quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

2476) O moído de Kafka (10.2.2011)



Podemos defender, sem susto, a tese de que foi Franz Kafka o autor europeu mais emblemático do século 20, aquele que fez uma obra mais afinada com o diapasão do século. (Tolstoi ou Balzac seriam candidatos possíveis ao posto equivalente para o século 19.) No momento, o mundo literário acompanha uma polêmica meio kafkeana, envolvendo o destino de uma enorme quantidade de manuscritos e papéis deixados por Kafka (cerca de “vinte metros de pastas”) que estão em Tel Aviv. A história é complicada. Antes de morrer, Kafka pediu a seu grande amigo Max Brod que queimasse seus papéis. Brod retorquiu que jamais faria isso, e não o fez. Além de publicar os principais livros do amigo (O Processo, O Castelo, América) ele fugiu para a Palestina em 1939, e levou consigo tudo o que podia, pouco antes dos nazistas fecharem a fronteira tcheca. Graças a isso, os papéis de Kafka não foram destruídos.

Mas é como se tivessem sido. Brod os preservou com fidelidade e avareza. Ao morrer, deixou-os em poder de sua secretária, Esther Hoffe, que também os guardou com mão de ferro. Esther morreu em 2007, aos 101 anos, deixando o espólio para suas filhas Eva e Ruth, ambas hoje na casa dos 70 anos. E é neste ponto que a história empanca, porque as duas não chegam a um acordo sobre o que fazer com os papéis de Kafka. (Embora o manuscrito original de O Processo já tenha sido vendido para a Alemanha por quase 2 milhões de dólares). Corre na justiça israelense um kafkeano processo envolvendo inúmeros interessados e incontáveis advogados. Os documentos são contraditórios, especialmente os de Max Brod, que também teria deixado uma outra carta doando o material de Kafka para instituições culturais de Israel.

Enquanto o imbróglio jurídico não se esclarece, em 2010 foi possível pelo menos fazer um primeiro inventário. Fala-se de cadernetas e mais cadernetas de anotações e diários, manuscritos de textos já publicados, numerosas cartas (de e para Kafka), além de manuscritos do próprio Max Brod, que também teve uma farta produção literária, ainda que menor importância. Fala-se também numa primeira edição do livro de Tristan Tzara Première Aventure Céleste de M. Antipyrine, um clássico do Dadaísmo, com dedicatória do autor para Kafka. (Este ruído que vocês ouvem é de algumas dezenas de milionários, impacientes, esfregando as mãos na porta da Sotheby’s.)

O material está sendo inventariado, e quem quiser saber mais leia este artigo de Elif Batuman (http://tinyurl.com/2cnhm9u), cheio de detalhes pitorescos, inclusive ao descrever a excentricidade das irmãs Hoffe – uma delas vive num apartamento em Tel Aviv com mais de cem gatos, que dormem sobre os manuscritos do autor de “Investigações de um Cachorro”. Batuman afirma que nos últimos 14 anos foi publicado um livro a respeito de Kafka a cada dez dias. O autor tcheco morreu em 1924, e é espantoso imaginar que uma parte considerável dos seus escritos ainda está inédita.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

2475) “Método Prático da Guerrilha” (9.2.2011)



A guerrilha latino-americana já teve um charme, para os jovens, que os jovens de hoje são incapazes de compreender. Em primeiro lugar, naquele tempo havia um consenso difuso de que terroristas e guerrilheiros (considerados a mesma coisa) eram pessoas “do Bem”. Eram sujeitos idealistas, capazes de dar a própria vida para combater as injustiças sociais. Como vivíamos numa ditadura, tínhamos (nós, adolescentes naquela época) a noção de que a única opção moralmente correta era ficar a favor dos inimigos da ditadura (e tínhamos razão). E havia o aspecto literário. A guerrilha era excitante, era perpassada de aventura, de romantismo. Era uma conjugação perigosa entre doutrinação marxista e aquela valentia meio suicida desses caras que fazem Camel Trophy ou Rally dos Sertões. E nós, pobres nerds cheios de óculos e de espinhas, tínhamos uma inveja permanente desses sujeitos que, além de assumirem a tarefa de mudar o mundo, não tinham medo de levar tiro.

A guerrilha venceu em Cuba, talvez porque o regime de Fulgêncio Batista já estivesse mesmo caindo de podre; talvez até uma passeata de seminaristas o tivesse derrubado. Mas a vitória de Fidel Castro e Che Guevara alastrou uma fogueira de pequenas guerrilhas mundo afora. Infelizmente, Guevara estava para a Revolução assim como Orson Welles estava para o cinema: estreou com seu maior triunfo, e daí em diante foi uma “pisa” depois da outra. O romance Método Prático da Guerrilha de Marcelo Ferroni (Companhia das Letras, 2010) faz uma reconstituição da última aventura do Che, na Bolívia, onde acabou assassinado.

Se a juventude de algum país começar a ter sonhos guerrilheiros, acho que basta ao Governo distribuir milhares de cópias deste livro para dissuadi-los. Não pode haver retrato mais trágico e patético do que a descrição do Exército Brancaleone chefiado pelo Che na selva boliviana. Dezenas de homens esquálidos, desnutridos, esfarrapados, brigando o tempo todo entre si, assaltando as choupanas de camponeses famintos, vítimas de diarréias permanentes, emboscando soldados tão inexperientes quanto eles próprios, travando combates caóticos, e sendo dizimados “pelas beiras”, pouco a pouco, a cada confronto. Li em 1971 o diário Che Guevara na Bolívia (uma edição brasileira provavelmente clandestina), e fiquei com uma idéia meio depressiva sobre o que significava ser guerrilheiro. O livro de Marcelo Ferroni, escrito quase todo num presente do indicativo seco, factual, distanciado, faz parecer juvenis e românticos textos como Bar Don Juan de Antonio Callado ou Reunião de Julio Cortázar.

É difícil separar o café do leite, saber o que é fato pesquisado (o autor refere-se indiretamente, sem maiores detalhes, a relatórios militares, biografias, memórias dos guerrilheiros) e o que é a inevitável invenção ficcional de personagens, peripécias, emoções, diálogos. É a história cruel de alguém que acorda de um sonho e descobre que está num pesadelo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

2474) “Tio Boonmee” (8.2.2011)



Este filme tailandês em cartaz no Rio tem como título Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, e ganhou a Palma de Ouro em Cannes.. Se você acha o título difícil de memorizar, console-se pensando que o diretor se chama Apichatpong Weerasethakul. É um diretor “cult” do momento; não vi nenhum dos seus outros filmes, mas este é belamente narrado e fotografado, mesmo com uma relativa precariedade técnica. Apichatpong (que os críticos dos EUA, para simplificar, chamam de “Joe”) gosta de planos longos em que as coisas acontecem com seu próprio tempo, como se não soubessem que diante delas está uma sala escura cheia de poltronas onde pessoas impacientes esperam que aconteça alguma coisa. A cena inicial, ao amanhecer, mostra, numa baixada coberta de mato, um animal (uma vaca?) se desamarrando da árvore, fugindo, e sendo trazido de volta por um homem. Isto dura alguns minutos, com silêncio e cantar de grilos, e me fez sentir que aquela baixada era mais real do que a sala onde eu estava sentado. Cenas de filme podem nos dar duas sensações (ambas esteticamente legítimas): a de uma história que está sendo contada ou a de uma coisa que está acontecendo. No filme de “Joe” predomina a segunda. Ele sabe, para usar a expressão de Tarkovsky, “esculpir o tempo”.

Tio Boonmee fala da zona-de-sombra entre este mundo e o outro, e mostra os últimos dias de vida de um homem com um grave problema renal, que quer fazer as pazes com suas lembranças e sua família. Aparecem fantasmas e criaturas estranhas, gerando um clima meio David Lynch, pelo impacto do surgimento do fantástico, sem preparação dramatúrgica, numa narrativa que parecia estar se encaminhando de outra forma. Comparar um diretor novo com diretores velhos é um passatempo da crítica, talvez porque o cinema é como a culinária. Não é só o modo de preparar que conta, mas cada artista usa ingredientes que, mesmo sendo da Natureza, parecem seus. Quando os reencontramos na obra de outro é que percebemos que nada na arte pertence ao artista, tudo pertence à Memória Prima que nos faz fazer filmes e assisti-los.

Há uma cena calmamente bela em que uma princesa, junto a uma cachoeira, lamenta a juventude perdida e depois tem relações sexuais com um peixe. Contada assim parece uma bobagem, mas é um episódio (que pode corresponder a uma das “vidas passadas” do Tio Boonmee) que quebra o fluxo da história principal e a eleva a um estágio superior de significado. Outra sequência surpreendente é o sonho de Boonmee, de ir a um mundo do futuro em que os visitantes do passado são localizados, têm sua imagem projetada através de lanternas e com isto deixam de existir. Parece uma alegoria sobre a fotografia e a televisão (que aparecem reiteradamente no filme), além do próprio cinema. As pessoas morrem e deixam atrás de si imagens, fantasmas translúcidos; e a contemplação desses fantasmas é um dos passatempos mais importantes dos vivos, dos feitos de carne e osso.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

2473) Perdidos na Bienal (6.2.2011)




O estudo da Patologia Topológica vem enfrentando preconceitos dentro da comunidade científica internacional. Como toda ciência nova, ela lida mais com perguntas e incertezas do que com verdades chanceladas pelo uso e pela experimentação controlada. Daí ser considerada por uns uma pseudo-ciência e por outros um delírio paranóico. 

A Física contemporânea, por exemplo, estuda o que a literatura popular chama de fendas no espaço-tempo, fissuras no tecido no Universo. Sua existência em escala macro já foi comprovada – são os famosos “buracos de minhoca” nos quais uma partícula física entra, e sai, quase instantaneamente, noutro local, a milhares de quilômetros ou milhões de anos-luz. 

O que a Patologia Topológica estuda é a existência deste fenômeno na escala humana. Muitos desaparecimentos famosos, acidentes, fatos extraordinários, podem ser explicados pela ocorrência de fendas desse tipo. Passagens, portais, configurações tão extraordinárias que dentro do seu âmbito as leis que governam a matéria se comportam de forma diferente. 

Estuda-se, por exemplo, o caso da instalação pós-modernista “Klax”, do artista indiano Raman Sendjabi. Influenciado (segundo ele próprio) pelos parangolés do brasileiro Hélio Oiticica, Sendjabi criou um labirinto de placas de amianto e isopor, no qual os participantes eram convidados a entrar e experimentar, segundo ele, “sensações temporárias de perda da referencialidade espaçotemporal”. 

A obra foi exposta na Bienal da Lausanne em 2002 e causou escândalo pelo desaparecimento de seis pessoas, inclusive duas crianças, que entraram ali e não saíram; depois de horas de espera, e sob protestos do artista, a obra foi desmontada diante da polícia e dos curadores da exposição, mas sem sinal das pessoas. 

No ano seguinte, 2003, Sendjabi (processado pelas famílias dos desaparecidos) conseguiu uma liminar para remontar sua instalação na Bienal de Cracóvia. Qual não foi a surpresa de todos quando, no dia de abertura, emergiram da obra quatro dos desaparecidos, todos levemente desnutridos e anêmicos, mas em boas condições físicas. Foram incapazes de explicar e mesmo de entender o que se passara; com amnésia parcial, não faziam ideia de que tinham estado desaparecidos por cerca de um ano. 

Novo escândalo forçou a desmontagem da obra e novo processo movido contra Sendjabi. Em 2004, sob forte cobertura da imprensa, “Klax” foi remontada na Bienal de Osaka, e embora ninguém se atrevesse a penetrar em seu labirinto, logo emergiu dali a secretária suíça Michelle Lamproix, igualmente amnésica e desnorteada. Para ela, pouco mais de meia hora tinha transcorrido desde sua entrada no labirinto, dois anos antes. 

A última pessoa desaparecida era um taxista de Lausanne, de 22 anos, Jean-Marc Desmolieu. Na Bienal da São Paulo de 2010, quando “Klax” foi reexposta, ele não apareceu, mas jogou para fora do labirinto o manuscrito de um texto sobre arte pós-moderna, que está sendo decifrado pelos especialistas.







sábado, 5 de fevereiro de 2011

2472) Os polícias e os bandidos (5.2.2011)




O romance O Homem Duplo (“A Scanner Darkly”) de Philip K. Dick conta a história de Fred, um agente da polícia de Los Angeles, encarregado de vigiar um tal de Bob, dono de uma casa cheia de malucos que passam o dia tomando drogas alucinatórias. 

As drogas são tão pesadas que Bob não sabe que ele e Fred são a mesma pessoa. Toda vez que sai de casa, ele vai à polícia, veste uma roupa de camuflagem eletrônica (que projeta imagens falsas de seu rosto e de seu corpo) e volta àquele quarteirão, desta vez na pele do Agente Fred, para vigiar a própria casa onde mora – só que ele não sabe disso, porque agora é Fred, e pensa que Bob é outra pessoa.

O dilema esquizofrênico entre o Bem e o Mal, a Lei e o Crime, o Sistema e a Revolução, etc., é um subtema constante na literatura do nosso tempo, porque sabemos que não faz muita diferença pertencer a um ou a outra. 

Lembro de um conto de pacto-com-o-Diabo: um sujeito recebe de noite a visita de Lúcifer, que lhe oferece a vida eterna em troca de sua alma. O sujeito, que nunca tinha ligado a mínima para religião, se apavora, manda o Diabo pro inferno e corre até a igreja mais próxima para se aconselhar. 

O padre ouve a história dele e propõe batizá-lo e dar-lhe a comunhão. “Para que?”, pergunta ele. “Ora,” diz o padre, “porque, desse modo, quando você morrer sua alma vai para o Céu e viverá lá eternamente, junto de Deus”. O cara protesta: “Muito bonito! Então todos dois estão me propondo o mesmo negócio?!”

Sim. O Bem e o Mal, a Lei e o Crime, etc etc., são a mão direita e a mão esquerda do charlatão cósmico que nos propõe um só negócio: ser o nosso dono. 

Quem leu o 1984 de Orwell deve lembrar que o protagonista, Winston, é recrutado para agir numa célula subversiva coordenada por um tal de O’Brien. Quando ele se entrega totalmente a essa atividade libertária, fica sabendo que O’Brien era um agente do governo cuja função era atrair gente insatisfeita para falsas células subversivas, e prendê-los todos de uma vez só.

Não é muito diferente da situação básica de outro clássico do humor negro britânico, O Homem que era Quinta-Feira de G. K. Chesterton, em que o personagem é um policial disfarçado que se filia a uma organização subversiva, com a intenção de desmascarar e prender todos os participantes, e com o passar do tempo começa a perceber que todos os outros são policiais infiltrados, como ele. Nenhum é subversivo.

Chesterton publicou esse livro em 1908. Nessa mesma época, segundo Marshall Berman (Tudo que é Sólido Desmancha no Ar) havia na Rússia grupos terroristas que eram, sem o saber, controlados pelo Ministério do Interior. O chefe de um desses bandos, Evni Azev, acabou coordenando o assassinato do seu próprio empregador, o Ministro do Interior, Viacheslav von Plehve. 

Chesterton, Dick e Orwell não eram profetas nem visionários. Eram apenas sujeitos que conheciam a tendência do Charlatão Cósmico para o humor negro.






sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

2471) O mistério Krapotkin (4.2.2011)



“A semelhança eufônica com o nome do famoso anarquista poderia explicar, em parte, o relativo ostracismo a que o escritor russo-brasileiro Krapotkin foi estranhamente relegado", comentou o crítico J. Silveira sobre o fato de que até o Google localiza com dificuldade as (poucas) páginas dedicadas ao excêntrico romancista. Criador de uma Oulipo “avant la lettre”, e várias vezes comparado a Borges (cuja obra aparentava desconhecer ou desdenhar), ele não tem relação com Piotr Kropotkin (1842-1921), reverenciado por anarquistas e libertários do mundo inteiro, principalmente entre os jovens (ainda hoje, em manifestações contra o G-8, em Davos ou em qualquer parte, veem-se jovens “punk” com cabelo moicano azul empunhando posters do barbudo e atarracado pensador russo). Já o escritor, Nikolai Krapotkin (1916-1995), teve a possível má sorte de emigrar em 1945 para o Brasil, onde produziu sua obra e onde se enterrou para sempre no âmbar translúcido da nossa língua, que se tornou para ele, como para tantos outros, “esplendor e sepultura”.

“Há um poço subterrâneo, de trajeto caligráfico, ligando Rússia e Brasil”, escreveu Krapotkin num artigo publicado em 1961 na Revista do Livro, “uma corrente de energia psíquica entre territórios tão apartados e distintos; ela produz a mesma crispação cósmica arrebatando o intelecto, a mesma fascinação com a clareza da álgebra e com as sombras do incognoscível”. Krapotkin publicou aqui Ouroboros (1965), Mardi Gras (1972), O Livro dos Jogos (1978) e o póstumo (inacabado) O Livro das Superstições (2011). Seu roteiro de ficção científica O Livro Invisível (não filmado, publicado em 1990) só pode ser chamado de FC, segundo um crítico, “no sentido em que Alice in Wonderland pode ser chamado de literatura infantil”.

Krapotkin era um escritor fora-de-esquadro (a seu respeito, ver: http://tinyurl.com/4nf5f28). Com notória facilidade para idiomas (escrevia nas principais línguas européias), utilizava de modo surpreendente o português, desconcertando e divertindo o leitor. Contudo, sua principal força não é no nível estilístico, mas no estrutural. Assim como Italo Calvino, Harry Stephen Keeler ou Milorad Pavich, sua originalidade estava principalmente na estrutura interna da narrativa e no modo como organizava a sucessão de peripécias. Seu uso de cartões perfurados, como os dos antigos programas de computador, foi visto por alguns críticos como uma influência de Nabokov; mas essa semelhança superficial foi desmentida por Antonio Biely num artigo da saudosa revista Nicolau, de Curitiba.

Um grupo de abnegados está exumando a obra de Krapotkin, grande parte da qual (como sua volumosa correspondência literária, meticulosamente preservada em cópias carbono) continua inédita. Especula-se também sobre sua utilização de pseudônimos, pois mais de uma vez queixou-se de que seu verdadeiro nome era visto com desconfiança pelo leitor brasileiro.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

2470) Jekyll Estripador (3.2.2011)



(gravura de Barry Moser)

O trocadilho infame deste título poderá ser perdoado por alguns leitores, se eu os convencer da importância do intercâmbio entre literatura e vida, ou, no presente caso, entre literatura de crime e crime de verdade. O Dr. Jekyll é o personagem do livro de R. L. Stevenson conhecido no Brasil como O Médico e o Monstro. É um médico respeitado que, ao tomar uma poção que ele mesmo inventou, transforma-se em Mr. Hyde, um sujeito sádico, violento, que age no submundo e pratica atrocidades. O livro de Stevenson foi publicado em janeiro de 1886 e em junho já vendera 40 mil cópias em Londres. Teve enorme impacto junto ao público e à imprensa, e diz-se que a própria Rainha Vitória o leu.

Dois anos depois os palcos de Londres já exibiam as primeiras adaptações teatrais da obra de Stevenson, quando, entre agosto e novembro de 1888, aconteceram os cinco assassinatos atribuídos a “Jack o Estripador”. Até hoje não se sabe quem foi ele. Assassinou e desfigurou cinco prostitutas, demonstrando razoável conhecimento de anatomia. Entre os inúmeros indivíduos que foram suspeitos dos crimes estavam vários médicos famosos, inclusive Sir William Gull, médico da Rainha. De um momento para outro, portanto, um médico londrino viveu em carne e osso a transformação de Dr. Jekyll em Mr. Hyde, praticou crimes ainda mais sádicos do que os de Hyde, e conseguiu escapar. Ficcionalmente, escapou até de Sherlock Holmes, que nesse ano de 1888 o ignorou, pois estava às voltas com os casos do “Intérprete Grego” e do Signo dos Quatro.

Historiadores perguntam se o sucesso da noveleta de Stevenson teria incentivado algum médico esquizóide a liberar sua porção criminosa. A verdade é que a criminalidade no submundo londrino desse tempo já era muito grande. Os crimes de Jack se sobressaíram apenas por causa da meticulosa violência, da sua serialidade, e da incapacidade da polícia em descobrir a identidade do assassino. Hoje, serial killers são quase um lugar comum. Na época, era algo em que ninguém tinha pensado, e essa ameaça pendente (“ele está solto, ele vai atacar de novo, ele vai fazer aquilo com qualquer pessoa”) alvoroçou a opinião pública.

A polícia de Londres recolheu na época 128 cartas (remetidas para ela própria, para a imprensa ou para outros destinatários) de pessoas que diziam ser Jack. Fala-se que cerca de 40 delas poderiam ser do criminoso. A grande quantidade de cartas com falsas ameaças e falsas confissões demonstra o impacto dos crimes junto à opinião pública. O crime, principalmente o crime brutal, cruel, psicótico, é uma ruptura do Ego da sociedade, por assim dizer. É aquele momento em que as barreiras de controle se rompem e o animal bruto emerge. A literatura de crime é uma forma de liberar essa pressão e de chamar a atenção para a existência dela, sem que o crime ocorra. Se Mr. Hyde foi um pesadelo de Stevenson que virou livro, Jack the Ripper foi um pesadelo de Londres, e virou crime.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

2469) Apanhados nas redes sociais (2.2.2011)



Uma piada na Internet mostra duas fotos. Na primeira, Julian Assange, o sujeito do WikiLeaks, diz: “Eu forneço informações privadas das corporações para as pessoas, de graça. E sou um vilão”. Na outra, Mark Zuckerberg, criador do Facebook, diz: “Eu forneço informações privadas das pessoas às corporações, por dinheiro. E sou O Homem do Ano”. Há exagero, como em toda piada, mas nos faz pensar um pouco. Zuckerberg diz que não criou o Facebook (como sugerem livros e filmes) para ficar famoso e conseguir ganhar gatinhas. Diz ele que queria “descobrir uma maneira de aproximar pessoas” e que estava obcecado em “realizar algo”. Este último motivo me parece plausível. Nerds como Zuckerberg gostam de resolver problemas técnicos e intelectuais (problemas que eles próprios criam do nada), e não pensam muito em ficar ricos, comprar ternos Armani, andar de BMW, etc. O filme A Rede Social faz um contraste interessante entre ele e Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, que é uma curiosa mistura de nerd e yuppie, preocupado com roupas, ostentação, etc. Já Bill Gates pertence a um terceiro tipo. Não há dois nerds iguais, a não ser os medíocres.

Um nerd disse certa vez que gostava mais de computadores do que de garotas porque os computadores davam respostas mais rápidas e que faziam sentido. Quem é taquipsíquico (gente que pensa mais depressa do que o normal), dificilmente vai encontrar num ser humano normal a mesma velocidade de resposta. Por outro lado, nerds são lentos para se adaptar a ambientes estranhos. Sua dificuldade de conviver com outras pessoas (e de arranjar namoradas) não é bem por causa das pessoas em si, é pela obrigação de tomar banho, vestir uma roupa diferente da habitual, sair de casa, chegar num local cheio de gente desconhecida, submeter-se a rituais meio ridículos, ser forçado a conversar (além da pessoa que lhe interessa) com gente a que não dá a mínima, ouvir uma música que não lhe agrada... Quem é assim é nerd? Então eu sou nerd.

As redes sociais (Facebook, Orkut, etc.) oferecem para esses sujeitos (que pouco estão ligando para aparência pessoal, roupas, etc.) a oportunidade de conversar com gente interessante (= gente que se interessa pelos mesmos assuntos que eles, seja Star Wars, xadrez, folk rock, magia céltica, música barroca, o escambau), e poder conversar em seu próprio quarto, de calção, comendo biscoitos, sem gastar o dinheiro da mesada. E com a opção de, com um só clique, desligar aquilo tudo e ir para a sala, ler um livro, escutar um som, ou apagar a luz e adormecer do jeito que está. Esses caras não são nocivos, não são violentos, não são destrutivos. São apenas diferentes. As redes sociais permitem, aos caras que gostam de ir direto ao assunto, ir somente aos assuntos que lhes interessam, sem precisar fazer um teatrinho social para agradar a ninguém. Se isso não é um progresso nas relações humanas, favor parar o planeta que eu quero descer.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

2468) "Pierrô" (1.2.2011)




Este conto de Guy de Maupassant, que li há meio século, me volta à mente quando esbarro com uma dessas situações propensas à alegoria. Porque, diante das grandes catástrofes, precisamos reduzi-las ao tamanho das pequenas tragédias, para termos a sensação de que estamos entendendo aquilo.

Pois bem: a viúva Lefèvre mora numa aldeiazinha da Normandia, em companhia de sua criada, Rose. A velha é sovina como um cacto, e certa noite descobre, alarmada, que um ladrão pulou o muro e roubou algumas besteiras da horta. Ela fica insegura e resolve arranjar um cachorro. Oferecem-lhe vários, mas ela sempre acha o preço extorsivo.

Até que um vizinho traz um filhote horroroso: “um estranho animalzinho, todo amarelo, quase sem pernas, corpo de crocodilo, cabeça de raposa e cauda em forma de trombeta, verdadeiro penacho do tamanho do corpo”. Apesar da descrição é mesmo um cachorro, e ela lhe dá o nome de Pierrô.

Pierrô cresce, e, coitado, se revela um desastre como guarda. Não late para nenhuma visita, faz festas a qualquer estranho; só late quando tem fome, e late com força. As duas, apesar de secas e empertigadas, se afeiçoam ao bicho.

Até que lhes cobram um imposto sobre a posse de animais domésticos: oito francos! A viúva se escandaliza e a criada também (é avara com os vinténs da patroa, por temer que venham a lhe faltar um dia). Resolvem fazer o que se faz na aldeia: jogá-lo num poço onde morrerá de fome.

Jogam-no, mas dias depois, tomadas de remorsos e pesadelos, as duas se arrependem. Agora é tarde para tirar Pierrô dali! Elas levam pão com manteiga, atiram os pedaços no poço, e choram diante dos latidos alegres de Pierrô.

Isso dura alguns dias, até que certa manhã, ao atirar o pão, elas ouvem um latido mais forte. Alguém jogou outro cão, um cão dos grandes, no poço! Cada pedaço de pão que atiram provoca um alarido lá embaixo, e ganidos de dor que elas reconhecem. Gritam: “É para você, Pierrô!”, mas de nada adianta.

E por fim a viúva diz, em tom ácido: “ – Absolutamente não posso alimentar todos os cachorros que forem jogados aí dentro. Temos de desistir. – E, indignada ante a idéia de uma porção de cachorros vivendo à sua custa, ela se retirou, levando consigo o resto do pão, que comeu, enquanto caminhava”.

C’est la vie! As autoridades não detestam os pobres; pelo contrário, têm boas intenções para com eles, e, se pudessem, fariam de tudo para ajudá-los. O problema é que pobre dá muita despesa e pouco lucro, então é melhor empurrar a todos para o fundo de um poço, a encosta de um barranco, a periferia de um subúrbio.

Quando os sentimentos humanitários botam a cabeça de fora, as autoridades começam a enviar dinheiro para os pobres, mas no meio do caminho aparece um cachorro grande, insaciável, que devora tudo. Por mais que as autoridades gritem: “É para vocês, pobres!”, o cachorro grande se atravessa. E elas nada podem fazer, porque quem botou o cachorro grande ali foi, sem dúvida, outra autoridade.







domingo, 30 de janeiro de 2011

2467) A pornografia e a Internet (30.1.2011)




Segundo um artigo de Cezary Jan Strusiewicz no saite Cracked.com (http://bit.ly/f1kbvp) a indústria pornográfica é um ótimo ambiente para testar novas tecnologias e novas formas de comercialização. A razão para isto é que o consumidor da Pornografia não é muito exigente em perfeição técnica, em conteúdo artístico, etc. Desde que o material (livro, filme, fotos, etc.) contenha o que ele está querendo ver, de forma reconhecível, vai haver sempre quem o adquira. 

Diz Strusiewicz: 

“Durante o tempo das vacas magras na Internet, os saites pornô eram os únicos que cobravam por acesso online. A Pornografia na Web criou e aperfeiçoou os sistemas de acesso ao conteúdo através de assinaturas pagas, de verificação online de cartões de crédito e sistemas de cobrança via Web. Hoje, tudo isto é usado regularmente por multinacionais como Amazon, E-Bay e iTunes. E porque o sexo mais procurado é o sexo em movimento, os consumidores logo exigiram acesso a algo mais que fotos. Assim a Pornografia foi um dos primeiros e raros ramos de negócios a oferecer vídeos em “streaming” (o que você vê na tela mas não pode baixar), ajudando a popularizar esta prática, e até mesmo alavancando o desenvolvimento da tecnologia de Flash”.

Strusiewicz acha também que a Pornografia (que é amoral, não-ideológica, e tem um espírito meramente comercial e pragmático) pode ajudar a “limpar” a Internet, porque ela, também, é vítima de vários tipos de pirataria online e desenvolve seus mecanismos de defesa; a indústria do “X-Rated” é hoje um dos principais pesquisadores de software anti-pirataria.

Por que motivo a Pornografia está sempre à frente no que diz respeito à vanguarda hi-tech? Diz Strusiewicz: 

“Assim como uma garota reprimida que vai morar num campus universitário, a indústria pornô está não só disposta, mas sequiosa, por novas experiências. A maioria das empresas convencionais tem uma estratégia financeira planejada cuidadosamente para a próxima década. Elas não podem se dar o luxo de se desviar desse plano, e fica-lhes difícil fazer experiências e testar novas posições no mercado. O Pornô adora novas experiências e novas posições! Muitos executivos do mundo Pornô são jovens, ansiosos para experimentar maneiras diferentes de atingir os consumidores”.

Já se fala em pornografia 3-D e em aplicativos pornô em video-streaming pro sujeito assistir no iPad (anunciados no mesmo dia em que a Apple lançou o iPad). Há investimentos em pesquisas sobre Inteligência Artificial sendo financiados pela indústria pornográfica, segundo Ilan Bunimowitz, executivo do Private Media Group. 

Ela ajuda a criar novos mercados com a intenção de ocupá-los antes dos concorrentes, o que sempre acontece porque os concorrentes precisam convencer seus acionistas e obter os alvarás ou coisa parecida nos corredores do Governo. A economia informal não precisa disso. Quando a Lei vai pros cajus, os fora-da-lei já estão vindo das castanhas.