quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
2758) O quarto vazio (5.1.2012)
("Empty Room", de Mojca Savicki)
As oficinas literárias popularizaram um conceito chamado “Síndrome do Quarto Vazio”. É o diagnóstico de milhares de contos apresentados nessas oficinas que começam mostrando isto: um personagem sozinho, dentro de um quarto vazio (ou com o mobiliário reduzido ao mínimo), muitas vezes com amnésia, sem lembrar quem é ou o que está fazendo ali.
É exatamente a condição do escritor sem idéias que, para cumprir uma tarefa designada pelo professor precisa escrever um conto, e não tem assunto. Ele começa do zero mental, que, literariamente, se exprime pela imagem do quarto vazio.
Essa situação pode ser estendida para os milhares de livros e contos que chegam a ser de fato publicados pelas editoras e expostos nos balcões das livrarias. A gente pega, folheia, e constata que o livro fala daquilo: um personagem sozinho, num ambiente que quase não é mostrado, sem passado, sem futuro, debatendo-se em suas dúvidas íntimas (ou coisa equivalente).
Por incrível que pareça, dezenas de livros assim são publicados por ano. Uma quantidade tão grande que não admira que de vez em quando um deles seja bom e possa ser lido até o fim. Mas, amigos, fazer um livro bom com esse tipo de situação é mais difícil do que fazer um livro bom sobre um assunto de verdade. Um cara sozinho num quarto? Sempre tem um escritor que consegue tirar algum leite dessa pedra, mas 999 dão com a cara na porta.
Samuel Delany, num dos seus manuais de escrita, observa:
“Quanto menos interesse o autor ou os seus personagens tenham pelos seus empregos, rendas, famílias, classe social, locatários, amigos, vizinhos e paisagens (ou seja, tudo que os conecta com o mundo material à sua volta), menos ele terá sobre o que escrever”.
Em geral, o escritor que gosta de escrever sobre quartos vazios é um sujeito insatisfeito com a própria vida, com a própria família, o próprio emprego, a casa onde mora, a cidade onde vive. Ele não quer escrever sobre aquilo, pelo contrário. Quer fugir daquilo como o diabo da cruz. Quer esquecer esse enredamento social e humano a que todos nós estamos sujeitos, e não tem paciência (ou criatividade) para imaginar uma situação totalmente diferente. Melhor pensar num personagem amnésico, dentro de um quarto vazio, remoendo suas elucubrações íntimas ao longo de 150 páginas.
A literatura fantástica e a ficção científica são muitas vezes acusadas de serem fugas à realidade, quando na verdade a grande maioria dos textos fantásticos se esmera em produzir uma realidade humana e social suficientemente densa para receber o choque do fantástico.
Quem quer fugir da realidade não inventa outro planeta: tranca-se num quarto vazio.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
2757) A morte nos separe (4.1.2012)

O conto “Death do us part” de Robert Silverberg (1997) se abre com um vertiginoso parágrafo futurista descrevendo o casamento entre os protagonistas:
“Era o primeiro dela, e o sétimo dele. Ela tinha 32 anos, e ele 363; aquela antiga relação entre a primavera e o outono da vida. Passaram a lua-de-mel em Veneza, em Nairobi, na Cúpula do Prazer da Malásia, e depois num daqueles sofisticados ‘resorts’ L-5: uma reluzente esfera transparente com sol artificial num ciclo de 24 horas e cachoeiras que se despejavam como cascatas de diamantes. E depois partiram para a bela casa aérea dele, suspensa em cabos retesados mil metros acima do Pacífico, para começarem ali a parte cotidiana de sua vida em comum”.
Marilisa e Leo são um casal típico da elite desse mundo futuro; ele é um artista cinético, internacionalmente famoso. Seu trabalho é criar painéis animados feitos com areia colorida e cristais, que mudam de imagens e de cores de acordo com variações do terreno, de tal modo que a cada duas horas estão exibindo imagens totalmente diferentes. Essa elite do futuro se submete periodicamente a um tratamento que eles chamam “o Processo”, que os mantém eternamente jovens. A certa altura do casamento Marilisa começa a perceber que há algo de errado, e descobre por fim que Leo casou com ela por piedade. Ela é uma das raras pessoas em quem o “processo” não funciona, e está condenada a envelhecer e morrer como as pessoas de antigamente (=nós).
Millôr Fernandes afirmou uma vez: “Injustiça social pra valer era se umas pessoas morressem e outras não”. É esse o mundo descrito por Silverberg, e que não é totalmente impossível de acontecer. Se não nos termos propostos pelo autor (que afinal são mera imaginação), mas dentro de possibilidades técnicas que já se desenham hoje. Não é impossível que algumas pessoas nascidas hoje, em 2011, possam um dia atingir os 100 anos sem muita deterioração física e mental.
Só que isso não vai acontecer para todos, e sim para os muitos ricos. O conto de Silverberg é, na superfície, o contraste entre os que vivem muito e os que vivem pouco (com uma leve alusão ao final de Blade Runner, em que Rick Deckard nos lembra que os humanos, tal como os andróides, podem morrer a qualquer instante). Os cenários vertiginosos descritos nesse parágrafo inicial parecem, no conto, uma metáfora das inimagináveis riquezas que o Tempo reserva aos que não morrem; mas esse próprio “não morrer” é uma metáfora de ter muito dinheiro, ser muito poderoso. Ser imortal é uma metáfora para ser rico. Estar condenado a morrer um dia é estar condenado a viver como nós: uma casinha, um carrinho, um emprego, uma família...
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
2756) A palavra mangar (3.1.2012)
“Mangar” é uma dessas palavras que, lá pelo Rio e São Paulo, denunciam de cara um nordestino. Me lembro de uma vez em que um grupo de amigos fazia gozação com meu vocabulário e eu disse: “Eu falo igual a vocês todos, não vejo motivo pra ficarem mangando de mim”. Foi o que bastou!
Diferentemente de muitos outros termos do nordestinense, lá fora as pessoas em geral entendem o que a palavra quer dizer, e conseguem usá-la com propriedade. O ponto onde a coisa trava é a regência verbal. Nós dizemos “mangar de”: “Todo mundo mangou de mim porque eu abotoei errado a camisa e não reparei”. Pessoas não-nordestinas usam a-três-por-dois a regência “mangar com”: “Não sei por que vocês estão mangando comigo”.
Isto parece que vem de longa data, como se pode ver neste exemplo colhido meio ao acaso: “...parecia crer que, oculto em algum lugar, Deus também o ouvisse e mangasse com ele, de lá do forro do céu, mando modo: -- ‘Você pecou de bobo, Chefe! Foi trabalhar, de bobo, só...’” (Guimarães Rosa, “Buriti”).
Por que será? Talvez porque quando uma pessoa de fora entende o significado de “mangar”, os primeiros sinônimos que lhe ocorrem sejam “fazer gozação, sacanear, tirar onda, zoar, etc.”. E a regência de todos eles usa a preposição “com”: “Você está fazendo gozação comigo, a gente estava tirando onda com a cara da professora, a galera começou a zoar com Fulano, etc.”.
E estas duas formas se alternam no ouvido dos sudestinos, inclusive dentro da fala e da escrita de um mesmo autor.
Em sua peça Nova Viagem à Lua (1877), onde mistura personagens urbanos e caipiras, Artur Azevedo faz um personagem dizer (ato 3, cena 6):
“Que vestimenta é esta? Eu não sou sordado! Quem me vestiu assim? Mangarum comigo!”.
Já na cena 12 do mesmo ato, o personagem Arruda diz ao filho: “Venha cá, seu rei da Lua, então ‘vacê’ mangou de seu pai...”
Isto certamente se deve ao fato de que o teatrólogo conhecia a palavra através de diferentes pessoas, que usavam tanto a regência correta quanto a errada. E na hora de escrever, “ao correr da pena”, como se dizia na época, vinha-lhe ora uma ora outra expressão, sem que ele percebesse.
A melhor maneira de consertar esse pequeno erro é explicar às pessoas de fora que “mangar” significa “zombar” – um verbo que pede a mesma regência, usando a preposição “de”: “A gente ontem estava mangando da torcida deles, mas agora são eles que estão zombando da gente”.
Diferentemente dos outros sinônimos acima, são verbos totalmente intercambiáveis, que têm o mesmo sentido e pedem a mesma preposição. Portanto, vamos definir mangar como zombar, e parar de fazer as duas coisas com nossos compatriotas.
domingo, 1 de janeiro de 2012
2755) Começos de livros (1.1.2012)
O que faz um bom começo de um livro?
Um começo tem que ter algo de sólido e bem construído, que faça o leitor sentir firmeza.
Tem que revelar de imediato alguma coisa sobre a história que vai ser contada; e tem que colocar uma interrogação, um mistério, que faça o leitor querer descobrir a resposta.
Tem que parecer uma informação completa em si mesma; e tem que estar ligado ao resto do livro de tal forma que a gente só entenda por completo aquele parágrafo quando tiver lido o livro inteiro.
O romance A Child Across the Sky de Jonathan Carroll (1989) começa assim:
Uma hora antes de se suicidar com um tiro, meu melhor amigo, Philip Strayhorn, me telefonou para falar sobre polegares.
– Já notou que quando a gente lava as mãos a gente na verdade não lava os polegares?
Tragédia e banalidade surgem juntas nesse trecho, juntamente com a primeira insinuação de um mistério. O telefonema (que se estende por umas duas páginas) já está contaminado por essa notícia do suicídio, que o personagem-narrador sabe que aconteceu, mas o personagem-ator da cena não pode saber, pois o suicídio só acontecerá depois. E o livro inteiro consiste no desvendar dos mistérios (um tanto tenebrosos) da vida de Strayhorn, um diretor de filmes B de terror.
Gertrude Stein começa The Making of Americans (1912) assim:
“Uma vez um homem raivoso arrastou seu pai ao longo do próprio pomar. ‘Pare!’ gritou por fim o velho que gemia. ‘Eu não arrastei meu pai para além dessa árvore”.
É um começo com algo de brutal e algo de cômico. Tem algo de “conto de exemplo” insinuado pela abertura com “Uma vez...”. E, sendo a saga de duas famílias, sugere o tema da repetição cíclica de tragédias e glórias, típica do gênero.
Uma das vantagens da ficção científica sobre outros tipos de literatura é a possibilidade de dizer coisas de dimensões cósmicas, coisas que se referem à própria natureza do Universo, numa linguagem simples, direta, aparentemente banal.
Robert Charles Wilson começa desta forma seu romance Spin, de 2005 (na verdade este é o início do Capítulo 2, mas o Capítulo 1 é um mero preâmbulo, preparando o flash-back que remonta ao início da história):
“Eu tinha doze anos e os gêmeos tinham treze, na noite em que as estrelas desapareceram do céu”.
Samuel Delany dizia que na FC podemos interpretar literalmente frases que na literatura comum são meras metáforas. Spin conta exatamente isto: o desaparecimento de todas as estrelas (inclusive o Sol) por uma ação extraterrestre. E este fato avassalador é contado a partir da infância e da vida adulta desses três protagonistas, e de como esse aparente “fim do mundo” determina suas vidas.
2754) Fragmentos de crenças (31.12.2011)

São muitas as metáforas para a fragilidade de nosso conhecimento do Universo, seja ele o conhecimento científico ou o religioso. Só temos acesso a fragmentos, e organizamos esses fragmentos de acordo com sistemas um tanto ou quanto arbitrários. Vêm daí as metáforas tradicionais que ironizam as limitações do nosso saber. Somos a traça que está devorando uma coleção da Enciclopédia Britânica. Somos a formiga que percorre o Louvre e tenta descrever o que está vendo. Somos a mosca do cinema que sai da platéia e vai pousar na tela, na esperança de entender melhor o filme.
Em Um cântico para Leibowitz de Walter M. Miller Jr. (1960), uma guerra atômica no século 20 deixa o planeta em ruínas. Dessas ruínas, penosamente, ergue-se uma nova civilização, não sem que antes o mundo passe por uma idade das trevas em que a ciência, o conhecimento e os livros eram considerados culpados pela desgraça que acontecera. A ordem religiosa de São Leibowitz tenta preservar documentos importantes para que nem tudo da cultura humana seja destruído; mais ou menos como em Fahrenheit 451 as pessoas decoram livros inteiros para evitar que seu texto se perca. Muitos desses documentos são papéis que pertenceram ao fundador da Ordem, um engenheiro elétrico chamado Leibowitz, e vários trechos do livro mostram a discussão dessas relíquias conservadas através dos séculos. Quando o texto das relíquias é reproduzido, vemos que são diagramas de instalações elétricas, listas de supermercado e outras coisas que nós, do século 21, facilmente identificamos, mas que não podem ser compreendidas nessa cultura do século 26, que é meio medieval e mística.
Os papéis de Leibowitz, que afinal não são mais importantes do que qualquer papel das gavetas de nossas escrivaninhas, são tratados com o cuidado que o mundo de hoje dá aos Manuscritos do Mar Morto ou ao Livro Sagrado dos Maias. Quem os estuda acredita existir ali uma sabedoria oculta, mesmo que ninguém consiga chegar a um acordo sobre o seu significado. Uns tentam interpretá-los cientificamente (mas à luz de uma ciência que já não é a mesma nossa) e outros os tratam como objetos sagrados, inspiradores. Miller parece sugerir que o nosso mal-entendido com relação aos nossos textos sagrados (Miller pertencia ao pequeno mas importante grupo de escritores católicos da FC norte-americana) talvez nos conduza ao erro pelo viés da Razão, mas pelo viés da Fé pode servir de inspiração para nos conseguir o acesso a verdades mais profundas. O que importa não são as banalidades escritas nos papéis de Leibowitz, mas as coisas grandiosas que os religiosos do futuro imaginam decifrar neles.
sábado, 31 de dezembro de 2011
2753) Criação aleatória (30.12.2011)
Na revista Edge (http://bit.ly/vmEGf8), o biólogo Mark Pagel estuda o modo como o pensamento criativo se dissemina no interior das sociedades, e o compara com a evolução biológica.
Esta se dá através de pequenas mutações aleatórias em nossos genes, ao serem passados dos pais para os filhos. Muitas vezes não dão certo, mas às vezes dão, e “uma das coisas mais notáveis da natureza é que a seleção natural, atuando sobre essa variação genética gerada sem controle, é capaz de achar a melhor solução entre muitas, e sucessivamente incorporar essas soluções umas às outras. E, através desse processo extraordinariamente simples e não controlado por ninguém, criar coisas de complexidade inimaginável”.
Pagel compara isto ao que ele chama de “aprendizado social” (“social learning”), o processo através do qual as novas idéias são avaliadas pelo grupo, umas são descartadas, outras aceitas:
“Qualquer processo evolutivo dessa natureza precisa ter tanto um mecanismo de escolha, uma seleção natural, quanto o que podemos chamar de mecanismo generativo, um mecanismo capaz de criar variedade”.
Muitíssimas vezes o que o pensamento criador faz durante mais tempo é andar às cegas, tatear, dar saltos no escuro, escolher um caminho em vez de outro, sem saber exatamente por que este e não aquele. Tentar combinações ao acaso, produzir reviravoltas sem razão aparente, inserir elementos que não sabe exatamente o que são... tudo isto faz parte da atividade criadora na arte, na ciência, na literatura, etc.
Cria-se (mecanismo generativo) sem muita preocupação com a lógica ou o planejamento; e depois passa-se um pente fino no que foi criado (mecanismo de escolha).
Pagel enfatiza a importância do fator randômico, ou aleatório, em “qualquer processo evolutivo que consiste na exploração de um espaço desconhecido, tal como se dá com os genes, ou com os neurônios explorando o espaço desconhecido em nosso cérebro e tentando criar conexões, ou com as nossas mentes tentando produzir idéias novas e explorando o espaço de alternativas que nos conduz para o que chamamos de criatividade”.
Meu conselho aos jovens artistas: produzam intuitivamente, levados pelo instinto, sem planejar. O planejamento nos traz de volta à repetição. Quando pensamos racionalmente, em geral, estamos repetindo modos de pensar que aprendemos, que já são consagrados, coletivos.
A criação (artística, científica, etc.) precisa lidar com hipóteses absurdas, argumentos sem provas, descobertas inexplicáveis, elementos aparentemente sem sentido. Somente depois devemos ligar o “mecanismo de escolha” para achar o equilíbrio entre o aprendido e o recém-descoberto.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
2752) “Fogo Pálido” (29.12.2011)
É um dos livros mais surpreendentes de Vladimir Nabokov, este especialista em surpresas. E serve como ótima ilustração para a minha teoria sobre a formação dos gêneros literários, ou seja, que eles se estruturam a partir de um texto básico, o qual passa a ser imitado, gerando um número tão grande de variantes que esse conjunto de textos acaba constituindo uma literatura à parte. O exemplo clássico é “Os assassinatos da Rua Morgue” de Edgar Allan Poe (1841), que serviu de modelo para toda a literatura de mistério detetivesco.
Fogo Pálido consta de um longo poema em quatro cantos e as notas explicativas que o acompanham. Acontece que Nabokov atribui o poema a um sujeito imaginário, e as notas a outro. O autor do poema é Shade, um poeta recém falecido; e seu explicador é um tal de Charles Kinbote, que aos poucos vai se revelando ao leitor como um doido de jogar pedra. Seus comentários contam de modo distorcido a vida de Shade, a dele próprio, e mais uma enormidade de coisas que, a rigor, nada têm a ver com o poema que ele alega estar explicando.
Se o livro de Nabokov tivesse sido um sucesso de vendas como foram O Nome da Rosa de Umberto Eco ou o Memorial do Convento de José Saramago (duas outras obras literariamente ambiciosas e admiráveis, que geraram inúmeros imitadores) poderia ter criado um novo gênero, a análise fictícia de textos imaginários. Dezenas e dezenas de romances onde o autor imaginaria tanto a obra quanto a crítica. Um poema alquímico renascentista explicado por um psicanalista freudiano. Um poema recém-descoberto de Castro Alves explicado por um crítico baiano tropicalista. Um poema beatnik de autor desconhecido explicado por uma professora republicana de Boston. Um poema de um simbolista cearense explicado por um brazilianista argentino. Uma coletânea de haikais japoneses explicada por um estruturalista mexicano. E por aí vai. Um gênero inteiro, um enorme nicho de mercado destinado a satisfazer a curiosidade de leitores que gostassem da fórmula e fossem capazes de consumir variações dela até o fim dos tempos, como o fazem com o conto policial de Poe.
Li num artigo sobre Fogo Pálido (http://tinyurl.com/cxhpj7x) que o livro tem seguidores, sim. Arthur Philips escreveu um romance, The Tragedy of Arthur, que tem a forma de introdução a uma peça inédita de Shakespeare, e inclui o texto completo da peça. Este hipotético gênero nabokoviano deve estar se gerando nos desvãos da crítica e do mercado. Dada a mentalidade “mash up” de hoje, adoradora de simulacros e de ficções fictícias, quem duvida que será o gênero da moda daqui a algumas décadas?
2751) O gênio não-original (28.12.2011)

Kenneth Goldsmith, um questionador das práticas literárias, é fundador do saite UbuWeb (www.ubuweb.com), conhecido como “o YouTube da vanguarda”. Eu não diria que é um grande escritor, e é bastante possível que, ganhando de presente um livro dele, nunca o lesse. A maldição da vanguarda é que geralmente seus postulados teóricos são fascinantes e arrojados, mas suas produções artísticas nos deixam entediados ou perplexos. Num artigo recente (http://bit.ly/npT8zj), Goldsmith argumenta que na época da cultura digital o conceito de originalidade artística está sendo substituído pelo de “reorientação” (“repurposing”) das idéias e dos textos. Mais do que produzir páginas originais, cabe ao escritor de hoje administrar um excesso de textos já existente, organizá-lo, distribuí-lo. Diz Goldsmith:
“Nos últimos cinco anos, vimos alguém copiar On the Road de Jack Kerouac por inteiro, uma página por dia, num blog; a apropriação do texto de uma edição do New York Times, publicada sob a forma de um livro de 900 páginas; uma reorganização da lista de lojas num shopping, diagramada em forma de poema; um escritor empobrecido que pegou todos os seus extratos de cartão de crédito e os encadernou num volume impresso por demanda, com 800 páginas, tão caro que ele próprio não conseguiu comprá-lo; um poeta que reorganizou o texto de uma gramática do séc. 19, inclusive o índice, de acordo com seus próprios métodos; um advogado que apresenta como poemas os memorandos do seu trabalho, nem mudar uma palavra sequer; outra escritora que passa os dias na Biblioteca Britânica copiando o primeiro verso do ‘Inferno’ de Dante, em todas as traduções ali existentes, um depois do outro, até esgotar o acervo da biblioteca; outra equipe de escritores que se apropria de posts e status de redes sociais e os atribui a escritores falecidos (“Jonathan Swift conseguiu entradas para o jogo dos Wranglers hoje à noite”), criando uma obra poética épica, interminável, que se reescreve cada vez que alguém atualiza seu Facebook; e um movimento literário chamado Flarf que consiste em recolher os piores resultados de busca do Google, quanto mais ridículos e ofensivos melhor”.
Esses escritores são as formigas-operárias da literatura, cujo trabalho consiste em cortar folha e trazer folha, para produzir a pasta fermentada que alimenta o formigueiro. Não creio, como Goldsmith, que o gênio original deixou de existir, mas acredito que em torno do Escritor tradicional surgem reescritores, descritores, transcritores, meta-escritores... A Literatura está se movendo, e nós, suas pulgas, nos movemos com ela, crentes que ela obedece às nossas vontades.
2750) O leitor fã (27.12.2011)

O fã é um produto típico de certa cultura de massas do nosso tempo, que requer não apenas o envolvimento afetivo com as obras de arte, mas uma dedicação emotiva em tempo integral. O fã é alguém cuja vida tem como centro seu ídolo, que pode ser um jogador de futebol, uma atriz de cinema, uma banda de rock, uma modelo. O leitor fã é o que transfere esse fanatismo (fã vem de “fanático”) para a literatura. O sujeito pode ser fã de um autor (os fãs de Stephen King), de um gênero (policial, ficção científica, etc.), de um personagem (Sherlock Holmes), de uma série de obras de autores variados (“Perry Rhodan”, etc.).
O que caracteriza o leitor fã é que ele se comporta diante do objeto de seu fanatismo como os fãs de Marilyn Monroe ou de Carlos Gardel se comportam diante dos seus ídolos. Qualquer farrapo de informação é importante, qualquer foto saída na imprensa merece ser recortada e pregada no álbum. O leitor fã faz listas de livros que precisa ler, listas de livros já lidos, listas de livros que precisa comprar, listas de livros que precisa perguntar aos amigos se vale a pena comprar. Costuma juntar-se a outros em clubes, onde a única conversa é sobre aqueles livros, e onde os membros debatem livros, comentam livros, trocam livros, compram livros usados uns aos outros.
Essa atividade frenética acaba atraindo o leitor, de forma quase imperceptível, para uma zona fronteiriça e nebulosa que, quando começa a se clarear de novo, revela ao incauto que ele cruzou um limite. Deixou de ser leitor e agora é somente fã. Um leitor é alguém que lê, que decifra palavras, que toma decisões interpretativas sobre cada frase, cada parágrafo, cada bloco de texto. O leitor recria em sua mente o mundo criado pelo livro e é forçado a tomar juízos de valor. O leitor fã, muitas vezes, torna-se fã para evitar essas tomadas de posição. Ele não quer ser inquietado por informações novas, desconcertantes, que ponham em xeque seus instrumentos de interpretação. Ele não quer novas experiências literárias. Quer o aconchego do eterno “um pouco mais daquilo mesmo”. O leitor fã abre mão do esforço de pensar, e lê apenas para lembrar, para refestelar-se no que já conhece.
Por isto o mercado cultua os fãs e alimenta sua obsessão de comprar todas as edições de um livro, todos os livros-de-fofocas sobre um autor, todos os livros de listas de um gênero. É o consumidor ideal, porque não compra mais com a intenção de ler. Quando o leitor fã abre os olhos, vê que não passa de um colecionador de livros que não lerá. Já não se distingue do cara que compra as meias de nylon de Evita Perón ou um travesseiro usado por John Lennon.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
2749) Natal 2011 (25.12.2011)

("The Neverending Search", de David Ho)
...e a roda do Zodíaco e seu zoo,
como um filme de doze fotogramas,
sobre esta Terra projetou seus dramas
que nos dão a ilusão chamada vida.
Tridimensional e colorida,
sensorial, corpórea, carne-e-osso...
De onde virá, então, a voz que ouço
sussurrando que tudo é a Matrix?
Compartilho com os nerds e com os geeks
a noção de que o mundo é Simulacro;
uma área que une o micro e o macro
nesta hipernovela em que caminho
de mãos nos bolsos, tranquilão, sozinho,
pelos jardins da General Glicério
fotografando a face do mistério
de existirem jardins, papelarias,
escolas, locadoras, padarias,
este café que acolhe os literatos,
grama verde, remédio contra ratos...
Tudo tão verossímil. Tão real.
Tudo é vento e é fogo, mel e sal,
pedra de gelo e brasa sobre a pele;
tudo que nos atrai e nos repele,
o corpo vivo e seus magnetismos.
Por baixo deste chão, quantos abismos?
Mas eu caminho, e piso sem receio,
e num piscar constato que passeio
em Manaíra, e compro tapioca,
e o pão daqui, igual ao carioca,
sugere a hipótese de um mundo só.
Passa um carro-de-mão com seu forró
estrondando milhões de decibéis;
fico marcando o ritmo com os pés
enquanto espero meu sinal abrir.
Os carros passam sem me pressentir,
sem saber que vivi por mais um ano;
bem ou mal, eis-me aqui, sem nenhum dano
a não ser os de ordem financeira...
Abriu! E eu atravesso na carreira
como o último Beatle de Abbey Road.
Chego à vitrine, apalpo o cartão Gold,
que já está da finura de uma seda...
Natal, poeta, é uma cana azeda
que a gente chupa e louva-lhe a doçura.
Melhor presentear literatura,
dar poemas aos membros da família!
Sai mais barato que trocar mobília,
renovar guarda-roupa e tudo o mais...
Distribuir sextilhas ou hai-kais
e dar o caso como resolvido.
Sigo, a tirar velhas canções do olvido,
afinal é Natal, “bimbalham sinos”,
exumam-se os enfeites naftalinos,
e volta a ressoar pela cidade
Luís Bordón, “A harpa e a cristandade”,
o mesmo que tocava no Alto Branco...
Tanto tempo passou? Pois serei franco,
dentro aqui tudo aquilo ainda existe;
não me venham dizer, de dedo em riste,
que o meu passado se apagou em mim.
E ao futuro, também, só digo Sim;
talvez um simulacro, mas sincero.
E este presente do futuro eu quero:
os olhos calmos de um bebê mutante
que parecem dizer: não chore, cante
(e que me dizem mais quando adormeço);
e assim me redescubro e reconheço
ao zerar cada ano, cada “game”.
Sobrevivi, ou seja, recriei-me,
sempre o mesmo, e mudando em pleno voo...
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