sexta-feira, 20 de agosto de 2010

2325) Autores que não li: Proust (20.8.2010)



A frase famosa é de Jorge Luís Borges, já não me lembra onde: “Que outros se orgulhem dos livros que escreveram; eu me orgulho dos livros que li”. Bela humildade, a de Borges, mas eu sou mais humilde do que ele, e me orgulho dos livros que não li. Este orgulho eu os divido com os fantasmas dos homens que escreveram esses livros, como se dissesse a cada um deles: “És grande, ó Tetrarca! Eu, que tantos templos já invadi, não me julguei digno sequer de acessar o teu. Tua inteligência é maior que a minha. Agora vai embora daqui, antes que eu perca a paciência e te aplique uns cascudos!” Já dirigi esta reprimenda a Marcel Proust, o dos bigodes encerados, ou, como diz um irreverente amigo meu, “aquele escritor que molhava o biscoito”.

De Proust só li as primeiras 50 páginas de um ou outro livro, e os trechos transcritos em ensaios que devorei de olho atento e caneta em punho, sublinhando para sempre. Deixei-me intimidar pelo tamanho do Em Busca do Tempo Perdido, pelo elenco de centenas de protagonistas e milhares de figurantes. Curiosamente, nunca me intimidei pelo famoso “parágrafo proustiano”, que dura páginas e mais páginas, e cria na sintaxe o que as gravuras de M. C. Escher criam na perspectiva. Isso antes me deleita que me assusta. Meu medo sempre foi ter que interromper a leitura por um mês e depois não conseguir mais distinguir o Marquês Fulano do Barão Sicrano, porque confesso que quando um sujeito ostenta um título eu fico com dificuldade de enxergar o sujeito.

Uma vez vi num sebo carioca um balcão tomado por uma “chegada” recente: cerca de 300 livros de e sobre Proust. Fiquei vendo aqueles volumes em meia dúzia de idiomas, de todos os tamanhos, uns antiquíssimos, outros recentes, e todos mostrando na lombada o recorrente nome. Me bateu então o peso da repercussão de uma obra que é como uma avenida por onde todos têm que passar e eu (ai de mim) nunca passei.

Há cerca de dois anos, num evento literário, encontrei Ariano Suassuna e ficamos conversando num grupo de pessoas. Um comentário de alguém levou Ariano a citar uma frase de Proust, e depois fazer um longo elogio do autor francês. Aí ele virou-se para mim e disse: “Você gosta de Proust?” Era tão fácil dizer que gostava! Mas eu confessei que nunca tinha lido. Ele bateu com a mão na perna e exclamou: “Mas precisa ler! Tem que ler! E nós temos inclusive traduções excelentes, como as de Mário Quintana, por exemplo”. Passou uns cinco minutos elogiando Proust, e eu já estava com uma desculpa na ponta da língua: que são 8 ou 9 volumes, é muita coisa, não tenho tempo... Mas aí Ariano encerrou: “Ave Maria, é tão bom que só de falar está me dando vontade. Ano que vem vou ler tudo de novo”. Quando alguém com mais de 80 anos diz isso, tem que ter um significado. Pra mim (que nunca li Proust) é o seguinte: que enquanto um indivíduo tiver uma alma viva, um cérebro funcionando e um coração batendo, nenhum tempo é tempo perdido.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

2324) Amnésia (19.8.2010)



O romance policial “noir” retorna obsessivamente a um pequeno número de temas, sendo a obsessão um deles. Outro é a amnésia. Alguém deveria fazer uma tabulação estatística de todas essas histórias que começam com um sujeito acordando num quarto, sem lembrar quem é e onde passou os últimos dias, e, em geral, ao lado de um cadáver desconhecido. 

Quando essa pesquisa for feita, sugiro esses dois romances, que reli agora depois de muitos anos: A Cortina Negra (“The black curtain”) de William Irish (pseudônimo de Cornell Woolrich) e Morte Inglória (“To Dusty Death") de Hugh McCutcheon. Li ambos quando tinha uns 14 anos, comprados em sebos do Recife; reencontrei-os agora num sebo do Rio, sempre juntos. 

Ambos começam com o protagonista voltando a si numa calçada, socorrido por algumas pessoas. Levou uma pancada na cabeça. Fica de pé, diz que está bem. Põe-se a andar e aí percebe que está vestindo uma roupa que desconhece, encontra-se numa zona desconhecida da cidade sem saber o que foi fazer ali, e não sabe o que lhe aconteceu nos últimos tempos. 

Parece com aqueles testes de oficina literária, em que se dá um começo para cada escritor desenvolvê-lo ao seu modo. Estes dois romances são histórias de amnésia, mas ao invés de começarem com o protagonista amnésico, começam no momento em que, devido à pancada, ele volta a lembrar quem é – mas sem saber o que lhe aconteceu quando perdeu a memória. 

Em Cortina Negra, Frank Townsend volta a si para perceber que está desaparecido há um ano e meio, a esposa julga-se viúva e mudou de apartamento, e ele, provavelmente, cometeu um crime do qual não se recorda. 

Em Morte Inglória, Richard Logan volta a si para perceber que está desaparecido há três semanas e provavelmente cometeu um crime do qual não se recorda. 

Os dois protagonistas tentam reconstituir o que lhes aconteceu, sendo perseguidos pela polícia ou por bandidos, sendo abordados por pessoas que parecem conhecê-los por outro nome. Uma classificação prévia de histórias assim as dividiria em histórias com personagens amnésicos (como o conhecido filme Amnésia de Christopher Nolan, com Guy Pearce), e histórias com personagens pós-amnésicos, como estes dois exemplos. 

O personagem amnésico está em pleno torvelinho da perda da identidade, não reconhece ninguém, não sabe quem é, não sabe o que deve fazer; está totalmente no escuro. O personagem pós-amnésico conseguiu voltar para dentro de si próprio mas permanece com um buraco no passado, um espaço proibido, oculto por uma “cortina negra”. 

Eu diria que essas histórias, que sempre existiram, encontraram uma ressonância especial na mente dos leitores norte-americanos dos anos 1930-40. Uma Grande Depressão econômica fez com que milhões de vidas fossem bruscamente partidas ao meio – um bancário vira um mendigo, um comerciante vira um marginal. Perdeu-se a identidade anterior, e a vida atual é um pesadelo de onde é impossível fugir, e onde são praticados atos que a identidade anterior não praticaria.





quarta-feira, 18 de agosto de 2010

2323) “A Chinesa” de Godard (18.8.2010)



Este filme é descrito pelos detratores de Jean-Luc Godard como o seu filme mais chato. (Todo detrator de Godard o conhece pouco. Se acham La Chinoise chato, coitados, nunca viram One plus One ou Vent d’Est.) Afinal, que graça pode ter uma hora e meia de filme mostrando meia dúzia de rapazes e moças trancados dentro de um apartamento, falando sem parar? Anos depois, o Big Brother Brasil respondeu esta pergunta: os rapazes e moças teriam que ser “saradões” e “gostosas”, e deveriam conversar apenas o equivalente verbal a Cheetos, M&M ou Potato Chips.

O filme de Godard é um BBB fictício sobre os jovens maoístas que, um ano depois (o filme é de 1967) encheriam Paris de carros com os pneus para cima, barricadas, coquetéis Molotov e slogans incendiários. Quando vi A Chinesa pela primeira vez, em 1970, tive reações contraditórias. Um terço das palavras-de-ordem dos jovens maoístas eu não compreendia, absolutamente. Um terço eu renegava de corpo e alma. E um terço eu concordava com fervor. Não sei se cometerei a obviedade retórica de afirmar que hoje, quarenta anos depois, tive as mesmas reações, mudando apenas as palavras-de-ordem que as provocavam. (Não; melhor não dizer.)

Minha ingenuidade de cineclubista adolescente, na época, consistia em imaginar que Godard era maoísta e que o filme era uma apologia do que aqueles rapazes e moças estavam fazendo. Hoje, minha surpresa é que Godard não tenha sido explodido, por um homem-bomba maoísta, no dia seguinte à pré-estréia. Seu retrato dos jovens adoradores do Livro Vermelho é tão impiedoso quanto o que ele faria hoje sobre os participantes do Big Brother Brasil (que coisa, maoísmo e BBB continuam voltando juntos ao meu juízo!). Há detalhes tão impagáveis e irônicos que os considero injustos. Não é possível que jovens sensatos defendessem tais idéias. Mas é possível, sim. Tudo, quase tudo, é possível.

O humor de Godard. Um dos jovens pega um guidom de bicicleta, coloca-o na cabeça como um par de chifres, e encena uma tourada, brincando. Depois, joga o guidom no lixo; um vizinho o apanha e diz: “Que belo guidom de bicicleta!”. Ele comenta, maravilhado: “Os operários são criativos. Ele transformou um touro num guidom de bicicleta!”. Precisa mais? Véronique vai a um prédio para assassinar um diplomata soviético (os maoístas odeiam os soviéticos mais do que odeiam os capitalistas). Quando volta, percebe que confundiu o ap. 32 com o 23 e matou a pessoa errada; volta e mata a pessoa certa. Precisa mais?

Ainda assim, Godard consegue ver nesses rapazes e moças maoístas o que eles de fato são: rapazes e moças. Eram maoístas como poderiam ser qualquer outra coisa que lhes desse a sensação de que estavam vivos, de que o que faziam tinha importância para o mundo, de que estavam vivendo uma grande aventura, de que a vida era bela, e de que “se o marxismo-leninismo existe, tudo é permitido”. Hoje, tudo é permitido porque ele não existe mais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

2322) Sugestões para o livro eletrônico (17.8.2010)



Há duas atitudes extremas que não me interessam. Uma é achar que o livro eletrônico vai acabar com o livro de papel (não vai) ou com a prática da literatura (menos ainda). A outra é achar que ele é um milagre, e que vai habituar as pessoas a ler oferecendo-lhes coisas que se afastam cada vez mais do texto, livros que contêm mais desenho animado do que texto. Como objetos são uma gracinha. Mas eu, que sou um produtor de textos, quero suportes físicos que ajudem e valorizem o texto, não que o empurrem para segundo plano. Não por interesse pessoal ou vontade de ficar rico – já estou na metade do 2o. tempo e não acredito em prorrogação; mas por amor à arte. À arte do texto.

Uma sugestão: já que o livro eletrônico tem espaço à beça, poderíamos promover edições de obras em que o leitor adquirisse não somente a tradução brasileira de uma obra clássica, mas também o texto original, e quem sabe em outras línguas (espanhol, inglês, francês), tudo incluído no pacote. No caso de clássicos em domínio público, ficaria baratíssimo.

Minha edição de “O Jogo da Amarelinha” de Julio Cortázar é da Cátedra (Madrid), na coleção “Letras Hispânicas”. O livro tem uma introdução com 70 páginas, uma bibliografia de 12 páginas de e sobre o autor, um mapa de Paris, fotos das ruas citadas. É um livrinho de bolso, não muito caro (me custou cerca de 50 reais), com menos de 800 páginas. Se dá pra fazer isso no papel, por que não nos pixels? Ao invés de uma bibliografia meramente citando títulos, que tal o e-book trazer, como faixas bônus, o texto de algumas das dezenas de críticas já feitas sobre o livro? O trabalho seria apenas o de licenciar os textos originais e incluí-los nos direitos autorais, separando uns 2 ou 3% para isto.

Um e-book pode me dar a possibilidade de comparar, sem me erguer da cadeira, um trecho da tradução com o original, e com as soluções encontradas por outros tradutores. Como “O Jogo da Amarelinha” é um romance passado em Paris, eu poderia ter não somente o mapa específico do livro, salientando os trajetos dos personagens, mas acesso ao mapa Google com imagens de satélite da rua em seu aspecto atual (o livro é ambientado nos anos 1950).

Notas de pé de página, que incomodam alguns leitores, podem vir sob a forma de balões que surgem na tela quando clicamos num trecho assinalado. No caso de “Rayuela”, que tem uma proposta vanguardista de leitura (por capítulos salteados), seria possível reordenar os capítulos de acordo com alguma das ordens de leituras propostas e lê-los assim de uma só enfiada, o que no livro de papel exigiria ficar indo e voltando. Um livro sem capítulos como “Grande Sertão: Veredas” poderia ser desmembrado em unidades ou episódios, num gráfico em forma de árvore, e seriam acessados diretamente para consulta rápida, sem que fosse quebrada a sua forma original. Há muitas maneiras de usar a eletrônica para valorizar o uso do texto e a fruição do texto.

domingo, 15 de agosto de 2010

2321) A estética do Algo Me Diz (15.8.2010)




(ilustração: Istvan Orosz)

O folhetim não é apenas o território predileto da coincidência: é também o terreno mais fértil para a premonição. 

Premonição é aquela certeza intuitiva e inexplicável que às vezes nos assalta, sem motivo aparente, mas com uma pressão que não pode ser ignorada. Às vezes é uma ansiedade crescente que vai se acumulando ao longo de dias e semanas; outras, é como um raio que cai de repente ou uma mão que nos agarra pela garganta.

“Algo me diz que esse porteiro não merece confiança”, murmura um personagem para a esposa ao subir no elevador. 

Outro, às voltas com os milhares de páginas do inventário de um espólio, tem tempo de comentar: “Algo me diz que essa procuração assinada em 1948 ainda vai nos causar problemas”. 

Uma mãe, vendo o filho apaixonadíssimo por uma mocinha linda e atenciosa, murmura por cima dos óculos: “Alguma coisa me diz que essa garota não é flor que se cheire”. 

 Por que dizem isso? Dizem porque estão ouvindo a voz de Algo, mas não sabem exatamente o quê, e não conseguem rastrear o por quê. O “algo” que está tentando lhes passar uma mensagem é o Inconsciente. O cérebro humano tem a capacidade de processar informações em paralelo, num setor secundário, enquanto o setor primário está se relacionando com outros indivíduos, conversando, falando, ouvindo, cuidando dos fatos exteriores da vida. 

Mas lá atrás alguns processos estão comparando informações, reexaminando detalhes, detectando pequenas discrepâncias. E mandando recado para a parte dianteira da mente: “Ei, ei, tem alguma coisa errada”.

O folhetinista hábil planta essas premonições ao longo da narrativa para preparar alguma situação, seja confirmando as desconfianças, seja desmentindo-as – porque, sim, o nosso Inconsciente também se engana, também comete erros de juízo e de interpretação. 

Mas a inquietação de um personagem, desde que formulada sem muito peso na mão, pode servir para criar uma tênue linha de suspense, a possibilidade sempre latente de um fato inesperado, de uma reviravolta que quando sucede nos pega em parte de surpresa e em parte nos faz confirmar, com uma pequena sensação de triunfo: “Arrá! Eu bem que desconfiei”.

No momento culminante do filme ou no derradeiro capítulo da novela, quando tudo parece perdido, um personagem secundário aparece com a solução providencial e redentora. Passado o susto, as quase vítimas exclamam: “Mas Dona Fulana! O que foi que lhe deu, para a sra. se lembrar de tomar essa providência?” E ela responde: “Alguma coisa me dizia que isso ia acabar acontecendo”. 

Um personagem de romance folhetim ou de telenovela está sempre com o ouvido atento para esse Algo, para essa Alguma Coisa que volta e meia bate à janela de sua alma para lhe passar um recado. Feliz do personagem que dá ouvidos a esses recados, porque quem os plantou ali foi o Arquiteto dos Personagens, o Artífice Onipotente dos seus destinos, cujo identidade, por modéstia, é melhor calarmos.






sábado, 14 de agosto de 2010

2320) Pagu (14.8.2010)




Este ano completam-se cem anos de nascimento de Patrícia Galvão, conhecida como Pagu, uma das figuras mais curiosas (e talvez a mulher mais bonita) do Modernismo brasileiro.

Pagu é ainda hoje uma espécie de nota ao pé da página do Modernismo, citada na maioria dos artigos como ex-esposa de Oswald de Andrade, como musa do movimento, e como romancista que escreveu um livro sobre operários (Parque Industrial, 1933) numa época em que estes eram meio que invisíveis para a literatura brasileira, com exceção dos comunistas. O que ela foi, aliás.

Foi também uma mulher irreverente e em certa medida escandalosa, cujos trajes e atitudes deixavam aflitas as famílias da época; uma espécie de Anayde Beiriz da Paulicéia Desvairada.

Para os cinéfilos brasileiros, Pagu é a mãe do recentemente falecido Rudá de Andrade, crítico de cinema, professor da USP e ex-conservador da Cinemateca Brasileira.

Para outros críticos, de pendores mais literários, é a mãe do escritor Geraldo Galvão Ferraz, aliás um entusiasta da ficção científica.

A biografia de Pagu é cheia de lances surpreendentes. Dirigiu peças de Arrabal e Ionesco, foi presa em Paris como comunista, trouxe da China sementes de soja e as introduziu no Brasil... Foi tema de canções, filmes e livros, e de um livro de Augusto de Campos; mas ainda falta uma dessas biografias extensas e detalhadas que dê conta da personagem fascinante que certamente foi.

Os eventos em homenagem ao seu centenário podem ser consultados aqui: http://www.pagu.com.br/blog/home/.

Falarei dela sob outro ângulo. A maioria dos jornalistas brasileiros em atividade digitou os caracteres “pulp fiction” pela primeira vez graças a Quentin Tarantino, que eles julgam ser o inventor dessa expressão. Não foi, e o Brasil teve “pulp fiction” durante muitos anos, embora fosse uma ficção traduzida, com poucos autores locais.

Um desses autores foi Pagu, que escreveu contos policiais publicados nas revistas da época, sob o pseudônimo de King Shelter (parece pseudônimo de roqueiro colombiano). Os contos policiais de Pagu foram reunidos pelo seu filho Geraldo Galvão Ferraz num volume intitulado Safra Macabra. Foram publicados entre junho e dezembro de 1944 na revista Detetive, cujo editor era Nelson Rodrigues.

Era uma época em que revistas populares de contos policiais (pulp magazines) eram publicadas no Brasil, tentando emular o sucesso que faziam nos EUA. Eram revistas como Mistérios, Meia Noite, A Novella, etc.

As que tiveram vida longa, como Detetive ou X-9 não revelaram autores nacionais, limitando-se a traduzir o material enviado pela matriz novaiorquina.

Ou talvez não. Assim como o pseudônimo King Shelter escondia uma intelectual de esquerda que dirigia peças do Teatro do Absurdo (mas precisava descolar uma grana para o aluguel do apartamento e o leite das crianças), talvez muitos outros nomes escondam personagens de cuja identidade nem suspeitamos.





sexta-feira, 13 de agosto de 2010

2319) “A Origem” (13.8.2010)



Este filme de Christopher Nolan está sendo chamado de “Matrix do Século 21” (não esqueçamos que o Matrix que abriu a trilogia é de 1999), e com razão. Bastante parecido, e diferentíssimo. Nolan é famoso hoje pelos seus dois filmes de Batman (Batman begins, 2005, 150 milhões de dólares; Batman, o Cavaleiro das Trevas, 2008, 185 milhões) mas pra mim ele é acima de tudo o cara que fez dois filmes personalíssimos: Amnésia (2000, 5 milhões), aquela história de crime contada de trás para diante, e O Grande Truque (2006, 40 milhões), a peleja entre dois mágicos na Inglaterra vitoriana, adaptando um romance de Christopher Priest. A Origem (“Inception”) é um filme de 160 milhões de dólares e de certo modo tenta fazer a ponte entre os filmes de ação e os filmes-cabeça do diretor. Estou citando esses orçamentos porque são números essenciais para definir um gênero. Até que ponto é possível (nos EUA) fazer um filme de ação bem sucedido com 5 milhões de dólares? Até que ponto é possível fazer um filme-cabeça bem sucedido com 160 milhões?

É nessa corda-bamba que se equilibra Nolan, um diretor que tem ambições mentais, quer contar histórias complexas, quer tocar em questões metafísicas através de enredos de ficção científica, e de fato se beneficiou em parte do sucesso de filmes como Matrix para poder alavancar (este verbo tão hollywoodiano) projetos como Origem. Como o filme entrou recentemente em cartaz, não discutirei em detalhe o roteiro, que tem as previsíveis surpresas e reviravoltas do gênero. Mas comentarei um aspecto dessa fusão de dois gêneros (ação e cabeça).

Não se trata de uma fusão, mas de uma colagem. Nolan bolou um enredo sobre pessoas capazes de penetrar nos sonhos das outras e viver lá dentro como se fosse uma realidade virtual a mais. Isto daria um ótimo thriller psicológico – vejam que não estou reivindicando nada do tipo Alain Resnais ou David Lynch. Pra mim, thriller psicológico tá de bom tamanho, é uma fórmula que pode resultar num ótimo filme. Como chegar a essa fórmula? Muito simples: tirando as cenas de ação, e o filme não perderia nada. Não perderia nada sem: 1) a perseguição a DiCaprio através da feira livre de um país oriental; 2) as duas perseguições à van onde os “ladrões de sonhos” fogem pela cidade, van que é atingida por cerca de 500 balas de alto calibre e só um cara é ferido; 3) o cerco e assalto à fortaleza na neve, que um crítico ironicamente chamou de “o momento Estação Polar Zebra do filme”. Para mostrar que não tenho nada contra cenas de ação, eu deixaria toda a sequência inicial, e depois toda a sequência em gravidade zero no hotel de luxo (tem que ver o filme para entender do que se trata). Os intermináveis, explosivos e ruidosos trechos de ação estão aí para fazer com que 2/3 da platéia assistam o restante do filme. Origem é como aqueles filmes-cabeça de Robbe-Grillet, cheios de cenas de sexo, sem as quais não seriam financiados, exibidos ou vistos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

2318) Drummond: “Toada do amor” (12.8.2010)



Os poemas de amor de Alguma Poesia (cujos 80 anos de publicação o Brasil está comemorando, ou melhor, os 8,12% do Brasil que leem poesia) parecem hoje meio bobinhos, meio dejavi, certamente porque antes de lê-los no livro de 1930 tomamos conhecimento das diluições que sofreram nos anos 1980. E olha que o amor nem foi o território em que Drummond, ao estrear em livro, produziu maiores abalos sísmicos, pelo menos comparado à constatação existencialista “avant la lettre” da vacuidade de sentido prévio à presença humana sobre a Terra (“No meio do caminho”). “Toada do amor” (que já no título questiona obliquamente, plebeiamente, a noção de “canções de amor”) é um poeminha singularmente banal e incomodamente irredutível a explicações. Reduzamo-lo.

Começa assim: “E o amor sempre nessa toada: / briga perdoa perdoa briga”. Essa repetição invertida é uma das figuras retóricas preferidas de Drummond. Exprime aquela notória rotina de todos os namorados presos aos nós das relações em que se concede a “A” o direito do questionamento e a “B” o dever da explicação, e vice-versa. Nunca se sai do lugar, porque o assunto em si nunca importa. Importa o exercício do Poder da Briga para poder exercer o Poder do Perdão.

“Não se deve xingar a vida”, aconselha o poeta; “a gente vive, depois esquece. / Só o amor volta para brigar, / para perdoar, / amor cachorro bandido trem”. Eis uma estrofe que começa bem e termina num rébus. Só me resta tentar interpretá-la literalmente. Cachorro: a gente o enxota a pontapés e ele volta fiel, de língua de fora. Bandido: a gente não pode confiar em nenhum trato, nenhuma jura. Trem: tudo bem, a gente perde um, daqui a pouco vem outro.

“Mas se não fosse ele, também / que graça que a vida tinha?” Ouso afirmar que nenhum Parnasiano ou Simbolista fez essa pergunta, mesmo deixando de lado a linguagem de flanelinha-de-estacionamento-de-show. Para os ânteros, o Amor era uma maiúscula inquestionável. Quase um imperativo categórico. Os Modernistas são mais jovens, mais leves com a bola nos pés, mais dispostos a driblar (e consequentemente a serem driblados sem perder a esportiva). Que coisa boa, esse tal de amor! O problema é que acaba logo, mas o camarada vai fazer o que? Suicidar-se com absinto, com láudano, com garrucha de dois canos?

Não, amigos. O Modernismo fez um acordo com o Amor. É a coisa mais-maior da humanidade, tudo bem, mas só é infinito enquanto dura. Ninguém precisa perder a gravata nem penhorar o sobrenome da família. O amor é um fenômeno, digamos, meteorológico, produzido pela Natureza, mas que ao fim e ao cabo deixa-a intacta no essencial. É preciso amar, e por isto mesmo não se pode atribuir a cada Amor um sentença de vida e morte. “Mariquita, dá cá o pito / no teu pito está o infinito”. O que é o pito? Não sei, e do ponto de vista retórico é bom que não o saibamos, porque cada um continuará a procurá-lo, Santo Graal inesgotável das terras do Sem-Fim.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

2317) O aleatório controlado (11.8.2010)



Ter que escrever todos os dias é um excelente exercício para os músculos da inspiração, os quais, tais como os músculos da respiração (diafragma, etc.) tanto podem funcionar de modo automático quanto de modo deliberado. Assunto nunca falta. Quando parece estar faltando, basta-me olhar para a parede da esquerda e estender a mão para a estante de livros à minha direita, pegar um livro ao acaso, abrir ao acaso, e naquela página encontrar o “assunto para a coluna de hoje”. Estou usando a palavra Acaso de maneira distorcida, porque não se trata de um Acaso total, e sim do que eu chamo “o aleatório controlado”.

Por que motivo eu não encontraria, nessa página apanhada às cegas, um assunto que me motivasse a escrever? O livro foi apanhado às cegas mas não foi comprado às cegas, foi fruto de uma escolha no ato de adquirir e de outra escolha no ato de mantê-lo na estante (porque são muitos os chamados, e poucos os escolhidos). Se está aqui ao alcance de mão é porque fala de algo que me interessa, e sendo assim seria eu muito burro se não conseguisse encontrar, num livro que me interessa, algo que valha a pena ser discutido publicamente. Algo como “Técnicas Artesanais Para Filtrar Processos Randômicos de Direcionamento de Discussões Intelectuais”.

Houve um tempo em que eu acordava, ligava o computador, e pensava: “Vou escrever a coluna de hoje em torno de algum assunto que venha na minha caixa de emails”. Bingo! Nesses dias, por uma mágica subjetiva, me aparecia não apenas um, mas três ou quatro assuntos bons de desenvolver. Alguns eram aleatórios: spams, circulares, propaganda, coisas que foram mandadas para mim sem estarem sendo mandadas para mim especificamente. Outros eram coisas encomendadas por mim, mas sem poder prever nem o conteúdo nem o momento em que chegariam às minhas mãos: newsletters de saites e de publicações sobre assuntos que me interessam (ciência, literatura, poesia, cinema, FC e por aí vai). Um belo dia abro a caixa e lá está um email da revista Edge discutindo os recentes aspectos científicos do conceito de Moral e Ética. Só está lá porque eu cliquei num botão, meses atrás, dizendo que estava interessado em qualquer coisa que essa revista viesse a discutir.

O primeiro exemplo é o aleatório puro; o segundo é o aleatório controlado. Podemos controlar o que nos chega por Acaso se escolhermos uma fonte de estímulos aleatórios. É como ligar o rádio para ouvir músicas. Não podemos escolher as músicas uma por uma, elas nos vêm de acordo com a vontade do programador. Mas eu sei que se ligar na rádio A tenho mais probabilidade de ouvir rock, e se ligar na rádio B provavelmente vou ouvir MPB. Fechamos um pouco o leque de opções, mas ainda deixando-o suficientemente aberto para saber que o resultado, impossível de prever de forma específica, ainda assim estará dentro de uma faixa de controle e escolha da nossa parte.

domingo, 8 de agosto de 2010

2315) Darcy e Feynman (8.8.2010)





Reparei um dia destes que nesta coluna vivo a falar elogiosamente de Richard Feynman, dizendo que é um dos sujeitos mais inteligentes que já vi. Não retiro uma vírgula, mas acho engraçado que eu nunca tenha me dado o trabalho de dizer o mesmo sobre um cara que mora metaforicamente aqui na esquina. 

Darcy Ribeiro, sob muitos aspectos, é o Feynman brasileiro. Fãs de um e fãs do outro hão de erguer agora, respectivamente, a sobrancelha esquerda e a direita, diante desta leve heresia. Não pode haver uma dupla de cidadãos mais dessemelhantes. 

Darcy era mineiro, foi simpatizante do comunismo, estudou etnologia, viveu dez anos entre os índios, tornou-se educador, fundou a Universidade de Brasília, viveu no exílio, foi vice-governador do Estado do Rio. 

Feynman era um norte-americano, filhos de judeus de ascendência polaca; trabalhou em pesquisas de energia atômica, ganhou um Prêmio Nobel de Física. O que têm em comum?

Basta ver as imagens dos dois falando (vocês pensam que o YouTube só serve pra ouvir música?) que qualquer pessoa percebe. Feynman e Darcy eram dois faladores compulsivos, incessantes. Alguém disse uma vez que para conseguir uma entrevista completa com Darcy bastava dizer: “Boa tarde, professor Darcy”, e ele começava: “Boa tarde, aliás uma belíssima tarde, típica da civilização tropical que o Brasil está construindo para o terceiro milênio, porque o choque das raças ocorrido neste território...”, e ia embora numa banguela de uma hora e meia. 

Darcy falava rápido como uma metralhadora; Feynman mais lentamente, mas talvez seja porque as imagens dele a que temos acesso já são dos seus últimos dez anos, durante sua queda-de-braço final contra o câncer. Mas, mais do que falar, ambos eram sujeitos ligados o tempo todo. Pense em dois cérebros com todas as luzes acesas! 

Darcy e Feynman são a prova viva, por exclusão, da teoria de Colin Wilson de que nós, seres humanos, somos todos zumbis, passamos a vida quase toda no piloto automático.

Senso de humor é outra característica dos dois. Não o senso de humor blasé e egoísta tão em moda nos nossos círculos pseudo-intelectuais, mas um senso de humor de quem se diverte com a estupidez humana sem deixar de se comover com o destino humano. E sem perder o afeto pelos humanos à sua volta, principalmente se forem só humanos, sem títulos, cargos ou posses.

Outro traço em comum: eram questionadores inveterados, indivíduos que nunca tiveram papas na língua, nem medo de contradizer, desafiar ou desmentir qualquer autoridade, por maior que fosse, que tivesse a infelicidade de dizer uma bobagem na sua frente. E o faziam com um sorriso divertido no rosto, sem rancor, sem agressividade, usando apenas a maior arma do intelecto: a verdade dos fatos. 

Usando apenas isto, incomodaram muita gente, enfrentaram tempestades administrativas e políticas, pagaram caro muitas vezes pela sua honestidade intelectual, e fizeram um enorme bem aos países onde atuaram.