quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

1552) Roma de Fellini (4.3.2008)





Revi na TV a cabo este filme que muitos críticos torcem o nariz para, mas que é um dos meus preferidos. 

Roma não é um documentário (embora mostre o próprio diretor e sua equipe filmando lugares reais e entrevistando pessoas reais, como o escritor-turista Gore Vidal) e não é um filme de ficção (embora tenha atores representando papéis e pronunciando diálogos escritos por um roteirista). É uma mistura dos dois. 

Como se Fellini pegasse na estante um dos seus “cadernos de idéias”, folheasse aquela série de fragmentos e dissesse: “Está bom, vamos filmar tudo isto aqui”.

É uma decisão sábia? Nas mãos de um diretor inexperiente, ou apenas vaidoso, seria um naufrágio de proporções titânicas. Nas mãos de Fellini é outra coisa, porque Fellini tem estilo, tem um fio invisível capaz de manter juntas uma porção de contas de cores diferentes. 

Se Fellini filmar um enforcamento, uma mulher fazendo chá, uma reunião de acionistas de um Banco, uma briga de galos, um ato sexual, um pênalte defendido pelo goleiro, um pescador escamando um peixe e uma explosão atômica, o resultado será um filme felliniano, porque o modo instintivo como o diretor trabalha o som e a imagem revelará uma insuspeitada harmonia entre aqueles fatos todos, uma continuidade que parecia impossível e se mostrará como óbvia, depois de filtrada pela imaginação sensorial do diretor.

Fellini nos mostra em Roma algo semelhante – um engarrafamento de trânsito, uma festa ao ar livre, a escavação de uma ruína arqueológica, um show de teatro de revista, um bordel, um abrigo antiaéreo, um desfile de modas eclesiásticas... 

Tudo nos remete a outros filmes do diretor, não por uma repetição preguiçosa ou pouco imaginativa, mas porque puxa um fio que tinha sido deixado solto num filme anterior. Os Boas Vidas termina com o jovem Moraldo na estação do trem, deixando a cidadezinha natal e indo tentar a vida em Roma; é o mesmo personagem, agora de terno branco, que desembarca na capital, no início de Roma

O desfile de modas para religiosos lembra alguns momentos de Casanova. Os trechos em que Fellini e sua equipe aparecem nos remetem a Entrevista. As prostitutas são uma re-visita ao mundo de Cabíria, e as cenas de infância são uma prévia de Amarcord. E assim por diante.

David Thomson, que torce um pouco o nariz para o diretor, observa que “ele fazia passar sua pouca profundidade intelectual pelo dilema de um homem de coração terno num mundo em desintegração”, e dizia que em seu cinema “there are no characters, only caricatures” (jogo de palavras que se perde na tradução: “não há personagens, só caricaturas”). 

A primeira frase exprime sob uma ótica negativa uma verdade positiva, porque Fellini era um homem certo, o mundo é que está errado. 

A segunda frase, igualmente, mostra o equívoco habitual de um crítico (um grande crítico, aliás) que ao provar uma pizza decreta: “Este filé não tem gosto de filé, tem gosto de pizza”.






1551) O mundo em progresso ((2.3.2008)



Em seu belo romance Cloud Atlas (2004), David Mitchell reconta uma parábola oriental sobre o propósito do Universo. Diz o seu personagem: “Um dia, meu avô me mostrou um quadro representando um templo siamês. Não lembro seu nome, mas dizem que desde o dia em que um discípulo de Buda fez pregações naquele local, séculos atrás, todos os chefes de bandidos, todos os tiranos e todos os monarcas daquele reino o vêm adornando com torres de mármore, arvoredos perfumados, cúpulas folheadas a ouro, murais decorativos nos tetos abobadados, esmeraldas nos olhos das estatuetas. Quando o templo finalmente estiver igual à sua contrapartida na Terra da Pureza (reza a lenda) então nesse dia a humanidade terá cumprido sua função, e o Tempo chegará ao fim”.

Para esse tipo de cosmogonia, o Universo é uma obra-em-progresso que um dia estará pronta – e deixará de existir. Os leitores de FC irão recordar o conto de Arthur C. Clarke, “Os Nove Bilhões de Nomes de Deus”. Um grupo de monges do Himalaia contrata os serviços de um supercomputador (e respectiva equipe técnica) para fazer todas as combinações de letras possíveis formando todos os possíveis nomes de Deus. Dizem eles que a função da humanidade é descobrir esses nomes, e quando o fizer, seu trabalho estará encerrado. Certa noite, quando o trabalho está na reta final, faltando apenas uns minutos para ser completado, os técnicos resolvem cair fora dali, porque acham que nada vai acontecer e os monges ficarão furiosos. Quando fogem do mosteiro, um deles olha para o céu. E o conto se encerra com a frase hoje célebre: “No alto, sem alarde, as estrelas estavam se apagando de uma em uma”.

Essas histórias tão distantes entre si correspondem a nossa ânsia profunda de que o mundo faça sentido. O mundo (o Universo) é algo que foi montado por uma inteligência superior, tem um desenho, tem um desígnio, tem um propósito. Estamos aqui para remontar esse quebra-cabeças cósmico. Alguém (Deus, ou outras Divindades quaisquer), criou o Plano, estilhaçou tudo e misturou as peças. Estamos aqui para reconstituir o que foi estilhaçado e remontar o desenho primordial. Quando conseguirmos essa proeza, ironicamente, nossa existência deixará de ter propósito, porque a grande Pergunta terá sido respondida, o grande Vazio terá sido preenchido.

O ser humano é doido para dar um ponto final a si mesmo. O marxismo anunciou que a história humana se encerraria com o Comunismo. Em tempos mais recentes, um economistazinho de direita anunciou nos EUA “O Fim da História”, ou seja, o capitalismo atual seria o ponto mais alto da evolução social. Não admira que exista, do lado oposto, um exército incansável de exploradores do desconhecido, de poetas do absurdo, de coros de descontentes, de desarrumadores das idéias, todos dizendo: “Não! Não acabou ainda! Falta muita coisa!” E, como Penélope, desmancham a ciência e a filosofia recém-bordadas e começam tudo de novo, para adiar o Instante Terrível.

1550) Alain Robbe-Grillet (1.3.2008)



“A carne das mulheres sempre ocupou um lugar de destaque nos meus sonhos.” Assim começava um romance de Alain Robbe-Grillet, escritor e roteirista francês que faleceu há poucos dias. Alguns saites na Web creditam a frase ao livro La Maison de Rendez-Vous. Na minha memória, era a frase de abertura de Projeto para uma Revolução em Nova York, e como não tenho mais nenhum dos dois livros comigo, prefiro acreditar no Google. Pouco importa. ARG foi talvez o melhor representante de um estilo tipicamente francês que poderíamos chamar de “erotismo cerebral”. Segundo alguns autores, Colin Wilson entre eles, o sexo é uma realidade mais mental do que física, assim como era a música para Bach. O mundo físico é simplesmente o meio através do qual aquelas complexas harmonias mentais se manifestam.

Nos anos 1970, Robbe-Grillet era um deus-pequenino das vanguardas literárias, graças, em grande parte, ao fato de ser ele o escritor de O Ano Passado em Marienbad, um dos melhores filmes do cinema francês e um dos filmes mais enigmáticos e belos de todos os tempos. ARG teve vários romances publicados no Brasil. Encontro em Hong-Kong (“La Maison de Rendez-Vous”) tem nas suas páginas finais uma explosão da Realidade em um delta de possibilidades divergentes e simultâneas, narrando, no confronto entre os personagens, tudo que poderia ter acontecido entre eles – Fulano arromba a porta, toca a campainha, bate à porta, Sicrano vem abrir, Beltrano vem abrir, o porteiro vem abrir, eles brigam, eles fogem... Todos os desfechos possíveis são entrelaçados num turbilhão narrativo de tirar o fôlego.

O livro que trago ainda comigo (o mesmíssimo exemplar) desde 1970 é Por um novo romance, uma coletânea de artigos em que ARG teoriza o Nouveau Roman francês, critica ferozmente o marxismo, ironiza a maior parte dos movimentos literários, e prescreve (com argumentos respeitáveis) a chamada estética da descrição, ou o romance-olho, ou a narrativa visual, em que um observador descreve com minúcias, sem se envolver, um ambiente e o que ocorre nesse ambiente. Um dos primeiros livros de ARG intitulava-se Le Voyeur, e toda sua obra foi uma espécie de voyeurismo literário, um mundo absorvido através do olho. Não um olho contemplativo, mas um olho distanciado, frio e implacável, despido de qualquer emoção. A literatura de Robbe-Grillet era o que uma câmara de filmar escreveria, se soubesse escrever.

Isto lhe deu a paradoxal condição – tão comum nas vanguardas – de ser um teórico brilhante e autor de uma obra que poucos suportam ler. Suas idéias são mais interessantes do que sua literatura. Depois da colaboração com Resnais em Marienbad, Robbe-Grillet dirigiu vários filmes onde se misturam ambientes ricos e sofisticados, belas mulheres nuas, tramas misteriosas e situações inexplicáveis, crimes, divagações metafísicas. Morto aos 85 anos, ARG nunca foi totalmente absorvido pelo “establishment” literário da França.

1549) 29 de fevereiro (29.2.2008)



Sempre imaginei como as pessoas nascidas nesta defectiva data comemoram seus aniversários num ano não-bissexto. No dia 28 de fevereiro? No dia 1o. de março? Aniversariar nessa “data virtual” me parecia, na infância, uma injustiça, porque em 75% dos casos a pessoa tinha que pedir uma data emprestada para fazer sua própria festa. Ficava órfão, exilado no tempo, tal como existem os exilados no espaço, como aquele personagem de Tom Hanks no filme Terminal, cujo país deixa de existir quando ele está em viagem, seu passaporte perde a validade, e ele não pode mais voltar para casa nem desembarcar alhures.

Se bem me lembro das minhas aulas de Geografia com D. Zefinha, inventaram esse dia extra para compensar a imprecisão da volta da Terra em torno do Sol, que dura 365 dias e 6 horas. Essas 6 horas vão se acumulando a cada ano que passa. São 6 no primeiro ano, 12 no segundo, 18 no terceiro, 24 no quarto... E para que a conta dê certo, ou seja, para que em cada dia do ano estejamos numa posição análoga à da mesma data um ano atrás, é preciso criar um dia extra que absorva essas 24 horas. O 1o. de março logo após um 29 de fevereiro deve ser, então, o dia em que a normalidade da translação da Terra foi restabelecida. Já o dia de anormalidade mais aguda (de acúmulo de horas-extra divergindo do normal) será então o dia 28 de fevereiro anterior a esse dia “normalizador”. Talvez se pudesse ter adicionado esse dia a qualquer outro mês, e teríamos o 31 de abril, de junho, de setembro ou de novembro. Mas como fevereiro era o mês mais cronologicamente prejudicado, recebeu essa compensação simbólica.

Vi um cara dizer, ao fazer 24 anos: “Na verdade, é o sexto aniversário que eu comemoro”. A perda de um dia tão simbólico talvez seja um trauma que se carrega em surdina pelo resto da vida, e qualquer dia vou verificar se existe no Orkut alguma comunidade tipo “Eu nasci em 29 de fevereiro!”. Essa sensação de não-pertencimento parece um pouco com a daquelas crianças que, tendo recebido nomes estrangeirados (Washington, Kátia, Yolanda, etc.) constatam com apreensão, nas aulas de Português, que suas letras “não existem” (ao que parece, a reforma ortográfica em processo vai corrigir essa bobagem e trazer de volta o K, o W e o Y, três letras que nenhum mal nos fizeram).

Não resisti e fui dar uma olhada na Wikipedia para ver pessoas nascidas “hoje”. Encontrei o escritor de ficção científica Tim Powers, o humorista Jaguar, o quadrinhista Serpieri (alguém aí lembra de Druuna?), a atriz francesa Michele Morgan, a cantora de jazz Dinah Shore, o escritor Dee Brown (autor de Enterrem meu coração na curva do rio), o música e maestro Jimmy Dorsey, o compositor Rossini (autor do Barbeiro de Sevilha). O que isto prova? Absolutamente nada. Qualquer dia do calendário nos dará uma seleção de talentos tão aleatória quanto a deste dia abduzido pelas conveniências cartorialistas da astronomia e dos calendários.

1548) O mundo da droga (28.2.2008)



No artigo “The Return of Superfly”, que serviu de inspiração para o filme de Ridley Scott O Gangster, Mark Jacobson entrevistou o ex-chefão da droga Frank Lucas (interpretado no filme por Denzel Washington). Lucas desestabilizou o mercado de drogas em Manhattan ao cortar o fornecedor tradicional (a Máfia) e ir comprar sua matéria-prima diretamente na Ásia. Diz ele que viajou pela selva, visitando campos de papoula onde os trabalhadores interrompiam suas atividades quando ele surgia na companhia dos barões da droga: ninguém jamais tinha visto um homem negro em carne e osso. Lucas conseguia vender uma droga de alta qualidade pela metade do preço. Os mafiosos reclamaram no início, mas depois associaram-se a ele, não mais como fornecedores, mas como revendedores.

No artigo, Lucas relembra: “Colocávamos a droga para vender às quatro da manhã, quando a polícia trocava de turno. Isso nos dava cerca de duas horas de intervalo até que o próximo grupo de policiais chegasse. Mas os meus compradores... era possível acertar o relógio pela chegada deles. Por volta das quatro horas, era tanto negro na rua que dava para fazer um filme de Tarzan. Tiveram que mudar a rota do ônibus da Oitava Avenida. Pergunte ao Departamento de Trânsito se não é verdade. Às nove horas, não me restava uma grama sequer. Tinha vendido tudo, e estava com um milhão de dólares no bolso”.

A lógica capitalista diz que tudo tem um preço, se houver quem pague por ele. Até mesmo o suicídio. A droga é um suicídio a prestações, e, a julgar pela cara que os sujeitos fazem, muito prazeroso em sua fase inicial. (Depois deixa de proporcionar prazer, fica proporcionando apenas o alívio à dor – mas aí já falta pouco para o fim.) Imagino que num futuro próximo serão instaladas Cabines de Suicídio nas praças e outros logradouros públicos. O sujeito vai no caixa, paga mil reais, pega a ficha, entra na cabine e se mata. Serão cabines como as dos banheiros químicos, onde o cliente será dissolvido num banho de ácido ou coisa que o valha.

Parece absurdo? Não mais que a realidade. A heroína vendida por Lucas chamava-se “Blue Magic”, e Mark Jacobson a situa no seu contexto histórico: “No Harlem do começo dos anos 1970, havia muitas marcas da droga. Tru Blu. Mean Machine. Could Be Fatal. Dick Down. Boody. Cooley High. Capone. Dind Dong. Fuck Me. Fuck You. Nice. Nice To Be Nice. Oh, Can’t Get Enough of That Funky Stuff. Tragic Magic. Gerber. The Judge. 32. 32-20. O.D. Correct. Official Correct. Past Due. Payback. Revenge. Green Tape. Red Tape. Rush. Swear to God. PraisePraisePraise. KillKillKill. Killer 1. Killer 2. KKK. Good Pussy. Taster’s Choice. Harlem Hijack. Joint. Insured for Life. Insured for Death… Estas eram apenas algumas das marcas carimbadas nos saquinhos de celofane. Mas nenhuma delas vendia tanto quanto a Blue Magic, de Frank Lucas”.

Eis porque a idéia das Cabines de Suicídio não me parece despropositada.



quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

1547) Altimar Pimentel (27.2.2008)



Como quase sempre acontece, conheci a obra de Altimar Pimentel bem antes de conhecer a pessoa. Aos vinte e poucos anos de idade eu estava descobrindo a cultura popular nordestina com os olhos deslumbrados de um Marco Polo que vê a China pela primeira vez. Em cada curva do caminho eu me deparava com um castelo gigantesco, uma floresta que encostava no céu, um lago maior que um oceano. Parecia não haver limite para aquela criatividade que borbotava sem parar através de versos, cantigas, histórias, encenações, folguedos, danças – tudo isto feito por escritores que não sabiam ler nem escrever, músicos que não liam partitura, instrumentistas que fabricavam seus próprios instrumentos, atores que todo dia eram obrigados a redescobrir a roda, a pólvora e a bússola.

Caiu-me nas mãos um exemplar de O Mundo Mágico de João Redondo (SNT, 1971), em que Altimar transcreve dez peças de mamulengo gravadas por ele na Paraíba nos anos 1960. Eu tinha visto (sem prestar maior atenção) algumas peças de mamulengo na infância, e posso dizer que descobri esse mundo no livro em que Altimar registrava com fluência tudo que caracteriza a criação oral improvisada: as repetições, as frases truncadas, as idas e vindas, os blocos de texto decorado intercalando-se aos diálogos espontâneos com a platéia, os fragmentos inteiros de uma história transpostos para outra por necessidade momentânea, os erros e correções em voz alta, os improvisos...

Altimar tem sua obra teatral própria, inspirada nesses criadores populares, como também o fizeram Ariano Suassuna, Luiz Marinho, Vital Santos e tantos outros. Mas para mim, que virei um cascavilhador da Literatura Oral, foram suas pesquisas e recolhas de textos que revelavam, a cada livro publicado, mais uma camada oculta dessa cordilheira de histórias que constitui a Paraíba, invisível para os que todos os dias caminham sobre ela olhando noutra direção. As Estórias de Cabedelo (v. “Beleza medonha”, 1.1.2004), as Estórias de Luzia Tereza, em que são registradas centenas de histórias-de-trancoso de uma paraibana anônima e fenomenal, os Contos Populares de Brasília (1998), um belo raio-X no imaginário dos candangos, os Contos Populares Brasileiros – Paraíba (1996, juntamente com Osvaldo Trigueiro) e tantas outras coletâneas.

Pesquisar literatura oral é como fotografar nuvens. É relacionar-se com algo que está fora do nosso alcance, que ignora a nossa existência e que muda o tempo todo. Registrar essas “literaturas da voz” não significa cristalizá-las, emoldurá-las, asfixiá-las no âmbar ou no formol. Ninguém imobiliza a cultura oral. O que Altimar fez foi fotografar no preto-e-branco da página esse espírito criativo de um povo. Precisaríamos, para dar conta do que a Paraíba tem, para que essa imensa herança não se perdesse por completo, de uns dez mil indivíduos como Altimar Pimentel. O fato de termos tão poucos os torna cada vez mais preciosos.

1546) Flamengo 2x1 Botafogo (26.2.2008)


(Diego Tardelli)

Alguns leitores (todos vascaínos) queixam-se da freqüência com que falo do Flamengo nesta coluna. (Vou comentar o quê, então? A derrota do Treze para o Campinense?!) Amigos, não gosto de fazer gozações com os perdedores, porque acho que a derrota já põe as coisas em pratos limpos – ganha quem pode, cala quem tem juízo. Também não estou querendo rivalizar com os coleguinhas do caderno esportivo, que analisam a postura tática das equipes, o desenrolar do jogo, os erros e acertos da arbitragem, etc. Meu propósito é extrair de alguns aspectos de um jogo de futebol alguma lição simbólica ou metafísica que nos ensine algo sobre o propósito da vida humana ou sobre o real funcionamento do Universo.

O jogo de domingo passado, se não foi um primor de técnica, foi um desses jogos de matar de sede o torcedor – o cara tem medo de ir pegar a cerveja na geladeira, porque se sair pode perder um lance decisivo. Aos 13 minutos o Flamengo criou uma jogada pela esquerda com Juan e Ibson, e a bola foi rolada para trás, na entrada da área, onde apareceu nosso bravo volante Jailton e a mandou para o Espaço Sideral, quase derrubando de novo o satélite defeituoso que os EUA abateram dias atrás. Jailton é apenas o símbolo de uma geração inteira: os Destruidores do Futebol, jogadores especializados em bloquear, marcar, atrapalhar, esbarrar, segurar, calçar, empurrar, derrubar. Os técnicos adoram esses jogadores, que chamam de “cães de guarda”. São eles que deixaram o futebol brasileiro do século 21 igualzinho ao futebol alemão do século 20.

Segundo exemplo: o pênalte marcado a favor do Flamengo. Todo mundo viu o zagueiro do Botafogo puxando para cima a camisa do jogador do Fla. Derrubou-o, desequilibrou-o, impediu-o de fazer um gol? Nem por sombras. E, como disse o pessoal da TV, na mesma hora havia meia-dúzia de jogadores de ambos os times puxando a camisa uns dos outros, naquela promiscuidade equívoca que precede os escanteios. O juiz poderia ter marcado falta a favor do Botafogo. Dar o pênalte ao Flamengo foi aquilo que eufemisticamente chamamos de “decisão de foto íntimo”.

Terceiro: o golaço marcado aos 46 minutos por Diego Tardelli, jogador com que não simpatizo nem um pouco. Pelo que já li na imprensa, acho-o farrista, irresponsável, pretensioso. Não importa: o gol foi de uma calma, uma lucidez e uma perfeição técnica admiráveis. Quarto: a cabeçada na trave que um jogador do Botafogo deu no último segundo da partida (e quando a defesa do Fla rebateu para longe, o juiz encerrou o jogo, porque seguro morreu de velho).

São esses pequenos detalhes – erros, acertos, falhas, faltas de sorte – que decidem a maioria dos jogos de futebol. O Fla levou um gol quando dominava; virou o jogo quando o Botafogo se apavorou; foi salvo pela trave. Nem vi a entrega da Taça, fui beber alguma coisa. Jogo bom é o que você tem medo de sair da frente da TV, porque “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.

1545) A noite escura da alma (24.2.2008)




(James Blish)

Um mistério da humanidade que para mim não tem mistério algum é: por que motivo algumas pessoas preferem trabalhar de noite, e não de dia? Como pertenço a essa espécie, meu modo de ser me parece óbvio, e os outros é que são estranhos. 

A alta madrugada é o único horário propício para o trabalho intelectual. Para escrever, para compor, ou apenas para pensar. Frederik Pohl descreve assim esse período mágico: 

“O meio da noite é especialmente benfazejo para um escritor. O telefone não toca, ninguém bate à porta, as crianças estão dormindo. É possível produzir pensamentos longos e consecutivos”.

Esta última frase diz tudo. Quem escreve precisa desenvolver idéias até uma certa extensão, sem perder de vista tudo que foi pensado antes. É um pouco como fazer castelos de cartas. Tudo se apóia numa base muito frágil. Qualquer perturbação bota tudo abaixo e é preciso recomeçar do zero. 

Eu comparo escrever a fazer contas de cabeça, somar vários números de cinco ou seis dígitos. Se a gente é interrompido, esquece tudo que veio antes, e tem que recomeçar.

Outro escritor de FC, James Blish, saiu-se com uma versão interessante e científica para essa importância atribuída à noite. Seu conto “The Dark Night of the Soul” (1956) descreve o cotidiano em uma colônia espacial situada em Calisto, um dos satélites de Júpiter. Ali, vários artistas (pintores, poetas, músicos, etc.) são reunidos para trabalhar em tempo integral, e um dos cientistas explica por quê:

“A maior parte do trabalho criativo é feito durante a noite. Durante essas horas, a massa inteira da Terra está entre você e o Sol. Ela o protege de um tipo muito penetrante de radiação solar, feito de partículas chamadas neutrinos. Estatisticamente, essa proteção é irrisória, porque toda matéria é quase perfeitamente penetrável pelos neutrinos, mas parece que os processos criativos são sensíveis até à menor proteção”. 

Quando lhe perguntam por que a colônia artística foi criada em Calisto, ele responde: 

“Primeiro, porque a esta distância do Sol o fluxo de neutrinos corresponde a apenas 3,7% do que experimentamos na Terra. O outro motivo é que por cerca de cinco horas a cada duas semanas, quer dizer, a cada ‘dia’ local, você está protegido não apenas pela massa do satélite, mas por toda a massa de Júpiter, que se interpõe entre você e o Sol. Durante esse período, você é capaz de utilizar suas forças criativas com um mínimo de interferência da estática dos neutrinos”.

A possibilidade de manter “pensamentos longos e consecutivos” é essencial para quem escreve. É como um compositor escrevendo uma sinfonia; ao escrever a parte de cada instrumento, ele precisa ter em mente tudo que os demais instrumentos estarão tocando naquele instante, lembrar o som de cada uma dessas combinações, etc. 

O pensamento linear é fácil de manter. Pensamentos complexos, simultâneos, em paralelo, só sem a interferência dos neutrinos.





1544) Minha vida em apenas seis palavras (23.2.2008)




Já falei aqui (“Contos com 6 palavras”, 26.4.2007) sobre os contos de seis palavras, um desafio inspirado no miniconto de Ernest Hemingway: “For sale – baby shoes, never worn” (“Vende-se – sapatinhos de bebê, sem uso”). (O conto nem é dele, mas isso é outra história.)

A revista online Smith lançou para seus leitores um desafio parecido: contar em seis palavras a própria vida. As respostas foram muitas e variadas. 

O quesito verossimilhança ficou um pouco fora de questão, pois os editores não poderiam checar caso a caso se o que cada colaborador afirmava de si próprio era verdade ou não – mas isto é o que menos importa. Você conseguiria resumir tudo em seis palavras?

Tentar a gente tenta. Algumas sínteses são cronológicas e bem-humoradas, como a de Dick Hadfield: “Feto, filho, irmão, marido, pai, vegetal”. 

Outras são visualmente eficazes: “Cabeça entre livros, pés sobre flores” (Heather Thomson). 

Outras são pessimistas até a medula, como a auto-avaliação de Patsy Wheatcroft: “Época errada. Classe errada. Sexo errado”. 

Outras otimistas, como a de Peter Elvish: “Companheira fiel, amor, risadas... e agora?” 

Tem uma que dá um calafrio incômodo: “Quatro casamentos, três filhos, depois câncer” (Gillian Johnson). E outra com um sabor de volta-por-cima: “Atropelada duas vezes, felizmente ainda viva” (Trudi Evans). 

Steve MacMullen impressiona pela sobriedade e ausência de ambição: “Desposei namorada de infância. Filhos. Contente”.

Na verdade não se trata de esperar dos colaboradores uma pequena façanha literária, apenas um poder de síntese satisfatório. Um tal de Patric se resume: “Nasci londrino, vivi fora, morri dentro” (no original: “Born London, lived elsewhere, died inside”). 

Jane Kirk demonstra bom humor: “Príncipe no cavalo branco nunca apareceu”. O desabusado C. North afirma: “Nenhuma nota dez, mas virei milionário”. O esperançoso Sunny Tailor pergunta: “Alguma chance de começar de novo?” 

E John Ball confessa com resignação: “Trabalhei toda vida, ainda pago impostos”. 

E Alexandra Lackey diz: “Nada de romance tipo Jane Austen”.

Quem quiser ver mais pode visitar o saite em: http://www.bbc.co.uk/radio4/today/reports/misc/sixwordlife_20080205.shtml. 

O requisito de que o texto seja autobiográfico é o de menos, porque na verdade o exercício consiste em aplicar nosso poder de síntese a qualquer assunto. Em oficinas literárias ou de roteiro, uma tarefa recorrente é: “Conte sua história em uma frase, depois em um parágrafo, depois em uma lauda, depois em dez laudas”. Quem for capaz de manter a exatidão e a coerência nessas etapas, provavelmente será capaz de escrever um roteiro de 120 páginas. 

A concisão é uma virtude em declínio nesta época de espaço ilimitado no mundo eletrônico. Antigamente, escrevíamos pensando no número de toques por linha (eram 70) e no número de linhas por lauda (eram 30). Compactar qualquer história em seis palavras nos traz de volta um pouco dessa antiga disciplina.






terça-feira, 19 de janeiro de 2010

1543) O caçador de pipas (22.2.2008)



Esse tal de Mercado é uma coisa engraçada. Para os que mandam na cultura, ele é hoje o Júpiter Tonante, o Todo Poderoso. Os índices de Ibope, de bilheteria ou de vendagem são o crivo-de-Eratóstenes que elimina todo o redundante e chancela apenas o essencial, o que vale pra valer, o que são favas contadas. Vender é o que importa. Para eles, cultura que não pode ser vendida é inútil para o artista, e cultura que não precisa ser comprada não vale nada para o consumidor.

Sinal dos tempos, sinal do Fim dos Tempos, mas em vez de me cobrir de saco e cinza prefiro sentar no batente da janela, apontar a luneta e secretariar as peripécias. Por exemplo: sou um fã do filme Blade Runner, de Ridley Scott, que considero um dos 10 (ou um dos 100, ou um dos 435) clássicos da FC. Vi várias vezes, revi em VHS, depois em DVD. Em 1992 saiu a versão do autor (“Director’s Cut”) em que Scott cortou uma porção de coisas impostas na época pelo produtor. E agora, em 2007, saiu o chamado “Final Cut”. Das duas uma: ou os produtores esperam que o consumidor guarde lado a lado todas as versões, ou espera que a mais recente invalide as anteriores (e quem me garante que daqui a pouco não virá mais uma, invalidando a atual?).

O Mercado se volta hoje para os “completistas”, para aquela faixa endinheirada e fanatizada do público que, quando gosta de uma obra, está disposta a comprar todos os subprodutos dela. O grande sucesso livreiro atual é O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini, cuja edição normal está à venda por R$ 39,90. Para quem já a leu, foi lançada (e está vendendo bem) a edição ilustrada, por R$ 69,90. Se não bastar, o cara pode comprar por R$ 29,90 o áudio-livro. O filme já está passando nos cinemas; em breve sairá em DVD, e... o céu é o limite. O Mercado ordenhará o texto de Hosseini sob todas as formas possíveis, até a última gota de leitura.

Alguns anos atrás, um cantor de sucesso se queixava: “Tenho canções inéditas suficientes para dois discos, mas a gravadora não aceita. Só querem regravações, discos temáticos, tributo a Fulano, homenagem a Sicrano. Só querem regravações de canções já conhecidas. Ninguém quer arriscar no novo”. A filosofia por trás disto é que se o público demonstra interesse por algo vale a pena oferecer-lhe essa mesma coisa sob qualquer pretexto. Reedições de livros com novo prefácio de A, nova introdução de B e comentário crítico de C. Versões remixadas de discos, versões remontadas de filmes. Versões colorizadas de filmes em P&B (isto, felizmente, parece que nunca colou). Regravações incontáveis de canções de sucesso. “Sessões Nostalgia” em que são recuperados até mesmo os filmes detestados trinta anos atrás (o bang-bang italiano, a chanchada, a pornochanchada, o filme-de-monstro japonês). Na defensiva, aposta-se na máxima do “um pouco mais daquilo mesmo”. Sinal de um Mercado em crise, apavorado, apegando-se à minoria que tem muito dinheiro e não sabe muito bem onde gastar.