segunda-feira, 19 de julho de 2010

2290) Deterioração do caráter (10.7.2010)



Parece que há uma epidemia em curso no Ocidente, de achar que “o mundo não é mais o mesmo”, “as novas gerações se comportam de uma maneira que, no meu tempo, seria inadmissível” e assim por diante. Será verdade? Eu, pelo menos, acho; e vivo a repetir essas frases, mas repito-as com a consciência de que são o karma que cabe a cada geração de ex-candidatos a revolucionários. Os contestadores de hoje (cabelo moicano, tatuagens, promiscuidade, drogas) dirão daqui a 30 anos: “Esses jovens de hoje não têm noção de valores!”. E la nave va.

Li na Web (http://www.city-journal.org/2008/18_4_otbie-british_character.html) um artigo assinado por um gentleman com o irresistível nome de Theodore Dalrymple (que a revista informa ser médico, e autor do livro Not With a Bang But a Whimper) em que ele fundamenta críticas desse tipo com algumas argutas observações sobre o ser humano e as civilizações de língua inglesa. Teríamos muito a aprender com a decadência britânica, porque parece que todas as decadências se assemelham.

Mr. Dalrymple fala que sua mãe chegou à Inglaterra fugindo da Alemanha nazista e se encantou com os ingleses, com seu caráter, seu modo de ser. Diz ele: “Os britânicos lhe pareceram indivíduos centrados, controlados, respeitadores da lei, e ao mesmo tempo tolerantes com outras pessoas, por mais excêntricas que fossem, e com uma visão profundamente irônica da vida, que os encorajava a rir de si mesmos e a perceber sua própria desimportância no universo. (...) Eram polidos e atenciosos, em vez de intrometidos e presunçosos; os que eram seguros de si procuravam não humilhar os tímidos ou retraídos; e mesmo os mais bem-sucedidos tinham consciência de que seu sucesso era uma mera gota dágua num oceano de possibilidades, e bem que poderia ser ainda maior se eles tivessem se esforçado um pouco mais ou tivessem mais talento”.

Não sei se os ingleses são assim, mas se alguém é assim eu bato palmas. Mr. Dalrymple observa mais adiante que um inglês deve ser o único indivíduo que, quando alguém pisa no seu pé, ele pede desculpas. Mas ele registra com dissabor que “a cultura e o caráter dessa contenção tipicamente britânica transformou-se no seu contrário. Atitudes extravagantes, veemência de expressão, o hábito de se vangloriar, de se exibir, ausência de qualquer tipo de inibição... é isto que temos que admirar hoje, e a antiga modéstia é objeto de escárnio”.

Nada disto tem a ver com o Brasil, não é mesmo? Eu, pelo menos, acho que não. Ademais, essas coisas geralmente se manifestam em movimentos pendulares – numa hora vão na direção de Mais Bagunça, aí quando a coisa está bagunçada demais começa um movimento na direção de Mais Disciplina, que acaba por se tornar insuportável, e aí lá vem a Mais Bagunça de novo... Enfim, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, como dizia Camões. Mas algo me diz que, se bem que o Brasil tenha esperanças, o império britânico (infelizmente) nunca mais será o mesmo.

2289) “Casamento do Céu e do Inferno” (9.7.2010)



(Drummond, por Portinari)

O terceiro poema de Alguma Poesia (1930), livro de estréia de Carlos Drummond, é uma espécie de grão original de onde brotarão inúmeros outros, expandindo o primeiro, contradizendo-o, questionando-o, desmentindo-o, aprofundando-o. Drummond tinha uma amplitude temática impressionante, mas, como todo poeta que vai fundo, circula reiteradamente por entre um número finito de situações. Este “Casamento” (que no título ironiza William Blake e sua visão grandiosa do choque entre o Sagrado e o Profano) faz parte das primeiras investidas modernistas contra a moral pequeno-burguesa e a noção do amor romântico, que justifica essa moral e lhe doura a pílula. Nos versos iniciais, termos como “azul de metileno” e “diurética” cortam de cara qualquer possibilidade de romantismo açucarado (uma terminologia plebéia que lembra Augusto dos Anjos).

CDA contrapõe o jeitão meio atabalhoado dos defensores da pureza ao dos semeadores do pecado. De um lado, os anjos, que se limitam (como a mãe do poeta, no poema anterior, “Infância”) a espantar mosquitos dos cortinados das lolitas, e São Pedro, que dorme. Do outro, o Diabo modernista, armado de luneta. Drummond satiriza a poesia parnasiana de Bilac, que dizia, em “Virgens Mortas”: “Quando uma virgem morre, uma estrela aparece, / nova, no velho engaste azul do firmamento”. Drummond afiança: “...diz-se que tem virgens tresmalhadas, incorporadas à via-látea, vagalumeando...” E se Drummond avisa que o Diabo tem um “olho torto” e espreita tudo “por uma frincha”, ecoa também Bilac no mesmo soneto, quando faz aos namorados uma advertência pudica: “Piedade! Elas veem tudo entre as moitas escuras...” Drummond iguala as virgens mortas e o Diabo no mesmo voyeurismo sacana.

Drummond fala que o mundo está cheio de suspiros de “bocas machucadas”, e que “os corpos enrolados / ficam mais enrolados ainda / e a carne penetra na carne”. Imagino que na época este verso terá causado um ligeiro escândalo. Bilac, um dos mais sensuais dos nossos poetas, usava imagens assim, mas as usava envoltas nos véus de musselina da mitologia grega ou outro maneirismo aparentado. Drummond, em seus versos sem métrica nem rima, diz a coisa com o nome da coisa e o leitor não consegue ver naquilo outra coisa senão a coisa.

A estrofe final é de uma sem-cerimônia libertária: “Que a vontade de Deus se cumpra! / Tirante Laura e talvez Beatriz, / o resto vai para o inferno”. A citação às musas de Petrarca e de Dante Alighieri manda a pureza de volta para a Idade Média. Nos tempos modernos, parece dizer o poeta, toda mulher só pensa mesmo naquilo, então, fazer o quê? E que saborosa ambiguidade a desse ótimo “Que a vontade de Deus se cumpra!” Ou seja, se o mundo está entrando numa época de “liberou geral” é porque Deus quis. O poeta diz uma frase de velhinha cristã fazendo o pelo-sinal, mas a diz num tom de quem esfrega as mãos satisfeito e olha o mundo com um olho... ousarei dizer que “torto”?

2288) “Rede de Intrigas” (8.7.2010)



Este filme magnífico de Sidney Lumet (Network, 1976) é um dos ataques mais devastadores já feitos pelo cinema à televisão. Esta guerra entre cinema e TV vem há muitos anos, e o mais interessante é que não importa por qual dos dois a gente torça: cada crítica que um faz ao outro nos parece inteiramente justificada. Lumet é um diretor competente, um desses mestres do cinemão realista tradicional, autor de filmes que admiro muito (O Homem do Prego, A Colina dos Homens Perdidos, Assassinato no Orient Express, Um Dia de Cão, etc.). Ele contou aqui com um roteiro devastador de Paddy Chayefsky, que ganhou os principais prêmios nesse ano: Oscar, Globo de Ouro, Los Angeles Film Critics, New York Film Critics e Writers Guild. Não digo isto por ser deslumbrado com prêmios (na maioria dos casos são bobagens), mas porque parece que todo mundo nos EUA, naquele momento, estava ansioso por alguém que mostrasse o que a TV andava fazendo naquele país. Chayefsky veio e mostrou. Mostrou tão bem que um filme de 35 anos atrás parece ter sido feito para analisar a TV de hoje, com seu sensacionalismo, sua amoralidade, seu concubinato com o grande capital, seus “irreality shows”, sua capacidade de transformar em dinheiro tudo que toca.

Lumet é um diretor com um veio teatral forte, e costuma extrair boas interpretações dos seus atores. Deste filme, cinco foram indicados ao Oscar, e três ganharam (Faye Dunaway, Peter Finch e Beatrice Straight). Grande parte do poder de convencimento do filme se deve a essas interpretações. Além destes citados, William Holden, Ned Beatty e Robert Duvall estão excelentes e dão extrema credibilidade às brigas dos executivos de uma emissora mediana, comprada por um grande conglomerado financeiro, que de repente começa a fazer sucesso quando o âncora (Peter Finch) de seu principal telejornal – uma espécie de Cid Moreira ou William Bonner – entra num surto psicótico e torna-se uma espécie de guru alucinado que verbaliza de forma incoerente a insatisfação do público.

Ned Beatty disse uma vez: “Nunca recuse nenhum papel. Trabalhei somente um dia em Rede de Intrigas e fui indicado para um Oscar”. A cena em que ele usa o mesmo tom messiânico do personagem de Peter Finch para explicar a este o que é globalização e capitalismo multinacional é antológica. Network deveria ser exibido em todos os nossos pretensos Cursos de Comunicação, que ensinam tanto beabá de clichês. A maior parte das pessoas que faz televisão não tem idéia do que é a televisão. Stanislaw Ponte Preta batizou a TV de “máquina de fazer doidos” e todo mundo pensou que ele se referia ao público. Não era. Estava falando das pessoas que fazem televisão. Para quem assiste é um ópio, ajuda a relaxar e a dormir para enfrentar o batente do dia seguinte. Para quem a faz, é uma cocaína. Basta ver este filme de Lumet, onde não há um só personagem que não esteja rilhando os dentes o tempo todo.

2287) Nem Deus nem a Ciência (7.7.2010)



(Raimundo Carrero)

O escritor Raimundo Carrero, que é um católico penitente, sofrido, dostoievskiano, declarou numa entrevista: “O homem moderno não acredita em Deus, e, mais gravemente, tem orgulho de dizer que não acredita em Deus. E não acredita na Ciência. Está fazendo as maiores loucuras com a Terra, e não acredita também no Espírito da Terra”. É uma boa maneira de colocar o problema da catástrofe ambiental generalizada que estamos começando a vivenciar, porque para alguns este estado de coisas se deve à Ciência, ou melhor, ao poder que a Ciência adquiriu no mundo, desbancando a Religião. Para mim, não é nada disso.

Fala-se que é a Ciência que está destruindo o mundo, e que o grande mal do Homem Moderno é o excesso de racionalidade, de lógica. Peço licença para discordar. Ciência, racionalidade e lógica tem certamente um papel importante em tudo quanto existe de ruim no mundo: as guerras, a exploração econômica de países pobres e de populações ignorantes, a destruição do meio ambiente e tudo o mais. Mas isso não é tudo, e na verdade não é nem um terço da história toda.

Lógica e racionalidade são atributos do neocórtex cerebral que o ser humano desenvolveu há pouco tempo (100 ou 200 mil anos). É a parte do cérebro capaz de pensamento abstrato, planejamento, linguagem, percepção. É o cientista dentro de nós, e é a parte mais recente do nosso cérebro. Só que ela não decide muita coisa: quem decide, quem nos mobiliza e nos faz agir, são estruturas mais profundas. Por exemplo: o que os cientistas chamam de cérebro mamífero (“sistema límbico”). O cérebro mamífero é típico das criaturas de sangue quente, que amamentam filhotes e cuidam deles com altruísmo e dedicação, e que se associam em hordas, bandos e manadas obedecendo a um “contrato social” instintivo. Esse contrato lhes diz que juntos estão mais seguros e mais felizes do que sozinhos; e que um gesto de generosidade feito hoje poderá ser retribuído amanhã. Sem isso, nenhum ser sobrevive, nenhuma espécie sobrevive, como aliás estamos a ponto de constatar, por nossa conta e risco.

No entanto, por dentro destes dois, existe o mais antigo. Todo ser humano tem um cérebro réptil, o mais antigo de todos, incrustado no centro do seu. Por trás dos males do mundo, ou pelo menos por trás desse trio que acabei de citar, o que existe, como fator propulsor, é um espírito predatório e destrutivo do ser humano. Um espírito egoísta e auto-centrado, que só reconhece a si próprio como objetivo e se comporta como se o mundo lhe pertencesse por direito. Eu diria que existe em muitas sociedades humanas uma espécie de Espírito Reptiliano, um espírito de sangue frio e olho de lince, permanentemente focado em tudo quanto possa contribuir para sua sobrevivência, mesmo que à custa da sobrevivência de quem quer que seja, inclusive dos seus semelhantes, do grupo a que pertence, do planeta que habita.

domingo, 18 de julho de 2010

2286) Adeus, Dunga (6.7.2010)



Perdi minha inocência esportiva na véspera da decisão da Copa de 1974, entre Alemanha Ocidental x Holanda, quando li uma entrevista de Franz Beckenbauer, dizendo: “Não podemos perder o jogo de amanhã, pois eu e meus companheiros assinamos contratos de publicidade caríssimos, mas que só terão validade se formos campeões”. A Alemanha ganhou e Beckenbauer está rico até hoje. Aliás não só ele. Qualquer jogador que dispute uma Copa do Mundo, mesmo que pela seleção de Honduras ou de Gana, está rico, pelo menos pelos meus parâmetros financeiros.

Previ repetidas vezes, aqui nesta coluna, que o Brasil perderia esta Copa, porque seria muito arriscado – para os Poderes Que Mandam – permitir que conquistássemos agora nosso sexto título, com todas as condições de conquistarmos o sétimo em 2014, quando seremos anfitriões. Iríamos deixar os outros muito para trás (a Itália com quatro, Alemanha com três). Sermos penta nos dá mais orgulho do que sermos a sede da floresta amazônica. Nossa imprensa e nossa torcida se apegam a isso, naquelas madrugadas dostoievskianas quando a Inutilidade do Ser e a Falta de Sentido ds Existência se abatem sobre nós. O sujeito está vendido e mal pago, escorraçado ao botequim, enganado pelo sócio, traído pela mulher, perseguido pelos credores, ameaçado pelo gerente do banco onde passa borrachudos, mas aí ele chama o garçom para pedir uma cerveja e vê a propaganda da Seleção na parede. “Ora que diabo,” pensa ele, “sou Penta!” Aí em vez de uma cerveja pede um litro de uísque. E assim caminha a humanidade.

A Seleção de Dunga perdeu pelas suas limitações óbvias, mas é uma pena que suas qualidades também óbvias venham a ser esquecidas em breve. O mais interessante até agora é que tudo que pediam que Dunga fizesse foi feito por Maradona: encher o time de atacantes, convocar as novas revelações, abrir os treinos, ser simpático com a imprensa, mandar o time todo para o ataque, exaltar o futebol-arte... Maradona fez tudo que Dunga se recusou a fazer, mas ambos deram com os mesmos burros na mesma água. Alguém já levantou a lebre de que “ex-jogador não serve para técnico de seleção”, o que me parece um erro. Até porque os nossos melhores treinadores, ou pelo menos os mais candidatos à vaga de Dunga, são todos ex-jogadores.

Dunga perdeu o primeiro jogo realmente difícil que teve na Copa, e o perdeu, surpreendentemente, quando já o tinha ganho pela metade, num primeiro tempo impecável. Eu pagaria uma fortuna, se a tivesse, para saber o que foi conversado no vestiário do Brasil, antes do 2o. tempo contra a Holanda. Não, não estou pensando em Teorias da Conspiração, naquelas histórias mirabolantes de que a Nike ou a Adidas ofereceu 10 milhões de euros à CBF para o Brasil abrir o jogo. Espero que isso nunca aconteça, porque Ricardo Teixeira tem uma cara danada de quem aceitaria. O Brasil perdeu pelos nervos, mas fico pensando: o que deixou o Brasil tão nervoso?

2285) Os cavalos e as zebras (4.7.2010)




A Navalha de Occam (“Occam’s Razor”) é uma figura do discurso filosófico que consiste mais ou menos no seguinte: em qualquer problema, deve-se começar a procurar a solução pelas mais simples, não pelas mais complicadas. 

O termo “navalha” entra aí com sugestão de que sejam “raspados” todos os excessos, todos os elementos desnecessários à resposta. 

Isto não quer dizer que uma explicação complicada não pode ser verdadeira, mas que, na imensa maioria dos casos, são as explicações mais simples que matam a charada.

Suponhamos que estou em casa, no Rio de Janeiro, às 3 da tarde, lendo no sofá. Tocam à campainha. Levanto-me, pensando: “Puxa vida, deve ser alguém que veio da Paraíba para me visitar!”. Minha suposição não é absurda, pois o que imaginei pode muito bem acontecer. Mas se ao aplicasse a Navalha de Occam eu pensaria: “Não será o porteiro trazendo uma correspondência registrada? Um vizinho querendo me perguntar alguma coisa? Ou algum amigo que mora aqui perto?”. 

Estas hipóteses são tão plausíveis quanto a anterior, e têm a vantagem de serem explicações mais simples, de serem estatisticamente mais prováveis.

Daí a crítica que faço muitas vezes a jornalistas ou pessoas em geral, mal-informadas, que quando se referem a OVNIs sugerem que são visitantes “de outras Galáxias”. Quem diz isto não tem a menor ideia do que seja uma galáxia, ou da distância a que fica a galáxia mais próxima. 

Seria o mesmo que, ouvindo a campainha do meu apartamento, eu imaginasse que era alguém do Japão tocando – e não alguém do meu prédio, ou da minha cidade. 

(Se algum OVNI viesse da galáxia mais próxima da nossa, a Nebulosa de Andrômeda, levaria, viajando à velocidade da luz, cerca de 2 milhões e meio de anos para nos fazer essa visita. Melhor supor que seja alguém que more mais perto.)

Numa discussão recente sobre a Navalha de Occam na lista “A Word a Day”, o leitor Dean Barnard lembrou uma frase repetida frequentemente no curso de Medicina, para aconselhar aos estudantes que procurem respostas mais simples: “Se ouvir lá fora um barulho de cascos, pense que é um cavalo, não que é uma zebra”. 

Ele perguntou se num país africano este conselho continuaria valendo. O leitor Max Bennun, da África do Sul, respondeu: “Aqui em nosso país os estudantes de Medicina ouvem dizer que se vemos um pássaro pousado num galho é mais provavelmente um pardal do que um canário. Daí que no nosso linguajar médico a ocorrência de condições extraordinárias acabou sendo chamada de ‘canário’”.

A Navalha de Occam não nega a possibilidade de que fatos extraordinários aconteçam, apenas recorre ao bom senso para lembrar que se um fato extraordinário pode, sim, acontecer, um fato ordinário pode mais ainda. 

É uma questão de ir por partes, do mais possível para o menos possível, e só imaginar uma resposta complicada quando não houver nenhuma resposta simples que resolva o problema.





2284) Drummond: “Infância” (3.7.2010)



O segundo poema de Alguma Poesia (livro de estréia de Carlos Drummond de Andrade, completando 80 anos de publicação) é dedicado ao poeta e tradutor Abgar Renault, seu amigo de juventude, e intitula-se “Infância”. Diz ele: “Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. / Minha mãe ficava sentada cosendo. / Meu irmão pequeno dormia. / Eu sozinho menino entre mangueiras / lia a história de Robinson Crusoé / comprida história que não acaba mais”. A infância interiorana está toda contida aí nessa paisagem doméstica, brasileira, provinciana, onde aparece como sintoma da Modernidade invasora o livro de Defoe, a literatura estrangeira, o mundo civilizado... A lembrança certamente é autobiográfica, mas Drummond articula a presença de Robinson no poema revertendo os signos: o menino lê a história do náufrago numa ilha de aconchego e segurança.

A segunda estrofe diz: “No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu / a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu / chamava para o café. / Café preto que nem a preta velha / café gostoso / café bom”. Os “longes da senzala” referem-se à Abolição, coisa de poucas décadas atrás. No tempo deste poema, o Brasil estava cheio de ex-escravos, o que não era muito diferente de estar cheio de escravos. Mas cada escritor dessa época guarda saudades culinárias das Tias Nastácias que serviam seu café, o qual surge como mais um sintoma de aconchego doméstico e familiar. E a preta velha de Drummond é uma parenta próxima da Irene de Manuel Bandeira, da Fulô de Jorge de Lima, da Guilhermina de Augusto dos Anjos, da Mãe-Preta de Raul Bopp e por aí vai. Negras acolhedoras e confortáveis como uma poltrona velha.

“Minha mãe ficava sentada cosendo / olhando para mim: / -- Psiu... Não acorde o menino. / Para o berço onde pousou um mosquito. / E dava um suspiro... que fundo!” O poeta assume aí o papel intermediário entre criança e adulto. Porque criança mesmo é o irmão mais novo, que até um mosquito pode ameaçar; ele não, ele lê livros de aventuras! E que sutileza esta linha repetida na íntegra, tintim por tintim: “Minha mãe ficava sentada cosendo”, a mãe congelada no âmbar da rotina e depois no da memória.

Última estrofe: “Lá longe meu pai campeava / no mato sem fim da fazenda. // E eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé”. O paralelismo entre a infância e a literatura está contido nas duas coisas sem fim (o mato da fazenda, a história de Robinson). E esta enigmática afirmação final, afirmação óbvia se a considerarmos apenas no plano da nostalgia açucarada tipo “ai-que-saudades-eu-tenho-da-aurora-da-minha-vida”. Mas não é absurdo vermos nessa lembrança dourada um lado negro e soturno finalmente domado e redimido na vida adulta. Porque o menino que lia Robinson queria com todas as forças abandonar aquele mato (como abandonou), até mesmo para, naufragado e sozinho na angústia dos 28 anos, ter o direito de ter saudade da roça de onde fugiu.

2283) Brasil x Holanda (2.7.2010)



(foto: Christopher Lee)

Ornejam as vuvuzelas, lá vem rugindo a Holanda! Toda vez que esse time cor-de-laranja surge à nossa frente eu me sinto tremer na base. Não propriamente de medo, mas de expectativa. Confesso de público que em duas Copas já torci contra a Seleção Brasileira e a favor da holandesa. Nas copas de 1974 e 1978, a Holanda era para mim o melhor time do mundo, e o Brasil de Zagalo (74) e Cláudio Coutinho (78) era uma Seleção ainda mais retrancada e temerosa do que a de Dunga. Não tinha como torcer. Aqui e acolá um craque, mas, no geral, quem me enchia os olhos eram os holandeses. Ainda hoje acho que o futebol deve uma Copa do Mundo aos conterrâneos de Van Gogh.

O problema é que a Holanda só será campeã passando por cima do nosso cadáver, e aí é pedir demais. Time por time, o time que eles têm hoje é nivelado ao de Dunga, e, se é pra trocar seis por meia-dúzia, prefiro que ganhe o Brasil. A Holanda tem alguns jogadores muito hábeis, talentosos. Gosto do jogo de Robben, Sneider (da Inter de Milão), o atacante Van Persie (que ainda não jogou bem na Copa), Van Bronckhorst e Von Bommel (ambos ex-Barcelona). O time ainda não jogou uma grande partida nesta Copa, mas o Brasil também não. É um jogo equilibrado entre duas equipes imperfeitas, por isso mesmo é um jogo imprevisível. Tanto pode dar um empate com prorrogação em pênaltis (como deu em 1998, e ganhamos com duas defesas de Taffarel) como pode um dos dois ter meia hora de brilhantismo a certa altura, descontrolar o adversário e liquidar o jogo.

O Brasil teve dois bons jogos (Costa do Marfim e Chile) e dois jogos totalmente medíocres (Coréia e Portugal). Imprevisível, portanto. Pode vir comendo pelas beiras e acabar campeã, como aconteceu com a Seleção de Filipão em 2002. Naquele ano, eu não botava a menor fé, e só acreditei que podíamos ganhar a Copa quando vencemos a temível Inglaterra de Beckham, de virada, por 2x1 (num tempo em que Lúcio ainda entregava gols de graça ao adversário). Daquele jogo em diante, a Seleção se encontrou.

Se o Brasil não for campeão, o campeão será provavelmente o vencedor do jogo Argentina x Alemanha. A Argentina está vivendo um momento surrealista. Colocou à frente um caudilho eufórico (Maradona), um craque (Messi) e está jogando na base do entusiasmo, da “camaraderia” e da volúpia de gol. Dá gosto e dá medo. O que aconteceria com um time assim se alguém botasse 2 gols de frente? Uma virada heróica ou o descontrole absoluto? Eu pago pra ver. Quem está me surpreendendo é a Alemanha, time com o qual nunca simpatizei. Acho-os truculentos e deselegantes, mas tiro o chapéu para o que vêm fazendo. Os dois gols de contra-ataque no 2o. tempo contra a Inglaterra foram duas obras-primas, coisa para entrar no currículo áudio-visual de qualquer escolinha de futebol. O time é cintura-dura (isso é genético, não tem como mudar), mas é veloz, inteligente e tem também a volúpia do gol. Se ganhar a Copa assim, merece.

2282) Cobertura de Copa (1.7.2010)



Não, não estou me referindo a apartamentos no andar de cima em Copacabana. É a cobertura jornalística de uma Copa do Mundo, algo que movimenta este país tanto quanto uma eleição presidencial. Como as duas coisas geralmente acontecem juntas, já se sabe nas redações e nas estações de TV: “Ano que vem, tem Copa e eleição”. São duas guerras pacíficas (até certo ponto) para as quais os órgãos de imprensa se mobilizam como se fossem os exércitos aliados preparando o Desembarque na Normandia.

Uma coisa que me incomoda, como espectador, é a quantidade absurda de informação irrelevante que essa situação produz. Toda TV brasileira, toda rádio brasileira, todo jornal brasileiro tenta mandar gente para a Copa. Algumas emissoras têm 100 ou 200 profissionais trabalhando por lá. (Multiplique isto por 32 países.) E esse pessoal quer somente uma coisa: mandar matérias para a redação. Estão sendo pagos para isso. Receberam passagem aérea, hospedagem, diárias de alimentação, equipamento, gratificação por hora-extra, o escambau. Precisam, portanto, registrar tudo que for possível dos jogos, dos adversários e da Seleção Brasileira. O problema é que quando não dá para achar uma matéria interessante, o pessoal começa a valorizar pequenos detalhes. Fulano mancou durante o treino; estará machucado? O ônibus da Seleção atrasou; terá havido alguma crise? Sicrano não cumprimentou o técnico ao ser substituído; ato de indisciplina?

A crise recente entre Dunga e a Rede Globo foi um sinal disso. Ao que se diz, Dunga cortou alguns privilégios que a Globo tinha em relação a outras emissoras. No tempo de Felipão, Fátima Bernardes viajava dentro do ônibus da Seleção, mandando entrevistas ao vivo para o “Jornal Nacional”. Está errada? De jeito nenhum, ela é jornalista e sua obrigação é conseguir a melhor matéria possível. Agora, Dunga disse: “Na-nani-nanão”. Está errado? De jeito nenhum, e eu como técnico faria o mesmo. O problema é que Dunga é mal-humorado e agressivo, e coloca todo mundo contra si. Quando desfechou palavrões contra um jornalista durante a coletiva isto lhe mereceu uma “blitz” monumental. No dia seguinte, todos os colunistas do “Globo” obedeceram a pauta de sentar o pau no treinador. Curiosamente, um dia depois o mar serenou ... Deve ter vindo uma ordem de cima: “Chega, já basta, vamos dar força pra Seleção, se não pega mal”.

Não é fácil encontrar um equilíbrio. Existe a privacidade de que os jogadores precisam. Eu, se fosse jogador, gostaria de ficar na minha, tranquilo, sem ter que dar 15 entrevistas por dia para a Rádio Bambala ou a TV Arimatéia. Mas também gostaria de poder bater um papo com jornalistas amigos (sim, muitos jornalistas e jogadores são amigos), ir num shopping ou dar uma volta para conhecer a cidade. Se fosse por Dunga, o time ficaria num quartel militar. Se fosse pela imprensa, ficaria num palácio com piscina e de portões abertos, como ficou em 2006 – e deu no que deu.

2281) “Bande à Part” (30.6.2010)



Vi em DVD este simpático filme de Jean-Luc Godard, que nunca tinha assistido. É um filme menor, talvez, um daqueles longas que Godard dirigia em algumas semanas com meia dúzia de atores e uma câmara. Casual, descontraído, com ocasionais momentos de beleza no diálogo. E a fotografia em preto-e-branco de Raoul Coutard, uma das melhores coisas não só do cinema de Godard, mas de toda a “nouvelle vague”. Nada parece tanto com a palavra Cinema quanto aquela tonalidade de pretos-e-brancos contra um fundo cinza.

A narrativa é de um policial B típico, baseada num romance de Dolores Hitchens (Fool’s Gold): uma moça e dois rapazes decidem roubar o dinheiro da casa onde ela trabalha, e, depois de um planejamento muito furreca, realizam um assalto mais furreca ainda, que acaba mal. Godard, Truffaut, Malle, Chabrol e outros passaram anos filmando variações desse enredo. Para eles, nada era mais moderno do que esquecer a Noite de São Bartolomeu ou a Queda da Bastilha e filmar pequenas aventuras de submundo à maneira norte-americana. Há toda uma ruptura sociológica e uma queda-de-braço cultural por trás disso.

O filme é pouco conhecido, mas duas sequências ficaram famosas. Uma é a da coreografia executada com displicência de cinema-verdade pelo trio de atores, tendo Anna Karina devastadoramente charmosa, de saia tartan, pulôver escuro e o chapéu de Sami Frey na cabeça. Esta dança (dizem) foi citada em Pulp Fiction de Tarantino, cuja produtora, aliás, chama-se A Band Apart em homenagem a este filme. (A cena pode ser vista no YouTube). A outra cena famosa é a dos três atores correndo pelas galerias do Louvre, tentando bater o recorde de um turista americano, que (dizem eles) viu o Museu inteiro em 9 minutos e 45 segundos. Esta cena foi citada e reconstituída por Bernardo Bertolucci em Os Sonhadores.

Uma terceira cena (que eu desconhecia até ver o filme) mostra o trio tentando fazer um minuto de silêncio. A trilha sonora é emudecida durante 35 segundos até que um deles se levanta da mesa do bar, dizendo “chega!”. Bergman retomaria alguns anos depois este desafio, em A Hora do Lobo, mostrando (“na sucessividade dos segundos”, como dizia Augusto dos Anjos) um minuto inteiro de Max von Sydow olhando um relógio e Liv Ullman olhando o rosto de Max von Sydow. (Para, sem mais do que isto, falar resmas de textos sobre o Amor, a Loucura e a Morte.)

O cinema de Godard é como a música de Philip Glass, a poesia de e. e. cummings ou a pintura de Edward Hopper. Há quem ame e quem deteste. Para os que nem-uma-coisa-nem-outra, é um documento inquietante de como um cinema feito por cinéfilos acaba se tornando, 45 anos depois, um cinema menos referencial e menos cheio de citações do que o cinema comercial de hoje. O encanto desses filmes, em 1964, era sua intelectualidade, sua ousadia vanguardista. Hoje, seu encanto é a pureza do seu olhar, que parece nunca ter sido corrompido por uma tecnologia, um Festival, um borderô.