sábado, 27 de fevereiro de 2010

1720) O vício de Daniel Dantas (16.9.2008)



Numa matéria recente, um jornalista comentou que o sofá no apartamento do banqueiro Daniel Dantas está rasgado. Dantas está envolvido no escândalo da Operação Satiagraha da PF, e é considerado um dos maiores manipuladores de fortunas deste país. Não vou questionar a lisura das suas operações financeiras. Isto fica para o Poder Judiciário do país (e os amigos mais cínicos me sussurram: “...que é justamente onde ele já comprou muita gente a peso de ouro”). É no sofá rasgado que quero me deter. O jornalista perguntava com seus botões, ou com suas teclas: “Como é que um sujeito bilionário tem um sofá rasgado e não troca? Por que fica se matando de trabalhar e se metendo em operações escusas, apenas para ganhar mais dinheiro do que poderia gastar?”.

Já li muitos livros sobre viciados em drogas, não porque o vício em si me desperte o interesse, mas porque são numerosos os escritores que usaram a literatura como equilíbrio a um vício que os destruía por dentro. Philip K. Dick e William Burroughs são os mais notórios. Os jovens pensam que eles foram grandes escritores por causa da droga. Na verdade, eles tinham com a droga a mesma relação que um atleta paraolímpico tem com sua deficiência física. Talvez tenha sido a deficiência que os transformou em atletas, e sem ela eles tivessem virado comerciários ou caixas de Banco; mas a atividade atlética é uma forma de provar ao mundo: “Eu sou isto que vocês estão vendo, mas não sou só isto”. A literatura de Dick e Burroughs era o outro prato da balança, que os ajudou a equilibrar o terrível peso da droga.

A droga de Daniel Dantas é o poder, é a vitória, é (perdoem-me a heresia) o pódio olímpico do golpe financeiro. Não é dinheiro que os move. Não é (como na nossa pacata vidinha) a perspectiva de comprar um sofá novo no mês que vem. É um jogo abstrato de números que na sua mente valem como números em si, não como soma monetária, valor de uso, poder aquisitivo. São os meros números: comprei por 5, vendi por 10... Não importa se são bilhões de dólares ou milhões de euros. Sua droga não é a economia, é a aritmética.

A vida de um drogado (dizia Burroughs) só tem dois momentos: a Aplicação e o Intervalo. A Aplicação é quando ele se auto-ministra a droga. O Intervalo é tudo que ocorre entre uma Aplicação e outra, e sua função é providenciar a próxima Aplicação (arranjar dinheiro, procurar um traficante, etc.). Assim deve ser a vida dos grandes banqueiros, dos grandes especuladores como George Soros ou Naji Nahas, dos grandes viciados no xadrez das armações corporativas. Lembram-se do filme Uma Linda Mulher? Eu lembro de algo, além dos lábios e dos olhos de Julia Roberts. Lembro de uma frase do “danieldantas” interpretado por Richard Gere. Quando ela lhe pergunta o que faz na vida, ele diz: “Compro empresas, quebro-as, e vendo os pedaços”. É um vício como qualquer outro: uísque, pedras de crack, seringa de heroína.

1719) Machado: “Mariana” (14.9.2008)



Não há quem não se comova um tanto com “O Caso da Vara”, um dos contos mais conhecidos de Machado de Assis, onde um seminarista sem vocação foge do seminário e se refugia na casa de uma amiga da família. Esta resolve interceder por ele junto ao pai, que é autoritário e quer por fina força um filho padre. Durante a tarde que passa ali, o rapaz simpatiza com uma das escravas da dona da casa, uma pretinha magra, que tosse muito. Ao anoitecer, a senhora vê que a escrava deixou de cumprir uma tarefa que lhe fora ordenada, e resolve castigá-la. Agarra a menina, pede ao seminarista que lhe entregue uma vara que lhe está ao alcance da mão. A menina implora que não o faça. Aturdido, dividido, angustiado, ele prefere ajudar a si mesmo e entrega a vara para o castigo.

Onde quer que haja afeto, numa sociedade escravocrata, entre um senhor e um cativo, no momento em que esse afeto for posto à prova o senhor pensará apenas em si próprio. Alguém argumentará que são numerosos os livros em que um senhor e uma escrava, ou uma senhora e um escravo, mandam às favas as convenções sociais e vivem uma paixão publicamente assumida. Eu direi que sem dúvida tais livros existem, e que é a existência dessas duas classes de livros que determina haverem Realismo e Romantismo. (E haverem, na vida real, pessoas realistas e pessoas românticas, porque, como percebia Oscar Wilde, é mais freqüente que a vida copie a arte do que o contrário).

“Mariana” (“Jornal das Famílias”, 1871) narra o reencontro de quatro amigos. Falam de amores, e um deles, o Coutinho, afirma: “Por nenhuma mulher fui amado jamais como fui por uma cria de casa”. Ele narra que quando era jovem, e estava noivo de uma prima, percebeu a paixão de Mariana por ele. Era escrava, não era livre, mas tinha sido criada como pessoa da família, sabia ler e escrever, estudara francês... Todos na casa gostam dela, e estranham quando ela começa a definhar após o anúncio do noivado. Mariana adoece, foge de casa duas vezes, e cabe ao narrador tentar convencê-la a voltar. Num rasgo de romantismo, Mariana envenena-se. Coutinho conclui:

“Tal foi, meus amigos, este incidente da minha vida. Creio que posso dizer ainda hoje que todas as mulheres de quem tenho sido amado, nenhuma me amou mais do que aquela. Sem alimentar-se de nenhuma esperança, entregou-se alegremente ao fogo do martírio; amor obscuro, silencioso, desesperado, inspirando o riso ou a indignação, mas no fundo, amor imenso e profundo, sincero e inalterável”.

Até parece estarmos em pleno Romantismo francês, em plena literatura-para-moças. Mas aí desce sobre as últimas linhas do conto o noves-fora implacável do mestre do realismo: “Mas daí a pouco saíamos pela Rua do Ouvidor fora, examinando os pés das damas que desciam dos carros, e fazendo a esse respeito mil reflexões mais ou menos engraçadas e oportunas. Duas horas de conversa tinham-nos restituído a mocidade”. Coitada da Mariana.

1718) A beleza do feio (13.9.2008)





(detalhe - O Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch)

Uma das questões mais delicadas da Teoria Estética é a aparente contradição entre o ideal de Beleza (que se propala ser o objetivo maior da Arte), e o fato de que admiramos obras que retratam algo repugnante, horrível ou aterrorizador. Quadros como as máscaras e os esqueletos de James Ensor, as bruxas de Goya, os corpos semi-destruídos de Francis Bacon. 

Nem quero chegar perto da arte contemporânea e suas incursões pelas mutilações corporais; basta me deter na boa e velha pintura a óleo, feudo confortável do academicismo, do culto à estética grega e ao equilíbrio romano. Por que motivo aqueles artistas cultivavam o Feio, e, mais ainda, por que ele nos parece Belo?

Dizem os teóricos da Arte que uma das categorias mais extremadas do Belo é o Sublime. “Sublime” é um dos adjetivos mais diluídos e malbaratados da nossa língua. As letras de músicas falam em “teu sorriso sublime”, “o momento sublime em que nos beijamos”, “a beleza sublime de uma criança”, etc. 

Segundo os filósofos, o Sublime não é o Mimoso. Nada tem a ver com essas delicadezas. Ele é vizinho do Medonho, do Grandioso e do Terrível. Schopenhauer criou uma gradação de experiências do Sublime que, nos seus graus mais elevados tem o Sublime propriamente dito, cujo exemplo é a Natureza turbulenta (algo que pode ferir ou destruir o observador, como uma tempestade), o sentimento pleno do Sublime (a contemplação de algo tremendamente destruidor, como a erupção de um vulcão próximo) e a experiência mais completa do Sublime (quando o observador experimenta sua total insignificância e anulação diante da Natureza).

Além disso, engana-se quem pensa que procuramos a Arte apenas para a contemplação estética, a edificação do espírito ou o entretenimento sem compromisso. Procuramos a Arte também, em todas as suas formas, em busca de experiência-limite, em busca do contato com coisas que tememos ou que não conseguimos compreender. 

Existem obras que funcionam porque nos permitem vislumbrar zonas crepusculares do nosso inconsciente, obras que nos provocam medo ou repulsa, mas que nos obrigam a imaginar por quê. Podemos encontrar isso nas formas mais diluídas da arte, como nos filmes de Zé do Caixão ou nos romances de Stephen King; e podemos encontrá-lo nas tragédias de Ésquilo ou de Shakespeare, na pintura de Dali ou de Hieronymus Bosch, no cinema de Buñuel, David Lynch ou Fritz Lang.

A psicanálise chamou a mente humana de “máquina desejante”, um mecanismo impulsionado pelo desejo. A impressão que tenho é que há dois tipos de desejo, o Desejo Positivo e o Desejo Negativo. Ou, se quiserem, a Atração e a Repulsa. Ambos nascem na mesma região íntima, são forças simétricas, mas uma é de atração e a outra de repulsão. Freud falava na energia da vida e da morte, Eros e Tânatos. O lugar de onde emanam é um só, e uma das suas chaves é a arte, capaz de despertar em nós não apenas a sensação do Belo, mas a sensação do Terrível.





1717) Desenrola, Dunga (12.9.2008)



É a velha história: a gente não pode elogiar. Dá um azar danado. O elogiado se acomoda, pensa que não precisa fazer mais nada, e dá no que deu. Domingo passado, coberta de críticas, jogando contra o Chile no alarido de Santiago, o Brasil soube construir um placar vitorioso e, com um jogador a menos, mantê-lo. Quarta-feira, a Seleção, coberta de elogios, enfrentou no Rio de Janeiro a Bolívia (que ocupa a lanterna das Eliminatórias) e, com um jogador a mais, não conseguiu fazer um mísero golzinho. Pior: não conseguiu sequer tentar. Nunca a Seleção foi tão Dunga. Eu devia ter lembrado daquela velha máxima futebolística: zebra que se preza não ganha dois seguidos.

A explicação mais óbvia é que o Chile, jogando em casa, incentivado por uma imprensa ufanista e por uma torcida igual a qualquer outra, partiu para cima do Brasil, tentando a vitória, e levou três gols. Já a Bolívia, escaldada por um século de goleadas, veio jogar com uma retranca digna do treinador brasileiro, e não deu espaço, não deu sossego, não deu chances. E o Brasil – este Brasil, pelo menos – depende muito das chances que os adversários lhe dão, porque criá-las, meu amigo, é um problema.

Faltou vontade? Não, não faltou. Os jogadores se esforçam, batalham, fazem um sacrifício danado. Mas é um sacrifício vão, porque é feito às cegas. Me lembra aquela sextilha clássica de Manuel Xudu: “Gosto de ver cem formigas / uma folha carregando. / Quarenta correndo em cima / sessenta em baixo puxando / e as quarenta ainda pensam / que também ‘tão ajudando”. Os jogadores brasileiros são um pouco como as quarenta formigas em cima da folha. Agitam-se incessantemente, e não sabem explicar o zero no resultado.

O Brasil só ameaçou quando, por volta dos 21 minutos do segundo tempo, deu duas estocadas rápidas, sucessivas, tocando a bola de primeira antes que os marcadores bolivianos fechassem em cima. No resto do jogo, o time ficou rodando e a Bolívia cercando. Vemos jogadores hábeis como Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Juan, Luís Fabiano, Diego, esbarrando uns nos outros e nos adversários, num jogo reduzido às dimensões de uma pelada no Aterro do Flamengo.

Não temam, amigos. Em hipótese alguma o Brasil deixará de se classificar para a Copa. São quatro vagas, e o quinto colocado ainda disputa uma repescagem. Chegaremos lá, mesmo assim, aos tropeções, aos pontapés, aos empates. Chegaremos porque há muitos interesses políticos, econômicos e publicitários envolvidos. Ninguém é doido de fazer uma festa e deixar de fora a estrela principal. Mas a Seleção ainda vai pagar muitos micos como o de quarta-feira passada, porque o propalado “futebol espetáculo” do Brasil, que tanto agrada a Galvão Bueno e aos contadores-de-vantagem, só acontece quando o adversário deixa. O técnico é limitado, a safra de jogadores é medíocre, a Seleção é fraca. E aqui pra nós, esse negócio de jogar no estádio do Botafogo não pode dar sorte a nenhum time que se preze.

1716) O último rei da Esbórnia (11.9.2008)



(Mswati III)

A festa, dias atrás, era oficialmente para comemorar os 40 anos de independência da Suazilândia, mas como a data coincidia com o aniversário de 40 anos do rei nenhum súdito se enganava quanto ao verdadeiro motivo. Todos agitavam bandeirolas ao monarca enquanto ele, vestindo pele de leopardo, desfilava numa BMW sem capota pelas ruas da esfarrapada capital do país. O rei Mswati III é mais um potentado exótico da África. Não faz muita diferença que sejam reis, presidentes eleitos, ditadores que tomaram o poder pelas armas. Todos fazem o mesmo: auto-glorificação constante, apelo exacerbado às tradições étnicas, derrame de dinheiro em festas ou obras faraônicas, perseguição sangrenta a adversários ou dissidentes. O que ocorre nessas nações africanas (não em todas, é claro) nada mais é do que o tribalismo selvagem com injeção brutal de capital cosmopolita e acesso da elite ao consumo “de Primeiro Mundo”.

O rei alega ter gasto apenas 2 milhões e meio de dólares com a festa, a imprensa fala numa despesa cinco vezes maior. Os opositores queixam-se, timidamente, de que oito da 13 esposas do rei pegaram o avião para Dubai, invadiram os shopping-centers, puxaram os cartões corporativos (ou o seu equivalente na Suazilândia) e deram uma baixa no estoque, adquirindo presentes de nível monárquico, adereços para a festa, etc. Frotas de carros de luxo desfilaram pelas ruas com os convidados vip, entre eles o presidente Mugabe, do Zimbábue, que recentemente escandalizou o mundo com as eleições que montou para se eleger para mais um mandato, aos 84 anos de idade e 21 de poder.

Será um exagero, um regabofe deste tamanho para comemorar o aniversário do rei? De certo modo, há o que comemorar, sim. Apenas um em quatro suazilandeses chega aos 40 anos, de modo que os chegantes têm mais é que soltar fogos. A expectativa de vida no país é de pouco mais de trinta anos, e está gravemente comprometida pelo fato de que o país tem o maior índice de incidência de Aids no mundo: 38,8%. Só para comparar, o índice da África sub-saariana é de 7,5%, e o índice mundial é 1%.

Por que motivos os reis de uma nação tão pobre gastam de maneira tão perdulária? Porque são pretos? Porque são burros? Porque são pobres? Porque são maus? Não acho que seja bem isso; em grande parte é porque foram colonizados pelos europeus, aprenderam suas línguas, estudaram sua história. Modelam seus reis em seus próprios líderes tribais e em monarcas como por exemplo Luís XIV, que também fez guerras inúteis, perseguiu os inimigos, deu festas de arromba o tempo inteiro, construiu palácios e mais palácios. Hoje admiramos os tesouros arquitetônicos que deixou, e nos divertimos com os cerimoniais rococós das etiquetas de sua corte. Os soberanos portugueses de seu tempo não lhe ficavam muito atrás. Luís XIV ficou no trono 72 anos (1643 a 1715). O rei Sobhuza, da Suazilândia, ficou 82 (de 1899 a 1982). O espírito é o mesmo, e não tem raça nem cor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1715) Machado: “O Espelho” (10.9.2008)



(Machado, por Batistão)

É um dos contos de Machado de Assis mais elogiados pelos críticos. Vou abordá-lo aqui de um ângulo que talvez seja novo para os leitores, o da psicologia existencialista do crime, desenvolvida por Colin Wilson. O enredo do conto é simples. Num Polígono Boêmio de indivíduos de meia idade, um tal de Jacobina refere um episódio de sua juventude. Ele tinha acabado de ser promovido a alferes da Guarda Nacional, e foi passar uns tempos na fazenda de uma tia. Lá, todos estavam orgulhosíssimos de sua patente, que em termos de “status” social da época era algo como trazer uma medalha de ouro dos Jogos Olímpicos. Os parentes, os escravos, todos o tratavam por “senhor alferes”.

Um belo dia, a tia tem que viajar, e o deixa só na fazenda. Sem a patroa por perto, os escravos debandam. De repente, o rapaz vê-se sozinho. E um fenômeno curioso sucede: ele não consegue se enxergar no espelho. Vê a própria imagem “vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra”. Ele percebe que o espelho o reflete de acordo com as leis físicas, mas é ele próprio que não se enxerga: move o braço, e “o gesto lá estava, mas disperso, esgarçado, mutilado...” É tomado pelo medo, mas ocorre-lhe uma solução, e veste a farda de alferes. Vai ao espelho, e bingo! Agora sim, consegue ver-se nítido, integral. Nasce daí a teoria do Jacobina, de que as pessoas têm duas almas, sendo que uma lhes é externa – a dele era a farda e a condição de alferes. Sem elas, não era ninguém.

Colin Wilson, em Order of Assassins: The Psychology of Murder (1972) cita o conto de Machado para avalizar sua própria teoria da auto-imagem. Para Wilson, nosso erro fundamental a respeito da consciência é considerar que ela é um processo automático, como a respiração. Não é. Ela depende de um esforço permanente, como a natação; quando a gente pára, afunda. O conto de Machado revela que “o mundo ao nosso redor é um espelho que nos reflete. Quando a nossa vitalidade está elevada, ele nos reflete de maneira nítida e clara; mas às vezes estamos tão difusos que mal conseguimos nos enxergar”.

Precisamos do aval e do reconhecimento do mundo à nossa volta. Sem isto, corremos o risco de ser (diz Wilson) como o padrasto de Jean-Paul Sartre, descrito pelo próprio: “Nos domingos, ele se recolhia dentro de si mesmo, encontrava ali um deserto, e se perdia”. Em muitos criminosos conjugam-se a agressividade, a baixa auto-estima, e a necessidade de afirmação. O crime, diz ele, é um instante em que um indivíduo passivo, abatido, humilhado, pratica um ato de intensidade arrebatadora e consegue enxergar de novo a própria imagem. É o mendigo que estupra e mata uma moça à beira da estrada, o assaltante que invade uma casa e chacina uns desconhecidos. É também, no caso dos serial killers, o momento em que um sujeito medíocre mata alguém, e vê toda a imprensa do país pensando nele, falando nele, doida para saber quem é ele. E a imagem no espelho do quarto fica nítida de novo.

1714) Desencanta, Dunga (9.9.2008)



O Brasil jogou na noite do domingo sua melhor partida nestas Eliminatórias. Sei que para muitos a melhor partida foi aquela de 5x0 no Equador, no Maracanã, mas aquilo ali era um mamão-com-açúcar. Difícil, amigos, é ganhar do Chile em Santiago, quando a equipe está com o moral baixo e o treinador com a corda no pescoço. O time de Dunga suportou a pressão inicial da atabalhoada seleção chilena, e fez os gols nos momentos certos. O primeiro na metade do primeiro tempo, quando o Chile já tinha ido com perigo duas vezes (numa delas, o chileno estava dentro da pequena área e mandou a bola para os Andes). Com 1x0 contra, o Chile avançou (e se atabalhoou) ainda mais, e poderíamos ter ampliado quando o zagueiro fez uma falta brutal em Diego. Ronaldinho Gaúcho não bateu mal o pênalte: chutou forte, do lado, mas o goleiro escolheu o canto certo e conseguiu desviar. E Robinho marcou no último minuto do primeiro tempo, que é um momento ótimo para se fazer um gol.

O segundo tempo foi menos técnico e mais ríspido do que o primeiro. O Brasil se segurou, ainda mais depois que Kléber recebeu um injusto segundo cartão amarelo (o primeiro foi merecido) e foi expulso. Temi que Dunga visse nisto um pretexto para substituir os atacantes por mais dois volantes, mas o bom senso prevaleceu. Ele colocou Juan (ótimo armador de jogo) no lugar de Ronaldinho Gaúcho, que se limitava a trocar passes longe da área. Foi uma medida ousada, mas o Gaúcho não está mesmo numa boa fase. O Brasil se segurou, perdeu algumas chances, e fez o 3º gol num momento crucial, porque àquela altura se o Chile fizesse 2x1 os dez minutos finais seriam um pesadelo.

O Brasil jogou muito bem, mesmo sem dar o tal do espetáculo. Os milhões de galvões-buenos querem sempre espetáculo, querem goleada, querem humilhar o adversário, querem ver bola entre as pernas, lençol, olé, como fizemos com o indefeso Equador no Maracanã. Quando isso ocorre eu também me divirto, mas prefiro uma vitória como esta, em que o time entra desacreditado num território inimigo, sofre pressão, se segura, marca gols com talento e firmeza, defende-se com seriedade e sempre que recupera a bola parte com decisão para o ataque, em vez de ficar trocando passezinhos no círculo central – que é a característica da Seleção sob o comando de Dunga.

Vivo falando mal do treinador, chegou o momento de falar bem. Faço votos de que, quando ele vem com aquele papo imutável de “determinação, busca do objetivo” e blá-blá-blá, esteja se referindo ao que a Seleção fez no Chile, e não ao que vinha fazendo ultimamente. Tomara que ganhe bem da Bolívia, desencante, acerte o passo. O time todo jogou bem; destaco Julio César pela segurança, Robinho (se bem que só chute cafôfa), Josué (pelos desarmes limpos e precisos), Diego (pelo esforço). O nome da partida foi Luís Fabiano, que em dois jogos das Eliminatórias fez quatro gols, e acho que agora nem Dunga tem moral pra tirar o homem do time.

1713) Machado: contos de boemia (7.9.2008)



(Machado, por Cássio Loredano)

Alguns amigos me criticam por minimizar o talento de Machado de Assis, mas creio que laboram em erro. Considero Machado o maior escritor brasileiro. (“O maior” não existe, mas ele pertence a uma meia dúzia em quem essa carapuça caberia sem cobrir-lhe os olhos). O que há é que neste ano do centenário da sua morte as louvações banais são tantas que acaba baixando em mim um espírito machadiano, frio, analítico, britânico, irreverente... Dá vontade de fazer com os contos dele o que Fortunato fazia com o rato.

Falei aqui sobre o Polígono Boêmio, um dos artifícios narrativos mais comuns em Machado, e que em muitos casos lhe serve como pretexto para fazer um personagem contar uma história aos demais. Essa situação também lhe serve, em outras histórias, para narrar o cotidiano desses grupos. Nestes casos, Machado fica lado a lado com aqueles escritores que contam o Brasil dos jovens intelectuais, que discutem livros, poemas, política, mulheres e amores.

São contos típicos de juventude, e ali se enquadram textos como “Vinte anos! Vinte anos!”, “Uma por outra”, “Um erradio”, etc.. São histórias de juventude boêmia carioca, dos cafés, dos restaurantes, dos teatros. Rapazes intelectuais, com moedas contadas no bolso, filando cigarros uns dos outros, ocasionalmente tendo dinheiro bastante para ir à ópera e depois a um restaurante chique. Flertando com moças da sociedade, filhas de fidalgos da corte, e passando as madrugadas nos cafés, em companhia de cocotes francesas. Recitando sonetos, escrevendo versos de propaganda para casas comerciais em troca de alguns mil-réis, declamando em francês e em latim, envolvendo-se em querelas políticas do Império. Desfechando trocadilhos mordazes e epigramas satíricos contra os adversários de ocasião.

O romance que para mim é o melhor retrato dessa época e desse meio intelectual é o magistral A Conquista, de Coelho Neto. Um pouco dessa “festa móvel” transbordou para livros de memorialismo e de biografia, como No tempo de Paula Nei de Ciro Vieira da Cunha, A vida exuberante de Olavo Bilac de Eloy Pontes, Emílio de Menezes, o último boêmio de Raimundo de Menezes, A vida literária do Brasil – 1900 de Brito Broca. Na segunda metade do século, essa literatura ressurgiu em obras como O Encontro Marcado de Fernando Sabino, Os Novos de Luiz Vilela, A morte de D. J. em Paris de Roberto Drummond.

No que tem de melhor, esses romances e contos nos trazem o espírito de juventude irreprimível que todos nós sentimos em certas fases da vida, que aliás não dependem da idade cronológica. São momentos em que nos sentimos perpassados por um entusiasmo de viver, de experimentar coisas, de criar, de desafiar os clássicos da arte e do pensamento. Momentos assim muitas vezes resultam em grande literatura, quando há grandes escritores envolvidos. Quando não há... resultam na felicidade modesta dos invisíveis, que não é menos felicidade por não resultar em livro.

1712) O vacilo (6.9.2008)



Certas histórias dão o que pensar, como a que aconteceu com esse rapaz; chamemo-lo Valdir. Conheci-o logo quando cheguei no Rio, porque freqüentava o Barbas, em Botafogo, um bar com shows ao vivo onde cantei algumas vezes. Valdir tinha vinte e poucos anos, era um cara sempre alegre, boa-praça, topava tudo. Se o bar fechava às três da manhã e alguém sugeria ir tomar a saideira em Vila Isabel, ele dizia no ato: “Cabe três no meu carro”.

A tragédia não foi em Vila Isabel nem em Botafogo, mas pros lados da Tijuca, a certa altura da Haddock Lobo. Eram meras onze horas da noite, mas Valdir estava no bar desde o fim da tarde, num daqueles almoços que começam quase na hora do jantar e terminam quase na hora do café da manhã. Ele me confessou depois: “O engraçado é que eu só saí porque achei que estava muito bêbado. Fiquei com medo de beber mais e fazer uma besteira. Aí, na primeira esquina...”

Ao que parece o carro fez uma curva, houve uma turbulência no asfalto e “faltou chão”, como ele descreveu depois. Espatifou-se num ponto de ônibus; se houvesse alguém no banco do carona não teria escapado. Valdir teve uma pancada forte que lhe abriu a testa, e conseguiu sair do carro, no meio da gritaria geral, tonto pela pancada, e com os olhos cheios de sangue. Alguém o levou para a calçada, policiais o cercaram, o que ajudou a evitar um linchamento. Porque embaixo do carro, já mortos, estavam um garçom que tinha acabado de largar o trabalho, e uma mãe com a filha adolescente.

No dia seguinte o pai de Valdir e os advogados o tiraram da delegacia onde dormiu; com a cabeça envolta em bandagens ele foi para casa e aí começou a via-crucis jurídica. Inquérito, julgamento, condenação, réu primário, recurso, espera, novo julgamento, nova condenação, novo recurso... Não sei a história completa, porque isso começou a acontecer em 1988, e eu passo às vezes quatro ou cinco anos sem encontrar Valdir.

Ele amadureceu. Casou, teve três filhas. Tem um cargo na empresa do pai, que trabalha com exportações. Certa vez que jantamos juntos ele me contou que um dia cruzou no Forum com o filho e irmão das vítimas, e este cuspiu na sua cara. Perguntei o que fizera, e ele respondeu: “Limpei o cuspe na manga e dei razão a ele”. Mais do que as condenações jurídicas, contra as quais sempre se pode interpor um habeas-corpus, o que acabou com Valdir foi a condenação da imprensa, das famílias das vítimas, e de sua própria família, ou seja, os pais e os irmãos. A família é honesta, trabalhadora, e este episódio é “a única mancha”, segundo ele.

A mulher e as filhas são loucas por ele e conseguem desculpá-lo. Valdir nunca mais bebeu depois daquilo. Semana passada, vi no jornal que saiu sua condenação final, agora sem apelo. Valdir vai cumprir agora, com mais de quarenta anos, oito anos de cadeia; como não tem curso universitário, vai para o porão comum. E eu lembrei aquele velho mote das cantorias – “os pecados de domingo / quem paga é segunda-feira”.

1711) Resnais: “A Guerra Acabou” (5.9.2008)



Num festival dedicado a Alain Resnais no CCBB do Rio, revi este filme discreto e magnífico de 1966. É a história do cansaço e do princípio de desilusão de um revolucionário de meia-idade. Diego (Yves Montand) é um comunista espanhol que trabalha na clandestinidade contra a ditadura do General Franco, indo e voltando entre Madri, onde atua, e Paris, onde tem uma namorada (a bergmaniana Ingrid Thulin), e onde fica sediado o grupo subversivo a que pertence. Vindo depois de Hiroshima, meu amor e de O ano passado em Marienbad, que fizeram a fama de Resnais, é um filme surpreendentemente linear e narrativo, chegando em vários momentos a ser um thriller de suspense, pois acompanhamos um indivíduo que vive no fio da navalha, prestes a ser desmascarado e preso pelas autoridades.

O roteiro é do espanhol Jorge Semprun, o mesmo que escreveu Z de Costa-Gavras e vários outros filmes políticos. Acompanhamos as viagens com passaporte falso, os encontros clandestinos, as senhas e mensagens em código, toda a encenação permanente em que vivem os membros do “underground” político que Semprun conhece tão bem. Vemos o cansaço de Diego, um homem movido mais pelo hábito, pela falta de alternativas e pelo dever ético do que pela paixão revolucionária; e podemos contrastar seu comportamento com o dos jovens esquerdistas parisienses que contrabandeiam explosivos para um atentado, dispostos a sabotar o turismo que sustenta o governo de Franco. Nesses jovens enraivecidos, vociferantes, cheios-de-razão, citando Lênin a propósito de tudo, vemos os irmãos espirituais dos jovens maoístas que Godard no ano seguinte imortalizaria em A Chinesa.

Em sua ausência de retórica esquerdista, contudo, esse filme se aparenta muito mais a O pequeno soldado de Godard. Resnais se dedica a construir uma narrativa meticulosa, às vezes inesperada. Neste filme ele aperfeiçoou o uso do “flash-forward” os vislumbres de imaginação do personagem, que, como num romance de Robbe-Grillet, imagina (e projeta na tela) diferentes desfechos de algo programado para acontecer horas depois: chegará na hora, chegará atrasado, encontrará Fulano na estação, encontrará no trem, não o encontrará... Tudo isso se sucede rapidamente na tela, fazendo-nos compartilhar das indecisões e incertezas do personagem. Quando ele imagina como será Nadine, a moça a quem deve devolver o passaporte falso, vemos várias moças caminhando, todas de costas, sem mostrar o rosto: loura, morena, cabelo longo, cabelo curto, cabelo preso... É um processo mental por que todos nós passamos (fantasiar previamente como será alguém que estamos prestes a conhecer), mas que o cinema raramente mostrou, e jamais mostrou com tanta simplicidade. As duas cenas de cama (Montand com Geneviève Bujold, depois com Thulin) são também uma prova da maestria de Resnais para filmar olhos, cabelos, mãos, peles, rostos, e nos transmitir a sensação de plenitude e paz produzida pelo amor físico.