terça-feira, 14 de junho de 2011

2582) Um Museu do Cordel na Lua? (14.6.2011)



Uma notícia ainda não confirmada vem sacudindo os corredores da NASA, e interessa muito de perto ao leitor brasileiro, ao nordestino em particular. Segundo as agências noticiosas, trata-se do envio para a superfície da Lua, durante a Missão Apolo 12, em 1969, daquele que pode ser o primeiro museu interplanetário da Literatura de Cordel. A façanha se deve à presença de um grupo de brasileiros na equipe de centenas de pessoas (engenheiros, astrofísicos e analistas de sistemas) responsáveis pelo voo, contando com a cumplicidade eventual de norte-americanos.

No grupo de técnicos brasileiros foi confirmada a existência de dois pernambucanos, dois paraibanos e um cearense, sendo que ainda estão sendo interrogados um potiguar e um alagoano. Segundo as informações confidenciais que vazaram para a imprensa, o grupo conseguiu miniaturizar uma placa feita de uma liga especial de silício e titânio, que foi clandestinamente afixada a uma das pernas do “Intrepid”, o módulo lunar que após a missão permaneceu pousado na superfície do satélite.

A placa teria cerca de 16 milímetros de altura por 11 de largura, e segundo seus criadores reproduz as proporções de um folheto de cordel (que tem essa medida em centímetros), e transcreve trechos (em português) de alguns clássicos da Literatura de Cordel – a qual com isto, ironicamente, tornou-se a primeira expressão literária da Humanidade a ser oficialmente depositada em outro corpo celeste. A primeira biblioteca interplanetária, por assim dizer.

Interrogados, os autores do projeto confirmaram que a plaqueta contém seis palavras, cada uma delas extraída de um folheto. A palavra “Plutão” foi retirada da quarta linha da 5a. sextilha de A Chegada de Getúlio Vargas no Céu e o seu Julgamento, de Rodolfo Coelho Cavalcanti. A palavra “ultra-vermelha” foi retirada da quinta linha da 91a. sextilha de A Fada da Borborema de Delarme Monteiro da Silva. A palavra “futuro” foi retirada da sexta linha da 11a. sextilha do folheto Conheça o Enigma das Inscrições Rupestres do Lajedo Pai Mateus de Manuel Monteiro. A palavra “inteligência” foi retirada da sexta linha da 20a. septilha do folheto Sacco e Vanzetti aos olhos do mundo, de João Martins de Athayde. A palavra “perguntou” foi retirada da terceira linha da 11a. sextilha de Casamento e Divórcio da Lagartixa de Leandro Gomes de Barros. Finalmente, a palavra “vida” foi retirada da sexta linha da 4a. estrofe do folheto Trigésimo Aniversário da Conquista da Lua de Gonçalo Ferreira da Silva.

Uma fonte de NASA, que não quis se identificar, asseverou que em momento algum o transporte desta plaqueta (que pesa apenas poucas gramas) colocou em risco a segurança da missão, e que a investigação tem caráter mais administrativo do que criminal. “Recebemos cópias dos livros utilizados”, disse a fonte, “mas ainda não entendemos o critério científico da escolha dessas palavras, bem como o propósito desses poemas sem pé nem cabeça”.

domingo, 12 de junho de 2011

2581) O menor lugar do mundo (12.6.2011)




Algum tempo atrás estive pesquisando sobre as micronações, aqueles países que são oficialmente reconhecidos como nações independentes mas têm apenas alguns hectares de território e algumas centenas de habitantes. (O Vaticano é o melhor exemplo – não passa de um bairro de Roma.) 

Um conceito parecido com este é o de cidades (ou vilas) pequenas. Descobri que a menor vila do mundo é a brava Monowi, que fica no Estado de Nebraska, nos Estados Unidos. De acordo com a Wikipedia, ela tem apenas uma habitante, que atende pelo nome de Elsie Eiler, tem 77 anos, e dirige uma lanchonete, o único estabelecimento comercial ali existente.

No censo de 2000, Monowi tinha uma população de dois habitantes; no censo de 2010, teve uma perda de 50% e agora tem apenas um. A explicação: o marido de Elsie morreu. 

Monowi tem uma área de pouco mais de 6 km2. Foi fundada em 1900, e por volta de 1930 tinha cinco mil habitantes, que aos poucos foram indo embora, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1971, o fechamento da estrada de ferro que passava por ali decretou a morte da vila, em termos práticos. 

Ela ainda pode ser considerada uma localidade, creio, porque dispõe de uma escola com duas salas, uma igreja, uma biblioteca. Tudo isto vive fechado, mas eventualmente é utilizado por moradores das localidades vizinhas, quando necessário. (Como Monowi é muito pequena, as localidades em volta ficam a poucos quilômetros, não é muito diferente da maioria das localidades em nosso interior. A pessoa entra no carro e dez minutos depois chega lá.)

Todas as estatísticas sobre Monowi podem ser encontradas neste saite: http://www.city-data.com/city/Monowi-Nebraska.html. 

Estatísticas em situações assim são sempre divertidas (não sei se há muitas cidades norte-americanas cujo índice educacional é de 100% para “secundário completo”). Mas a existência desta cidade me lembra um fato que citei aqui há pouco tempo, o de um idioma indígena mexicano que está a ponto de desaparecer porque tem apenas dois falantes. 

Os linguistas têm uma série de critérios bem precisos para qualificar um idioma como vivo ou morto: número de falantes, faixa etária dos falantes (ou seja, a probabilidade de continuar a ser falado nas próximas décadas), publicações escritas, uma porção de coisas. Qual o critério para que uma localidade possa ser considerada uma vila ou coisa semelhante?

Porque isso me lembra aquela famosa imagem de Jorge Luís Borges sobre o mundo de Tlon, onde os lugares só existem enquanto alguém se lembra deles. Diz ele que às vezes, naquele mundo, as ruínas de um anfiteatro se preservam porque são frequentadas por um cavalo ou por alguns pássaros. A existência de Monowi tem um pouco dessa afirmação teimosa de vida, dessa recusa em deixar alguma coisa morrer enquanto alguém ainda está vivo. Por exemplo, enquanto houver num pé de serra uma casinha com uma velhinha escutando um forró no iPod, o forró estará vivo?






sábado, 11 de junho de 2011

2580) A FC da América Latina (11.6.2011)



Acabo de receber um exemplar de The Emergence of Latin American Science Fiction de Rachel Haywood Ferreira (Middletown: Wesleyan University Press, 2011), o mais recente título na crescente bibliografia de brasilianistas norte-americanos sobre a FC no Cone Sul. Rachel é professora na Iowa State University, e esteve no Brasil anos atrás entrevistando autores e pesquisadores da FC brasileira. Fez o mesmo em outros países, e seu estudo é um apanhado da FC praticada em nosso continente antes de 1920, ou seja, antes que o próprio termo “science fiction” fosse inventado. (Oficialmente, o termo surgiu em 1926, criado por Hugo Gernsback na revista Amazing Stories. No mesmo ano, Monteiro Lobato já estava publicando aqui O Choque – Romance do Choque das Raças na America no Anno de 2228, que atualmente tem o título de O Presidente Negro e voltou a ser discutido em função da eleição de Barack Obama.)

Qualquer estudo desse período mostra de maneira muito clara que a ficção científica de nosso continente não deriva dos “pulp magazines” norte-americanos pós-1926, mas dos chamados “romances científicos” europeus do século 19, tipicamente as obras de Julio Verne e H. G. Wells. Naquele tempo, era a Europa que nos colonizava culturalmente, que era contemplada e imitada pelos nossos literatos. Os EUA só a ultrapassaram após a II Guerra Mundial, quando a invasão foi maciça, e, ironicamente, não poupou sequer a debilitada Europa. Na história de qualquer país europeu, 1945 é um divisor de águas, é o momento em que Verne & Wells foram suplantados pela pulp fiction.

O livro de Rachel Haywood Ferreira refere obras brasileiras como Páginas da História do Brasil Escritas no Ano 2000 (folhetim, 1869-1872) de Joaquim Felício dos Santos, São Paulo no Ano 2000 (1909) de Godofredo Barnsley, Doutor Benignus (1875) de Augusto Emilio Zaluar, O Fim do Mundo (1856) de Joaquim Manuel de Macedo e “Demônios” (1893) de Aluísio Azevedo. São textos familiares aos pesquisadores brasileiros, embora praticamente desconhecidos pelo público leitor em geral. Creio que para nós a maior descoberta será a análise de RHF sobre autores de outros países, tais como Eduardo Ladislao Holmberg, Eduardo Ezcurra, Amado Nervo, Miguel Cané, Juana Manuel Gorriti, etc. Alguns, desconhecidos para nós; outros famosos, como é o caso de Leopoldo Lugones, mas sobre cuja obra de FC pouco sabemos.

O livro de RHF vem se somar a outros lançamentos recentes como Ficção Científica Brasileira de Elizabeth M. Ginway (São Paulo: Devir, 2005), Cosmos Latinos: an Anthology of Science Fiction from Latin America and Spain, editada por Andrea Bell e Yolanda Molina-Gavilán (Wesleyan University Press, 2005) e o brasileiro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil – 1875 a 1950 de Roberto de Sousa Causo (Editora UFMG, 2003). São as primeiras escavações em busca da pirâmide soterrada da literatura fantástica em nosso continente.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

2579) O final onírico (10.6.2011)



blackandwtf.tumblr.com

Um subgênero interessante do conto fantástico são as histórias de final onírico. Numa narrativa protocolarmente realista começam a acontecer coisas estranhas, impossíveis. A narrativa avança, e quando chega ao clímax, nas últimas linhas, o autor diz: “Pois tudo aquilo tinha sido um sonho!”. Isto se tornou um clichê tão reiterativo que a enorme maioria dos manuais literários do tipo Como Escrever um Conto risca do mapa essa possibilidade, logo de cara: “Não faça isto! Todo mundo já fez! Ninguém aguenta mais!”.

Às vezes é um sonho propriamente dito, porque o protagonista adormeceu na poltrona. Outras vezes é uma alucinação provocada pela bebida ou alguma outra droga. Outras vezes uma história contada por um narrador pouco confiável (“Um esqueleto”, de Machado de Assis). Ou um estado de devaneio momentâneo, estado alterado de consciência que faz o personagem “viver” mentalmente uma situação surreal, mesmo desperto (“A chinela turca” de Machado de Assis). Ou então um delírio criativo de um escritor que confunde a realidade com as visões que registra no papel (“Demônios”, de Aluísio Azevedo). Mas o desfecho obedece à mesma mecânica: “não, caro leitor, nada disto aconteceu, era tudo uma ilusão”.

A crítica principal que se pode fazer a esse tipo de história é que ele se constitui numa espécie de fraude literária, onde o leitor é induzido a fazer um investimento de energia emocional (identificando-se com os personagens, preocupando-se com os perigos que correm, etc.) para no final ser informado de que esse investimento foi em vão, pois não havia nada em jogo. Argumento válido – mas contra ele pode-se dizer que, sendo assim, toda literatura é uma fraude, uma vez que nem Madame Bovary nem os irmãos Karamazov existem de fato, tudo não passou de um sonho sonhado de outra forma. (Dever de casa: Produzir um argumento irrefutável, contra ou a favor desse subgênero).

Creio que essas histórias são, antes de tudo, um sintoma. Um estudo sério da ficção fantástica precisa levá-las em conta, porque elas exprimem, a meu ver, a difícil negociação íntima do autor que tem uma idéia fantástica mas está escrevendo num contexto literário e social em que tais idéias são esnobadas ou temidas. O romance realista foi o clímax da literatura da burguesia, que expulsou do mundo (ou julgava ter expulsado) o sobrenatural, que a burguesia ascendente identificava com seu adversário histórico, a religião. O autor precisa, portanto, criar uma moldura realista para sua história visionária. O conto, por medida de precaução, começa “aqui” (o território do Real, literariamente permitido), vai para “lá” (o fantástico, o estranho, o maravilhoso) e no fim volta para “aqui”. A ida só é permitida se a volta for obrigatória. Existe um ensanduichamento da história (peço perdão por este termo bárbaro), para que o leitor não tenha que pegar com a mão no conteúdo fantástico, e o faça protegido pelas duas camadas de realismo que o protegem.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

2578) O Mauzão e o Bonzinho (9.6.2011)



Emparelharam com sirene, luzes piscando, fizeram sinal pra encostar no meio-fio. Obedeci, puxei o freio de mão e fiquei por ali. Veio um por um lado e o outro pelo outro. “Desce”, disse o primeiro, que tinha um bigode preto que parecia um rôdo. “Boa noite”, disse eu, bem alto, mesmo a rua estando sem um pé de pessoa às três da madrugada. O bigodudo abriu minha porta com força, me puxou pela gola da camisa, quase rasgando, e no mesmo movimento me fez dar uma volta e bater com o peito na lateral do carro. “Êpa”, falei, “vamos com calma”. “Cala a boca, seu porra”, disse ele, me apertando contra o carro com a mão esquerda. Foi arrancando tudo dos meus bolsos com a outra mão e jogando em cima do teto do carro. Enquanto isso o outro deu a volta e perguntou, como se a gente estivesse num domingo de sol assistindo uma regata: “E aí, tudo em ordem?”. Esse era louro e usava óculos. Era o Bonzinho. O Mauzão botou um cotovelo pontudo na minha espinha, me apertando, enquanto manuseava meus documentos, habilitação, carteira, sei lá o que ele estava olhando. “Pode trazer o bafômetro”, falei, só para dizer alguma coisa. Ele deu uma pancada na minha coluna com uma baioneta do exército alemão, ou talvez fosse somente o cotovelo. O Bonzinho perguntou: “Por que não parou quando a gente deu sinal?” Sem me mexer, respirei fundo e disse: “Acho que não vi. Tava ouvindo música”. O Mauzão remexeu nas coisas em cima do carro, talvez procurando um papelote ou um baseado. Só ia achar alguma coisa ali se plantasse. O Bonzinho afastou pro lado o Mauzão (que estava olhando cada compartimento da minha carteira) e disse baixinho: “Fica tranquilo, ele é meio agressivo mesmo, mas eu te garanto”. Foi a gota dágua. Virei-me para ele (o outro logo ergueu os olhos ao me ouvir) e disparei: “Olha aqui, seus palhaços, cretinos, borrabotas, seus milicos melados-de-óleo, seus personagenzinhos de telenovela inframental, de filmeco policialesco sub-hollywoodiano... Tou cansado dessa clicheria ambulante, dessa catatonia formulaica de repetir o repetido e dissolver em entropia o eternamente recodificado!” Peguei um e outro pela gola, trinta socos cá, trinta pontapés lá, dei no Zé uma surra com o João e depois dei no João uma surra com o Zé, joguei no asfalto, pisei, sapateei, enrolei um no outro e malhei o asfalto como quem malha sisal. Bati tanto que quando parei para respirar a transformação estava feita, a fusão concluída, arre diabo, será que tudo na vida tem que dar tanto trabalho? Ele se levantou meio tonto, limpando o uniforme. Perguntei: “Tudo bem?” “Tudo, senhor” disse ele, “tive uma tontura... Aqui estão seus papéis”. Olhei-o: óculos, bigode louro parecendo um rôdo... Guardei os papéis. Ele ainda me deu uma lição de moral e de velocidade no trânsito. Ao me afastar, vi que ele se abaixava e se olhava no retrovisor da viatura, como alguém que escapou de um perigo e acabou de nascer de novo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

2577) O Império da Verdade (8.6.2011)




É uma dessas encruzilhadas ético-afetivas que tantas vezes nos fazem sofrer. Lembrei do fato ao arrumar uns CDs antigos, empilhados num canto do meu escritório há tanto tempo que seria melhor considerá-los um sambaqui musical. 

Anos atrás recebi uma mala-direta de gravadora. (Tá vendo? O fato é tão antigo que ainda havia gravadoras mandando mala-direta pra gente.) Falava do lançamento do CD de uma cantora jovem, transcrevia elogios da imprensa, e num deles (assinado por um jornalista respeitado) fornecia o link para a matéria completa. Além de respeitado o cara era meu amigo, e morava numa capital brasileira cujo nome é irrelevante para o caso.

Fui no link. A crítica procurava ser comedida mas era tão otimista quanto ao futuro da cantora que na primeira chance que tive consegui o CD e escutei. Surpresa, rosto em branco. Era bem fraquinho o disco; o verso mais original dizia algo como “sem você não sei viver”, e a menina tinha até uma boa voz, mas vacilante, travada... Nada muito comprometedor, mas nem um pouco entusiasmante.

Algum tempo depois um trabalho me levou àquela cidade e o Roteirista do Mundo me colocou numa mesa de restaurante com meia dúzia de conhecidos, entre eles o jornalista em questão. A certa altura lembrei do CD e comentei que ele tinha exagerado na dose de elogios. A tal cantora era meio chinfrim. Ele passou a mão pelo cabelo grisalho e disse: 

- É, rapaz, já me falaram isso... Mas é minha filha. Gravou o primeiro disco, uma batalha danada, a menina ainda está meio verde, mas pode melhorar. O disco é ruim, mas você queria o quê, que eu dissesse a verdade?

Corolário: existem verdades factuais (coisas concretas que aconteceram e que podem ser comprovadas por testemunhas independentes), verdades intelectuais (coisas que, argumentadas, fazem sentido, mas existem apenas no plano das idéias e não podem ter comprovação material, nem precisam) e verdades afetivas, as mais difíceis de definir, mas que exercem talvez a maior pressão sobre as decisões que tomamos.

Qual o mais importante, a credibilidade do jornalista ou a solidariedade do pai? Ser fiel a um juízo crítico, ou dar uma força pra menina? Como equilibrar as duas coisas? O simples fato de equilibrar as duas coisas não relativiza a verdade, que deveria ser um valor absoluto, não condicionado por valores de outra ordem? Pedimos umas três saideiras enquanto tentávamos deslindar este complicado nó filosófico. 

É a velha questão que se coloca o tempo inteiro na tomada de decisões da vida profissional. Devo obedecer a critérios técnicos ou a critérios políticos? Devo ser objetivo, sincero e imparcial, ou devo ver o lado humano latente em cada questão, e usar mais a bondade que a verdade, mais o afeto do que o intelecto? 

Despedimo-nos sem encontrar a resposta, mas ao apertarmos as mãos ele me confidenciou que a filha estava agora estudando Jornalismo. “Leva jeito?”, perguntei. Ele riu e disse: “Puxou ao pai”.





terça-feira, 7 de junho de 2011

2576) O oral e o escrito (7.6.2011)




(ilustração de Alexeieff para Russian Fairy Tales)

No posfácio que escreveu para uma coletânea de contos de fadas russos, Roman Jakobson dá a certa altura um exemplo interessante de como uma literatura oral se forma na memória de um povo. Diz ele, a certa altura: 

“Aqui nós estamos diante de um dos aspectos mais peculiares da vida cultural russa, que a distingue claramente da cultura do Ocidente. Durante muitos séculos a literatura escrita da Rússia esteve quase totalmente dominada pela igreja: com toda a sua riqueza e suas formas refinadas, a antiga herança cultural russa é quase totalmente voltada para as vidas dos santos e dos devotos, lendas piedosas, preces, sermões, discursos eclesiásticos e crônicas ao estilo monástico. O mundo leigo da Velha Rússia, contudo, possuía uma ficção abundante, original, diversificada e altamente artística, mas o único meio para sua difusão era a transmissão oral. A idéia de usar a palavra escrita para a poesia secular era totalmente alheia à tradição russa, e os meios expressivos dessa poética eram inseparáveis das formas orais de execução e transmissão”.

Coisa semelhante a esta nunca aconteceu no Brasil, por exemplo. Aqui, a divisão entre literatura escrita e literatura oral não teve muito a ver com religião. Ela se deu muito mais por conta de critérios de classe social e de nacionalidade: os portugueses mantinham um vínculo com sua cultura escrita, enquanto os “brasileiros” de todos os matizes tinham um grau de alfabetização dos mais precários. 

Foram 400 anos disto. O que a situação na Rússia nos sugere é a coexistência em paralelo de uma enorme e sofisticada literatura religiosa escrita, e de uma enorme e sofisticada literatura leiga oral. Dois universos convivendo invisivelmente um com o outro.

Essa situação talvez ajude a entender dois aspectos peculiares da literatura russa. Um deles é a importância dada pelos estudiosos sérios da literatura às narrativas orais. O trabalho de Vladimir Propp (Morfologia do Conto, As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso) estabeleceu a estrutura básica dos contos maravilhosos, reduzindo-os a funções, personagens, etc., e demonstrou que esses contos são uma ilimitada recombinação de agentes e situações que recebem diferentes roupagens em diferentes culturas. 

A riqueza da literatura oral russa proporcionou a Propp e aos que o seguiram uma codificação notável dessas histórias. Histórias que no Brasil se reproduzem no Romanceiro Popular: as histórias de trancoso, os romances de origem ibérica e os folhetos de cordel.

Outro aspecto diz respeito ao grau extremamente musical, sonoro e experimentalista da poesia russa, desde poetas como Khliebnikov até Maiakóvski. 

Muito dessa poesia russa já foi traduzida aqui no Brasil, e os intrincados efeitos sonoros que ela cultiva mostram (à luz do que diz Jakobson) a existência de uma tradição oral rica e sofisticada. Nem tudo que é oral é primitivo. Nem tudo que é escrito é sofisticado.






domingo, 5 de junho de 2011

2575) O taxidermista (5.6.2011)



(foto: urban75)

Passava das duas da manhã e caía uma chuva fina quando o táxi dobrou a esquina e veio devagar ao longo da calçada. Diminuiu ao se aproximar de um edifício, antigo, com grades em forma de alabardas pontudas. Um homem emergiu do portal, acenando. Bateu o portão atrás de si e entrou no banco traseiro. “Sr. Ribeiro?” perguntou o motorista. “Isso mesmo. Boa noite.” “Boa noite. Para onde?” ”Pode pegar a Avenida Pedro II e seguir em frente, até passar o Hipermercado”. O carro pôs-se a caminho, enquanto a chuva aumentava. Pouco trânsito, pouquíssimos pedestres. Os limpadores produziam dois borrões em forma de leques, e o carro tinha que avançar com cuidado, rodeando poças e buracos. “Tempo brabo”, disse o motorista. “Pois é”, disse o outro. “Precisa coragem pra sair de casa”. “Na verdade, quando eu saí estava fazendo sol, mas agora tenho é que voltar pra casa”. “Tem razão”. Silêncio durante uma quadra, o motorista avisou: “Gosta de bala de hortelã? Tem um saquinho aí”. “Ah, obrigado”. O homem desembrulhou uma bala, pôs na boca, e comentou: “Trabalhar numa madrugada dessas deve ser cansativo”. “A gente trabalha pelo rádio”, explicou o motorista. “Às vezes fico em casa. Tenho dois rádios, um na sala. Dependendo da chamada, se eu vejo que tem segurança, eu aviso a Central e pego a corrida”. “Ah, entendi”. O homem olhou pela janela, viu um ou outro vulto encapotado apressando-se pelas faixas de pedestres. O cansaço do dia começou a bater e ele entrecerrou os olhos, abriu-os de novo. O motorista percebeu pelo retrovisor. “Fim de um dia de trabalho, não é?” O homem deu um sorriso que lhe entortou a boca. “Trabalho propriamente não. Diversão”. O motorista riu de leve: “Bom, sem querer ser indiscreto, vai ver que o sr. estava lá em Madame Dora.” O homem riu também: “É isso mesmo, conhece o lugar?” “Pego corridas de lá às vezes. É um lugar bem discreto. Andaram fechando umas casas como essas, mas a de Dora continua bem frequentada”. O homem bocejou, espreguiçou-se, recostou-se com os olhos fechados: “Rapaz, tem uma ruiva com um par de pernas... Ave Maria. Só estou voltando pra casa porque minha mulher é um porre. É passar uma noite fora e Dona Encrenca pega no meu pé uma semana. Devia era morrer logo e me deixar em paz.” O motorista ficou calado, depois disse, com leveza: “É, a gente pensa essas coisas de vez em quando”. O outro não respondeu. O carro começou a subir uma ladeira de terra, trepidando, balançando-se. O passageiro abriu com dificuldade os olhos. “Ei,”, disse ele, “isso aqui é o antigo curtume, não é esse o caminho”. O motorista replicou, tranquilo: “É um atalho. Só eu conheço.” O homem afundou-se no banco e ainda conseguiu murmurar: “OK, vá em frente, você é que é o taxista”. “Só nas horas vagas”, disse o outro. “O que eu sou mesmo é taxidermista”. O passageiro já estava roncando, roncava como quem se despede da vida.

sábado, 4 de junho de 2011

2574) A casa com o corpo dentro (4.6.2011)



O romance gótico celebrizou a imagem da casa mal-assombrada, muitas vezes uma casa para onde uma família se muda, feliz da vida, para descobrir pouco tempo depois que a casa é habitada por um fantasma. As histórias de horror da vida real seguem uma dinâmica parecida, só que adstrita, evidentemente, às limitações do Real.

Um bom exemplo é este fato singular ocorrido no nordeste da Espanha em 2007. Um sujeito comprou uma casa num balneário, oferecida em leilão depois que o dono deixou de pagar as prestações. Comprou, fez seus preparativos e foi para lá passar o veraneio. Ao entrar na casa pela primeira vez, viu algo pior que um fantasma. Sentado no sofá, estava o corpo de uma mulher, morta há muitos anos, mumificada. Descobriu-se em seguida que era a ex-esposa do antigo dono da casa. A polícia chegou à conclusão de que a mulher havia morrido de morte natural e a maresia tinha ajudado a preservar seu corpo, evitando a decomposição. O que a polícia teve dificuldade de entender foi por que razão a mulher morreu ali e nem o ex-marido (que pagava a casa) nem os filhos dela, que moravam em Madri, tinha sentido falta dela ou se preocupado com o seu desaparecimento.

Em 2008, em Londres, um homem comprou um apartamento por 350 mil libras e foi fazer a primeira vistoria pra valer. Foi uma vistoria tão bem feita que encontrou, no closet do quarto principal, o corpo de um homem de seus 40 anos, enforcado com um cinturão. Verificou-se que era o proprietário. A mãe dele falecera algum tempo antes, e ele havia colocado o apartamento à venda. Deduziu-se que ele devia ter entrado em depressão e se suicidado mais ou menos na época em que a venda foi consumada.

A casa mal assombrada da literatura corresponde em grande medida àquilo que na vida real chamamos “uma casa com muita história”, casa onde morou muita gente, aconteceu muita coisa. Daí que um casarão com 200 anos de funcionamento seja mais propenso a assombrações do que o apartamento com sala, três quartos (duas suítes) e dependências, com vista para o mar, comprado na planta. Nada aconteceu ali, ninguém morou ainda, ninguém morreu jamais. Houve no máximo uma carraspana dos pedreiros e um bateboca por causa de futebol. Como diria o pessoal místico, não se deu qualquer ruptura do plano energético-astral.

A casa antiga, no entanto, pulula de resíduos e nesse sentido a história gótica, por mais “de terror” que seja, é uma afirmação da vida. Dentro do imóvel existe algo se movendo. Dentro do que está morto existe algo que teima em não morrer nunca. Dentro do passado existe algo se manifestando no presente. Dentro do silêncio existem vozes, dentro da treva existe uma luminosidade, um reflexo, uma imagem. A história de terror é também a história da sobrevivência implacável do tempo no tempo, e a sugestão de que cada objeto material tem no seu interior uma coisa viva, ou alguma coisa que não morreu por completo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

2573) A boca e a botija (3.6.2011)



Fulano era um cara trabalhador, competente, honesto. Ele e a esposa tinham uma poupança conjunta que estavam acumulando para no futuro construir uma casa. Dois terços do dinheiro eram a herança que ela ganhou dos pais, o resto eram economias dele. Como a mulher não se interessava por finanças (era uma pessoa de temperamento artístico, adepta de religiões orientais, etc.) ele cuidava de tudo.

Os anos se passaram. Houve alguma catástrofe familiar pelo lado dela e ela precisou do dinheiro. Pediu para o marido tirar metade, ele fez finca-pé. Depois de muito pressionado, ele confessou. Tinha perdido a grana, quase 1 milhão de reais, em especulações financeiras. Um amigo lhe acenara com a possibilidade de duplicar o capital em curtíssimo tempo. Ele começou a visualizar a cena. Convidaria Sicrana para um jantar à luz de velas, e entre duas taças de vinho daria a notícia: já podiam chamar o arquiteto e contratar o projeto, porque tinham os 2 milhões necessários para a casa! A mulher não acreditava no que estava ouvindo. Mas não sobrou nada?... Nada, nadinha, confessava ele, aos prantos. A crise das imobiliárias dos EUA derrubou inúmeros bancos e financeiras, e o dinheiro dele (e de mais alguns milhões de aplicadores) tinha descido pelo ralo. Não teve Obama que desse jeito, e dos 4 trilhões que os governos do Ocidente destinaram à salvação da economia mundial não lhe coubera sequer um centavo.

É duro uma mulher de 45 anos escutar isso. Ainda mais uma pessoa que jogava I-Ching e Tarô uma vez por mês, em quinzenas alternadas, e nunca recebeu a menor dica de que sua herança estava virando fumaça, ao fim de intrincadas tubulações financeiras, na fornalha que consumiu a credibilidade de Wall Street. Talvez as entidades espirituais não queiram perder tempo com alertas dessa natureza – a César o que é de César, etc. – e no fim das contas talvez a culpa fosse dela própria, que não interpretara corretamente as mensagens tipo “A viga-mestra cede a ponto de se partir. Infortúnio.”

Se o episódio tem alguma utilidade prática para nós, da plateia, talvez seja a seguinte. Geralmente identificamos desonestidade com má intenção, com o dolo, com o propósito malévolo de prejudicar alguém. Um roubo, um furto, um assalto à mão armada. Mas a desonestidade pode vir associada, também, a uma boa intenção que tenta se concretizar por meios questionáveis. Imagino que jamais passaria pela cabeça de Fulano pegar os caraminguás da patroa e gastá-los com coristas de Las Vegas. O que ele queria mesmo era fazê-la feliz a curto prazo. “Nunca menti para ela”, disse certa vez, “apenas não contei tudo que estava fazendo”, desculpa escorregadia de colegial pêgo-no-flagra. A fantasia pueril de produzir um grande efeito, uma grande surpresa, acabou sendo mais forte do que a lealdade, o jogo de equipe, a necessidade de tomar decisões conjuntas sobre o que implica em riscos conjuntos.