sábado, 9 de janeiro de 2010

1499) Os triângulos sagrados (2.1.2008)



Dentro do misticismo cristão, há dois conjuntos de símbolos sagrados que sempre chamaram minha atenção pela sua aparente simetria, mas uma simetria que num segundo exame se mostrava imprecisa ou incompleta. Refiro-me aos dois triângulos formados pela Santíssima Trindade e pela Sagrada Família. Ambos sugerem o triângulo familiar básico (pai, mãe, filho), mas em ambos falta ou sobra um elemento. Por quê?

Vejamos a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e – no lugar da mãe – o Espírito Santo. Esta última entidade é para os não-cristãos a mais enigmática, a mais difícil de visualizar. No triângulo antropológico da família, ele é uma entidade misteriosa cuja função mais aparente é ocupar o lugar da mãe. Alguns analistas (especialmente da ala feminista) vêem nisso um sinal da impossibilidade da cultura judaica de colocar a mulher numa posição de destaque. Uma cultura patriarcal como a do Velho Testamento talvez ficasse pouco à vontade para definir Deus como “o Pai, a Mãe e o Filho”.

Comparada à Trindade, a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) reproduz a estrutura real de uma família humana. Sua incompletude só se revela quando lembramos que, de acordo com os Evangelhos, coube a São José apenas o papel de pai adotivo de Cristo, sendo que a paternidade real é atribuída justamente ao Espírito Santo, emanação da Divindade.

Ao que parece, o Espírito Santo é uma metáfora para algo que a religião se sentia desconfortável em admitir: a relação fecundante que se dá entre o homem e a mulher. Se a Santíssima Trindade fosse composta por “o Pai, o Filho e a Mãe” isto implicaria na presença de uma relação sexual no cerne mesmo da Divindade. Isto foi evitado – talvez por preconceitos de ordem moral, talvez para evitar que a Trindade, uma entidade puramente espiritual, fosse contaminada pela sugestão de um processo reprodutivo típico dos seres de carne e osso.

No caso da Sagrada Família, o processo reprodutivo era indispensável, de vez que a intenção era fazer de Jesus Cristo um ser humano de origem divina mas de carne e osso. Desta vez, em vez de se suprimir a Mãe suprimiu-se o Pai, e mais uma vez suprimiu-se com isto a necessidade da relação sexual. O Espírito Santo encarregou-se da paternidade. Ele não está diretamente presente na Sagrada Família, mas está subentendido na figura de São José, pois cumpriu a função que teoricamente seria deste.

O Divino Espírito Santo é uma essência misteriosa cuja realidade é reconhecida e louvada pela cultura que produziu esses triângulos sagrados. É uma entidade que produz êxtase, iluminação, transcendência; que é capaz de iluminar as pessoas com um fogo sagrado e de fazê-las falar em línguas diferentes. Ele é a Esposa na Santíssima Trindade, e é o Marido na Sagrada Família. É a União Mística do homem e da mulher, o símbolo insolúvel mas evidente que conecta os triângulos do Espírito e da Matéria. Quem já o experimentou não precisa de provas de sua existência.

1498) Feliz Dois Mil e Outro (1.1.2008)



Os anos estão passando cada vez mais depressa desde que virou o milênio. Já repararam? Vapt! O reveillon emenda com o Carnaval, cujos derradeiros clarins já se misturam ao “Olha pro céu” do São João, aí vem a campanha política azucrinando corações e mentes. Quando sai o resultado e os garis varrem os panfletos, os shopping-centers já estão cheios de Papais Noéis. Vupt! Algumas teorias dizem que a Terra está se aproximando do Sol num trajeto em espiral para dentro, o que faz com que cada volta que ela dá seja um pouquinho menor que a anterior. Um ano hoje dura muito menos tempo do que um ano dez anos atrás.

Às vezes enxergamos o tempo como uma reta, e nós um ponto que se desloca da extremidade A, o passado, rumo à extremidade B, o futuro; e o local que ocupamos transitoriamente é o presente. Outras teorias nos ensinam a ver o Tempo como uma transformação de algo imóvel, e não como um deslocamento. Pense na exibição, em câmara acelerada, de uma planta brotando no solo, elevando-se, erguendo um talozinho verde, brotando folhas, encorpando-se, virando arvorezinha, brotando flores, abrigando passarinhos... (Um gremlin maldoso me sugere a próxima frase: “Sendo abatida por uma motosserra...”, mas não lhe demos ouvidos.) O tempo não é o percurso retilíneo de algo imutável, mas as transformações internas que, independentemente de deslocações externas, transportam uma coisa para o próximo estágio dela mesma.

Outra imagem que me ocorre com freqüência é a da coexistência de vários futuros encangados uns aos outros. Imaginem um cacho de bolhas de espuma, de diferentes tamanhos, coladas umas às outras. Cada uma delas é um dos universos possíveis que atravessamos com o transcurso do tempo; nós somos o ar que infla essas bolhas, e podemos passar de uma para outra sem transição intermediária, como num salto quântico. Cada vez que nos defrontamos com uma escolha (“passar o reveillon em casa, tomando vinho e ouvindo música, ou ir para a farra com os amigos?”) temos duas bolhas à nossa escolha, e quando por fim optamos por uma delas fazemos com que ela cresça e se desenvolva, porque somos nós o ar que a expande e a torna mais real.

Pois é, amigos. Final de ano, todo mundo me mandando mensagens de Feliz Ano Novo, de saúde e paz, de mais amor entre as pessoas e mais diplomacia entre as nações... e eu aqui, mais preocupado em entender o formato do Tempo do que em buscar a felicidade. Fazer o quê? Cada qual ostenta as deformações do seu ofício como se fossem outras tantas medalhas de honra ao mérito ou uma camisa em azul-claro que ganhou de presente no Natal. Nunca saberemos o que é o Tempo, talvez porque estejamos impregnados dele, assim como um peixe só percebe que a água existia no instante em que um anzol o arrebata para fora dela. Brindemos ao Tempo e seus mistérios. Melhor que o ponto final das respostas é a melodia inquisitiva das perguntas que nos mantêm vivos e acesos. Feliz Mistério Novo, tin-tin.

1497) O estrangeiro e o estranho (30.12.2007)


(Jamie Bishop, R.I.P.)

Meses atrás um estudante coreano meio descompensado pegou em armas e fuzilou dez ou quinze colegas num campus universitário dos EUA. A notícia me chocou, acompanhei a cobertura, coisa e tal. Um mês depois, li na revista Locus que uma das vítimas fatais era Jamie Bishop, estudante de cinema de vinte e poucos anos, e filho do escritor de ficção científica Michael Bishop. Só então o verdadeiro horror do crime se abateu sobre mim. Por que? Porque Michael Bishop eu sei quem é, já li pelo menos dois grandes livros escritos por ele (Transfigurations e Apartheid, Superstrings and Mordecai Thubana). Bishop, e por tabela seu filho Jamie, pertencem ao meu mundo. As outras vítimas, não. São uma lista de nomes, uma sucessão de fotos. São (aos meus olhos solipsistas, que só reconhecem o que já me pertence) uma mera ficção.

Comentei nesta coluna o quanto fiquei chocado com os atentados a bomba em Bagdá que mataram gente durante as comemorações de uma vitória da seleção iraquiana de futebol. É a mesma coisa. A morte alheia só nos fere e só nos incomoda quando existe um fio invisível, por mais tênue que seja, nos ligando à pessoa que morreu. Pode ser um fiozinho da finura de um fio de aranha e com mil quilômetros de extensão, mas se esse fio sofre qualquer estremeço na outra extremidade isso nos toca, nos modifica, nos faz sentir alguma coisa. Não havendo esse fio, meu amigo, é como alguém dizer: “Morreram 20 milhões de russos na II Guerra Mundial”. Sim – e daí?

Encontrei na Wikipedia uma citação de uma frase anônima na Revue de Paris referindo-se à peculiaríssima moral dos cidadãos de Roma Antiga. Diz o texto: “Os romanos, que tinham apenas uma palavra, ‘hostis’, para designar tanto ‘estrangeiro’ quanto ‘inimigo’, esses romanos, que se riam nos espetáculos da arena, esses romanos ainda assim choravam, como qualquer outro, quando ouviam no teatro um ator recitar: ‘Sou homem, e nada do que é humano me é estranho’”.

Parafraseando Orwell, é o caso de dizermos que todos os homens são humanos, mas alguns são mais humanos do que os outros. Nosso sentimento de clã, de tribo, de família, depende desses filetes de sentimento e de identificação simbólica que nos unem a algumas pessoas mas não a outras. O curioso da citação é que a palavra latina “hostis” signifique ao mesmo tempo “estrangeiro” e “inimigo”. Percebe-se que nessa época conceitualmente nebulosa quem não era um dos nossos estava contra nós. Foi preciso uma certa evolução civilizatória para que os dois conceitos se apartassem. Curiosamente essa duplicidade de sentidos da palavra latina “hostis” nos deu termos que a refletem de forma distante: “hostil” (alguém que nos ameaça), e a palavra inglesa “host”, anfitrião (aquele que recebe estranhos em sua casa). Do mesmo radical vieram, via “hospitus”, os termos “hóspede” e “hospitalidade”, e “hóstia” (simbolicamente, o objeto que recebe em si um espírito estranho, algo que vem de outro mundo).

1496) Repentes sob encomenda (29.12.2007)





É fácil escrever poesia de improviso, e sob encomenda? Parece que sim – aí estão os milhares de violeiros repentistas nordestinos. 

Um professor de uma escola pública em New Jersey pegou um grupo de estudantes do 2o. grau e lhes colocou essa tarefa: praticariam durante algum tempo, e num certo dia iriam instalar umas barracas no centro da cidade, oferecendo-se para escrever poemas na hora, conforme os pedidos dos transeuntes.

O professor Douglas Goetsch publicou um artigo em The American Scholar contando todos os detalhes do projeto. 

Os estudantes colocaram algumas questões logo de cara. Cobrariam dinheiro pelos poemas? “Não,” disse Goetsch. E se não aparecer ninguém para pedir um poema? “Faz parte do risco”. E se pedirem um poema rimado, que eu não sei fazer? “Vamos treinar”. E se não soubermos dizer nada sobre o assunto que pedirem? “Vamos treinar”.

O treinamento era em forma de exercícios obrigatórios, imaginados por ele. 

“Uma mulher tem um primo que está lutando no Iraque e vai dar baixa daqui a três meses. Ela quer um poema desejando-lhe boa sorte e boa volta à casa”. 

“Um torcedor do time de basquete da escola quer um poema para uma garota da torcida uniformizada chamada Francine. Ele quer um poema rimado. Você tem dois minutos”. 

“Um homem quer um poema para a esposa dele, pedindo desculpas por ter criticado seus talentos culinários; é a primeira briga conjugal dos dois”. 

O professor queria desenvolver neles aquilo que Keats chamava de “negative capability”, algo como “aptidão, ou capacidade para lidar com situações negativas” – o mistério, o conhecimento insuficiente. Ou seja: trabalhar, sem reclamar, com os dados disponíveis.

As primeiras semanas de treino foram duras. Diz Goetsch que os alunos tinham 16, 17 anos, e eram talentosos, mas tinham pouco conhecimento de técnica (tipos de poema, de métrica, de rima). Nunca tinham praticado a poesia a sério. 

O professor ensinou-lhes a praticar o hai-kai, o soneto, a vilanela, o limerick, a ode, a balada. No dia em que foram para a rua, atenderam todos os pedidos. Apareceu até um “freguês”, um professor da universidade local, que pediu uma vilanela tendo como assunto “macacos”. Uma das garotas produziu em poucos minutos o poema pedido: 

“Monkeys swinging in the trees 
small and brown with lots of hair 
staring strangely down to me...” 

O relato de Goetsch mostra como pessoas com talento podem, se treinadas, produzir improvisos de boa qualidade.

O que é preciso para fazer poesia assim? 

Primeiro: vasto repertório de técnicas, formas, recursos, truques criativos. 

Segundo: prática constante. 

Terceiro: a “negative capability” necessária para saber que naquele instante o mais importante não é produzir um grande poema, mas um poema rápido, legível e coerente, dentro do tema solicitado e do tempo disponível. 

Um dia, um desses poemas improvisados poderá ser um grande poema.






sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

1495) O jogador pop (28.12.2007)


(Paulo César Caju)

Um repentista comentou comigo certa vez: “Tem três profissões onde a pessoa tem até os trinta anos pra ganhar dinheiro, porque depois disso é só prejuízo: jogador de futebol, cantador de viola e rapariga”. Existe uma verdade poética nessa frase, embora do ponto de vista factual não seja uma verdade científica. O autor dela, por exemplo, está hoje na casa dos 60, e provavelmente ganha mais do que quando a proferiu. Sobre as praticantes da “mais antiga das profissões”, não disponho de dados estatísticos. E no futebol a longevidade dos jogadores aumentou tremendamente. Nem me refiro a casos peculiares como o de Romário. O time do Milan, recente campeão mundial interclubes, é composto quase todos de trintões, sendo Kaká, aos 25 anos, quase um mascote.

Revi há pouco na TV um episódio da série “Futebol” dirigida por João Moreira Salles, enfocando o cotidiano do ex-jogador Paulo César “Caju”, que foi craque do Botafogo, Flamengo, Seleção Brasileira e muitos outros times. Paulo César foi um dos primeiros jogadores “pop”. Dirigia carros caríssimos, pintava o cabelo (daí o apelido “caju”), aparecia nas colunas sociais, falava francês, namorava modelos e socialites, dava entrevistas irreverentes onde dizia exatamente o que pensava. A imprensa, desacostumada com aquilo, vivia atrás dele. Não simpatizava muito com ele, porque era na época da ditadura. Paulo César, embora não fosse propriamente um jogador politizado ou questionador como seus contemporâneos Reinaldo, Afonsinho e outros, não abaixava a cabeça. Era o que já vi alguém chamar de “nego metido a branco”, expressão que descreve maravilhosamente o nosso racismo embutido.

Hoje em dia, dois terços dos jogadores de futebol são jogadores pop, ou seja, fazem tudo que Paulo César fazia: pintam o cabelo, dirigem BMW, namoram modelos, saem nas revistas. O que lhes falta, curiosamente – já que vivemos em plena democracia, onde qualquer um pode dizer o que pensa sem medo de ser preso ou perseguido – é a personalidade na hora de falar. O jogador típico de hoje é o robô disciplinado que fala somente em “seguir as instruções do ‘professor’ para trabalhar com determinação em busca do nosso objetivo que é a vitória”, ou o craque marrento, emproado, metido a besta (como Caju também era), mas que parece viver num Brasil virtual composto apenas de estádios, aeroportos e boates. Dou um no outro e não quero volta.

Numa época em que o jogador tinha de ser um cara discreto, vestido com simplicidade, sem esbanjamento, sem consumo conspícuo, Paulo César explodiu o modelo, tornou-se o contrário disto. Hoje em dia, o modelo é o que Paulo César criou, o jogador pop. Falta algum jogador no futebol de hoje que conteste esse modelo consumista, playboy, socialite. Até porque não são poucos os talentos futebolísticos que têm se deteriorado por essa obrigação de frequentar as boates da moda, os acontecimentos sociais, os coquetéis, os bailes, as capas de revistas

1494) O salto e a natação (27.12.2007)


A diferença entre um conto e um romance não é apenas o fato de que um é pequeno e o outro é grande. Diferença de escala determina também uma diferença de estrutura. Comparemos com a pintura. Um quadro com as dimensões aproximadas da Mona Lisa é feito para ser visto de uma certa distância, revelar certo nível de detalhe, produzir uma impressão específica. Quadros enormes como o Grito do Ipiranga de Pedro Américo ou as Bodas de Caná de Veronese pedem outro tipo de leitura. Contemplar “palmo em cima” um quadro como esses, ou como a Ronda Noturna de Rembrandt, equivale a ver uma sucessão de Monas Lisas justapostas como ladrilhos num mosaico, e precisamos de um recuo muito maior para ter a percepção do Todo.

O tamanho relativo de um quadro muda nossa relação espacial com ele, e no caso da obra escrita essa variação muda nossa relação com o Tempo. Histórias curtas sempre existiram, oriundas da literatura oral e das chamadas formas simples (a fábula, a lenda, etc.) – ou, numa classificação mais nossa, a anedota, a piada, o “causo” pitoresco. Estas formas, contudo, ao serem incorporadas à literatura escrita sofreram a inevitável interferência do temperamento pessoal de autores com mais recursos, que foram lhes dando outro perfil.

Edgar Allan Poe deve ter sido o primeiro (ou pelo menos o primeiro mais famoso) a formular uma regra essencial do conto moderno. Poe sugeriu que o conto deveria requerer, para sua leitura, “de meia-hora a uma ou duas horas”, e completou: “Durante a hora da leitura, a alma do leitor permanece submissa à vontade (do autor)”. Os melhores analistas da obra de Poe reconhecem aí uma das razões do impacto de seus contos, que estão completando mais de 150 anos de idade.

É o caso de Baudelaire, que ao comparar o conto e o romance destaca, no primeiro, a “unidade na impressão, na totalidade do efeito”. Baudelaire foi um dos primeiros a perceber a importância, nos contos de Poe, de uma escrita em que tudo conduz para um desfecho. A impressão que um conto desse tipo nos provoca deve ser una, inteira, contínua. O conto deve poder ser lido de uma assentada, sem interrupções, para que nada venha quebrar o encantamento com que o texto, frase por frase, obriga o leitor a ler a frase seguinte. Um conto é como um salto de trampolim numa piscina: um movimento rápido, intenso, indivisível, algo que transcorre no tempo mas cuja tensão interna nos produz a impressão de algo inteiro, algo já completo onde nada falta e nada sobra.

Já o romance não busca a intensidade, mas a extensão da experiência ao longo do tempo. Um romance é para a gente conviver, para nos fazer companhia durante dias. Ele não depende da impressão forte e momentânea, e sim do acúmulo de mil pequenas coisas que se sucedem e criam uma história que parece que não vai ter fim. (Talvez por isso as histórias de amor queiram se chamar “romances”.) Um conto é um salto de trampolim na piscina; um romance é uma travessia a nado.

1493) A Razão Cínica (26.12.2007)




A Razão Cínica consiste em dizer: “O mundo não presta, e é melhor você não prestar também”. Ela dá um diagnóstico pessimista sobre a qualidade moral do mundo, e procura tirar o melhor partido possível dessa situação. O cinismo pode ser necessário quando o indivíduo se vê em desvantagem e, para evitar um prejuízo ainda maior, abre mão, provisoriamente, de alguns escrúpulos. É um recurso extremo – como a violência, ou a fuga, ou a mentira. E, assim como elas, não pode ser um meio de vida. Serve para evitar um mal maior, mas não é norma de conduta de um sujeito que se preze.

“Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que nesta terra miserável vive entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”. O soneto de Augusto dos Anjos é um dos poemas mais dolorosamente cínicos de nossa literatura, ainda mais porque sabemos que ele expressa, com tamanho vigor e sinceridade, algo que Augusto não era. É um desabafo amargo, ressentido, revoltado, de alguém que perdeu a fé na humanidade à sua volta. O poeta assume um cinismo que não é seu, sugerindo a si próprio uma retaliação que jamais praticou. São “versos íntimos”, feitos de si para si mesmo, versos escritos para remendar um ego destroçado. Sabe-se lá qual foi a desilusão, entre as incontáveis que teve na vida, que levou o poeta a esse rompante de escárnio. Sabemos, contudo, pelos relatos dos que o conheceram, que sua atitude pessoal sempre foi o contrário disto.

“Versos Íntimos” é um monstro que Augusto extraiu de dentro de si para não tê-lo mais dentro de si. Como tantos monstros produzidos pelo sofrimento moral, veio carregado de uma revolta que tanto pode se transformar em fonte de ódio como em fonte de energia redentora. O cinismo pode ajudar a diminuir a dor num momento de crise, espezinhando aquilo ou aqueles que produziram essa dor. Quando associado, no entanto, aos momentos de triunfo, de auto-afirmação, de bem-estar, de Poder, o cinismo é o pior dos instrumentos.

A Razão Cinica insiste que todo o mundo é desonesto: “Venha! Junte-se a nós! Não seja otário, não fique aí parado!” Tenta nos fazer acreditar que de nada adianta lutarmos por uma causa perdida, ou insistirmos num trabalho que não faz sucesso, ou defendermos idéias que não dão resultado. Ela nos diz que numa negociação entre um egoísta (que só pensa em si) e um altruísta (que se preocupa com os outros) é matematicamente certo que o egoísta sairá ganhando, assim como um violento sempre ganhará num embate contra um não-violento. Um bom argumento contra isto é mostrar que se o número dos altruístas e dos não-violentos se multiplicar o bastante, suas chances de vitória aumentam proporcionalmente: são virtudes cujo poder está no coletivo. Esta é a idéia por trás das ideologias civilizatórias. A melhor maneira de eliminar a selvageria e a violência é diluindo-as numa maioria que rejeita o cinismo e defende um contrato social em que todos se respeitam e se apóiam mutuamente..


(Este texto está publicado no livro 78 Rotações, Natal, Editora Jovens Escribas, 2015.)




1492) “Enquanto houver Natal” (25.12.2007)


No mercado editorial norte-americano existe uma tradição, pouco frequente entre nós, de publicação de textos relativos ao Natal e a outras efemérides religiosas ou civis. São as chamadas “holiday anthologies”, e o lado mais divertido delas é ver de que maneira os escritores conseguem reunir o tema proposto e as convenções do gênero. Enquanto Houver Natal – oito estórias de ficção científica é uma antologia cujo título é auto-explicativo, e foi publicada em 1989 por Gumercindo Dórea em sua tradicional Editora GRD, de São Paulo. A GRD foi a principal editora de FC no Brasil na década de 1960. Ao mesmo tempo em que lançava para o grande público as obras de estréia de jovens desconhecidos como Rubem Fonseca e Nélida Piñon, a GRD publicava os melhores títulos da FC internacional, além de antologias e de coletâneas de autores brasileiros como Dinah Silveira de Queiroz e Fausto Cunha.

Meu conto preferido na antologia natalina é o de José dos Santos Fernandes, “Atendimento Domiciliar”, em que um grupo de viajantes no Tempo tem problemas técnicos e fica preso por algumas horas no passado remoto. O conto evita com habilidade qualquer indicação clara de que lugar é aquele, quem são aquelas pessoas. Os viajantes no Tempo são identificados por seus nomes (Prof. Franz, Dr. Armand, etc.), mas não temos idéia da região do planeta onde desceram. Um dos personagens, ao conferir seus cálculos, diz que estão a mais de 5 mil anos de sua própria época – o que nada revela. Mas quando a nave em que viajam (é uma nave espacial que viaja no Tempo) precisa pousar, o piloto diz: “Se eu usar os desaceleradores, nós vamos brilhar mais do que a lua cheia”. E em seguida “a nave riscou o céu noturno como uma estrela cadente de brilho jamais visto, indo descer no sopé de umas colinas, fora dos limites da cidade”.

Enquanto a nave é consertada, o médico e o historiador exploram o terreno em volta e acabam descobrindo uma gruta “sombria e abafada”, com “palha e capim espalhados por toda parte”, e onde, num cercado ao fundo, estão dois jumentos e um cavalo. Ao se aproximarem dali eles vêem um homem de meia idade sair correndo, rumo à cidadezinha; quando entram, percebem uma mulher muito jovem está em trabalho de parto, com risco de morrer. O cirurgião faz uma cesariana a laser e depois fecha a cicatriz, deixando-a imperceptível. E diz: “Ninguém jamais poderá dizer, nesta época, que ela foi operada e teve um filho”. Deixam o bebê com a mãe e, quando a nave fica pronta, embarcam de volta, e ainda têm tempo de ver um grupo de pastores e camponeses aproximando-se da gruta.

É um desses contos “à clef” da ficção científica, em que uma situação familiar ao leitor é descrita pelo ponto de vista de observadores externos, e a charada vai se resolvendo aos poucos. É também um tipo de conto em que o autor procura dar uma explicação científica, ainda que com elementos imaginários, aos milagres e aos mitos de nossa cultura.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1491) Mamute Morto Bom (23.12.2007)



Estávamos reunidos em nossa caverna paleolítica, os três anciãos da tribo: eu, Urgh e Humm. Como se sabe, cabe aos anciãos decidir o rumo das coisas, o evoluir dos usos e costumes. Não porque os anciãos sejam mais sábios. Mas porque os jovens da tribo estão muito ocupados – matando mamutes, acasalando, mascando ervas perigosas. Nós, os anciãos, ficamos na cavernas, examinando etimologias e definindo tecnicalidades.

Por exemplo: hoje um bando de jovens matou um mamute e inventou essa palavra para designar as criaturas peludas que nos cedem (um tanto a contragosto) sua alcatra, seu patinho e seu acém. “Ma-mu-te!”, ficaram eles cantando e pulando em volta da carcaça, enquanto as mulheres cortavam os bifes. “Ma-mu-te!” Isso inquietou os anciãos. Nossa linguagem monossilábica, consciente da necessidade evolutiva inerente a todas as atividades da Cultura, tem feito uma aproximação gradual rumo às palavras de duas sílabas. Mas os jovens – ah, os jovens! – são impacientes. Querem avançar demais, querem tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Começam com trissílabos, daqui a pouco estarão querendo proceder anticonstitucionalissimamente.

Reunimos o Conselho e decidimos: o nome do bicho é “mut”, e não mamute. Estão pensando o quê? Somos trogloditas mas aqui há normas, há princípios. Os jovens voltaram para a caverna enfarruscados, resmungando. Nessa noite ninguém acasalou – ficaram conferenciando junto à fogueira. Na manhã seguinte, uma delegação veio negociar uma proposta. “São três palavras”, explicaram. “Ma quer dizer mim. Mut quer dizer a carne. Te quer dizer para ti. Ou seja: eu estou oferecendo carne.” Fiquei encalacrado, porque na verdade quem decide tudo no Conselho dos Anciãos sou eu (tem um que só faz concordar, o outro só faz ficar em dúvida). “Não há precedentes, não há jurisprudência firmada”, argumentei. “Que história é essa de palavras significando relações? Palavras significam coisas. A gente aponta o indicador, emite uma sílaba, e todo mundo sabe a que estamos nos referindo. Foi sempre assim”.

Os jovens insistiram: “Mas precisamos de uma sintaxe, de partículas que indiquem finalidade, dependência, junção, posicionamento...” Fui canônico, fui radical: “Não! Nem vem! Não tem pra tu!” Retiraram-se fumaçando e no outro dia apareceu um Comando de Greve dizendo que “aqui ninguém caça mais, se quiserem comer peguem suas azagaias e vão à luta”. As mulheres, sempre nervosas, prorromperam em pranto. Depois de três dias com as barrigas roncando, chamei o restante do Conselho e marcamos nossa rodada de negociações para depois da caçada.

Por garantia, resolvemos ir junto (vai que os jovens resolvem cooptar o Mut!). Eu não me lembrava do tumulto que é uma caçada. Para resumir – foi tudo muito rápido. Quando a poeira baixou, os jovens gritavam: “Mamute Vivo Mau! Mamute Morto Bom!” Fui me aconselhar com Urgh e Humm mas parece que algo muito pesado tinha passado por cima deles.

1490) A arte da digressão (22.12.2007)




(Marcel Jean, Specter of the Gardenia)

Uma das críticas mais injustas que se pode fazer a um romance é censurar ao autor o uso de digressões. Uma digressão é um afastamento do assunto principal para contar uma história secundária, refletir sobre algum aspecto da vida ou do mundo, ou explicar algum detalhe acessório da narrativa enquanto a história principal fica esperando. 

Como tudo o mais na esfera da arte, tem gente que gosta e gente que não gosta. Eu sou dos que gostam, e vou explicar por quê.

Primeiro, uma pequena digressão. Quando eu tinha dezesseis anos, vi dois caras conversando sobre um curso de Leitura Dinâmica anunciado no jornal. Um deles perguntou qual era a vantagem de ler cinco ou dez vezes mais depressa (era o que o curso prometia). O outro retrucou: “Quando você está lendo um livro, qual é a coisa que você mais quer saber?” O outro embatucou. Eu, que escutava ali por perto, também. O primeiro respondeu: “Ora, você quer saber o fim, quer saber como o livro acaba. E com a Leitura Dinâmica o livro acaba mais depressa”.

A digressão desagrada esse pessoal: os que querem que o livro acabe depressa. Esse tipo de leitor (a que eu chamo, quando estou de mau humor, “leitor americanizado”) tem uma visão utilitária da leitura, e quer maximizar a eficiência do ato leitoral. Quer ler cada vez mais depressa, consumindo cada vez mais palavras por minuto. E exige do autor que não fique enrolando, vá direto ao ponto, conte a história em linha reta, como uma seta em vôo instantâneo rumo à palavra “Fim”.

Cada um lê do jeito que lhe apraz, e não sou eu quem irá ensinar aos outros como viver. Mas os leitores como eu não querem que o livro acabe logo, não querem saber já como é o fim, a não ser quando a leitura é feita por obrigação profissional, para publicar uma resenha na semana que vem. 

Quando lemos por interesse próprio ou por prazer, não estamos disputando uma corrida de cem metros rasos. Avançamos no interior do livro como alguém que passeia numa cidade onde deverá passar os próximos dias: sabendo que não vai dar para ver tudo, sem pressa de conhecer todos os detalhes, caminhando meio ao acaso, sem lugar específico para ir e sem hora para lá chegar.

As digressões são como mudanças de rumo provocadas pelo impulso súbito de pegar um ônibus que parou ao nosso lado, ou de entrar por uma galeria de lojas que surgiu à nossa direita, ou de saltar do metrô numa estação desconhecida para saber o que existe ali em volta. 

Não há necessidade de caminhar em linha reta, rumo a um objetivo, porque tudo ali nos interessa igualmente. A digressão serve para abrir janelas, links de hipertexto, notas de pé de página. Traz temperos e sabores diferentes ao prato principal. 

O rei da digressão, Laurence Sterne, dizia que as digressões são “a luz do sol”. Elas não são a história que estamos lendo, não são a paisagem onde viajamos, são a luz que ilumina tudo aquilo e os torna reais aos nossos olhos.