terça-feira, 6 de julho de 2010

2238) A nuvem do vulcão (11.5.2010)



A explosão do vulcão na Islândia foi mais um indício da fragilidade do nosso estilo de civilização. Isto poderia ser evitado? A erupção propriamente dita, não, porque a Humanidade não tem condições científicas e tecnológicas de intervir num processo de tal natureza e tais proporções. É mais fácil levar um homem à Lua e trazê-lo de volta do que evitar que um vulcão exploda. Vivemos na Terra como um jangadeiro vive no mar. Sabemos que não temos controle sobre ela. Só nos resta prestar atenção, e nos adaptarmos.

O que se questiona é como evitar as consequências. Criamos uma rede de transporte aéreo (principalmente no Hemisfério Norte) eficiente, veloz, utilíssima e frágil. Como em qualquer mecanismo de alta precisão, basta um grão de areia para impedir que funcione. A Europa, ao contrário do Brasil, tem excelentes estradas e excelentes transportes ferroviários, que bem ou mal conseguiram durante esses dias escoar parte do tráfego. Mas o episódio todo deixa um gosto amargo de incompetência científica. Talvez até tenhamos condições de produzir instrumentos caoazes de enfrentar esse tipo de situação, mas não sabemos criá-los.

O físico Haim Harari declarou à revista “Edge”: “A crise das cinzas e a crise financeira têm muito em comum. Ambas resultam do fato de que as pessoas que tomam as grandes decisões não entendem de Matemática nem de Ciência, mesmo num nível rudimentar, enquanto que a maior parte dos matemáticos e cientistas não têm sensibilidade para com as implicações que seus cálculos podem ter sobre a vida real. Os engenheiros de finanças criam complexos instrumentais matemáticos, evitando chamar a atenção para as premissas que estão propondo, enquanto que os banqueiros e as agências reguladoras não admitem que não têm a menor idéia do que esses documentos significam, e nunca fazem perguntas sobre os parâmetros ocultos por trás dessas novas estratégias do lucro fácil. Modelos teóricos provam às autoridades que a nuvem de cinzas está aqui ou ali, sem se dar o trabalho de medir coisa alguma, e ninguém pergunta se os modelos estão baseados em dados realistas.

“Os que tomam decisões, se tivessem preparo científico, perceberiam imediatamente o problema, mesmo que não entendessem nada de finanças ou vulcões. Quando alguém propõe um esquema onde é possível ganhar sempre, não é difícil enxergar as pegadas de um “esquema pirâmide”, e a existência de uma nuvem mortífera que afeta um continente inteiro mas ninguém pode ver, e que não se baseia em nenhuma medição real, devia fazer as pessoas inteligentes erguerem as sobrancelhas. O mundo está descobrindo a profissão que lhe falta: pessoas cientificamente preparadas para tomar decisões. Bons cientistas sem experiência administrativa, ou políticos espertos sem conhecimentos de ciência, não são capazes de detectar esses problemas. Precisamos de pessoas que tenham ambas essas qualidades”.

2237) O Woodstock do futebol (9.5.2010)



Faltam não sei quantos dias para a Copa do Mundo! É a contagem regressiva do Globo Esporte, programa com o qual tenho uma relação parecida com a que certos débeis mentais têm com o “Big Brother Brasil”. Fazer o quê? O futebol nivela todo mundo a um nível meio primata de ser, o que é uma boa coisa, pelo menos para gente que vive lendo livros de metafísica e semiótica. Não custa nada lembrar de vez em quando que os nossos antepassados viviam brigando por causa de um coco. Correr atrás de uma bola nos leva de volta à infância da espécie.

A Copa é uma espécie de Woodstock no futebol. Woodstock foi o primeiro festival onde amanhecia, anoitecia, era um show atrás do outro, o sujeito adormecia durante um show de Santana e acordava num show de Jimi Hendrix, adormecia de novo num show de Joe Cocker e acordava num do Ten Years After... Copa do Mundo é tipo isso, são três jogos por dia e mesmo quando jogam times menores sempre existe a expectativa de um grande gol, uma grande jogada, que ganham dimensão ainda maior quando pensamos nos bilhões de pessoas que estão vendo aquilo. E quando pensamos que os jogadores sabem disso. Para eles, é sempre um tudo ou nada, e há casos incontáveis de jogadores de países obscuros que se consagraram porque fizeram numa Copa um grande gol, uma grande defesa, e entraram para a História. Pelo fato de ser vista por bilhões de pessoas e reproduzida pela imprensa de centenas de países, a Copa não registra somente o craque, mas todo aquele que consegue ter ali um momento de craque.

Não sei se alguém aí fora ainda lembra dos nomes de Boniek, Schilacci, Butragueño, Petras, Kempes, Masopust, Lato, Torres... São jogadores que tiveram seus 15 minutos de Pelé, coisa que qualquer um tem. Até eu já devo ter tido, quando jogava no “campinho das barreiras”. Até Maradona já teve 15 minutos de Pelé; o difícil é continuar sendo Pelé a vida toda. A Copa do Mundo pega os 15 minutos desses Zés-das-Couves e os amplifica, repercute, desenvolve, faz o mundo inteiro sentir-se aos pés do sujeito (ou melhor, faz o sujeito sentir-se como se o mundo estivesse aos pés dele). Depois, fumaça.

Mas onde há fumaça é porque já houve fogo, e quem viveu um momento de glória verdadeira tem o que guardar pro resto da vida. Os colecionadores de Copas, como eu, guardam momentos mágicos de cidadãos que nem sei se ainda estão vivos. De quatro em quatro anos o futebol promove um festival gigantesco em que depois do show da superbanda com centenas de milhões de discos vendidos vai subir ao palco um cabeludo sozinho com voz roufenha e violão de aço, e vai arrebatar a multidão. É aquele momento em que a energia da platéia parece passar através daquele filamento de gente que brilha no palco, tornando-o incandescente e imortal. Assim é o futebol na Copa, quando até um menino negro de 17 anos pode revelar que já é o Maior Jogador do Mundo.

2236) Maiakóvski e o Futuro (8.5.2010)



Vladimir Maiakóvski era obcecado com o futuro, e não só por fazer parte dos futuristas russos. Os futuristas eram poetas anárquicos, irreverentes, meio plebeus, que usavam linguagem das ruas, e se contrapunham ao simbolismo russo, feito de poetas intelectualizados, sofisticados, um tanto elitistas. O futurismo era uma coisa meio hip-hop para a época – a Rússia dos anos 1920. O maior poema de Maiakóvski nunca foi (penso eu) inteiramente traduzido em português. Seu título russo é “Pro eto” – nas variadas traduções, “Sobre isto”, “A respeito disto”, “About that”, etc. É um poema-livro em várias partes. A última parte, chamada “O Amor”, foi traduzida para o português por Ney Costa Santos, musicada por Caetano Veloso, e gravada por Gal Costa sob o título “O amor – sobre o poema de Vladimir Maiakóvski”, em seu álbum Fantasia, de 1981.

Neste trecho do poema, Maiakóvski se dirige aos cientistas do século XXX, porque prevê que sua amada será ressuscitada por eles no futuro: “Talvez quem sabe um dia / por uma alameda do zoológico / ela também chegará / ela que também amava os animais / entrará sorridente assim como está / na foto sobre a mesa / ela é tão bonita / que na certa / eles a resssuscitarão”.

Maiakóvski tinha duas idéias fixas: a do suicídio e a da ressurreição. Como se ele confiasse tanto no futuro que dissesse a si mesmo que podia meter uma bala na cabeça toda vez que tivesse uma desilusão amorosa: a Ciência o traria de volta. Ele diz: “O Século Trinta vencerá / o coração destroçado já / pelas mesquinharias / agora vamos alcançar / tudo o que não podemos amar na vida / com o estrelar das noites inumeráveis”.

Até aqui, a canção de Caetano tem uma melodia discreta, intimista. Mas quando começa o refrão, a música começa a galgar patamares sucessivos de modulação, de subida de tom, de um grito que parece querer alcançar cada vez mais longe, mais perto do Século Trinta: “Ressuscita-me! / Ainda que mais não seja / porque sou poeta / e ansiava o futuro. / Ressuscita-me! / Lutando contra as misérias / do cotidiano, / ressuscita-me por isso. / Ressuscita-me! / Quero acabar de viver o que me cabe / minha vida / para que não mais existam / amores servis...”

Como diz Fernando Peixoto, é “um poema sobre um amor trágico e desesperado... num clima quase permanente de alta tensão”. Maiakóvski não pensa em renascer por um milagre. Dizem que ele acreditava sinceramente que no futuro seria possível ressuscitar alguém. Para quê? O poema finaliza: “Ressuscita-me / para que a partir de hoje / a família se transforme / e o pai seja pelo menos o Universo / e a mãe seja no mínimo a Terra”. O que ecoa, invertidamente, no grito igualmente desesperado de Lennon em “Yer Blues”: “My father was of the sky / my mother was of the Earth / but I’m from the Universe / and you know what it’s worth”. Poetas de uma época em que o Futuro e o Universo estão mesmo no cerne de cada tragédia e de cada paixão.

2235) Atentado em Nova York (7.5.2010)



Vejam que coisa insólita esse episódio do quase-atentado ocorrido dias atrás em Nova York. No sábado à noite, camelôs avistam um carro estacionado junto à calçada, perto de Times Square, soltando uma fumaça suspeita, e avisam a polícia, que descobre lá dentro bujões de gás, explosivos, etc. Rastreando a origem do carro, descobrem que ele havia sido vendido uma semana antes para um paquistanês. Saem à sua caça, e na 2a.feira à noite o descobrem num avião prestes a decolar rumo a Dubai. O paquistanês é preso e confessa tudo.

Beleza não é mesmo? O dr. Watson, por exemplo, fechou o jornal e exclamou: “Maravilha, Holmes! A rapidez dedutiva e a pronta ação da polícia estadunidense são de entusiasmar qualquer um! Telegrafarei hoje mesmo ao presidente Obama, e...” Sherlock Holmes interrompeu seu solo de violino e disse: “Meu caro Watson... Você não acha que essa história está mais mal-contada do que um capítulo de Viver a Vida ou Tempos Modernos? Reflita, meu caro doutor. Que terrorista é esse que não sabe preparar um detonador decente, um que realmente explôda e mande pelos ares, se não um quarteirão inteiro, pelo menos as lojas e os transeuntes num raio de cinquenta metros?” Watson cofiou o bigode nervosamente: “Ora, Holmes, a bomba era potente. Segundo o NY Times, consistia de três latas de propano, duas de gasolina, oito sacos de fertilizante, fogos de artifício e dois relógios.”

Holmes soltou uma risada escarninha e começou a caminhar pela sala: “Excelente descrição, Watson! Parece um carro-bomba preparado por uma comissão multi-partidária, onde cada qual conseguiu enfiar o que mais lhe interessava. Não me admiraria se, procurando melhor, a polícia encontrasse seis garrafas de champanhe, um tubo de oxigênio e 500 caixas de fósforos com a data de validade vencida. Quem preparou essa bomba não foi a Al-Qaeda, foram dois casais de meia-idade, bêbados, durante um churrasco”.

O dr. Watson ainda tartamudeou algumas justificativas, mas Holmes já empunhara o jornal e apontava outra matéria: “E diga-me, Watson, qual o terrorista profissional que, precisando de um carro para um atentado, compraria um, fornecendo na transação o seu próprio número de celular? Foi assim que o rastrearam, não é mesmo? No Rio de Janeiro, muitos bandidos não sabem ler, mas quando querem sequestrar um comerciante roubam o carro de que precisam. E que terrorista é esse que deixa uma bomba para explodir no sábado e só embarca para longe do país 48 horas depois? Ora, ora, Watson. Até mesmo você, cidadão exemplar, tomaria a prudente iniciativa de deixar a bomba ligada e rumar direto dali para o aeroporto, não é mesmo?” “Por Deus, Holmes!”, gritou o doutor. “Quem poderá estar por trás disso, então? Que cérebro diabólico...” Holmes o interrompeu: “Não sei, Watson... Mas depois que o professor Moriarty deixou crescer a barba, converteu-se ao islamismo e adotou o nome de Osama Bin Laden... tudo, tudo é possível”.

2234) Por que usar drogas (6.5.2010)



Para as pessoas que não tomam drogas, a Terra é a única realidade, é o único mundo que elas conhecem. Para os que tomam, existem duas outras realidades: o Paraíso e o Inferno, porque estes dois sempre andam juntos, a existência de um é sempre equilibrada pela existência do outro. 

Existem pessoas para as quais a existência normal, cotidiana, já tem prazeres e problemas de sobra. Existem outras, no entanto, para quem esta existência é banal, comportada, descolorida, muito sem graça. Querem experimentar sensações diferentes, querem prazeres intensos, querem forçar os próprios neurônios a impressões de uma força quase insuportável, querem ir até o limite da própria mente e dos próprios nervos, mesmo sabendo que o preço a pagar pode ser alto demais. É aí que entra a droga.

Para mim, o maior erro na discussão pública sobre as drogas é considerá-las um problema de ordem moral, quando esta é uma questão que só se coloca muito mais adiante.

Muitos dos que são contra as drogas acham que usá-las é um ato de baixeza moral, e as pessoas que as usam são necessariamente más, ou pusilânimes, ou depravadas em algum aspecto.

Segundo esse raciocínio, se uma pessoa usa drogas este é um motivo suficiente para nos afastarmos dela, para evitá-la, proibir que nossos filhos convivam com ela; para nos queixarmos ao síndico, fazermos abaixo-assinados pedindo que essa pessoas seja excluída dos círculos sociais a que pertencemos. Porque uma pessoa que usa drogas é uma pessoa que tem um grave defeito moral.

Isto está errado. Existem milhões de pessoas que usam drogas e que são moralmente questionáveis, mas uma coisa não é a causa da outra. Nem todo mau caráter usa drogas, e nem todos os que usam drogas são maus caráteres (o plural desta palavra é uma questão à parte, que vou deixar para outro artigo).

Não é por canalhice que as pessoas procuram as drogas, é por variados tipos de carência psicológica (uma necessidade de compensações ou de experiências extraordinárias, mesmo que ao risco de sofrimentos extraordinários) que, em si, não constituem um defeito, nem uma baixeza, nem uma calhordice. Procuram algo parecido com o que as pessoas procuram em variadas atividades, quando dizem: “ah, isso aqui é minha terapia...” ou então “gosto de fazer isso por causa da adrenalina”.

Existe gente que encontra essa adrenalina no alpinismo, no videogame, na dança de salão, no skate, no excesso de velocidade ao volante, em práticas sexuais pouco ortodoxas, no paraquedismo, nos jogos de cassino, no esqui, em mil e uma atividades que nos tiram da realidadezinha besta e nos colocam numa situação de concentração total da mente e alta produção das adrenalinas, endorfinas, serotoninas ou sei lá que diabo o organismo segrega durante esses minutos.

Quem recorre às drogas o faz porque elas são hoje muito mais acessíveis do que esses substitutos. Combatê-las (substituí-las por algo mais saudável e igualmente excitante) não é tão difícil assim.








segunda-feira, 5 de julho de 2010

2233) Anna Karina e Godard (5.5.2010)



(Anna Karina em Alphaville)

Talvez não sejam o casal diretor/atriz mais famoso ou mais bem sucedido do cinema. Temos os exemplos clássicos de Lubitsch & Marlene Dietrich, Fellini & Giulietta Masina, Antonioni & Monica Vitti... Exemplos de casais em que não se sabe se era o talento do diretor que transformava a mulher num símbolo de erotismo e mistério, ou se era o contrário, se era a presença dela e o fascínio exercido por ela que extraíam dele a libido que, como se sabe, é um dos combustíveis preferenciais da criação artística. No caso de Godard e Anna Karina isso se deu ao longo de um breve casamento e uma relação intensa em que ela foi a figura central de sete filmes, ainda hoje inquietantes e cheios de charme: O pequeno soldado (1960), Uma mulher é uma mulher (1961), Viver a vida (1962), Bande à part (1964), Alphaville (1965), O demônio das onze horas (1965) e Made in USA (1966).

Um artigo de David Ehrenstein no L. A. Weekly (http://tinyurl.com/y2lu39d) comenta a sintonia total entre a imagem e o espírito da atriz e o olho do diretor: “Na tela e fora dela, Godard e Karina pareciam numa tal conexão emocional e intelectual que bastava a ele um olhar para conseguir dela o resultado que buscava”. Ela diz: “Havia um grande entendimento entre nós dois. Jean-Luc dizia apenas, ‘Anna, um pouco mais rápido, ou, um pouco mais devagar’, e isso era tudo”.

Karina era bela mas de uma beleza cinematográfica, uma das belezas mais cinematográficas que o cinema já exibiu, porque era um tipo comum, uma colegialzinha, uma balconista ou uma secretária com quem se cruza na rua sem reparar. Não tinha aquela sensualidade de mulher-que-sabe-tudo de Jeanne Moreau nem o erotismo “vulcão sob a neve” de Catherine Deneuve. Seu corpo, seu rosto e seus olhos, principalmente quando filmados em preto e branco, equilibravam doses máximas de sensualidade, espiritualidade e intelecto. Era a imagem ideal para os personagens de Godard, que habitam um universo paralelo próximo e distante do nosso.

David Ehrenstein diz que não era fácil encontrar uma atriz capaz de apunhalar um homem e em seguida, ignorando o cadáver, cantar uma canção (como ela faz em O demônio das onze horas). Ver no YouTube a cena de Bande à part em que ela e dois amigos executam uma coreografiazinha de colegiais, dançando, rodopiando, estalando os dedos, nos faz esquecer que é a mesma atriz que recita versos de Paul Éluard em Alphaville ou que, como garota de programa, encena uma antologia de cenas de sexo banal num quarto de hotel vagabundo (em Viver a vida). Numa época em que o colorido já reinava soberano, e as grandes estrelas do cinema eram potrancas como Ursula Andress e Rachel Welch, a imagem de Anna Karina, com sua saiazinha e pulôver de estudante, nos reconciliava com as meninas do mundo real, e nos permitia crer que nelas também estava guardado o mesmo mistério e a promessa implícita do mesmo paraíso.

2232) A estratégia do mal aos poucos (4.5.2010)




(Maquiavel)

Está circulando na Internet um documento atribuído ao linguista Noam Chomsky, um conhecido crítico das políticas dos EUA. O documento que circula talvez seja apócrifo, mas não importa. 

O autor enumera e comenta algumas das estratégias utilizadas pelos governos e pelas corporações para manter o controle ideológico da população e impedir que suas ações sejam questionadas. Já comentei algumas, e hoje vou falar no que o documento chama de “Estratégia da Degradação”. Diz o texto:


“A estratégia da degradação. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, é suficiente aplicar progressivamente, em “degradado”, sobre uma duração de 10 anos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas têm sido impostas durante os anos de 1980 a 1990. Desemprego em massa, precariedade, flexibilidade, salários que já não asseguram uma vida decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de forma brusca.”


O período a que o texto se refere é o da decolagem do neo-liberalismo, que os historiadores situam por comodidade no período de Margaret Thatcher como primeira-ministra da Grã-Bretanha (1979-90) e de Ronald Reagan como presidente dos EUA (1981-1989). No futuro, está década de 1980 será tristemente célebre. Ela foi o avesso, o Lado Negro da Força, do que representaram os anos 1960. 

O Casal Monstro trouxe para seus países (e as dezenas de países-sócios que vão no seu vácuo) uma aparência de prosperidade cuja conta só agora, vinte anos depois, começa a ser cobrada. E para pagá-la eles vão ter que inventar em breve uma nova moeda, o quatrilhão de dólares.

O mais interessante dessa estratégia, para mim, é que ela bate de frente como uma das estratégias mais famosas de Maquiavel em O Príncipe. Não tenho a citação exata agora, mas lembro-me de que Maquiavel aconselhava: “Fazer o bem aos poucos, e o mal de uma vez só”.  
Fazer o Bem aos poucos implica (a meu ver) na reiteração de ações e de programas que causem boa impressão no público. Serve como ação concreta e serve também como uma propaganda positiva, constantemente repetida, de que aquela boa ação do Governo volta a acontecer todo mês, toda semana, todo dia. Produz uma impressão de continuidade. 

Já o “Mal de uma vez só” é um pouco como a tática da depilação: melhor uma única dor forte, do que passar dez minutos puxando aquele troço devagarinho “para doer menos”.

Talvez a diferença seja esta: Maquiavel talvez se referisse a ações brutais como a repressão militar a uma revolta. Casos de emergência que requerem medidas brutais, radicais. 

A filosofia do “mal aos poucos”, por sua vez, se aplica a medidas de natureza econômica, que são mais solertes e sorrateiras, e vão se infiltrando aos poucos no cotidiano das pessoas. Seu poder aquisitivo perde alguns centavos por dia e nem dá por isso, mas ao fim de uma década elas passaram da classe B para a C sem dar um suspiro.




2231) O Ético e o Antiético (2.5.2010)


(As melhores coisas do mundo)
 
Algumas cenas do ótimo filme de Laís Bodanzky As melhores coisas do mundo (em cartaz na Capital) me deixaram com um pulga atrás da orelha. São cenas que se referem às atitudes éticas (ou antiéticas) de diferentes personagens, e são cenas cruciais, neste filme que discute, num roteiro cheio de variadas situações, as decisões éticas que os adolescentes vivem sendo forçados a fazer. 

Por exemplo – sacanear ou não sacanear um colega, só de gréia, só pra zoar? Denunciar ou não denunciar um colega que fez algo aparentemente errado? Espionar ou não espionar a vida de alguém que parece estar com problemas? E assim por diante. 

Há uma cena em que uma personagem revela um segredo pessoal, muito íntimo, para outra; e dias depois descobre que o Colégio inteiro ficou sabendo daquilo, o que está gerando problemas enormes para algumas pessoas. Diante das inevitáveis cobranças (“Mas como é que você comenta uma coisa dessa com Fulana, um segredo?”) a personagem desabafa: “Eu jamais imaginei que ela fosse espalhar isso pelo Colégio inteiro. Não é ético!”. 

Um problema frequente nas pessoas que procuram (sinceramente, honestamente, não da-boca-pra-fora) ter um comportamento “pautado pela ética” é que isso se torna tão obsessivo que elas acabam se esquecendo de algo muito simples: que as outras pessoas não são assim. Que muitas pessoas não estão nem aí para o que é ou não é ético, e que, como nesse exemplo acima, a maioria das pessoas é capaz de jogar seus escrúpulos éticos pela janela, em troca de uma fofoca “quente”, da revelação de um segredo desses de fazer arregalar os olhos de quem escuta. 

Em outro momento do filme, uma professora elogia um aluno cuja tese está orientando e alguém sugere, em tom brincalhão, que ela está tendo um caso com o aluno. Ela reage indignada: “Uma orientadora não pode ter um caso com o aluno! Não seria ético!”. Mas o filme dá o exemplo de outro personagem, um professor que acaba tendo um caso (e um caso homossexual) com um aluno a quem serve de orientador. E nada no filme nos leva a crer que esse caso é condenável. Pelo contrário: aceitamos, porque entendemos que foi uma paixão recíproca e sincera entre duas pessoas, e que os papéis de orientador e aluno, nesse caso, recuaram para segundo plano. 

O difícil em ser ético é que não existe uma fórmula pronta, aplicável de modo uniforme a todas as situações. Em ética, como em tantas coisas que envolvem julgamento de situações humanas complexas, cada caso é um caso. Isto não significa que não há valores éticos universais, mas que esses valores, que existem e devem servir sempre de crivo para o comportamento humano, existem justamente para serem aplicados a cada caso, existem para serem testados pelas demandas específicas de cada situação humana. 

O Bem e o Mal, o Certo e o Errado, o Justo e o Injusto são conceitos universais que só têm sentido se passarem pelo teste de cada complexa situação humana, porque é para resolvê-las que eles foram criados.






2230) Os presidentes e os flanelinhas (1.5.2010)



(tira de Laerte)

E lá vamos nós para outra eleição presidencial. O país inteiro se mobiliza, os partidos se organizam para gastar milhões de reais, e nós teremos o dúbio privilégio de dizer se queremos ser governados por Dilma Rousseff ou por José Serra. Tudo bem, trata-se de uma ex-guerrilheira de esquerda e um ex-presidente da UNE; mas quando chegam ao ponto de disputar um posto como esse, ambos estão muito diferentes do que foram um dia, e muito parecidos um com o outro. Hoje, a única diferença entre Dilma e Serra é que o cabelo de Dilma cresceu de novo.

Perdi uma oportunidade histórica alguns anos atrás. Em outubro de 2007, a ministra da Casa Civil foi internada no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde fez uma cirurgia de diverticulite. Ora – foi esta doença a razão alegada para a primeira internação e cirurgia de Tancredo Neves, na manhã do dia em que deveria tomar posse na Presidência da República, em 1985. Hoje a versão vigente é de que se tratava de um tumor benigno; mas como a doença alegada na época foi diverticulite, essa palavra, durante muitos anos, tornou-se uma senha capaz de gerar calafrios de paranóia na medula de qualquer brasileiro. Falar em diverticulite era lembrar todas as Teorias da Conspiração que herdamos da ditadura militar.

Deduzi naquela época que Lula ia indicar Dilma como candidata a sua sucessão, e que a cirurgia de diverticulite fora realizada preventivamente, para que não tivesse de ocorrer quando ela já estivesse ungida como candidata. Não escrevi a respeito porque tinha coisas mais importantes para me ocupar, e se o faço hoje é porque a campanha presidencial já se desenha no horizonte.

Por que damos tanta importância à Presidência da República? Num mundo como o de hoje, ainda mais num país mal-das-pernas como o nosso, é um cargo meramente decorativo. O Presidente da República administra o país, sim, mas o administra e governa em nome dos seus verdadeiros donos, que são as Eminências Pardas de sempre, os tubarões da economia, as megacorporações, os superbanqueiros. O Presidente cuida do varejo do país, como um mordomo ou uma governanta cuidam do varejo de uma mansão de 90 quartos enquanto os patrões estão fazendo turismo nas Ilhas Gregas.

Penso sempre nos presidentes (e aqui incluo Lula, Obama, Chávez, Sarkozy, Hu Jintao, qualquer um) quando estou chegando num restaurante e vejo um flanelinha pulando à frente do carro dos clientes. Como dá ordens! “Aqui! Bota aqui! Mais pra lá! Agora desfaz! Deixa solto!” Se um observador marciano olhasse a cena de longe, deduziria que ele dá as ordens e o motorista obedece. Naquele momento, o flanelinha também acredita nessa fantasia benigna, acredita nessa fala-de-condão que lhe dá o poder de ser obedecido por sujeitos de terno Armani ao volante de um BMW. Assim são os mandatários de qualquer país. Eles mandam, gesticulam, dão ordens veementes. Os caras ao volante estacionam onde querem... e vão à mesa.

2229) “As melhores coisas do mundo”(30.4.2010)

Este filme de Laís Bodanzky (em cartaz na Capital) é um dos filmes brasileiros mais simpáticos dos últimos tempos, um filme sobre adolescentes que fala sem preconceitos sobre sexo, drogas e rock-and-roll. Fala sobre homossexualismo, sobre pais que se separam deixando os filhos apavorados; fala sobre garotos e garotas que experimentam drogas, e que se envolvem em fofocas e maledicências via celular. E fala de uma maneira equilibrada, descontraída, sem lições de moral. Me digam qual é o jovem que dá ouvidos a um adulto que tenta dar-lhe lições de moral. Ele pode prestar atenção e dizer “sim senhor” por uma questão de afeto e respeito. Mas na hora de agir, seja lá em que for, vai agir de acordo com a totalidade das informações que tem, com a totalidade das influências que recebe. E aí, meu amigo, é uma área onde os pais não podem ter controle total. A última geração de pais que teve esse controle foi no Sertão, cem anos atrás. O filme tem roteiro de Luiz Bolognesi e se baseia numa série de livros juvenis escritos por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. A história é basicamente o que acontece ao longo de alguns meses com dois irmãos, Pedro e Mano, que estudam no mesmo colégio, e cujos pais, professores universitários, acabaram de se separar. Pedro é mais velho, já transou, tem namorada fixa, faz música, faz teatro. Mano é mais novo, ainda é virgem, não tem namorada, está aprendendo violão quando na verdade queria tocar era guitarra, é apaixonado por uma garota bonita que sai com todo mundo menos com ele. A história tem pequenos episódios que vão desenvolvendo essa situação inicial, e o mais notável do filme é a espontaneidade que existe nos diálogos, nas ações, no contracenar de uma turma de atores muito jovens, simpáticos, descolados. A maior parte do filme acontece dentro do colégio, e é interessante ver como as aulas são apenas um pano-de-fundo. São algo que acontece ali, mas o que é realmente importante para essa galera (e como isso é verdade!) é o que ocorre no recreio, na chegada ou saída das aulas, nos intervalos, até mesmo nas conversas e torpedos trocados durante a aula. O que é o colégio, nessa idade? É um bode que alguém amarrou no meio da sala. Um dia o bode vai ser tirado dali. Enquanto isso, tenta-se aproveitar ao máximo o resto do tempo que não é ocupado pelo bode. Era assim que eu pensava quando adolescente, e algo me diz que, com variantes, é isso que a galera de hoje continua pensando. As melhores coisas do mundo é bom pela fluência narrativa, pela verdade emocional dos atores, pelos diálogos rápidos e criativos, mas acima de tudo porque não fala de drogas e de sexo, mas de escolhas éticas. A todo instante esses garotos e garotas de 14 ou 15 anos estão sendo forçados a fazer escolhas éticas que têm uma importância de vida ou morte para eles. A adolescência é uma idade em que o mundo se acaba dez vezes por dia, e o pior é que no dia seguinte começa tudo de novo.