dizer, mais espessa e mais visível ela vai ficando, muito mais do que se tivesse se limitado à contribuição daquele criador solitário. 

O que seria a Bossa Nova se tivesse tido apenas João Gilberto, o Cinema Novo se tivesse tido apenas Glauber Rocha, o baião se tivesse tido apenas Luiz Gonzaga? Cada artista que se deixou contaminar pela obra destes e criou sua própria obra seguindo seus passos deu uma mão de tinta a mais no que estava sendo feito.

É por isto que os chamados movimentos estéticos (Cubismo, Nouvelle Vague, Surrealismo, Folk-Rock, Expressionismo, etc.) se impõem com mais solidez na História. São compostos de um gesto inicial de um Inventor (no sentido que Ezra Pound usava: o que cria formas novas de fazer) e de gestos consecutivos de Mestres (o que não inventa, mas consegue fazer aquilo talvez até melhor do que o Inventor). 

Quando a crítica se queixa de que “todo mundo agora está indo na onda de Fulano” pode até exprimir um descontentamento legítimo diante de obras medianas e pouco inventivas, mas não deve fechar a porta a essas novas contribuições. Quem vai ajudar a fixar na memória do tempo a obra de Fulano são aqueles que tentaram suplantar Fulano num momento em que todos estavam mergulhados num impulso único pelo novo.






quinta-feira, 8 de março de 2012

2812) Dickens e os piratas (8.3.2012)




Este ano, comemoram-se os 200 anos de nascimento de Charles Dickens, que talvez tenha sido, no auge da carreira, o escritor mais popular do mundo. Dickens escreveu folhetins que emocionavam milhões de leitores, descrevendo a vida das classes pobres inglesas. Seu estilo era vívido, coloquial, comunicativo, e ao mesmo tempo cheio de riquezas barrocas e de trechos meio delirantes. Sua imensa popularidade tem sido lembrada com relação a assuntos da literatura atual. Uma matéria de Simon Watts no saite da BBC (http://bbc.in/xIsGIL) lembra a primeira turnê de Dickens pelos EUA, em 1842, quando ele passou cerca de seis meses viajando pela América do Norte, fazendo conferências e leituras públicas de suas obras, sendo recebido em banquetes, etc.

Foi uma passagem turbulenta. Apesar dos bailes e das homenagens, Dickens decepcionou-se várias vezes com a grosseria dos norte-americanos, seus hábitos à mesa, seu comportamento em geral, como o hábito de mascar tabaco e cuspir em qualquer lugar. Um dos aspectos mais polêmicos da visita foi a tentativa do escritor de resolver os problemas de pirataria das suas obras. Naquele tempo, não existiam acordos editoriais internacionais, e os livros de Dickens vendiam milhares de exemplares nos EUA em edições piratas. Dickens tentava abordar o assunto em suas palestras, enfatizando a necessidade de uma lei de direitos autorais.

Dickens tentava proceder com tato. Afirmou que uma lei anti-pirataria ajudaria aos autores norte-americanos tanto quanto a ele próprio, e disse que “eu preferiria receber a admiração afetuosa dos meus semelhantes do que amealhar montanhas de ouro”. Dickens percebeu, pelas multidões que acorriam às suas conferências, e pela enorme cobertura dos jornais à sua visita, que se naquele país houvesse pagamento de direitos autorais pelos seus livros ele poderia facilmente duplicar o seu faturamento. Mas a reação era irritada. O “New York Courier and Enquirer”, o jornal mais popular da época, disse: “Estamos mortificados e entristecidos pelo fato dele ter praticado tamanha indelicadeza e impropriedade. Toda a imprensa do país estava pronta para fazer sua louvação, mas ele insistiu junto aos presentes para que não apenas fizessem honra ao seu gênio, mas também para que se preocupassem com sua bolsa”. O clima não foi desanuviado quando se tornaram bem claras, para os entrevistadores, as posições pró-abolicionistas de Dickens, para quem a escravidão negra era desumana e absurda, opinião que ele desenvolveu nos últimos capítulos de “American Notes for General Circulation” (1842), seu livro de comentários sobre a viagem.