sábado, 10 de dezembro de 2011

2736) O artista farol (10.12.2011)



(ilustração: Jaron Phillips)

Escrevi uma vez que esses poetas que se dizem influenciados por Arthur Rimbaud deveriam ter radicalizado essa influência e parado de produzir poesia aos 19 anos, como ele fez. É um gracejo, meio sem sentido aliás, porque para ser influenciado por Rimbaud basta ter lido uma vez alguns dos seus grandes poemas. Rimbaud dedicou a sua curta obra, escrita ao longo de cinco ou seis anos, uma intensidade de pensamento e de trabalho equivalente a uma vida inteira de um sujeito normal. Muita gente, contudo, esquece esse trabalho insano e acaba querendo imitar os cacoetes superficiais de Rimbaud: sua andarilhagem, seu homossexualismo, sua grosseria, sua mania de se alojar na casa alheia, seu gosto pelo escândalo... Nem Bob Dylan escapou.

Ou então, é um jovem guitarrista que quer tocar igual a Keith Richard, e uma das primeiras coisas que faz é começar a injetar heroína. Ou um jovem escritor que lê um livro de Faulkner, se deslumbra, ouve falar que Faulkner era um bêbado, e começa imediatamente a beber, ao invés de escrever. A verdade é que é mais fácil e mais divertido imitar os vícios de um artista do que as noites em claro que ele passou estudando e aperfeiçoando sua técnica. Artistas são, muitas vezes, sujeitos com imensa capacidade de concentração, de esforço, de disciplina; mas como têm um lado romântico e anticonvencional minimizam esse esforço, não querem ficar exortando os jovens a se tornarem “operários padrão”. Mas eles próprios o foram, e sem isto não teriam sido grandes.

O pior de tudo é quando certos artistas viveram uma viagem autodestrutiva que os arrastou para o abismo, mas durante esse processo produziram uma obra que perdurou. O leitor desavisado, o leitor jovem geralmente, imagina que para produzir uma obra como aquela é indispensável viver uma vida como aquela. Pensa que tem a obrigação de tomar todas as drogas que William Burroughs tomou, para ter idéias tão anticonvencionais quanto as de Burroughs; pensa que para escrever como Edgar Allan Poe é preciso viver na penúria, enchendo a cara, brigando com os amigos; pensa que tomar remédios tarja-preta o dia todo e ceder a surtos esquizofrênicos vai lhe dar de graça romances como os de Philip K. Dick.

Esses artistas são como faróis. Existem para serem vistos à distância, não para que alguém se aproxime deles. A obra é a luz que emitem, mas no caso deles é preciso saber que essa luz revela os penhascos ameaçadores onde foi fincada. Dizem aos navegantes: “Este lugar é perigoso!”. Feliz o artista que, mesmo naufragando entre os penhascos, consegue produzir alguma luz que diga: “Afasta-te daqui! Foi aqui que naufraguei!”.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

2735) “Jornal da Morte” (9.12.2011)




Esta canção de 1961 foi gravado pelo grande Roberto Silva, no quarto LP de sua histórica série Descendo o morro. A canção começa com vozes de jornaleiros bradando na rua, gritos agudos de mulher, uma sirene policial que uiva e a entrada de um cavaquinho lancinante. (Esta sirene precede em cerca de cinco anos sua utilização em “Highway 61” de Bob Dylan.) Um coral de vozes femininas repete: “Sangue – sangue – sangue...” E o cantor ataca: “Olha aqui este jornal. / É o maior hospital. / Porta-voz do bangue-bangue / e da polícia central”. E começa a relatar as notícias: “Tresloucada, seminua / jogou-se do oitavo andar / porque o noivo não comprava / maconha pra ela fumar... / Um escândalo amoroso / com retratos do casal / um bicheiro assassinado / em decúbito dorsal. / Cada página é um grito: / um homem caiu no mangue! / Só falta alguém espremer o jornal / pra sair sangue, sangue, sangue...” Ouça aqui a canção: http://www.youtube.com/watch?v=Tidd-RjnxOI.

A letra é do versátil Miguel Gustavo, que ajudou Moreira da Silva a criar seu personagem Kid Morengueira em sambas memoráveis. E que ficaria ainda mais famoso depois de compor o que se tornaria o jingle do tricampeonato da Seleção Brasileira no México, em 1970; “Noventa milhões em ação / pra frente Brasil / do meu coração...”

As imagens sensacionalistas, o tom explorativo das próprias manchetes, dá à música um tom de denúncia que a afasta dos sambas humorísticos de Morengueira. A canção tem o tom melodramático mas coberto de urgência de outros sambas do seu tempo, como “Mãe Solteira” de Wilson Batista e Jorge de Castro: “Hoje não tem ensaio na escola de samba / o morro está triste, e o pandeiro calado; / Maria da Penha, a porta-bandeira, / ateou fogo às vestes / por causa do namorado”. Ou de “Notícia de jornal”, de Haroldo Barbosa e Luiz Reis: “Tentou contra a existência num humilde barracão / Joana de Tal, por causa de um tal João...” São sambas em que os desajustes sociais e as pequenas tragédias anônimas são vistas por um breve instante através dos olhos de um público e da linguagem da “mídia ambiente” (o jornal da morte, a notícia que “carece de exatidão”). São antecessores do corpo que tem “em vez de rosto uma foto de um gol” de Aldir Blanc e João Bosco. Drogas, escândalos sexuais, homicídio de bicheiros, tudo isto aparece nessa canção de 50 anos atrás como algo que se reencontra todas as manhãs, pendurado numa banca de revista. A mesma fascinação sustenta a edição de “faits divers”, de folhetos de cordel sobre crimes famosos ou fatos inusitados, e dos jornais que dão fama às tragédias da micro-história cotidiana.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

2734) O vitral e a vidraça (8.12.2011)


(George Orwell, por Felipe Muanis)


Isaac Asimov faz uma comparação hábil (embora injusta, a meu ver) entre o escritor que quer contar uma história e o escritor que quer criar uma maneira pessoal de contar qualquer coisa. É a velha oposição meio maniqueísta entre enredo e estilo. 

Asimov compara essas duas formas de escrever com a vidraça e o vitral. Uma vidraça é transparente: olhamos por ela sem vê-la, porque não queremos ver a vidraça, queremos ver apenas o que ela está nos mostrando do outro lado. Já o vitral (aquele vitral de igreja) é opaco, colorido e não quer mostrar outra coisa além de si próprio. 

Diz Asimov que a prosa literária, sofisticada, é assim como um vitral: quer apenas exibir-se como prosa bem escrita. Não quer contar história alguma, nem exprimir verdade alguma a não ser sua existência como prosa brilhante. E diz Asimov que ele próprio produz uma prosa-vidraça, simples, direta, transparente, que não quer se exigir como literatura, quer apenas mostrar o que está do outro lado, ou seja, a história que está contando.

Há uma frase de George Orwell que talvez tenha sido lida por Asimov e guardada no inconsciente, aquele caldeirão febril onde todas as assinaturas e todas as autorias se dissolvem. Diz ele: 

Eu tentei com todas as minhas forças contar toda a verdade sem violar meus instintos literários. Um autor não pode escrever nada legível sem que lute constantemente para apagar a sua própria personalidade. A boa prosa deve ser como uma vidraça. 

Para ele, acho, a “personalidade” a ser apagada é a que resulta num estilo literário que chama a atenção para si mesmo. Para Orwell e Asimov, o leitor não deve prestar atenção no modo como a frase foi escrita. Se ele parar para “saborear” uma frase é sinal de que a vaidade do autor está interferindo com a contação de história.

A analogia entre literatura e vidraça não se sustenta, como a maioria das analogias. Ela pressupõe que existe uma realidade objetiva “lá fora” e que a prosa literária deve servir, com discrição e não-interferência, para revelar essa realidade. 

Ora, não existe nos livros (de Asimov, de Orwell, etc.) nenhuma realidade independente das palavras com que está sendo descrita. Não existem vidraças por onde os fatos possam ser vistos “exatamente somo são”. Toda linguagem escrita, toda obra literária é uma tela animada, feita de palavras, por trás do qual existe apenas o vácuo negro da não-existência. 

As imagens que imaginamos ver através da vidraça são na verdade criadas na superfície da própria vidraça, que nesse caso se parece menos com vidraça e mais com uma tela de cristal líquido. Toda literatura é vitral, e revela apenas a si própria.





quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

2733) Consciência artificial (7.12.2011)



Quando René Descartes proferiu seu famoso “Penso, logo existo” colocou um desafio para os programadores de video-games e de inventores cibernéticos em geral. Quando será que um personagem de jogo será capaz de, sem ser estimulado por seres humanos biológicos, produzir uma afirmação equivalente? Claro que não se trata de apenas repetir a frase de Descartes, por mais que isto pudesse ser criativo (Borges, em “Pierre Menard”, tentou provar que a frase do escritor A, repetida espontaneamente pelo escritor B, ganha novos contextos e novas nuances, e pode ser considerada uma frase original). Seria necessário que um personagem artificial de game, com pendor introspectivo, reflexivo, metido a filósofo, abandonasse por algum tempo as façanhas de espadachim para que fôra programado (coisa que ocorreu com o próprio Descartes) e, recolhendo-se à meditação, afirmasse a própria existência, baseando-se apenas no fato de ser capaz de pensar na possibilidade dela.

Há dois tipos, que eu saiba, de personagens de games: os que são controlados por jogadores, e os que são controlados por algoritmos, fórmulas matemáticas que determinam as ações dos personagens baseando-se num vasto menu de possibilidades de ação. Defrontando-se com várias alternativas, o personagem regido por um algoritmo opta por uma delas, influenciado por variáveis que podem ser aleatórias (equivalentes a jogar um dado) ou podem levar em conta tudo que aconteceu com o personagem até então, sua história pessoal. É possível chegarmos a algoritmos que nos deem a sensação de que existe uma consciência humana por trás daquelas decisões. Mas não saberíamos se era uma ilusão ou um fato. Só o veríamos como fato se esse personagem regido por fórmulas matemáticas se tornasse tão caótico e imprevisível quanto um ser humano normal.

Minha teoria filosófica predileta é a de que a humanidade é o videogame de alguma raça muito mais adiantada do que a nossa. Começou como um jogo de ação/aventura tipo “Trogloditas vs. Mamutes”, evoluiu para um jogo de gerenciamento de tribos, agricultura e pastoreio. Então, os avatares biológicos fugiram ao controle. Primeiro inventaram a linguagem, depois a escrita; e desenvolveram consciência individuais que não faziam parte do plano. O degrau seguinte levou esta nossa humanidade biológica a desenvolver uma humanidade cibernética (feita de bytes, de pixels, de algoritmos) na qual o mesmo processo começará, mais cedo ou mais tarde, a se reproduzir. O universo é um experimento em que espécies de natureza física totalmente diversa trabalham para produzir o mesmo fenômeno não-físico: a consciência de si mesmo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

2732) Dr. Sócrates (6.12.2011)



O aspecto mais delicado, ao comentar a morte de alguém vitimado pela droga, é evitar o discurso moralista e hipócrita (“Jovens, afastai-vos! As drogas matam!”). Como posso dizer isso, se eu também bebo? Sócrates bebeu valentemente em suas últimas décadas de vida. Segundo a imprensa, estava com o fígado praticamente destruído, e sua única chance real de sobrevivência era aguentar firme até conseguir um transplante. Infelizmente, não deu. A culpa é da bebida? É do bebedor? Diante de situações assim, temos necessidade de atribuir culpa a alguém, como se achar um culpado pudesse de certa forma apaziguar a nossa mágoa pela perda. Aqui, o culpado e perda são uma só pessoa, porque ninguém obrigava Sócrates a beber, ele bebia porque gostava, como a imensa maioria dos que bebem, inclusive eu. A questão, mais uma vez, é saber quando parar. Parar por hoje. Dizer: “Parei por hoje, me traz uma mineral com gás”, ou algo equivalente. Se você todo dia souber a hora de parar de beber por hoje, talvez tenha chance de continuar bebendo em paz até uma idade avançada.

Sócrates, como jogador, era um desses casos improváveis de atleta, como aquele besouro que não pode voar mas voa. Sócrates era magro, desengonçado. Quando corria, parecia o tempo todo a ponto de cair sozinho. Não teria físico para suportar o futebol vale-tudo de hoje em dia, todo à base de safanões, encontrões, esbarrões, trancos e peitadas. O que o salvava era a imensa habilidade com a bola, na qual batia com a precisão de um taco de sinuca, dando-lhe a força, a trajetória e o efeito que bem entendia. E a inteligência. Era alto, enxergava o jogo inteiro lá de cima. Parecia saber sempre onde estava cada companheiro e cada adversário, para onde se deslocavam, e a que velocidade. No meio dessa confluência de trajetórias, ele fazia sua navegação leve, ágil, bola dominada, sem esbarrar em ninguém, ziguezagueando por entre a zaga e muitas vezes executando uma assistência diagonal que deixava seus companheiros na cara do gol.

O quarteto que ele compôs na Seleção Brasileira de 1982 com Zico, Falcão e Cerezo não tem similar, na combinação de estilos tão diferentes e complementares; em qualidade pura, foi equivalente ao quarteto Pelé, Tostão, Gerson e Rivelino na Copa de 1970. Falam muito nos passes de calcanhar do doutor. O calcanhar estava para ele assim como o trocadilho estava para Lourival Batista: um detalhe pitoresco numa obra mais profunda e mais complexa. Irônico, incisivo, crítico, boêmio, conhecia as entranhas do futebol e conseguia continuar achando-o belo. Um brasileiro de biografia improvável, e de um carisma tranquilo e sem pose.

domingo, 4 de dezembro de 2011

2731) Influência literária (4.11.2011)



(originais de Sagarana)


Uma das perguntas mais rotineiras que se faz a um escritor, ou a um artista em geral, é: Quais os autores que o influenciaram? Nas minhas noites de insônia fico meditando sobre a função dessa pergunta e chego à seguinte conclusão. O entrevistador quer saber quem são os autores que Fulano tenta imitar, para poder avaliar se ele está conseguindo ou não. Porque a tal da influência, pelo que vejo por aí, consiste, no frigir dos ovos, em “escrever parecido” com Fulano ou Sicrano. Se eu disser que sofri influência de Harlan Ellison, meus contos passarão a ser lidos de uma maneira diferente do que seriam se eu anunciasse uma influência de Tchecov. (E talvez levasse o entrevistador a tentar descobrir quem é Harlan Ellison, para lucro de ambos.)

Amigos, nem sempre a influência consiste em produzir texto parecido. Eu, por exemplo, fui muitíssimo influenciado por Guimarães Rosa, mas dou grátis um livro meu a quem apontar um só parágrafo meu onde possa ser demonstrado que tentei escrever parecido com o beletrista de Cordisburgo. Por outro lado, nossa literatura hoje em dia está saturada de gente reproduzindo os tiques e cacoetes de Rosa, os arcaísmos e regionalismos de Rosa, as prefixações inusitadas e as derivações-na-marra de Rosa. Se influência é isso, seria melhor tentar inventar uma vacina que acabasse com ela.

Nem sempre é o estilo de um autor que nos influencia; às vezes é o seu método. Uma das primeiras coisas que me chamaram a atenção em Rosa foi, nas edições de seus livros pela José Olympio, as páginas em fac-símile mostrando o modo minucioso e completo como ele repensava, revisava e refazia cada linha, cada parágrafo, cada palavra. Decidi escrever assim, e escrevo assim até hoje. Rosa viajava sempre com cadernos e cadernetas anotando tudo para possível uso futuro; ainda aos vinte e poucos anos, decidi fazer o mesmo. Nisto recebi também influência de Maiakóvski, que aconselhava anotar tudo; mas duvido que algum poema meu seja parecido com algum poema do bardo de “A Plenos Pulmões”.

Imitar o método de um autor é mais saudável do que imitar seu estilo. Com a ressalva, sempre, de que somos biologicamente incapazes de imitar o método (ou o estilo) de um escritor com quem não nos identificamos, um escritor de diapasão diferente do nosso. Melhor esquecer o estilo e tentar adotar hábitos, métodos, técnicas, rotinas e atitudes de A ou B que sentimos serem capazes de fazer render melhor nossos textos, dando um resultado muitíssimo nosso e pouquíssimo de A ou B. Imitar o estilo alheio nos reprime e nos desfigura; melhor imitar um método alheio quando este ajuda a nos desenvolver e nos revelar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

2730) A corrente e os elos (3.12.2011)




A frase mais famosa atribuída a Sherlock Holmes, “Elementar, caro Watson”, nunca foi pronunciada por ele (parece que a frase surgiu num filme, e não nos livros de Conan Doyle). Falarei de outra frase, esta sim, incluída num livro de Doyle, e pronunciada pelo Dr. Watson. No livro O Vale do Terror, os dois amigos estão comentando a traição de um bandido da quadrilha do Prof. Moriarty, que passa informações para Holmes, às escondidas. E Watson comenta: “Pois é, nenhuma corrente é mais forte do que o mais fraco dos seus elos”. Basta que um dos bandidos “entregue o leite” para que toda a quadrilha desça pelo ralo.

Essa frase tão perceptiva contradiz a noção generalizada de que Watson era um sujeito estúpido que só servia para “fazer escada” para Holmes. O doutor tem vários momentos de agudeza intelectual que um dia me darei o trabalho de reunir num alentado artigo. Por enquanto, basta registrar que se você tem uma corrente com centenas de elos feitos de aço inoxidável e um de papel, de nada adianta o aço da maioria, porque é no papel que ela vai se partir ao primeiro puxão. Em termos de engenharia isto pode ser um problema mas pode também ser uma solução – foi assim, talvez, que os eletricistas inventaram o conceito de fusível, uma coisa mais fraquinha que pipoca no primeiro problema e desliga todo o resto, mantendo-o intacto.

Quando inventaram a Internet e a World Wide Web, o conceito principal por trás dessa inovação era justamente a de que não importava qual o ponto dessa rede que fosse desligado, por acaso ou de propósito; o fluxo de informação continuaria passando. Numa corrente linear, onde toda a informação tem que passar necessariamente por cada um daqueles elos, basta um dele se romper para o fluxo ser detido. Numa malha ou rede (web), a informação, ao chegar nesse ponto, pode ser desviada lateralmente, rodeando o “elo rompido” e voltando ao trajeto normal logo adiante, como quem faz um desvio diante de uma ponte desmoronada e logo adiante volta à rodovia.

Retomando os termos do dr. Watson, podemos dizer que uma rede é uma combinação de correntes lineares que se reforçam umas às outras, de modo que se um elo for mais fraco que os demais o seu rompimento não prejudica a solidez do conjunto. Daí que o termo “roteamento” seja tão importante no mundo internético. Rotear é dirigir o fluxo de informação, e poder fazer isso, quando um “elo” se rompe, por um caminho diferente do que estava sendo feito um segundo atrás. Numa corrente linear, o roteamento só tem uma direção por onde seguir, sem alternativas, o que a torna de fato a mais frágil das opções para a transmissão de informações.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

2729) Os Bretons e os Dalis (2.12.2011)




Recentemente, o quadrinista Frank Miller (O Cavaleiro das Trevas, Sin City, 300) soltou o verbo em seu blog, num acesso de mau humor que ecoou por toda a websfera, descendo o cacete nos jovens do movimento “Ocupem Wall Street” e chamando-os de filhinhos-do-papai mimados, ignorantes em política e “trabalhando sem saber em nome dos inimigos da América, que são a Al-Qaeda e o Islamismo”. 

Que Miller é um reacionário ranzinza todo mundo já sabe. Basta ler suas graphic novels, que são retratos vívidos, realistas e cruéis de uma certa mentalidade norte-americana de hoje. Esperar que ele apoiasse o “Ocupem Wall Street” seria tão inútil quanto imaginar que Nelson Rodrigues pudesse ter sido a favor das passeatas estudantis de 1968. 

Num artigo a respeito (http://acheiusa-octavio.blogspot.com/), o escritor e artista de HQ Octavio Aragão comenta outro ângulo da questão o da efemeridade dos movimentos em si. Diz ele: 

“Será que os manifestos, as revoluções ideológicas e movimentos de caráter modernista ainda têm as mesmas características daqueles que reformataram o mundo nos séculos 18, 19 e 20? Ou funcionam apenas como interregnos entre duas fases de aperfeiçoamento do mesmo sistema contra o qual os manifestantes se rebelam? Há muito que movimentos de contracultura pop são absorvidos com a mesma velocidade com a qual surgem – hippie, mod, rocker, punk, new wave, new romantics, hip-hop, rap, funk... – e seus discursos, por mais contundentes que sejam a princípio, são fagocitados pela moda, pelos meios de comunicação, pelos inimigos contra os quais surgiram a princípio, contribuindo para o aperfeiçoamento dos adversários, que saem cada vez mais fortes de cada confronto, cada “revolução”. 

Eu faria uma comparação desses movimentos com o Movimento Surrealista parisiense dos anos 1920. Há duas figuras emblemáticas desse movimento: seu fundador, André Breton, e seu participante mais famoso, Salvador Dali. 

Breton tinha qualidades (era grande poeta, tinha um enorme carisma, era um desses delirantes que acham que estão mudando o mundo) e defeitos (era autoritário, egocêntrico, como todo fundador-de-movimento-cultural). Mas tinha um viés esquerdista que o fez apoiar a Revolução Russa e o tornou para sempre “persona non grata” na mídia dos EUA. 

A qual num passe de mágica fez a palavra “surrealismo” se colar à figura apolítica, clownesca e “ávida por dólares” de Salvador Dali. 

Todo movimento tem um lado radical e um lado festivo, tem o seu Breton e o seu Dali. O Sistema rapidamente identifica os dois, sepulta o primeiro através de listas negras e chás-de-silêncio; e promove o outro. Simples assim.






quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

2728) Perda total (1.12.2011)



Esta história é verídica, descontados os detalhes que sou forçado a inventar para manter a sua lógica interna. 
Vítor era um conhecido meu que produzia shows no Recife, trinta anos atrás. Por mais de uma vez me levou para cantar meus batuques apocalípticos em coletivas no Teatro do Parque e na Universidade Rural. 

Houve uma época em que era o responsável pela programação de uma Lona Cultural, ou coisa parecida, que havia em Olinda, para onde ele trazia toda semana uma atração nacional. Reza a lenda que certa vez Vítor conseguiu, depois de muito esforço, trazer uma grande cantora da MPB para se apresentar na tal lona; umas versões dizem que foi Simone, outras que foi Nana Caymmi, mas isto é secundário. 

Fiquemos com Simone. Vítor foi buscá-la no aeroporto cheio de salamaleques e cortesias, buquê de flores na mão. Agradeceu muitíssimo a boa-vontade dela em vir cantar cobrando metade do cachê habitual. Levou Simone e a banda para o melhor hotel que seu parco orçamento permitia. 

De tarde levou-a com os músicos a Olinda, para a passagem de som. A cantora e a banda elogiaram o som, o que deixou Vítor nas nuvens, porque era uma aparelhagem caríssima e sofisticada que ele acabara de comprar. Terminada a passagem de som, já ao anoitecer, Simone e banda voltaram para o hotel, pois o show seria às 22 horas. Vítor pegou o fusca e correu para casa, onde morava sozinho, para jantar e trocar de roupa. 

Saía do banho quando o telefone tocou. Era o cara do som. 

“Vítor, temos uma pequena zebra aqui”. 

Ele: “O que foi?”. 

O cara: “Quando ligamos o som e a iluminação ao mesmo tempo houve uma sobrecarga”. 

Ele: “Isso prejudica algum dos dois?”. 

O cara: “A verdade é que prejudica tudo. O sistema elétrico pifou.” 

Ele: “Ih, danou-se. Tem um de reserva?”. 

O cara: “Não, ninguém tem isso de reserva, e a verdade é que o teu som novo queimou. Perda total.” 

Ele pensou durante alguns intermináveis segundos e disse: “E se a gente tirar o som novo e trocar pelo som velho, que está guardado?”. 

O cara: “Mesmo assim teria que providenciar outra luz completa, e também trocar todo o sistema elétrico da lona. É trabalho para 24 horas, no mínimo. E outra coisa, já tem uma multidão aqui do lado de fora, a gente não sabe se abre e deixa entrar, ou se diz ao público o que aconteceu.” 

Ele: “Tá danado. Segura as pontas, estou indo pra aí”. 

Vítor me contou isto anos depois, tomando uma cerveja em Copacabana. Eu perguntei: “E aí? Fizesse o quê?”. 

Ele respondeu: “Fui pro aeroporto, peguei um avião pra Salvador, e passei seis meses em Porto Seguro. Voltei pro Recife tão bronzeado que a galera quase não me reconhece”.







quarta-feira, 30 de novembro de 2011

2727) Macondo - The Game (30.11.2011)




(xilogravura: Stephen Alcorn)

Este lançamento da Carybernetics para 2035 traz um oxigênio novo para o mundo dos “computer games”, que andava meio saturado de temas como zumbis por nanotecnologia, espada-e-feitiçaria neo-islâmica e impérios submarinos.

A abertura do game nos traz em câmara subjetiva descrevendo o voo de uma folha de árvore através de uma floresta tropical, que de súbito se abre num barranco, mostrando um povoado de casas de barro e solares rústicos, enquanto a voz do autor nos diz:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria o dia remoto em sua infância quando seu pai o levou para conhecer o gelo”. 

 A palavra final fecha o movimento da câmara sobre um cubo maciço, cercado por ciganos e coberto de serragem, onde a câmara penetra exibindo o intrincado menu.

Toda a árvore genealógica dos Buendía está ali, entrelaçada à história da Colômbia e às outras obras de Márquez (é brilhante a conexão com o universo do Outono do Patriarca).

Os amantes de violência e ação têm farto material para batalhas através das guerras quixotescas perdidas pelo Coronel Aureliano (note-se que mesmo quando o jogador consegue ganhar essas batalhas, a situação política o força a travá-las de novo, interminavelmente).

Idem quanto ao duelo entre José Arcádio e Prudencio Aguilar, que tem de ser travado em sonho, ou pesadelo, por todos os seus descendentes. Há também pequenos momentos de descontração, como o minijogo de forjar e derreter peixinhos de ouro, ou a possibilidade de produzir microtatuagens na pele de José Arcadio.

Há muita sutileza na recriação de Remédios a Bela, cuja imagem só é vista por microssegundos (alguns jogadores conseguiram capturar frames do seu rosto, mas as versões falsificadas são muito mais numerosas que as legítimas). Os numerosos Arcádios e Aurelianos são recriados a partir de um mesmo avatar, com adição de pequenos detalhes que os diferenciam. (Uma das opções do jogo é ver toda a história através da matriarca Úrsula: nesta versão, todos os Arcádios e Aurelianos são totalmente diferentes entre si.)

Para os que apreciam mais o mistério do que a aventura, a decifração dos manuscritos do cigano Melquíades pode servir como um fio condutor para o desenrolar de toda a história, embora os criadores do jogo tenham tomado algumas liberdades, incluindo nele praticamente toda a obra restante de Márquez.

Em resumo: uma prodigiosa reconstituição gráfica da floresta, dos bananais, dos pântanos caribenhos; e uma proliferação de subnarrativas que justificam o slogan dos produtores, que promete “cem anos de entretenimento” a quem quiser zerar o jogo. Cotação: 5 estrelas.