sábado, 28 de maio de 2011

2568) A arte da subitização (28.5.2011)



A gente mostra uma foto dos Beatles a um sujeito que nunca ouviu falar deles e pergunta: “Quantas pessoas tem aí?”. O cara olha e responde em um segundo: “Quatro”. Mas se a gente mostrar uma foto de uma orquestra sinfônica e fizer a mesma pergunta, ele vai ter que sair contando: “Um... dois... três...”, até chegar ao total. O que ele fez no primeiro caso foi o que os psicólogos chamam de subitização: saber instantaneamente a quantidade de elementos de um conjunto sem ter de contá-los um a um. Dizem que o limiar médio do ser humano é quatro, e que à medida que essa quantidade vai aumentando, aumenta também a nossa dificuldade de “enxergar” o total, sendo preciso fazer a contagem.

Em seu conto “Funes, o Memorioso”, Borges tem uma visão hiperbólica do que seria essa função mental num homem dotado de memória absoluta. Diz ele: “Nós, de uma olhadela, percebemos três copos em cima de uma mesa; Funes percebia todos os rebentos e cachos e frutos que comporia uma parreira”. No filme Rain Man, há uma cena em que alguém derrama uma caixa de palitos no chão e o autista interpretado por Dustin Hoffmann percebe de uma só olhada que são 246.

A palavra significa “apreensão súbita ou imediata”. Muitas pessoas desenvolvem a capacidade de fazer tais cálculos através do processo chamado de “agrupamento e contagem”. Por exemplo, se mostramos uma foto com nove pessoas amontoadas ao acaso é mais difícil perceber quantas são do que se elas estiverem divididas em três grupos com três pessoas cada um. Neste último caso, bastam duas subitizações rápidas e sucessivas para sabermos que cada grupo tem três, e que o total é de nove.

Dizem que quando Henry Thoreau trabalhava numa fábrica de lápis ele sempre identificava a quantidade exata de lápis numa caixa sem contá-los. Já vi um depoimento de que algumas pessoas eram capazes de contar 38 ovelhas num rebanho, com uma só olhada à distância. Beremiz Samir, o personagem de O Homem que Calculava de Malba Tahan, levava essa capacidade a extremos surrealistas. Ao ver uma cáfila de camelos e ser perguntado quantos eram, ele dizia algo como: “São 484... Perdão, são 121, eu tinha contado as pernas deles”.

O hábito de contar folhetos de cordel me fez desenvolver um método de subitização baseado no número cinco. Quando a gente tem que saber o total de uma pilha com centenas de folhetos é mais fácil sair pegando de cinco em cinco (o olho calcula e o dedo separa num segundo), e ir contando: “1, 2, 3, 4, 5, 6....” No final basta multiplicar por cinco o total.

Um exemplo curioso diz respeito à capacidade de contar dos corvos (aves mais inteligentes do que a média). Três caçadores entram num local fechado, dois saem; os corvos olham e ficam à distância. Quatro entram, três saem: idem. O limite dos corvos é alcançado quando entram seis caçadores e saem cinco; os corvos pensam que o local está vazio e voam até lá. O limite de sua capacidade de subitização (ou de contagem) é cinco.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

2567) A Game of Thrones (27.5.2011)



A Game of Thrones é uma série que estreou há poucas semanas no canal HBO da TV a cabo, uma fantasia medieval que lembra por um lado os épicos de Conan Doyle (A Companhia Branca, O Escudeiro Heróico), por outro lado tem algo de O Senhor dos Anéis, e por outro, ainda, traz um pouco de um gênero que nada tem a ver propriamente com fantasia ou com Idade Média – o romance de intriga política, em que vários grupos lutam pelo poder. Em geral não assisto séries de TV (não sei como esses meus amigos conseguem trabalhar e assistir House, Lost, Os Sopranos, o escambau, tudo ao mesmo tempo). Desta vez me interessei porque a série se baseia num romance múltiplo de George R. R. Martin, conhecida figura que começou escrevendo ficção científica e depois optou pela fantasia medieval. Martin é um bom escritor, os livros dele foram elogiados por críticos que eu respeito, e isto me motivou a assistir os (até agora) três primeiros episódios.

O foco principal da história é Lord Stark, que governa a parte norte dos Sete Reinos, onde existe uma enorme muralha coberta de neve destinada a impedir a entrada de seres míticos e ameaçadores. O Rei o chama para a capital, para ser seu principal conselheiro. Stark não fica nem um pouco animado com isto, pois já tem problemas demais para administrar em seu próprio castelo. Mas ele é um dos melhores amigos do rei, são antigos companheiros de batalha que se tratam por “você”, e ele sabe que o rei corre perigo, porque há muita gente doida para defenestrá-lo e ocupar seu lugar no trono.

Stark, sua mulher e seus filhos são os personagens em princípio mais simpáticos de uma trama palaciana cheia de conspirações, traições, mentiras, etc. George R. R. Martin escreveu até agora quatro volumes de sua saga, cada um deles na faixa das 800 páginas (já estão sendo traduzidos no Brasil, pela Leya, sob o título geral de “Crônicas de Gelo e Fogo”). Um quinto volume deve ser lançado em julho nos EUA. Há muitos personagens e uma volumosa história prévia que vai sendo revelada aos poucos. É o tipo de história difícil de transpor para cinema ou TV, pois as disputas dinásticas e a política da corte requerem tipicamente longas cenas de diálogos. A direção da série tem se saído bem em exibir todas essas múltiplas linhas narrativas que ser cruzam e se interferem, embora um crítico tenha dito que tentar entender essa história é o mesmo que tentar entender a história política do Oriente Médio.

Game of Thrones tem um pé no fantástico, numa linha narrativa que ainda não foi bem desenvolvida: a anunciada invasão da fronteira norte dos reinos, através da Muralha, por criaturas que todos eles temem e nenhum conhece. Westeros (o nome do continente) é um lugar estranho, onde o inverno pode durar uma geração inteira – uma pessoa nasce, vive, envelhece e morre sem ter visto o sol. Tem bom roteiro, bons atores, e é melhor do que a maioria dos filmes que estão passando nos cinemas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

2566) “A Nuvem de Hoje” (26.5.2011)



Desde que comecei estas colunas diárias no “Jornal da Paraíba” as pessoas passaram a me perguntar quando eu começaria a reuni-las em livro. Até parece que os textos jornalísticos existem não para serem lidos hoje no jornal, mas daqui a anos num livro! De qualquer modo, sempre tomei isso como uma demonstração de otimismo da parte dos meus leitores, e quem sou eu para questionar leitores, principalmente quando eles dizem que gostaram?

Fiz alguns projetos de recolha de textos, e se bem me lembro o primeiro deles, que nunca virou livro, intitulava-se 243 e reunia os 243 textos publicados em 2003, o ano em que começou minha participação no jornal. Não havia seleção – eram todos os artigos daquele ano, por ordem de publicação, encerrando-se com o do dia 31 de dezembro. Razões variadas impediram que essa possível obra-prima viesse à luz. Daí minha iniciativa em chamá-la de possível obra-prima. Uma vez que dorme para sempre no Limbo dos Obscuros, nem o mais pessimista leitor poderá questionar meu julgamento.

Toda esta lenga-lenga é para avisar que agora, sim, saiu a primeira recolha destes artigos em forma de livro, em forma de algo não cai que se posto de pé sobre uma mesa, algo que o vento só leva se estiver levando também as mesas e cadeiras em volta. Devo esta publicação a Cidoval Sousa, diretor da Editora da Universidade Estadual da Paraíba, que me fez a proposta e acatou minha sugestão de que, ao invés de uma edição gigantesca, com centenas de artigos, fosse um livro simples, pequeno, barato, indo direto ao ponto. Um livro que pudesse ser comprado por (olha a redundância!) um estudante liso.

O livro chama-se A Nuvem de Hoje, já teve lançamentos em Boqueirão e Campina Grande, e está sendo lançado em João Pessoa hoje à noite, na livraria do Zarinha Centro de Cultura, à Avenida Nego, 140, Tambaú. O título alude ao fato de que os artigos de jornal são como nuvens, visíveis aos olhos de todo, mas que vão embora depressa. Cada dia o colunista tem a obrigação de produzir uma nuvem para ser vista através da janela do jornal.

Como sabem muitos leitores, todo esses material (mais de 2.500 artigos até agora) está acessível em meu blog Mundo Fantasmo, onde há inclusive a possibilidade de fazer buscas por assunto (com palavras-chave como “Treze”, “campeão”, etc.). O livro, contudo, tem lá as suas conveniências, entre elas a portabilidade, a não-dependência de energia elétrica, etc. Posso aduzir mais uma: a seleção de artigos para um livro cria uma justaposição única de textos, principalmente quando a base de dados é ampla e variada. A Nuvem de Hoje dá maior relevância (por ser um livro pensado para o estudante paraibano) a assuntos que envolvem Campina Grande, a Paraíba, o Nordeste, embora não se limite a isto. Pode se tornar (e aí depende do uso que dele for feito) um útil livro paradidático para discutir os assuntos da nossa terra. Se isto acontecer, considero-me pago.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

2565) A escola na retaguarda (25..5.2011)



A indústria cultural ultrapassou a escola, nas últimas décadas, como instrumento formatador das mentes de crianças e adolescentes. Existe um cabo-de-guerra permanente entre pais e filhos com relação ao tempo de estudo e tempo de lazer. A garotada passa cinco horas na escola; quando volta, quer jogar videogame ou ver televisão. Os pais insistem para que eles vão fazer os deveres, vão estudar, e os guris esperneiam: “Pô, passei a manhã inteira na escola, chego em casa vou ter que estudar de novo?!”. Assim que conseguem, correm para a TV ou o PlayStation e entram numa frenética atividade mental. Se pudéssemos botar em nossos filhos um capacete de eletroencefalograma-em-tempo-real, veríamos que nas duas ou três horas em que passam jogando “Fallout” produzem a mesma quantidade de energia mental dispendida em 150 horas estudando matemática.

Eliminar os aspectos negativos da indústria cultural é uma missão impossível, pois seria preciso bloquear sua sequiosidade vampírica pelo lucro, ou seja, seria preciso negar sua própria natureza, sua própria razão de ser. O símbolo da indústria cultural poderia ser o Fabricante de Jujubas. Ele sabe que a jujuba não alimenta coisa nenhuma, não traz nenhum bem ao organismo, em grandes quantidades pode até fazer mal; mas jujuba é o que ele sabe fabricar... Sendo assim, pau na máquina e jujuba no mundo. Quando alguém o questiona, ele diz: “Mas o povo gosta!” A indústria cultural é uma gruta-de-ali-babá com milhões de jujubas alimentares, televisivas, recreativas, tóxicas, o escambau. Cada um fabrica uma jujuba diferente e nega ser responsável por qualquer problema; se alguma jujuba está fazendo mal, é a do vizinho, não a dele.

Tanto a escola tradicional quanto a indústria cultural têm aspectos positivos e negativos. O difícil é juntar os aspectos positivos dos dois e eliminar os negativos. Existe um pensamento generalizado de que a escola, do jeito que é, segura cada vez menos a atenção e o interesse da meninada. O lazer gratuito (eletrônico) é cada vez mais abundante. As aulas são chatas (giz... quadro-negro...). As matérias são consideradas incompreensíveis ou irrelevantes. Os professores dão as mesmas aulas, ano após ano, com estoicismo, com resignação, em busca da sensação (que nem sempre lhes chega) de que cumpriram com o seu dever. Ganham uma merreca; se perderem o vislumbre do idealismo, de que estão formando os jovens do futuro, o que lhes resta? É difícil eliminar os aspectos negativos da escola tradicional porque eles se referem principalmente a pilares estruturais como conteúdos, legislação, metodologia, composição curricular, reorganização do tempo e do espaço físico, etc., e mexer nisso corre o risco de derrubar o edifício inteiro.

Como dizia Bob Dylan: “É um mundo engraçado, este que está surgindo; parece doente e faminto, parece cansado e andrajoso. Dá a impressão de que está morrendo, mas mal acabou de nascer”. Vai ver que é isso mesmo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

2564) Bob Dylan, 70 anos (24.5.2011)




Quem não está cuidando de nascer é porque está ocupado em morrer. (It’s All Right, Ma, 1965). 

Todos os meus amigos leais, companheiros queridos, todos me aprovam e compartilham minhas leis. Eu pratico uma fé abandonada há muito tempo, e não existem altares nesta estrada longa e solitária. (Ain’t Talking, 2006). 

Você vive tentando me mudar desde que a gente se conheceu; se não aguenta os meus defeitos, me esqueça. Me aceite como eu sou, ou me deixe ir embora. (Take Me As I Am, 1970). 

Você está parado junto às águas e arremessa o seu pão, enquanto reluzem os olhos do ídolo com cabeça de ferro. Navios distantes singram por entre a névoa. Você nasceu agarrando uma serpente em cada punho, por entre o sopro de um furacão. (Jokerman, 1983). 

Meu amor é como um corvo, pousado em minha janela, com uma asa partida. (Love Minus Zero: No Limit, 1965).

Vocês criaram o pior dos medos que se pode produzir: o medo de trazer crianças para este mundo. Vocês ameaçam minha criança que ainda não nasceu e não tem nome, e não são dignos do sangue que corre em suas veias. (Masters of War, 1963). 

Eu sei por que motivo você fala de mim pelas costas: eu já andei no meio dessa turma com quem você anda agora. (Positively 4th Street, 1965) 

Você pode ser embaixador inglês ou francês, pode ser jogador, dançarino, campeão mundial dos pesos-pesados, pode ser uma socialite coberta de pérolas: mas você tem que servir alguém. Pode ser Deus ou pode ser o Diabo, mas você tem que servir alguém. (Gotta Serve Somebody, 1979). 

Todo dia sua lembrança fica esmaecida, e não me assombra mais como antes. Vou caminhando pelo meio do nada, tentando chegar no Céu antes que eles fechem a porta. (Trying To Get To Heaven, 1997). 

De repente eu me virei e ela estava ali, com braceletes nos pulsos e flores no cabelo. Veio devagar, e tirou minha coroa de espinhos, e disse: “Venha, eu lhe darei abrigo na tempestade”. (Shelter From The Storm, 1974).

Os reinos da Experiência apodrecem nos ventos preciosos, enquanto os miseráveis trocam o que possuem, cada um invejando o que o outro conseguiu. Enquanto isto, o Príncipe e a Princesa discutem o que é real e o que não é; e isto não tem importância dentro dos Portões do Éden. (Gates of Eden, 1965). 

A água está subindo, um palmo acima da minha cabeça. “Não estenda a mão pra mim,” disse ela, “não vê que eu também estou me afogando?”. E a água sobe por todo lado. (High Water – For Charlie Patton, 2001). 

Confie em você mesmo, e não se decepcionará quando for enganado. Confie em você mesmo, e não procure respostas onde não há. Se está procurando alguém em quem confiar, confie em você mesmo. (Trust Yourself, 1985). 

O mundo está adormecido enquanto eu olho para eles e choro. Há tão poucas coisas que valem mesmo a pena. E embora eu peça tão pouco, tão poucas coisas materiais para tocar, eu peço: Senhor, protege os meus filhos. (Lord Protect My Child, 1983).




domingo, 22 de maio de 2011

2563) Os Gafanhotos do Forró (22.5.2011)



(The Locusts, de Mary Boxley Bullington)

Eles não gostam de forró, não gostam de música. A única música que lhes faz bem aos ouvidos é o tilintar de uma caixa registradora. Entraram no ramo musical em busca de uma massa consumidora fácil de mobilizar, com intensa divulgação boca-a-boca (gratuita, portanto), e a simpatia imediata de todos os que sobrevivem da própria capacidade de mobilizar multidões: políticos, agências de publicidade, etc. Música feita para 500 pessoas não lhes interessa. É um investimento desproporcional de tempo, para faturar pouco dinheiro. Só lhes interessa lidar com públicos de 5 mil para cima.

Os Gafanhotos do Forró querem colocar no palco algo que tenha resposta imediata. O povo gosta de ver mulher pelada? Vamos colocar mulheres nos mais diferentes graus de peladice, uma vez que nuas mesmo não pode ser. Saia curta, malha cor da pele, calcinha de fora, calcinha jogada para a platéia. O povo gosta de pornografia? Vamos fazer letras chamando palavrões, falando de sexo o tempo inteiro. O povo gosta de ridicularizar o vizinho? Beleza, vamos fazer músicas ofendendo todo tipo de pessoa, assim qualquer ouvinte escolhe a música que dá certo com a pessoa que ele quer ridicularizar (e o outro faz o mesmo com ele, claro).

O povo gosta de dançar. Mas como dançar forró não é para qualquer um, usa-se aquele ritmo que é uma diluição de elementos do próprio forró, da lambada, do carimbó, da salsa. Adaptam-se, da gafieira e de outras danças de salão, passos simples que qualquer dançarina principiante consegue reproduzir no palco com alguns dias de treino, dando às moças da multidão lá embaixo a sensação de que elas também conseguem reproduzir. Na verdade, nem precisa que as mulheres da platéia dancem tão bem quanto as do palco: basta que estejam de saia bem curtinha e calcinha de fora. O que é mais fácil de conseguir do que saber dançar.

Os Gafanhotos do Forró abordam candidatos a prefeito em 5 mil cidades do interior. Comprometem-se a fazer “x” shows de graça na campanha do candidato, com a condição de que, se eleito, ele contratará “x” shows dos Gafanhotos do Forró durante todos os anos de sua gestão. Além do mais, o pagamento do cachê dos Gafanhotos é sempre em dinheiro vivo, de modo que parte dele pode ficar na mão de quem faz o pagamento, e uma mão lava a outra.

Os Gafanhotos do Forró combatem, a ferro e fogo, o forró que tocava nas festas juninas de alguns anos atrás, o forró de Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, etc. Não porque tenham medo de sua concorrência. Combatem o forró porque todo impostor que rouba os documentos, a aparência e a identidade de uma pessoa real só descansará quando essa pessoa estiver morta, e não possa ser vista em lugar nenhum. Enquanto o forró existir, estiver vivo e for tocado, os Gafanhotos do Forró não poderão dormir tranquilos uma só noite, não poderão gastar tranquilos um só centavo dos seus milhões.

sábado, 21 de maio de 2011

2562) “Sete tipos de ambiguidade” (21.5.2011)




Certa tarde, um casal chega a uma livraria e desce ao porão, onde há estantes cheias de coleções encadernadas. Ali, só um velho funcionário à mesa, e um adolescente folheando um livro caro, que ele não tem dinheiro para comprar, e que o velho lhe cede para ler, algumas páginas por dia.

O velho atende o casal; o homem explica que veio comprar uma grande quantidade de livros. Que livros?, pergunta o velho. Ele hesita e acaba lembrando o nome de um autor: “Charles Dickens! Já li alguma coisa dele e gostei”.

Diz ao velho que gosta de livros, mas trabalha desde a infância, nunca teve tempo para ler. Agora está bem de vida, tem dinheiro, e acha que precisa botar a leitura em dia. Comprou uma estante e botou na sala. Quer as obras completas de Dickens e... não consegue lembrar nenhum outro autor.

O velho pede ao adolescente (que é freguês da livraria, conhece tudo ali) que ajude o cavalheiro. O garoto, feliz de poder ajudar, começa a dar palpites: “O sr. gosta de Dickens? Pois leve esse cara aqui: George Meredith! Muito bom!”. A esposa do cara lembra um livro que gostou: Jane Eyre. O rapaz mostra ao cliente as obras completas das irmãs Bronte.

O homem manuseia, elogia as encadernações. Diz que quer levar muitos livros, pois acabou comprando uma estante enorme e tem que enchê-la toda. Vai separando coleções: Mark Twain, Thackeray, Jane Austen...

No final pergunta ao adolescente que livro era aquele que ele lia. O rapaz: “Sete Tipos de Ambiguidade, de William Empson. Um livro de filosofia, muito bom! Mas custa muito caro, não posso comprar”.

O garoto se despede, vai embora. O homem manda o velho empilhar as coleções que escolheu, dezenas de livros. Na hora de pagar, pede para ver o livro que o rapaz lia. O velho mostra. Ele diz: “Será que o garoto vai ter dinheiro para comprar esse livro?” O velho: “Não, não vai poder, é uma edição cara”. O cara diz: “Nesse caso, levo esse também.” Paga, vai embora com a esposa e o conto acaba aí.

É um conto de Shirley Jackson (publicado em 1948) e eu acabei de lê-lo agora, com um calafrio final de terror. Vejam o que é a literatura. Se fosse um conto meu, o cara comprava o livro ao velho e deixava de presente para o rapaz, como incentivo. O conto teria uma mensagem humanista e todo mundo ficaria feliz, principalmente eu mesmo.

Mas Shirley Jackson me jogou num universo paralelo de terror, onde os monstros são criaturas que nunca leram, nunca puderam ler, tiveram que se matar de trabalhar desde cedo. Quando querem ler, não adianta: estão ricos e vazios. Gastam tudo quanto têm para tapar esse vazio, com livros que não lerão porque é tarde demais.

A história é norte-americana mas me jogou num Brasil de gente pobre que não consegue ler porque só trabalha, trabalha. E quando um desses, que enriqueceu trabalhando, é capaz de comprar livrarias inteiras, não é capaz de ler um livro. Não é capaz sequer de perceber a existência de uma pessoa que está ali, do seu lado.




sexta-feira, 20 de maio de 2011

2561) As notícia tão errada (20.5.2011)



(Mário de Andrade, por Baptistão)

Tem causado polêmica o livro Por uma vida melhor de Heloísa Ramos, Ed. Global, em que supostamente o MEC estaria ajudando a destruir a língua portuguesa e prejudicando a alfabetização das crianças. É a campanha política de sempre, procurando más intenções nas menores coisas feitas pelo Governo. Acho um absurdo manchetes ou chamadas tipo “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”. Não é isso, absolutamente. O livro, pelo que vi, faz o que eu faço nestas minhas colunas: defender a fala informal, coloquial, como uma maneira paralela de usar a língua, que pode muito bem conviver com a Norma Culta. Mas eu acho que todos lucraríamos se o enfoque político, mero pretexto para “meter o pau no Governo”, fosse substituído por um enfoque voltado para a língua portuguesa, que é o que está em questão. Eu critico todo Governo, mas neste caso os dois lados merecem críticas.

Diz a autora do livro: "O importante é chamar a atenção para o fato de que a ideia de correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa". Concordo com isto, menos num detalhe, a expressão “substituída”. Não podemos perder a idéia de correto e incorreto, porque existem coisas que são flagrantemente incorretas. E não se pode dar a ninguém a impressão de que a Norma Culta da língua (que também defendo, consistentemente, nesta coluna) não serve para nada, e pode ser substituída pela norma coloquial, ao gosto do falante. (O livro não defende isto, claro. Mas os termos que usa abrem espaço para que alguém o acuse disto.)

Cada um fala do jeito que lhe apraz. Eu digo o tempo todo coisas como: “As pessoa pensa que a Gramática é um bicho de sete cabeça”. É assim que eu pronuncio as palavras quando estou falando, resíduo plebeu de quem foi criado em rua sem calçamento. Mas se eu for escrevê-las vou escrever como Camões escreveria, resíduo elitista de quem foi criado em casa com biblioteca. A não ser que eu esteja escrevendo, num romance ou numa peça, um diálogo de um personagem que fala assim. Então, tenho que escrever assim.

O livro tem a boa intenção de diminuir o enorme sentimento de culpa, de inadequação, de complexo de inferioridade, em milhões de alunos pobres que são escarnecidos diante da turma por terem escrito ou pronunciado uma palavra da única maneira que aprenderam, e que não é a da Norma Culta. O “preconceito linguístico” existe, e existe forte. Nosso dever é legitimar as falas coloquiais, regionais, etc., sem dar a impressão de que se está dispensando o ensino, o estudo e a prática da Norma Culta. A Norma Culta é a âncora da língua, que a mantém firme no centro de uma consciência coletiva e compartilhada. A Norma Culta evita que ela se estilhace em milhares de falares regionais ou, pior ainda, em milhões de indivíduos falando uma língua pessoal que só eles entendem.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

2560) Estatísticas (19.5.2011)




Até que ponto podemos nos deixar induzir pelas estatísticas? Elas são um tremendo instrumento para análise, e ao mesmo tempo uma tremenda viseira, filtro, que só permite ver um tipo de coisa. 

Uma piada famosa diz que as estatísticas são como os biquínis: o que mostram é interessante, mas o que escondem é mais interessante ainda. 

Outra piada diz que três amigos saíram para caçar: um médico, um advogado e um estatístico. Um pato selvagem levantou voo. O médico atirou à esquerda e errou, o advogado atirou à direita e errou, e o estatístico gritou: “Acertamos!”.

Estatísticas têm um papel decisivo nas pesquisas de opinião, que decidem desde campanhas publicitárias de detergente até eleição do Presidente da República. Uma crítica que faço às estatísticas é que seu excesso de precisão mascara sua eventual irrelevância. O maior exemplo é o vício das estatísticas por computador que toma conta das transmissões de futebol. O jogador Fulano percorreu 4,5 km, o chute de Sicrano ia a 97 km por hora, o time tal é o que fez mais gols entre os 20 e 45 minutos do 2o. tempo... 

Isso ajuda o técnico, ajuda o adversário? Pode ajudar, remotamente. Mas precisa ser um técnico de muito bom senso para filtrar dessa emaranhado de números algo que seja útil do ponto de vista prático. E que possa ser posto em prática pelos brucutus ao seu dispor.

Existem exemplos curiosos de como as estatísticas moldam nosso modo de pensar. Os psicólogos costumam empregar o termo “efeito Lake Wobegon”, numa referência a uma cidade fictícia criada por Garrison Keillor, na qual “todas as mulheres são fortes, todos os homens têm boa aparência e todas as crianças são acima da média”. 

Algumas pesquisas nos EUA indicaram que 63% dos norte-americanos se consideram mais inteligentes do que a média da população, o que é uma impossibilidade estatística; numa pesquisa semelhante no Canadá, 70% dos entrevistados se consideram mais espertos do que o canadense médio.

O modo como as perguntas são feitas, é claro, faz essas percentagens mudarem dramaticamente. Lembro de um livro de Theodore Sturgeon (Venus Plus X) em que ele cita uma pesquisa feita nos EUA, em que a certa altura foi perguntado se todos os homens eram iguais, e 61% responderam que sim. Logo em seguida perguntaram se os negros são iguais aos brancos, e 4% disseram que sim. 

Aparentemente este exemplo comprova o quanto os norte-americanos são preconceituosos. Para mim, ao contrário, prova o quanto é fácil provar algo formulando as perguntas de certa maneira. A primeira pergunta é tão ampla que tem um sentido generalizante, filosófico. Ao respondê-la, pensamos no que a Constituição diz, abstratamente, sobre igualdades. 

Na segunda pergunta, o dado concreto (cor, aparência física) é jogado de maneira tão brusca que eu mesmo responderia que “não”. É como se me perguntassem: Os gordos são iguais aos magros? Os futebolistas são iguais aos astrônomos?





quarta-feira, 18 de maio de 2011

2559) “O Fantasma de Canterville” (18.5.2011)



Poucas histórias de fantasmas serão tão emblemáticas quanto esta noveleta de Oscar Wilde, de 1887, que hoje é um clássico da literatura infantil. Foi adaptada várias vezes para o cinema, várias vezes traduzida no Brasil. É a história de uma família norte-americana que compra Canterville Chase, uma tradicional propriedade rural inglesa, e ao se mudar para lá recebe o aviso de que a casa é mal-assombrada. A família é pragmática e materialista, não acredita no Fantasma, e, quando este aparece, não lhe dá muita importância. A partir dessa primeira aparição o Fantasma passa a ser o ponto de vista narrativo, e vemos sua decepção e perplexidade diante daquelas pessoas que não o temem, e daquelas crianças capazes de qualquer coisa para infernizar sua vida: há um par de gêmeos que lembram Hans & Fritz, os “Sobrinhos do Capitão” dos quadrinhos.

Wilde cria uma historieta divertida mostrando o desespero do pobre Fantasma que não assusta ninguém. Os jovens e saudáveis norte-americanos não o levam a sério em momento algum, por mais que ele recorra a todos os seus truques, caracterizações, efeitos especiais. O autor fica numa posição “triangular”, mostrando à distância os dois lados da história, satirizando ambos, mas com um bom humor juvenil que talvez tenha se diluído à medida que ele foi cristalizando a “persona” cínica que o tornou famoso em Londres.

O livro de Wilde foi mais um golpe pesado na literatura gótica de velhos castelos, noites tempestuosas, maldições seculares, tragédias de famílias nobres, espectros penitentes que imploram perdão ou vingança. Surgindo no século 18, cem anos depois esse tipo de romance já merecia sátiras e paródias variadas. No século 20, os fantasmas bonzinhos acabaram se transformando num clichê tão consagrado quanto os fantasmas ameaçadores. A “sacada” de Wilde foi de que seria engraçada uma situação em que as pessoas incrédulas vissem, sim, o fantasma, mas isso não tivesse o menor efeito sobre elas. Pelo contrário: os adultos tentam ajudá-lo (dão-lhe óleo para lubrificar as correntes, que rangem muito) e as crianças pregam-lhe peças terríveis. No fim do livro, a filha da família Otis, Virginia, torna-se amiga do fantasma e ajuda a libertar sua alma.

O fantasma do livro é Sir Simon de Canterville, que em 1565 assassinou a própria esposa. O que acaba parecendo uma premonição do poema mais famoso de Wilde, a “Balada do Cárcere de Reading”, escrito dez anos depois, em 1897, onde estão os famosos versos: “Pois todo homem mata a coisa que ama, / e cada um que escute bem: / alguns o fazem com um olhar amargo / outros com uma palavra de elogio / o covarde o faz com um beijo / e o homem valente com uma espada”. Por ter morto a esposa, Sir Simon tem que passar 300 anos vagando pelos corredores da mansão, até ser desmoralizado pela incredulidade dos norte-americanos e ser libertado pela compaixão da garota, a primeira que é capaz de perdoá-lo.