terça-feira, 25 de maio de 2010

2073) U-2 no YouTube (30.10.2009)



Era mais de meia-noite; dei uma olhada no Facebook e havia este post lacônico de uma amiga minha: “Fazendo hora para ver o show do U-2 ao vivo pelo YouTube”. Pensei que era uma brincadeira movida a trocadilho, mas havia um link, e fui lá. Abri a página, cliquei no link do streaming e fiquei no aguardo. Daí a pouco surgiram na tela Bono, The Edge e os outros descendo da van, do lado de fora do estádio, sendo recebidos por uma equipe de segurança... Tudo isso intercalado com imagens do interior do estádio, uma multidão indócil e bem-humorada. A imagem em alta definição era de tal natureza que se houvesse algum amigo meu na platéia eu poderia reconhecê-lo quando a grua passava em voo rasante por cima da turba.

Resumindo: das 2 às 4 da manhã assisti o show do U-2 em tempo real no Rose Bowl californiano, o mesmo estádio onde o Brasil foi campeão em 94 quando Baggio chutou o pênalte por cima da trave de Taffarel. E vi com uma imagem muito melhor do que a da TV da minha sala, logo eu que uso um monitor LG bem furreca; e um som que (graças aos fones de ouvido) eu pude botar bem alto sem inquietar o sono dos vizinhos, e curtir uma reprodução com ótima nitidez, permitindo-me escutar os harmônicos sutis da guitarra de The Edge e as complicadas e firmes linhas-de-baixo de Adam Clayton.

O cenário gigantesco foi chamado pelos seus criadores de A Garra (The Claw) mas Bono o chamou de A Estação Espacial (confira aqui essa beleza arquitetônica, coleguinha: http://tinyurl.com/yghz75o). Antigamente, se a gente desse 10 passos prum lado, perdia o som, perdia o retorno, perdia tudo. Hoje, o U-2 se espalha ao longo de passarelas, os membros da banda chegam a ficar 100m de distância um do outro e tudo flui. A tecnologia expande a platéia globo afora, espalha a banda por um perímetro impensável.

Os mais blasés farão um muxoxo e dirão: ora, amigo, então nunca viste um show ao vivo? Direi que sim, inclusive do próprio U-2 quanto tocou em São Paulo. Mas uma coisa é ver um show que está sendo retransmitido pela TV aberta para todo o país, algo a que é quase impossível fugir, crivado de comerciais chatos. Mas um show no YouTube necessita de um ato de volição, de uma decisão de procurá-lo, acessá-lo, assisti-lo. Torna-se algo mais intensamente coletivo justamente por ser seletivo. Naquele instante, eu não estava compartilhando meu prazer com 50 milhões de desinformados bocejantes. Quem estava ligado ali, no mundo inteiro, é porque gostava da banda. Egoísmo? Elitismo? Acho que não. Apenas um esprit-de-corps meio cineclubístico, de quem diz: “Somos só nós, alguns milhões de nós, vendo o que nós gostamos”. Variedade de oferta e possibilidade de opção são o lado bom do Capitalismo. Daqui a algum tempo, veremos apenas o que quisermos ver, porque os canais serão muitos, as ofertas serão muitas, eu e o mundo poderemos ver em tempo real The Decemberists tocando para 500 pessoas num teatro universitário de Seattle ou de East Lansing.

2072) Os ideogramas mitológicos (29.10.2009)



A história das religiões e das mitologias pode ser vista como um alfabeto de símbolos, os quais em si mesmos já são complexos, e quando se articulam uns aos outros geram possibilidades infinitas de interpretação. Um símbolo mitológico não é algo simples e uno como uma letra do nosso alfabeto, que só significa a si mesma. Seria mais parecido com um ideograma japonês, que é um desenho composto de desenhos menores, cada qual significando uma coisa diferente, e o sentido geral do ideograma é maior que a soma dos sentidos isolados de cada um. O exemplo clássico, muito citado nos manuais, é o do ideograma que significa “vermelho”, o qual é composto de quatro ideogramas menores que indicam “rosa”, “cereja”, “ferrugem” e “flamingo”. Vendo estes quatro ideogramas justapostos, todos eles sugerindo imagens que incluem a cor vermelha, podemos deduzir o significado geral do conjunto.

Indagado sobre o título de seu romance O Nome da Rosa, visto que nenhuma rosa é mencionada com destaque no livro inteiro, Umberto Eco ponderou que a Rosa é um símbolo universal, que pode significar a vida, o renascimento, a mulher, a paixão, a efemeridade, a beleza... É uma imagem com muitas facetas, e cada uma delas poderia ser associada ou contrastada àquela narrativa de crimes, mosteiros, livros clássicos, ascetismo, luxúria, transcendência espiritual e morte. Esta é a função de um símbolo: poder ser lido de formas diferentes, quando justaposto a coisas diferentes ou enxertado em contextos diferentes. Alguém dirá: “Ora, então qualquer coisa pode ser símbolo”, e eu concordo. Um ferro-de-engomar pode ser um símbolo, uma jaca pode ser um símbolo, um acento circunflexo, um cadarço de tênis, uma rolha de garrafa, uma verruga, um cágado. O que acontece é que, por motivos variados, alguns símbolos produzem leituras mais ricas e mais complexas do que outros.

O mesmo se dá com formas geométricas, que se prestam a mil associações. Um triângulo pode ser Deus: por ser uma figura de três lados ou três angulos, representa a Santíssima Trindade. Também pode ser uma imagem erótica – um triângulo com a ponta para baixo representa (pelo menos pra mim) o púbis feminino. Pode ser um símbolo do plano, da superfície, por ser a menor figura possível com apenas duas dimensões. Pode ser um símbolo do Infinito, se o virmos como uma verticalização do ponto-de-fuga de um desenho em perspectiva: a base é onde estamos, a ponta é o horizonte remoto para onde parecem convergir as paralelas. E assim por diante.

O que a linguagem poética, iconográfica, etc. tem feito é promover combinações diferentes desses materiais. Osman Lins utilizou A Espiral e O Quadrado como base para seu livro Avalovara. Que obras (de qualquer tipo) resultariam, por exemplo, da junção entre As Asas e O Quadrado? Ou entre O Labirinto e A Nuvem? Ou entre O Relógio, A Esfera e O Crocodilo? As possibilidades, como sempre, são infinitas.

2071) A maldição da France Télécom (28.10.2009)



Desde o começo de 2008 que a France Télécom, uma das principais empresas de telecomunicação da Europa, está sendo varrida por uma onda de mortes que parecem brotar de um livro de Dan Brown. Eu ia dizendo “um livro de Georges Simenon” por proximidade linguística, mas Simenon era um escritor realista da velha cepa, e o que está acontecendo na FT parece mais o produto da imaginação hiperbólica de um autor de pulp fiction, como Dan Brown indubitavelmente é.

Um jornal português resumiu assim a situação, dias atrás: “A France Telecom anunciou ontem a suspensão do programa de reestruturação da empresa, depois de 25 trabalhadores se terem suicidado no último ano e meio. As mortes terão resultado da pressão a que estiveram sujeitos enquanto decorria o plano de reestruturação agora adiado. De acordo com um porta-voz da empresa citado pelo Times, cerca de 10 mil trabalhadores mudaram de posto de trabalho nos últimos três anos. Na semana passada houve uma tentativa de suicídio e um outro consumado por um engenheiro de 48 anos, que se enforcou em casa. De baixa médica há mais de um mês, o trabalhador deixou uma nota onde culpava o ambiente de trabalho pelo seu ato”. Os métodos mais usados pelos suicidas têm sido tomar pílulas para dormir, enforcar-se e saltar da janela do escritório.

Os leitores mais perspicazes desta coluna já terão notado que sou inimigo-a-ferro-e-fogo do Capitalismo Predatório, o espírito maligno que a cada século crava mais fundo seus caninos na jugular do mundo. O capitalismo “tout court” até que não é tão infernal assim, é apenas um deserto artificial, criado por firmas terceirizadas que exploram a concessão dos oásis. Mas o Capitalismo Predatório é um game em que algumas dezenas de executivos, enclausurados em seus bunkers nas coberturas das torres de vidros, manipulam organogramas, projetos, cronogramas, fluxos de caixa e outros números e conceitos abstratos, reduzindo aqui, ampliando acolá, minimizando custos à esquerda e projetando lucros à direita, cada qual querendo pontuar mais, performar melhor. Quanto aos seres humanos cujas vidas serão postas de pernas-pro-ar por essas medidas, eles não estão nem aí.

Os executivos da FT dizem que estatisticamente esta número de suicídios está dentro da média da população, e que muitos foram motivados por problemas pessoais, e não profissionais (embora vários suicidas tenham deixado bilhetes onde dizem claramente que se matam por pressões no ambiente de trabalho). A FT foi privatizada em 1997 e desde então tem passado por um drástico “enxugamento” para torná-la mais competitiva e lucrativa. Foi instalado um novo gerenciamento “cuja primeira preocupação é o lucro e a produtividade”, queixam-se os sindicatos. E desde então só tem feito crescer o número das pessoas que rabiscam num papel “prefiro morrer e deixar meus filhos órfãos do que trabalhar aqui”, e pulam.

2070) “Berro Novo” (27.10.2009)



O novo livro-CD de poemas de Jessier Quirino (para o qual, como Van Gogh, contribuí com uma orelha) amplia com mais uma robusta ala a Casa Grande poética que o arquiteto de Itabaiana vem construindo para o poeta de Campina morar. Jessier absorveu o que a poesia matuta anterior a ele tinha para oferecer, mas dentro dela foi abrindo novas veredas, criando modelos, impondo um jeito personalizado de ver e de dizer as coisas. Não é um poeta matuto como foi Zé da Luz, assim como João Bosco não é um sambista como foi Cartola.

A contracapa do livro traz um saboroso poema que ilustra bem minha tese: “Deu um vento na Serra do Araripe / que entronxou uma igreja no Japão / e, por falta de padre e de beato, / vei de lá com a molesta feito o cão: / derrubou as muralhas lá da China / levantou um poeirão em Bagdá / se enfiou num esgoto no Catar / foi sair no quintal da longitude / estourou um bueiro em Roliúde / que até hoje tá dando o que falar: / foi uma moça querendo se esquivar / de mostrar a caçola e os possuído: / Marilyn Monroe agarrada com o vestido / e o vestido danado a se enfunar.”

Os temas de um poeta, matuto ou desmatuto, são todas as coisas que fazem parte de sua vida, tudo com que ele entra em contato e que lhe sugerem uma constelação de palavras carregadas de sonoridade e de significados, que é meio-caminho-andado para a produção de um poema. Um crítico purista diria que um poeta matuto não pode escrever sobre Marilyn Monroe porque ela não pertence ao seu mundo, e talvez citasse precedentes de poetas que jamais escreveram sobre estrelas do cinema. Jessier Quirino, impérvio a essas discussões, escreve sobre as coisas que vê e os lugares onde vai, e nisso talvez esteja mais próximo dos cordelistas e dos repentistas, para os quais nenhum assunto é vedado.

Jessier é o rei do símile, ao lado de Raymond Chandler, e cada página nos dá de graça um exemplo de flash concreto transformado em paralelo abstrato: “mais descansado do que caranguejo almoçando”, “tranquilo que só jumento em sombra de igreja”, “devagar que só enterro de viúva rica”. Atenção para o símile não-auto-explicativo, aquele que elimina o adjetivo ou advérbio inicial e recorre apenas à imagem, para que o leitor faça sua própria comparação. É o caso de “saiu que nem uma vaca acuada de cachorro”, que para mim evoca a imagem de uma criatura pesadona perseguida por uma mais leve, e que sai bamboleando, meio aos tropeções, sabendo que não pode fugir mas fugindo.

Lá pela cozinha do livro, a seção “Gaveta de Bugiganga” traz pequenas definições irretocáveis como “Cauby Peixoto é um dos maiores Frank Sinatras do Brasil”, sugestões cívicas (“Retirar as poltronas giratórias do parlamento e trocar por tamboretes. Vá lá que o cabra não faça nada, mas ficar encostado e rodando já é demais!”) e fascinantes sinopses como “História do padre tatuado na virilha que esqueceu o celular no motel e engoliu a lente de contato misturado com um Engov”. Aí a coisa desembesta.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

2069) Aquele de Nós (25.10.2009)




Aquele de Nós que escreve estas linhas é um dos que têm condições materiais menos propícias, pois é obrigado a trabalhar para sobreviver. Seu desenvolvimento embrionário permite-lhe alimentar as ilusões costumeiras sobre sua individualidade e livre-arbítrio. Como nenhuma corrente é mais forte do que o mais fraco dos seus elos, cabe-nos dar-lhe apoio, transmitir-lhe energia, para que evolua e possa mais adiante equiparar-se a Nós. Voltamos para ele nossa atenção, mesmo ao custo de nos isolarmos dos variados ambientes em que estamos, e de nos afastarmos durante algumas horas das atividades que nos ocupam em várias partes do mundo. Mas quando sentimos bruxulear, indecisa, a luz de sua inteligência, temos que nos fazer presentes para avivá-la. É a lei única, a única maneira de agir. Ele é um de Nós.

Estamos tendo cuidado, neste instante, de não permitir que ele revele sobre Nós mais do que já é sabido. Tudo precisa ser dito como um texto de ficção ou uma crônica fantasiosa, como tantas que ele produz. Nós o monitoramos o tempo inteiro, porque na verdade somos Um Só o tempo inteiro, e sabemos o quanto lhe é possível afirmar ou especular sem despertar suspeitas da nossa existência.

Apesar do fortíssimo vínculo que nos unifica, cada um de Nós tem uma existência humana individual, sujeita a variações, a flutuações estatísticas. Se não fosse assim, seria difícil integrar-nos a uma sociedade humana, em que o conceito de individualidade é ainda mais importante do que o de Divindade (pois mesmo entre os que se afirmam ateus não existe um só que duvide da sua própria existência como indivíduo). Permitir que tenham nome, que acumulem memórias pessoais e desenvolvam personalidades aparentemente distintas é uma forma de abrigar com segurança, por trás desses milhares de máscaras, o rosto uno e idêntico que é o nosso.

Por isto, ao que escreve estas linhas é permitido revelar ou sugerir muito do que a outros seria vedado. A cultura em que está imerso privilegia a ficção, as invenções, o devaneio imaginativo. É uma cultura de projeções coletivas num enorme écran que eles acabam por supor mais real do que eles próprios. É irônico que, numa civilização que acredita na existência de mentes individuais, todas se esforcem tanto para absorver imagens alheias refletidas em filmes, livros, espetáculos. Crêem-se únicos, e talvez esse excesso de segurança lhes provoque o desejo de se projetar em heróis, em personagens, em líderes.

O de Nós que aqui escreve é um dos que se beneficiam dessa indústria de personalidades postiças e colabora com ela, inventando enredos, inventando personas. Essa profissão talvez contribua para que ele seja tão desatento a si mesmo, tão desprendido, tão indiferente ao culto do próprio rosto e do próprio nome. Ele sabe que todos os seus semelhantes são ficções, e que ele próprio não passa de um Terminal através do qual se manifesta a Nossa existência.

2068) Auto-ficção (24.10.2009)




O “Segundo Caderno” do Globo fez um grupo de matérias sobre literatura autobiográfica. Fiquei sabendo da existência da cidadezinha (13 mil habitantes) de Ambérieu-en-Bugey, na França, que se auto-intitula “Cidade da Autobiografia”. Foi ali que o pesquisador Philippe Lejeune instalou em 1992 a Associação pela Autobiografia e pela Preservação do Patrimônio Autobiográfico (APA), cuja missão é “receber, ler, comentar e preservar todo e qualquer escrito autobiográfico que lhe seja encaminhado”. Há um inevitável encontro anual que estimula o turismo e o comércio do lugarejo, mas o mais importante é que essa entidade não se volta para os autobiógrafos famosos. A APA recebe cerca de 180 textos por ano, dos quais 75% são autobiografias, 20% diários e 5% conjuntos de cartas, “cuja extensão varia de 20 a 13.000 páginas, geralmente (mas não apenas) escritos por pessoas nascidas nas décadas de 1920 e 1930”.

Lejeune é autor de um livro, O pacto autobiográfico (saiu no Brasil pela Editora da UFMG) onde diz que a autobiografia é um gênero “definido por um pacto, no qual o autor promete ao leitor contar a verdade a respeito de si e de sua vida”. Ora – como diria Pilatos, o que diabo é a verdade? É sobre este mais elusivo dos conceitos que a autobiografia funda seus castelos de palavras. Como confiar na verdade alheia, na palavra alheia? Eu próprio já defini autobiografia como “um livro em que um cara prova que quem tinha razão era ele”. O que há de fascinante na autobiografia é justamente que ela absorve todas as nuances possíveis da palavra “verdade”.

Diz Lejeune, com muita argúcia: “A autobiografia não é um texto onde alguém diz a verdade. Ela é um texto onde alguém diz dizer a verdade. Na prática, há portanto autobiografias perversas, lúdicas, brincalhonas etc. Mas essas perversões e desconfianças só podem existir no campo do discurso aberto pelo pacto autobiográfico. A ficção pode, de maneira interna, construir sistemas vertiginosos, mas é incapaz de fazer essa coisa simples, mentir, porque ela em momento nenhum promete a verdade”.

No Brasil, temos o Museu da Pessoa (http://www.museudapessoa.net/), que cumpre uma função parecida, e ao qual já recorri para pesquisar trabalhos. Meu maior problema era que baixava os relatos autobiográficos para checar dados, e passava a semana inteira lendo as vidas (fascinantes, surpreendentes, enriquecedoras) de gente anônima que fazia suas autobiografias em forma de entrevista. (Não sei se os critérios de Lejeune incluiriam esse formato; para mim, não há muita diferença). Coleridge falou que qualquer vida humana, bem contada, daria um belo romance. Talvez a vida de um cara como Pedro Nava, por exemplo, não tenha sido muito diferente da vida de seus companheiros de geração e de classe social, mas a questão é que Nava tinha uma observação arguta, uma memória imensa (cujas lacunas, sem dúvida, a imaginação supria) e uma magnífica capacidade de narrar.

2067) Os melhores planos dos vilões (23.10.2009)




(Gert Frobe, como Goldfinger)

O saite FilmCritic tem, para desocupados como eu, aquela tradicional seção de listas dos “10 Melhores Isto”, “12 Piores Aquilo”. 

Uma que chamou minha atenção foi a dos Dez Melhores Planos de Vilões. Um bom filme de ação, policial, etc., depende em grande parte do plano maluco ou megalomaníaco concebido pelo vilão. 
 Alguns deles são comentados no saite: http://www.filmcritic.com/misc/emporium.nsf/reviews/The-Ten-Best-Evil-Plans

O plano de Goldfinger no filme homônimo da série James Bond foi, na época, de grande originalidade. Ao invés de tentar roubar o pesadíssimo ouro de Fort Knox, nos EUA, o vilão pretendia torná-lo radioativo com a explosão de um pequeno artefato nuclear, para inviabilizar as reservas norte-americanas, valorizando o ouro do vilão.

Outro golpe hábil é o do vilão do filme Duro de Matar. Querendo ter acesso a um cofre super protegido, ele invade o edifício e anuncia ser aquele um atentado terrorista. Começa a ameaçar os reféns, exigir a libertação de presos, etc., por saber que uma das medidas inevitáveis da polícia, em tais circunstâncias, é desligar a eletricidade do prédio – justamente o que ele precisa para poder ter acesso ao cofre.

O golpe urdido pelo maligno Keyser Soze em Os Suspeitos é igualmente hábil, mas este é um filme que não pode ser livremente discutido sem se estragar a surpresa dos seus minutos finais, que nos forçam a (como fiz) rever o filme inteiro sob outro paradigma. O roteiro é brilhante, e o golpe se baseia numa espécie de gambito no xadrez – a tática que nos faz entregar ao adversário uma peça de menor valor para com isto conseguir algum tipo de situação mais vantajosa.

O pessoal do FilmCritic coloca entre os “melhores planos” alguns que eles mesmos consideram não-tão-melhores-assim. Entre eles, dois de filmes de ficção científica que aprecio bastante, mesmo considerando que seus enredos se baseiam em premissas absurdas. 

O primeiro é O exterminador do futuro de James Cameron. A premissa de mandar um cyborg ao passado para matar a mãe de um futuro líder rebelde é tão clichê na FC que ninguém faz a pergunta que o FilmCritic faz agora: não seria mais fácil matar o líder rebelde lá mesmo no futuro, quando os humanos não passam de um grupo precariamente armado e encurralado por milhares de robôs?

Outra premissa meia-bomba é a do filme Matrix, em que as máquinas dominam o mundo e usam os corpos humanos como fontes de energia, enquanto mantêm suas mentes ocupadas com uma realidade virtual onde eles imaginam viver uma vida suspeitamente semelhante à do nosso presente. 

Centenas de críticos já questionaram a relação custo-benefício dessa situação, e o FilmCritic indaga se não seria mais simples usar bois ou baleias para tanto. Afinal, são mamíferos cujo metabolismo os qualifica como “baterias biológicas” com muito mais energia, além de provavelmente não precisarem de realidade virtual nenhuma.








2066) “A Máquina do Tempo” (22.10.2009)



Revi no DVD esta adaptação dirigida por George Pal em 1960 para o romance clássico de H. G. Wells, em que um inventor, o fim do século 19, constrói uma máquina que o conduz ao ano 802.701. Vi este filme aos dez anos e é ainda hoje um dos que me produziram uma impressão mais forte. Quase meio século depois, algumas imagens estavam perfeitamente nítidas na minha memória, e neste intervalo creio só tê-lo revisto uma vez, na “Sessão da Tarde” da TV.

A longa sequência inicial do filme tem uma ambientação “steampunk”, na Londres vitoriana, reproduzida com fidelidade cinematográfica. Ou seja: o filme é fiel aos filmes anteriores, e é irrelevante se a Londres real era daquele jeito ou não. George Pal fez uma quantidade razoável de filme de FC sem genialidade mas cheio de pequenos toques brilhantes, principalmente quanto ao visual. Neste filme, a obra-prima é a máquina em si, uma espécie de trenó metálico em tamanho grande, com um painel de controle, um assento, e – este é um toque do filme, ausente no livro de Wells – um enorme disco rotatório por trás do assento, disco que se põe em movimento quando a máquina é acionada. O design da máquina é de William Ferrari, que voltou a trabalhar com o diretor em Atlântida, o Continente Perdido (1961), e também foi diretor de arte em episódios da série Twilight Zone (1959-1963).

A sequência da primeira viagem pelo Tempo, com câmara acelerada, flores desabrochando a olhos vistos, o sol percorrendo o céu a toda velocidade, é uma das melhores coisas do filme. Pal e seu roteirista David Duncan fazem o Viajante no Tempo fazer duas paradas intermediárias (que não constam do livro de H. G. Wells), uma em 1917 e outra em 1940, ambas durante as guerras mundiais, e mais uma terceira em 1966, quando está em curso uma outra guerra, desta vez com armas atômicas. É uma alteração no enredo que de certa forma o reforça, pois Wells foi um crítico feroz da guerra.

O filme cai um pouco quando o Viajante no Tempo chega ao futuro, porque a situação proposta por Wells sofre uma diluição braba. A humanidade está dividida entre os Elois, que são lourinhos, ingênuos, e vivem como hippies inofensivos, tomando banho de rio e comendo frutas; e os Morlocks, criaturas monstruosas, que vivem no subterrânea cuidando das máquinas. Os Morlocks do filme têm uma aparência grotesca e não parecem muito as criaturas albinas, fotófobas mas inteligentes do livro de Wells. E toda a especulação sociológica de Wells se dilui. Também está ausente do filme a ida final do Viajante para o futuro remoto, daqui a milhões de anos, quando o sol está a ponto de se apagar.

A não ser isto, o traçado geral do filme segue de perto a obra original. A primeira metade é melhor do que a segunda. É um filme de FC dos anos 1960 que merece ser visto e revisto, pelo charme com que reconstitui uma obra clássica numa recriação visual que em muitos momentos se equipara ao livro.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

2065) A máquina de costura e o guarda-chuva (21.10.2009)




(Salvador Dali, "Sewing Machine with Umbrella")

É uma das imagens mais famosas associadas à arte surrealista. Procurando explicar os processos pelos quais o Inconsciente se manifesta na criação artística, André Breton costumava citar esta frase de Lautréamont em seus famosos Cantos de Maldoror (1869), no Canto Sexto, capítulo I:

“Belo como o encontro fortuito, sobre uma mesa de dissecação, de uma máquina de costura e um guarda-chuva”. 

O comentário habitual sobre este famoso trecho é que nele três objetos totalmente não-relacionados entre si aparecem formando uma cena meio absurda, meio paradoxal. E o conceito de beleza perseguido pelos surrealistas envolvia frequentemente o estranho (“uncanny”), o bizarro, o inesperado.

Já na época foi sugerida uma interpretação freudiana para essa frase. Os surrealistas endeusavam Freud, embora o doutor se escandalizasse um pouco com esses seus admiradores e procurasse dissociar seu nome do deles, sempre que possível.

Alguém sugeriu que o guarda-chuva simbolizava o homem, a máquina de costura simbolizava a mulher, e a mesa de dissecação seria uma cama. A imagem inteira corresponderia ao ato sexual.

Em seu artigo “Inspiration to Order”, Max Ernst (para mim o maior artista plástico do Surrealismo) afirma que essa frase exprime uma mecânica básica do pensamento surrealista, o mecanismo da Colagem, que consiste na “exploração do encontro fortuito, num plano não-adequado, de duas realidades mutuamente afastadas”.

Os surrealistas recorrem com frequência a objetos comuns, de significado ou função imediatamente reconhecíveis, objetos “absolutos” – para poderem dinamitar esse absoluto projetando o objeto num contexto que não o comporta.

Quanto mais banal, sólido e reconhecível o objeto, maior o choque de desenraizamento produzido quando o vemos recortado de seu contexto original e colado num contexto com o qual ele entra em choque. Não um choque proposital, simbólico, com intenção de contraste – mas o choque do aleatório, do fortuito, do que não parece ter intenção de mostrar ou dizer rigorosamente nada.

É o mesmo processo que desencadeia algumas famosas frases surrealistas, como “a ostra do Senegal comerá o pão tricolor”.

Ou certos quadros de Magritte como o que mostra, num quarto de dormir banal, a presença de objetos enormemente desproporcionais (pente, pincel de barba, cálices, etc.).

Ou, em O Cão Andaluz de Luís Buñuel, o indivíduo dentro do quarto arrastando, amarrados a cordas, duas cabaças, dois seminaristas, e um piano de cauda em cima do qual há um burro morto.

Nenhum desses objetos é fantástico em si: fantástica é a sua presença conjunta num mesmo espaço figurativo.

A Colagem, que Max Ernst vê como o procedimento surrealista por excelência, é uma quebra da sintaxe normal das coisas, a ausência de uma mediação que “explique” o modo como se relacionam. Imagens que produzem um curto-circuito no cérebro, forçado a reconhecer diante de si a justaposição de realidades incompatíveis.





2064) Vivemos na Matrix (20.10.2009)



Desde que a humanidade existe que há pessoas tomadas pela sensação de que alguém criou nosso mundo, controla nossas vidas e determina o que vai nos acontecer. Vendo a complexidade do universo, a presença constante do Acaso, e a ocorrência de fenômenos quase impossíveis de acreditar, o homem pré-histórico olhou desconfiado para as estrelas e pensou: “Tem alguém lá em cima roteirizando esse troço.” Deu a isto o nome de religião, e passou a atribuir a esse Alguém tudo que via à sua volta, desde a germinação das sementes até os raios e trovões e os eclipses solares. A crítica mais básica que se pode fazer à crença em Deus é a de ser, sem dúvida nenhuma, a mais cômoda das explicações para tudo. “Deus quis”, e estamos conversados.

Como os cientistas não gostam de se dar por conversados mediante uma simples frase, ainda mais sem corroboração empírica, chegamos ao século 21 com uma quantidade espantosa de conhecimentos sobre o mundo da matéria, e com uma vacuidade igualmente espantosa sobre o mundo do espírito. Li uma vez uma discussão entre um cientista e um pastor em que o cientista pedia ao outro que lhe provasse cientificamente a existência de Deus; o pastor pediu de volta que o outro lhe provasse teologicamente a existência do átomo. As duas exigências são levemente descabidas, porque tanto a Ciência quanto a Teologia são edifícios conceituais erguidos para provar coisas totalmente distintas. Provar cientificamente a existência de Deus é um pouco como provar matematicamente o valor literário do “Dom Quixote”.

A Ciência nos ensinou milhões de coisas sobre a matéria, mas não conseguiu provar a hipótese Deus... nem também desprová-la. Não existe nenhuma prova cientificamente insofismável de que Deus não existe. No máximo existe uma “imensa improbabilidade”, mas não é científico considerar isto como uma prova negativa cabal. É neste cenário que retorna, nos mais materialistas dos pensadores, a sensação bigbrotheriana de que “estamos sendo controlados e observados por alguém”. O excêntrico Charles Fort (“O Livro dos Danados”) afirmou certa vez: “We are property”, somos cria de alguém, somos gado, somos uma espécie animal

A versão mais consistente e atual dessa paranóia é: “Somos o video-game de alguém”. Confesso de público que essa idéia me persegue há quase trinta anos, sem outra evidência para apoiá-la além da leitura de duas dúzias de romances de FC onde se diz a mesma coisa. É o que a esta altura podemos chamar “A Síndrome Matrix”, não porque os filmes dos irmãos Warchovsky seja o non-plus-ultra dessa discussão, mas porque o seu impacto popular o transformou num ponto de referência. Para abrir uma discussão a esse respeito, basta postular: “Vivemos na Matrix”, e todo mundo que viu o filme saberá do que se trata. Somos personagens deles, e Eles nos acompanham fascinados, porque não sabem o que pensamos, podem apenas (como um usuário de um game) ouvir o que dizemos e acompanhar nossas ações.