quarta-feira, 8 de junho de 2011

2577) O Império da Verdade (8.6.2011)




É uma dessas encruzilhadas ético-afetivas que tantas vezes nos fazem sofrer. Lembrei do fato ao arrumar uns CDs antigos, empilhados num canto do meu escritório há tanto tempo que seria melhor considerá-los um sambaqui musical. 

Anos atrás recebi uma mala-direta de gravadora. (Tá vendo? O fato é tão antigo que ainda havia gravadoras mandando mala-direta pra gente.) Falava do lançamento do CD de uma cantora jovem, transcrevia elogios da imprensa, e num deles (assinado por um jornalista respeitado) fornecia o link para a matéria completa. Além de respeitado o cara era meu amigo, e morava numa capital brasileira cujo nome é irrelevante para o caso.

Fui no link. A crítica procurava ser comedida mas era tão otimista quanto ao futuro da cantora que na primeira chance que tive consegui o CD e escutei. Surpresa, rosto em branco. Era bem fraquinho o disco; o verso mais original dizia algo como “sem você não sei viver”, e a menina tinha até uma boa voz, mas vacilante, travada... Nada muito comprometedor, mas nem um pouco entusiasmante.

Algum tempo depois um trabalho me levou àquela cidade e o Roteirista do Mundo me colocou numa mesa de restaurante com meia dúzia de conhecidos, entre eles o jornalista em questão. A certa altura lembrei do CD e comentei que ele tinha exagerado na dose de elogios. A tal cantora era meio chinfrim. Ele passou a mão pelo cabelo grisalho e disse: 

- É, rapaz, já me falaram isso... Mas é minha filha. Gravou o primeiro disco, uma batalha danada, a menina ainda está meio verde, mas pode melhorar. O disco é ruim, mas você queria o quê, que eu dissesse a verdade?

Corolário: existem verdades factuais (coisas concretas que aconteceram e que podem ser comprovadas por testemunhas independentes), verdades intelectuais (coisas que, argumentadas, fazem sentido, mas existem apenas no plano das idéias e não podem ter comprovação material, nem precisam) e verdades afetivas, as mais difíceis de definir, mas que exercem talvez a maior pressão sobre as decisões que tomamos.

Qual o mais importante, a credibilidade do jornalista ou a solidariedade do pai? Ser fiel a um juízo crítico, ou dar uma força pra menina? Como equilibrar as duas coisas? O simples fato de equilibrar as duas coisas não relativiza a verdade, que deveria ser um valor absoluto, não condicionado por valores de outra ordem? Pedimos umas três saideiras enquanto tentávamos deslindar este complicado nó filosófico. 

É a velha questão que se coloca o tempo inteiro na tomada de decisões da vida profissional. Devo obedecer a critérios técnicos ou a critérios políticos? Devo ser objetivo, sincero e imparcial, ou devo ver o lado humano latente em cada questão, e usar mais a bondade que a verdade, mais o afeto do que o intelecto? 

Despedimo-nos sem encontrar a resposta, mas ao apertarmos as mãos ele me confidenciou que a filha estava agora estudando Jornalismo. “Leva jeito?”, perguntei. Ele riu e disse: “Puxou ao pai”.





terça-feira, 7 de junho de 2011

2576) O oral e o escrito (7.6.2011)




(ilustração de Alexeieff para Russian Fairy Tales)

No posfácio que escreveu para uma coletânea de contos de fadas russos, Roman Jakobson dá a certa altura um exemplo interessante de como uma literatura oral se forma na memória de um povo. Diz ele, a certa altura: 

“Aqui nós estamos diante de um dos aspectos mais peculiares da vida cultural russa, que a distingue claramente da cultura do Ocidente. Durante muitos séculos a literatura escrita da Rússia esteve quase totalmente dominada pela igreja: com toda a sua riqueza e suas formas refinadas, a antiga herança cultural russa é quase totalmente voltada para as vidas dos santos e dos devotos, lendas piedosas, preces, sermões, discursos eclesiásticos e crônicas ao estilo monástico. O mundo leigo da Velha Rússia, contudo, possuía uma ficção abundante, original, diversificada e altamente artística, mas o único meio para sua difusão era a transmissão oral. A idéia de usar a palavra escrita para a poesia secular era totalmente alheia à tradição russa, e os meios expressivos dessa poética eram inseparáveis das formas orais de execução e transmissão”.

Coisa semelhante a esta nunca aconteceu no Brasil, por exemplo. Aqui, a divisão entre literatura escrita e literatura oral não teve muito a ver com religião. Ela se deu muito mais por conta de critérios de classe social e de nacionalidade: os portugueses mantinham um vínculo com sua cultura escrita, enquanto os “brasileiros” de todos os matizes tinham um grau de alfabetização dos mais precários. 

Foram 400 anos disto. O que a situação na Rússia nos sugere é a coexistência em paralelo de uma enorme e sofisticada literatura religiosa escrita, e de uma enorme e sofisticada literatura leiga oral. Dois universos convivendo invisivelmente um com o outro.

Essa situação talvez ajude a entender dois aspectos peculiares da literatura russa. Um deles é a importância dada pelos estudiosos sérios da literatura às narrativas orais. O trabalho de Vladimir Propp (Morfologia do Conto, As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso) estabeleceu a estrutura básica dos contos maravilhosos, reduzindo-os a funções, personagens, etc., e demonstrou que esses contos são uma ilimitada recombinação de agentes e situações que recebem diferentes roupagens em diferentes culturas. 

A riqueza da literatura oral russa proporcionou a Propp e aos que o seguiram uma codificação notável dessas histórias. Histórias que no Brasil se reproduzem no Romanceiro Popular: as histórias de trancoso, os romances de origem ibérica e os folhetos de cordel.

Outro aspecto diz respeito ao grau extremamente musical, sonoro e experimentalista da poesia russa, desde poetas como Khliebnikov até Maiakóvski. 

Muito dessa poesia russa já foi traduzida aqui no Brasil, e os intrincados efeitos sonoros que ela cultiva mostram (à luz do que diz Jakobson) a existência de uma tradição oral rica e sofisticada. Nem tudo que é oral é primitivo. Nem tudo que é escrito é sofisticado.






domingo, 5 de junho de 2011

2575) O taxidermista (5.6.2011)



(foto: urban75)

Passava das duas da manhã e caía uma chuva fina quando o táxi dobrou a esquina e veio devagar ao longo da calçada. Diminuiu ao se aproximar de um edifício, antigo, com grades em forma de alabardas pontudas. Um homem emergiu do portal, acenando. Bateu o portão atrás de si e entrou no banco traseiro. “Sr. Ribeiro?” perguntou o motorista. “Isso mesmo. Boa noite.” “Boa noite. Para onde?” ”Pode pegar a Avenida Pedro II e seguir em frente, até passar o Hipermercado”. O carro pôs-se a caminho, enquanto a chuva aumentava. Pouco trânsito, pouquíssimos pedestres. Os limpadores produziam dois borrões em forma de leques, e o carro tinha que avançar com cuidado, rodeando poças e buracos. “Tempo brabo”, disse o motorista. “Pois é”, disse o outro. “Precisa coragem pra sair de casa”. “Na verdade, quando eu saí estava fazendo sol, mas agora tenho é que voltar pra casa”. “Tem razão”. Silêncio durante uma quadra, o motorista avisou: “Gosta de bala de hortelã? Tem um saquinho aí”. “Ah, obrigado”. O homem desembrulhou uma bala, pôs na boca, e comentou: “Trabalhar numa madrugada dessas deve ser cansativo”. “A gente trabalha pelo rádio”, explicou o motorista. “Às vezes fico em casa. Tenho dois rádios, um na sala. Dependendo da chamada, se eu vejo que tem segurança, eu aviso a Central e pego a corrida”. “Ah, entendi”. O homem olhou pela janela, viu um ou outro vulto encapotado apressando-se pelas faixas de pedestres. O cansaço do dia começou a bater e ele entrecerrou os olhos, abriu-os de novo. O motorista percebeu pelo retrovisor. “Fim de um dia de trabalho, não é?” O homem deu um sorriso que lhe entortou a boca. “Trabalho propriamente não. Diversão”. O motorista riu de leve: “Bom, sem querer ser indiscreto, vai ver que o sr. estava lá em Madame Dora.” O homem riu também: “É isso mesmo, conhece o lugar?” “Pego corridas de lá às vezes. É um lugar bem discreto. Andaram fechando umas casas como essas, mas a de Dora continua bem frequentada”. O homem bocejou, espreguiçou-se, recostou-se com os olhos fechados: “Rapaz, tem uma ruiva com um par de pernas... Ave Maria. Só estou voltando pra casa porque minha mulher é um porre. É passar uma noite fora e Dona Encrenca pega no meu pé uma semana. Devia era morrer logo e me deixar em paz.” O motorista ficou calado, depois disse, com leveza: “É, a gente pensa essas coisas de vez em quando”. O outro não respondeu. O carro começou a subir uma ladeira de terra, trepidando, balançando-se. O passageiro abriu com dificuldade os olhos. “Ei,”, disse ele, “isso aqui é o antigo curtume, não é esse o caminho”. O motorista replicou, tranquilo: “É um atalho. Só eu conheço.” O homem afundou-se no banco e ainda conseguiu murmurar: “OK, vá em frente, você é que é o taxista”. “Só nas horas vagas”, disse o outro. “O que eu sou mesmo é taxidermista”. O passageiro já estava roncando, roncava como quem se despede da vida.

sábado, 4 de junho de 2011

2574) A casa com o corpo dentro (4.6.2011)



O romance gótico celebrizou a imagem da casa mal-assombrada, muitas vezes uma casa para onde uma família se muda, feliz da vida, para descobrir pouco tempo depois que a casa é habitada por um fantasma. As histórias de horror da vida real seguem uma dinâmica parecida, só que adstrita, evidentemente, às limitações do Real.

Um bom exemplo é este fato singular ocorrido no nordeste da Espanha em 2007. Um sujeito comprou uma casa num balneário, oferecida em leilão depois que o dono deixou de pagar as prestações. Comprou, fez seus preparativos e foi para lá passar o veraneio. Ao entrar na casa pela primeira vez, viu algo pior que um fantasma. Sentado no sofá, estava o corpo de uma mulher, morta há muitos anos, mumificada. Descobriu-se em seguida que era a ex-esposa do antigo dono da casa. A polícia chegou à conclusão de que a mulher havia morrido de morte natural e a maresia tinha ajudado a preservar seu corpo, evitando a decomposição. O que a polícia teve dificuldade de entender foi por que razão a mulher morreu ali e nem o ex-marido (que pagava a casa) nem os filhos dela, que moravam em Madri, tinha sentido falta dela ou se preocupado com o seu desaparecimento.

Em 2008, em Londres, um homem comprou um apartamento por 350 mil libras e foi fazer a primeira vistoria pra valer. Foi uma vistoria tão bem feita que encontrou, no closet do quarto principal, o corpo de um homem de seus 40 anos, enforcado com um cinturão. Verificou-se que era o proprietário. A mãe dele falecera algum tempo antes, e ele havia colocado o apartamento à venda. Deduziu-se que ele devia ter entrado em depressão e se suicidado mais ou menos na época em que a venda foi consumada.

A casa mal assombrada da literatura corresponde em grande medida àquilo que na vida real chamamos “uma casa com muita história”, casa onde morou muita gente, aconteceu muita coisa. Daí que um casarão com 200 anos de funcionamento seja mais propenso a assombrações do que o apartamento com sala, três quartos (duas suítes) e dependências, com vista para o mar, comprado na planta. Nada aconteceu ali, ninguém morou ainda, ninguém morreu jamais. Houve no máximo uma carraspana dos pedreiros e um bateboca por causa de futebol. Como diria o pessoal místico, não se deu qualquer ruptura do plano energético-astral.

A casa antiga, no entanto, pulula de resíduos e nesse sentido a história gótica, por mais “de terror” que seja, é uma afirmação da vida. Dentro do imóvel existe algo se movendo. Dentro do que está morto existe algo que teima em não morrer nunca. Dentro do passado existe algo se manifestando no presente. Dentro do silêncio existem vozes, dentro da treva existe uma luminosidade, um reflexo, uma imagem. A história de terror é também a história da sobrevivência implacável do tempo no tempo, e a sugestão de que cada objeto material tem no seu interior uma coisa viva, ou alguma coisa que não morreu por completo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

2573) A boca e a botija (3.6.2011)



Fulano era um cara trabalhador, competente, honesto. Ele e a esposa tinham uma poupança conjunta que estavam acumulando para no futuro construir uma casa. Dois terços do dinheiro eram a herança que ela ganhou dos pais, o resto eram economias dele. Como a mulher não se interessava por finanças (era uma pessoa de temperamento artístico, adepta de religiões orientais, etc.) ele cuidava de tudo.

Os anos se passaram. Houve alguma catástrofe familiar pelo lado dela e ela precisou do dinheiro. Pediu para o marido tirar metade, ele fez finca-pé. Depois de muito pressionado, ele confessou. Tinha perdido a grana, quase 1 milhão de reais, em especulações financeiras. Um amigo lhe acenara com a possibilidade de duplicar o capital em curtíssimo tempo. Ele começou a visualizar a cena. Convidaria Sicrana para um jantar à luz de velas, e entre duas taças de vinho daria a notícia: já podiam chamar o arquiteto e contratar o projeto, porque tinham os 2 milhões necessários para a casa! A mulher não acreditava no que estava ouvindo. Mas não sobrou nada?... Nada, nadinha, confessava ele, aos prantos. A crise das imobiliárias dos EUA derrubou inúmeros bancos e financeiras, e o dinheiro dele (e de mais alguns milhões de aplicadores) tinha descido pelo ralo. Não teve Obama que desse jeito, e dos 4 trilhões que os governos do Ocidente destinaram à salvação da economia mundial não lhe coubera sequer um centavo.

É duro uma mulher de 45 anos escutar isso. Ainda mais uma pessoa que jogava I-Ching e Tarô uma vez por mês, em quinzenas alternadas, e nunca recebeu a menor dica de que sua herança estava virando fumaça, ao fim de intrincadas tubulações financeiras, na fornalha que consumiu a credibilidade de Wall Street. Talvez as entidades espirituais não queiram perder tempo com alertas dessa natureza – a César o que é de César, etc. – e no fim das contas talvez a culpa fosse dela própria, que não interpretara corretamente as mensagens tipo “A viga-mestra cede a ponto de se partir. Infortúnio.”

Se o episódio tem alguma utilidade prática para nós, da plateia, talvez seja a seguinte. Geralmente identificamos desonestidade com má intenção, com o dolo, com o propósito malévolo de prejudicar alguém. Um roubo, um furto, um assalto à mão armada. Mas a desonestidade pode vir associada, também, a uma boa intenção que tenta se concretizar por meios questionáveis. Imagino que jamais passaria pela cabeça de Fulano pegar os caraminguás da patroa e gastá-los com coristas de Las Vegas. O que ele queria mesmo era fazê-la feliz a curto prazo. “Nunca menti para ela”, disse certa vez, “apenas não contei tudo que estava fazendo”, desculpa escorregadia de colegial pêgo-no-flagra. A fantasia pueril de produzir um grande efeito, uma grande surpresa, acabou sendo mais forte do que a lealdade, o jogo de equipe, a necessidade de tomar decisões conjuntas sobre o que implica em riscos conjuntos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

2572) Drummond: “Festa no Brejo” (2.6.2011)



É um dos poeminhas menores, quase invisíveis, de Alguma Poesia (1930), primeiro livro de Carlos Drummond, cujos 80 anos foram comemorados no ano passado, e que eu recebi (de mim mesmo) a incumbência de comentar, poema por poema. “Festa no brejo”, se enviado anonimamente para a maioria das revistas literárias de hoje, dificilmente emplacaria uma publicação. O poema diz: “A saparia desesperada / coaxa coaxa coaxa. / O brejo vibra que nem caixa / de guerra. Os sapos estão danados. // A lua gorda apareceu / e clareou o brejo todo. / Até a lua sobe o coro / da saparia desesperada. // A saparia toda de Minas / coaxa no brejo humilde. // Hoje tem festa no brejo!”.

Parece uma pequena polaróide caipira, registro da observação de um capiauzinho à beira de sua palhoça, contemplando o brejo ao luar. Ilusão trêda! Para mim o poema de Drummond é citação, homenagem e piscadela-cúmplice-de-olho na direção do famoso poema de Manuel Bandeira “Os Sapos” (no livro Carnaval, 1919). Diz Bandeira: “Enfunando os papos/ saem da penumbra. / Aos pulos, os sapos / a luz os deslumbra. // Em ronco que aterra, / berra o sapo-boi: / - Meu pai foi à guerra! / – Não foi! – Foi! -- Não foi!” // O sapo-tanoeiro / parnasiano aguado, / diz: -- Meu cancioneiro / é bem martelado. // Vede como primo / em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / os termos cognatos”.

Já se viu, né? É Bandeira mangando dos poetas acadêmicos que só tem o academicismo para lhes valer, dos poetas que esquartejam o poema no leito de Procusto dos tratados de versificação. Consta que o poema é de 1918, ano da morte de Olavo Bilac. Isso será Bandeira perturbando o velório do outro? Ou terá sido justamente o poema que precipitou o desenlace? Difícil saber a esta altura, e desnecessário. Drummond e sua festa no brejo estão fazendo uma referência clara ao inconformismo generalizado contra o Modernismo, de que Bandeira é considerado uma espécie de precursor, de São João Batista vindo para anunciar quem virá depois.

Os sapos de Drummond, que estão desesperados, podem ser os críticos ou os poetas acadêmicos mineiros, horrorizados com os modernistas, essa quadrilha de diferenciados que surgiu para agredir a Norma Culta do idioma. (Naquele tempo, amigos, era agressão à Norma Culta dizer “que nem”, e um adjetivo como “danado” só se usava em contextos teológicos e canônicos.) O retrato que o poeta nos dá do brejo é o de uma imensa aflição que, linha a linha, vai meio que desmentido a “festa” do título. O que a gente vê é uma situação ansiosa, pois os sapos coaxam de fúria, ou de irritação, ou de desespero. No fecho do poema, contudo, vem uma frase inesperada e triunfante: “Hoje tem festa no brejo!”. Como se dissesse: “O brejo é nosso! Eles estão aí, reclamando pra valer, mas não adianta! A lua não lhes dá ouvidos, ninguém lhes dá ouvidos, viemos aqui pra fazer a festa no brejo. O brejo é nosso! Urrú! Urrú! O brejo é nosso!”

2571) História curta (1.6.2011)




(ilustração: Gustave Doré)

Como eu ia dizendo, faz uns quinze anos. 

Eu tinha ido passar o feriadão na fazenda de um amigo, no interior de Pernambuco. Perto de lá ficavam as ruínas de um antigo Engenho abandonado. Durante o dia a gente caminhava e tomava banho de rio; de noite, cerveja e violão. Depois do terceiro dia ninguém agüentava mais uma rotina tão estafante. 

Começamos a procurar alternativas. O dono da casa sugeriu que ficássemos fazendo hora até meia-noite e fôssemos para as ruínas do Engenho, aproveitando que era noite de lua. Por quê?, perguntamos. Ele explicou que o Engenho era mal-assombrado, e que à meia-noite apareciam coisas esquisitas lá. 

As esposas (havia várias esposas na turma) disseram que “nem mortas”, e que fôssemos nós, o contingente masculino. Um dos caras piscou o olho discretamente e disse que tudo aquilo era pretexto nosso para um encontro clandestino com algumas moçoilas da vila próxima. Houve um certo reboliço, e, para encurtar a história, acabou indo todo mundo.

A verdade é que estávamos mesmo curiosos para ver os possíveis fantasmas, e não havia mulher nenhuma envolvida. Ou melhor: havia agora, as nossas, e íamos ter que agir de acordo. 

Entrar num engenho mal-assombrado é um desafio para qualquer sujeito, requer atenção, concentração, dedos cruzados, fé no agnosticismo e assim por diante. Mas, e quando são três caras e três mulheres? Não é preciso nenhum ectoplasma para que fiquem em polvorosa, porque em qualquer sombra elas veem uma cobra e em qualquer folha roçagante um lacrau. 

Mas subimos a colina, forçamos uma porta, entramos lá dentro, lanternas em punho; e, pra encurtar a história, a verdade é que apareceu mesmo uma alma.

Não sei se era alma, mas era sem dúvida uma luminosidade difusa que persistia mesmo quando apagávamos nossas luzes. Surgia por trás de umas coisas enormes e bojudas que imaginei serem caldeirões. 

Pelas brechas do telhado em ruínas entrava uma luz muito pouca, mas não era avermelhada como aquela. Víamos diante de nós um círculo vermelho que em certo momento pareceu uma fogueira vista verticalmente de cima e em outros uma rosa desabrochando. 

Fomos chegando perto; não sei o que pensavam os outros, todos em silêncio, mas eu achei que era um reflexo de alguma fogueira de ciganos, sei lá o quê. Ao chegarmos perto da parede aquilo pareceu se expandir; não era fogo, era algo hologrâmico, impalpável, e mal essa luz nos envolveu eu vi, através dessas volutas de luz vermelha, que as formas bojudas punham-se em movimento, desdobrando patas articuladas que rascavam nas pedras do chão, erguendo tentáculos bífidos que meneavam na penumbra rósea. 

Não senti medo. Senti uma espécie de paz, como se uma ampola de anestesia mental me estivesse sendo injetada por inteiro, sossegando-me, imobilizando-me, preparando-me para o que viria a seguir. Nem me dei o trabalho de saber se o mesmo estava acontecendo com os outros, mas a verdade é que, pra encurtar a história, nenhum de nós voltou.





terça-feira, 31 de maio de 2011

2570) O romance de adultério (31.5.2011)



A crítica chama de “literatura mainstream” a corrente principal da literatura, ou seja, o romance realista em geral, que descreve a vida como ela é, os costumes das classes sociais, a existência cotidiana, etc. Em geral, esse conceito é contraposto à literatura dita “de gênero”: o romance policial, de terror, de ficção científica, de faroeste, de humor, etc. Estes seriam gêneros especializadíssimos e que, talvez por isto mesmo, são incapazes de reproduzir toda a complexidade do mundo de hoje.

Mas podemos considerar também que um gênero literário é uma espécie de repetição ritual de temas e situações que por variados motivos nunca deixam de encontrar leitores. O que é o romance de detetive? A história de um crime violento que ninguém sabe como e por quem foi cometido; e de um homem (o Detetive) que consegue interpretar da única maneira correta uma porção de indícios que os outros viram e não compreenderam e prender o criminoso. É a Razão servindo de instrumento para punir a Transgressão. Por motivos variados esse tipo de história nunca deixa de ter leitores. Uns são atraídos pela fascinação da Violência, outros pela conquista do reequilíbrio pela Sociedade, e outros (eu, p. ex.) pelas inesgotáveis manifestações da Inteligência.

Dentro do romance social e psicológico há um subgênero importantíssimo, mas que a crítica não costuma identificar como tal. Eu o chamo o Romance de Adultério: aquele em que uma instituição crucial da sociedade, o casamento patriarcal e monogâmico, é ameaçado pelo comportamento individualista e transgressor de uma ou mais pessoas. Dentro desta rubrica caberiam clássicos como Anna Karenina de Tolstoi, Madame Bovary de Flaubert, O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence, Dom Casmurro de Machado de Assis, O Amor Conjugal de Alberto Moravia e milhares de outros. Estes livros são considerados “mainstream” porque ninguém até hoje se mobilizou para defender a criação de um gênero que os abarcasse e que se certa forma “chamasse” a criação de novas obras baseadas neles. Essa criação se dá invisivelmente, dentro do mercado literário que já existe.

É curioso que este tema não tenha sido cristalizado em gênero, como foi o assassinato (através do romance policial). A dualidade casamento/adultério, segurança/aventura, respeitabilidade/transgressão tem sido uma inspiração constante da literatura nos últimos séculos, e gerou obras magníficas como estas que citei acima e muitíssimas outras. Alguns autores retornaram de maneira quase obsessiva ao tema. Machado de Assis, talvez pelo fato de publicar muitos dos seus contos em jornais e revistas voltadas para o público feminino, falou do assunto sob todos os ângulos possíveis. E no entanto a crítica planta firmemente esses romances dentro do território indiferenciado do “romance realista psicológico urbano” ou coisa parecida, quando, para transformá-lo em gênero, bastaria criar uma coleção e formalizar uma teoria.

domingo, 29 de maio de 2011

2569) O que é preconceito (29.5.2011)




Preconceito é uma idéia tão confortável que resistimos em nos separar dela.

De nada adiantam os argumentos mais razoáveis ou as provas contrárias mais esmagadoras. Tapamos os ouvidos, fechamos os olhos, fazemos “Dã-dã-dã-dã-dã-dã-dã... Não estou ouvindooo... Não estou ouvindoooo...”

Não somos capazes de viver sem aquela idéia, assim como uma criança não é capaz de viver sem sua chupeta, um fumante sem o seu cigarro, ou o ébrio sem a sua “garrafa tóxica de rum”, como dizia Augusto dos Anjos.

Um preconceito é um pesadelo que assaltou nossa mente de tal maneira que acabamos nos orgulhando dele. Ele faz parte de nós. Ficamos como a alma penada daquela história, vagando pelos corredores com um machado enfiado no crânio. Se alguém retirasse o machado libertaria aquela alma para sempre, e ela sabe disso, mas prefere aterrorizar os outros do que permitir que alguém toque naquele machado, que agora, confortavelmente, faz parte dela.

Essa imagem do machado enterrado no crânio me vem com frequência porque a sensação que tenho é de que os meus preconceitos (que são muitos) não foram escolhidos voluntariamente por mim, mas me foram impostos de fora para dentro ou de cima para baixo, com tal violência que não fui capaz de me defender.

Um preconceito é um implante mental. Recebemos aquilo antes de termos capacidade de entender o que significa. E o recebemos geralmente numa situação de dominação e poder que nos deixa indefesos, incapazes de reagir.

Grande parte dos nossos preconceitos nos é imposta pelos nossos pais, nossos professores, nossos amigos ou os meios de comunicação (numa idade em que acreditamos que “se está ali é porque é verdade”).

Como não entendemos que idéia terrível é aquela que nos habita, somos forçados a racionalizá-la, justificá-la. E construímos em volta dela uma camada protetora de explicações, de teorias, que nos servem de analgésicos. Quando o implante mental começa a doer muito, basta começar a pensar nas nossas racionalizações, as quais nos convencem de que estamos certos, sim, aquela coisa é terrível mas é verdade. E esse tylenolzinho filosófico nos ajuda a tocar a vida pra frente.

Para alguém nos “tirar do sério” basta questionar nossos preconceitos. Basta perguntar com o ar mais inocente do mundo: “Por que você anda com um machado enterrado no crânio?...”

Ficamos lívidos, a velha dor de cabeça retorna com força total, e começamos a espumar de raiva, com “o olho rútilo e o lábio trêmulo”, jogando em cima do ofensor todos os argumentos que nos ajudaram a justificar nossa condição.

Já os preconceituosos profissionais são mais calmos, mais ponderados, pelo simples fato de que, ao contrário de nós, fizeram daquilo sua razão de viver. Pensam naquilo 24 horas por dia. Impossibilitados de arrancar o machado, agarram-se a ele como um afogado ao salva-vidas, e conversam conosco esperando o momento propício para desferir mais um golpe.









sábado, 28 de maio de 2011

2568) A arte da subitização (28.5.2011)



A gente mostra uma foto dos Beatles a um sujeito que nunca ouviu falar deles e pergunta: “Quantas pessoas tem aí?”. O cara olha e responde em um segundo: “Quatro”. Mas se a gente mostrar uma foto de uma orquestra sinfônica e fizer a mesma pergunta, ele vai ter que sair contando: “Um... dois... três...”, até chegar ao total. O que ele fez no primeiro caso foi o que os psicólogos chamam de subitização: saber instantaneamente a quantidade de elementos de um conjunto sem ter de contá-los um a um. Dizem que o limiar médio do ser humano é quatro, e que à medida que essa quantidade vai aumentando, aumenta também a nossa dificuldade de “enxergar” o total, sendo preciso fazer a contagem.

Em seu conto “Funes, o Memorioso”, Borges tem uma visão hiperbólica do que seria essa função mental num homem dotado de memória absoluta. Diz ele: “Nós, de uma olhadela, percebemos três copos em cima de uma mesa; Funes percebia todos os rebentos e cachos e frutos que comporia uma parreira”. No filme Rain Man, há uma cena em que alguém derrama uma caixa de palitos no chão e o autista interpretado por Dustin Hoffmann percebe de uma só olhada que são 246.

A palavra significa “apreensão súbita ou imediata”. Muitas pessoas desenvolvem a capacidade de fazer tais cálculos através do processo chamado de “agrupamento e contagem”. Por exemplo, se mostramos uma foto com nove pessoas amontoadas ao acaso é mais difícil perceber quantas são do que se elas estiverem divididas em três grupos com três pessoas cada um. Neste último caso, bastam duas subitizações rápidas e sucessivas para sabermos que cada grupo tem três, e que o total é de nove.

Dizem que quando Henry Thoreau trabalhava numa fábrica de lápis ele sempre identificava a quantidade exata de lápis numa caixa sem contá-los. Já vi um depoimento de que algumas pessoas eram capazes de contar 38 ovelhas num rebanho, com uma só olhada à distância. Beremiz Samir, o personagem de O Homem que Calculava de Malba Tahan, levava essa capacidade a extremos surrealistas. Ao ver uma cáfila de camelos e ser perguntado quantos eram, ele dizia algo como: “São 484... Perdão, são 121, eu tinha contado as pernas deles”.

O hábito de contar folhetos de cordel me fez desenvolver um método de subitização baseado no número cinco. Quando a gente tem que saber o total de uma pilha com centenas de folhetos é mais fácil sair pegando de cinco em cinco (o olho calcula e o dedo separa num segundo), e ir contando: “1, 2, 3, 4, 5, 6....” No final basta multiplicar por cinco o total.

Um exemplo curioso diz respeito à capacidade de contar dos corvos (aves mais inteligentes do que a média). Três caçadores entram num local fechado, dois saem; os corvos olham e ficam à distância. Quatro entram, três saem: idem. O limite dos corvos é alcançado quando entram seis caçadores e saem cinco; os corvos pensam que o local está vazio e voam até lá. O limite de sua capacidade de subitização (ou de contagem) é cinco.