terça-feira, 17 de agosto de 2010

2322) Sugestões para o livro eletrônico (17.8.2010)



Há duas atitudes extremas que não me interessam. Uma é achar que o livro eletrônico vai acabar com o livro de papel (não vai) ou com a prática da literatura (menos ainda). A outra é achar que ele é um milagre, e que vai habituar as pessoas a ler oferecendo-lhes coisas que se afastam cada vez mais do texto, livros que contêm mais desenho animado do que texto. Como objetos são uma gracinha. Mas eu, que sou um produtor de textos, quero suportes físicos que ajudem e valorizem o texto, não que o empurrem para segundo plano. Não por interesse pessoal ou vontade de ficar rico – já estou na metade do 2o. tempo e não acredito em prorrogação; mas por amor à arte. À arte do texto.

Uma sugestão: já que o livro eletrônico tem espaço à beça, poderíamos promover edições de obras em que o leitor adquirisse não somente a tradução brasileira de uma obra clássica, mas também o texto original, e quem sabe em outras línguas (espanhol, inglês, francês), tudo incluído no pacote. No caso de clássicos em domínio público, ficaria baratíssimo.

Minha edição de “O Jogo da Amarelinha” de Julio Cortázar é da Cátedra (Madrid), na coleção “Letras Hispânicas”. O livro tem uma introdução com 70 páginas, uma bibliografia de 12 páginas de e sobre o autor, um mapa de Paris, fotos das ruas citadas. É um livrinho de bolso, não muito caro (me custou cerca de 50 reais), com menos de 800 páginas. Se dá pra fazer isso no papel, por que não nos pixels? Ao invés de uma bibliografia meramente citando títulos, que tal o e-book trazer, como faixas bônus, o texto de algumas das dezenas de críticas já feitas sobre o livro? O trabalho seria apenas o de licenciar os textos originais e incluí-los nos direitos autorais, separando uns 2 ou 3% para isto.

Um e-book pode me dar a possibilidade de comparar, sem me erguer da cadeira, um trecho da tradução com o original, e com as soluções encontradas por outros tradutores. Como “O Jogo da Amarelinha” é um romance passado em Paris, eu poderia ter não somente o mapa específico do livro, salientando os trajetos dos personagens, mas acesso ao mapa Google com imagens de satélite da rua em seu aspecto atual (o livro é ambientado nos anos 1950).

Notas de pé de página, que incomodam alguns leitores, podem vir sob a forma de balões que surgem na tela quando clicamos num trecho assinalado. No caso de “Rayuela”, que tem uma proposta vanguardista de leitura (por capítulos salteados), seria possível reordenar os capítulos de acordo com alguma das ordens de leituras propostas e lê-los assim de uma só enfiada, o que no livro de papel exigiria ficar indo e voltando. Um livro sem capítulos como “Grande Sertão: Veredas” poderia ser desmembrado em unidades ou episódios, num gráfico em forma de árvore, e seriam acessados diretamente para consulta rápida, sem que fosse quebrada a sua forma original. Há muitas maneiras de usar a eletrônica para valorizar o uso do texto e a fruição do texto.

domingo, 15 de agosto de 2010

2321) A estética do Algo Me Diz (15.8.2010)




(ilustração: Istvan Orosz)

O folhetim não é apenas o território predileto da coincidência: é também o terreno mais fértil para a premonição. 

Premonição é aquela certeza intuitiva e inexplicável que às vezes nos assalta, sem motivo aparente, mas com uma pressão que não pode ser ignorada. Às vezes é uma ansiedade crescente que vai se acumulando ao longo de dias e semanas; outras, é como um raio que cai de repente ou uma mão que nos agarra pela garganta.

“Algo me diz que esse porteiro não merece confiança”, murmura um personagem para a esposa ao subir no elevador. 

Outro, às voltas com os milhares de páginas do inventário de um espólio, tem tempo de comentar: “Algo me diz que essa procuração assinada em 1948 ainda vai nos causar problemas”. 

Uma mãe, vendo o filho apaixonadíssimo por uma mocinha linda e atenciosa, murmura por cima dos óculos: “Alguma coisa me diz que essa garota não é flor que se cheire”. 

 Por que dizem isso? Dizem porque estão ouvindo a voz de Algo, mas não sabem exatamente o quê, e não conseguem rastrear o por quê. O “algo” que está tentando lhes passar uma mensagem é o Inconsciente. O cérebro humano tem a capacidade de processar informações em paralelo, num setor secundário, enquanto o setor primário está se relacionando com outros indivíduos, conversando, falando, ouvindo, cuidando dos fatos exteriores da vida. 

Mas lá atrás alguns processos estão comparando informações, reexaminando detalhes, detectando pequenas discrepâncias. E mandando recado para a parte dianteira da mente: “Ei, ei, tem alguma coisa errada”.

O folhetinista hábil planta essas premonições ao longo da narrativa para preparar alguma situação, seja confirmando as desconfianças, seja desmentindo-as – porque, sim, o nosso Inconsciente também se engana, também comete erros de juízo e de interpretação. 

Mas a inquietação de um personagem, desde que formulada sem muito peso na mão, pode servir para criar uma tênue linha de suspense, a possibilidade sempre latente de um fato inesperado, de uma reviravolta que quando sucede nos pega em parte de surpresa e em parte nos faz confirmar, com uma pequena sensação de triunfo: “Arrá! Eu bem que desconfiei”.

No momento culminante do filme ou no derradeiro capítulo da novela, quando tudo parece perdido, um personagem secundário aparece com a solução providencial e redentora. Passado o susto, as quase vítimas exclamam: “Mas Dona Fulana! O que foi que lhe deu, para a sra. se lembrar de tomar essa providência?” E ela responde: “Alguma coisa me dizia que isso ia acabar acontecendo”. 

Um personagem de romance folhetim ou de telenovela está sempre com o ouvido atento para esse Algo, para essa Alguma Coisa que volta e meia bate à janela de sua alma para lhe passar um recado. Feliz do personagem que dá ouvidos a esses recados, porque quem os plantou ali foi o Arquiteto dos Personagens, o Artífice Onipotente dos seus destinos, cujo identidade, por modéstia, é melhor calarmos.






sábado, 14 de agosto de 2010

2320) Pagu (14.8.2010)




Este ano completam-se cem anos de nascimento de Patrícia Galvão, conhecida como Pagu, uma das figuras mais curiosas (e talvez a mulher mais bonita) do Modernismo brasileiro.

Pagu é ainda hoje uma espécie de nota ao pé da página do Modernismo, citada na maioria dos artigos como ex-esposa de Oswald de Andrade, como musa do movimento, e como romancista que escreveu um livro sobre operários (Parque Industrial, 1933) numa época em que estes eram meio que invisíveis para a literatura brasileira, com exceção dos comunistas. O que ela foi, aliás.

Foi também uma mulher irreverente e em certa medida escandalosa, cujos trajes e atitudes deixavam aflitas as famílias da época; uma espécie de Anayde Beiriz da Paulicéia Desvairada.

Para os cinéfilos brasileiros, Pagu é a mãe do recentemente falecido Rudá de Andrade, crítico de cinema, professor da USP e ex-conservador da Cinemateca Brasileira.

Para outros críticos, de pendores mais literários, é a mãe do escritor Geraldo Galvão Ferraz, aliás um entusiasta da ficção científica.

A biografia de Pagu é cheia de lances surpreendentes. Dirigiu peças de Arrabal e Ionesco, foi presa em Paris como comunista, trouxe da China sementes de soja e as introduziu no Brasil... Foi tema de canções, filmes e livros, e de um livro de Augusto de Campos; mas ainda falta uma dessas biografias extensas e detalhadas que dê conta da personagem fascinante que certamente foi.

Os eventos em homenagem ao seu centenário podem ser consultados aqui: http://www.pagu.com.br/blog/home/.

Falarei dela sob outro ângulo. A maioria dos jornalistas brasileiros em atividade digitou os caracteres “pulp fiction” pela primeira vez graças a Quentin Tarantino, que eles julgam ser o inventor dessa expressão. Não foi, e o Brasil teve “pulp fiction” durante muitos anos, embora fosse uma ficção traduzida, com poucos autores locais.

Um desses autores foi Pagu, que escreveu contos policiais publicados nas revistas da época, sob o pseudônimo de King Shelter (parece pseudônimo de roqueiro colombiano). Os contos policiais de Pagu foram reunidos pelo seu filho Geraldo Galvão Ferraz num volume intitulado Safra Macabra. Foram publicados entre junho e dezembro de 1944 na revista Detetive, cujo editor era Nelson Rodrigues.

Era uma época em que revistas populares de contos policiais (pulp magazines) eram publicadas no Brasil, tentando emular o sucesso que faziam nos EUA. Eram revistas como Mistérios, Meia Noite, A Novella, etc.

As que tiveram vida longa, como Detetive ou X-9 não revelaram autores nacionais, limitando-se a traduzir o material enviado pela matriz novaiorquina.

Ou talvez não. Assim como o pseudônimo King Shelter escondia uma intelectual de esquerda que dirigia peças do Teatro do Absurdo (mas precisava descolar uma grana para o aluguel do apartamento e o leite das crianças), talvez muitos outros nomes escondam personagens de cuja identidade nem suspeitamos.





sexta-feira, 13 de agosto de 2010

2319) “A Origem” (13.8.2010)



Este filme de Christopher Nolan está sendo chamado de “Matrix do Século 21” (não esqueçamos que o Matrix que abriu a trilogia é de 1999), e com razão. Bastante parecido, e diferentíssimo. Nolan é famoso hoje pelos seus dois filmes de Batman (Batman begins, 2005, 150 milhões de dólares; Batman, o Cavaleiro das Trevas, 2008, 185 milhões) mas pra mim ele é acima de tudo o cara que fez dois filmes personalíssimos: Amnésia (2000, 5 milhões), aquela história de crime contada de trás para diante, e O Grande Truque (2006, 40 milhões), a peleja entre dois mágicos na Inglaterra vitoriana, adaptando um romance de Christopher Priest. A Origem (“Inception”) é um filme de 160 milhões de dólares e de certo modo tenta fazer a ponte entre os filmes de ação e os filmes-cabeça do diretor. Estou citando esses orçamentos porque são números essenciais para definir um gênero. Até que ponto é possível (nos EUA) fazer um filme de ação bem sucedido com 5 milhões de dólares? Até que ponto é possível fazer um filme-cabeça bem sucedido com 160 milhões?

É nessa corda-bamba que se equilibra Nolan, um diretor que tem ambições mentais, quer contar histórias complexas, quer tocar em questões metafísicas através de enredos de ficção científica, e de fato se beneficiou em parte do sucesso de filmes como Matrix para poder alavancar (este verbo tão hollywoodiano) projetos como Origem. Como o filme entrou recentemente em cartaz, não discutirei em detalhe o roteiro, que tem as previsíveis surpresas e reviravoltas do gênero. Mas comentarei um aspecto dessa fusão de dois gêneros (ação e cabeça).

Não se trata de uma fusão, mas de uma colagem. Nolan bolou um enredo sobre pessoas capazes de penetrar nos sonhos das outras e viver lá dentro como se fosse uma realidade virtual a mais. Isto daria um ótimo thriller psicológico – vejam que não estou reivindicando nada do tipo Alain Resnais ou David Lynch. Pra mim, thriller psicológico tá de bom tamanho, é uma fórmula que pode resultar num ótimo filme. Como chegar a essa fórmula? Muito simples: tirando as cenas de ação, e o filme não perderia nada. Não perderia nada sem: 1) a perseguição a DiCaprio através da feira livre de um país oriental; 2) as duas perseguições à van onde os “ladrões de sonhos” fogem pela cidade, van que é atingida por cerca de 500 balas de alto calibre e só um cara é ferido; 3) o cerco e assalto à fortaleza na neve, que um crítico ironicamente chamou de “o momento Estação Polar Zebra do filme”. Para mostrar que não tenho nada contra cenas de ação, eu deixaria toda a sequência inicial, e depois toda a sequência em gravidade zero no hotel de luxo (tem que ver o filme para entender do que se trata). Os intermináveis, explosivos e ruidosos trechos de ação estão aí para fazer com que 2/3 da platéia assistam o restante do filme. Origem é como aqueles filmes-cabeça de Robbe-Grillet, cheios de cenas de sexo, sem as quais não seriam financiados, exibidos ou vistos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

2318) Drummond: “Toada do amor” (12.8.2010)



Os poemas de amor de Alguma Poesia (cujos 80 anos de publicação o Brasil está comemorando, ou melhor, os 8,12% do Brasil que leem poesia) parecem hoje meio bobinhos, meio dejavi, certamente porque antes de lê-los no livro de 1930 tomamos conhecimento das diluições que sofreram nos anos 1980. E olha que o amor nem foi o território em que Drummond, ao estrear em livro, produziu maiores abalos sísmicos, pelo menos comparado à constatação existencialista “avant la lettre” da vacuidade de sentido prévio à presença humana sobre a Terra (“No meio do caminho”). “Toada do amor” (que já no título questiona obliquamente, plebeiamente, a noção de “canções de amor”) é um poeminha singularmente banal e incomodamente irredutível a explicações. Reduzamo-lo.

Começa assim: “E o amor sempre nessa toada: / briga perdoa perdoa briga”. Essa repetição invertida é uma das figuras retóricas preferidas de Drummond. Exprime aquela notória rotina de todos os namorados presos aos nós das relações em que se concede a “A” o direito do questionamento e a “B” o dever da explicação, e vice-versa. Nunca se sai do lugar, porque o assunto em si nunca importa. Importa o exercício do Poder da Briga para poder exercer o Poder do Perdão.

“Não se deve xingar a vida”, aconselha o poeta; “a gente vive, depois esquece. / Só o amor volta para brigar, / para perdoar, / amor cachorro bandido trem”. Eis uma estrofe que começa bem e termina num rébus. Só me resta tentar interpretá-la literalmente. Cachorro: a gente o enxota a pontapés e ele volta fiel, de língua de fora. Bandido: a gente não pode confiar em nenhum trato, nenhuma jura. Trem: tudo bem, a gente perde um, daqui a pouco vem outro.

“Mas se não fosse ele, também / que graça que a vida tinha?” Ouso afirmar que nenhum Parnasiano ou Simbolista fez essa pergunta, mesmo deixando de lado a linguagem de flanelinha-de-estacionamento-de-show. Para os ânteros, o Amor era uma maiúscula inquestionável. Quase um imperativo categórico. Os Modernistas são mais jovens, mais leves com a bola nos pés, mais dispostos a driblar (e consequentemente a serem driblados sem perder a esportiva). Que coisa boa, esse tal de amor! O problema é que acaba logo, mas o camarada vai fazer o que? Suicidar-se com absinto, com láudano, com garrucha de dois canos?

Não, amigos. O Modernismo fez um acordo com o Amor. É a coisa mais-maior da humanidade, tudo bem, mas só é infinito enquanto dura. Ninguém precisa perder a gravata nem penhorar o sobrenome da família. O amor é um fenômeno, digamos, meteorológico, produzido pela Natureza, mas que ao fim e ao cabo deixa-a intacta no essencial. É preciso amar, e por isto mesmo não se pode atribuir a cada Amor um sentença de vida e morte. “Mariquita, dá cá o pito / no teu pito está o infinito”. O que é o pito? Não sei, e do ponto de vista retórico é bom que não o saibamos, porque cada um continuará a procurá-lo, Santo Graal inesgotável das terras do Sem-Fim.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

2317) O aleatório controlado (11.8.2010)



Ter que escrever todos os dias é um excelente exercício para os músculos da inspiração, os quais, tais como os músculos da respiração (diafragma, etc.) tanto podem funcionar de modo automático quanto de modo deliberado. Assunto nunca falta. Quando parece estar faltando, basta-me olhar para a parede da esquerda e estender a mão para a estante de livros à minha direita, pegar um livro ao acaso, abrir ao acaso, e naquela página encontrar o “assunto para a coluna de hoje”. Estou usando a palavra Acaso de maneira distorcida, porque não se trata de um Acaso total, e sim do que eu chamo “o aleatório controlado”.

Por que motivo eu não encontraria, nessa página apanhada às cegas, um assunto que me motivasse a escrever? O livro foi apanhado às cegas mas não foi comprado às cegas, foi fruto de uma escolha no ato de adquirir e de outra escolha no ato de mantê-lo na estante (porque são muitos os chamados, e poucos os escolhidos). Se está aqui ao alcance de mão é porque fala de algo que me interessa, e sendo assim seria eu muito burro se não conseguisse encontrar, num livro que me interessa, algo que valha a pena ser discutido publicamente. Algo como “Técnicas Artesanais Para Filtrar Processos Randômicos de Direcionamento de Discussões Intelectuais”.

Houve um tempo em que eu acordava, ligava o computador, e pensava: “Vou escrever a coluna de hoje em torno de algum assunto que venha na minha caixa de emails”. Bingo! Nesses dias, por uma mágica subjetiva, me aparecia não apenas um, mas três ou quatro assuntos bons de desenvolver. Alguns eram aleatórios: spams, circulares, propaganda, coisas que foram mandadas para mim sem estarem sendo mandadas para mim especificamente. Outros eram coisas encomendadas por mim, mas sem poder prever nem o conteúdo nem o momento em que chegariam às minhas mãos: newsletters de saites e de publicações sobre assuntos que me interessam (ciência, literatura, poesia, cinema, FC e por aí vai). Um belo dia abro a caixa e lá está um email da revista Edge discutindo os recentes aspectos científicos do conceito de Moral e Ética. Só está lá porque eu cliquei num botão, meses atrás, dizendo que estava interessado em qualquer coisa que essa revista viesse a discutir.

O primeiro exemplo é o aleatório puro; o segundo é o aleatório controlado. Podemos controlar o que nos chega por Acaso se escolhermos uma fonte de estímulos aleatórios. É como ligar o rádio para ouvir músicas. Não podemos escolher as músicas uma por uma, elas nos vêm de acordo com a vontade do programador. Mas eu sei que se ligar na rádio A tenho mais probabilidade de ouvir rock, e se ligar na rádio B provavelmente vou ouvir MPB. Fechamos um pouco o leque de opções, mas ainda deixando-o suficientemente aberto para saber que o resultado, impossível de prever de forma específica, ainda assim estará dentro de uma faixa de controle e escolha da nossa parte.

domingo, 8 de agosto de 2010

2315) Darcy e Feynman (8.8.2010)





Reparei um dia destes que nesta coluna vivo a falar elogiosamente de Richard Feynman, dizendo que é um dos sujeitos mais inteligentes que já vi. Não retiro uma vírgula, mas acho engraçado que eu nunca tenha me dado o trabalho de dizer o mesmo sobre um cara que mora metaforicamente aqui na esquina. 

Darcy Ribeiro, sob muitos aspectos, é o Feynman brasileiro. Fãs de um e fãs do outro hão de erguer agora, respectivamente, a sobrancelha esquerda e a direita, diante desta leve heresia. Não pode haver uma dupla de cidadãos mais dessemelhantes. 

Darcy era mineiro, foi simpatizante do comunismo, estudou etnologia, viveu dez anos entre os índios, tornou-se educador, fundou a Universidade de Brasília, viveu no exílio, foi vice-governador do Estado do Rio. 

Feynman era um norte-americano, filhos de judeus de ascendência polaca; trabalhou em pesquisas de energia atômica, ganhou um Prêmio Nobel de Física. O que têm em comum?

Basta ver as imagens dos dois falando (vocês pensam que o YouTube só serve pra ouvir música?) que qualquer pessoa percebe. Feynman e Darcy eram dois faladores compulsivos, incessantes. Alguém disse uma vez que para conseguir uma entrevista completa com Darcy bastava dizer: “Boa tarde, professor Darcy”, e ele começava: “Boa tarde, aliás uma belíssima tarde, típica da civilização tropical que o Brasil está construindo para o terceiro milênio, porque o choque das raças ocorrido neste território...”, e ia embora numa banguela de uma hora e meia. 

Darcy falava rápido como uma metralhadora; Feynman mais lentamente, mas talvez seja porque as imagens dele a que temos acesso já são dos seus últimos dez anos, durante sua queda-de-braço final contra o câncer. Mas, mais do que falar, ambos eram sujeitos ligados o tempo todo. Pense em dois cérebros com todas as luzes acesas! 

Darcy e Feynman são a prova viva, por exclusão, da teoria de Colin Wilson de que nós, seres humanos, somos todos zumbis, passamos a vida quase toda no piloto automático.

Senso de humor é outra característica dos dois. Não o senso de humor blasé e egoísta tão em moda nos nossos círculos pseudo-intelectuais, mas um senso de humor de quem se diverte com a estupidez humana sem deixar de se comover com o destino humano. E sem perder o afeto pelos humanos à sua volta, principalmente se forem só humanos, sem títulos, cargos ou posses.

Outro traço em comum: eram questionadores inveterados, indivíduos que nunca tiveram papas na língua, nem medo de contradizer, desafiar ou desmentir qualquer autoridade, por maior que fosse, que tivesse a infelicidade de dizer uma bobagem na sua frente. E o faziam com um sorriso divertido no rosto, sem rancor, sem agressividade, usando apenas a maior arma do intelecto: a verdade dos fatos. 

Usando apenas isto, incomodaram muita gente, enfrentaram tempestades administrativas e políticas, pagaram caro muitas vezes pela sua honestidade intelectual, e fizeram um enorme bem aos países onde atuaram.





sábado, 7 de agosto de 2010

2314) O certo e o errado (7.8.2010)



O fato de que “2 + 2 = 4” exprime a tendência da Natureza a apresentar padrões e relações invariáveis. As quantidades são objetivas; o número é subjetivo. É a mente humana quem cria esse signo em comum entre dois pássaros, duas palavras ou dois dias. O número é uma abstração para ordenar coisas concretas. Quando começamos a conceber níveis mais rarefeitos, como a raiz de menos 2, é que entramos no terreno dos números que não pertencem à Natureza, mas apenas à Cultura. Números que já são mera linguagem, não exprimem coisas. É como a passagem da pintura figurativa para a pintura abstrata.

Já o Bem e o Mal, o Certo e o Errado... Jorge Luís Borges contou um episódio que ilustra bem este conceitos tão elusivos. Num clube chique de Buenos Aires um homem, numa noite de jogatina, perdeu tudo quanto tinha. No dia seguinte, recusou-se a pagar a dívida, alegando que não podia jogar a família na miséria por causa de uma noite de loucura. Borges comenta com sarcasmo a reação horrorizada dos outros cavalheiros portenhos, que passaram a tratar esse indivíduo “como se fosse um leproso”. Para eles, a palavra dada e o compromisso assumido num contexto entre “gentlemen” eram mais importantes do que o destino da pobre família, porque “não observar as dívidas de honra seria cair no anarquismo”.

Existe uma certa lógica no comportamento desses cavalheiros, se quisermos levar em conta apenas as relações matemáticas envolvidas na questão. Um jogo envolve sempre uma disputa entre habilidades matemáticas em que, como se trata de um processo quantitativo, é sempre possível refinar os números até alcançar um desempate. Se os amigos de Borges jogavam roleta, estão disputando a capacidade de prever o comportamento de um elemento aleatório. Se jogavam baralho, estão disputando quem é capaz de realizar combinações mais bem sucedidas com elementos (as cartas) recebidos aleatoriamente. A fascinação matemática que tais atividades despertam em pessoas com esse tipo de mentalidade é enorme. Tão enorme que em muitos momentos deixam em segundo plano coisa como família, filhos, posses, etc.

O Bem e o Mal não são leis da natureza, são construções artificiais inventadas pelos seres humanos. Mas acabaram se revelando úteis, tão úteis quanto os números. O Bem e o Mal não existem num mundo sem seres humanos. Fomos nós que criamos esses conceitos, como criamos os conceitos de Norte e Sul como direções. (Eles existiam apenas como polos magnéticos da Terra; usá-los para orientar-se é criação humana, é Cultura).

O que é mais importante, honrar uma dívida de jogo e mandar a própria família para a miséria, ou dizer “não pago, e pronto”? A resposta a um problema como este define duas formas de cultura bem diferentes. Não chegarei ao ponto de dizer que uma está certa e a outra errada, porque se aderirmos cegamente a qualquer uma das duas vamos ter problemas. Mas são um Norte e um Sul, para quem quiser ver.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

2313) O estilo de Saramago (6.8.2010)



Nunca terminei nenhum dos romances de José Saramago, embora ache excelentes todos os que li até a metade. Sou um leitor indisciplinado e descontínuo. Prosa mais elaborada me cativa mas me desnorteia. Me força a passar às vezes um dia inteiro lendo e relendo uma página, atrapalhado mas sabendo o quanto aquilo me traz de lucro intelectual e prazer estético. Ótimo – mas é um ritmo de leitura arriscado para enfrentar um romance de 300 páginas. Quando abandono um desses livros não é por estar pensando “ah, que saco, que livro chato, estou perdendo meu tempo”. É com a sensação de que ele me exige um esforço intelectual que não estou em condições de empreender no momento. Melhor interromper a leitura, devolver o livro à estante e pegar, na pilha de “leituras obrigatórias” (ou na de “aquisições recentes”, ou na de “referências necessárias para um trabalho em andamento”, ou na de “releituras de obras lidas na imaturidade”, etc.) algo que flua mais depressa, que possa ser lido no metrô, no aeroporto e na fila do Banco.

Não consigo ler Saramago ou Osman Lins ou Nabokov na fila do Banco, mas consigo ler Roberto Bolaño ou Philip K. Dick ou Isaac Bashevis Singer, que considero tão bons quanto os anteriores, e cuja leitura flui sem se deixar perturbar pelo barulho em volta. Isto coloca de maneira útil a velhíssima e equivocada questão de que escritor bom tem que ser difícil, e que se um escritor é difícil é porque é bom, e se é fácil então certamente deve ser ruim. Jorge Amado (exemplo de escritor que tem coisas muito boas e coisas muito fracas) é sempre fluente, independentemente da qualidade. O que há é que a leitura fluente é aquela em que não precisamos de muito esforço para pegar de volta uma leitura interrompida uma semana ou um mês atrás (o que comigo é muito frequente). Pego o livro que larguei na página 245, volto uma ou duas para me situar, e daí em diante é como se tivesse parado de ler na véspera.

Outros autores não permitem isso. Se o fazemos é ao preço de perder muito do que têm de bom para nos dar. Alguns autores exigem, seja pela densidade da linguagem, seja pela complexidade do enredo, que no momento da leitura tenhamos vívidos na memória centenas de elementos recém-referidos, no parágrafo anterior, na página anterior, no capítulo anterior. Existe uma acústica de ressonâncias que, numa leitura muito interrompida, acabamos sem perceber. Alusões que nos fazem “cair a ficha” se lembramos de algo dito cinco páginas atrás; se já esquecemos (porque a página foi lida na semana anterior), a ficha cai no vácuo.

Voltando a Saramago: o momento do que ele narra é sempre muito nítido, muito visualmente realista e concreto, mas seus enredos gostam de um labirinto. E sua pontuação (de que ele tanto se orgulhava, com motivos) é um irritante cacoete para alguns leitores, que simplesmente não conseguem assimilá-la. Há leitores para quem uma interferência nesse aspecto estraga qualquer prazer.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

2312) “Casanova e a Revolução” (5.8.2010)




Há um subgrupo da ficção histórica que eu chamaria de “Encontros Meta-Históricos”, narrativas em que o autor imagina um possível encontro (que não aconteceu na vida real) entre personagens históricos que foram contemporâneos uns dos outros e que, teoricamente, poderiam ter se cruzado nesta ou naquela circunstância. O que teria resultado desse encontro? 

O primeiro texto desse gênero que me chamou a atenção foi a peça Travesties de Tom Stoppard, que imagina o que aconteceria se se encontrassem em Zurique três indivíduos que viveram lá na mesma época: Vladimir Lênin, James Joyce e Tristan Tzara.

Casanova e a Revolução é um filme de Ettore Scola (1982) que postula um encontro parecido. O escritor e conquistador Giacomo Casanova, o escritor, polemista e pornógrafo Rétif de la Bretonne e o revolucionário norte-americano Thomas Paine viajam na mesma estrada por onde Luís XVI e Maria Antonieta fogem incógnitos de Paris. 

O casal real quer se reunir às tropas anti-revolucionárias prestes a invadir a França para botar a casa em ordem, ou seja, botar o Absolutismo de volta no trono. 

Este episódio ficou conhecido como “A Noite de Varennes”, porque foi nessa cidadezinha que o Rei foi reconhecido, preso e recambiado até Paris e, depois, a guilhotina. E tudo que ocorre em volta, na França conturbada pós-Revolução, é visto e comentado por aqueles três personagens, em seu encontro fictício, improvável mas não impossível. 

O melhor do filme é Marcello Mastroianni. Velho e decrépito, ele faz o papel de Casanova velho e decrépito. E mostra que velhice e decrepitude não necessariamente cancelam a inteligência e o charme de um indivíduo.

O filme é um “road movie” setecentista, o que parece uma contradição em termos, porque quando falamos em “road movies” pensamos em Dennis Hopper, em Wim Wenders, em cineastas beatniks, em andarilhos hippies. Mas estrada é sempre estrada, e a estrada no cinema serve para o mesmo fim, seja ela percorrida por motos ou por carruagens. 

Temos um bloco fixo de personagens que conversam o tempo todo, e enquanto isso a estrada vai passando, o mundo os visita, o país em que estão os cumula de surpresas. Os viajantes veem-se a cada passo desafiados pelos imprevistos do caminho e se safam como podem. 

Uma crítica que li sobre este filme de Ettore Scola reclama que há muita conversa e pouca ação; curiosamente isto me trouxe à mente os romances do século 18, que são exatamente isto. Os romances de Voltaire, Sterne, Diderot, Fielding (e os de Casanova e Rétif de la Bretonne) são romances picarescos em que acontecem relativamente poucas coisas, comparadas às quilométricas discussões filosóficas dos protagonistas. 

Scola dá ao seu filme esse espírito de época, mais difícil de captar e de realizar do que um simples figurino ou cenografia de época. É uma história feita ao perfil do seu tempo, e ao perfil da obra dos escritores que são seus protagonistas.