domingo, 4 de março de 2012

2809) ETs e presidentes (4.3.2012)



(Dwight Eisenhower e um alien grey)

Entre as mil teorias da conspiração que fervem de mundo afora uma das minhas preferidas é a de que a Humanidade já comprovou há muito tempo a existência de extraterrestres e a sua presença na Terra, mas os governos não divulgam essa informação por motivos variados. Ou por um motivo só: existem coisas que a plebe rude não precisa saber. Essa hipótese vai a reboque de casos como o de Roswell, do Triângulo das Bermudas, da Área 51 e outros. Nessas áreas teriam ocorrido os contatos iniciais entre os humanos e os ETs; dali em diante, tudo rolou sob sigilo absoluto. O governo dos EUA, os militares e as grandes empresas (possíveis beneficiárias da importação de know-how interplanetário) seriam os únicos a saber de tudo. Há muitos outros casos, é claro, mas esses são os mais famosos, inclusive porque a mídia dos EUA os considera um chamariz infalível para vender livros, tablóides e DVDs.

Foi divulgado agora um depoimento de Timothy Good, ex-assessor de Dwight Eisenhower, presidente dos EUA de 1953 a 1961. Segundo ele, “o ex-presidente teria se encontrado com seres de outro planeta, na base aérea do Novo México, em 1954, na presença de agentes do FBI”. O encontro teria sido marcado por meio do envio de mensagens telepáticas, como informa o jornal britânico Daily Mail. Eisenhower, um militar durão que teve um papel importante na II Guerra Mundial, o que o levou à presidência, era também um sujeito com um lado místico. Acreditava na vida em outros planetas, e isto contribuiu para que desse apoio ao programa aeroespacial do país. Segundo Good, o ex-presidente se encontrou com aliens de aparência nórdica e depois com outros que diziam pertencer ao grupo chamado "Alien Greys" (seres de corpo acinzentado e aparência ameaçadora). Para encobrir os encontros na época, o governo informou que o ex-presidente estava em uma viagem de férias em Palm Springs, na Califórnia. Segundo o ex-assessor, autoridades do mundo inteiro vêm há décadas mantendo contatos com extraterrestres.

O que alimenta essas crenças todas? Para mim é uma questão de lógica. Se eu próprio fosse presidente e meu país fizesse contato com extraterrestres, a última coisa que eu faria seria comunicar isto à população. Uma revelação desse porte não provocaria apenas um caos social, mas uma total desorientação de propósitos, uma perplexidade, uma celeuma, e isso iria desviar a população dos seus afazeres. É cruel dizer isto, mas a gente sempre acha que certas verdades só podem ser acessadas por uma elite de escolhidos, e a grande massa tem que se consolar com uma versão pacificatória e chapa-branca. Se eu penso assim, que dirá o presidente dos EUA.

sábado, 3 de março de 2012

2808) Dylan e Brecht (3.3.2012)





É um lugar comum da crítica comparar Bob Dylan a Dylan Thomas (por causa do nome) e a Rimbaud (por causa da “persona” rebelde e de alusões diretas feitas por BD). 

Menos usual é compará-lo a Bertolt Brecht, mas para quem conhece a obra dos dois é uma comparação inevitável, porque Brecht tornou famosas as canções de suas peças cantando-as ao violão com voz rascante (dizia que tocava violão “pra pegar mulheres”), e há vários pontos de contato entre a poética de ambos. 

As canções políticas de Brecht influenciaram o Dylan em sua fase de protesto 1962-64; e em todo o restante da obra dylaniana ecoa a lógica impiedosa, a imageria vívida, os paradoxos cruéis e o lirismo plebeu de BB: machista-charmoso, inflexível, rude, atento ao valor sonoro e visual das palavras, chegando ao abstrato e universal através de imagens concretas e inesquecíveis.

Nas canções políticas, para dar um só exemplo basta comparar as 9 implacáveis estrofes de “A Infanticida Marie Farrar” de Brecht:

“Marie Farrar, nascida em abril, menor
de idade, raquítica, sem sinais, órfã
até agora sem antecedentes, afirma
ter matado uma criança, da seguinte maneira:
diz que, com dois meses de gravidez
visitou uma mulher num subsolo
e recebeu, para abortar, uma injeção
que em nada adiantou, embora doesse.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados. (...)”
(tradução de Paulo César de Souza)

...com as quatro de “The Lonesome Death of Hattie Carroll" (tradução minha):

“William Zanzinger matou a pobre Hattie Carroll
com uma bengala que floreava em seus dedos com anéis de diamante
numa reunião social num hotel de Boston
e a polícia veio, e tomou-lhe a arma
enquanto o levava sob custódia para a delegacia
e indiciou William Zanzinger por homicídio em primeiro grau;
mas vocês, que filosofam sobre a desgraça, e criticam todos os medos
afastem o lenço do rosto
porque ainda não é hora de chorar”.

A frieza jornalística do enunciado (transcrevi apenas a estrofe inicial de cada canção); o refrão repetitivo martelado sempre nas linhas finais, e a injustiça social clamorosa dos desfechos correm em paralelo, mostrando com clareza onde Dylan estava bebendo poesia aos 21 anos. 

(O texto de Brecht: http://bit.ly/yTcrOO. O de Dylan: http://bit.ly/hYWVDV).

Esta tradição de canções crítico-jornalísticas foi mantida por Dylan, com ou sem conotações políticas ou de protesto, em toda sua carreira. 

Talvez a mais famosa delas seja “Hurricane”, sobre o boxeador acusado injustamente de homicídio. 

E caberia toda uma tese sobre o efeito de “distanciamento brechtiano” que ele consegue imprimir inclusive em suas canções de amor.




sexta-feira, 2 de março de 2012

2807) O isto e o aquilo (2.3.2012)




Gilbert Adair tem um pequeno e divertido texto (em seu livro de ensaios The Postmodernist always rings twice, 1992) sobre a presença ou não do artigo “the” em títulos de livros. Diz ele que estava lendo Orgulho e Preconceito de Jane Austen e um amigo brincou: “Puxa, isso deve ser um best-seller erótico sobre um fazendeiro de algodão que se apaixona por uma escrava mulata no Sul, antes da Guerra da Secessão”. E ele disse: “Não, porque se fosse isso o livro se chamaria ‘O Orgulho e o Preconceito’”. Adair parte disso para enumerar uma porção de filmes famosos que usam e banalizam essa fórmula, muitas vezes forçando uma antítese por aliteração: The High and the Mighty, The Bad and the Beautiful, The Proud and the Profane, The Pride and the Passion. Adair comenta a certa altura que a presença do “the” nesse tipo de título exprime “uma espécie de ideal pseudo-Platônico em sua pretensão, o qual no entanto é rebaixado e trivializado pela expressão”.

O nome Orgulho e Preconceito sugere que se trata de um romance sobre casos específicos, exemplos humanos dessas duas situações mentais; O Orgulho e o Preconceito, no entanto, é algo mais pomposo, mais armado em definição definitiva, como se o autor, num tom meio professoral, estivesse nos exibindo uma explicação que esgota o assunto. Se lemos um livro chamado Crime e Castigo, estamos acompanhando uma história humana, e qualquer sentido metafísico dessa história irá emergir lentamente ao longo da leitura, com suas camadas sucessivas de implicações morais e culturais; mas se o nome fosse O Crime e o Castigo, seria como se o autor estivesse nos oferecendo logo de cara dois verbetes do Dicionário Metafísico.

Será sempre assim? Não. Quando falamos de coisas demasiado concretas o artigo é inevitável; o livro de Hemingway não poderia ser intitulado Velho e Mar. Um exemplo interessante é o grande livro de estréia de Norman Mailer sobre a II Guerra Mundial, The Naked and the Dead. São dois adjetivos, ao invés de dois substantivos; e adjetivos que exprimem uma idéia de apequenamento e derrota. Neste caso, o uso do artigo amplia estes sintomas de irrisão e lhes dá uma redenção simbólica, uma dimensão grandiosa. Chamar o romance Nus e Mortos equivaleria a deixar os cadáveres dos soldados ali mesmo onde morreram, jogados na trincheira alagada onde apodrecem; chamá-lo Os Nus e os Mortos equivale a extrair desses corpos um espírito, um sentido coletivo e redentor, e projetá-lo no ar diante da multidão de milhões de leitores. Por esta mesma lógica, Dostoiévski poderia ter, sem grande perda, intitulado seu livro Os Humilhados e os Ofendidos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

2806) A importância de copiar (1.3.2012)




Num artigo no blog do Discover Magazine (http://bit.ly/yUof3w) Razib Khan aborda um aspecto crucial da discussão sobre cópias, reproduções e pirateamento na Internet. 

Há muitos aspectos envolvidos, e o dos direitos autorais é um dos mais importantes (pelo menos para mim, que preciso deles para viver). Mas existe um outro ponto de vista tão importante quanto o do autor ou do editor, e é o da civilização que está produzindo e reproduzindo esses textos. 

Do ponto de vista da civilização, quanto mais cópias houver de textos importantes maior a chance de que esses textos sobrevivam a catástrofes (guerras, desastres, etc.) ou colapsos tecnológicos que inviabilizem milhões de obras que hoje supomos preservadas para sempre.

Diz ele: 

“Por tudo que li, considero que toda a nossa destilação moderna do cânone da Antiguidade foi quase totalmente filtrada através de três grandes esforços coletivos de cópia de obras clássicas, ocorridos entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média: 

1) os esforços dos árabes durante os primeiros anos dos califas Abássidas, no século 9; 

2) o Renascimento Carolíngio do fim do século 8 e começo do século 9; 

3) e um surto de atividade quando Bizâncio se recuperou dos ataques árabes nos séculos 9 e 10, principalmente sob o patronato de Constantino VII. Esses surtos se complementaram uns aos outros. 

A transmissão islâmica de grandes obras filosóficas é bem conhecida, mas havia pouco interesse, entre eles, em preservar o ‘corpus’ humanístico grego, tal como as peças teatrais; neste caso, temos que agradecer aos bizantinos. Disto, combinado com a preservação carolíngia de inúmeras obras latinas, emerge hoje para nós uma imagem razoável da Antiguidade, por causa desses esforços independentes entre si”.

O artigo vai mais longe e mais fundo, mas o trecho acima me basta. Todos nós sabemos o quanto se perdeu da cultura antiga, desde a maioria do teatro grego (muito pouco foi preservado), até os numerosos incêndios criminosos ou acidentais de grandes bibliotecas. A multiplicação das cópias, numerosas, espalhadas por várias nações, salvou para nós um número incalculável de obras científicas, literárias e filosóficas cujos originais sumiram. 

Pensamos com arrogância que temos uma civilização invulnerável, mas ela está tão dependente do sistema financeiro e de tecnologias específicas que não é pessimismo imaginar que um colapso social coletivo pode ocorrer em algum momento do futuro próximo. 

Seria irônico que as grandes obras de nossa cultura se perdessem e deixássemos para o mundo futuro apenas o que temos de mais popularesco e descartável, cujas cópias se multiplicam sem parar.








quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

2805) Grande Joenilson (29.1.2012)



Pois é. 

Joenilson tem 25 anos, é empresário (não se sabe do quê), mede um metro e 95 (“mais 22 centímetros extras”, diz ele com voz-de-urso, quando está de Red Bull em punho). 

É bronzeado, musculoso, usa boné pra trás e óculos espelhados, gosta de bermudas floridas e regatinha “Deus é Meu Parente”, pilota um carro esporte vermelho. Quando ele sai sem cantar pneu tem que dar ré e começar de novo. 

Assina “Veja” mas só lê a seção “Gente & Frases”. Casou no Rio, após um Carnaval, com a filha de um prefeito baiano, e tantas aprontou que hoje a ex-mulher vive em Miami e o ex-sogro banca seus supérfluos. 

Cria dois cachorros enormes num apartamento do 15º. andar; todo fim de tarde desce com eles para fazerem suas necessidades no calçadão da praia. 

A praia é um dos seus lugares preferidos; Joenilson desfila de sunga, estira uma toalha e fica passando óleo em si mesmo como se passasse protetor em Nicole Kidman. Tem cada rebôlo de braço dessa grossura; uma vez num boteco uma moça parou perto dele e disse: “Ai como eu queria um braço desse me agarrando”, e ele respondeu, sem tirar o palito da boca: “Traga uma amiga, eu tenho dois”. 

Joenilson já se candidatou quatro vezes ao Big Brother e não entrou; a mãe, que é sua maior fã, diz às amigas: “Não são doidos, né? Ia desempregar Pedro Bial.” Joenilson tem “ator” no currículo; frequentava a esposa de um publicitário, o qual lhe conseguiu comerciais de ração canina, de pneus, de cerveja em lata, coisas verossímeis. 

Anda com uma turma que só se distingue dele pela frase nas camisetas. Conversam o dia inteiro sobre dinheiro e motores, além de mulheres, mero pretexto para voltar a falar sobre dinheiro e motores. 

Joenilson tem umas sete namoradas, e pondera: “Dou a cada uma seis dias pra repor as energias”. Frequenta coquetéis, recepções, meetings políticos; tem acesso livre aos camarins pós-show, e quando posa para a foto no celular murmura algo que faz a cantora de fora congelar o sorriso. 

Circula pelas rodas políticas e financeiras, negocia ações ao celular enquanto faz baliza no estacionamento da academia, concede desplugar um dos earphones do iPod quando é apresentado a uma autoridade. 

Toda primeira terça do mês tem um compromisso sagrado, a reunião do Clube do Mé, que fundou com seus manos Leguelé Jordão, Erik Bomba e Bianorzinho. 

Vai todo ano a Aruba, Las Vegas, Orlando, e à final da UEFA Champions League. 

 Mora no meu prédio. Quando me encontra no elevador dá um sorriso desarmante, aperta minha mão, esmaga de novo meus dedos e diz: “Cara, sou seu maior fã, não perco um artigo seu!”. 

Jesus Sacramentado, o que é que Joenilson tem que eu não tenho?!







terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

2804) “Hugo Cabret” (28.2.2012)



Filmes de celebração ao cinema são um subgênero especial da arte cinematográfica. Narcisismo umbilical? Conspiração nostálgica? Sentimentalismo para eleitos? Talvez quem faça filmes assim esteja querendo, às vezes, injetar um pouco de sonho e de fantasia em algo que foi só fantasia e sonho no passado, mas a partir de certa idade tornou-se (para diretor, roteirista, atores, técnicos) apenas profissão, obrigação a mais, caminho sem escolha. Fazer filmes sobre “a magia do cinema” é uma tentativa de recuperar o frescor e a alegria dos começos felizes.

Este filme de Martin Scorsese, baseado num livro de Brian Selznick, aborda o cinema por vias transversas: mecanismos de relojoaria, autômatos, um misterioso livro manuscrito… Em cenas cruciais do filme os personagens trocam entre si as palavras “mistério” e “aventura”, e sorriem, como se uma senha tivesse sido fornecida e aceita. É um filme de jovens-adultos na linha de O enigma da pirâmide (“Young Sherlock Holmes” de Brian Levinson) mas também um filme para adultos-jovens na linha de Amélie Poulain de Jean-Pierre Jeunet. Sua homenagem ao cinema mudo vai se desvelando a partir da metade da narrativa, mas os autores não esquecem de fazer menção à literatura aventuresca (Alexandre Dumas, Julio Verne) cujo espírito recupera. É mais que adequado que um filme sobre Georges Méliès, o criador dos efeitos especiais do cinema mudo, seja feito em 3-D, reconstituindo a reação espantada das platéias e refletindo-se, na narrativa, naquelas longas sequências de perseguição e rápidos deslocamentos que não têm outro propósito senão o visual. O movimento cinematográfico é algo como uma melodia: umas pessoas sentem beleza nisso, outras não. Reclamar das vertiginosas perseguições deste filme em 3-D é como reclamar das iluminuras medievais e dizer que nada acrescentam ao texto bíblico.

O filme é longo e poderia contar a mesma história com 15 minutos a menos; imagino que Scorsese fez de propósito, para bater de frente com a montagem-relâmpago de hoje em dia. Quis uma montagem analítica, como a prosa de Dumas ou Verne. Se a montagem é lenta, é a câmara que é rápida, voando como uma seta, uma bala teleguiada, através de “tableaux” sucessivos e minuciosos como a arte da Belle Époque. Seu filme é uma homenagem ao Cinema, arte híbrida de química, ótica e mecânica. Uma arte que reúne os amantes de relojoarias, lanternas mágicas, diafragmas e íris, imagens impalpáveis, criaturas artificiais, sonhos, pesadelos, monstros de papelão, lâmpadas, desenhos que se movem, fantasmagorias, ectoplasmas, cavernas de Platão, ilusionismo, prestidigitação, imaginação, memória, aventura e mistério.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

2803) Filme de computador (26.2.2012)




(o trailer no YouTube)

Como fazemos nossas escolhas estéticas? Muitas delas são escravas de um certo racionalismo, claro. Num romance há de existir um mínimo de continuidade entre o que escrevemos até agora e o que vamos escrever imediatamente em seguida. Mas digamos que o coleguinha está tentando editar um videoclip com a ajuda de um banco de imagens. Quais são os critérios? Cor... textura... movimento... Coisas assim; além do sentido “literário” das imagens. Algo por aí.

Pois bem, “seus problemas acabaram”. Eve Sussman criou um projeto experimental chamado “whiteonwhite:algorithmicnoir”, que utiliza um computador, 3 mil videoclips, 80 narrações de voz e 150 trechos musicais. Quando o programa roda, ele vai examinando esse material e selecionando áudio e vídeo de acordo com seus próprios critérios (projetados por seres humanos, é óbvio). Cada clip tem “tags” ou referências que filtram o material inteiro e limitam as escolhas da próxima imagem – se uma imagem tem por exemplo a tag “Branco”, ele concentra sua escolha nas imagens com a mesma “tag”, e em seguida reinicia o processo. A música e a narração são montadas por processos semelhantes. No festival Sundance, onde o projeto foi testado, a audiência tinha a opção de olhar dois monitores, sendo que um deles reproduzia o processo “interno” de escolha e o outro mostrava a edição final, a sequência de imagens escolhidas.

Puristas e luditas se erguerão em defesa da criatividade humana, da emoção humana, etc. e tal, e parecem esquecer que grande parte do nossso trabalho é feito exatamente assim. O que talvez nos diferencie do projeto de Sussmann seja apenas a extensão do arquivo, porque um diretor de filme deve ter em sua memória (consciente e inconsciente) algumas dezenas de milhões de imagens codificadas por algumas centenas de milhares de “tags” que lhe sugerem o que escolher em seguida.

E não só no cinema. Pensem na poesia menos descritiva, menos racionalista. Pensem em Jorge de Lima e sua Invenção de Orfeu: “De manhã estrelas verdes / na inocência do ar coleado, / intranqüilas e veementes. / Ao zênite e areia em sede, / asas das hastes pendidas, / as nuvens-castelas altas / como painas amealhadas”... Que processo determina essas escolhas verbais, escolhas que nenhuma imposição racional nos obriga a fazer? Por que estas palavras, e não outras? Talvez os computadores, corretamente utilizados, possam nos trazer um novo tipo de surrealismo, tão legítimo quanto o de Jorge de Lima e de Benjamin Péret, que possa ser aplicado à poesia, ao filme, à música, às modalidades de arte sequenciais e não-narrativas. A tecnologia a serviço da intuição e do acaso.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

2802) Plagiarismo (25.2.2012)



(Quentin Rowan)

A arte secreta do plágio produziu recentemente mais um episódio curioso. Em geral plagiários se defendem dizendo que não conheciam a obra original e tudo foi coincidência; ou que estavam homenageando o artista de cuja obra se apropriaram; ou que era uma experiência de metalinguagem. Não foi o caso de Quentin Rowan, que lançou em 2011 um romance de espionagem, Assassin of Secrets, sob o pseudônimo de Q. R. Markham. Poucos dias depois do livro ir às lojas começaram a pipocar nos blogs e na imprensa denúncias de que o romance continha parágrafos inteiros copiados de outros livros. Edward Champion, do websaite Reluctant Habits, apontou 34 exemplos de plágio nas primeiras 35 páginas do livro. Críticos (e os editores do livro, claro) começaram a jogar trechos no Google e encontrar exemplos onde apenas os nomes próprios e pequenos detalhes técnicos tinham sido alterados, trechos de livros de Robert Ludlum (autor da Supremacia Bourne), Charles McCarry, James Bamford, Geoffrey O’Brien e de autores como John Gardner, que estão (com consentimento dos herdeiros) escrevendo novas aventuras de James Bond, após a morte de Ian Fleming.

Uma longa matéria no The New Yorker (http://nyr.kr/zZmqk7) traça o patético perfil de Rowan, um garoto filho de pais intelectuais que sempre esperaram dele façanhas literárias. Na adolescência, ele copiava palavras difíceis para inserir em seus contos e poemas; daí para copiar frases inteiras (que achava bonitas) foi um passo. Ajudado por uma memória excepcional, ele sempre lembrava onde encontrar exatamente o parágrafo que precisava (descrição de ambiente, cena de briga, cena de sexo, meditação dos personagens, etc.). Poderia ter dito depois que estava produzindo metaliteratura ou algo assim, mas confessou ao jornalista, com candura: “Há anos eu tenho medo de ser descoberto; acordo no meio da noite e vou me olhar no espelho. (...) Eu lutei contra o plágio do mesmo modo que outros lutam contra o fumo, o vício do sexo, da comida, do jogo. (...) Nunca pensei em oferecer meu livro como uma colagem. Eu queria, sinceramente, que as pessoas pensassem que eu era o autor”.

Ele próprio compara o vício do plágio à cleptomania. Diz que nunca roubou nada em lojas, mas que isso explica por que pessoas com talento literário sentem a necessidade de plagiar. “Cleptomaníacos em geral são pessoas que não precisam furtar, como as madames do Upper East Side ou Wynona Ryder”. Pelo sim, pelo não, a editora tirou o livro do mercado e exigiu de volta o adiantamento de 15 mil dólares pago ao autor. Que agora está trabalhando em um novo romance, sem transcrições, para mostrar que sabe escrever.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

2801) Sonhos (24.2.2012)




(Self, de Michael Morgenstern)

Tem uma história antiga que se refere a um desses monumentos da humanidade, não lembro se era sobre Matchu Pitchu ou a Esfinge de Gizé; alguma coisa gigantesca e enigmática. 

Quando os exploradores europeus chegaram lá, séculos atrás, perguntaram às tribos que moravam perto: “O que é aquilo?”. Os nativos olharam com uma cara de quem estava vendo a tal coisa pela primeira vez e responderam: “Pois é, que coisa estranha aquilo, o que será?”. 

Era um resíduo cultural dos antepassados deles, eles a viam diariamente quando iam levar os camelos para beber água ou coisa parecida, e não tinham parado para imaginar o que era.

Assim somos nós com grande parte das coisas importantes da nossa vida. Por exemplo, digamos que amanhã desembarque na Terra uma frota de espaçonaves cheias de psicólogos alienígenas que falem português (tá bom, vá lá, que falem inglês, que é mais disseminado). 

E que eles nos perguntem: “O que é o sonho? Lá no nosso planeta, quem dorme apaga. Aqui, vocês dormem e ficam pensando maluquices, como quem tomou LSD. Que diabo é isso?” Não saberíamos responder. Temos 258 teorias para explicar o sonho, o que equivale a não ter nenhuma.

A teoria mais recente é do dr. Rodolfo Llinás, um neurologista e fisiologista da New York University. Diz ele: 

“O sonho não é um estado mental paralelo, mas é a consciência propriamente dita, na ausência de estímulos fornecidos pelos sentidos”. 

Em seu livro I of the Vortex: from Neurons to Self (M.I.T., 2001) ele diz que quando as pessoas estão despertas a mente compara automaticamente essas imagens do sonho com o que vê, ouve e sente – os sonhos são corrigidos pelos sentidos. Ou seja: se entendi bem, a mente está o tempo inteiro processando situações, inventando-as, manipulando imagens, fazendo associações de idéias, mas o que ela faz é constantemente interferido pelos sentidos, pelo fato de que estamos acordados, cercados de outras pessoas que nos dizem coisas, nos mandam fazer isso ou aquilo. 

Somos forçados a pensar socialmente, pensar em conjunto, e isto cria um superego de obrigações e compromissos coletivos.

A loucura poderia ser algum desarranjo em que o “input” sensorial deixa de prevalecer sobre o caldeirão borbulhante da mente-em-si. Experiências com LSD seriam um modo artificial de produzir algo semelhante. Quando dormimos, a mente consegue trabalhar em paz, de acordo com suas próprias regras, sem ter que ficar dialogando com o mundo material. 

Já foram feitas experiências em que voluntários num laboratório foram impedidos de dormir. Depois de 3 ou 4 dias eles começam a sonhar acordados. O sistema sensorial afrouxa, enfraquece – e a mente crua toma conta.





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

2800) Frases longas ou curtas (23.2.2012)



Todos os manuais de escrita nos aconselham a usar frases curtas, na voz ativa e em ordem direta. O leitor deve avançar na escrita sem ter que voltar atrás a toda hora. Isto é uma tendência do jornalismo em geral e da prosa realista norte-americana, duas formas de escrever que às vezes são confundidas uma com a outra, até pelos seus próprios praticantes. Eu não tenho nada contra esse estilo; tentar praticá-lo me ajudou muito a tornar mais clara a minha maneira de escrever. Mas de vez em quando eu penso comigo mesmo, como pensa o escritor Pico Iyer neste artigo (http://lat.ms/ycShNj): “se continuarmos neste caminho, áreas inteiras das nossas sensações e da nossa cognição acabarão se perdendo”.

E ele faz uma defesa da frase longa, de muitas orações encapsuladas umas dentro das outras; a Frase Proustiana, que a crítica reverenciou por tanto tempo e com um entusiasmo tão desmedido, embora compreensível , que ela acabou se transformando numa espécie de modelo cruelmente imposto a jovens escritores que nem sempre, mesmo que admirassem Proust, estavam preparados (ou tinham uma inclinação natural) para exprimir-se da maneira que Proust se exprimia, e desse modo o que era para ser o apogeu da forma de um artista fora-de-série acabou se transformando numa fórmula ideal forçada de cima para baixo, que estragou muitas vocações e carreou para si (e para o escritor que a havia burilado tanto tempo atrás) críticas escarninhas e em grande parte injustas, embora inevitáveis no contexto distorcido que as motivou.

Proust ou Hemingway? O autor do Velho e o Mar virou o símbolo da tendência oposta. O mestre da frase curta e seca, que diz tudo e se detém. O próprio Iyer lembra: “Um escritor de muitos recursos como Hemingway ou James Salter é capaz de colocar inúmeras nuances e sugestões mesmo na frase mais curta e mais direta”. A verdade é que deveríamos ser capazes de dominar as duas técnicas, sem querer emular os dois extremos. Iyer define a frase longa como “a série de orações que é cheia de compartimentos, que é pródiga e abundante em nuances de tom e em sugestões, que tem tanto espaço para a quase-contradição e a ambiguidade e para os lugares da memória e da imaginação que não pode ser simplificada, ou posta em palavras banais, e que permite ao leitor manter muitas coisas na mente e no coração ao mesmo tempo, e descer, como se descesse uma escada em espiral, cada vez mais para dentro de si mesmo e para dentro do que não pode ser tratado em termos de ou-isto-ou-aquilo”. Um talento cada vez mais raro, talvez. Mas que nunca desaparecerá, porque é fonte de beleza e aprofundamento; algo como tocar harpa ou jogar xadrez.