sexta-feira, 9 de abril de 2010

1892) “Der Leone have Sept Cabeças” (2.4.2009)



O mês de março comemorou os 70 anos de nascimento de Glauber Rocha, que, se vivo fosse, seria uma enorme surpresa para todos nós. Difícil saber que tipo de cinema Glauber estaria fazendo – ou que tipo de outra coisa – se tivesse continuado aqui, se tivesse sobrevivido a si mesmo. O bom de tais homenagens é o reaparecimento de filmes obscuros. Vi no Canal Brasil Der Leone have Sept Cabeças (1971), o proscrito e criticado filme que ele dirigiu na África logo após seu auto-exílio durante a ditadura. É um bom filme? De jeito nenhum, mas é um filme que inquieta, que desconcerta, e que até comove, quando a gente pensa que houve gente capaz de tentar colocar, na linguagem de um cinema que era vanguarda para a época, todas as contradições políticas e todo o receituário de soluções -- a guerrilha inclusive – que na época eram o ar que respirávamos.

Como tantos filmes brasileiros da época, é a fusão catastrófica entre o Cinema Cerebral e o Teatro Dionisíaco. Ou seja, minutos inteiros de câmara fixa, apontada para uma pessoa, ou um casal, ou um grupo de gente, que se limita a rolar no chão, soltar gritos e grunhidos inarticulados, refocilar-se na lama ou na areia, enquanto a trilha sonora produz efeitos ensurdecedores e dissonantes. Grandes cenas do cinema já foram feitas assim; o problema é que na época se pensou que bastava ser assim para ser uma grande cena. A sequência de cenas isoladas (eu tinha começado a escrever: “A narrativa do filme...”) acompanha personagens alegóricos: o Guerrilheiro, os Exploradores Europeus, o Mercenário, o Agente Imperialista, o Presidente Títere. Como nos filmes de Godard da época (One plus one, Vent d’Est) há longas cenas filmadas em cenários reais e sugestivos, com atores andando em círculo e recitando textos políticos ou poéticos. E numerosas cenas em que vemos atores na rua, praticando ações aparentemente sem sentido, acompanhados pela câmara na mão e por uma pequena multidão de curiosos.

Pode parecer que não gostei do filme, mas é o contrário. Há uma sequência brilhante em que os exploradores europeus convencem um chefe tribal africano a proclamar a independência e eleger-se presidente. (Foi isto que aconteceu com uns 30 países africanos entre 1960 e 1970). Eleito, ele desfila, vestido de mestre-sala de escola de samba, num cadilaque cheio de saxofonistas. Há uma cena cruel de uma fila de africanos de pé, imóveis, enquanto o mercenário, de pistola em punho, os abate de um em um com um tiro na cabeça. Há uma manifestação política em que alguém canta “A Marselhesa” em português de Portugal. Aqui e acolá, brota no áudio um violão em solos telegráficos e velocíssimos que depois vi na ficha serem de Baden Powell. O título multilingue do filme (alemão, italiano, inglês, francês, português) reflete a inextinguível Besta do Imperialismo contra a qual Glauber lutou com filmes toscos, caóticos, brilhantes e naufragados como este.

1891) Poe: “O Embuste do Balão” (1.4.2009)



(gravura de Odilon Redon)

O conto de Edgar Allan Poe “O Embuste do Balão” (“The Balloon-Hoax”), apesar de se apresentar sob este título, contou com a credulidade de milhares de leitores. O texto noticiava a primeira travessia do Atlântico num balão, levada a efeito em três dias por um grupo de europeus. Publicado em 1844, era uma tentativa de Poe de repetir o sucesso de sua “Aventura sem par de Hans Pfaall” de 1835. Apesar do título se auto-denunciar, o início do conto era em forma de manchete com letras enormes, que logo atraíam a atenção dos leitores: “Notícias espantosas e urgentes, via Norfolk! O Atlântico atravessado em três dias! Triunfo notável da máquina voadora de Mr. Monck Mason! Chegada à ilha de Sullivan, perto de Charleston, dos srs. Mason, Robert Holland, Henson, Harrison Ainsworth e de outras quatro pessoas, no balão dirigível ‘Victoria’, depois de uma travessia de 65 horas de um continente a outro! Relato detalhado da viagem!”

O toque de plausibilidade era dado pela lista dos viajantes. Mason, Holland e Henson eram aeronautas famosos da época, e volta e meia a imprensa noticiava suas excursões em balões na Europa. Ainsworth era um conhecido escritor inglês, discípulo de Walter Scott. O texto de Poe descreve com detalhes o modelo do balão, seu modo de ascensão e descida, e depois finge transcrever textos de um diário de bordo mantido pelos viajantes. No final, diz Poe: “Esta é sem dúvida a empreitada mais estupenda, mais interessante e a mais importante já levada a efeito ou mesmo tentada pelo homem. Quanto aos acontecimentos magníficos que deverão se suceder agora, seria inútil tentar prevê-los”.

Seria difícil imaginar, hoje, alguém fazendo na imprensa um embuste – uma brincadeira de 1o. de abril, digamos – em torno de uma façanha proporcional a esta – uma nova viagem tripulada à Lua, por exemplo, ou quem sabe o desembarque de alienígenas. Na época da imprensa escrita, quando se disseminava uma notícia falsa, mas de grande repercussão, era preciso algum tempo até que os desmentidos alcançassem a mesma difusão, e nada garantia que isto acontecesse. Hoje, com a comunicação praticamente instantânea, mas interligada, rádios e TVs vigiam-se umas às outras e é muito difícil divulgar uma mentira bombástica sem que ela seja imediatamente investigada e desmentida pelos concorrentes.

Os embustes de nossa época são os embustes sutis, discretos, que vão crescendo na sombra e nos interstícios. São mitos como o da Área 51 (onde teria caído um disco voador), ou da encenação, por parte dos norte-americanos, do pouso da Apollo 11 na Lua, o qual na verdade não teria ocorrido. No tempo de Poe, e até mais recentemente, como no episódio da Guerra dos Mundos de Orson Welles, pelo rádio, era possível um ataque frontal à credulidade do público. Hoje, esse ataque é feito “pelas beiradas”, com as famosas Teorias da Conspiração, em que alguém nos “revela” fatos bombásticos e extraordinários a meia-voz, pedindo segredo.

1890) A reforma ortográfica (31.3.2009)



Já vige a nova ortografia, mas ainda não acostumei. Leitores desta coluna irão perceber deslizes aqui e ali. Não importa. O prazo de adaptação é de dois anos, e espremê-lo-ei até o derradeiro segundo. Em toda mudança desse tipo existem coisas que a gente concorda, e coisas que desaprova inteiramente. Uma que elogiei de cara foi reconhecer a existência das letras K, W e Y. As reformas anteriores, buscando a simplificação, as eliminaram. E de fato eu prefiro escrever “tupi” do que “tupy”, “quilo” do que “kilo”, e... não me ocorre agora nenhum uso comum do “w”. Já fui criado dentro da nova ortografia, e para mim tanto faz. O mais ridículo, contudo, é o fato de terem tirado as letras do alfabeto, embora elas continuassem existindo nos livros, nos jornais, nos dicionários, na língua, enfim. Todo mundo que já alfabetizou um filho já teve que explicar que essas letras “existem, mas não existem”. Isso lhes dá uma aura transcendental, cabalística. Vai ver que é por isso que tem tanto brasileiro batizado como Woskley ou coisa parecida.

O trema não me faz falta. Fico livre de apertar a tecla Shift e a tecla 6. Acho-o necessário, no entanto. Ele serve para indicar uma pronúncia diferenciada, e por mim ficaria. Quanto ao fim do acento agudo em platéia e em jóia, etc., fico em dúvida. Neste segundo caso, são muito poucas as palavras com essa terminação onde o som do “o” é fechado (“...ôia”). Se a gente se acostuma (falo das crianças) a pronunciar “...óia”, a chance de acertar é grande. O problema é com a acentuação do “e”, porque se um lado tínhamos idéia, assembléia, epopéia, odisséia, tínhamos do outro palavras com o “e” fechado, como ceia, meia, aldeia, baleia, etc. Nestes casos, a criança só vai saber a pronúncia certa quando ouvir a palavra sendo dita em voz alta.

O hífen é uma zona conturbada. Parece que a tendência da reforma foi eliminá-lo, e talvez em meio século ele esteja extirpado da língua. Acho uma pena. Não porque me incomode escrever contrarregra, cosseno, paraquedas, ferrovelho. Fica esquisito, mas a gente acaba acostumando. A questão é que eu, pelo menos, costumo usar informalmente o que chamo formalmente de “hífen evidenciador de sintagma”, o tracinho que serve como uma correntinha de clipes unindo um conjunto-de-palavras-que-ao-fim-e-ao-cabo-equivalem-a-uma-coisa-só. A língua inglesa faculta esse uso (ou, se não o faculta, os escritores usam sem pedir licença); Guimarães Rosa é um grande usuário deste belo processo. Normas gramaticais à parte, sinais como o hífen podem servir para ênfase literária. Não importa se o sujeito é um possível-aspirante-futuro-a-um-Jabuti-quem-sabe-um-Nobel ou se se trata, o que é mais possível, de um desses escrevinhadores-de-miçangas-verbais-que-reluzem-sem-ser-ouro. O que conta é que o recurso gráfico exista, que sua função seja compreendida, e que a gramática o deixe em paz, indo cuidar de questões mais sérias de infraestrutura.

1889) Contracapa de MP3 (29.3.2009)



& a compassividade do carrasco esperando o fim da última prece do condenado & em uma estação de trem nos confins nevoentos da Eternidade, Karl Marx e o coronel Aureliano Buendía trocam receitas de remédios para furúnculos & cada usuário de celular é uma mosca na teia de uma aranha de silício e diamantes & um trilhão de litros de água salobra estão enterrados no Piauí & você não viu, mas eu passei a noite na sombra da árvore, olhando a luz acesa & tão rápido quando o avançar das heras, comparado à sucessão das eras & tem uma hora da noite em que você não passa de um doido conversando com uma caveira e tendo apenas um coveiro por testemunha & sou um multiartista multimídia em carreira solo & uma batalha entre tigres e cachorros dálmatas numa montanha nevada & o ser humano é ao mesmo tempo o farol piscando desesperado e o navio que avança triunfal rumo aos rochedos & o que seria do capitalismo selvagem se não existissem as empregadas domésticas? & toda vez que eu decoro o calendário, chega janeiro e zera tudo & me disseram que os subúrbios do Cairo já estão chegando perto das Pirâmides, não dou dez anos para elas desaparecerem & ora, bastava misturar um canavial com uma parreira e engarrafar o resultado & o cifrão é uma nota musical que corresponde ao tilintar de uma moeda na mão de quem recebe & um país de gente com nomes oxítonos terminando em vogal, mas sonhando com sobrenomes cheios de K, W e Y & cuidado, o futuro é cheio de bifurcações mas lá na frente não tem retorno & Michelangelo, depois que um AVC o deixou mudo, discava números ao acaso e anotava num caderno o que ouvia & daqui a mil anos, só serão lidos os autores com nomes monossilábicos: Kant, Proust, Marx, Dick, Wells, Twain, Grass, King, Poe... & saites onívoros que devoram o HD do usuário, saites cortar-e-colar que postam fragmentos aleatórios colhidos no Google, saites que ao serem acessados adivinham e tocam sua música favorita, saites que capturam seus dados bancários e depositam um dólar só para mostrar onipotência & troco um CD de dupla caipira por uma caipirinha dupla & corro à frente do mastim de mandíbulas chamejantes como corre a tartaruga à frente de Aquiles & um balé de caranguejos na água fervente & um arlequim de alumínio com buzinas nos ouvidos, asas de inseto e molas nos sapatos, cantando “Honky Tonky Women” na porta de uma igreja evangélica desmoronada & Napoleão destroçando a Europa e aquela imensa família Bonaparte para sustentar & ser como um fóton, o mais veloz dos seres, que nem retarda nem acelera, imóvel no limite de si mesmo & vou reunir meus escritos em dois volumes em papel bíblia: “Obras Completas” e “Obras Incompletas” & é preciso ficar longe de vez em quando, pra se saber se tem saudade ou não & devagar com o andor, que o santo é de ouro maciço, mas quem carrega é de barro &

1888) A arte do duelo (28.3.2009)




Nos diários de sua convivência com Jorge Luís Borges, intitulados Borges, à pag. 223, Adolfo Bioy Casares conta a comparação feita pelo seu colega entre dois tipos de duelos praticados nos EUA no século 19 (ou na literatura do século 19, uma vez que os exemplos vêm de livros de Mark Twain e Julio Verne). 

O primeiro exemplo é o que Twain chama de “duelo à californiana”. Dois indivíduos se insultavam mutuamente e se juravam de morte. Quando se defrontavam, geralmente num “saloon”, o mais rápido puxava a arma primeiro e alvejava o outro, que também sacava a sua e se defendia da melhor maneira possível. Diz Borges: “As baixas, às vezes, não se contavam entre os duelistas”.

É o duelo tradicional que o filme de far-west refinou até produzir aquela cena clássica que na vida real terá ocorrido muito poucas vezes: os dois inimigos, frente a frente, na rua vazia (todo mundo está do lado de dentro, colado às janelas, espiando), caminham na direção um do outro. 

A sutileza deste tipo de duelo nasce da presunção de que quem puxa a arma primeiro está ameaçando o outro de morte, portanto o outro tem o direito de matar em legítima defesa. Cada um tem que esperar que o outro saque primeiro, e espera ser rápido o bastante para atirar (e acertar) primeiro.

O outro tipo, chamado por Julio Verne de “duelo à americana”, é travado no capítulo 21 de Da Terra à Lua, entre Barbicane e Nicholl. (Li o livro há 40 anos e francamente não recordo esta cena.) Borges diz que nunca viu menção a esse tipo de duelo em outros autores, e especula se não será uma invenção de Verne. 

Nesta modalidade, dois homens que se juram de morte embrenham-se num bosque, como caçadores, levando consigo armas, munição, mantimentos. Caçam-se por vários dias: “dormem, com muitas precauções, perseguem-se, evitam-se, despistam um ao outro, armam emboscadas até que um dos dois consegue surpreender o outro e matá-lo”.

É este último tipo de duelo que me parece, hoje, mais rico de possibilidades dramatúrgicas do que o velho face-a-face do faroeste. 

Basta lembrar Enemy at the Gates (2001), o filme de Jean-Jacques Annaud em que Jude Law e Ed Harris são dois atiradores de elite durante a II Guerra (um soviético, o outro nazista) que se perseguem mutuamente. 

Há também o curioso e um tanto excêntrico filme de Ridley Scott Os Duelistas, ambientado na época de Napoleão, em que Harvey Keitel e Keith Carradine são dois oficiais que se detestam e, sempre que se cruzam, às vezes com anos de intervalo, desafiam-se mutuamente para um duelo à espada.

O “duelo às claras”, o confronto clássico do faroeste, é rápido. Exige uma longa preparação, e uma tensão que se avoluma, mas tipicamente se resolve em alguns segundos. Somente alguns casos raros, como o famoso duelo no Curral OK, podem ser explorados em longas sequências. O duelo às escondidas, com seu jogo de gato e rato, suas alternativas, pode render filmes ou romances inteiros.






quinta-feira, 8 de abril de 2010

1887) “Watchmen” o Filme (27.3.2009)



É mais um filme de super-heróis com orçamento de centenas de milhões de dólares, e cheio de efeitos especiais? Sim, não deixa de ser. Mas é também um filme escrito por Alan Moore, um dos grandes (e mais sérios) roteiristas de quadrinhos de nosso tempo, embora nem sempre tenha sido transposto para a tela de maneira justa. (A Liga Extraordinária, por exemplo, foi uma diluição e uma violação da HQ original.) Como tudo que Moore escreve, é uma exploração, uma homenagem e uma crítica ao gênero escolhido.

As melhores coisas do filme são os personagens de Rorschach, o caçador de criminosos deprê, existencialista, desiludido e cruel, e do Dr. Manhattan, o gigante azul com super-poderes. Cabe a este último uma notável sequência de efeitos especiais passada em Marte, com um gigantesco relógio de vidro (ou coisa parecida). E a trilha sonora com Bob Dylan, Leonard Cohen, Jimi Hendrix e outros contemporâneos à primeira edição de série de quadrinhos.

Watchmen segue a tendência de captar um grupo de super-heróis na meia-idade, em crise, questionando seu passado e insatisfeitos com seu futuro. A América em que vivem é uma América alternativa, sombria. Um mundo em que os EUA derrotaram o Vietnam, Nixon cumpre um terceiro mandato, e os Watchmen, antigos defensores da Lei, estão sendo mortos misteriosamente um por um. Quem dá o tom do filme é o diário escrito por Rorschach, acompanhando toda a narrativa como um monólogo em voz baixa na trilha sonora.

A gente pode dizer, vendo esses filmes e lendo esses álbuns, que os super-heróis norte-americanos viveram duas eras. A primeira foi a Era Radiante, quando brotaram Super-Homem, Batman, o Fantasma, etc., heróis que combatiam bandidos em nome dos ideais de uma América honesta, justa, democrática. Um país de valores voltados para o amor, o trabalho honesto e a família; uma América em quem só os bandidos não acreditavam, e por isto deveriam ser punidos. A outra é a Era Tenebrosa, a atual, em que eles combatem em nome de valores em declínio, e vêem a sua América afundada na corrupção, na truculência política, na violência, no sadismo e nas drogas. Tentam salvar um mundo que não quer (e não merece) ser salvo.

Os filmes de super-heróis estão cada vez mais se dividindo em dois troncos. De um lado, o simples espetáculo dos efeitos especiais, da aventura inconsequente mas levemente moralizadora; filmes que conseguem dar uma sobrevida à Era Radiante dos quadrinhos. De outro lado, uma série de filmes “noir”, problemáticos, que devem mais ao romance policial sórdido do que à ficção científica, e que encarnam um certo “vigilantismo” – a noção de que o mundo é podre, as autoridades são corruptas, e cabe a nós fazermos a justiça com nossas próprias mãos. Essa noção é subjacente aos quadrinhos de super-heróis, que sempre foram uma espécie de polícia por conta própria, suprindo a incapacidade das forças do governo para enfrentar os arqui-vilões.

1886) Os deserdados de Deus (26.3.2009)



(Praça de São Pedro, Vaticano)

Há pouco tempo a Igreja Católica criou uma polêmica do nada quando um bispo anunciou a excomunhão das pessoas responsáveis pelo aborto de uma menina de 9 anos, estuprada e grávida de gêmeos. A reação geral foi tão forte que autoridades mais elevadas apressaram-se em conciliar e a dizer que não era bem assim. Agora, o Papa, em visita à África, diz que a distribuição de camisinhas não apenas não detém a Aids, como pode contribuir para sua disseminação.

Eu tenho uma relação de respeito e impaciência com a Igreja Católica. Não sou cristão, mas fui criado na cultura cristã, como a maioria dos brasileiros, e me sinto no direito de dar palpite – assim como não sou filiado a nenhum partido político mas dou palpite na condução do país. (É, aliás, algo que essas instituições têm em comum: uns acham que só se chega a Deus através de uma igreja organizada, outros acham que só se faz política através das máfias partidárias.) Acho o Cristianismo muito deficiente em explicar a origem do Universo e da vida; neste aspecto, o que a Ciência diz me parece mais próximo da verdade, embora, por definição, saibamos que jamais saberemos.

A melhor coisa do cristianismo é o seu humanismo, sua valorização da pessoa em si, o seu senso de fraternidade, de que somos todos iguais e estamos todos juntos, e que, como já disse o ateu Bertolt Brecht, “ninguém no mundo será livre enquanto existir uma só pessoa presa”. Surgindo no meio da arrogante e cruel cultura romana, o cristianismo primitivo pegou o que havia de melhor nos humanismos anteriores e criou uma mistura tão forte que resiste até hoje.

Esses problemas que o Vaticano agora enfrenta resultam da maneira errada com que a Igreja encara o sexo. Foi um conjunto de decisões estratégicas tomados há mais de mil anos, mas que vêm apartando a Igreja, cada vez mais, da direção em que vai o mundo. O celibato dos sacerdotes é uma dessas decisões. Se eu fosse cristão, viveria em crise espiritual 24 horas por dia, porque a Igreja defende idéias que considero não apenas erradas, mas catastróficas do ponto de vista social. O cristianismo herdou muito do patriarcalismo puritano da cultura hebraica. O mundo está indo noutra direção, uma direção que me parece mais saudável.

A Igreja não sabe lidar com o sexo e com os assuntos correlatos (virgindade, uniões civis, opções sexuais, controle da natalidade, doenças venéreas). Já ouvi muitos cristãos sinceros dizerem: “Eu desobedeço ao que minha Igreja manda fazer, porque acho que a Igreja está errada. Deus está vendo tudo e sabe que a decisão moralmente mais correta é esta.” O que é uma pena, porque é justamente nesse aspecto da vida sexual e das decisões morais concernentes ao sexo que a Igreja está erodindo todo o humanismo que ela mesma criou em dois milênios. Ela praticamente inventou o espírito de fraternidade e de caridade que nos salva; e suas decisões sobre o universo do sexo, a cada década, a afastam desse espírito.

1885) Poe: Os embustes de jornal (25.3.2009)



Edgar Allan Poe é conhecido como precursor do romance policial e da história de terror, e se considerava acima de tudo um poeta, no sentido romântico do termo: um criador da Beleza através de palavras. 

Para sobreviver, foi jornalista a vida inteira, colaborando em jornais e editando diversas revistas literárias. E essa vivência o colocou no centro de uma tendência do século 19 que teve amplificações curiosas no século 20. 

Essa tendência foi a dos embustes jornalísticos – matérias inventadas que se faziam passar por relatos autênticos, e muitas vezes iludiam por completo um público leitor que, carente de informação mas incapacitado de encontrá-la por conta própria, acabava acreditando nas peças que jornalistas desocupados lhes pregavam. 

O primeiro embuste bem sucedido de Poe foi “A Aventura Sem Par de Hans Pfaall”, publicado no Southern Literary Messenger, de Richmond, em junho de 1835. O texto é basicamente uma carta escrita por um holandês às autoridades de Amsterdam, narrando com detalhes sua viagem de balão até a Lua, e fornecendo alguns detalhes sobre a paisagem e os habitantes lunares. 

Poe tinha conhecimentos sólidos de astronomia e de balonagem, e era um leitor veloz e onívoro quando precisava informar-se sobre algo. Seu relato, apesar do tom evidentemente satírico (e de um pós-escrito que praticamente entrega o embuste) tinha um tom de tal verossimilhança astronáutica que enganou muitos leitores. É bem possível que essa narrativa tenha fornecido a Julio Verne boa parte da inspiração para seu clássico Da Terra à Lua (1865). 

Poe preparou o terreno para o que ficou conhecido como “O Grande Embuste Lunar”, perpetrado pelo jornal New York Sun a partir de agosto daquele ano, dois meses após “Pfaall”. Os artigos proclamavam que Sir John Herschel (um dos maiores astrônomos da época) tinha descoberto pelo telescópio sinais de vida na Lua. Cada novo artigo dava mais detalhes, alternadamente verossímeis e fantasiosos, sobre a fauna selenita. O jornal conseguiu uma vendagem espantosa nesse período, e a autoria dos artigos, ainda que duvidosa, é hoje atribuída a Richard Locke, jornalista do Sun

Poe ficou um tanto enciumado. O tom satírico de seu próprio texto tinha impedido que ele fosse tão levado a sério quanto dos artigos de Locke, que eram escritos, como dizemos hoje, “na maior cara de pau”. Ele estava na época trabalhando numa continuação das aventuras de “Hans Pfaall” mas abandonou o projeto, por achar que depois do embuste do Sun ser confirmado ninguém mais poderia levá-lo a sério. 

O mais interessante dos embustes de qualquer natureza é que por mais implausíveis que sejam acabam sendo acreditados por milhares ou milhões de pessoas. Nos anos 1830, em que circulavam as mais espantosas (para a época) descobertas astronômicas através de telescópios, e que a navegação por balões se tornava uma realidade, qualquer aventura dessa natureza poderia ser acreditada.






1884) “Quem quer ser um milionário” (24.3.2009)



O vencedor do Oscar deste ano é uma co-produção inglesa-americana rodada na Índia, mas é como filme indiano que conquista nossa simpatia. Apesar de milênios de distância, há uma sintonia de inconsciente coletivo entre Índia e Brasil. São dois países tão parecidos que Pedro Álvares Cabral descobriu um quando procurava o outro.

O filme confessa ser influenciado por Cidade de Deus. Vi gente ficar indignada; eu acho ótimo. Quando imitamos os americanos, diz-se que não temos personalidade; quando eles nos imitam, diz-se que damos idéias de graça. Ora, amigos, os americanos só não imitam o que desconhecem, e só não são imitados pelos que ainda não invadiram. Slumdog Millionaire mostra favelas que não perdem para as nossas, e um elenco de atores infantis iguaizinhos aos guris que nos pedem uma moeda na calçada. Até seus gangsters são clones dos nossos bicheiros.

O grande trunfo comercial do filme é um roteiro que reúne tudo que a Academia gosta de premiar e os americanos de assistir: disputa entre o irmão bom e o irmão mau, história de amor com sucessivas separações e reencontros ao longo dos anos, rapaz pobre que fica rico, crime que não compensa, amor que triunfa. E tem um trunfo técnico. O argumento é um Ovo de Colombo: um rapaz favelado acerta uma dúzia de perguntas aleatórias num programa de TV, e a cada pergunta feita surge um flash-back para mostrar (da maneira mais simples e convincente) por que motivo o rapaz sabia a resposta para justamente aquela pergunta.

Note-se que nem sempre ele sabe a resposta. Em um caso, alguém lhe aplica um golpe e ele recorre à sabedoria da rua (ou seja, à sua percepção instintiva da desonestidade) para evitá-lo; e há outra vez em que ele simplesmente joga, aposta, arrisca, sem medo, sorridente, de peito aberto, que é como se deve jogar o jogo. Se perder, perdeu, e daí?

Vi no jornal USA Today um comentário curioso do filme, assinado por Claudia Puig. Diz ela que o filme tem “uma narrativa vigorosa e um estonteante realismo mágico”; mais adiante, fala de “imagens surrealistas”. É curioso, porque não vi nem uma coisa nem outra. Para mim é um filme absolutamente realista do começo ao fim (com exceção da canção durante os letreiros finais). Mas eu entendo. Por exemplo: para um americano, um garoto pular dentro de uma fossa e sair correndo, coberto de excremento, para pedir um autógrafo, é realismo mágico. Para nós, é tão real quanto uma cena de Nelson Rodrigues.

A indústria subterrânea de fabricar meninos mendigos não é surrealismo: é Charles Dickens puro. A espantosa pobreza da Índia, mesclada a uma riqueza igualmente inconcebível, cria enormes tensões sociais que são o terreno ideal para a produção de histórias em que algumas pessoas são totalmente indefesas e outras totalmente poderosas, em que alguns são totalmente ingênuos e outros totalmente malévolos. É o terreno ideal para o melodrama e o folhetim.

1883) Cegueira cultural (22.3.2009)



A incapacidade de ver algo não tem nada a ver com nossos olhos, e sim com a nossa educação. Jorge Luís Borges observava que um índio vê uma cadeira de um modo diferente de nós, porque elas não existem na sua cultura. Quando vemos uma cadeira, sabemos que aquela plataforma horizontal serve para apoiarmos nossas nádegas enquanto descansamos nossas pernas, e que o restante (encosto, braços, pernas) é de importância secundária. Um índio talvez veja uma cadeira e fique intrigado com aquela árvore estranha que tem quatro troncos em vez de um só.

Num artigo sobre Leon Tolstoi em The New Yorker, James Woods comenta “…uma técnica pela qual Tolstoi viria a ser elogiado pelos críticos formalistas russos das décadas de 1920 e depois: o distanciamento, a arte de tornar estranho o que é familiar. Às vezes, isto envolve a visão do mundo com os olhos de uma criança. Quando Natacha vai à ópera, ela se recusa a ver qualquer outra coisa além de telões pintados e homens e mulheres com roupas esquisitas, e acha tudo aquilo falso e pretensioso”.

Todo espetáculo precisa da suspensão voluntária de descrença. Senão, nada acontece. No romance de fantasia Swordspoint (1987), Ellen Kushner mostra personagens indo ao teatro pela primeira vez:

“Em seguida, aconteceu uma cena num hospício, com todo mundo cantando e dançando. O que a cena fazia ali Richard nunca descobriu; mas quando ela acabou, foi erguida uma cortina por trás dela, revelando uma enorme escadaria que dividia o palco de alto a baixo. O espadachim apareceu, e anunciou que era meia-noite, e que isto o libertava da missão imposta pelo duque”.

Um espectador com um mínimo de experiência entende que a cena musical está ali justamente para dar tempo a que seja preparada a escadaria para a cena seguinte; e que as horas anunciadas pelos personagens não correspondem à hora marcada pelo relógio do público.

Em seu conto “A Busca de Averróis” (em O Aleph), Borges comenta a crise intelectual de um muçulmano que, vindo de uma cultura onde não existia o teatro, era incapaz de compreender o sentido de uma peça:

“Uma tarde, os mercadores muçulmanos de Sin Kalan me conduziram a uma casa de madeira pintada, na qual viviam algumas pessoas. Não se pode contar como era essa casa, que mais parecia um só quarto, com filas de armários ou balcões, uns sobre os outros. Nessas cavidades havia gente comendo e bebendo, e também no chão, e também num terraço. As pessoas desse terraço tocavam tambor e alaúde, menos umas quinze ou vinte (com máscaras vermelhas) que rezavam, cantavam e dialogavam. Estavam presas, e ninguém via o cárcere; cavalgavam, mas não se percebia o cavalo; combatiam, mas as espadas eram de cana; morriam, e logo estavam de pé”.

Estes três exemplos teatrais bastam para ilustrar que toda representação do real é absurda, quando ignoramos (ou quando nos recusamos a conhecer) o código em que foi concebida. Vale para qualquer tipo de espetáculo, para o cinema, a literatura.