terça-feira, 14 de setembro de 2010

2346) Drummond: Lagoa (14.9.2010)



Este é um poema despretensioso e discreto do livro Alguma Poesia de Drummond, que está completando 80 anos de lançamento. Nunca lhe dei maior atenção, certamente porque o via ladeado por poemas de muito maior peso e ressonância, e isto reflete uma distorção no conceito estético de “livro de poemas”. Em tese, um poema devia ser uma obra de arte autônoma, podendo (e até devendo) ser lido à revelia de todos os demais poemas do autor. No melhor dos mundos, livros de poemas só existiriam quando esses poemas fossem seriais, fossem mutuamente necessários para existir e significar, como é o caso (com diferentes perfis) de livros como A Educação pela Pedra de João Cabral, Doze Noturnos da Holanda de Cecília Meireles, etc. Para que um poema fosse lido, respeitado e valorizado no que é, cada um devia ser publicado sozinho, num livro à parte. O que, é claro, é impraticável. (Era. O mundo está mudando. Eletronicamente, a gente pode publicar as coisas no formato que bem entender.)

“Lagoa” tem uma linguagenzinha tão beabá e direta que soa, no livro do poeta de 28 anos, como a voz de um menino amuado: “Eu não vi o mar. / Não sei se o mar é bonito. / Não sei se ele é bravo. / O mar não me importa”. Por que um poema sobre uma lagoa começa negando o mar? Talvez porque entre os mineiros exista uma inveja do mar do mesmo jeito que entre as mulheres, segundo Freud, existe uma inveja do pênis. Não ter um mar é, por alguma razão oceânica, amniótica e profunda, não ter algo essencial à vida, e cada um se compensa disto como pode (os bolivianos, por exemplo, têm lá seu Ministério da Marinha). O menino, casmurro por não ter um mar, dá-lhe as costas.

“Eu vi a lagoa. / A lagoa, sim. / A lagoa é grande / e calma também”. Que beleza essa frase-que-contém-tudo: “A lagoa, sim”. Pronto. O que vem depois é mera ilustração. “Na chuva de cores / da tarde que explode, / a lagoa brilha. / A lagoa se pinta / de todas as cores. / Eu não vi o mar. / Eu vi a lagoa...”

Que lagoa será essa? Alguma lagoa doméstica, por trás dum quintal de Itabira? A da Pampulha, ainda bravia e pré-Juscelino, pré-Niemeyer? Uma lagoa meramente mental? Drummond só se transferiu para o Rio de Janeiro em 1934, mas eu, por vício de contiguidade, sempre li este poema com os olhos da memória na Lagoa Rodrigo de Freitas, que fica a dois ou três quarteirões do mar, protegida por uma selva de arranha-céus ipanemenses. Poucas visões do “meu” Rio são tão belas quanto a que temos ao rodear de carro a Lagoa ao anoitecer, porque os prédios em volta dela acendem-se em luzes azuis, amarelas, violetas, verdes, laranjas, e essas luzes refletem-se no espelho descansado das águas. O roxo do céu, a luz das estrelas, a iluminação branquicenta dos postes de mercúrio e as formas dos morros mudam esse panorama de cem em cem metros. Natureza e civilização fazem uma urdidura de beleza e complexidade urbana. Mar? Quem precisa de mar? Eu sou mineiro.

domingo, 12 de setembro de 2010

2345) O futebol segundo Jairzinho (12.9.2010)



Minha convicção, até prova em contrário, é de que jornalismo se aprende na redação, natação na água e futebol no campo. Este último merece detalhamento. Campo não é um gramado impecável, onde um garoto calça chuteiras e ganha intimidade com uma bola de couro, jabulani ou não. Campo é o campinho, o campinho de terra ou de capim, ou mesmo uma rua calçada de pedras, onde garotos descalços jogam com qualquer coisa que possa ser imaginada como uma bola.

Numa entrevista recente ao Globo, Jairzinho, campeão do mundo em 1970, resume essa raiz popular do futebol de maneira irretocável: “O futebol moleque acabou, o futebol formado num ambiente livre, natural. Eu mesmo fui formado assim. Nas praias, Urca, Praia Vermelha, Praia do Leme; nos terrenos baldios, que ainda existiam; nas praças também. E na própria rua, numa época em que não havia congestionamento de carros. Comecei brincando com laranja, depois com bola de meia, depois com bola de borracha, toda essa evolução natural, entende? Hoje, para você encontrar um espaço é muito difícil. Não tem mais o campo natural, onde o garoto possa jogar sem cobrança. Se os garotos não forem para praia, vão para o futebol, o futsal e com isto perdem a naturalidade. Porque já tem um professor ali e a bola já é bem diferente. O importante é você começar a ter o contato (com a bola) com o pé descalço.”

O que faz o jogador brasileiro ser diferente? (Não só brasileiro, claro. O que acontece aqui pode acontecer em praticamente qualquer lugar do mundo. Mas aqui ocorre de maneira maciça e generalizada – ou pelo menos acontecia.) Primeira coisa: jogar na rua, aprender a correr em qualquer tipo de espaço, cercado pelos obstáculos mais imprevisíveis. Carros estacionados, carros em movimento, muros, árvores, postes, tocos de pau, buracos, pilhas de tijolos... Garotos jogam, há um século, em lugares assim, e é lá que aprendem a correr com ou sem a bola nos pés, a negacear, a fugir, a perseguir o atacante, a chutar, a defender, a passar, a cruzar. O senso de espaço é enriquecido de maneira espantosa.

Segundo: jogar sem cobrança, por vontade própria, diversão, espírito lúdico. Profissionalismo é importante, mas vem depois, e tem que vir sobre um alicerce prazeroso. Tudo que um garoto ou adulto faz por mero prazer ele fará incansavelmente, repetidamente, incessantemente, variadamente, concentradamente, dedicadamente.

Terceiro: o pé descalço e a bola de meia. Os músculos, o sistema motor e os reflexos se enriquecem ao serem testados de mil maneiras diferentes, preparando-se para as meras 100 ou 150 maneiras que lhes serão exigidas na vida adulta, na mordomia da grama, da chuteira e da bola de couro. Futebol profissional tem uma faixa de probabilidades mais estreita do que a de uma pelada de rua. Um garoto se torna PhD em futebol jogando com laranja chupada num campinho de terra, e a maestria assim adquirida será o alicerce para o profissional em que um dia se tornará.

sábado, 11 de setembro de 2010

2344) “A Eva Futura” (11.9.2010)



Como já referi aqui, o primeiro uso oficial da palavra “andróide” foi em 1863, numa patente em nome de J. S. Brown. O primeiro uso literário do termo, no entanto, surgiu numa obra peculiar em que parecem se cruzar variadas tendências da literatura e do pensamento de sua época: A Eva Futura (“L’Ève Future”, 1886), de Villiers de l’Isle-Adam, mais conhecido como o autor dos Contos Cruéis (1883). Villiers, filho de uma família nobre arruinada, fez amizade nos cafés parisienses com autores tipo Baudelaire, Mallarmé, Alexandre Dumas Filho, etc., e começou sua carreira publicando poemas e peças teatrais.

A Eva Futura (há uma tradução brasileira pela Edusp, 2001) foi um romance que Villiers tentou publicar por duas vezes entre 1880-81, em forma de folhetim de jornal (no Le Gaulois e no L’Étoile Française), sendo a publicação interrompida, possivelmente, por reclamações dos leitores. A publicação completa se deu em La Vie Moderne entre 1885-86, quando por fim saiu o livro. A esta altura Villiers já tinha publicado sua primeira coletânea de “contos cruéis”, já tinha aparecido como personagem no clássico decadentista À Rebours de J.-K. Huysmans, e publicava também Axel, sua peça simbolista que seria tempos depois analisada com brilhantismo por Edmund Wilson em O Castelo de Axel. Villiers viveu numa lamentável pindaíba a vida inteira. Era um desses indivíduos que ostentam título de nobreza, moram numa água-furtada tomando café requentado e escrevendo poemas requintados. A França está cheia de gênios assim (não é ironia), que levaram Edgar Allan Poe totalmente a sério.

O livro de Villiers é um sintoma da norte-americanização (no bom sentido) da literatura francesa, por ter como um dos seus principais personagens Thomas Alva Edison, o inventor. Villiers faz uma “Advertência ao Leitor”, na qual pede licença para usar como personagem um cientista ainda vivo, pelo fato de ele ter se tornado uma lenda em sua própria época; e o compara com o Doutor Fausto, pessoa real usada literariamente por Goethe.

No livro de Villiers, o termo francês usado é “andreïde”, e se refere à mulher artificial criada por Edison para Lord Ewald, um nobre que se decepcionou com a noiva. O andróide (ou melhor, “a ginóide”) de Edison é uma réplica perfeita da noiva de Lord Ewald, mas com uma mente “em branco” na qual este poderia fazer “upload” (o termo é meu, não do autor) das idéias, valores, referências culturais e vocabulário que bem entendesse. Uma utopia machista, mas (se a observarmos sem paixões ideológicas) um retrato da crise angustiada desses artistas do século 19. Afinal, os artistas dessa época (de qualquer época) queriam o mesmo que as mulheres dessa época (de qualquer época): alguém a quem amar e com quem conversar em pé de igualdade. Os universos mentais de homens e mulheres da Europa de 1880 eram muito mais distantes entre si do que são em 2010. Como esperar outro tipo de literatura? De fantasia, de desabafo?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

2343) Os melhores artigos da imprensa (10.9.2010)



Pulando de link em link vim cair nesta página assinada por KK (Kevin Kelly), sob o nome de CoolTools (http://www.kk.org/cooltools/the-best-magazi.php), em que ele relaciona (com links diretos) os 100 melhores artigos jornalísticos publicados na imprensa (de língua inglesa). Seria interessante que alguém igualmente bem informado e bem assessorado (Kelly no final agradece as dicas de umas 50 pessoas) fizesse uma lista parecida com os melhores artigos da imprensa brasileira. Material não falta.

Isto tem a ver com uma crise que já abalou a imprensa com o surgimento da TV nos anos 1950, e agora de novo com o surgimento da Internet nos anos 1990. O que pode fazer a imprensa impressa (valha a redundância) para sobreviver? A resposta tem sido sempre algo tipo: ser mais profunda, mais extensa, preocupar-se menos com a informação e mais com a interpretação, caprichar mais no aspecto literário para sobreviver como texto estético mesmo depois de sua importância factual esmaecer um pouco. Os 100 artigos listados por Kelly são bons exemplos disso.

Quando vi a página, fiquei meio animado, achando que iria reencontrar velhos conhecidos, mas dos 100 só me lembro de ter lido quatro. Li o clássico ensaio de Susan Sontag “Notes on Camp”, publicado na Partisan Review em 1964 (li em livro, claro). Li (anos depois) a entrevista que Nat Hentoff fez com Bob Dylan para a Playboy em 1966. Li a matéria, na revista Wired (1995), em que Gary Wolf narra a luta quixotesca de Ted Nelson, o homem que inventou o hipertexto, para criar o projeto Xanadu, uma utopia internética que não deu certo. E li o texto de Neal Stephenson, também na Wired (1996) sobre a instalação dos cabos trans-oceânicos de fibra ótica, uma verdadeira odisséia tecnológica narrada pelos olhos de um autor de ficção científica.

Cada um destes valeu, linha por linha, o preço eventualmente pago. Mas lendo a lista completa vi referências a matérias que os coleguinhas jornalistas citam de vez em quando como exemplos do que se pode fazer juntando o melhor da literatura e do jornalismo. Por exemplo: a clássica reportagem de Gay Talese, “Frank Sinatra has a cold” (Esquire, 1966), em que Talese fez um retrato do cantor sem que este se dignasse a falar com ele (mais ou menos como Ruy Castro, que escreveu Chega de Saudade à revelia de João Gilberto). Tem os artigos clássicos de Hunter Thompson, “Fear and Loathing in Las Vegas” e “The Great Shark Hunt”, que li parcialmente, e por isso não conto, mas recomendo. Tem o artigo de Ron Rosenbaum sobre J. D. Salinger (“The Man in the Glass House”, 1997), que voltou a ser citado agora quando da morte do escritor. Tem o texto de Cameron Crowe que certamente inspirou seu filme Quase Famosos: “The Allman Brothers Story” (Rolling Stone, 1973). E muita coisa mais. Por que a gente não monta um saite com indicações (e links) para os melhores artigos brasileiros de revista e jornal? Que tem, tem.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

2342) “Os Cronolitos” (9.9.2010)




The Chronoliths (2001) é um romance de ficção científica do canadense Robert Charles Wilson, que tem uma premissa admirável. 

Numa certa madrugada de 2021, numa região rural da Tailândia, ouve-se uma explosão que parece a queda de um meteoro. Na manhã seguinte, polícia, exército e uma multidão de curiosos aflui para o local, e encontra ali, erguido magicamente da noite para o dia, um maciço obelisco com dezenas de metros de altura, no meio de uma tremenda devastação provocada pela onda de choque. 

Na base do monumento, feito de uma matéria desconhecida, lê-se uma inscrição, num misto de inglês e mandarim, celebrando a vitória de um tal de Kuin numa batalha que teve lugar em 2041 – vinte anos no futuro.

Este é apenas o primeiro dos cronolitos, que nos anos seguintes começam a aparecer por toda a Ásia e a se espalhar pelos continentes. Fica óbvio que num futuro próximo esse líder chinês adquiriu tamanho poder militar e científico que é capaz de enviar para o passado os monumentos celebrando suas conquistas. 

Hitler dizia que o III Reich se estenderia mil anos no futuro; Kuin vai mais além, estende seu império na direção do passado.

O romance de Wilson acompanha Scott Warden, um norte-americano cuja complicada vida pessoal vai sendo marcada (e seriamente avariada) pelo surgimento dos cronolitos e do culto fanático que surge em torno deles – porque (muita gente pensa) se um imperador é poderoso o bastante para fazer isso, é melhor aliar-se a ele desde o começo, e ajudá-lo a fundar seu império. 

Assim, dentro da costumeira lógica em “loop” das histórias de FC com paradoxos temporais, os monumentos à grandeza de Kuin ajudam a fazê-lo emergir do anonimato e, pouco a pouco, alastrar seu império pelos continentes até chegar, no final do livro, aos EUA. E ele se vale, principalmente, dos cultos e das milícias kuinistas formadas por gangs de jovens marginais, insatisfeitos e agressivos das grandes cidades, do tipo que se deixa fascinar por um líder violento.

The Chronoliths foi publicado em 2001, meses antes do ataque ao World Trade Center, criando um sutil paradoxo entre ficção e vida: o aparecimento de monumentos fantásticos e a destruição de monumentos reais. 

A aparente megalomania da imaginação de Wilson é bruscamente reduzida pela megalomania real dos atentados. O invisível e onipresente Kuin do romance acaba sendo refletido no onipresente e invisível Osama Bin Laden do mundo pós-2001; a ameaça chinesa se transforma em ameaça islâmica. 

Poucas vezes um romance de FC estabeleceu essa relação de simetria e sincronicidade com fatos do mundo real na época do seu lançamento. O livro de Wilson cresce ainda mais de importância quando vemos que ele não se centra nos cronolitos, mas na vida de Scott, seu casamento desfeito, sua filha problemática, sua relação com a mãe de um adolescente kuinista. 

As catástrofes coletivas vistas pela ótica das tragédias individuais que deixam no seu rastro.





quarta-feira, 8 de setembro de 2010

2341) O "Jornal do Brasil" (8.9.2010)



"E vejam meu azar: comprei um Jornal do Brasil, emprego tinha mais de mil... e eu não arranjei um só!" O drama não é meu, é do personagem cantado por Jackson do Pandeiro no clássico "Meu Enxoval", em que o "paraíba" desempregado, depois de não achar uma colocação, acaba dormindo em frente em Teatro Municipal, na Cinelândia, aconchegado pela imprensa carioca: "O meu travesseiro é um Diário da Noite, e o resto do corpo fica na Última Hora".

O humor de Almira & Gordurinha, autores da música, fala de uma época em que a imprensa impressa carioca tinha titãs da informação, da polêmica e da cultura. Diário da Noite e a Última Hora deixaram as bancas para repousar no silêncio das bibliotecas; agora foi a vez do Jornal do Brasil, que para muita gente continua sendo o símbolo de um jornal moderno e modernizador, na diagramação, no visual, no estilo, na abordagem, na prosa, no tratamento da cultura. Sem ele, teria sido muito diferente a história da música popular brasileira, do cinema brasileiro, da poesia, do teatro, dessa coisa toda enfim. Sem ele, aliás, não existiria sequer o Jornal Dobrabil de Glauco Mattoso.

Todo jornalista em atividade no Rio tem sua história com o JB; eu tenho a minha. Entrei lá em 1987 por obra e graça do escritor Sérgio Sant'Anna, que me indicou para substituí-lo numa página de comentários sobre TV, na Revista de Domingo, intitulada "Conversa ao Pé do Vídeo". Fiquei ali durante dois anos, fazendo duas colunas por mês (revezando-me com Ingo Ostrovsky). Meus editores eram Alfredo Ribeiro e Joaquim Ferreira dos Santos. Tempos pré-Internet, em que às vezes eu tinha de pegar um ônibus para levar as laudas datilografadas até o prédio do jornal. Meu último texto publicado ali foi uma entrevista que fiz com Ariano Suassuna, em 2007.

O JB encerrou sua edição de papel. Procurei um exemplar em vão, no derradeiro dia, mas tinha esgotado. Se o público viesse demonstrando tanto interesse assim, o jornal não teria acabado nunca. Mas, ao contrário do Diário da Noite e da Última Hora, o JB não morreu. Sublimou-se! Transcendeu-se! Virtualizou-se: deixou de gastar papel mas continua vivo, nos pixels luminosos e coloridos de uma edição on-line. E isto mostra as vantagens da Internet, amigos, que pode ajudar a extinguir os dinossauros de papel, mas também lhes proporciona um novo planeta, onde esses pesadíssimos e onerosos órgãos de imprensa veem-se metamorfoseados em criaturinhas mais ágeis, uma espécie de velociraptors céleres e dribladores. Morreu o JB? Não creio. Passou da página para a tela, o que não é muito diferente de passar da lauda datilografada para a página em off-set. Porque - e chegamos agora ao Q.E.D. desta conversa toda - jornalismo (como literatura) é texto. Os jornais dos brasis agora têm como sobreviver, sem precisar de papel e tinta, porque o texto, este sim, não morre nunca. O texto é uma alma imortal que a humanidade inventou para si própria.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

2340) Drummond: “Europa, França e Bahia” (7.9.2010)




(charge de J. Carlos em O Malho)

Minha primeira lembrança desta expressão foi no famoso poema de Ascenso Ferreira, “Oropa, França e Bahia”, do livro Xenhenhém (1951). 

Só depois de algum tempo percebi que ela já estava neste poema de Drummond em Alguma Poesia (1930), e bastou-me esfregar a lâmpada do Google para o Gênio emergir, de braços cruzados, e me informar que a frase já surgia no Macunaíma de Mário de Andrade, que é de 1927. Não pedi ao Gênio que buscasse mais longe; meu assunto se detém aqui.

O Modernismo brasileiro foi mais um de tantos movimentos (do Romantismo ao Tropicalismo, do Regionalismo ao Armorial) que tentou definir a brasilidade num país onde todos se sentiam estrangeiros e, ao mesmo tempo, diferentes de todos os estrangeiros que conheciam. 

Este drama de conceituar o que é ser brasileiro, claro, só ocorre às nossas elites, aos brasileiros que leem livros e discutem abstrações. O povo, mesmo, fala a sua Língua Geral, trabalha, brinca seu samba ou seu fandango, brasiliza 24 horas por dia, pratica o Brasil sem conhecê-lo de fora.

O poema de Drummond é uma contemplação irônica da Europa com que nossos “mazombos” sonham, felizes na sua ilusão de exílio, no seu consolo de serem elite no único lugar do mundo onde seriam elite: este continente exótico de gente escura e sem modos. 

Drummond faz caricaturas da França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Suíça, Rússia... Seus versos são um equivalente verbal às charges políticas de Ângelo Agostini, J. Carlos ou Raul Pederneiras, aos cartuns políticos de revistas como O Malho, Careta e Fon-Fon

A Europa ilustre aparece aqui distorcida e cômica, vista pelo olho desafiador do “humour” (Drummond já usou a palavra assim, indicando sua conotação britânica, distanciada, cheia de “understatement”). Uma coleção de clichês sarcásticos em que a velha Europa aparece despida da grandiosidade colonial, reduzida à condição de Império em crise.

Drummond é quase profético, neste poema pós-I Guerra Mundial, ao descrever a Alemanha como um lugar onde “homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros / dentro de alguns anos”, cabendo apenas a ressalva de que a II Guerra foi, claramente, uma continuação da primeira, após uma pausa para rearmamento. 

E demonstra uma simpatia de cineclubista-de-esquerda pelos “sujeitos com um brilho esquisito nos olhos (que) criam o filme bolchevista”, o que me lembra um soneto de Vinicius de Morais em homenagem a Eisenstein, talvez o único soneto da poesia brasileira cuja chave-de-ouro é em russo.

É um dos primeiros poemas em que Drummond define uma brasilidade às avessas: não descrevendo o Brasil, mas descrevendo o mundo lá fora e através disto criando, implicitamente, um olhar brasileiro, um modo brasileiro (irônico, deslizante) de encarar a Europa que nos criou e nunca deixou de nos fascinar. 

“Olhos brasileiros sonhando exotismos”: os exóticos são eles, o centro do mundo somos nós, mesmos que não saibamos quem somos.







domingo, 5 de setembro de 2010

2339) O Ulisses indiano (5.9.2010)




Entre os “sósias literários” do Ulisses de Joyce, o escritor Joshua Cohen aponta, no continente indiano, o romance All About H. Hatterr (1948), escrito por G. V. Desani, que ele descreve assim: 

“Nascido do Quênia, criado no que é hoje o Paquistão, e tendo morado no Reino Unido durante a II Guerra Mundial, Desani estabeleceu-se por fim na Índia e ali criou um dos romances mais originais retratando o declínio do Império britânico. Seu livro é uma reconstrução artificial e amalucada dos modos de falar o inglês na Ásia, e acompanha o personagem título – meio malaio, meio inglês, cheio de exclamações – enquanto este consulta sete sábios em sete cidades, tentando descobrir não apenas o significado da vida, como o dessa história que está sendo contada”. 

O livro apareceu em 1948 e recebeu elogios de muitos críticos, entre eles T. S. Eliot. Depois de cair na obscuridade foi recuperado nos anos 1970 com uma reedição prefaciada por Anthony Burgess. Seguiu-se outra década de esquecimento, até que Salman Rushdie, ao receber em 1981 o Booker Prize por Midnight Children declarou que seu romance era influenciado pela obra de Desani. 

Como se vê, não é uma obra das mais fáceis, e suas eventuais ressurreições são provocadas pelos elogios de autores cujos experimentos linguísticos e narrativos deixam bem claro qual o tipo de romance eles apreciam. 

Segundo uma resenha anônima no saite DooYou, Desani nasceu em 1909 no Quênia, de família indiana. Depois da I Guerra Mundial, viveu por algum tempo em Burma e na Índia, onde estudou sânscrito, filosofia, budismo e ocultismo. Depois de viver na Inglaterra, emigrou pra os EUA em 1970 para ensinar da Universidade de Boston, e depois na Universidade do Texas, em Austin, onde faleceu em 2000. Sua única outra obra publicada é Hali & Collected Stories

O resenhador comenta que o livro de Desani pode agradar aos leitores que gostam de Laurence Sterne, James Joyce, Anthony Burgess ou Salman Rushdie, e que um longo trecho dele foi incluído na antologia de literatura indiana Mirrorwork, organizada por Rushdie e Elizabeth West. 

Na sua introdução ao romance, Burgess diz que os “metecos” (“meteques”) são aqueles escritores com um background linguístico, racial ou político não-inglês. Vivendo na periferia de uma língua e de uma cultura que os ignora, eles usam a língua inglesa com sem-cerimônia e um certo desrespeito, produzindo efeitos que jamais teriam ocorrido a um nativo do idioma. 

Podemos pensar em Nabokov como um exemplo erudito e sofisticado desse grupo de autores para quem o inglês é um parque-de-diversões, e não uma tradição clássica a ser respeitada. Assim como Oswald de Andrade sonhava para a língua brasileira “a contribuição milionária de todos os erros”, Desani parece conseguir, com seu inglês asiático multicultural, uma língua “gloriosamente impura, como a de Shakespeare, Joyce e Kipling”, segundo Burgess.






sábado, 4 de setembro de 2010

2338) A cena do chuveiro (4.9.2010)




A famosa cena do assassinato de Janet Leigh no chuveiro, em Psicose (1960) de Hitchcock já foi mais analisada do que o sorriso da Mona Lisa ou o monólogo de Molly Bloom. 

No cinquentenário do filme, todo jornalista quer desencavar novos detalhes. Como sabem os cinéfilos, a cena do chuveiro foi dirigida por Hitchcock com base num story-board (sequência de desenhos plano-por-plano) concebido pelo artista gráfico Saul Bass, também autor dos letreiros de apresentação do filme. 

Foram (segundo o diretor) sete dias de trabalho e 70 posições de câmara para captar 45 segundos de filme.

Um artigo de Steve North na Salon traz uma informação que eu não tinha. 

Quando o vulto da “mãe” de Norman Bates entra no banheiro, de faca em punho, para assassinar Marion (a personagem de Janet Leigh), não é o ator Anthony Perkins quem está ali (Perkins faz o papel de Norman, inclusive nos momentos em que se veste como a mãe para cometer os crimes – acho que a esta altura não estou estragando a surpresa da história). Numa entrevista a North, concedida anos atrás, Perkins declarou: 

“Hitchcock estava receoso de revelar a natureza e o papel duplo de Norman, caso eu fosse visto na cena, talvez devido a minha silhueta característica, muito delgado e de ombros largos. (...) O dublê que ele usou era um sujeito de silhueta muito diferente da minha”. 

O diretor quis despistar o público, evitar que ele sequer imaginasse que aquele vulto era o de Perkins.

Fui conferir a informação no livro de Stephen Rebello Alfred Hitchcock and the Making of ‘Psycho’ (St. Martin’s, 1998), e de fato, no capítulo 7, em que se narra a filmagem, surgem mais detalhes sobre isto. 

Perkins estava ensaiando uma peça (Greenwillow) em Nova York, e Hitchcock o liberou durante essa semana. Em seu lugar, quem empunhou a faca, usando as vestes da Mãe, não foi um homem, mas uma mulher, uma dublê de 24 anos chamada Margo Epper. 

Ela é vista através da cortina de plástico, abrindo a porta do banheiro, aproximando-se, afastando a cortina (em contraluz), desferindo punhaladas, lutando com Marion, e finalmente indo embora, de costas. (Revi a cena agora; tenho o DVD, mas achei mais simples acessar o YouTube. Estarei ficando jovem?)

Margo Epper teve o rosto pintado de preto para reduzir o excesso de luz refletida pelos azulejos do banheiro. Diz a dublê que no seu dia de filmagem “não havia ninguém no chuveiro”, mas o fato é que ela e Marion aparecem juntas em pelo menos dois planos (há outros em que aparece um braço, que pode ser de qualquer pessoa). 

Janet Leigh teve uma “dublê de corpo” para os planos de nudez, uma “stripper” profissional chamada Marli Renfro. Outros dublês foram usados para outras cenas da Mãe, mas “quando ela aparece com a faca, sou eu”, diz Margo Epper. 

O Internet Movie DataBase, entretanto, informa que em alguns planos da cena a Mãe foi interpretada por uma atriz chamada Anne Dore.... e a investigação continua.







sexta-feira, 3 de setembro de 2010

2337) O mundo em que vivemos (3.9.2010)



Ariano Suassuna conta que, quando era menino em Taperoá, não perdia um circo que passasse pela cidade; entre outras coisas, porque tinha peça de teatro. A maioria das peças eram bem amadorísticas.
E ele lembra de uma que se passava nos tempos dos cavaleiros de Carlos Magno e dos Doze Pares de França. A certa altura da batalha, um nobre de armadura erguia a espada e dizia algo como; “Temos que morrer com honra! Nós, cavaleiros medievais...” E Ariano pergunta, embasbacado: “Oi, e o cara sabia que era medieval? Ele sabia que aquele tempo dele era a Idade Média?”

Corta para Jorge Luís Borges, dialogando com um entrevistador sobre um romance qualquer, no qual se questiona: aquilo podia acontecer, de verdade? É uma história fantástica? É uma história realista? Borges dá um suspiro septuagenário e encerra a discussão: “A verdade é que ainda não sabemos se o Universo pertence ao gênero realista ou ao gênero fantástico”.

Estes dois pequenos episódios mostram a nossa mania de superpor palavras ao mundo de verdade e ficar achando que o mundo obedece a essas palavras.

“Idade Média” é um nome que inventamos para uma época. Mesmo sendo mais específicos – digamos: “o ano 1327” – ainda assim isto não quer dizer nada, até porque no calendário judeu ou chinês o ano era outro. Numeramos os anos e intitulamos as épocas para comodidade nossa, porque sabemos que certos fatos ocorreram (a morte de Cristo, a batalha de Waterloo, o descobrimento do Brasil) e precisamos definir um “quando”. Mas juridicamente falando Cristo não morreu no ano 33 d.C. ou coisa parecida, porque essa nomenclatura é nossa, não era usada na sua época. É uma data inventada, artificial, atribuía “a posteriori”.

O mesmo quanto ao conceito de “Idade Média”. Talvez no futuro “Idade Média” seja a nossa.

Me lembra a história de Kurt Vonnegut Jr., do sujeito que chega ao futuro remotíssimo, consulta uma enciclopédia e lê algo como: “Depois da morte do profeta Jesus Cristo, seguiu-se um período intermediário de um milhão de anos em que nada importante aconteceu”. As abstrações que usamos só funcionam dentro da nossa mente. Não têm existência física.

Qualquer conceito generalizado tem as mesmas limitações. “Os brasileiros são alegres e gostam de música.” Isto é verdadeiro ou falso? Pode até refletir uma tendência estatística, ou um traço cultural que alguém pode confirmar viajando pelo país. Mas mesmo os brasileiros alegres não são alegres o dia inteiro, e não gostam de ouvir música o dia inteiro, ou não gostam de qualquer música (nem todo brasileiro que gosta de música gosta de Debussy, ou de Daniela Mercury, ou do Pato Fu, etc.). 

Infelizmente, temos que generalizar o tempo inteiro, e toda generalização desbasta as características individuais dos incluídos. Toda generalização é empobrecedora (inclusive esta). Nós as usamos como quem usa um pote imaginário para guardar água verdadeira.