quarta-feira, 6 de julho de 2011

2601) Eu sou Napoleão (6.7.2011)



Dias atrás vi na TV um filme interessante, A Roupa Nova do Imperador (2001) dirigido por Alan Taylor, baseado no livro de Simon Leys. O filme parte de uma idéia clássica das Teorias da Conspiração: foi mesmo Napoleão Bonaparte que morreu no exílio, em Santa Helena, ou terá sido um sósia? E se foi um sósia, o que aconteceu com o verdadeiro Imperador? Por que não reapareceu para tentar voltar ao Poder? Napoleão foi o homem mais famoso de seu tempo, e quando estava exilado houve até mesmo uma conspiração brasileira (liderada pelo General Abreu e Lima) para resgatá-lo, trazê-lo ao Brasil e torná-lo imperador de um reino independente no Nordeste, com sede em Campina Grande. (Quem me contou essa foi Paulo Santos de Oliveira, o autor de A Noiva da Revolução; estou vendendo a preço de fatura.)

No filme de Alan Taylor, uma conspiração dos bonapartistas coloca um sósia no lugar do imperador, no exílio, e o traz de volta a Paris. O combinado era que quando estivesse tudo pronto o sósia seria desmascarado e ele tomaria o poder. Tudo dá certo até o ponto em que o sósia morre acidentalmente. Napoleão, anônimo e sozinho em Paris (seu contato lá também morre de repente) anda pelas ruas sem ser reconhecido, e não consegue uma audiência com ninguém importante, ainda mais depois que os jornais publicam a notícia de sua morte. Pra complicar as coisas ele fica hospedado na casa de uma viúva bem bonitinha que vende melões e começa a sentir uns fraquejos na direção dela.

Napoleão tenta revelar sua verdadeira identidade, mas ninguém crê, a começar pela viúva. Ele acaba sendo levado a um prédio esquisito e é deixado no jardim. Começa a passear e se assusta ao ver um sujeito com olhos esbugalhados, babando, e um chapéu-de-Napoleão na cabeça. E mais adiante outro, com um chapéu igual e a mão enfiada no casaco. E logo adiante mais dois, e mais adiante ainda mais três. É um hospício, e o jardim inteiro está cheio de doidos que imaginam que são Napoleão. Ele pula o muro e some.

O filme de Alan Taylor é implausível, mas isso não é um defeito, pois se trata apenas de uma comédia romântica. Numa situação real, o verdadeiro imperador não se conformaria jamais em tornar-se um vendedor de melões por amor a uma mulher. (Embora toda mulher sonhe com isto: que um imperador, por amor a ela, concorde em vender melões. Para viver isto, ela abriria mão do império dele.) Um imperador sem império (sem estado-maior, sem generais, sem reconhecimento público) é apenas um doido a mais. Este filme nos leva a imaginar, num enredo psicologicamente e historicamente plausível, o que faria o verdadeiro Napoleão se se visse destituído de sua “napoleanidade” e reduzido a si mesmo, ao “peso seco da pessoa”, como dizia Guimarães Rosa. Recuperaria o império ou seria fuzilado na tentativa, mas duvido que se resignasse aos melões. Se bem que, com uma viuvinha daquelas, nunca se sabe.

terça-feira, 5 de julho de 2011

2600) Raymond Roussel (5.7.2011)




A literatura excêntrica é aquela produzida pelo que chamo de talentos fora-de-esquadro, aqueles escritores cuja personalidade única, mesmo que desorientada, meio demente, etc. confere a sua literatura um poder revelatório especial. 

(Quando consideramos estes autores, os critérios da técnica literária e da estética não podem deixar de ser levados em conta, claro, mas ao mesmo tempo não podem ter o mesmo peso que têm quando analisamos a obra de um artista convencional, não-excêntrico.

((Um bom exemplo de artista excêntrico foi Raymond Roussel, 1877-1933, contemporâneo dos surrealistas, que publicou meia dúzia de livros de poemas extremamente convencionais na aparência, mas obedecendo a regras de composição levemente absurdas. 

(((Roussel gostava, por exemplo, de encher seus textos de parênteses, e de novos parênteses dentro dos primeiros, o que tornava suas narrativas uma série de “bonecas russas”, umas dentro das outras; é o que ocorre no famoso Novas Impressões da África.

((((Outra técnica sua era pegar duas frases que soavam quase iguais, mas com sentido diferente, como “uma revista” e “um arrivista”; ele iniciava o texto com uma delas, e ia aos poucos fazendo a narrativa incluir elementos da próxima frase, até concluir o texto com ela. 

(((((A técnica dos parênteses era um tipo de “linguagem encapsulada" que encantou os surrealistas, os estruturalistas, e mesmo escritores de FC como Ian Watson, que a usou como inspiração para o romance The Embedding, um dos poucos livros de FC em que a Linguística é a ciência que serve de inspiração.)))))

Roussel usava esses processos sem se preocupar muito em saber se o leitor iria achá-los fáceis ou difíceis; era um desses sujeitos que escrevem para si mesmos, sem ligar muito para a humanidade. Era muito rico, mimado pela mãe, homossexual, ultra-sofisticado, um típico dândi do período desnorteado que a Europa viveu após a I Guerra Mundial.)))) 

Em seu livro Como Escrevi Alguns dos Meus Livros, ele descreve esses métodos, dá exemplos e faz comentários gerais sobre sua literatura. Ele comenta inclusive uma espécie de crise mental que teve ainda muito jovem, quando julgou que era um gênio e escreveu seu primeiro livro numa espécie de delírio; o fracasso do livro quase o enlouqueceu.)))

Roussel viajava pelo mundo sem sair de dentro da cabine do navio; dizia que os únicos lugares interessantes do mundo estavam dentro de sua própria cabeça. Parecia ser um desses sujeitos que num instante estão no limite entre a normalidade e a excentricidade, e minutos depois no limite entre a excentricidade e a loucura.)) 

Qual o interesse, então, de uma literatura feita apenas para satisfazer caprichos de um escritor meio adoidado? Talvez eles sirvam como imagem ampliada dos processos da criação.) 

O escritor fora-de-esquadro tem as mesmas imprevisibilidades dos demais, só que no seu caso são elas que assumem o volante da criação literária.






domingo, 3 de julho de 2011

2599) A Vida e os Tempos de Rodoval Muçu (3.7.2011)



Cap. 1 – De como Rodoval Muçu nasceu num sítio perto da Fazenda Corrimão (sendo o terceiro de onze meninos), e dos muitos corretivos físicos que seu pai Josué lhe aplicou desde cedo, pelo seu temperamento irrequieto.

Cap. 2 – De como aos cinco anos Rodoval se perdeu no mato durante oito dias e foi dado como morto, mas depois reapareceu milagrosamente, inclusive sabendo ler e escrever sem nunca ter frequentado a palmatória, o que muito maravilhou os habitantes daquele lugarejo.

Cap. 3 – De como Rodoval mais uma vez adiantou-se ao seu tempo, ofendendo aos treze anos uma moça de vinte e dois que declarou em público: “Sem ele não saberei viver”, mas viveu.

Cap. 4 – De como Rodoval caiu numa loca ao perseguir um calango e lá dentro descobriu um corredor secreto que ia dar na despensa da Casa Paroquial, e foi aí que começou sua apreciação dos vinhos finos, dos biscoitos de manteiga, e de certo tipo de romances volumosos e ilustrados que no futuro lhe serviriam de fonte de inspiração.

Cap. 5 – De como o pai de Rodoval Muçu perdeu tudo que tinha numa única noite de jogo no Rambol, foi destituído de seus haveres, conduzido à Casa de Detenção, e forçado a espalhar seus filhos mundo afora para amenizar o prejuízo.

Cap. 6 – De como, em vista disto, Rodoval Muçu entrou para o Seminário, foi expulso do Seminário, entrou para a Marinha, foi expulso da Marinha, entrou para o cangaço, foi expulso do cangaço, e a certa altura concluiu que sair era menos trabalhoso do que entrar, e que não entrar era ainda menos trabalhoso do que sair.

Cap. 7 – De como a sorte de Rodoval Muçu era tanta que ele conheceu num elevador um industrial idoso, rico, desiludido com os filhos, todos eles “uns estrôinas”, disse ele, e que depois de alguns cafés e conversas o velho contratou Rodoval para cuidar de sua correspondência a um salário exorbitante.

Cap. 8 – De como Rodoval Muçu comprou seu primeiro terno.

Cap. 9 – De como Rodoval Muçu aprendeu a jogar pôquer.

Cap. 10 – De como Rodoval Muçu entrou para a auto-escola, e as diversas catástrofes que logrou produzir ao seu redor sempre que tentava atender às ordens esbaforidas do seu instrutor.

Cap. 15 – De como Rodoval Muçu tomou conhecimento, da maneira mais amarga possível, da existência do sistema norte-americano de calcular salários, em base anual, o que acabara gerando um terrível mal-entendido entre ele e seu benfeitor, pois Rodoval havia imaginado que ganharia aquilo por mês, mas era por ano.

Cap. 16 – De como Rodoval Muçu foi demitido de seu cargo, ou demitiu-se, ele mesmo não sabe o que foi decidido ao final da longa discussão em que ele se afobou e jogou o ex-patrão na piscina.

Cap. 17 – De como Rodoval Muçu viu dois emboladores de coco cantando na praça, pediu o pandeiro emprestado, descobriu sua verdadeira vocação, ganhou dinheiro, saiu na televisão, viajou à Europa, construiu uma casa, arrumou um moído com uma viúva e viveu feliz para sempre.

sábado, 2 de julho de 2011

2598) A hora do pesadelo (2.7.2011)




O pesadelo é uma experiência pré-verbal de tal intensidade que traduzi-la verbalmente se transforma num desafio para um escritor. 

Digo pré-verbal porque a experiência do pesadelo (pelo menos minha experiência pessoal, parcialmente confirmada por depoimentos de outras pessoas) é algo que ocorre em 360 graus na nossa mente, envolvendo-a por completo. 

Sonhar parece um pouco com estar mergulhado numa atividade intensa e rápida, como um acidente, uma briga, um assalto. Agimos e reagimos por reflexo, em fração de segundo, sem verbalização prévia ou simultânea. Quando depois precisamos verbalizar a experiência, há tanta coisa para ser lembrada que é difícil saber por onde começar.

Um ensaio de Robert Louis Stevenson, “Um capítulo sobre o sonho”, fala sobre a dissociação psíquica que a criação onírica envolve. 

Ele conta ter sonhado uma história, com personagens, enredo, envolta num mistério que se dissipa quando uma personagem faz uma confissão ao protagonista. E Stevenson “ouviu” aquilo com absoluta estupefação, pois era a última coisa que poderia imaginar ouvir daquela pessoa. Sua surpresa foi tão grande que ele acordou, sobressaltado. 

E no entanto (observa Stevenson) a história tinha sido criada por ele mesmo. Como pôde manter o segredo? Como pôde provocar tamanha surpresa, se a mente que inventara a história e a mente que a contemplava em sonho eram uma só?

Tenho o hábito de anotar alguns sonhos, sejam pesadelos ou não. Claro que não anoto todos, mas costumo registrar, quando posso, aqueles que me deixam uma impressão mais vívida. 

Minha sensação é de que, quando sonho, sonho com minha mente inteira, diferentemente do que acontece quando estou escrevendo em estado lúcido, quando quem comanda a escrita é uma fatiazinha do cérebro hipoteticamente situada na parte frontal. Chamo a isto “escrever com a consciência verbal”, pois estou tirando a história de minha própria consciência, palavra por palavra. 

Já quando estou anotando um sonho, não. É como se o cérebro inteiro tivesse participado da criação daqueles episódios e é impossível escrever tudo, porque a massa de sensações, impressões visuais, nuances emotivas, etc., é tão grande que eu precisaria de dezenas de páginas para registrar tudo, se fosse possível transformar aquilo tudo em palavras.

E esse é outro aspecto curioso do sonho. O relato do sonho não o reproduz. O sonho não é feito de palavras. É feito de uma massa esférica e pesada de sensações, e a relação que o relato verbal do sonho tem com aquilo é tão distante e tênue quanto a relação entre a palavra “elefante” e um elefante de verdade. 

Daí, talvez, que o sonho se preste tanto à criação literária, porque é e será sempre irredutível às palavras, deixando-as com uma aura mágica (pois ao ler aquilo eu evoco o que sonhei) mas ao mesmo tempo com uma dimensão utilitária, banal: posso fazer o que quiser com aquelas palavras, porque aquelas palavras não são o que eu sonhei.






sexta-feira, 1 de julho de 2011

2597) Etimologias populares (1.7.2011)



(Ilustração: Saul Steinberg)

Na formação de palavras, interpretações errôneas sobre seu significado original acabam influenciando suas transformações futuras. Em inglês existe a frase-feita “to eat humble pie” (“comer torta humilde”) no sentido de ser submetido a uma humilhação. A expressão original não tinha nada a ver com “humble” (=humilde): era “to eat a numble pie” (“comer uma torta de vísceras, ou de miúdos”), que passou a ser grafada erroneamente como “to eat an umble pie” e depois, foi preciso justificar essa palavra inexistente “umble” e o jeito foi dizer que na verdade se tratava de “humble”, humilde.

Uma confusão parecida deu origem à palavra “blog”. Saites onde era possível fazer anotações instantâneas para serem lidas por todo mundo foram chamados de “web log”, sendo que “web” é rede e “log” é diário, livro de anotações. O hábito comum na língua inglesa de emendar duas palavras que sempre aparecem juntas fez o termo virar “weblog”. Logo apareceu alguém que re-dividiu a palavra em “we blog”, que parecia a conjugação de um verbo inexistente: “nós blogamos”. O resto é história.

Uma maneira frequente de criar palavras assim é quando uma palavra estrangeira entra em nosso vocabulário e, sem entendermos o que ela originalmente significa, procuramos racionalizar o seu significado através de uma modificação. Em inglês a barata (inseto) é “cockroach”. “Cock” (que em princípio é “galo”) é usada para designar animais machos de várias espécies”; “roach” se usa para diferentes tipos de inseto. Mas a palavra na realidade vem do espanhol “cucaracha”, e a língua inglesa (tão antropofágica quanto a nossa) impôs ao termo estrangeiro uma forma baseada em duas formas nativas.

Uma vez ouvi alguém dizer que no aeroporto iria fazer “o chequinho”. Perguntei o que era, e a pessoa me disse: “A gente vai no balcão, dá o número do localizador do voo, despacha as malas, aí a moça entrega aquele chequinho com os dados do voo”. Na verdade o termo é “check in”, ao pé da letra “verificação de entrada”, assim como “check out” (mais usado em hotéis) é “verificação de saída”. Mas como a pessoa não conhecia o termo em inglês tentou dar-lhe a forma de algo que lhe era familiar, e a solução foi chamar de “chequinho” o cartão de embarque.

Nosso corpo físico assimila corpos estranhos procurando uma maneira de torná-los inofensivos (protegendo-os com um cisto, p. ex.). Na formação da língua (que é incessante, permanente) as palavras estranhas, quando têm utilidade real e são usadas com frequência, têm que passar o tempo inteiro pelo crivo de pessoas que não as conhecem mas precisam explicá-las de alguma maneira. Quando a explicação é engenhosa e plausível, ainda que falsa, pode acabar pegando. O mais interessante no processo é essa nossa capacidade infinitamente flexível de reinterpretar, e nossa teimosia em dar explicações aparentemente lógicas para processos que de lógicos não têm nada.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

2596) A paranóia de Truman (30.6.2011)



Nos meus momentos de euforia, tenho certeza de que o mundo é falso e só eu sou verdadeiro. Nos meus momentos de depressão, tenho certeza do contrário. Médicos canadenses já perceberam a ocorrência de uma nova doença mental nos últimos anos, que eles chamam de “Síndrome de Truman”, porque parece ter sido deflagrada pelo filme O Show de Truman de Peter Weir. Os indivíduos afetados por essa condição (todos eles homens) afirmam aos seus médicos terem certeza de que estão sendo vítimas de uma enorme conspiração. Sua vida pessoal é transmitida ao vivo para milhões de pessoas, ininterruptamente, e sua família (esposa, filhos, etc.), seus amigos mais próximos, seus colegas de trabalho, são todos atores contratados para representar aqueles papéis. Ou seja, exatamente o que ocorre com o ingênuo Truman Burbank do filme, interpretado por Jim Carrey. (Ver: http://goo.gl/00vvW).

Descontando o fato de que eu penso exatamente isto da minha própria vida, a emergência dessa nova forma de paranóia indica um curioso fenômeno de retroalimentação, de feedback. Certos aspectos paranóicos da realidade geram uma obra de arte que em troca reforça esses aspectos, até que a realidade produz a seguir outra obra ainda mais explícita, aumentando ainda mais a tendência, e assim por diante. Truman Show é um reflexo da obra de Philip K. Dick, cujos romances mostram o tempo inteiro personagens em dúvida quanto à própria identidade (“sou isso mesmo que penso que sou, ou sou outra pessoa que pensa que sou eu?”). Lembrem-se do personagem de Schwarzenegger em O Vingador do Futuro: um operário que para se distrair recebe implantes de memória dizendo que é um espião e nesse momento se lembra que é mesmo um espião, que havia recebido implantes de memória para pensar que era um operário. Será isso mesmo? Qual das duas certezas está certa?

Truman Show chegou a ser processado pelos agentes de Dick, que alegavam plágio a outra obra do escritor, Time Out of Joint, em que um sujeito mentalmente instável (mas importante para o Governo, que está em guerra) é mantido numa cidade artificial cheia de atores que o ajudam a viver uma ilusão pacífica. O filme tornou-se emblemático dessa nova condição moderna, que envolve os seguintes aspectos: 1) perda de privacidade (o mundo está se tornando um Big Brother, estamos sendo o tempo inteiro espionados por alguém); 2) expansão da Sociedade Espetáculo (o exibicionismo público é uma prova crucial de status; queremos ser vistos 24 horas por dia para termos certeza de nossa própria existência); 3) artificialismo e referencialidade no comportamento humano (as pessoas adotam, cada vez mais, modos de ser, falar, vestir, etc. copiados de filmes, comerciais, etc.; tornam-se cada vez mais artificiais e imitativas); 4) divórcio profundo entre o que realmente queremos ser (o Eu profundo) e o que a sociedade nos obriga a ser (o personagem que representamos diante do mundo inteiro).

quarta-feira, 29 de junho de 2011

2595) Diretores e idéias (29.6.2011)




Dias atrás me referi a Hitchcock como um diretor sem idéias. Perguntaram-me por que motivo não gosto dele. A verdade é que talvez eu goste de Hitchcock ainda mais do que alguns dos fãs que o defendem. Mas existem os artistas que são somente artistas, embora sejam Titãs da Literatura ou Gênios da Humanidade; e existem os artistas que têm idéias próprias sobre o mundo. Em qualquer categoria de atividade há as pessoas que têm idéias próprias e as que não as têm: matemáticos, pintores, taxistas, roqueiros, políticos, bancários, antropólogos, o escambau.

Peço perdão se estou sendo injusto, mas não me consta que João Gilberto, Buster Keaton, Chuck Berry, Castro Alves, Nureyev, Roberto Carlos, Basquiat, Paul McCartney ou Jackson do Pandeiro tivessem idéias próprias sobre o mundo. São estúpidos, sem personalidade? Longe disso. São artistas geniais (sou fã de todos eles), mas sua visão das coisas não vai além da visão coletiva das sociedade em que estavam mergulhados. Viviam suas contradições, suas dúvidas, suas descobertas; envolviam-se nas lutas do seu tempo; usavam seu talento com força máxima para exprimir suas opiniões, suas emoções, suas observações, mas isto não era o bastante para erguê-los acima do oceano mental em que flutuavam. 

Para isto, o artista, genial ou não, precisa de idéias próprias, precisa de um mínimo daquilo que os alemães chamam de “Weltanschauung”, visão-do-mundo, palavra da moda nos anos 1960 em que fiz minha cabeça. Precisa ter idéias pessoais, fruto de um ponto de vista que é só seu e de mais ninguém, produto da salada pessoal, cultural, afetiva e intelectual que cada um de nós tem e é única, irrepetível, inimitável.

Quem, então, tem essas famosas idéias próprias? Em mais uma lista feita ao acaso, posso citar Ingmar Bergman, João Cabral, Rimbaud, Buñuel, Bob Dylan, Guimarães Rosa, Borges, Ariano Suassuna, Brecht, Maiakóvski, e por aí vai. 

Em cada um deles, vemos, ao lado de uma obra notável, uma interpretação pessoal do mundo que vai além da obra em si, torna-se um pensamento. Lembrem daquelas coleçõezinhas que têm títulos como O Pensamento Vivo de Fulano. Eu consigo imaginar um livro intitulado O Pensamento Vivo de Jean-Luc Godard, mas não consigo imaginar O Pensamento Vivo de John Ford. Ambos são grandes diretores, mas Godard tinha um conjunto de idéias extra-cinema e John Ford (estarei sendo injusto?) parece que não.

Diretores como Spielberg, Hitchcock, Sérgio Leone, Don Siegel, Howard Hawks (e outros) são cineastas, ponto final. Indivíduos com uma compreensão instintiva da alma humana, dos dramas humanos, e com a capacidade de exprimir isto através da narrativa, dos atores, da câmara. Mas não me dão a impressão de serem pensadores, de serem pessoas que se destacariam caso não fossem cineastas. 

Uns não são inferiores aos outros, porque ninguém é obrigado a ter uma visão do mundo própria (eu mesmo não sei se tenho). Mas essa distinção existe, é real, e é importante.





terça-feira, 28 de junho de 2011

2594) Fowles e a descrição (28.6.2011)




(John Fowles)

O escritor John Fowles (autor de O Colecionador, A Mulher do Tenente Francês, etc.) queixa-se, num trecho do seu diário publicado pela revista Granta (# 86), da cansativa tarefa de revisar um romance de mais de mil páginas (Daniel Martin, publicado em 1977). 

Diz ele:  

“Uma tarefa aparentemente interminável, com um manuscrito deste tamanho. Cuidando das repetições: desta vez os criminosos são as palavras “little”, “faintly” e “silent”. É difícil escrever sobre os ingleses sem usá-las. Posso perceber por que motivo recorro tanto a esses adjetivos e advérbios com idéia de diminuição: há uma escassez de verbos e de adjetivos para descrever o micro-comportamento, e isso aumenta o peso dos poucos que existem. 

"Eu uso em demasia termos como “grimace” e “pull a face”; na verdade, há dezenas de variantes destas expressões, mas apenas duas ou três palavras ou frases para indicá-las. O pior é tudo quanto tem a ver com ironia ou secura – metade de qualquer conversação entre ingleses educados as empregam através de expressões faciais ou de atitudes, ou seja, de forma não-verbal, o que significa que não se pode (ou pelo menos não se pode sempre) transmitir a ironia através do diálogo”.

Isto revela um problema de escritor que se torna, por tabela, um problema de tradutor. As caretas servem como comentário ao que estamos dizendo, ou como reação ao que ouvimos do interlocutor. 

Muitas dessas expressões são codificadas, têm um significado obrigatório (p. ex., franzir a testa para indicar estranheza, entortar o canto da boca para indicar desagrado), mas isto se dá dentro de cada cultura. Em outro país pode não significar nada, ou significar algo diferente. 

Não entendo italiano, e fico imaginando se na língua italiana existem palavras específicas para indicar cada um daqueles milhares de gestos tipicamente italianos, que sublinham a conversa. Quando um italiano quer dar ênfase ao que diz, une as pontas de todos os dedos e balança a mão diante do rosto; há um nome para isto? Como se descreve isto num romance? E assim por diante.

O inglês é, como sugere Fowles, o contrário do italiano. Ele comenta não-comentando, ou seja, exagerando uma expressão pretensamente impassível, enquanto diz as maiores enormidades. 

Vem daí o famoso humor por “understatement”, que consiste em minimizar (gestual e verbalmente) coisas seríssimas ou problemáticas. Deduz-se o sentido pelo contexto, não pela frase. 

Um autor inglês escrevendo para leitores ingleses pode contar com uma certa dose de entendimento implícito, mas um tradutor nem sempre percebe quando o que se diz é justamente o contrário do que se fala. 

Como um tradutor estrangeiro, que pode interpretar errado um brasileiro dizer “Muito bonito, hem?!” em tom de censura, e pensar que se trata de um elogio. 

Grande parte dos erros de tradução não se dá propriamente em torno do vocabulário, mas em torno desses sentidos implícitos que por uma razão ou outra o tradutor não capta.





domingo, 26 de junho de 2011

2593) Contracapa de iPhone (26.6.2011)



(www.imagesavant.com)


& resposta que não produz novas perguntas não vale a pena 

& poesia é como suco de laranja, é tudo uma mesma coisa mas cada copo tem um sabor personalizado 

& quem inventou uma molécula pela primeira vez sentiu-se um Deus desse tamanhinho 

& tempestades, raios, tsunamis, terremotos, vulcões, são os naipes da orquestra de um Deus entediado e wagneriano 

& conseguiremos um dia fabricar máquinas defeituosas que consertarão a si mesmas? 

& se eu deixar de fazer verso, cabou-se o mundo pra mim 

& ficar rico é uma ilusão, porque não há um momento em que se diga “pronto, acabou!” 

&um relógio movido a chuva, outro movido a sombra, outro movido a silêncio 

& um software chamado Windows Ovni Maker 

& mulher chama aquilo de ninho-de-amor, homem chama aquilo de matadouro 

& uma chuva de derreter locomotivas 

& um dragão com três asas, marginalizado como monstro 

& um dia ainda vamos tentar curar resfriado com anagrama e dor de dente com bússola 

& coração que merece uma condecoração por serviços prestados & minha maior qualidade é ausência de ambição, meu maior defeito também 

& pode-se medir a idade mental de uma pessoa perguntando se ela escova os dentes por obrigação, por consciência ou por hábito 

& carisma é uma espécie de alma que uns têm e outros não 

& uma hidra com muitas cabeças cujo veneno está na cauda 

& a História é uma lista do que sobrou boiando depois dos grandes naufrágios 

& crocodilo japonês dizendo “aligatô” 

& a peleja da cobra criada com o cachorro doido 

& o amor é a arte de adivinhar o momento do relâmpago para fotografar sem flash 

& verdadeira originalidade em literatura seria inventar (e consagrar no uso) uma letra a mais para o alfabeto 

& certas mulheres se apaixonam por um troglodita, dedicam sua vida a transformá-lo num civilizado, e depois o traem com outro troglodita 

& todo mundo me pergunta, e eu não tenho a quem perguntar 

& quem sabe um dia a gente possa combinar coincidências, agendar imprevistos e sintonizar emoções 

& perdeu-se um capítulo no meio do romance dele e até hoje ninguém reparou 

& sou um mastim furioso tentando me devorar 

& a vassoura da bruxa, o guarda-chuva de Mary Poppins, o raio de luz de Einstein 

& durante o tratamento de canal ele repassou na memória o Canto IX dos Lusíadas 

& dar independência a alguém é reafirmar sua dependência eterna 

& se o sol não nascesse amanhã, continuaríamos todos dormindo, e as flores sem murchar? 

& literatura é como o dinheiro, que em cada país muda de nome, de rosto e de valor, mas não de essência 

& todo beijo é uma aventura, uma revelação, uma negociação e uma nota promissória 

& um software chamado Maestro Eletrônico que afina e equaliza todos os canais de uma mesa de som 

& um chiclete cuja parte doce estivesse guardada no final 

& grupos musicais com formação alfabética: cavaquinho, cello, clarineta e cravo; ou piano, pandeiro, pífano e palmas 






sábado, 25 de junho de 2011

2592) O Lux Jornal e o Google (25.6.2011)



Entre as profissões em extinção no mundo inteiro certamente está a de “recortador, por encomenda, de todas as notícias de jornal referentes a uma pessoa ou entidade”. Antigamente existia uma empresa chamada Lux Jornal, que fazia exatamente isto. Quando a gente tomava parte em algum evento importante (por exemplo, estreava um show ou lançava um livro) era costume ligar para o Lux Jornal, dar o nosso nome e contratar os serviços. Durante os dias seguintes, qualquer referência que fosse publicada em qualquer jornal do país seria localizada, recortada, colada numa folha de papel (com a anotação do nome do jornal, a página e a data) e colocada num envelope. Ao fim de um período previamente acertado (uma semana, duas, um mês, etc.), esse material nos era remetido. E a gente pagava o preço combinado.

Eu já recorri ao Lux Jornal algumas vezes. Não me lembro quanto custava. Não era um preço inacessível, mas também não era uma coisa que a gente se dispusesse a contratar sem um objetivo específico (só pra ver se estavam falando na gente, p. ex.). Custava alguma grana, sim. Afinal, a empresa vivia disso, e tinha que pagar as toneladas de jornal que consumia.

O Lux Jornal foi suplantado pelo Google. E o mais interessante é que mesmo as pessoas que usavam o Lux Jornal acham que o Google é algo que surgiu do nada, que antes do Google existir não havia nada exercendo essas tarefas de busca. Reconheço que as buscas do Google são mais específicas do que a do Lux Jornal. Neste, não faria sentido mandar recortar toda matéria de jornal onde aparecesse a palavra “deputado” ou a palavra “gol”. São buscas mais variadas, também. E sempre que vejo gente celebrando o Google tudo acaba se resumindo a uma celebração da sua velocidade. Pelo que vejo, velocidade de resposta é um critério valorizadíssimo em nosso mundo. Vi há algum tempo uma imagem curiosa, o “Google Classic”, uma página do Google reproduzida como se fosse uma folha de papel impressa em estilo retrô, tendo abaixo: “Aguarde 30 dias pelos resultados”. Era exatamente o conceito do Lux Jornal. A imagem era engraçada porque obrigava pessoas do mundo de hoje a imaginar um Google que mandasse os resultados pelo correio, num envelope.

Arthur C. Clarke disse que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. A magia, segundo essa visão, é a produção de efeitos extraordinários sem que a gente perceba as mediações (todas as pequenas e sucessivas tarefas de ordem técnica) que produziram aquele resultado. Para mim, acender uma lâmpada elétrica não é magia, porque eu posso reconstituir mentalmente como aquilo é feito: o interruptor, o contato, a corrente elétrica, o fio, o filamento da lâmpada... Um primitivo não sabe. Ele vê a lâmpada se acender e diz “Caramuru!”. O Google é o conceito do Lux Jornal sofisticando-se até chegar a um ponto em que produzirá os resultados e nenhum de nós será capaz de entender como aquilo aconteceu.