sábado, 20 de agosto de 2011

2640) Repassando, compartilhando (20.8.2011)



O escritor Damon Knight tem um romance de ficção científica chamado A for Anything (em português seria “Q de Qualquer coisa”) onde ele explora uma situação curiosa. Num mundo futuro, inventa-se uma máquina capaz de reproduzir com perfeição qualquer coisa, tipo uma super-xerox universal. Se botar ali uma moeda e acionar a máquina, ela produz uma moeda igual. Se colocar um passarinho vivo, ela produz um clone exato do passarinho, também vivo. Esse invento causa mudanças imprevisíveis na civilização humana.

Algo parecido foi essa varinha de condão que a cultura digital nos presenteou: a possibilidade de com um único clique tirarmos uma cópia, ou 200 cópias, ou 2 mil cópias de um mesmo documento. Com que volúpia as pessoas recebem uma foto colorida, enternecedora, de uma galinha maternalmente amamentando seus pintinhos, e a reenviam para todos os 1.500 contatos de sua caixa de mensagens! Com que simplicidade de esforço elas criam mensagens em grupo entre 180 pessoas, de modo que cada comentário é clicado no “Responder a Todos” e segue instantaneamente para os 179 incautos, mesmo que o comentário seja apenas “kkkkkkkk”, ou “A-do-rei!” ou “Concordo!”! Como é rápido receber os clichês lenda-urbana de sempre (adolescente desaparecida, corrente de Santa Inocência, recado de Bill Gates, proposta de negociata bancária da viúva de um ex-ministro de Uganda, etc.) e seguir o conselho (já internalizado psiquicamente) de “repassar para todos”!

O Facebook adicionou, ao verbo “repassar”, o seu equivalente “Compartilhar”. Para poupar esforço, já que o processo não é tão simples quanto o da caixa de email, introduziu há pouco o sistema de digitação automática, em que a gente nem precisa escrever o nome completo de cada pessoa. Basta colocar “Bra...” e, presto! O Facebook completa o nome do futuro e indefeso recebedor. Isto desencadeou uma febre compartilhante. As pessoas se inebriam com a própria generosidade e compartilham tudo: videoclip de Lady Gaga, entrevista de deputado do DEM de Roraima, foto sensual de participante de A Fazenda, gol de placa em jogo da série C da Venezuela, lista dos “Cem Melhores Tiros de Revólver do Faroeste Italiano”... Gente que não compartilharia um misto quente com um sudanês faminto compartilha pixels e megabytes com a prodigalidade de recém-usuário do novo toque de Midas.

A Digitolândia é o parque de diversões dos indolentes, daqueles que, como dizia Drummond, “querem mudar o mundo, desde que para isto não seja preciso mover uma palha”. Vão um passo além, claro, e movem a palhazinha imponderável do cursor, que não é sequer uma varinha mágica, é mais leve ainda, um asterisco mágico que flutua no universo retangular do monitor, portulano do Novo Mundo onde tudo é de graça e sem esforço. Estou reclamando? De jeito nenhum. No instante em que em digitar o ponto final deste artigo, presto! Repassei, compartilhei com um bilhão de incautos do presente e do futuro.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

2639) Drummond: “Jardim da Praça da Liberdade” (19.8.2011)



Os poetas parnasianos viviam uma versão chapa-branca do Brasil, envoltos num ufanismo cuja melhor tradução é o famoso verso de Olavo Bilac, primor de patriotismo histérico: “Pátria, latejo em ti!”. A gente manga dessas coisas (eu, pelo menos) mas precisa reconhecer que são fases necessárias para a formação de um conceito de nação. A primeira coisa que o colonizador incute no juízo do colonizado é que aquilo ali não presta, é inferior, que não vale a pena defender aquelas matas atlânticas ou jazidas de diamantes; mas quando a maré política se inverte é preciso reverter essa lavagem cerebral. A literatura e os demais discursos verbais nos fornecem argumentos e justificativas para que a gente sinta tais e tais coisas. Hoje em dia, por exemplo, a defesa do meio ambiente é uma questão de tal importância que mesmo os argumentos idiotas em seu favor são males menores, pois ajudam muita gente a dar atenção ao problema. No tempo dos parnasianos, a República foi na verdade a verdadeira Independência, um abrir-os-olhos para a existência de um Brasil administrado pelos brasileiros. O ufanismo pomposo e grandiloquente de Bilac era melhor do que o complexo de viralata dos 400 anos anteriores.

O modernismo introduziu a ironia na poesia brasileira, a capacidade de ver-se com olho crítico mas sem complexo de inferioridade. Até então, nossos poetas viviam num internato católico; de 1922 em diante, foram soltos na rua e ganharam emprego de motoboys, com uma única instrução: “Te vira”. No livro Alguma Poesia, Drummond contempla o “Jardim da Praça da Liberdade”, aquela paisagem ao mesmo tempo parnasiana (pela superfície bucólica que tenta aparentar) e modernista, por ser um artificialismo que denuncia a si próprio (“Bonito demais. Sem humanidade. Literário demais.”). Ele ironiza o paisagismo ingênuo (“rosas geométricas”, “jardim tão pouco brasileiro”, “a terra não sofreu para dar essas flores”) e expõe o contraste entre a sugestão de natureza presente em qualquer jardim e o círculo de ferro do conservadorismo em perpétua sentinela (“jardineiros oficiais”, a “moldura das Secretarias compenetradas”, a “prefeitura vigilante”).

Para quem não conhece, a Praça da Liberdade fica diante do palácio do governo mineiro, cercada pelos prédios austeros da secretarias. Agora, tudo está sendo transferido para o novo Centro Administrativo, a meio caminho do aeroporto de Confins. Para mim, que morei e estudei ali ao lado, era o lugar de passeio de fim de tarde entre gramados e palmeiras, num oásis de natureza artificial cercado por um cinturão do Poder político (e, na época, da ditadura militar). As ironias de Drummond para com essa praça (que ele certamente amava tanto quanto eu) exprimem esse novo patriotismo cheio de auto-crítica. Um patriotismo século 20, mesmo que já no século 21 grande parte dos brasileiros ainda esteja encalhada no complexo de viralata ou no orgasmo perpétuo do ufanismo nacionalista.


2638) Os ricos são diferentes (18.8.2011)



A pesquisa foi publicada na revista Current Directions in Psychological Science, por Dacher Keltner e colaboradores. O objetivo era examinar pessoas de diferentes classes sociais na tomada de decisões baseadas em empatia, compaixão, altruísmo, solidariedade social, etc. A conclusão foi que os ricos têm uma experiência de vida que os induz a ter menos empatia, menos altruísmo, e a serem em geral mais preocupados consigo mesmos. Já os pobres mostram um comportamento mais impregnado de união social e compaixão. Eles interpretam melhor os sentimentos alheios, têm mais empatia e estão mais dispostos a dar algo a quem precisa.

Nos vídeos gravados pelos pesquisadores, as pessoas mais ricas geralmente mantêm uma atitude distraída, checando o tempo inteiro seus celulares, rabiscando num papel, evitando contato visual com o interlocutor, enquanto que as pessoas de menor poder aquisitivo encaram as outras de frente e fazem sinais mais frequentes com a cabeça indicando que estão entendendo o que lhes é dito.

Os pesquisadores consideram que a atual guerra política nos EUA, envolvendo impostos, teto de endividamento e as práticas atuais do mercado de capitais têm sua origem na “ideologia do interesse próprio” das classes mais ricas. Os ricos acham que o sucesso econômico, político e pessoal se deve a comportamentos individuais e a uma boa ética de trabalho. Pelo fato de não reconhecerem a importância de conexões familiares, dinheiro e melhor educação, eles tendem a desdenhar a ajuda do governo em seu sucesso e opõem-se vigorosamente a financiar esse governo com impostos. Para Mark Wilhelm, economista da Indiana University, a maioria das pessoas é capaz de responder com rapidez quanto pagou de impostos no ano passado, mas poucos seriam capazes de calcular o quanto se beneficiaram do governo – dirigindo em estradas federais, tomando remédios produzidos através de pesquisas financiadas pelo governo, ou usando invenções de pessoas que foram educadas em escolas públicas.

Os ricos tendem ao isolamento, consideram que todo seu sucesso se deve a si próprios, e que não faz sentido dividi-lo com mais alguém. Os ricos não são propriamente egoístas, são voluntariamente desatentos, e desse modo incapazes de fazer a ligação cognitiva entre necessidades e recursos. Enquanto isto, a distância entre os mais ricos e o resto da população continua a aumentar nos EUA, onde 80% da riqueza do país é controlada por cerca de 20% de sua população.

Os ricos são cruéis? Talvez nem tanto. Como qualquer um de nós que se julga em boa situação, eles acham que merecem tudo que têm, e talvez merecessem até um pouco mais. Seu índice de normalidade é o seu próprio nível de vida. Muitos deles até se dispõem a dar 1 milhão a uma instituição de caridade, desde que essa decisão seja sua, mas chiam e esperneiam se o governo os obrigar a doar mil dólares para gente por quem eles não se interessam nem um pouco.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

2637) A história de Zé Francisco (17.8.2011)



Eu devia era checar com os descendentes de Zé Francisco os detalhes desta história, que para mim já se despregou da mera biografia e ascendeu ao reino das lendas. Vai ela aqui, e quem conheceu o “santo” que reconheça (ou não) o “milagre”. 

Zé Francisco morava em Alagoas, nos anos 1940, e quando começou a Grande Guerra houve um alvoroço total. O mundo pegava fogo; havia até mesmo europeus ou brasileiros filhos de europeus que embarcavam de volta para a Europa, para defender seus respectivos países. 

O Brasil, pelas manobras de Vargas, demorava a entrar no conflito. Acabou entrando; e Zé Francisco saiu de sua cidadezinha de Alagoas para vestir a farda e lutar no “front”.

Fusão para poucos anos depois. Campo de batalha numa floresta italiana. Uma tropa alemã está sitiada numa casa, no meio de um vale, e os brasileiros a cobrem de rajadas de metralhadora. Zé Francisco é um deles. Depois de um fogo mais cerrado, eles começam a perceber que a maioria dos alemães morreu, mas no andar de cima há pelo menos um sobrevivente, bem municiado, que continua a defender o posto. Zé Francisco pede aos amigos que o cubram, disparando contra as janelas de cima, enquanto ele sai das árvores e corre até a casa, para entrar pela porta e dar cabo do alemão.

Botam o plano em prática. A fuzilaria é intensa enquanto Zé Francisco corre, protegendo-se, até a porta da frente. 

O tiroteio para. Ele empurra a porta e entra. Vê corpos de alemães caídos por todo lado; e uma escada que sobe até um alçapão que dá acesso ao andar de cima. Zé Francisco se encaminha para ela, pé ante pé, vai subindo. 

Chegando lá no alto ele ergue o fuzil e, com a ponta da baioneta, começa a levantar a tampa do alçapão. Quando a levanta por completo, o que vê? Vê a boca enorme de uma metralhadora apontando para seu rosto, e, por trás dela, o rosto do alemão que empunha a metralhadora, pronto para disparar. E quando os seus olhos se cruzam, o alemão exclama, assustado: “Zé Francisco! O que é que você tá fazendo aqui, homem de Deus?!!!”.

Sei que a história não é exatamente assim, velhos, mas este é o segredo da literatura: usar a imaginação quando a memória nos falta, e usar a memória quando nos convém. Todos os grandes episódios da História são contados dessa maneira, desde a Grécia clássica e a Roma Antiga até a Revolução Francesa e o Descobrimento do Brasil. 

O alemão entrincheirado naquela casa morava em Alagoas e era um dos que tinham voltado à Pátria para vestir sua farda e defender seus ideais. Pelo que me lembro (daquela frase em diante a história perde nitidez e interesse, pela parte que me toca), o alemão foi preso e Zé Francisco foi avalista de sua sobrevivência durante as semanas seguintes, de modo que tudo acabou bem para todos os envolvidos. 

Mas a mera possibilidade de um encontro como esse nos faz exclamar como Riobaldo Tatarana: “Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande.”






terça-feira, 16 de agosto de 2011

2636) Baseado em (16.8.2011)




Este artigo, vou logo avisando, se refere à adaptação de romances para o cinema, TV, teatro, e outras formas de encenação. A expressão “baseado em” costuma ser mal compreendida por muita gente. Ao pé da letra, o livro original seria apenas uma base, um fundamento para a criação de uma obra diferente. Na prática, porém, esta expressão, que me parece correta, acaba se confundindo com outra maneira de dizer, esta sim muito perigosa. É quando falamos: “O livro tal vai ser filmado”. Dizer isto sugere, implicitamente, que o livro vai ser filmado tal qual é, que todos os detalhes que existem no livro vão ser transpostos para o filme, tintim por tintim, e naquela mesma ordem. E não é o caso.

Dizem que no começo do século 20 os diretores distribuíam dezenas de exemplares de um romance entre os atores e os técnicos, e no primeiro dia de filmagem começavam a filmar o que acontecia no Capítulo 1. Logo logo esse sistema de trabalho mostrou que não funcionava. Uma história que se passava em diferentes cenários forçava a equipe a se deslocar todo dia de um lugar para o outro; um cenário que só aparecia no começo e no fim da história tinha que receber manutenção durante semanas ou meses. Logo as pessoas concordaram que era mais simples filmar num cenário tudo que acontecia ali, depois passar para outro, e no final recortar todas essas cenas e colocá-las na ordem certa. Isso é o beabá da produção de cinema.

Um dos raros filmes contemporâneos feito à maneira antiga foi, pelo que me contaram, Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho, cuja equipe se enfurnou durante meses numa fazenda, todo mundo com um exemplar do livro, e todos os dias atores e técnicos liam, discutiam, ensaiavam, filmavam. Não houve roteiro; não foi necessário. E mesmo assim a interferência autoral do diretor é imensa, e não sei se se pode dizer que o filme foi “transposto” para a tela, embora o próprio escritor, Raduan Nassar, tenha elogiado o resultado final.

Bem, se o autor elogiou provavelmente é por ter a compreensão de que um filme é outra obra que se inspira na mesma idéia que o autor tinha do livro antes de começar a escrevê-lo ou durante o ato da escrita. Quando a gente se senta para escrever pode ou não ter uma idéia geral da história; mas para simplificar digamos que existe na mente do escritor uma idéia platônica, perfeita, ideal, do livro a ser escrito; e que o texto que ele publica é uma tentativa de dizer aquilo em palavras. O cineasta, ao ler o livro, julga perceber, através daquelas páginas impressas, qual era o livro platônico, o livro perfeito, que o escritor tinha em mente; e é esse livro (não o livro efetivamente escrito e publicado) que ele procura traduzir em imagens. Daí a liberdade que ele tem ao adaptar, porque não precisa se prender à letra e sim ao espírito da obra. Ele não filma o que foi escrito, filma aquilo que ele imagina que o escritor tinha em mente quando estava escrevendo.


domingo, 14 de agosto de 2011

2635) A Vida e os Tempos de Ribs Callahan (14.8.2011)




Cap. 1 – De como “Ribs” Callahan passou em 1º. lugar nos testes para Piloto Hiperespacial e tornou-se o primeiro terrestre desta confraria, onde só existiam alienígenas de variadas raças.

Cap. 2 – De como o Conselho dos Yonkings, uma raça invejosa dos humanos, reuniu-se em segredo e decidiu sabotar da melhor maneira possível a carreira de Callahan.

Cap. 3 – De como o primeiro voo Hiper Espacial de Callahan terminou com um espantoso acidente que vitimou toda a tripulação, menos ele, que, desconfiando da sabotagem, deu um jeito de embarcar como piloto um primo parecidíssimo com ele, mas que não sabia pilotar.

Cap. 4 – Das variadas reações que a revelação desse atentado produziu dentro do Conselho dos Yonkings, e que resultaram na queda de algumas cabeças e meia dúzia de tentáculos.

Cap. 5 – De como o Comitê Galáctico interveio e transferiu Callahan (para evitar um conflito armado com a Federação Terrestre) para o sistema de Pyark-14, com dezoito sóis e centenas de planetas e de asteróides, na esperança de que nessa gincana suicida Callahan “fosse pro espaço”.

Cap. 6 – De como Callahan celebrizou-se pela sua imprudência, navegando à velocidade da luz naquela corrida de obstáculos e em poucos anos promoveu uma reviravolta econômica no sistema de Pyark, que até então estava maduro para tornar-se o mais poderoso da Galáxia e não sabia.

Cap. 7 – De como o Conselho dos Pyark nomeou Callahan General-em-Chefe para a invasão do Sistema de Vega, e Callahan mais uma vez mandou um primo, porque estava de viagem para Thyugoin, um planeta tropical, famoso pela vegetação abundante e pelas belas nativas.

Cap. 8 – De como a invasão, sob o comando do primo, foi um sucesso militar em todos os aspectos, tornando os Pyark a nova força a ser respeitada na Galáxia, enquanto o planeta Thyugoin era vítima de um atentado misterioso que matou Callahan e todos os hóspedes do “resort” que o abrigava.

Cap. 9 – De como o primo de Callahan aproveitou este fato e promoveu uma investigação rigorosa e defenestração em massa no Comitê Galáctico, provando que eram mais uma vez os Yonkings que estavam por trás do complô (para vingar-se de Callahan, claro), fazendo com que os Yonkings fossem defenestrados do Conselho, perdendo as 43 cadeiras que ocupavam, as quais foram preenchidas pelos Pyark, que com isto saltaram de 11 para 54 e adquiriram maioria dos votos.

Cap. 10 – De como o primo de Callahan aproveitou para fazer uma aliança com os terrestres (aliados históricos dos Pyark, para quem tinham transferido a tecnologia secreta do voo mais rápido que a luz), e findo este processo, arrancou a barba falsa e revelou ser o próprio “Ribs” Callahan, que armara aquilo tudo prevendo a manobra dos Yonkings, e, entregando à Liga Terrestre a presidência do Comitê Galáctico, encerrou sua carreira de piloto e refugiou-se num “resort” tropical, de vegetação abundante e cheio de belas nativas, nos arredores de Canoa Quebrada.

sábado, 13 de agosto de 2011

2634) No asilo de lunáticos (13.8.2011)



“Ora, claro, é sempre um prazer receber a imprensa. Quem é que não gosta de ver seu trabalho divulgado junto ao grande público, a fim de que este se aperceba do nosso esforço diário, das dificuldades que enfrentamos, das vitórias científicas que conseguimos? Por aqui, faz favor... Este corredor vai dar no pátio, se bem que a esta hora deve estar quase vazio. É a nossa hora da sesta. Ah, veja bem, aquele rapaz gordo sentado à sombra do cajueiro. Vê como está coberto de tatuagens? Quando chegou aqui tinha a pele lisa como a minha ou a sua. É um mistério o modo como essas tatuagens aparecem. Ele passa horas a explicá-las nos menores detalhes. Surgem tatuagens cabalísticas num dia, meteorológicas no outro... Ontem, exibiu um zodíaco babilônico; hoje, vi-o mostrando e comentando as capas dos discos que pretende gravar, à razão de um em cada século; amanhã, sabe-se lá o que surgirá em sua epiderme.

“Veja as duas senhoras idosas que se aproximam, a mais magra amparado a mais idosa. São Dona Vanilda e Dona Charlotte. Dona Vanilda é uma dona de casa inculta, deprimida, nascida e criada no sertão; Dona Charlotte é filha de franceses ricos e se criou no Rio de Janeiro. O mais interessante é que essas pessoas não existem. São personalidades intercambiáveis; as duas mulheres ficaram amigas, e quando uma delas amanhece como Charlotte a outra automaticamente se torna Vanilda, e vice-versa. Suas identidades reais (a que está nos documentos) elas já esqueceram totalmente. Nós também.

“Nenhum desses casos, é claro, é tão estranho quanto o de Catavento, aquele negrinho magro que está nos galhos daquela árvore. Ele fala uma língua desconhecida desde que chegou aqui, vítima de uma crise catatônica. Serve de intérprete para a maioria dos outros pacientes, porque não importa o que lhe peçamos para dizer ele diz na tal língua e as pessoas obedecem, atendem, mesmo quando não nos ouviram dizer a Catavento o que queremos que elas façam! Sim, já fizemos horas e mais horas de gravações, trouxemos linguistas... Nada. A língua é uma algaravia, palavras que nunca se repetem; mas os doidos a compreendem.

“Doidos é um modo de dizer, não é mesmo? Aquele rapaz de bigode, por exemplo, tem consciência de que é doido. Produz delírios o tempo inteiro, basta dirigir-lhe a palavra. De mais a mais, é bem comportado, higiênico, obedece aos enfermeiros... Mas todo dia de manhã conta de si mesmo uma história diferente, e não parece ter memória do que lhe aconteceu no passado remoto ou recente. É como se todo dia ele fosse obrigado a inventar uma doidice nova, inventar para si mesmo um motivo, uma explicação para o fato de estar internado aqui. É um bom rapaz, mas muito tenso, muito nervoso, e na verdade tenho muita pena dele, porque deve ser muito desgastante, para um doido, não conseguir lembrar qual era sua doidice na véspera e ter que inventar todo dia uma doidice nova para poder justificar sua existência no mundo.”

2633) Cinema e biografias (12.8.2011)



(Adrien Brody como Salvador Dali)

Quando vemos filmes que contam a história de pessoas famosas, com as quais temos certa familiaridade, avaliamos essas encenações biográficas de acordo com as nossas expectativas de como elas deveriam ser tratadas num filme. Dizemos que o filme tal não é fiel à imagem de Dylan Thomas, ou que o ator que interpretou Rodin não está à altura dele. Dizemos que o filme sobre Villa Lobos esteve mais próximo da realidade do que o filme sobre Beethoven; e assim por diante. Isto não ocorre apenas com o cinema, claro; na pintura também. Há muito tempo foi questionada a imagem de Tiradentes que os quadros históricos nos transmitiram: barbudo como Cristo, vestindo um roupão branco, etc. Dizem os historiadores que os prisioneiros naquela época tinham que cortar a barba e o cabelo, para evitar piolhos. A imagem de Tiradentes que herdamos é uma farsa para torná-lo parecido com Jesus Cristo. (Quanto à imagem de Cristo, isso aí já é outra história).

No recente Meia Noite em Paris, Woody Allen faz seu protagonista contracenar com uma porção de artistas e escritores, desde Picasso e Luís Buñuel até T. S. Eliot e Gertrude Stein. Vi interessantes discussões de críticos achando qualidades e defeitos em cada uma dessas recriações, sempre com base na imagem pública que guardamos daquelas pessoas. Personagens como estes podem ser discutidos, porque estão suficientemente próximos de nossa memória cultural, mesmo que não da memória pessoal de cada um. Creio que nunca vi nenhum documentário sobre Hemingway, mas existem muitos, e certamente ainda há pessoas vivas que o conheceram. Imagens do cinema e da TV podem nos dar pelo menos uma vaga idéia de como era ele. Mas o que de dizer de filmes sobre personagens de 200 ou 300 anos atrás? Que verossimilhança podemos exigir?

Comentando o filme, Woody Allen falou: “Daqui a cem anos, alguém vai fazer um filme sobre a Nova York da minha época, e digamos que eu não serei um dos personagens mais importantes, mas alguém periférico. Alguém vai entrar no Elaine’s e lá estarei eu, interpretado por algum canastrão, porque todos me veem como um canastrão, e ele estará usando óculos de grau, e será um sujeito recluso, ceio de pessimismo existencial, que sente calafrios diante da mera possibilidade de ir passear no campo – alguma imagem execravelmente exagerada do que as pessoas imaginam que eu sou. E isso será o meu inferno”.

Difícil saber se os homenageados de Midnight in Paris se divertiriam ou ficariam irritados diante do modo como foram tratados. Allen tem consciência de que cada um de nós é uma pessoa de verdade coberta de caricaturas de si própria que são resultado dos nossos contatos com diferentes pessoas. Personagens públicos sofrem a cristalização de um imagem que é reforçada constantemente até se tornar óbvia e obrigatória. A esta altura, é difícil convencer alguém de que Kafka não era deprimido, Karl Marx não era iracundo, D. João VI não era um bobalhão.

2632) O jeito certo de falar errado (11.8.2011)




Minha irmã Clotilde já teve que enfrentar muitas polêmicas porque usava às vezes o termo nordestino “apois”, em vez de “pois”. Pode ser vício de linguagem, mas também é resíduo afetivo de uma infância falada num idioma bárbaro que fascinaria Camões e o Padre Vieira, longe de escandalizá-los. Mas como os dois lusitanos estão “em pó desfeitos e do pó alçados”, as pessoas se escandalizavam. Algumas diziam: “Mas você, uma doutora, uma intelectual, falando assim...”, enquanto outros certamente murmuravam à socapa: “Só pode ser mesmo da Paraíba...”

O “apois” é uma forma aparentemente errada, mas que só se realiza plenamente como linguagem expressiva se usada assim, ostentando o resíduo bárbaro (no caso o prefixo “A”). Talvez seja uma exigência rítmica do discurso, pois essas duas sílabas lhe dão mais base, mais equilíbrio. Tanto o “pois” como o “apois” são uma maneira tácita de mostrar que a frase do interlocutor foi registrada, mas não necessariamente que a gente concorda com ela. “—Eu ouvi dizer que você vai viajar na 5ª. feira. – Apois. Vou, sim, mas na verdade é na sexta.”

Essa expressão (que poderia ser vagamente substituída por “OK”, “certo”, “pois é”, algum tipo de concordância sem compromisso) equivale sintaticamente ao famoso “intão” dos paulistanos, tão incrustado no discurso dos nossos amigos de lá que vai acabar virando um sinal de pontuação como o travessão e as aspas. “—Precisamos conversar sobre aquele projeto! – Intão. Aparece amanhã lá no meu escritório.” De certo modo parece um expletivo, aquelas partículas que ajudam a enfatizar o discurso mas que a rigor poderia ser extirpadas sem perda do sentido. Mais ou menos como o “pois é”, que só é necessário quando vem sozinho, mas quando precede uma frase poderia ficar de fora sem que ninguém percebesse sua ausência.

Falei que o “apois” cumpre a mesma função sintática do “intão”, mas cumpre também a mesma função melódica. Toda frase tem melodia, não é mesmo? Uma pergunta como “Não é mesmo?” só se impõe como pergunta, na voz falada, por causa da inflexão melódica que lhe damos, e que na linguagem escrita indicamos pelo sinal “?”. Uma pergunta tem sempre a mesma melodia básica, daí ser difícil (experimentem!) fazer uma letra de música cheia de perguntas. Por quê? Porque a melodiazinha implícita da frase perguntante costuma se chocar com a melodia que tentamos imprimir à canção.

Um outro aspecto. Repararam que grafei “intão”, e não “então”? Apois. Porque é assim que os paulistanos (nem todos, claro) falam, assim como os paraibanos (nem todos, claro) falam “apois”. A Norma Culta ensina como grafar em linguagem denotativa essas duas palavras. Mas se quisermos usar linguagem conotativa, expressiva, afetiva, literária, dizer “intão” e dizer “apois” traz uma carga de contexto social que veste de verdade humana a nudez da palavra “em estado de dicionário”. Intão?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

2631) Quando acabar o maluco sou eu (10.8.2011)



Sou maluco? Tudo bem, então sou maluco. 

Maluco porque quando tinha 12 anos improvisei uma bicicleta com duas rodas traseiras porque eu caía muito e na vizinhança mangavam de mim. Concluí que precisava de mais estabilidade, correto? Não ficou cem por cento, eu não tinha ideia de como é difícil cortar e soldar metal, usei material de segunda mão, continuei caindo e mangaram mais ainda. Dizem que sou maluco.

Na verdade já diziam antes, inclusive os professores. A professora de Português me botou de castigo porque eu disse que só quem liga para a diferença entre preposição e conjunção é professor de Português. Me perguntou o que eu queria ser na vida. Eu disse: “Tudo, menos professor de Português”. 

Não que o professor de Matemática escapasse. Passei um fim de semana debruçado na mesa, aos 14 anos, com uma descoberta que fiz. Vocês já repararam que a diferença entre os quadrados dos números naturais sucessivos são os números ímpares sucessivos? Vejam os quadrados: 1, 4, 9, 16, 25, 36, 49... Confere? Veja as diferenças entre eles: 3, 5, 7, 9, 11, 13... Confere? 

Mostrei àquela anta de óculos, ele leu minhas folhas de anotações e rasgou, dizendo: “Zero. Você é maluco. Eu não mandei fazer isto, mandei praticar raiz quadrada”.

Não vou fazer uma lista completa, não sou maluco. Namoradas? Eu perdoo porque sou um cara romântico e de bom gosto, só me apaixono por mulher linda. 

Perdoei Norminha quando ela me deixou dizendo que estava cansada de tentar técnicas telepáticas, estava começando a pensar coisas que não eram da cabeça dela, e nunca mais falou comigo. (Não precisa. Há onze anos leio o pensamento dela e me divirto de montão.) 

Perdoei Selma quando me trocou por Vélber da Recebedoria, porque eu desenhei pra ela um vestido (nem existia velcro naquele tempo!) que bastava um puxão na direção certa pra sair todinho de uma vez. Disse que eu era maluco e que se tinha jeito pra figurinista é porque eu devia ser gay. 

Perdoei Dulce que não queria dormir na cama que eu construí (dizia: “isso nunca foi cama nem aqui nem na China”), Laura porque tudo bem, aquele remédio que matou o bassê dela era uma dosagem experimental (reduzi desde então). E a todas eu dizia: “Sou maluco é por você, vem cá, deixa de ser linda”.

E assim caminha a humanidade. Agora estou com 37 anos e continuam me chamando de maluco. 

Porque pendurei o celular (que eu vivia esquecendo) num cordão ao pescoço. 

Porque tatuei no lado de dentro do braço que sou alérgico a AAS. 

Porque descobri um jeito de pintar a óleo e manipular as cores no microondas. 

Porque peguei um software combinatório, entrei no banco de dados e criei um sistema de justapor temas e estilos para criar histórias. 

Porque estou escrevendo quatro autobiografias diferentes e verdadeiras, uma página por dia. Ora que diabo, a vida tem mais soluções do que problemas, a prova disso é que vocês vivem se queixando e eu sou o único homem verdadeiramente feliz.