terça-feira, 26 de janeiro de 2010

1573) Walter da Silveira (28.3.2008)



Quando virei cineclubista, há cerca de quatro décadas, eram poucos os livros de cinema. Elementos de Cinestética, do Padre Guido Logger, uma obra básica sobre linguagem do cinema; a História do Cinema Mundial de Georges Sadoul, em dois volumes, uma overdose de informações, fonte de consulta até hoje; Caminhos do Cinema de José Rafael de Menezes, coletânea de reflexões sobre cinema e sociedade, por um pensador paraibano ligado ao movimento cineclubista. Entre eles, havia um livrinho de capa amarela intitulado Fronteiras do Cinema, de Walter da Silveira.

Foi talvez o primeiro livro que li no qual alguém dissecava em profundidade os grandes filmes. Quando vi pela primeira vez clássicos como Hiroshima, meu Amor ou a trilogia da incomunicabilidade de Antonioni, era como se estivesse revisitando obras vistas, revistas, vividamente imaginadas. Walter da Silveira (1915-1970) foi um dos grandes críticos baianos das décadas de 1950-60 que viram surgir o Cinema Novo brasileiro. Depois de sua morte, sua biblioteca de obras sobre cinema foi colocada numa sala da Associação Baiana de Imprensa, perto da Praça da Sé, sala onde já passei tardes memoráveis lendo obras raras e fazendo copiosas anotações.

Walter foi fundador (em 1950) e primeiro presidente do Clube de Cinema da Bahia, e desde então exerceu a crítica e o cineclubismo de maneira intensa. Recebi há pouco, por intermédio de José Umbelino Brasil, a coletânea dos artigos de Walter organizada em Salvador por José Umberto Dias. São quatro volumes, com cerca de 1.500 páginas no total. O primeiro cobre sua atividade crítica em jornais como O Momento, A Tarde, O Imparcial, etc., durante as décadas de 1940-50. O segundo tem material colhido do Jornal da Bahia, do Diário de Notícias e da Revista de Cultura Cinematográfica nos anos 1960. O volume 3 traz textos informativos sobre os filmes exibidos nas sessões de cineclubes, além de artigos variados em jornal, crítica literária e poemas. E o volume 4 traz seus artigos sobre artes plásticas, política e economia, além da artigos críticos a seu respeito.

A obra intitula-se Walter da Silveira – O Eterno e o Efêmero (Oiti Editora, 2006), e não deve haver um título melhor para descrever a atividade do jornalista, resenhador e crítico. O sujeito passa uma noite em claro burilando um artigo cheio de idéias revolucionárias e de frases bem torneadas. Na manhã seguinte o artigo estará sendo lido em milhares de residências, de cafés, de esquinas, de escritórios. E com mais 24 horas estará forrando gavetas ou embrulhando copos para uma mudança. O melhor de Walter da Silveira são as críticas longas, com fôlego de ensaio, onde ele revirava um filme por todos os lados, ao comentar Bergman, Chaplin, Welles, Antonioni, Kurosawa. E em suas longas e ferrenhas discussões sobre o cinema baiano e o cinema brasileiro, na época em que davam seus primeiros passos.

1572) O último livro de Nabokov (27.3.2008)



(o manuscrito de Nabokov)

O russo Vladimir Nabokov foi um desses casos raros de um escritor com outra língua materna que tornou-se um mestre da literatura em inglês. O outro foi o polonês Joseph Conrad; há também o caso de Isaac Asimov, mas chamá-lo de “mestre” seria forçar a barra. Depois de publicar numerosas obras que lhe trouxeram fama e fortuna (Lolita, O Olho Vigilante, Gargalhada no Escuro, Fogo Pálido, Ada, A Verdadeira Vida de Sebastian Knight), Nabokov morreu em 1977 e deixou nas mãos da viúva Vera e do filho Dmitri o manuscrito de um romance intitulado provisoriamente The Original of Laura, com instruções para destruí-lo, por ter ficado incompleto. Vera faleceu em 1991 sem tê-lo feito; Dmitri está agora com 73 anos e ainda não o fez. Por quê?

Esta é uma discussão que vem esquentando nos últimos meses na imprensa dos EUA. Alguns defendem a idéia de que a vontade de um autor é soberana. Se ele acha que um manuscrito ficou inacabado, ficou insuficiente, imperfeito, ele tem todo o direito de impedir que o público o veja. É o que fazemos em vida, quando rasgamos o que não nos satisfaz. (Ou quando o guardamos sem publicar. A gente escreve tanta coisa ruim que às vezes é bom reler de vez em quando, pelo menos para acreditar que evoluiu.) Outras pessoas acham que a humanidade tem o direito de conhecer o rascunho da última obra de um grande escritor, mesmo contra sua vontade. Citam o exemplo de Kafka, que pediu ao amigo Max Brod para queimar seus manuscritos. Brod desobedeceu, e aí estão os livros para quem quiser ler.

Na revista Slate, o crítico Jon Rosenbaum publicou dois artigos (http://www.slate.com/id/2181859/fr/rss/ e : http://www.slate.com/id/2185222/) tentando deslindar esse nó, e valendo-se do seu contato direto, por email, com Dmitri Nabokov. O manuscrito original consta de cerca de 50 cartões pautados escritos à mão, guardados num banco suíço. Alguns estudiosos já tiveram acesso a eles, e dão versões conflitantes sobre o que seria o enredo de The Original of Laura. Há influências dos sonetos de Petrarca, do filme homônimo de Otto Preminger, do “Retrato Oval” de Poe, do próprio Lolita? Mistério. O debate prossegue: queimar ou publicar? Rosenbaum sugere um meio-termo: ceder o manuscrito a uma das universidades ligadas à carreira docente de Nabokov, para ser consultado apenas por pesquisadores autorizados.

Max Brod defendeu-se dos que o acusaram de trair o último pedido de Kafka: “Ele não queimou os manuscritos quando poderia tê-lo feito pessoalmente. Pediu isso a mim, e sabia que eu era contra. No fundo, queria que fossem publicados”. Talvez seja diferente o caso de Nabokov, um perfeccionista no limiar da neurose. Por outro lado, Rosenbaum lembra que o autor era fascinado por todo tipo de jogo, truque, ilusionismo verbal, metalinguagem, e talvez essa “última vontade” fosse apenas pretexto para um último espetáculo de prestidigitação literária.

1571) Foto-camuflagens (26.3.2008)




(foto: Desiree Palmen)

Tornar invisível um corpo sólido (uma pessoa, p. ex.) é algo impossível no presente estágio da ciência. Mas há artistas que tentam – de uma maneira imperfeita, quase que apenas simbólica – invisibilizar pessoas e objetos.

Veja-se por exemplo Desiree Palmen, uma fotógrafa de Roterdam. Ela produz fotos de pessoas vestidas de tal modo a se confundirem com o que há por trás dela.


Ela fotografa (digamos) um banco de jardim, daqueles banquinhos feitos de tábuas estreitas, pintadas de branco, separadas por um centímetro de intervalo. Duas pessoas sentam no banco, a câmara é colocada no tripé, e em seguida as roupas das pessoas são pintadas de modo a reproduzir o “fundo” que elas próprias estavam ocultando.

Olhando a foto, depois de pronta, a gente sabe que existe algo ali, mas não distingue bem o que é. Parece uma zona de turbulência, distorcendo as imagens. Me trouxe à memória o filme de FC Predador, em que um alienigena usa um efeito semelhante para se confundir com a paisagem.

No saite da artista (http://www.desireepalmen.nl/) há várias séries de fotos desse tipo. Uma pessoa está parada diante de uma estante de livros; percebemos uma distorção visual que corre verticalmente ao longo da estante (as lombadas estão tortas, parecendo amassadas) até que, no chão, percebemos os pés do indivíduo que está ali. Sua roupa foi coberta com a pintura ou a reprodução fotográfica dos próprios livros que ele está escondendo.


Noutra foto, uma pessoa prepara-se para subir uma escada, no interior de uma casa. A escada é vista diagonamente na foto. A parte inferior das pernas do modelo está pintada de cinza escuro, cor do patamar onde a escada repousa; suas pernas e a maior parte do seu tronco estão pintadas de marrom, reproduzindo exatamente a posição dos degraus que escondem; um ombro e a cabeça (coberta por um capuz) estão pintados de branco, cor da parede ao fundo.

A pessoa fica invisível? Não, não fica. Em primeiro lugar, o efeito pretendido só é obtido para o ângulo em que se encontra a câmara fotográfica. Qualquer observador postado em qualquer outro ponto daquele ambiente veria a pessoa. E, depois, nunca existe uma correspondência perfeita entre a imagem pintada na pessoa e a imagem ao fundo.


Cientistas estão tentando produzir um efeito parecido. Já vi fotos de jaquetas especiais através das quais se via perfeitamente o ambiente ao fundo: uma rua, carros e pessoas passando. A jaqueta consta de milhares de circuitos eletrônicos embutidos no seu tecido plástico. Nas costas, há milhares de sensores que funcionam como microcâmeras; na frente, milhares de terminais que reproduzem a imagem captada às costas. Assim, se um automóvel passa por trás da pessoas, as câmaras às costas captam seu movimento e o retransmitem para a frente. O indivíduo não “fica transparente”, mas ainda assim é possível ver o que está por trás dele. Nossos netos irão às festas usando jaquetas assim.







segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

1570) Fulorestas urbanas (25.3.2008)



Alguém, ouvindo um grupo como Siba e A Fuloresta, perguntou com certo desdém: “Mas o que tem de novo, o que tem de revolucionário nisso?” Esta é uma pergunta típica de um conceito de arte em o que vale é a revolução, a mudança brusca de tudo que até então existia. O conceito de que as coisas novas de hoje, que destruíram as coisas novas de ontem, devem por seu turno ser destruídas pelas coisas novas de amanhã. É o conceito da moda e do mundo “fashion”, o conceito da indústria cultural: a substituição constante de produtos por outros produtos, de marcas por outras marcas, de fórmulas por outras fórmulas. É – numa frase de Caetano Veloso num dos seus shows – o mundo em que o “novo” é perpetuamente substituído pelo “mais novo”.

Isto cria uma cultura fragmentada, em que tudo tem a existência rentável do sucesso momentâneo mas não se fixa na memória de ninguém. Espera-se uma revolução por minuto, porque segundo esse conceito o critério principal da arte é quebrar a continuidade com o que vinha antes. O que Siba e a Fuloresta fazem é justamente o contrário disso, daí a sua importância. Promovem a continuidade entre o Passado e o Presente; e promovem a proximidade entre pessoas de classes diferentes.

Alguns críticos se espantam que um músico de classe média urbana vá morar numa cidade do interior para trabalhar com músicos populares. Para eles, a distância entre esses personagens é como a de um antropólogo de USP e a tribo de índios que ele vai socorrer. Esse espanto vem de uma incompreensão da distância entre as classes sociais no Nordeste, que é menor (e menos blindada) do que na Zona Sul das grandes capitais sudestinas. As melhores coisas da música brasileira vêm justamente dessa permeabilidade social, do fato de que pessoas de classes sociais diferentes podem ter vivência culturais parecidas ou próximas. O enriquecimento constante e implacável das camadas mais altas as carrega cada vez mais para longe do Brasil dos outros, a tal ponto que parece absurdo ou herético um grupo de artistas promover essa convivência.

O entrelaçamento cultural de classes é muito visível nos artistas das gerações pré-condomínio – aqueles que moravam numa casa melhorzinha numa rua cheia de casas piorezinhas, o que resultava nos garotos jogando bola juntos, indo ao cinema juntos, indo juntos às primeiras festas. Minha infância e adolescência foram assim. Naquele tempo ninguém podia se esconder do Povo num edifício de apartamentos. Era conviver, e sobreviver. Era uma época em que as escolas públicas eram melhores e as escolas particulares eram menos caras, em que as rádios não eram monopolizadas pelos tubarões do show-business local (nem existia show-business!), em que os cinemas ficavam de frente para uma praça e todo mundo podia entrar. O mundo de hoje é um apartheid social velado, que irá se refletir na música de daqui a vinte anos. Quem viver, vá anotando.

1569) A palavra nocebo (23.3.2008)




“Aceita um placebo?” era a pergunta de Nenê para Lineu, num episódio do seriado A Grande Família. Vestindo um roupão vaporoso, ela tenta seduzir o maridão entediado oferecendo-lhe um drinque exótico. A palavra “placebo” é usada aí totalmente fora de contexto (daí o humor da cena – Nenê mal sabe do que está falando, ao tentar bancar a sofisticada), mas é um termo corrente na linguagem médica. 

Placebo é o falso remédio (geralmente variantes do popular água com açúcar) que os médicos receitam para pacientes hipocondríacos. Crentes que estão tomando uma medicação poderosa, eles acabam melhorando de um desconforto que é apenas psicológico.

Um artigo no Washington Post discute o conceito oposto, que recebe o simpático nome de “nocebo”. Um nocebo é uma substância neutra que pode produzir um efeito prejudicial na pessoa, caso esta acredite que isto irá acontecer. 

Certas pessoas hipocondríacas costumam ler bulas de remédio do começo ao fim, dando atenção especial aos “efeitos colaterais” do remédio, que o fabricante é obrigado a advertir na bula. O doente ouve falar em problemas gastro-intestinais ou dor de cabeça, e é o que acaba sentindo – mesmo se na hora da medicação o comprimido for substituído por um de açúcar.

Toda doença tem algo de psicológico. Claro que não basta imaginar um enfarte para cair ciscando, e também não basta pensar “vou ficar bom” para reverter uma doença real. Mas muitas reações corporais têm origem puramente psicológica. 

Cientistas já provaram repetidamente que pessoas alérgicas reagem a menções puramente simbólicas daquilo que lhe provoca alergia – efeito que eu já comprovei, quando tive uma crise de espirros no Cine Babilônia ao ver a cena da tempestade de poeira no filme Esta Terra é Minha Terra

Tudo depende (dizem os doutores) do que a mente está esperando, mesmo que ela espere algo infundado ou absurdo. Um estudo realizado na Holanda indicou que a maioria das pessoas pesquisadas considerava que pílulas vermelhas ou alaranjadas tinham efeito estimulante, enquanto pílulas azuis e verdes eram depressivas. Por que? Não se sabe.

“Nocebo” é uma palavra curiosa, um destes termos que são inventados para ser o contraponto simétrico de outro. 

“Placebo” é uma conjugação do verbo latino “placere”, que significa agradar, fazem bem a alguém. Daí surgiram substantivos, como “prazer”, ou o verbo burocrático “aprazer” (“Muito me apraz comunicar a Vossa Senhoria...”). 

“Nocebo” foi criado por semelhança, a partir do radical “noc”, que significa dano, prejuízo, etc. (do qual vieram “nocivo = que faz mal”, e “inócuo” ou “inocente”, o contrário disso).

Vejam só. Uma pilulazinha, um “cachéte” como se dizia antigamente, composto de farinha diluída e açúcar. Pode fazer mal – e pode fazer bem. Quem determina isso é o prefixo latino que usamos, e a idéia fixa, seja positiva ou negativa, que instalamos no fertilíssimo terreno dos nossos neurônios. Quando acabar o maluco sou eu.






1568) Os Senhores do Crime (22.3.2008)



David Cronenberg tornou-se um dos precursores do cinema cyberpunk com uma série de filmes de FC onde se misturavam as tramas mirabolantes e uma certa tendência aos efeitos especiais repulsivos que lhe valeram o apelido de “Cronen-bleargh”: Scanners, Videodrome, A Mosca. Dirigiu filmes psicológicos explorando zonas sombrias da alma humana (Gêmeos, mórbida semelhança, M. Butterfly) e adaptou obras literárias que mexem fundo com sexualidade, perversão e drogas (Crash, Almoço Nu). Na verdade, essa subdivisão é desnecessária, porque Cronenberg foi sempre o diretor da morbidez, da paranóia e da perversão, e talvez o diretor, em toda a história do cinema, que produziu as imagens mais repulsivas e inquietantes do corpo humano em estado de destruição, mutação ou mutilação.

Nos últimos anos, ele parece ter abandonado (ou esgotado) essa temática e vem se voltando para o thriller policial. Um bom exemplo disto é Os Senhores do Crime, em cartaz na Paraíba. Qualidade narrativa à parte, não parece um “filme de Cronenberg”, parece um filme de Martin Scorsese ou Clint Eastwood. A história não roça nem de leve pelo fantástico, e explora o envolvimento casual de uma jovem parteira de Londres com as guerras internas das Máfias russa e turca. A única sequência que “parece Cronenberg” é a da sauna, em que o protagonista, nu, enfrenta dois assassinos profissionais vestidos e armados, e derrota ambos – um balé cuidadosamente coreografado e filmado, cuja imensa improbabilidade se dilui justamente pelo insólito do ambiente em que transcorre.

O papel principal é de Viggo Mortensen, que trabalhara com Cronenberg em seu filme anterior na mesma linha: Marcas da Violência. Em ambos os filmes Mortensen tem um personagem que leva vida dupla, e no transcorrer da história revela-se muito mais complexo (e mais perigoso) do que aparenta ser. Em Marcas da violência ele é um pai de família pacato que, depois de reagir à bala a um assalto, passa a ser assediado por mafiosos que dizem ser ele um ex-colega; em Senhores do crime ele é o motorista de um mafioso que parece estar fazendo jogo duplo.

Poderíamos dizer que Cronenberg tem como uma de suas fixações o desdobramento de um indivíduo em duas criaturas, uma delas aparentemente normal, a outra maléfica ou pervertida. Os gangsters de Viggo Mortensen, o transexual de M. Butterfly, os mutantes de Scanners, o escritor drogado de Almoço Nu, o cientista de A Mosca, e assim por diante. Cada um deles traz dentro de si outra criatura, uma criatura com tendências predadoras e monstruosas, que luta para romper o casulo e emergir. Quando o faz, convém aos transeuntes afastar-se o mais depressa que possam. Cronenberg pode ter abandonado os efeitos visuais escatológicos, mas não a sua visão “dark” e mórbida sobre as possibilidades de violência e monstruosidade que jazem por baixo de nossa maquilagem de civilização.

1567) Arthur C. Clarke (21.3.2008)



Às 20:30 de terça-feira, dia 18 de março, fiquei sabendo do falecimento do escritor Arthur C. Clarke, que tinha ocorrido à 1:30 da madrugada de quarta-feira, dia 19. Este aparente paradoxo temporal pode ser compreendido por quem já sabe que a Terra é redonda, que gira sobre si mesma, e que, como contamos os dias a partir da posição aparente do Sol, diferentes regiões do planeta têm horas diferentes e datas diferentes. Há 500 anos não era assim. Foram indivíduos parecidos com Arthur C. Clarke que descobriram o movimento da Terra, estabeleceram os fusos horários, criaram a linha internacional de demarcação de data, e assim por diante. É a função dos cientistas e dos escritores de ficção científica. Vivemos todos no mesmo mundo – mas no mundo deles já é amanhã.

A imprensa já está cheia de necrológios repassando os fatos mais notórios da vida de “Sir” Arthur. As dezenas de romances de FC, as centenas de obras de divulgação científica. A colaboração com Kubrick no filme 2001. Sua idéia dos satélites de telecomunicações (que teria feito dele um bilionário, caso a houvesse patenteado). Sua paixão pelo mergulho submarino, que o levou a morar no Sri Lanka nos últimos 40 anos. Poucos escritores do nosso tempo (e não falo apenas de FC) terão tido suas idéias discutidas tão a sério quanto ele.

Clarke não é um dos meus autores preferidos, e apenas por questões literárias. Acho seu estilo seco, descritivo, sem criação verbal; e acho seus personagens bidimensionais, todos parecidos uns com os outros. Mas o que lhe falta em riqueza estilística e profundidade psicológica lhe sobra em duas coisas também essenciais na FC: imaginação poética e conhecimento de como o mundo funciona. A ousadia e o gigantismo de suas idéias é incomparável; e a exasperante precisão com que prevê cada detalhe de ordem prática e consegue resolvê-lo satisfatoriamente já formou umas três gerações de escritores da FC “hard”, de Larry Niven a Greg Egan e a Charles Stross.

Meu livro preferido dele é Encontro com Rama (1972), em que nosso sistema solar é invadido por um objeto artificial alienígena, um cilindro de metal com 50 km de comprimento e 16 de diâmetro, que não responde a tentativas de comunicação. Uma nave terrestre está nas proximidades (isto se passa no ano 2131) e cabe a ela acoplar-se ao objeto para examiná-lo, antes que ele ultrapasse a órbita do Sol e desapareça novamente no espaço. O cilindro é oco; lá dentro existe todo um ecossistema, com sol, terra, continentes, oceanos, plantas. A exploração gradual desse mundo pelos astronautas é cheia de surpresas, mistério, ciência e poesia.

Numa entrevista à revista Locus em janeiro passado, perguntaram-lhe se ele gostaria de ser congelado para ser ressuscitado depois. Ele respondeu: “Em meu jardim, aqui em Colombo, estão os túmulos de vários dos meus animais de estimação que já morreram. Um dia, e espero que não seja logo, minhas cinzas serão depositadas junto às deles”.

domingo, 24 de janeiro de 2010

1566) “Pequena Miss Sunshine” (20.3.2008)




Tendo custado cerca de 8 milhões de dólares, esta comédia de produção independente arrecadou cerca de 60 milhões nos EUA e mais 40 no resto do mundo. Se todos os grandes blockbusters de Hollywood dessem lucros proporcionais a este, a indústria do cinema seria outra coisa. 

Pequena Miss Sunshine foi feito ao longo de cinco anos. O roteiro foi escrito por um estreante (que acabou ganhando um Oscar, prêmio que geralmente ia para um sem-noção qualquer, mas famoso). Só tem gente feia, ou melhor, não tem uma pessoa sequer que faça alguém se virar na calçada e ficar olhando. Não parece um filme americano. Pra ser sincero, parece um filme chileno ou espanhol. 

Quase todas as críticas que li falam que se trata do retrato simpático de uma família disfuncional. E fico matutando sobre as nuances desse conceito. O que é uma família disfuncional? No caso, é uma família em que o marido é especialista em auto-ajuda e não consegue ficar rico, a esposa vive nervosa e não consegue parar de fumar, o avô toma drogas e só pensa em sexo, a menina feinha quer ser misse e se empanturra de sorvete, o adolescente lê Nietzsche e quer ser piloto de guerra, o intelectual proustiano quer se matar por causa de um amor homossexual não correspondido... Na minha terra, amigos, isso não é ser disfuncional (seja lá o que isto signifique), é ser normalíssimo, é ser a média aritmética, o zero-cartesiano da vida real. 

 Talvez venha daí o encanto com que muitos americanos (e brasileiros) tenham recebido essa família atrapalhada. Os atores não são excepcionais, embora o excepcional Alan Arkin esteja muito bem no papel do avô (que lhe deu um Oscar de coadjuvante). Parecem estar representando a si mesmos (e talvez estejam). Suas brigas têm a aspereza chata das brigas-de-família na vida real, que são resolvidas na conversa mas continuam ardendo. 

As coincidências e improbabilidades da história se justificam e são perdoáveis porque só valem para si próprias, não estão ali para encaminhar ou justificar algum falso desfecho de que o autor precisa desesperadamente. Tudo acontece aos solavancos, aos sopapos, aos trancos e barrancos – como na vida real. 

Uma família é um grupo de pessoas que não suportam viver juntas mas não admitem viver separadas. Dito isto, podemos varrer para o incinerador todo um Himalaia de celulóide que o cinema (não só americano) produziu neste século, tentando nos convencer de que a vida em família se parece a um comercial de refrigerante. 

Os Hoover não são problemáticos pelas pessoas que são, e sim porque todos têm sonhos irrealizáveis, todos estão hipnotizados pelas sereias do Sucesso (também chamado O Sonho Americano), que exigem o máximo de pessoas medianas, sabendo que é a única maneira de colher nesse trigal indiferenciado as poucas exceções que sempre existem. Aos que não são excepcionais, resta ser especialista em Proust e empurrar uma kombi enguiçada pela vida afora.





1565) O bote da cascavel (19.3.2008)



Acontece quando menos se espera, mesmo que passemos 24 horas por dia esperando. Surge numa conversa inocente, numa matéria lida no jornal, numa carta ou email de um conhecido, numa notícia na voz do locutor de TV. Está tudo em paz aqui na velha alma, e aí, vupt! Lá vem o bote mortífero da cascavel. Uma frase ambígua, uma notícia casual, uma informação em dez ou doze palavras, mas é o que basta para nos atingir na medula mais sensível do espírito, e inocular ali, durante mortíferos segundos, toda uma robusta ampola de veneno e de maldade. Depois disso, a cascavel metafórica se dissolve no ar, esvaziada, pois na verdade não existe, é constituída apenas do veneno que transporta. E cabe a nós ficar ali, continuar a conversa, sentir a dor se alastrando, fazer de conta que nada aconteceu, e iniciar a luta contra a toxina mortal.

A primeira providência é puxar as rédeas do cavalo brabo que nos habita: evitar a retaliação, o contra-ataque. Atenuar a adrenalina da fúria, deixá-la amainar, proibir a si mesmo o bote-resposta, sempre virulento, sempre desproporcional – porque quem leva uma bofetada nunca pensa em retrucar com outra, pensa logo é numa descarga de metralhadora até secar o pente. A segunda providência é assimilar o veneno, encharcá-lo com algum diluente íntimo que possa neutralizar seu efeito mortal. Às vezes o veneno é apenas uma gota, mas em tal concentração que precisa ser misturado a um Paulo Afonso inteiro para perder seu poder.

A maioria desses ferimentos não é proposital. Os que nos desferem essas setas muitas vezes não sabem o dano que estão causando. Fazem isso sem saber que estão nos ferindo. Fazem porque vivem num ambiente onde se faz isso o tempo todo, com todo mundo – é uma espécie de esporte, ou de competição informal para ver quem faz melhor. Fazem porque quando lhes é feito dói só um pouquinho, e eles imaginam que é assim também com os outros. Fazem porque vivem de mal com a vida e precisam de companhia. Fazem para nos testar, ou para devolver algo que talvez tenhamos feito (lembrem-se, ninguém é bonzinho) com a mesma desatenção. E o veneno que nos inoculam pode ter até um efeito educativo, benéfico – serve para testar nossas convicções, nossa auto-estima, nossa segurança íntima a respeito de nós mesmos e do mundo.

E sempre há um instante em que alguém percebe que a gente está com uma expressão estranha, embora não faça idéia do que pode ter acontecido. Pode ser porque ficamos calados subitamente no meio de uma conversa ruidosa, ou ficamos com a cara fechada; seja como for, alguém nota que houve uma mudança e pergunta: “Ei, o que foi que houve? Você está com uma cara estranha. Aconteceu alguma coisa?” E, nove vezes em dez, a gente consegue buscar forças onde elas não existem, recompor um meio sorriso sabe-se lá como, e pronunciar a frase mágica, que adia para a próxima vez os armagedons e os apocalipses: “Não, não foi nada não”.

1564) Siba e a Fuloresta (18.3.2008)



Saiu o segundo CD do compositor pernambucano Siba, com seu grupo A Fuloresta do Samba. O título é um mote impecável: Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar. Os versos nos remetem à canção manguebit de Chico Science que dizia: “Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”. É a base da estética alternativa, independente, da rapaziada elétrica das cidades grandes. A única maneira de mudar o mundo é com as próprias mãos, a única maneira de fazer o planeta girar é usando as próprias pernas. Como já previa Geraldo Vandré: “Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo...” É a filosofia da geração DIY, “faça você mesmo”, não fique de braços cruzados, cruzando os dedos, esperando que alguma coisa aconteça. Aconteça você mesmo as coisas.

Foi o que fez Siba quando se afastou do bem-sucedido grupo Mestre Ambrósio (que nunca encontrou uma gravadora à sua altura) e se transferiu para Nazaré da Mata para trabalhar com um grupo de músicos locais, batizado de Fuloresta do Samba a partir do título do seu primeiro CD conjunto, de 2002. A Fuloresta tem à frente Siba como principal compositor e vocalista, acompanhado por um naipe de sopros (sax, trumpete, trombone e tuba) e outro de percussionistas (tarol, mineiro, póica e bombo). O resultado é um som híbrido de bandinha de coreto, grupo de maracatu rural, cirandeiros de praia ou bloco de carnaval de rua. Metais rascantes, estridentes; ratatá permanente de tarol; vocais roufenhos a plenos pulmões; e por cima de tudo a voz limpa e serena do poeta, equilibrando-se entre as melodias suingadas e a prosódia clássica dos versos, como um acrobata que caminha sobre duas cordas-bambas paralelas.

Siba traz para a execução musical dos instrumentistas da Fuloresta um conceito mais profissional de organização de palco, de alternâncias, de formatos ensaiados que mantém o jeito pessoal de tocar de cada um, dentro de uma formatação de show que não surge como uma violência ou como uma pretensa “modernização”. Os músicos tocam daquele jeito. O som é aquele. Os formatos de canção são aqueles. A contribuição maior do compositor e vocalista principal me parece estar na organização dos arranjos e do repertório – o que é feito de acordo com sua experiência de estúdio e de palco – e principalmente nos versos, feitos com técnica impecável e inspiração constante.

Neste disco novo destacam-se os versos impagáveis do martelo sobre futebol, em cima do mote “Ninguém pode ganhar campeonato / se o juiz não tem mãe nem coração”; a hipótese, já explorada pela ficção científica, de “Será que ainda vai chegar / o dia de se pagar / até a respiração?”; a bela e minimalista canção de Biu Roque sobre a folha da bananeira, com um vocal arrepiante; o tom altivo de desafio em “Pisando em praça de guerra”. A poesia de Siba e a música da Fuloresta fazem uma combinação única, que não deve virar receita mas pode servir de exemplo.