domingo, 14 de fevereiro de 2010

1654) A Copa de 1958 (1.7.2008)



(foto meramente ilustrativa)

Num domingo igual a qualquer outro, eu e minha irmã Clotilde fomos à matinal das 10 horas no Cine Babilônia. As matinais daquele tempo incluíam um desenho animado curto, um episódio de série (com 30 ou 40 minutos) e depois um filme de longa-metragem. 

Não lembro qual era o filme desse dia, mas a série era com Superman, e o cartaz mostrava Superman amarrado a um poste, cercado por zulus que dançavam erguendo as lanças. 

Voltamos para casa por volta do meio-dia (morávamos ali pertinho, na Miguel Couto) e estava havendo uma festa. Meu pai e uma meia-dúzia de amigos bebiam em voz alta. No rádio ligado a todo volume, por entre um chiado permanente, a voz metálica do locutor não parava um instante sequer. Havia uma eletricidade no ar, os homens estavam afogueados e nervosos, embora exultantes. 

Minha tia nos levou para o quarto, e explicou: “O Brasil está ganhando a Copa...” Depois fui dar uma espiada na sala, e foi justo quando o locutor no rádio expandiu e alongou uma nota musical, fazendo com que aqueles homenzarrões gigantescos (eu tinha 7 anos) explodissem todos ao mesmo tempo, pulando, abraçando-se como meninos, derrubando garrafas, entornando baldes de gelo. 

Daí em diante a festa não parou mais. O rádio foi esquecido, a gritaria continuou. Guardei (talvez por não tê-la entendido) uma frase eufórica dita por um amigo de meu pai: “E ainda dizem que galo no terreiro dos outros não canta!” Daí a pouco parou um carro em frente de casa, e desceram pessoas dançando, com os braços para o ar. Meu pai foi recebê-las no meio da rua e só então percebi que por alguma razão os vizinhos sabiam do que estava se passando, porque nos terraços e nas janelas também eles gritavam, agitando bandeiras verde-amarelas. 

Lembro que na calçada houve um momento de contradição e perplexidade. Meu pai erguia os dedos e gritava para os recém-chegados: “4x2!” E eles retrucavam o gesto: “Cinco! Foi cinco!” Vim a entender depois que a gritaria lá em casa era tão grande que perdemos a irradiação do último gol de Pelé, marcado aos 44 minutos. 

Saímos dali em carreata. Era um dia tão excepcional que nós crianças fomos também. Fomos para o SESI, onde estava havendo uma festa muito alegre, com música tocando, e as pessoas se abraçando como se fosse o aniversário de cada uma delas. A certa altura, meu pai, já triscado pelo rumontila, subiu ao palco, pegou o microfone e gritou: “Minha gente! Viva o Brasiiiiil!” Fiquei meio constrangido (“Ele pensa que todo mundo escutou o tal do jogo!”), mas todos gritaram vivas e agitaram bandeirolas. 

A Copa mesmo eu só entendi nos anos seguintes, lendo, pela ordem, todos os números da “Manchete Esportiva”, que meu pai colecionou e encadernou. Sofri, de jogo em jogo. Mesmo sabendo o resultado, ler os relatos me arrastava de volta no Tempo, alternadamente temendo a catástrofe e acreditando na vitória final. Na vida é assim, primeiro a gente vive, depois entende, e quando entende, vive de novo.








1653) “O Grande Golpe” (29.6.2008)




O “filme de assalto” é um dos gêneros cinematográficos que o público nomeia com a certeza intuitiva de quem sabe do que está falando. Os críticos o classificam como um sub-gênero do filme policial, e em inglês têm inclusive um termo específico para ele, “caper”. Os melhores filmes desse tipo obedecem a uma estrutura que acaba por transformá-los em parábolas metafísicas sobre Ordem e Caos. Um grupo de homens planeja o assalto perfeito, concebido nos mínimos detalhes, muitas vezes com uma cronometragem perfeita de cada lance, de cada ação. Na hora da execução, essa planejamento lógico é atropelado pelo que se chama “o elemento humano”. Em vez de um mecanismo funcionando com precisão de um relógio, o que vemos é o pipocar de pequenos acasos, distúrbios e imprevistos que corroem o plano por completo e o transformam num fracasso. Os filmes de assalto são a demonstração viva de que “a teoria, na prática, é outra”.

O Grande Golpe (“The Killing”, 1956) de Stanley Kubrick é herdeiro direto de dois filmes de John Huston em que um plano longamente elaborado dá com os burros nágua: O Tesouro de Sierra Madre (1947) e O Segredo das Jóias (1950). Kubrick conhecia e admirava ambos; e escalou no papel principal o mesmo protagonista desse último filme, Sterling Hayden, ator que voltaria a atual com ele em Dr. Fantástico, em 1963. Outro ator, Tim Carey, que faz aqui o papel do atirador de rifle, parece ter inspirado Peter Sellers em Dr. Strangelove, com sua fala de dentes trincados e um esgar permanente.

Kubrick inova com sua estrutura semi-documental, narração brusca, cortes rápidos, múltiplo ponto de vista, e a ação sendo descrita por um locutor impessoal, em “off” situando os fatos da fragmentada cronologia do assalto: “Meia hora antes disto, às 7 horas e 30 minutos, Fulano estava chegando no local combinado...” O múltiplo ponto de vista adotado embaralha a narrativa. Depois de mostrar uma cena pelos olhos de X, ele volta no tempo para mostrar o que vinha acontecendo com Y. Os executivos do estúdio chiaram. Exigiram que o filme fosse remontado em ordem cronológica. Kubrick, sem dinheiro e dependente dos produtores, até tentou, mas depois bateu o pé. A estrutura, que já estava toda no romance original de Lionel White, era o que o filme tinha de mais original. E ele estava certo.

Há muitos pontos de contato entre O Grande Golpe e O Segredo das Jóias. A diferença é que quando Huston dirigiu este, já era um veterano de 44 anos, e ”The Killing” era apenas o terceiro filme de Kubrick, então com 27. Os dois filmes têm um clima visual asfixiante, com aquela fotografia em claro-escuro que se tornou típica do “filme noir”. Os personagens são individualizados com traços rápidos: não são simplesmente o bandido 1, o bandido 2, etc., cada um tem um perfil, uma história, um conjunto de características que torna suas ações plausíveis, mesmo quando se comportam de forma inesperada.

1652) A vanguarda de Kenny G. (28.6.2008)



(Kenneth Goldsmith)

Eu tenho uma admiração instintiva pelas vanguardas, mesmo quando às vezes acho idiótico o que fazem. É a coragem de fazê-lo que me encanta. Outra coisa que nunca deixa de me seduzir numa vanguarda qualquer é ver que ela tem senso-de-humor. Um movimento vanguardista que consegue rir de si mesmo e do mundo é algo precioso. Nada mais chato do que o pessoal que revoluciona a Arte como se estivesse decretando uma falência ou invadindo Estalingrado. É o humor que me faz perdoar excessos em muitos grupos vanguardistas: o Surrealismo, a Patafísica, a Oulipo... Curiosamente são três movimentos literários franceses. Parece que só o humor consegue relaxar a crispação cartesiana dos francos.

Referi-me dias atrás ao poeta Kenneth Goldsmith, o criador (ou pelo menos o defensor mais ardoroso) da Poesia Conceitual. Goldsmith é o autor de Day, o livro que copia integralmente um número do “New York Times”, de 1 de setembro de 2000. É um calhamaço gigantesco, que pesa não-sei-quantos-quilos e que a maioria das pessoas concorda ser ilegível. Conceitualmente, isto coloca uma interessante questão: é ilegível porque é em formato de livro, no entanto todos os dias milhares de pessoas compram o seu equivalente em formato de jornal. Ninguém se sente na obrigação de lê-lo por inteiro, não é mesmo? Fico me perguntando se a situação seria diferente caso o exemplar escolhido por Goldsmith fosse o de 12 de setembro de 2001.

O poeta (assim ele é chamado) tem senso de humor. Ele mantém um programa semanal numa rádio de Nova Jersey sob o nome artístico de “Kenny G.”. Na abertura do saite da “Poetry Foundation” (http://poetryfoundation.org/dispatches/journals/2007.01.22.html) ele diz: “Sempre fiquei meio desconfortável ao ser chamado de poeta. Se Robert Lowell é um poeta, eu não quero ser poeta. Se Robert Frost era um poeta, eu não quero ser poeta. Se Sócrates foi um poeta, então eu considerarei a possibilidade”.

Goldsmith usa textos não-literários para produzir suas obras, como Weather (2005), a mera transcrição de um ano inteiro de boletins meteorológicos. Ele nos adverte sobre a importância de considerar os aspectos meramente físicos da escrita: “Se digitarmos um livro inteiro de Kerouac, aprenderemos mais sobre ele do que imitando seu estilo”. Sobre o livro em que copia o “New York Times”, ele se defende com eloqüência: “É o maior livro que já foi escrito. Tem tudo ali. Tem paixão, tem amor, tem guerra, tem ódio, tem vitória, tem derrota, tem homicídio, tem luxúria. E tem cotações da Bolsa. Lembra? Eles costumavam publicar as cotações da Bolsa”.

Quem quiser conhecer mais sobre esse fascinante tipo de literatura (não, colegas, não estou sendo sarcástico) pode visitar a UbuWeb em: http://ubu.com/concept/. Esse pessoal está para a literatura assim como os técnicos de estúdio e os luthiers estão para a música. Alguém terá coragem de chamá-los malucos, ou de negar-lhes entrada no templo?

1651) LDU 4x2 Fluminense (27.6.2008)




Tenho por norma torcer por qualquer time brasileiro contra qualquer time estrangeiro, portanto me abanquei diante da TV, taça de vinho em punho, chegando de uma viagem cansativa, disposto a dar meu apoio ao time de Renato Gaúcho no primeiro jogo da decisão da Taça Libertadores da América. Como moro no bairro de Laranjeiras, a 500 metros da sede do tricolor, sinto uma remota simpatia pelo time, que tem bons jogadores e fez até aqui uma ótima campanha, inclusive desclassificando o Boca Juniors em duas partidas que ficarão na História.

Mas... Até parece que eu dou azar. Foi só eu começar a torcer por ele para o Fluminense sofrer um colapso, dar um branco, amarelar, tremer das pernas, cair dos quartos. O primeiro tempo do time das Laranjeiras, quando saiu perdendo por 4x1 dos equatorianos, foi algo de desastroso, foi um Pearl Harbour, um Waterloo, uma Hiroshima. O time do Equador deitou e rolou dentro de campo. Fazendo poucas faltas, trocando bolas com uma rapidez impressionante, e contando com o aparvalhamento unânime do time carioca, a LDU abriu o placar com 2 minutos de jogo. Logo em seguida Washington perdeu um desses gols que artilheiro é proibido de perder: cara a cara com o goleiro chutou em cima dele, e nem serve a desculpa de que a bola estava para o pé esquerdo. Menos mal que o argentino Conca empatou com uma cobrança de falta perfeita.

Mas aí o Fluminense desandou de vez. A LDU fez 2x1 numa bola rebatida pela goleiro para a entrada da área, onde o equatoriano emendou de primeira para o gol, sozinho, num erro de marcação imperdoável. Fez 3x1 num escanteio cobrado no primeiro pau e muito bem desviado de cabeça por um atacante que teve um pouco de sorte, concordo, mas só tem sorte quem faz a jogada certa. E no final do primeiro tempo Washington, que viera ajudar a defesa noutro escanteio, ajudou o ataque – desviou o cruzamento e outro equatoriano empurrou para a rede.

No segundo tempo, o Flu voltou melhor, e conseguiu diminuir para 4x2. Se vencer por 3x0 no Maracanã, o que não é fora de propósito, será campeão. O jogo foi um castigo injusto para o pobre de Washington, porque se não fossem suas duas falhas (o gol que perdeu, e o gol que deu de presente ao adversário) o placar poderia ter ficado em 3x3. De um modo geral, o Fluminense conseguiu evitar um prejuízo maior. Seu resultado fora de casa é comparável ao resultado recente do Sport ao perder de 3x1 para o Corinthians, com a diferença de que no jogo da próxima quarta não será computado o critério dos gols fora de casa, e um placar de 2x0 para o Flu levará o jogo para a prorrogação.

Nem sei porque estou repetindo tudo isto, mas o jogo terminou há dez minutos e ainda estou avaliando as possibilidades de um time brasileiro ganhar a Libertadores no Maracanã, coisa que (segundo a TV) jamais aconteceu. O Flu tem futebol para fazer 3x0 ou 4x1, desde que a empáfia de Renato Gaúcho não o leve ao mesmo oba-oba que desclassificou o Flamengo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

1650) A escrita não-criativa (26.6.2008)



Artistas como Marcel Duchamp e Andy Warhol introduziram o minimalismo na criação artística. Não os estou comparando aos artistas minimalistas propriamente ditos, aqueles que se esmeram em usar o mínimo possível de elementos na composição de suas obras. Warhol e Duchamp reduziram a criação artística a um único gesto: o gesto da apropriação de algum material pré-existente. Duchamp pegava objetos que pareciam colhidos ao acaso e os expunha numa galeria, apregoando que eram obras de arte. Warhol pegava fotos de artistas ou de produtos industriais e os reproduzia em serigrafia colorida. A apropriação e a cópia viraram moda no meio das artes plásticas. Em alguns grupos, chegaram a virar dogma.

E não só lá. Li há pouco um relato (http://www.bookforum.com/inprint/015_02/2462) sobre a obra literária de Kenneth Goldsmith, o fundador do UbuWeb, saite que se auto-intitula “O YouTube da Vanguarda” e é um repositório inestimável de textos e clips de áudio e vídeo com os grandes artistas de vanguarda do século 20. Goldsmith é conhecido e respeitado como um dos líderes da Poesia Conceitual contemporânea, uma prática poética que usa algo da atitude apropriativa e copiativa de Duchamp e Warhol. (Imagino que ele se descabelaria de horror se visse sua arte resumida desta forma, mas é improvável que venha a tomar conhecimento desta coluna).

Por exemplo: no livro Day (2003), Goldsmith copiou, “ipsis litteris” um exemplar inteiro do New York Times. Notícias, colunas, comentários, cotações da Bolsa, anúncios, horóscopo, esportes, variedades... Todas as palavras desse exemplar do jornal foram copiadas, resultando num livro extenso, com mais de 800 páginas, pesando três quilos. (Está à venda na Amazon por 19 dólares, mais 12,50 de frete, se alguém se habilita.) Goldsmith também é autor de outras obras idiossincráticas como Número 111, em que ele relacionou todas as frases terminadas com o som de “r” que pôde encontrar, e depois as organizou por número de sílabas; Fidget, em que passou um dia inteiro descrevendo ao gravador cada movimento de seu corpo, e depois transcreveu tudo; e Soliloquy, em que gravou a transcreveu todas as palavras que pronunciou durante sete dias seguidos.

Um gênio? Um doido? Um picareta? Não creio. Para mim é um cara que nasceu desprovido do prazer de burilar frases e contar histórias (assim como há quem nasça desprovido de prazer sexual), mas que admira a literatura o suficiente para querer forçar seus limites e ver até onde ela agüenta. Seu amor pela literatura é intelectual, e se dá apenas na dimensão da escrita, não na dimensão da experiência humana ali contida. Ele é o caso extremo de autores como Michel Butor ou Robbe-Grillet e sua “ficção do olho”, registrando tudo que o olho do narrador ou do personagem vê; ou de Georges Perec e sua obsessão catalográfica. Acontece que Perec tem também a volúpia da fabulação, da contação de causos, que a Goldsmith parece ser inacessível.

1649) Dois milhões de celulares (25.6.2008)



Diz uma matéria recente aqui no JPB que neste mês de junho o número de celulares na Paraíba ultrapassará a marca dos dois milhões. Já é tempo de nós, jornalistas, começarmos a desalojar o microcomputador do seu trono de A Grande Revolução Tecnológica do Século 20, e começar a instalar ali esses curiosos aparelhinhos que estão se revelando como a primeira grande mutação dos micros. Sim, porque assim como um microcomputador doméstico não era apenas uma calculadora eletrônica, nem era apenas uma máquina de escrever, um celular há muito tempo deixou de ser um telefone. Ele é um micro-micro-computador multi-uso: telefone, câmera fotográfica, plataforma para acesso à Internet, etc. Com a chegada da TV digital, em breve estarei assistindo o Jornal Nacional ou o clássico no Maracanã enquanto passeio de metrô, com a telinha na mão.

O celular também está a caminho de absorver os cartões magnéticos de Banco. Por que não? Em vez de andar com um monte de visas e mastercards na carteira, bastar-me-á ter meu celular no bolso. Ao pedir a conta no restaurante, o garçom traz uma engenhoca na qual eu plugo meu aparelho, digito o número do meu Banco, da minha conta, a minha senha, e o valor da despesa, seja para débito imediato ou para cobrança na fatura do mês que bem.

Se eu tiver pachorra suficiente posso também usar o celular como máquina de escrever. Estou no botequim, degustando minha cerveja gelada com miúdos de galinha, e tive uma idéia brilhante para um artigo? Não há problema. Ali mesmo na tranqüilidade do meu recanto vou digitando o texto, e quando o tenho pronto ligo para o computador do jornal, e subo o arquivo.

O celular é calculadora, é agenda, é despertador. É também controle remoto, porque em alguns lugares já é possível ligar para o número do microondas e botar para esquentar a sopa que tomarei daqui a dez minutos, ou ligar para a geladeira e consultar (mediante um código pré-estabelecido) se ainda tem cerveja lá dentro ou se preciso comprar porque já está acabando.

O mais interessante é que a ficção científica nunca previu o celular, nunca previu os telefones pessoais, conduzidos no bolso. “Previu” coisas absurdas como helicópteros pessoais (uma espécie de mochila nas costas, com um motor e uma hélice), algo que se existisse transformaria o espaço aéreo das cidades num matadouro sanguinolento; mas não imaginou (pelo menos ao que eu saiba) que os telefones poderiam ser um dia despregados do fio e da parede, e conduzidos no bolso do usuário. Aqui e acolá viam-se “telefones de pulso” (como relógios) mas isso nunca se firmou. Em meu conto “Príncipe das Sombras” (1989) imaginei que o painel dos automóveis teria uma secretária eletrônica que receberia os recados quando o sujeito estivesse fora; retornando ao carro, ele ouviria as mensagens e se quisesse poderia fazer ligações “viva voz” enquanto guiava. Quem diria que o celular viraria pelo avesso, a tal ponto, as vidas de todos nós.

1648) As capas de Germano Facetti (24.6.2008)




(capas: Germano Facetti)

Quando falo de capas de livro, digo que pertenço à “geração Eugênio Hirsch”, porque foi esse artista (de quem só conheço o nome, e os trabalhos) quem pela primeira vez despertou minha atenção para a arte do capista, com as capas magníficas e sutis que fazia para os livros da Editora Civilização Brasileira, nos anos 1960.

Hirsch usava fotos, desenhos, colagens, pinturas abstratas, todas as técnicas possíveis, sempre com um comentário enriquecedor, que de certa forma “dava o tom” do livro. Uma mensagem subliminar, dizendo-nos que o livro tinha tais e tais características.

Nas minhas perambulações cibernéticas fui bater nesta página do “The Guardian” (http://bit.ly/avmNlH, em homenagem ao capista Germano Facetti, responsável por numerosas capas da editora Penguin, uma das maiores e melhores em língua inglesa. Já tive e ainda tenho centenas de livros de bolso da Penguin, que edita não apenas a literatura clássica e contemporânea como sempre teve excelentes linhas de livros policiais, de ficção científica, etc.

Passeando pela galeria de capas de Facetti, reencontrei alguns livros que já tive, vi outros que conhecia. E experimentei aquela reação do leigo quando se depara com a retrospectiva de um clássico: “Puxa vida, quer dizer que todas essas coisas eram do mesmo cara?!”


A capa de Facetti para o “Beowulf”, o épico anglo-escandinavo, mostra uma máscara de metal de um guerreiro antigo; as aberturas para os olhos, que são dois buracos escuros, dão à primeira vista a impressão de óculos rayban, produzindo uma estranheza na imagem, que parece ao mesmo tempo arcaica e modernosa.


Facetti recorre ao grafismo básico na capa de “Dreadful Summit”, romance policial de Stanley Ellin: um fundo verde, dois triângulo negros, agudos, que se juntam apontando para o alto, e uma linha vermelha ziguezagueante que sobe rumo ao topo.


O livro de Ralph Ellison “The Invisible Man” (1952) é um clássico da literatura sobre o preconceito racial. Diz Ellison: “Quando as pessoas chegam perto de mim elas enxergam apenas os meus arredores, elas mesmas, ou figmentos de sua imaginação; a verdade é que elas enxergam toda e qualquer coisa, menos a mim”. A capa de Facetti tem silhuetas não-preenchidas, superpostas, entrelaçadas, e um homem de chapéu, óculos, gravatinha borboleta, traços vagamente negróides (lembra Mário de Andrade), tão transparente quanto os demais, e coberto por uma nuvem difusa de manchas escuras.


A capa para “1984” de Orwell evoca um dos tubos pneumáticos usados, no livro, para o transporte (por ar comprimido) de cilindros de metal contendo textos: no fim do tubo, um imenso olho aberto e vigilante, o do Big Brother estalinista.


Uma antologia de novos poetas ingleses mostra, sobre fundo preto, o grafismo elegante de uma pena branca (símbolo da escrita) dividindo-se em incontáveis ramos. As grandes capas são aquelas que aumentam o significado do livro.





1647) Quanto custa uma canção (22.6.2008)



Dias atrás, no VII Forum do Forró, realizado anualmente em Aracaju, participei de uma mesa de debates com o compositor Zé da Flauta, discutindo as mudanças que a cultura digital está introduzindo no mercado da música. Parece que a principal delas é que o mercado está deixando de ser mercado. São cada vez mais restritas as possibilidades de se ganhar dinheiro com música. A indústria, que durante quase um século gerou fortunas gigantescas, derrames de milhões de dólares, paxás e marajás em profusão, está minguando a olhos vistos. Em breve, a música digital será uma atividade acessível a qualquer um e servirá apenas – para horror dos mercadólogos – para divulgar idéias. Lucro pecuniário, zero.

Um aspecto curioso é o que observei numa recente viagem a Brasília, na chamada Feira do Paraguai. São quatro pavilhões gigantescos, repletos de boxes onde se vendem quinquilharias de todo tipo. Achei boxes com a placa ”5 DVDs por 20 reais”. A quantidade de DVDs (filmes e shows) era imensa, mas a quantidade de CDs de música era irrisória. Por que? Ora, porque hoje em dia baixa-se um CD de música em 15 minutos ou menos, dependendo da velocidade da conexão. A pirataria musical está esboroando os alicerces da indústria fonográfica, mas ela mesma está vendo seu terreno se reduzir. Compra CD pirata quem não pode baixar no computador. E o número dos que podem baixar está aumentando a cada ano.

Com DVD é diferente. Dependendo da conexão, leva-se um dia inteiro para baixar um filme. Mas esse tempo também está diminuindo. Daqui a alguns anos, poderei baixar um CD completo de Tom Waits em 2 minutos, e um longa-metragem de Tarkovsky em dez. Que necessidade vou ter de ir para a calçada, comprar cópias pirateadas?

E vem a questão: como cobrar por uma música que alguém baixa pelo computador? Eu tive uma idéia. Uma canção pode vir acoplada a uma pequena propaganda. Quando a gente abre uma página do Google, o lado direito está cheio de pequenos anúncios. Que tal embutir em cada canção dez segundos (digamos) de propaganda, antes da música? Eu baixo uma canção de Neil Young que me interessa, e quando clico para tocar ouço um breve comercial de fertilizante-sem-agrotóxico ou de palheta-de-guitarra; logo em seguida a música começa. Ouvir a propaganda todas as vezes que a música é executada seria irritante. Talvez houvesse uma maneira (socorram-me os técnicos do Silicon Valley nordestino) de embutir no arquivo MP3 um pequeno programa estabelecendo que depois de, digamos, dez execuções o comercialzinho se auto-deletaria.

Claro que alguém pode fazer isto e depois espalhar cópias da música sem comercial. Mas o fato é que um número substancial de ouvintes seria exposto a ele, assim como somos expostos a um monte de “pop-ups” toda vez que entramos num saite. Não é impossível descobrir uma fórmula para que alguém (não o consumidor) nos pague por cada música que soltamos na Rede.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

1646) Chuck Berry fields forever (21.6.2008)





Dando prosseguimento ao trabalho de campo para minha tese de doutorado (“Frankensteins Eletrificados: o Rock na Quarta Idade”), fui ver (depois dos shows de Bob Dylan e John Mayall) o show de Chuck Berry no Vivo Rio. 

Foi o show mais idiossincrático dos três. Berry entrou no palco pontualmente às 21:35. Vestindo calça escura, camisa de mangas compridas, vermelho-berrante, cheia de lamê, e um boné branco, parecia um capitão de marujada. A banda tinha um baterista brasileiro (Maguinho) e na guitarra o filho de Berry, que toca bastante bem.

Diz o jornal que CB tem 81 anos, mas as fontes divergem. 

A Encyclopedia of Rock de Nick Logan e Bob Wolfinden afirma que ele nasceu em 18-10-1931. 

A de Jon Pareles e Patricia Romanowski confirma o dia, mas deixa a dúvida: “1926 ou 1931”. 

A Bob Dylan Encyclopedia de Michael Gray diz: “Nascido como Charles Edward Anderson Berry em San Jose, California, em 15 de janeiro ou 18 ou 26 de outubro de 1926”. 

A Beatles Encyclopedia de Bill Harry reitera o ano de 1931. 

A Wikipedia contrapõe: 18 de outubro de 1926... mas diz que ele nasceu em Saint Louis, Missouri. Precisa mais para afirmar que o sujeito é uma Lenda Viva?

Berry pisou no palco visivelmente “triscado”, se bem que eu não acho nada de mais o artista tomar umas caébas antes de começar um show. Entrou meio sem bússola, os dedos sem encontrar as cordas, a guitarra alta demais, o vocal trôpego, pastoso. 

Começou pianinho, com uma das minhas músicas favoritas, “Memphis, Tennessee”. Aos poucos foi esquentando, com os gritos de entusiasmo e os aplausos fervorosos da congregação. Cantou um bolero em espanhol (devia estar se achando em Buenos Aires). Esquentou mais com “Let it Rock”. Os dedos estavam erráticos, mas a guitarra plangente era a mesma de 50 anos atrás.

Fez um contracanto animado com a platéia em “Ding-A-Ling”. Depois vieram “Sweet Little Sixteen”, “In the Wee Wee Hours”, depois um rhythm-and-blues que não identifiquei. Alguém da platéia gritou algo e ele disse: “Yesterday? Adoro essa música. Mas não é uma música minha, é dos Beatles...” Gargalhadas da platéia... e Berry, meio desentoado, cantou a primeira parte de “Yesterday”, sob aplausos gerais. 

Emendou com “Nadine”, um dos rocks anos-50 sobre garotas e carros, depois mais um rock animado e, aos pedidos berrados pela platéia, “Johnny B. Goode”. Foi impressionante: acima das mesas, no recinto escuro, erguiam-se centenas de retangulozinhos azulados e brilhantes. Eram os celulares gravando a cena, que a esta altura já deve estar no YouTube.

O show esquentou a partir daí, e Berry fez o impensável. Havia uma galera dançando diante do palco, e ele chamou todo mundo para cima. Ficaram umas 40 garotas no proscênio, dançando e se exibindo como loucas, e o véi tocando sentado no praticável da bateria. Rock puro. Depois dessa apoteose, como vou me queixar que tenha havido apenas 50 minutos de show? Esperei 50 anos por isso!





1645) Brasil 0x0 Argentina (20.6.2008)



Para a torcida mineira foi uma noite de festa, com “muito samba, muito choro e rock-and-roll”. O rock ficou por conta das bandas mineiras (Skank, Jota Quest). O samba, das batucadas da torcida. E o choro coube aos torcedores favoráveis a Dunga (porque torciam por uma vitória consagradora, que não veio) e aos que lhe são contrários (porque torciam por uma derrota dessas de rolar cabeça de treinador, a qual também não veio).

Não farei comentários técnicos da partida porque confesso que não a vi por inteiro. Ia lá na Globo de vez em quando, mas passei a maior parte do tempo assistindo Jessier Quirino no programa de Fernando Faro, na TV-Cultura. E a poesia de mestre Jessier me dá inspiração para tentar entender o que sucede com a nossa Seleção. Todo mundo na Paraíba conhece aquele número de Jessier sobre o matuto que vai ao cinema mas, como não sabe ler, não entende as legendas, assim como não entende os diálogos em inglês. Isso de maneira alguma o impede de entender o filme, porque ele vê o bandido gritando: “Não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, seu fila da mãe!” Ora, todo mundo sabe o que foi que o cara disse, não é mesmo? Como diria um acadêmico, em exemplos que tais o nível vérbico prima pela superfluidade.

Eu também sou incapaz de entender o que Dunga tanto grita e tanto conversa com nossos jogadores, mas acho que o Brasil inteiro sabe qual é o “não-sei-que-lá” de Dunga. É o velho vocabulário zagueirístico e volântico do nosso futebol atual: “Fecha! Compacta! Cerca! Mata a jogada!”, e que o nosso saudoso Urai condensou numa fórmula perfeita: “Ataia o home, cumpade!” Tenho que ser justo com o treinador e com o time, que desta vez – pressionado e amparado por um Mineirão repleto – tentou jogar, tentou tocar, tentou marcar gols. Teve uma meia dúzia de chances, e pelo menos umas três bolas que mereciam ter entrado. A Argentina também perdeu seus golzinhos, mas francamente, se tivesse feito um deles o resultado seria injusto. Se alguém tinha de ganhar esse jogo tão truncado, seria o Brasil.

A Seleção Brasileira vem, desde a vitória na Copa de 2002, passando por mais remendos, reformas e agruras do que a lata dágua de Jessier Quirino. Parreira conseguiu levantar o melhor elenco possível de craques, mas enredou-se em politicagem, em delírios congratulatórios (os recordes de Cafu e Ronaldo, a tietagem desbragada da mídia brasileira, a logística principesca da CBF, etc.), e acabou amargando um fiasco histórico. Caiu. Ninguém quis sua vaga. Sobrou para Dunga, que pelo menos teve a coragem de estrear na profissão pegando logo de cara o maior rabo-de-foguete que ela oferece.

Fiquemos calmos; o Brasil não deixará de se classificar, nem que tenhamos de subornar um juiz para ganhar a repescagem contra os times da Oceania. Ninguém é besta de fazer uma Copa do Mundo sem o Brasil. Agora, ganhar? Só em 2014, amigos. “Vou-me embora pro passado”, pegando carona no DKW-Vemag de Jessier.