domingo, 30 de outubro de 2011

2701) Correr com os touros (30.10.2011)



Já vi na mão de muita gente um livro chamado Mulheres que correm com os lobos, que ao que parece é um clássico entre as feministas, “um livro libertário, libertador”, dizem elas. Esse título sempre me lembrou aquele filme de Neil Jordan, A Companhia dos Lobos, em que uma mocinha, na noite de núpcias numa cabana da floresta, vê seu noivo se transformar num lobisomem horroroso. Por que motivo, matutava eu, uma mulher iria querer correr com os lobos? Perguntei a uma amiga minha, que é meio xamã (não sei o feminino de xamã, vá desse jeito mesmo) e ela explicou: “A sociedade industrial, patriarcal e judaico-cristã reprimiu a animalidade feminina. A fisicalidade da mulher ou foi reprimida pelo puritanismo como fonte de todos os males, ou foi industrializada, para consumo compulsório dos machos com poder aquisitivo”. “Beleza”, respondi, “mas onde entram os lobos?”. Ela prosseguiu: “Os lobos são o símbolo da animalidade não reprimida, em estado selvagem, o Id freudiano traduzido em carne, músculos, sangue. A mulher que consegue correr com os lobos e sobreviver está libertada”.

Não tive escolha senão concordar, porque de fato as mulheres são muito reprimidas, basta ver os milhares de vezes que puxam a saia para baixo, ao sentar e ao levantar (quando de fato bastar-lhes-ia sair de casa com uma saia bem longa). Mas a tragédia das mulheres é isso. Metade dos homens as obrigam a mostrar, e metade as obrigam a esconder. E tome puxar a minissaia pra baixo.

Este arrazoado todo é para dizer: Se é assim, então por que motivo as mulheres mangam tanto daqueles caras (dos quais eu mango também, sedentário que sou) que correm atrás dos touros em Pamplona? Sai todo ano no Jornal Hoje: abrem as porteiras e os touros saem desabalados pelas ruas da cidade, enquanto centenas de otários se jogam na frente deles, agitando panos e levando chifradas que os arremessam a seis metros de altura, como espantalhos desengonçados. Num mundo onde as mulheres são tão reprimidas que querem correr com os lobos, os homens também precisam correr lado a lado com um minotauro qualquer, sentir a adrenalina do perigo e o bafo fétido da Besta, praticar uma façanha insensata que os mande de volta para casa trêmulos de terror e de triunfo, dispostos a enfrentar mais um ano de pasta dental, café da manhã, terno, metrô e escritório.

Ou talvez a hiperconsciência subliminar que nos faz antever o futuro nos esteja dizendo: “Acostumem-se a correr ao lado das feras, porque dentro de meio século serão elas que mandarão nessas cidades, será com elas que homens e mulheres terão que negociar sua sobrevivência”. Quem viver, correrá.

sábado, 29 de outubro de 2011

2700) Spoilers (29.10.2011)




O verbo inglês “to spoil” significa, entre outras coisas, “estragar um prazer”. Um spoiler é qualquer coisa – geralmente uma informação – que estraga a surpresa de um filme, um livro, etc. Os mais antigos hão de se lembrar duma antiga charge de Péricles em que O Amigo da Onça sai do cinema e passa ao longo da fila de espectadores que se preparam para entrar na próxima sessão, dizendo em voz alta: “O assassino é o pai da moça... O assassino é o pai da moça...”.

O risco de estragar a surpresa alheia sempre existiu, mas só com a Internet (acho) surgiu o hábito de anunciar a presença dessas revelações. Quando a gente vê num resumo ou numa discussão de uma história alguma advertência (“Warning: Spoilers!”, “Spoilers ahead!”, etc.), já sabe que se ler o trecho seguinte vai ficar sabendo algo que preferiria não saber. Ainda não temos um termo em português que substitua este, uma palavra curta e precisa que diga o que é sem maiores explicações.

Pois muito bem. Uma pesquisa (http://bit.ly/tTOfkw) feita na Universidade da California em San Diego deu a três grupos de estudantes histórias de autores como Tchecov, Raymond Carver, Roald Dahl, etc. Cada grupo recebeu versões diferentes de cada história: no primeiro, o segredo ou surpresa da história era revelado numa breve introdução antes do início; em outro, essa revelação era integrada à história original como se fizesse parte dela; um terceiro grupo recebia a história intacta. Os pesquisadores constataram que as pessoas gostavam mais das histórias cujo final era revelado por antecipação; e curiosamente isto só ocorria quando o final era revelado num parágrafo à parte, como introdução ao conto. Quando a revelação era integrada à história, não havia diferença visível no grau de apreciação. A hipótese dos pesquisadores é de que um “spoiler” pode fornecer um esquema de organização para as informações da história que se segue, levando a uma compreensão mais fácil e a uma fruição maior. Os spoilers também podem aumentar a expectativa por eventos futuros, aumentando assim o prazer da leitura.

Isto toca de perto uma questão importante da narrativa: a diferença entre Surpresa e Suspense. Surpresa é quando o personagem cai na calçada e depois da queda vemos que pisou numa casca de banana. Suspense é quando mostramos a casca de banana e o personagem, distraído, aproximando-se dela. Muitas histórias policiais, por exemplo, revelam já na metade (ou mesmo no começo do livro) quem é o criminoso, mas conduzem a narrativa de tal modo que o fato de ter essa informação aumenta o prazer da leitura, ao invés de diminuí-lo. Como? Ah, amigos, é uma simples questão de engenho e arte.




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

2699) Drummond: “Fuga” (28.10.2011)



(Drummond, na época do lançamento de Alguma Poesia)

Um tema recorrente na obra de Drummond em sua primeira fase (a partir de Alguma Poesia, de 1930) é o da inadequação entre o poeta e o Brasil, a inadequação entre as expectativas imaginárias do poeta e a realidade que o Brasil tinha a oferecer. O livro é claramente a profissão de fé de um convertido, de alguém que provavelmente em certo momento (na adolescência, talvez) viu a si mesmo como um ser ungido pelas Musas, doido pra reproduzir aqui o toma-lá-dá-cá da vida cultural greco-romana (ou parisiense e lisboeta, para ser mais contemporâneo), e percebeu que era na verdade um exilado de nascença num país bárbaro, tropical, de gente que não sabe ler e muito menos apreciar um soneto de boa qualidade. O poeta pode ter sido assim; mas logo foi arrebatado pelo turbilhão modernista, e muitos textos de seu livro de estréia são a constatação meio nostálgica e quase toda irônica do quanto o Brasil é impermeável a essa poesia clássica que não o entende.

E vem o poema “Fuga”, onde o poeta de 28 anos diz: “"As atitudes inefáveis, / os inexprimíveis delíquios, / êxtases, espasmos, beatitudes / não são possíveis no Brasil. // O poeta vai enchendo a mala, / põe camisas, punhos, loções, / um exemplar da Imitação / e parte para outros rumos. // A vaia amarela dos papagaios / rompe o silêncio da despedida. / - Se eu tivesse cinco mil pernas / (diz ele) fugia com todas elas.” A “Imitação” a que se refere é certamente a Imitação de Cristo de Tomás de Kempis, um livro religioso do século XV, muito influente para a geração de Drummond (entre os “meus” autores, Jorge Luís Borges e Malba Tahan o citam de vez em quando).

Esse poeta que Drummond fotografa batendo em retirada rumo à Europa é o poeta que ele próprio imaginou ser, e do qual agora permite-se mangar com a risada libertadora de quem sacudiu de si uma fantasia incômoda. Ele tem bom senso suficiente para ver-se ali. É sabido que Drummond admirava Anatole France, que não escapa de citação: “Povo feio, moreno, bruto, / não respeita meu fraque preto. / Na Europa reina a geometria / e todo mundo anda - como eu - de luto. // Estou de luto por Anatole / France, o de Thaïs, joia soberba. / Não há cocaína, não há morfina / igual a essa divina / papa-fina.”

O poeta se evade para a Europa, ou seja, para o passado: “Vou perder-me nas mil orgias / do pensamento greco-latino. / Museus! estátuas! catedrais! / O Brasil só tem canibais. // Dito isso fechou-se em copas. / Joga-lhe um mico uma banana, / por um tico não vai ao fundo. // Enquanto os bárbaros sem barbas / sob o Cruzeiro do Sul / se entregam perdidamente / sem anatólios nem capitólios / aos deboches americanos.”

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

2698) Bete Calamidade (27.10.2011)



Cap. 1 – De como Bete Calamidade entrou na Maternidade Santa Edvirges arrastando o cordão umbilical, para alvoroço das enfermeiras e incredulidade geral da população de Riachãozinho (PB).

Cap. 2 – De como, dada a grande cobertura da imprensa, cerca de dez mulheres apresentaram-se como mães arrependidas de terem abandonado a recém-nascida num monturo atrás da estação, mas um breve exame médico provou a falsidade ideológica de todas.

Cap. 3 – De como Bete Calamidade foi adotada pela família do Dr. Bianor Cavalcanti, que lhe deu o nome de Elizabeth em honra da Rainha da Inglaterra, e com a esperança de que isto motivasse a menina a, no mínimo, arranjar um casamento decente.

Cap. 4 – De como o apelido “Bete Calamidade” surgiu gradualmente, ao longo de sua adolescência, da mesma maneira cumulativa com que surgem os monturos.

Cap. 5 – De como Bete Calamidade teve que fugir de Riachãozinho após uma confusa madrugada etílica e um acidente envolvendo o carro do sobrinho de Dr. Bianor, a moto de Ronny Boy (filho de um rico proprietário rural da região), um caminhão-baú que nada tinha com a história e estava apenas cruzando o município, e um posto de gasolina que se postou imprudentemente na trajetória conjunta e desgovernada daqueles três veículos.

Cap. 6 – De como Bete reapareceu como por encanto em São Paulo, no bairro de Vila Madalena, torcendo o tornozelo numa calçada e esbravejando ali a madrugada inteira, o que a impediu de ser socorrida por quem quer que fosse.

Cap. 7 – De como Bete e o segurança de um “lounge” acertaram os ponteiros e viveram juntos por seis meses, num regime de tapas e beijos.

Cap. 8 – De como um incêndio no prédio e um rocambolesco resgate de helicóptero na cobertura reconduziram Bete Calamidade às manchetes, apenas 18 anos depois de nascida.

Cap. 9 – De como Bete entrou para um mosteiro zen chorando a morte do segurança (“pelo menos a cremação veio incluída”, suspirou ela) e convenceu o Dalai-Lama local a dar um golpe no caixa e fugir com ela para Trancoso.

Cap. 10 – De como um tsunami submergiu Trancoso assim que o casal chegou, e os dois se salvaram por causa das aulas de levitação que o monge há anos tentava ministrar via Lei Rouanet e ninguém aprovava por motivos óbvios.

Cap. 11 – De como Bete Calamidade e o monge fugiram a pé pela BR até que agentes da CIA, que vinham monitorando tudo (eles monitoram tudo) sequestraram Bete Calamidade, puseram-na numa cápsula da NASA semelhante à da cachorra Laika e a mandaram para o espaço, explicando à imprensa que era para o bem da humanidade, porque (comentaram, no equivalente em inglês) “eita mulezinha carregada da bobônica!”.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

2697) O leitor recalcitrante (26.10.2011)




Uma obra literária é um conjunto de imagens, idéias e emoções que brotam na mente de uma pessoa à medida que ela lê um texto. 

Por comodidade, dizemos que a obra literária é o texto em si, mas cada pessoa extrai daquele texto uma experiência distinta, formatada pela sua personalidade, seu conhecimento literário, etc. 

O texto é sempre o mesmo, mas sempre produz leituras (isto é, obras literárias) diferentes.

Essa experiência só acontece se o leitor se entregar a ela. Entregar-se a ela não é perder o senso crítico, não é aceitar passivamente tudo que o autor diz, mas é ter boa vontade, querer participar de um jogo jogado meio-a-meio, cada um dando sua colaboração para que o romance possa acontecer. Se o cara não quer participar disso, pra que diabo abre um livro?

Coleridge dizia que a literatura fantástica só funciona se o leitor proceder a uma “voluntária suspensão da descrença”, ou seja, deixar de lado o seu ceticismo, a sua convicção sobre a inexistência de vampiros, extraterrestres, etc., e disser: “OK, faz de conta que isso existe; qual é a história que você vai me contar?”. 

Eu diria que essa suspensão da descrença é igualmente necessária para a gente ler Gabriela, Cravo e Canela, ou até para assistir a novela das 8. Porque a gente sabe que tudo aquilo é invenção, é encenação, são atores pagos para recitar frases redigidas por terceiros.

Ora, existe na literatura um tipo de leitor que eu chamo o Leitor Recalcitrante, que é aquele que desde a primeira linha toma uma atitude hostil ou desconfiada. Fica perguntando mentalmente ao autor: 

"Ah, é? Quem disse que é assim? Por que você está me dizendo isto? Por que esse detalhe não está bem explicado? Para que serve isso? Por que esse personagem se chama Fulano?” 

E assim por diante. É um leitor cabreiro, sempre com o pé atrás, sempre pronto a descobrir um erro do autor ou a se queixar de que o autor não deixou claro um detalhe. Se o autor cita Fulano ou Sicrano, o leitor recalcitrante se encrespa: 

“Ôi, e eu tenho obrigação de ter lido Fulano? Pra ler esse livro aqui preciso ter lido quantos, antes?”.

O Leitor Recalcitrante não é um leitor crítico, não é nem sequer um leitor hiper-crítico, porque mesmo estes são capazes de mergulhar num texto com prazer e abandono, depois que suas exigências iniciais são correspondidas. (Críticos literários muitas vezes são assim.) 

O Recalcitrante se alterna em momentos de baixa estima (“Eu não consigo entender esse livro, está além da minha capacidade”) e de arrogância (“Não vou perder meu tempo, esse cara pode ser famoso mas não sabe escrever”). É um leitor que não sabe abrir a porta e sair pra brincar.






terça-feira, 25 de outubro de 2011

2696) Severino Marinho (25.10.2011)




(Marinho e D. Lurdinha)

Recebi a notícia do falecimento de Severino Marinho Leite, e me vejo mais uma vez, nas últimas semanas, diante dessa missão impossível: dizer o que uma pessoa representou em algum momento da nossa vida. Uma morte é um desses momentos que nos deixam sem saber o que dizer. Não porque não haja coisa alguma a ser dita, pelo contrário. De repente há uma vida inteira, milhões de coisas para serem ditas. Pode-se começar por qualquer ponto e prosseguir indefinidamente; esse excesso de caminhos acaba por nos condenar à imobilidade.

Marinho foi um dos grandes amigos do meu pai, e em muitos momentos foi uma espécie de anjo da guarda que orientava nossa família em situações difíceis. Uma vez, quando Seu Nilo estava meio enfarruscado com a vida, por causa de projetos que não andavam pra frente, alguém lhe perguntou se ele não tinha amigos, e ele disse: “Tenho, sim: Severinos Marinhos Leites”. Não o disse certamente para menosprezar os outros; mas sem dúvida porque naquele momento era Marinho o único capaz de ajeitar os óculos dourados de lentes verdes, passar a mão pelo cabelo e dizer: “Calma, Nilo, isso vai se arranjar, vamos analisar o problema”.

Não vou insistir apenas na minha perda pessoal. Melhor dizer logo que a perda de Campina Grande foi muito maior do que a minha. Não apenas pelo cidadão, mas porque Marinho foi o torcedor-símbolo do Treze, o homem que manteve ao longo de seus mais de 80 anos de vida o registro permanente dos jogos do Galo (jogo, data, local, placar, autores dos gols, escalação do Treze). Quantos times brasileiros podem se gabar de um torcedor assim? Em 1975 quando fizemos, sob a orquestração de Hélio Soares e do presidente Zé Agra, a revista do cinquentenário do Galo, foi dos arquivos de Marinho que extraímos as estatísticas de todos os resultados do Galo naqueles cinquenta anos. O mesmo com Mário Vinícius ao compor seu livro monumental sobre a história do alvinegro.

Uma bela lembrança que guardo, do meu tempo de garoto, é de uma viagem noturna ao Recife, quando ele e meu pai me levaram de carro para ver um torneio na Ilha do Retiro, que teve na preliminar Náutico x Palmeiras (a única vez em que vi Djalma Santos jogar) e na principal Sport x Corinthians. Estudei no Alfredo Dantas com seus filhos Marcos e Fernando. Depois tornei-me amigo de sua filha Cida Lobo, que foi há pouco tempo sub-secretária de Cultura do Estado. Marinho era para mim uma figura paterna, um pai mais jovem e mais comedido, levemente brincalhão e sempre sereno. O Treze que ele tanto amou deu-lhe alegrias nos últimos tempos. A cidade que ele defendia cresceu tanto que hoje nem percebe o quanto sente sua falta.

domingo, 23 de outubro de 2011

2695) O pintor de portas (23.10.2011)




Surgiu em nossa cidade um pintor especializado em portas. Cobrava muito caro, mas mesmo assim os candidatos a cliente faziam fila. Deixavam no escritório do “marchand” um documento contendo descrição e foto dos membros da família, e um texto de vinte linhas dizendo por que motivo queriam o quadro. Quando o artista escolhia a família, ela tinha que hospedá-lo durante o tempo necessário para que ele se familiarizasse com a casa, escolhesse o aposento e a parede, e pintasse ali a porta. 

Na casa do advogado Hrabel ele pintou no corredor uma porta feita de água verde do mar, um retângulo trêmulo e salgado onde se via às vezes passar como uma flecha um peixe arisco, ou flutuar uma água-viva. 

Na casa da família Yssahid, pintou na sala de jantar uma porta de carvalho maciço, coberto de musgo, com uma pesada aldraba de metal; mas suspensa a um palmo acima do piso, e numa inclinação de 30 graus. Era possível cerrar os dedos em torno da aldraba. 

No apartamento da viúva Tenmory, ele demorou quase dez dias para encontrar o lugar adequado, e foi preciso desmontar um armário para que naquela parede descolorida e arranhada ele produzisse uma porta esférica, que preenchia totalmente a abertura onde estava encaixada. Era possível usar as mãos para fazê-la girar, e cada movimento revelava formas e cores diferentes, distribuídas na superfície daquele globo de madeira; até mesmo palavras.

Seus sucessos se acumulavam. A porta vazia que pintou para a família Blinemuth; a porta narrativa que até hoje desconcerta os visitantes do mosteiro copta; as duas portas gêmeas e reversas no banheiro do usineiro Fargas. Para ter em casas essas obras merecedoras de contemplação e hipóteses valia a pena (segundo os clientes) suportar a presença do artista, cujas venetas pareciam mudar de acordo com a moradia onde se instalava. Soturno e arredio numa, impudente e ofensivo em outra; nesta, passava o dia deitado no tapete, bebendo vinho em silêncio e coçando os pés; naquela, devorava a biblioteca do dono, enquanto os pincéis e as tintas secavam, inúteis, sobre uma mesa de jantar de onde ninguém ousava aproximar-se. (Na minha casa, estranhamente, não demorou mais que meia hora, para executar às pressas uma porta no muro de pedra que dá para a rua, uma porta que só pode ser vista pelo lado de dentro.) 

Partiu um dia, após embolsar seu último pagamento. Deixou atrás de si polêmicas, contradições acaloradas, residências a cuja entrada se formam, ainda hoje, filas de turistas empunhando guias explicativos e câmaras de filmar; e essa coleção de passagens que não levam a lugar nenhum.





sábado, 22 de outubro de 2011

2694) O papel do crítico (22.10.2011)




(de Random Meanderings)

Um leitor indignado escreveu uma vez para Pauline Kael, a famosa crítica de cinema norte-americana, fazendo-lhe a tradicional pergunta: “Se você é tão segura a respeito de quando um filme é bom ou é ruim, por que não faz um?”. Ela respondeu que uma pessoa não precisa saber botar um ovo para poder dizer se um ovo frito está bom ou não. 

Existe um consenso difuso dentro do Clube dos Espectadores Irritados de que um crítico de cinema é um cara que tentou fazer cinema e não deu certo, ou que teve tanto medo que jamais tentou. Isso é tão injusto quanto imaginar que um espectador é um cara que quis ser crítico e não deu certo, etc etc.

Se um espectador pergunta a um crítico: “Quem é você para dizer que este filme é ruim?” o crítico tem todo o direito de perguntar de volta: “E quem é você para dizer que é bom?”. O direito do crítico é o mesmo de um espectador; os seus deveres é que são mais numerosos e mais sérios. 

O crítico pode ser aquele monstro horrendo de nossa época, o Especialista, o sujeito que dedica todas as horas de sua vida ao estudo de alguma coisa. Enquanto eu estou vendo futebol na TV, ele está estudando cinema. Enquanto eu tomo cerveja no boteco com os amigos, ele está estudando cinema. Enquanto eu escovo os dentes, penteio o cabelo, ele está estudando cinema. Quando eu e ele nos sentamos para discutir, ele me esmaga a cada frase como se fossem patas de elefantes: “Você sabe o que é diegético? Você já assistiu algum filme de Samuel Fuller? Você sabe a diferença entre um travelling e uma panorâmica? Você sabe qual é o clássico do cinema que está sendo citado na famosa sequência do varal de lençóis em Legendas de Krisnampur?” 

E assim por diante. Discutir com um Especialista é como jogar xadrez com um cara que tem onze damas, trinta torres, dezesseis bispos e noventa cavalos.

A função do crítico não se confunde com a do diretor; exigir que o crítico dirija um filme para ter o direito de criticar é o mesmo que exigir que um diretor escreva uma crítica para ter o direito de dirigir. 

Há pessoas que sabem olhar apenas o filme, o espetáculo. E há pessoas que sabem ver ao mesmo tempo o filme, a platéia e a cabine de projeção. Claro que ele pode ter a opção (se lhe convém) de se deixar arrebatar pelo filme, ver um filme primeiro como espectador e só depois como crítico; mas um “crítico” é quem sabe usar esses dois modos, e um “espectador” é quem só sabe usar um. 

Esta é uma das diferenças mais importantes, e o que às vezes irrita um espectador é perceber que está sendo considerado parcialmente cego, e que quem o considera assim tem mesmo razão.






sexta-feira, 21 de outubro de 2011

2693) Saul Steinberg (21.10.2011)


Eu tinha perdido no Rio de Janeiro esta exposição de desenhos de Saul Steinberg, As aventuras da linha, mas paguei essa dívida a mim mesmo indo vê-la na Pinacoteca de São Paulo. 

Quando estou sacolejando num metrô ou num ônibus rumo a um museu fico me perguntando por que diabo me dou esse trabalho todo na era da Internet, quando basta clicar um “abre-te sésamo” qualquer para que tudo apareça pixelando em nosso monitor. 

Uma das respostas possíveis, no presente caso, é que nenhum monitor pode dar uma sensação equivalente a ver uma faixa de papel com quatro metros de comprimento em que Steinberg traça uma linha horizontal e a vai recheando e rodeando de imagens, como numa imensa Tapeçaria de Bayeux que se desenrola diante dos nossos olhos. 

A faixa começa com o desenho de uma mão que empunha a caneta e traça essa linha horizontal que sucessivamente se torna o chão de um desenho, o céu de outro, o horizonte de outro, a linha do mar em mais um, uma balaustrada, um meio-fio, sempre a mesma linha que corre horizontalmente e é cooptada por uma série de imagens, cada uma dando a ela uma leitura diferente. 

Esta é apenas uma das muitas magias do Rei do Traço, o romeno que por ser judeu teve que fugir da Europa e buscar refúgio nos EUA, onde se tornou um dos mais famosos ilustradores e capistas da revista The New Yorker

Conheci o trabalho dele nos anos iniciais do Pasquim, quando Millor Fernandes, Ziraldo e outros reproduziam seus desenhos e entoavam alalaôs ao mestre. Mestre deles, virou mestre meu também; mesmo quem não é desenhista pode absorver da linha enxuta de Steinberg alguma coisa para sua escrita, assim como um músico pode lucrar o mesmo para o seu piano (eu diria que foi o caso de Erik Satie, se um não fosse tão anterior ao outro) e até um jogador de futebol pode usar algo em seu trato com a bola. (Eu diria que Sócrates, Zidane e Paulo Henrique Ganso têm momentos verdadeiramente steinberguianos.) 

A exposição em SP traz numerosos exemplos das famosas séries em que Steinberg pega um tema (um cowboy; uma perua; uma passeata; um gato; um casal; um casaco de peles) e o reproduz incansavelmente, cada exemplo com um tracejado diferente que sugere diferentes interpretações visuais, leituras críticas, piscadelas irônicas, citações rebuscadas, ou apenas (e sempre) o mero prazer de desenhar. 

Vi na exposição montes de crianças, acompanhadas pela professoras, deitadas no chão da Pinacoteca, lápis e bloquinho na mão, copiando, imitando, parodiando e distorcendo os desenhos do mestre. E vivendo na idade certa a descoberta do prazer de desenhar, um reino onde as possibilidades, como sempre, são infinitas.




2692) O Espaço Selvagem (20.10.2011)





Um tema que a ficção científica brasileira tem cultivado, sem nenhum planejamento ou esforço coordenado, é o que poderíamos chamar de Espaço Selvagem, o espaço do vasto interior brasileiro, o Brasil profundo que ainda não foi descoberto e que pode guardar para a humanidade variados tipos de surpresa. 

Não é uma novidade no gênero, porque os ingleses (H. Rider Haggard, principalmente) inventaram o gênero dos Reinos Perdidos na Floresta. Os romances brasileiros, no entanto, não nos interessam por terem inventado um gênero novo, mas por terem utilizado uma fórmula européia para refletir sobre o Brasil.

Menotti Del Picchia escreveu dois romances fundamentais desse ciclo, A República 3.000” (ou A Filha do Inca, 1930) e Kalum, o mistério do sertão (1936). 
Jerônymo Monteiro, um dos pais da FC brasileira, publicou em 1934 A Cidade Perdida e em 1949 A Serpente de Bronze, onde aparecem os atlantes. 

O mito de Atlântida retorna em Os Bruxos do Morro Maldito e os Filhos de Sumé de Agostinho Minicucci (1992), e é ressuscitado na Paraíba (mais especificamente, na Pedra do Ingá) no poema épico A Atlântida de Amílcar Quintella Jr. (1957)

Descendentes do império inca também aparecem em A Amazônia misteriosa de Gastão Cruls (1925) e em A Clã Perdida dos Incas de O. B. R. Diamor (1958). Herberto Salles é um caso curioso de romancista regional (Cascalho, 1944) que depois se voltou para a FC com romances como O fruto do vosso ventre (1984) e A porta de chifres (1986), romances ambientados no interior, num contexto de apocalipse ecológico. 

Em épocas mais recentes, Roberto de Sousa Causo tem feito da Amazônia o cenário de seus “thrillers” militares futuristas, como Terra Verde (2000), O Par: uma novela amazônica (2001), etc. Cristovam Buarque, em Os Deuses Subterrâneos (1994), explora uma civilização no subsolo do Planalto Central.

A Amazônia e os cerrados do Centro-Oeste são os cenários preferenciais desses romances, é é curioso notar que a Atlântida e os Incas são frequentemente citados. É como se no Brasil, pela sua extensão e pela inacessibilidade de seu interior, essas civilizações estivessem tendo uma sobrevida. (Algo parecido com o que Conan Doyle imaginou em O Mundo Perdido: que no Brasil haveria um platô onde os dinossauros ainda existiam.) 

Não é exclusividade do Brasil a existência de um Espaço Selvagem literário; o que diferencia nossas histórias das demais é a variedade de paisagens físicas e geológicas, a proximidade histórica e geográfica com os Incas e a Atlântida, etc. São as fagulhas literárias do choque tectônico, ainda em pleno curso, entre a Europa e a América.