domingo, 25 de abril de 2010

1956) “Dualismo” de Olavo Bilac (16.6.2009)



Aprendi de cor este soneto de Bilac ainda na infância. Meu pai arrancou uma página de revista em que ele vinha impresso, com uma foto do poeta ao lado, emoldurou-o e pendurou-o na parede da sala. Vez em quando, ao longo dos anos, eu parava e relia. Entranhou-se na minha memória como água na esponja. Um dia, em plena senilidade, terei esquecido meu nome mas serei capaz de balbuciar: “Não és bom nem és mau – és triste e humano, / vives ansiando em maldições e preces / como se a arder no coração tivesse / o tumulto e o clamor de um largo oceano”.

Neste primeiro quarteto, Bilac parece apaziguar os remorsos de um amigo, ou os seus próprios. Já começa nesta primeira estrofe (com bom/mau, maldições/preces) o magnífico jogo de antíteses que será mantido até o fim. Bilac sugere que o que fazemos depende menos de uma escolha ética nossa do que do tumulto mental que nos arrasta pela vida afora. O segundo quarteto diz: “Pobre, no bem como no mal padeces / e rolando num vórtice vesano / oscilas entre a crença e o desengano / entre esperanças e desinteresses”. Surge a única palavra obscura do texto, “vesano”, derivado de “vesânia”, loucura. E o poeta repisa o caráter dilacerado da alma humana, com mais uma trinca de dualidades no 1o., 3o. e 4o. versos.

O soneto cresce a partir do primeiro terceto: “Capaz de horrores e de ações sublimes / não ficas das virtudes satisfeito / nem te arrependes, infeliz, dos crimes”. É um traço curioso de uma certa mentalidade torturada ocidental, homens que “não crêem em deus mas têm medo do inferno”, que vivem equilibrados num fio e podem praticar a qualquer momento os atos mais aterradores ou mais altruístas. E ele conclui: “E, no perpétuo ideal que te devora / residem juntamente no teu peito / um demônio que ruge e um Deus que chora”.

Não vou enumerar os polos opostos restantes que fazem desse poema um dos mais típicos desta fase de Bilac (como “Inania Verba”, já comentado nesta coluna) em que ele escolhe com rara habilidade símbolos que se traduzem em palavras que guardam simetria formal, sonora, etc. Este verso final, uma das “chaves de ouro” mais belas de Bilac, exprime o dilema de um poeta fortemente emotivo e reprimido. É um verso nietzschiano, e o filósofo talvez perguntasse, com arrogância: “E o que é mais digno: rugir, ou chorar?”. O Deus que chora é o mesmo que nunca fica satisfeito com as virtudes que cultiva; o demônio que ruge é o que não se arrepende dos próprios crimes. O primeiro deles é o Bilac público, sempre polido, cuidadoso, cioso de sua imagem. O segundo talvez seja o que Bilac poderia ter sido em outras circunstâncias. Diz-se que o poeta tinha um laivo homossexual enrustido, mas as imagens femininas em sua poesia são as mais eróticas de sua época. Não me parece mera retórica: Bilac tinha fixação erótica no corpo feminino. Era um sensualista que, em outra época, talvez fosse um grande conquistador de moças e rapazes. Mais um dualismo.

1955) As dívidas de honra (14.6.2009)




(Mark Felt)

Num artigo em meu blog (“Garganta Profunda”, 4 de agosto de 2005) discuti a questão ética enfrentada por dois norte-americanos que ajudaram a derrubar o corrupto governo Nixon: Mark Felt, o diretor do FBI que repassou à imprensa informações secretas sobre o caso Watergate (e ganhou o apelido “Garganta Profunda”, porque na época ninguém sabia de sua identidade) e o ex-funcionário do governo Daniel Ellsberg, que se convenceu do erro militar e ético que era a Guerra do Vietnam e divulgou os famosos “Papéis do Pentágono”. 

O que têm eles em comum? Apenas o fato de que são traidores. Traíram seus patrões, traíram seus colegas de profissão e companheiros de trabalho, mas o fizeram em nome de princípios que, para eles, estavam acima da dignidade profissional.

Existirá algum princípio moral absoluto, superior a todos os outros? No caso de Felt e Ellsberg o que os levou à delação e à traição (que em tese estão entre os atos mais vergonhosos) foi a convicção moral de que rebaixando-se dessa forma estavam se sacrificando por uma causa nobre. 

É o mesmo princípio em que se baseia o “Disque Denúncia” usado hoje no Brasil para combater o tráfico de drogas e o crime organizado. 

É o mesmo que a Rússia estalinista usava, incentivando as crianças a delatarem os próprios pais se os vissem envolvidos em atividades anti-comunistas. 

Estou enfileirando na mesma prateleira (dirão alguns) coisas muito diferentes; mas o gesto é o mesmo. E o termo vil, cheio de vergonha, é o mesmo: judas, calabar, traíra.

Em seu livro Borges, Adolfo Bioy Casares cita (p. 738) um comentário do escritor argentino: “Kant dizia que nunca se deve mentir. Seu exemplo é de que se uma pessoa que pretende matar um homem pergunta se ele passou por aqui, devemos dizer a verdade, mesmo que a consequência disto seja uma morte”. 

É uma espécie cega de honestidade a que eu chamaria de “honestidade autista”, uma condição incapaz de comparar duas opções morais. Assim como se diz que uma criança autista interpreta literalmente o que ouve e não percebe segundas intenções (humor, ironia, etc.) quem age assim não percebe que não existem verdades absolutas nem compromissos absolutos com a verdade. 

Borges ironiza: “Claro, Kant era o homem mais inteligente do mundo, o mais sutil, etc.”

À página 846, Borges fala sobre dívidas de honra. Dá o exemplo de um homem que após uma noite de jogatina num clube de Buenos Aires perdeu tudo que tinha. No dia seguinte, recusou-se a pagar a dívida porque “não podia jogar na miséria sua mulher e seus filhos por causa do capricho de uma noite”. 

Esse indivíduo, diz Borges, “foi olhado por todos com horror, como se fosse um leproso, mas ninguém pensava que pior do que ele agia o que tinha ganho no jogo” (e insistia em cobrar a dívida). Para os que estavam em volta, “não observar as dívidas de honra seria cair no anarquismo”. 

Se queremos conhecer alguém basta saber qual é a última instância moral que ele se recusa a infringir.








1954) A mania de exatidão (13.6.2009)




(quadro de Georges Seurat)

Acho incômodo conversar com pessoas de mentalidade muito minuciosa, cuja mente parece uma folha de papel milimetrado, onde tudo tem que ocupar uma coordenada precisa, punctual (para distinguir de “pontual”, cumpridor de horários). 

Chega a conta do bar, para uma turma de cinco pessoas, eu dou uma olhada e anuncio a todos: “Deu 130”. Meu colega do lado corrige: “Não, deu 132”. Bem – se é para dividir por cinco, a diferença vai se diluir em meros centavos, aos quais não dou importância. 

Alguém pergunta: “Que horas são?”. Eu digo: “Duas e meia”. O outro corrige: “Na verdade, duas e 28”. E assim vai. 

Não digo que ele está errado. Está mais certo do que eu. Mas em certas circunstâncias quem pergunta não quer o número exato, quer apenas ter uma idéia. Quer saber se a conta deu mais de cem reais. Ou se já passam das duas horas. Eu, pelo menos, quando pergunto, pergunto com esse intuito.

É diferente, claro, quando precisamos lidar com uma cifra exata – para anotar no canhoto o valor de um cheque, ou para saber se vamos chegar a tempo para o filme que começa às oito em ponto. Em casos assim, qualquer minutinho faz diferença. 

Mas o maníaco por exatidão não relaxa. “Deu muita gente no Fla-Flu?”, pergunta alguém. Eu respondo: “Mais de trinta mil”. Por mim, tá respondido. Não foram 10 mil, nem 50 mil. Mas o colega acode, pressuroso, jornal em punho: “31.230 pagantes, 34.870 presentes”. Nada contra – mas não creio que a resposta dele responda aquela pergunta mais do que a minha.

Também ocorre no discurso literário. Vez por outra leio num romance qualquer: “Entramos no escritório dos advogados e fomos recebidos por um homem alto, aparentando 41 anos de idade...” Por que essa exatidão? Qual a diferença entre aparentar 40 e aparentar 41 anos? 

Quando eu avalio idades das pessoas, geralmente é em saltos de 5 anos. Esse aqui tem cara de 30, o que está ao lado parece ter 35, o de lá deve ter uns 40... É uma faixa de probabilidade. Não consigo imaginar que detalhes podem dar a alguém essa sintonia fina de perceber diferenças de um ano apenas.

Os escritores realistas, no entanto, são viciados em exatidão. Acham que isto confere credibilidade. “Eu estava ao telefone quando entrou na sala uma morena curvilínea, de cabelos longos, de 1,77 de altura...” Como ele sabia que não eram 1,76? 

Note que se o discurso literário é feito em nome do chamado “narrador onisciente” tudo bem, porque este, por convenção literária, pode nos informar até a quantidade de átomos que tem em cada um dos fios de cabelo desta beldade. Mas que personagem é este que num relance fotografa a altura exata de outra pessoa? O mundo excessivamente nítido em que vivem me incomoda. 

No que se refere a números, sou meio difuso. A menos que haja uma necessidade de ordem prática, objetiva, capto apenas os grandes volumes e as grandes massas, não ligo para contornos e detalhes. Como dizia Caetano, “pense Seurat, pense impressionista”.





1953) O Brasil no topo (12.6.2009)



Em apenas dois jogos, a Seleção Brasileira fez muita gente morder a língua, inclusive eu, que não botava fé em que o time de Dunga vencesse Uruguai e Paraguai na mesma rodada. Venceu e venceu bem, principalmente no primeiro jogo. Terminada a partida em Montevidéu, com 4x0 no placar, um amigo meu comentou: “Ninguém ganhou esse bolo”. Só quem pode ter previsto um resultado assim, principalmente quando não ganhávamos “lá dentro” há mais de 30 anos, seria uma dessas mães ou tias da família que entram no bolo só de farra, e cravam, invariavelmente, uma goleada a favor do Brasil.

O Brasil contou com a sorte no gol que Daniel Alves fez lá de longe, mas os demais foram gols trabalhados com consciência, inclusive o do pênalte sofrido e cobrado por Kaká. A defesa esteve brilhante, desarmando e rebatendo tudo, principalmente quando o Uruguai, depois do primeiro gol, deu um sufoco contínuo de uns quinze minutos, em que Julio César fez milagres. O placar moral seria de uns 5x2, mas foi uma goleada que nem os uruguaios contestaram.

Vencer o Paraguai “aqui dentro” era igualmente difícil. O adversário é mais fraco historicamente mas vive um momento melhor, e vinha na liderança das Eliminatórias. E já sabemos que qualquer time, quando vem jogar aqui no Brasil, bota a defesa na pequena área, o meio de campo na marca do pênalte e o ataque na meia-lua. Talvez por chegar com bafejos de líder o Paraguai saiu para o jogo e fez um gol contando com a sorte. Robinho, que ainda hoje não é um bom finalizador, acertou um chute difícil e empatou o jogo.

No segundo tempo Nilmar fez o segundo. É um jogador leve, ágil, inteligente, um dos melhores atacantes em ação no Brasil. Ele e Robinho são a dupla perfeita para um jogo em que seja preciso fazer tabelas, infiltrações rápidas ou contra-ataques. O jogo só não acabou em clima de euforia porque, sendo um jogo aberto, sem muita retranca, permaneceu indefinido até acabar. O Brasil perdeu pelo menos três chances claras de gol (uma com Robinho e duas com Alexandre Pato), e o Paraguai umas duas, de modo que até o final perdurou uma certa ansiedade.

Dunga é um técnico contestado, e não seria minha escolha. Mas está conseguindo aos poucos os resultados necessários, num estilo devagar-e-sempre. Sabe armar uma boa defesa e protegê-la bem, mas no ataque parece não ter muitas idéias e ficar perguntando aos jogadores o que fazer. Sofreu o diabo com a instabilidade dos atacantes. Luís Fabiano, desde o ano passado, vem sendo a salvação da lavoura. Pode ser que Nilmar se encaixe bem neste time, no qual, ao contrário de muitos jornalistas, não vejo lugar para Ronaldo Fenômeno. Ronaldinho Gaúcho talvez se recupere daqui para a Copa, mas também não sou otimista. Acho que o miolo da defesa da Seleção está perfeito, embora os laterais mereçam mais estudo. Na frente, temos Kaká, Robinho, Fabiano, Nilmar, Pato... O time está amadurecendo, e não precisa ser agora. É daqui a um ano.

sábado, 24 de abril de 2010

1952) Escândalos sexuais (11.6.2009)



O escritor Bruce Sterling sugeriu o termo “centopéia” para descrever um tipo de crime (não sei se a palavra tecnicamente se aplica) que sempre existiu na política mas que se intensificou com a cultura digital. A centopéia é um conjunto de informações verdadeiras e falsas, misturadas e divulgadas de forma a liquidar a carreira de um político. Todo político tem as fraquezas de qualquer ser humano, agravadas pela embriaguez de poder de quem ocupa um cargo e imagina que continuará ali para sempre. Oportunidades não faltam, e, como dizia Oscar Wilde, “sou capaz de resistir a tudo, menos a uma tentação”.

A centopéia é geralmente um escândalo sexual habilmente preparado pelos adversários da vítima. Segundo Cory Doctorow, que divulgou a teoria no blog BoingBoing, “ela dá a impressão de ser espontânea e estar preocupada com valores morais, mas na verdade é planejada e está visando o poder”. Sterling a chama de centopéia porque ela é segmentada, age às escondidas, e é cheia de veneno. Os ingredientes principais são:

1) Uma vítima numa posição de poder. 2) Um(a) parceiro(a) sexual da vítima. 3) Informações vazadas sobre a conduta sexual da vítima. 4) Militantes online: blogs, listas de mensagens, websaites de vídeos. 5) Atrizes, cantoras ou modelos com algum tipo de envolvimento no caso, para atrair com seu glamour a atenção da massa. Diz Sterling: “um político que tenha um caso com uma mulher feia, gorda, de meia-idade e de origem proletária é praticamente à prova de centopéias”. 6) Políticos de oposição que afirmem estar chocados e peçam a imediata punição da vítima. 7) Mídia digital, tablóides, TV a cabo e redes de TV aberta (que serão exploradas exatamente nesta ordem). 8) Uma investigação policial ou o mero boato a respeito de uma. 9) Uma população feroz e devassa, que se enfurece com a mera idéia de que políticos possam ter o mesmo tipo de relações sexuais ilícitas que eles têm. 10) Aspectos que, quando ocorrem, dão sabor mais picante ao caso: uso de drogas, adolescentes molestados, líderes religiosos (líderes de campanhas anti-pornografia são especialmente vulneráveis a centopéias), venda clandestina de vídeos comprometedores, vazamento de emails e chats, computadores confiscados, roubo de celulares com câmara, grampos telefônicos, malas-diretas anônimas com DVDs difamatórios.

Em geral (diz Sterling) uma centopéia bem feita derruba um político em pouco tempo. Uma centopéia mal sucedida se dilui em mero boato maldoso. A maioria delas é visivelmente produzida por alguém, com revelações sendo liberadas numa sequência que obedece um plano estratégico. O BoingBoing cita exemplos de 2008 na Índia, Grécia, Polônia, Indonésia, África do Sul, Grã-Bretanha e EUA. Mas a centopéia parece se dar bem com o clima moral dos EUA, um país bifronte onde o Moralista e o Depravado moram parede-meia um com o outro, e adivinhem qual dos dois olha pela fechadura para saber o que o outro vive fazendo.

1951) A minha e a sua religião (10.6.2009)



(H. L. Mencken)

O que fazer se um amigo nosso acredita, sincera e profundamente, que o planeta Terra repousa nas costas de uma tartaruga gigante, que por sua vez está sobre outra tartaruga maior ainda, e esta sobre outra ainda maior, e assim por diante, até o infinito? Claro que ninguém deixa barato uma crença como esta. A gente pigarreia, passa a mão nos cabelos, faz uma tentativa: “Olha, Fulano, a hipótese é de fato fascinante, mas você não acha que haveria, digamos, uma maneira mais simples de explicar as coisas, uma teoria com menos jeitão de réptil?...” Por mais que a gente tenha boa vontade, às vezes não adianta. Depois de anos de discussão, a intensidade da crença do nosso amigo está na proporção inversa à verossimilhança dos seus argumentos. Nesses casos a gente diz: “Tudo bem. Vamos falar de outra coisa. Que time você torce?...”

Não estaria fazendo mais do que levar em conta a frase famosa do escritor H. L. Mencken, o qual disse certa vez: “Temos que respeitar a religião de outro indivíduo, mas apenas no mesmo sentido em que respeitamos sua teoria de que sua esposa é bonita e seus filhos são inteligentes”. Não conheço comparação melhor. Religião pertence a esse mesmo território fluido e subjetivo. Não estou aqui questionando a existência de Deus, dos orixás nem das tartarugas. Refiro-me à experiência íntima de cada um, ao sentimento que ele associa à palavras “religião”, “fé”, etc. Admitindo a existência de Deus, é sensato supor que a experiência de Deus vivida por cada um de nós, mesmo a revelação do Deus da Bíblia a cada um dos seus profetas, é uma experiência única. Em seu conjunto, são todas irredutíveis entre si, incomparáveis. Imaginar de outra maneira seria igualar cada um desses profetas ao próprio Deus.

Um pouco dessa convicção subsiste na expressão surrada de que “religião é coisa de foro íntimo”. Esse foro íntimo é a alma privada de cada um, que não se comunica com as almas dos outros mas pode – admitindo-se a premissa da existência de Deus – ser acessada pela Divindade. Deus + São Pedro é uma coisa; Deus + São Paulo é outra. Cada um de nós é um grãozinho de menos-nada, mas, somado a Deus, faz uma diferençazinha que nos resgata do zero.

Dessa maneira cada um de nós tem uma experiência do Divino que se parece consigo mesmo. Revertendo a frase clássica, podemos dizer que cada homem faz o seu Deus à sua própria imagem e semelhança. Não um Deus “parecido comigo”, mas um Deus composto das coisas que sei e que sinto, das coisas que sou capaz de imaginar e de pressentir, que sou capaz de entender , de reverenciar. O Deus de Santo Agostinho e o de São Tomás de Aquino era certamente um Deus intelectual, filosofante, argumentador. O de São Francisco de Assis era cheio de emoção, de despojamento e da alegria das pequenas coisas. Todo Deus é uma espécie de espelho. Teu Deus é aquele que te define, que te cria, que determina quem és.

1950) “Versos Íntimos” de Augusto (9.6.2009)




É o soneto mais conhecido de Augusto dos Anjos e um dos mais populares de nossa língua. Não é um soneto impecável como os dos parnasianos. Como toda obra de Augusto, é o registro sismográfico de emoções intensas e idéias espantosas. Vai, num salto, do abismo ao Everest, e volta, e vai de novo. 

O primeiro quarteto, por exemplo. Nada me tira da cabeça que Augusto primeiro imaginou dizer: “Ninguém assistiu ao formidável enterro...” Mas o verso estava quebrado. Faltava uma sílaba. Ele poderia ter colocado um rípio (palavra “tapa-buraco”) qualquer e ter dito: “Se ninguém assistiu ao formidável...” ou “Pois ninguém assistiu ao formidável...” Mas optou pelo: “Vês?” E conseguiu muito mais impacto.

Em geral, quem faz versos rimados prepara primeiro os últimos. Augusto queria dizer: “Somente a ingratidão – esta pantera – / foi tua companheira inseparável!”. Usou como preparação “formidável” (adjetivo supérfluo, pouco enriquecedor) para efeito de rima. Mas rimar “pantera” com “quimera”, monstro real e monstro imaginário (neste caso um sinônimo de “sonho, fantasia”) é um belo achado.

Eu acho que “Acostuma-te à lama que te espera!” é um dos maiores decassílabos (e um dos mais amargos conselhos) da poesia brasileira. Por mim o soneto acabava aí. Felizmente ele prossegue e nos derruba ao chão com outra verdade de 200 toneladas: “O Homem, que, nesta terra miserável, vive entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”. 

A “fera” é uma rima além-do-sonoro para a dupla “pantera/quimera” do quarteto anterior. E essa repetição monótona de sufixos em adjetivos grandiloquentes (“Formidável! Inseparável! Miserável! Inevitável!”) acaba nos impondo, pelo exagero, a sensação de verdades definitivas, esmagadoras.

O verso do cigarro no primeiro terceto parece ter entrado apenas para rimar com o “escarro” que Augusto planejou para o verso seguinte. Mas... dêem uma geral, vejam como cigarros e fósforos aparecem em toda a obra do poeta, que nem sei se fumava ou se apenas se maravilhava com esses pequenos e mortais milagres químicos. 

E o “toma” (como o “Vês?” inicial) restaura o tom coloquial, “íntimo”, que o poeta tanto empregou, para desconforto dos puristas do seu tempo. O desfecho do soneto, então, pode não ser impecável (o verso “Se a alguém causa inda pena a tua chaga” é mera preparação), mas é inesquecível, com seus pares complementares e/ou opostos: mão/boca, beija-escarra, afaga-apedreja.

A poesia de Augusto, reconhecidamente difícil, tem seus momentos fáceis, como este. Não digo “fáceis” com desdém. Fácil porque cheio de imagens vívidas, que o leitor assimila no mesmo instante. Imagens com poder de choque, de comunicar verdades poderosas e sofridas. Um desabafo de revolta e de autoafirmação nietzschiana, que ainda hoje, cem anos depois, é recitado em mesas de bar por motoristas, mecânicos de oficina, comerciários, bêbados anônimos cujas mãos e bocas acendem o mesmo fósforo e fumam o mesmo cigarro.






1949) Torcida pernambucana (7.6.2009)



Muita gente já me perguntou por que motivo quase não existe torcida organizada do Flamengo, Corinthians, etc. quando estes times vão jogar em Pernambuco. Aqui na Paraíba, ao contrário, basta o avião do Flamengo apontar no horizonte e as cidades se cobrem de preto-e-vermelho. O Corinthians tem mais torcedores na Paraíba do que o Campinense, e o Botafogo do Rio mais do que o Botafogo de João Pessoa. Por que será? Alguns dos meus leitores sugerem que é porque o paraibano é sem personalidade, gosta mais dos times de fora do que dos seus, e acha que está se valorizando quando o Vasco vem jogar contra o Treze e ele larga em casa a camisa do Treze e compra uma do Vasco.

Meus amigos pernambucanos dizem: “Torcer por time de fora? Pra quê? Time de fora que se dane. Não gosto de nenhum deles. Sou Sport! A única serventia desses times do Rio e de São Paulo é dar surra no Santa Cruz e no Náutico”. Eis o segredo do torcedor pernambucano. Ele não torce pelos times de fora, mas não é por amor à terra, é porque ele detesta os adversários domésticos ainda mais do que detesta os times de fora. Até Ariano Suassuna, recifense adotivo, afirma: “Eu não dou a menor importância a Campeonato Brasileiro. É uma bobagem. O que é importante é ser campeão pernambucano, é ganhar do Náutico e do Santa Cruz. O resto é irrelevante”.

É uma faceta do imenso (e, em alguns aspectos, saudável) bairrismo dos nossos vizinhos. Para eles, Pernambuco vem antes do Brasil, mas o torcedor de lá não torce por qualquer time pernambucano contra os demais; e pelo time de fora ele torce apenas o necessário para derrotar o inimigo local. Para ele, seria um contrassenso largar a camisa do seu Leão, seu Timbu, sua Coral, e vestir, mesmo que por uma tarde apenas, o uniforme de um clube “estrangeiro”.

Daí esse menosprezo que os torcedores pernambucanos têm para com as torcidas da Paraíba, da Bahia, de outros Estados, que se enfeitam todas com as bandeiras e as cores de times cariocas e paulistas que vêm disputar um jogo. Não adianta dizermos: “Sou Treze, mas o Flamengo é meu segundo time”. Pernambucano não tem segundo time. Um torcedor do Náutico fica feliz da vida quando o Sport perde para o Palmeiras: sai às ruas, faz buzinaço, etc. Mas – ir para o estádio com a camisa do Palmeiras?! De jeito nenhum. Prefeririam desfilar de baby-doll na Ponte Buarque de Macedo.

Vai ver que têm razão. Porque quando admitimos a possibilidade de torcer por um time carioca, digamos, contra nossos adversários locais, estamos nos deixando contaminar de um certo amor por esse time estrangeiro. Daí a pouco estaremos acompanhando o campeonato do Rio, torcendo para que ele faça uma boa campanha. Comemoraremos quando for campeão carioca. E o horror dos horrores surgirá no dia em que esse time carioca virá à nossa cidade enfrentar nosso time local... e nos descobriremos com a vontade secreta de que o carioca vença. Será o último prego no caixão do Nordeste.

1948) O livro eletrônico (6.6.2009)



Um amigo meu chegou com uma engenhoca que parecia uma calculadora grande, com uma tela branco-leitosa do tamanho de um maço de cigarros; e disse que tinha ali dentro uma biblioteca de não-sei-quantos mil títulos. Manuseei o gadget: de fato, tinha uma lista que a gente rolava mediante uma barra vertical, assinalava um título, clicava não sei onde, e de repente abria-se na telazinha, numa página com letras agradáveis, em fonte de tamanho aceitável para os meus olhos, o texto de Moby Dick. Maravilha. Fiquei morrendo de vontade de comprar um, mas quando devolvi o aparelho meu amigo me asseverou, confiante: “O livro de papel está com os dias contados”.

Calma, companheiros! Talvez a única coisa que neste momento se possa afirmar com segurança seja: “O nicho de mercado do livro de papel está diminuindo”. O livro eletrônico tem inúmeras vantagens, e mal posso esperar que os preços das engenhocas diminua, para que eu compre uma delas (pelo que já vi, está entre 500 e 1.000 dólares). Para mim, contudo, um livro eletrônico tem que ser do tamanho e do peso aproximados de um livro de papel. Não tem sentido carregar na pasta ou na mochila algo que, mesmo carregando dentro de si 10 mil livros, tenha o peso de uma dúzia.

Num artigo recente (http://online.wsj.com/article/SB123980920727621353.html#), Steve Johnson observa que o e-book criado pela livraria Amazon, o Kindle, serve como ferramenta de leitura e de compra. Numa viagem de trabalho, fazendo hora num café e lendo no Kindle um tratado técnico, ele ficou entediado, teve vontade de ler um romance, e um minuto depois, com o mesmo aparelho, acessou o saite da Amazon e baixou a versão eletrônica de um livro de Zadie Smith. Entre a vontade, a consulta, o pagamento e o início da leitura do novo livro decorreram apenas poucos minutos. Diz ele: “O fato de existir uma livraria infinita ao alcance dos nossos dedos é uma boa notícia para quem vende livros, e pode ser ótimo para a disseminação do conhecimento, mas não é necessariamente uma boa notícia no que diz respeito ao recurso mais escasso do século 21: a atenção”.

Ter 5 mil romances dentro da mochila não é muito diferente de tê-los nas estantes do escritório. O tempo necessário para ler cada um deles é mais ou menos o mesmo. O que a biblioteca eletrônica nos dá é a invisibilidade do acervo. Quando meus livros começam a se empilhar no chão percebo que está na hora de “fazer uma limpa” nas estantes ou comprar uma estante nova. Mas um leitor eletrônico é rigorosamente o mesmo com dois mil ou vinte mil títulos no seu interior. Ele nos garante o álibi do espaço ilimitado, e nos faz esquecer que nosso tempo de leitura não é ilimitado. Daqui a alguns anos talvez seja possível colocar um milhão de romances dentro de um HD, mas duvido que haja tecnologia capaz de criar um dia de 48 horas. Ser dono da Biblioteca de Babel ou da biblioteca de papel é irrelevante. Só podemos ler um livro de cada vez.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

1947) Uma lenda antiga (5.6.2009)




(ilustração de Alexeieff)

Dizem que havia um homem que buscava a Sabedoria Imortal, e para isto pôs-se a caminho pelas estradas do Oriente. 

Tinha certeza de que em algum lugar do mundo haveria um conjunto de crenças e saberes capaz de responder a todas as perguntas passadas e futuras da humanidade. 

Um dia chegou ao pé de uma montanha altíssima, tão alta que mal se avistava o seu pico, por entre as nuvens. Era uma montanha escarpada, áspera, íngreme, batida por vendavais. No sopé, uma estrada subia por entre as pedras, e, bloqueando a passagem, um portão de ferro cheio de grades e correntes. Ao lado do portão havia um guarda armado.

“O que há lá no alto, que foi necessário colocar este portão aqui?” perguntou o viajante. 

“Não há nada”, retrucou o guarda. 

“Claro que há alguma coisa”, insistiu ele, “senão, para que o portão? E para que tu mesmo, aqui, de sentinela?” 

“Me pagam para isto, e tenho família para sustentar”, tornou o guarda, e prosseguiu. “É um trabalho sem sentido, como aliás qualquer outro. Mas lá em cima não há nada. Dizem, aliás, que uma vez, antes que eu viesse ocupar este posto, um homem aproveitou uma distração do guarda e, pegando um pedaço de pau, derrubou-o no chão, desacordado. Pulou sobre o portão e subiu a montanha. A subida foi muito mais trabalhosa do que ele tinha imaginado; foi vítima do ataque de aves de rapina, enfrentou vendavais e nevascas, quase morreu de fome, depois quase morreu de frio, depois quase morreu de cansaço. Um dia chegou ao alto da montanha. E não havia nada lá.

“Assim são todos os homens (continuou o guarda). São ávidos de segredos, de sabedoria transcendental. Ao se deparar com uma Sociedade Secreta, pressentem a possibilidade de que exista ali essa Sabedoria Oculta, mas ao mesmo tempo sabem que talvez tudo não passe de um engodo. A única maneira de saber é dedicar uma vida inteira a isso; mas ai, quando se está no fim da vida percebe-se que não havia segredo nenhum, e que mais valia ter dedicado a vida a outra coisa."

O viajante ficou pensativo durante alguns minutos, sentou-se sobre uma pedra, descansou. A certa altura, aproveitou uma distração do guarda e, pegando um pedaço de pau, derrubou-o no chão, desacordado. Pulou sobre o portão e subiu a montanha. 

A subida foi muito mais trabalhosa do que ele tinha imaginado; foi vítima do ataque de aves de rapina, enfrentou vendavais e nevascas, quase morreu de fome, depois quase morreu de frio, depois quase morreu de cansaço.

Um dia chegou ao alto da montanha. E não havia nada lá. 

Assim são todos os homens. São ávidos de segredos, de sabedoria transcendental. Ao se deparar com uma Sociedade Secreta, pressentem a possibilidade de que exista ali essa Sabedoria Oculta, mas ao mesmo tempo sabem que talvez tudo não passe de um engodo. A única maneira de saber é dedicar uma vida inteira a isso; mas ai, quando se está no fim da vida percebe-se que não havia segredo nenhum, e que mais valia ter dedicado a vida a outra coisa.