segunda-feira, 21 de junho de 2010

2174) Objetos indestrutíveis (25.2.2010)



Menos conhecido do que Marcel Duchamp, o fotógrafo Man Ray (1890-1976) foi ligado ao movimento surrealista nas décadas de 1920-30, e produziu uma série de trabalhos notáveis, inclusive alguns curta-metragens que hoje podem parecer ingênuos, mas naquele tempo eram uma maneira diferente de tratar a fotografia, a montagem e as imagens abstratas. (Este é um dos problemas das vanguardas. Muitos trabalhos vanguardistas têm algo de jardim-da-infância, têm algo da experimentação descontraída e brincalhona de quem está manipulando uma nova tecnologia ou linguagem apenas para se divertir, para ver no que dá. Isto faz com que, num ciclo que se repete a tantas décadas, as mesmas experiências venham a ser refeitas por jovens que ignoram as experiências de jovens da geração dos seus avós.)

Um dos trabalhos mais curiosos de Man Ray (ver em: http://bit.ly/5yOqxA) data de 1923. Consta de um metrônomo comum (instrumento mecânico de marcar o andamento musical) em cuja haste (a parte metálica que oscila ritmicamente de um lado para o outro) ele colou a foto de um olho humano. É um desses objetos surrealistas que ao mesmo tempo pedem e recusam explicação. Man Ray deu-lhe o título “Objeto para ser destruído”, e a obra passou a cumprir o seu destino de galerias, exposições, sei lá que mais. O título era uma provocação, claro, muito parecida com a que Abbie Hoffman fez anos depois ao intitular seu manual de contestação ao capitalismo Roube este livro (“Steal this book”).

Ora, os vanguardistas jogam tantas pedras pra cima que cedo ou tarde uma lhes cai na cabeça. Consta que em 1957 um grupo de estudantes entrou na galeria onde a obra de Man Ray estava sendo exposta, em Paris, e, bradando palavras de ordem contra os surrealistas, destruiu a peça a tiros de revólver. Man Ray não gostou nada disso (ao que parece, ele tinha idéia de destruí-la um dia ele próprio, numa performance pública), mas pegou o dinheiro do seguro, fabricou 100 objetos idênticos, e deu-lhes o nome “Objeto Indestrutível”. Foi como se dissesse aos protestadores: “E aí? Vai encarar?”.

Isto pode demonstrar, para alguns, o caráter metafísico e platônico, da obra de arte, que não é aquele mero objeto físico com que entramos em contato. Ou pode ser uma exibição de força do capitalismo, da ”obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, impossível de extinguir por completo, porque se multiplica como um vírus. Pra mim, acima de tudo, mostra que ao artista deve caber sempre a última palavra, o cala-a-boca final, o derradeiro prego na tampa do caixão. Contra vândalos, contra dissidentes, contra adversários ideológicos. Contra os críticos, os teóricos acadêmicos, as autoridades, a censura, o clero, a polícia, o Estado, o Mercado. Artista não tem que bater boca com gente que discorda dele. Tem que achatar todos eles com uma resposta sem palavras. Tem que produzir uma resposta irrespondível, cabal.

2173) Escalando o Empire State (24.2.2010)



Decido jogar-me lá do alto, e escalo a parede, usando luvas e botas com ventosas. Os primeiros andares são os mais difíceis. Tentam alcançar-me com escadas Magirus. Sou forçado a fazer prodígios de esquiva, escapo por pouco e vou subindo. A curiosidade é maior que o desespero e não fecho os olhos.

Vejo escritórios onde os rostos das secretárias estão iluminados pelo reflexo azulado dos monitores Samsung. Vejo uma sala de reunião, a imensa mesa de mogno luzidio a cuja cabeceira um homem de cabelos brancos, sozinho, olha para o relógio e para a mesa com dezoito blocos de anotações em branco, dezoito canetas esferográficas, dezoito copos dágua. Vejo paredes cobertas por enormes arquivos de metal onde os mesmos processos administrativos estão xerocados e arquivados, aqui por ordem alfabética, ali, por ordem geográfica, acolá por ordem cronológica. Vejo uma sala em que um telefone toca sem parar, e vejo um homem sentado diante dele, segurando o receptor e sem coragem de atender.

Vejo mais acima um aposento que serve de depósito de casacos de pele, são mais de trezentos casacos de pele, dos modelos mais variados, e pertencem todos a um casal famoso. Vejo um homem segurando, uma em cada mão, uma taça de vinho e uma taça de água, sem conseguir distinguir uma da outra. Vejo um andar inteiro com piso de madeira; pessoas penduram-se em ganchos pendentes do teto, enquanto que o semicírculo superior de uma serra elétrica percorre o chão, como a barbatana de um tubarão. Vejo uma mulher loura, nua, deitada, com rodelas de pepinos sobre os olhos fechados, sendo depilada por um halterofilista de olhos vendados com fita crepe. Vejo um tribunal onde tudo que deveria ser de mogno – os lambris das paredes, as bancadas dos juízes, as cadeiras de espaldar alto do júri e das testemunhas, as mesas, os longos bancos destinados ao público – é de chocolate, e amolece ao calor da presença humana.

Mal posso acreditar quando passo ao lado de outra janela e vejo um salão ocupado por uma água suja, espessa, oleosa, onde flutuam tábuas apodrecidas, sacos plásticos, latas vazias, fraldas descartáveis e cartões postais amarelados mostrando grandes monumentos de vários continentes. No andar acima desde vejo um homem acorrentado ao cano de uma torneira, com a boca aberta embaixo dela, e consigo ver a queda de uma gota no instante em que passo. Ao longo de uns seis andares sucessivos, todos com o piso/teto violentamente rompido, ergue-se uma tubulação de plástico transparente e espesso, por onde avista-se um líquido gorgolejante, no qual nadam homúnculos de crânio liso, cobertos por veias salientes, e com seis dedos em cada mão.

Minhas mãos incansáveis grudam-se à parede, e continuo a escalar, a escalar. Chego ao topo e a metrópole eriçada de agulhas de cimento abre-se aos meus pés. Jogar-me lá do alto? Agora? Agora que entendi tudo, que finalmente matei a charada? Jamais.

2172) Notícias e não-notícias (23.2.2010)



Quando os jornais escancaram manchetes de primeira página sobre escândalos de corrupção ou quando a TV mostra crimes violentos, as pessoas protestam: “Mas será possível, será que não existe uma coisa boa para mostrar, será que a imprensa só gosta de mostrar desgraça?!”. Perguntam com razão, até porque a epidemia de desgraças parece nunca ter fim, pelo menos nos dois casos acima. E volta e meia ressurge uma frase: “Por que eles só mostram quem é ladrão? Por que não mostram quem é honesto, para servir de exemplo?”.

Esta questão é uma verdadeira trança de motivações diferentes. A primeira é: um fato é notícia quando fala de algo relevante para a população em geral, e não só para os envolvidos. Um crime não toca apenas a vida de quem fez parte dele, mas levanta questões de segurança, impunidade, ação ou inação das forças públicas, etc. Nem todo crime sai no jornal. E os jornais noticiam as coisas boas, sim. De vez em quando vemos a notícia de um taxista que devolveu 10 mil dólares esquecidos por um passageiro, ou uma camareira de hotel que achou e devolveu uma jóia da hóspede, ou a faxineira de um espaço público que encontra um pacote cheio de grana e o entrega ao administrador. Se aparece menos, é porque acontece menos, ou então porque fatos assim são frequentes, mas numa pequena escala de valor financeiro. (Se uma camareira encontrasse meu livro de H. Rider Haggard que esqueci uma vez num hotel em Maceió, duvido que isto fosse notícia).

Outra motivação é a visão crítica. O jornalismo (parte dele) se consagrou como uma instância de vigilância e crítica sobre a população e sobre as autoridades. (Claro, dentro das limitações e dos interesses pessoais, tanto das empresas quanto dos indivíduos.) Muitas vezes uma coisa correta não dá notícia, mas uma coisa errada dá, porque é o pretexto para que se exerça a “visão crítica”, a “cobrança às autoridades”. E o próprio ambiente jornalístico é um espaço de contradições: quando alguém critica, é chamado de derrotista, quando elogia é chamado de puxa-saco. E por aí vai.

Há um princípio jornalístico que se define pela frase: “Se um cachorro morde uma pessoa, não é notícia, mas se uma pessoa morde um cachorro, é”. Ou seja, não dá para noticiar o banal, o comum, o repetitivo, o que acontece a toda hora em todo canto. Parte-se do princípio de que todo mundo já sabe que essas coisas acontecem. O jornalismo diário tem, como uma de suas origens, os “chapbooks” e os “fait divers” dos séculos 17 e 18, aqueles impressos baratos e sensacionalistas que são trisavós da literatura de cordel e dos “pulp magazines” de ficção científica. O banal não é notícia. O que é notícia é o incrível, o fantástico, o extraordinário, e como este não acontece todo dia, o que é notícia é o desvio da norma, o que está acima ou abaixo da média. Notícia é o que pela sua própria existência nos leva a questionar e a redefinir o que é a média, o que é a norma, o que é o normal.

2171) “Duas contas” (21.2.2010)



(Garoto)

“Duas contas” é o título oficial da canção, mas a maioria das pessoas a chama pelo seu verso inicial: “Teus olhos”. Não importa. É uma jóia delicada da música popular brasileira, uma canção discreta e perfeita. Foi composta por um violonista hoje obscuro, autor de numerosas melodias e que compôs aqui (pelo que se diz) sua única letra. E uma letra (um detalhe a mais no preciosismo que a cerca) sem uma rima sequer. Garoto (Aníbal Augusto Sardinha, 1915-1955) era um violonista paulistano, de harmonias sutis que o levaram a ser apontado como um precursor da Bossa Nova. Sua composição mais conhecida, ao lado de “Duas contas”, é “Gente humilde”, que recebeu uma bela letra de Vinicius de Moraes e Chico Buarque.

Esta canção (encontre aqui a partitura e a cifra dos acordes: http://tinyurl.com/yjdsy56) pode ser vista no YouTube em interpretações de Rosa Passos (http://tinyurl.com/ykqunod), dos meus amigos, os Trovadores Urbanos (http://tinyurl.com/yfbmuo2) e outros. Ela começa assim: “Teus olhos... / São duas contas pequeninas... / Qual duas pedras preciosas... / Que brilham mais que o luar”. Quatro frases curtas, a primeira e mais curta delas com um tímido movimento ascendente, e as demais seguindo uma espiral descendente até o grave em “luar”. Veja-se que nada na letra rima. Rimas servem para criar, ou para reforçar, a repetição de um elemento estrutural. Neste caso a gente nem sente falta, porque a sequência rítmica das sílabas/notas se dá com uma simetria simples e previsível.

A segunda estrofe começa repetindo a cadência e a melodia da primeira: “São eles... / Guias do meu caminho escuro...” Mas nas duas linhas seguintes surge um elemento de dissonância, um desvio: “Cheio de desilusão... / e dor...” Letra e música vão numa direção diferente, sombria, inesperada. O grave de “dor” chega a ser mais acentuado do que o de “luar” que fechava a estrofe anterior. Este é um recurso comum na canção: dar a impressão, na segunda estrofe, de que se vai repetir a estrutura e a melodia da anterior, e lá pelo meio dar uma guinada noutra direção.

Depois do grave profundo da nota “dor”, o poeta comenta consigo mesmo: “Quisera que eles soubessem / o que representam pra mim...” Estas duas primeiras frases são uma digressão melódica; depois delas ele diz: “Fazendo...” (e retoma a mesma intenção melódica do “teus olhos” do início) / “que eu prossiga feliz...” (melodia agora ascendente). E o final é um comentário poeticamente perfeito, sem adjetivos, sem comparações, sem sentimentalismo, é o poeta simplesmente dizendo aquilo que vê, que sente, a coisa na qual não pode deixar de pensar: “Ai, amor... / A luz dos teus olhos!...”. Não poetize a poesia, já dizia João Cabral. Quando se encontra um jeito bonito de dizer as coisas, não é preciso enfeitar, recobrir o poema com o glacê pegajoso do excesso poético. Se foi esta a única letra escrita por Garoto, dá um banho em muito letrista profissional que gasta tinta por aí.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

2170) Os restaveks do Haiti (20.2.2010)




Eles são onipresentes e invisíveis. Esquecemo-nos de sua existência no mesmo instante em que fazemos um gesto com a mão indicando “cai fora, não enche”. Surgem e desaparecem como pombos numa praça.  

São os meninos comedores de luz, que voam pelos céus do Brasil, na canção de Chico Buarque. São os meninos-sem: sem teto, sem pai, sem mãe, sem escola, sem vergonha, sem escrúpulos, sem dó nem piedade.

No romance The Translator de John Crowley (2002), um poeta russo, Innokenti Falin, migra para os EUA, torna-se professor numa Universidade e ali começa uma amizade com Kit Malone, sua aluna e futura tradutora de sua obra. 

Falin explica a ela que não sabe quem é, ou melhor, não lembra dos seus pais, ou do que lhe aconteceu até os 6 ou 7 anos, quando foi encontrado por outros garotos de rua numa estação de trem. “Era muito comum durante a II Guerra”, diz ele; “famílias eram separadas, os pais eram mortos, ou então estavam viajando com os filhos, desciam do trem para procurar comida, e o trem ia embora sem eles”. 

A infância é um buraco negro na história desse protagonista misterioso (o final do livro, durante a crise dos mísseis de Cuba, aponta de leve para um desfecho fantástico).

Falin explica que há um nome em russo para isso: “besprizornye”, que significa mais ou menos “sem alguém que cuide deles, sem ter onde ficar, sem ter quem ligue para eles” (“without guardian, unsheltered, not cared for”). 

Outro poeta russo, conversando anos depois com Kit Malone, conta de uma viagem de trem que fez na infância com seus pais. Desceram numa estação para esticar as pernas e, olhando embaixo do trem ele viu que “embaixo do vagão onde viajávamos estavam penduradas outras crianças, vultos escuros, que mal pareciam humanos, cinco, dez, uma dúzia ou mais. Fugimos gritando: ‘Besprizornye! Besprizornye!’”.

Crowley lembra dois termos em inglês (que são a cara dos romances de Dickens) para essas criaturas: “urchins” e “ragamuffins”. 

Em português o termo mais vigoroso é “pivete”, mais específico do que descrições frouxas como “menino de rua” ou “menor abandonado”. 

O cinema já os mostrou em filmes como Tire dié de Fernando Birri (Argentina, 1960), em que os garotos correm ao lado do trem pedindo que “atire dez!” (centavos), ou em Sciuscià de Rossellini (Itália, 1946), garotos engraxates que se oferecem para engraxar sapatos (“shoe shine”), ou Los olvidados de Buñuel (México, 1950).

O terremoto do Haiti trouxe mais um nome para essa galeria de anônimos. O Haiti é país de colonização francesa, e no interior é comum mandar um filho pequeno para a cidade, para ficar na casa de alguém conhecido, porque os pais não podem sustentá-lo. 

São chamados “os restaveks”, que vem de “rester avec”, “ficar com (Fulano)”. 

Imagino às vezes um mundo do futuro, um mundo pós-socialismo, pós-capitalismo, pós-riqueza, pós-pobreza, pós-civilização, onde só existirão restaveks, besprizornye, urchins, ragamuffins, sciusciàs, tire diés, pivetes.  





2169) O buraco negro e o encanamento (19.2.2010)



Algumas pessoas já perceberam a semelhança entre a Via Láctea (esta galáxia que habitamos) e a água que escorre pelo ralo do box, no banheiro da nossa casa. A Via Láctea é uma enorme espiral de estrelas que gira lentamente sobre si própria, e tem o formato aproximado de um disco, no qual a proporção entre o diâmetro e a espessura é de 100 por 1: se fosse um disco com um metro de diâmetro, sua espessura seria de mais ou menos um centímetro. E o que existe no seu centro? Um buraco. Pode ser idéia fixa de um musicomaníaco, mas a verdade científica é que a nossa Via Láctea tem a forma exata de um elepê – ou de um CD, que não é muito diferente.

A Via Láctea gira sobre si mesma. Os cientistas calculam de diferentes maneiras a velocidade dessa rotação, mas de um modo geral se admite que o nosso Sistema Solar leva entre 225 e 250 milhões de anos para dar uma volta completa no carrossel galáctico. Durante toda a sua existência o Sol terá dado de 20 a 25 voltas em torno do centro da galáxia, e a Humanidade nenhuma, pois sua existência sobre a Terra cobre apenas 1 / 1.250 de uma rotação completa.

Tudo isto me vem à mente (sem essa exatidão numérica, por suposto) quando estou tomando banho e vejo a espiral de espuma da xampu girando em torno do ralo e sendo sorvida por ele. Meus amigos cientistas me explicaram uma vez que se uma banheira de água com um ralo no centro fosse completamente simétrica, tendo em volta de si apenas forças totalmente equilibradas neutralizando-se mutuamente, teríamos uma lâmina de água totalmente simétrica e lisa, sem ondulações, e a água mergulharia no ralo por igual ao longo de toda a circunferência deste (já isso ocorrer numa represa, na TV). O que é raro no mundo material, sujeito a desníveis, agitações, diferenças de densidade nos fluidos e tudo o mais. A soma destas irregularidades imprime à água (que está executando uma descida vertical) um empurrão horizontal cujo resultado é a espiral, ou melhor, a helicoidal que a sorve no vazio. O torvelinho, o redemoinho, o redemunho.

E o que existe no centro da Galáxia? Dizem que é um Buraco Negro Ultra-Maciço, sorvendo para dentro de si toda a matéria que dele se aproxima, e atirando-a não se sabe onde. Um menino de 5 anos que contempla o ralo do banheiro pode ter a curiosidade de perguntar para onde vai a água. Seus pais, sempre ocupados com coisas mais importantes, dirão que vai “para o encanamento de esgoto do prédio”, o que pode levar o garoto, erroneamente, a imaginar um cano infinito e vertical conduzindo a água rumo ao centro da Terra. É mais ou menos o que imaginamos nós, adultos, quanto ao ralo galáctico que suga e faz desaparecer a matéria das estrelas que caem no seu campo de atração gravitacional. Nunca saberemos. Mas o simples fato de sermos capazes de imaginar isto enquanto enxaguamos o xampu dos nossos cabelos é que nos faz humanos, e necessários ao Universo.

2168) Me add por favor (18.2.2010)



Saites de relacionamento tipo Orkut, Facebook e muitos outros estão criando uns curiosos verbos novos e umas formas verbais que parecem, mal comparando, um sanduíche de panetone de chocolate com macarronada-à-bolonhesa. Grande parte desses saites usa instruções em inglês. Mesmo que essas instruções tenham uma versão em português, usuários diferentes empregam versões diferentes, e algumas vezes as opções feitas por um deles interferem em sua comunicação com pessoas que fizeram opção diferente. E mesmo quando optamos pelo português, às vezes a página abre em inglês. Ou vice-versa. Ou em espanhol, ou até italiano. Assim é o mundo virtual: surpresas sem conta, permanente aventura, e emoção, muita emoção!

O Orkut, onde já tive uma página (ou talvez ainda tenha, não a visito há anos) foi onde primeiro encontrei esse termo: “add”. “To add” significa adicionar, somar, juntar algo novo a algo que já estava ali. E o Orkut oferecia aos seus membros essa opção: “Add Fulano as a friend”, “adicione Fulano como amigo”. Nesses saites, é praxe adicionar como amigo qualquer desconhecido, porque existe ali uma bolsa-de-valores informal em que tem mais importância quem tem mais amigos. Posso ter 500 amigos e estar muito satisfeito comigo mesmo, mas minha animação começa logo a murchar quando visito a página de um deles e vejo que o sujeito tem 700. Ora, quem é esse idiota para pensar que é melhor do que eu?! Começo logo a add todo mundo que visita minha página, ou a mandar mensagens para desconhecidos pedindo a eles que me add. Claro que alguns add na mesma hora, e claro que eu também add muitos outros com rapidez, mas nem todo mundo nos add com a velocidade que desejaríamos.

Este último trecho deve ter dado a medida do problema. Metade das pessoas que frequenta esses ambientes não sabe o que quer dizer “add”, ou melhor, entende o que significa, mas não dispõe de um termo em português para essa idéia, porque seu vocabulário é escasso. A outra metade conhece a palavra “adicionar”, mas acha intuitivamente que ela não se encaixa muito bem. E têm razão. A palavra existe, mas não faz parte da nossa usagem normal, cotidiana. Ninguém diz coisas como “vou adicionar seu endereço à minha agenda”, ou “traga seu amigo que eu posso adicionar ele a nossa equipe”, ou “lá deve estar fazendo frio, é melhor adicionar uns casacos à sua bagagem”. Só usamos esse verbo quando falamos de operações matemáticas ou então numa receita culinária: “adicionar uma colher de manteiga, duas claras batidas e uma pitada de sal”.

Verbos ingleses não são flexionados como os nossos. Deduzimos essa flexão em função do pronome. Toda vez que um desses verbos irredutíveis aparece numa frase em português ele provoca um catabí na frase, um solavanco, um tropeço, como quando estamos mastigando um sanduíche e encontramos uma pedra. Nada contra a pedra, pode ser até um diamante ou uma esmeralda, mas o lugar dela não é ali.

2167) 1001 livros antes de morrer (17.2.2010)




Sou eu que estou mesmo ficando velho, ou é o mundo que está se tornando mórbido por conta própria? Não entro mais numa livraria sem que o assunto da minha morte seja abordado em letras corpo 48 na capa de algum livro. Eles todos me aconselham os 500 discos que eu preciso escutar antes de morrer, as 150 praias em que preciso me banhar antes de morrer, os 1001 livros que preciso ler antes de morrer, e por aí vai. 

Fico me visualizando, de sunga, com o mar de Aruba pela cintura, um I-Pod no ouvido tocando Pet Sounds dos Beach Boys (que não ouvi até hoje) enquanto folheio circunspecto Os Buddenbrooks de Thomas Mann. 

Será que vai dar tempo? Porque creio já ter visto algo sobre os 200 pratos que preciso experimentar antes de morrer e aí recomeça tudo. Parece que a notícia da mera possibilidade de minha morte tomou de assalto o mercado editorial.

Pra vocês sentirem o drama: eu nem sequer preciso de um catálogo como esse. Os 1001 livros que preciso ler antes de bater as botas já estão aqui, vergando minhas estantes. Isto corresponde mais ou menos a um terço da minha biblioteca. Há um outro terço que já li, e outro que não preciso ler: são livros de ensaios, de referência, de não-ficção, livros que tenho para consulta e eventual pesquisa, mas que não me sinto compelido a ler. Agora, aqueles outros...

É a esperança de ler um livro que nos faz comprá-lo, mesmo quando é um calhamaço de mil páginas. Como já devo ter lido uma dúzia de livros desse tamanho, acredito que posso voltar a fazê-lo; e os tijolos vão se acumulando, esperando a hepatite. 

Uso esse termo porque volta e meia ouço história de alguém dizendo que teve uma hepatite, precisou ficar um mês de cama, sem levantar para nada, e em função disso leu os vinte volumes das Memórias de um Médico de Alexandre Dumas. Como meu fígado continua saudável, apesar dos testes a que o submeto, livro não-lidos acumulam-se por todos os cantos.

A pior coisa da idade é quando a gente começa a perceber que já passou da metade do trajeto, e o que resta a cumprir é menor do que o que já ficou para trás. 

Mesmo que eu parasse de comprar e de ganhar novos livros a partir de hoje, deveria me dar por satisfeito se encontrasse tempo para ler os que continuam virginalmente intocados nas minhas prateleiras. Não sei se são 1.001, mas mesmo colocando uma média de dois por semana iriam me requerer algumas décadas de dedicação exclusiva.

Conceito cruel, o desses manuais que pipocam por todo lado. Ficam nos ameaçando com uma morte inglória, a morte humilhante de quem nunca escutou a Amazônia de Villa-Lobos, de quem nunca escalou os Apeninos, de quem nunca assistiu Berlin Alexanderplatz, de quem nunca leu Chapadão do Bugre, de quem nunca provou um carneiro assado com castanhas e hidromel num restaurante obscuro de uma ilha grega. 

Ameaçam-nos com algo pior do que a morte, que afinal contempla a todos: ameaçam-nos com uma vida sem ter consumido as coisas certas.




2166) Sobre navios e campos magnéticos (16.2.2010)



Em suas Cool Memories, 1980-1985 (Ed. Espaço e Tempo, 1992), um deleitável livrinho de fragmentos, Jean Baudrillard faz este registro: “A história desse barco construído com uma quantidade tão grande de ferro e aço que a agulha de sua bússola, em vez de indicar o norte, só se orienta em direção à sua própria massa. Girando indefinidamente em torno de si, ele acabou por se perder nos gelos fósseis do quaternário”. Há várias metáforas que podem ser extraídas dessa imagem fantástica. A mais compartilhável é: os campos magnéticos são objetivos, reais, e valem o mesmo para todas as pessoas, pois não dependem da vontade ou da influência de ninguém. São como um contrato social que organiza os deslocamentos dos indivíduos. A bússola que nos indica o Norte e o Sul é como nossos princípios éticos que nos indicam o Bem e o Mal, o Certo e o Errado. Um psicopata social, por exemplo, é um sujeito para quem não existem o Certo e o Errado da sociedade em que vive. Existe apenas o Certo e o Errado dele próprio. Sua bússola só aponta para ele mesmo. Seu único ponto de referência são seus impulsos e suas vontades.

Há outra história que já vi referida como ameaça aos navegadores portugueses que se aventuravam no oceano: a existência de uma enorme montanha magnética (segundo alguns, nas proximidades de ilha de Bornéu) que era capaz de arrancar todos os pregos de uma embarcação, desmanchando sua estrutura e fazendo-a naufragar. Esta lenda é, na verdade, anterior às viagens dos Descobrimentos, pois é mencionada nas Mil e Uma Noites, na “História do Terceiro Calênder, ou Dervixe”.

Diz a tradução de Sir Richard Burton: “Amanhã, no fim do dia, nos aproximaremos de uma alta montanha de pedra negra conhecida como a Montanha Magnética, para a qual as correntes marinhas nos conduzirão, mesmo a contragosto. Assim que estivermos próximos, o navio se desmantelará e todos os pregos ali cravados voarão pelo ar até grudar-se aos flancos da montanha, pois Allah, o Todo-Poderoso, concedeu àquela pedra a misteriosa virtude do amor pelo ferro, e por esta razão tudo que é de ferro é por ela atraído. E nessa Montanha existe muito ferro, tanto que ninguém além de Allah pode calcular, arrancado dos muitos navios que ali se perderam desde os tempos de antanho”.

Temos aqui o caso inverso, que sugere a aproximação entre duas pessoas e o desmantelamento total de uma delas, que tem sua força totalmente sugada para fora de si e literalmente se desmancha. Tantas vezes ouvimos alguém se queixar, após uma relação conturbada: “Fulano(a) me desestruturou por completo”. A presença ou a ação da outra pessoa retirou do indivíduo incauto os “pregos” que mantinham no lugar suas convicções, seus hábitos, seu equilíbrio. Nada substancial foi destruído, o que se perdeu foram apenas os conectivos que mantinham as partes ligadas entre si. A imagem literária é fantástica, e, como tantas vezes acontece, intuitivamente verdadeira.

2165) A experiência do dr. Lugano (14.2.2010)





Este episódio está registrado nos Anais do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri, vol. XII, a partir da página 119, substanciado por depoimentos e reproduções das imagens pertinentes ao caso. Basta-me aqui referir os fatos principais, que julgo não serem de conhecimento do grande público.

Em meados de 1976 surgiram boatos de que uma D. Eulália, residente em Monteiro, no Cariri paraibano, estava produzindo fenômenos mediúnicos, testemunhados por dezenas de pessoas. Não havia a tradicional comunicação com espíritos dos mortos; foi constatado que nas ocasiões em que ela entrava em transe ocorriam fenômenos de levitação, poltergeist, materialização de ectoplasma, etc. 

O dr. Alberto Lugano, professor da então FURNe (hoje Universidade Estadual da Paraíba-UEPB), procurou-me no Museu de Arte, onde eu trabalhava, e pediu-me que o acompanhasse numa visita, levando uma filmadora Super-8.

Em Monteiro, fomos recebidos pela família de Dona Eulália. Explicamos que queríamos filmar tudo, e não encontramos oposição. Havia uma dúzia de visitantes na sala, que era ampla, e mais alguns membros da família. Instalei o tripé, acendi luzes. 

D. Eulália sentou-se numa cadeira, e pedimos que se colocasse de encontro a uma parede branca, que nós mesmos escolhemos. E foi assim que consegui filmá-la no momento em que, depois que ela mergulhou em transe, a cadeira se ergueu no ar, diante dos nossos olhos, oscilando um pouco para os lados, mas subindo verticalmente, a um palmo da parede, e chegando a ficar quase dois metros acima do chão. Depois, baixou.

O filme provocou debates acalorados na FURNe (“Charlatanismo! Hipnose!”), e depois na UFPB em João Pessoa, para onde o levamos na semana seguinte. Era apenas um rolo de Super-8; eu tinha levado vários rolos, mas o fenômeno durou apenas dois ou três minutos. 

Pude mostrar que não havia truque, até porque o Super-8 é reversível, ou seja, não tem um negativo de onde se tire uma cópia. O rolo filmado é, depois que o revelamos, o mesmo rolo exibido, e era claro que não havia manipulação. E não se pode hipnotizar uma película.

Voltamos para Campina e fizemos nova sessão, convidando a imprensa. Todos prenderam a respiração vendo novamente o plano único, sem cortes, da médium sentada, seu rosto arfando, os olhos esbugalhados fitando a câmara e fechando-se devagar. Em seguida sua cabeça descaía para o lado, e a cadeira começava a se elevar. 

Chegando ao fim do filme, um crítico de cinema local veio até o projetor e pediu-me para fazer uma nova projeção, mas começando do ponto em que a mulher já estava em transe. Fiz o que ele pedia, apagamos as luzes... e daí em diante (juro pelos meus filhos) a mesma imagem que víramos antes mostrou apenas a cadeira imóvel, e a médium de cabeça baixa. Nada se mexeu, nada se elevou. 

“Sim,”, disse o crítico, “é impossível hipnotizar uma película, mas se a película registra algo capaz de hipnotizar, julgamos ver na tela o que nunca foi registrado pelas lentes. É sempre assim”.


(Este conto está incluído no livro Histórias Para Lembrar Dormindo, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011)