sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

1495) O jogador pop (28.12.2007)


(Paulo César Caju)

Um repentista comentou comigo certa vez: “Tem três profissões onde a pessoa tem até os trinta anos pra ganhar dinheiro, porque depois disso é só prejuízo: jogador de futebol, cantador de viola e rapariga”. Existe uma verdade poética nessa frase, embora do ponto de vista factual não seja uma verdade científica. O autor dela, por exemplo, está hoje na casa dos 60, e provavelmente ganha mais do que quando a proferiu. Sobre as praticantes da “mais antiga das profissões”, não disponho de dados estatísticos. E no futebol a longevidade dos jogadores aumentou tremendamente. Nem me refiro a casos peculiares como o de Romário. O time do Milan, recente campeão mundial interclubes, é composto quase todos de trintões, sendo Kaká, aos 25 anos, quase um mascote.

Revi há pouco na TV um episódio da série “Futebol” dirigida por João Moreira Salles, enfocando o cotidiano do ex-jogador Paulo César “Caju”, que foi craque do Botafogo, Flamengo, Seleção Brasileira e muitos outros times. Paulo César foi um dos primeiros jogadores “pop”. Dirigia carros caríssimos, pintava o cabelo (daí o apelido “caju”), aparecia nas colunas sociais, falava francês, namorava modelos e socialites, dava entrevistas irreverentes onde dizia exatamente o que pensava. A imprensa, desacostumada com aquilo, vivia atrás dele. Não simpatizava muito com ele, porque era na época da ditadura. Paulo César, embora não fosse propriamente um jogador politizado ou questionador como seus contemporâneos Reinaldo, Afonsinho e outros, não abaixava a cabeça. Era o que já vi alguém chamar de “nego metido a branco”, expressão que descreve maravilhosamente o nosso racismo embutido.

Hoje em dia, dois terços dos jogadores de futebol são jogadores pop, ou seja, fazem tudo que Paulo César fazia: pintam o cabelo, dirigem BMW, namoram modelos, saem nas revistas. O que lhes falta, curiosamente – já que vivemos em plena democracia, onde qualquer um pode dizer o que pensa sem medo de ser preso ou perseguido – é a personalidade na hora de falar. O jogador típico de hoje é o robô disciplinado que fala somente em “seguir as instruções do ‘professor’ para trabalhar com determinação em busca do nosso objetivo que é a vitória”, ou o craque marrento, emproado, metido a besta (como Caju também era), mas que parece viver num Brasil virtual composto apenas de estádios, aeroportos e boates. Dou um no outro e não quero volta.

Numa época em que o jogador tinha de ser um cara discreto, vestido com simplicidade, sem esbanjamento, sem consumo conspícuo, Paulo César explodiu o modelo, tornou-se o contrário disto. Hoje em dia, o modelo é o que Paulo César criou, o jogador pop. Falta algum jogador no futebol de hoje que conteste esse modelo consumista, playboy, socialite. Até porque não são poucos os talentos futebolísticos que têm se deteriorado por essa obrigação de frequentar as boates da moda, os acontecimentos sociais, os coquetéis, os bailes, as capas de revistas

1494) O salto e a natação (27.12.2007)


A diferença entre um conto e um romance não é apenas o fato de que um é pequeno e o outro é grande. Diferença de escala determina também uma diferença de estrutura. Comparemos com a pintura. Um quadro com as dimensões aproximadas da Mona Lisa é feito para ser visto de uma certa distância, revelar certo nível de detalhe, produzir uma impressão específica. Quadros enormes como o Grito do Ipiranga de Pedro Américo ou as Bodas de Caná de Veronese pedem outro tipo de leitura. Contemplar “palmo em cima” um quadro como esses, ou como a Ronda Noturna de Rembrandt, equivale a ver uma sucessão de Monas Lisas justapostas como ladrilhos num mosaico, e precisamos de um recuo muito maior para ter a percepção do Todo.

O tamanho relativo de um quadro muda nossa relação espacial com ele, e no caso da obra escrita essa variação muda nossa relação com o Tempo. Histórias curtas sempre existiram, oriundas da literatura oral e das chamadas formas simples (a fábula, a lenda, etc.) – ou, numa classificação mais nossa, a anedota, a piada, o “causo” pitoresco. Estas formas, contudo, ao serem incorporadas à literatura escrita sofreram a inevitável interferência do temperamento pessoal de autores com mais recursos, que foram lhes dando outro perfil.

Edgar Allan Poe deve ter sido o primeiro (ou pelo menos o primeiro mais famoso) a formular uma regra essencial do conto moderno. Poe sugeriu que o conto deveria requerer, para sua leitura, “de meia-hora a uma ou duas horas”, e completou: “Durante a hora da leitura, a alma do leitor permanece submissa à vontade (do autor)”. Os melhores analistas da obra de Poe reconhecem aí uma das razões do impacto de seus contos, que estão completando mais de 150 anos de idade.

É o caso de Baudelaire, que ao comparar o conto e o romance destaca, no primeiro, a “unidade na impressão, na totalidade do efeito”. Baudelaire foi um dos primeiros a perceber a importância, nos contos de Poe, de uma escrita em que tudo conduz para um desfecho. A impressão que um conto desse tipo nos provoca deve ser una, inteira, contínua. O conto deve poder ser lido de uma assentada, sem interrupções, para que nada venha quebrar o encantamento com que o texto, frase por frase, obriga o leitor a ler a frase seguinte. Um conto é como um salto de trampolim numa piscina: um movimento rápido, intenso, indivisível, algo que transcorre no tempo mas cuja tensão interna nos produz a impressão de algo inteiro, algo já completo onde nada falta e nada sobra.

Já o romance não busca a intensidade, mas a extensão da experiência ao longo do tempo. Um romance é para a gente conviver, para nos fazer companhia durante dias. Ele não depende da impressão forte e momentânea, e sim do acúmulo de mil pequenas coisas que se sucedem e criam uma história que parece que não vai ter fim. (Talvez por isso as histórias de amor queiram se chamar “romances”.) Um conto é um salto de trampolim na piscina; um romance é uma travessia a nado.

1493) A Razão Cínica (26.12.2007)




A Razão Cínica consiste em dizer: “O mundo não presta, e é melhor você não prestar também”. Ela dá um diagnóstico pessimista sobre a qualidade moral do mundo, e procura tirar o melhor partido possível dessa situação. O cinismo pode ser necessário quando o indivíduo se vê em desvantagem e, para evitar um prejuízo ainda maior, abre mão, provisoriamente, de alguns escrúpulos. É um recurso extremo – como a violência, ou a fuga, ou a mentira. E, assim como elas, não pode ser um meio de vida. Serve para evitar um mal maior, mas não é norma de conduta de um sujeito que se preze.

“Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que nesta terra miserável vive entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”. O soneto de Augusto dos Anjos é um dos poemas mais dolorosamente cínicos de nossa literatura, ainda mais porque sabemos que ele expressa, com tamanho vigor e sinceridade, algo que Augusto não era. É um desabafo amargo, ressentido, revoltado, de alguém que perdeu a fé na humanidade à sua volta. O poeta assume um cinismo que não é seu, sugerindo a si próprio uma retaliação que jamais praticou. São “versos íntimos”, feitos de si para si mesmo, versos escritos para remendar um ego destroçado. Sabe-se lá qual foi a desilusão, entre as incontáveis que teve na vida, que levou o poeta a esse rompante de escárnio. Sabemos, contudo, pelos relatos dos que o conheceram, que sua atitude pessoal sempre foi o contrário disto.

“Versos Íntimos” é um monstro que Augusto extraiu de dentro de si para não tê-lo mais dentro de si. Como tantos monstros produzidos pelo sofrimento moral, veio carregado de uma revolta que tanto pode se transformar em fonte de ódio como em fonte de energia redentora. O cinismo pode ajudar a diminuir a dor num momento de crise, espezinhando aquilo ou aqueles que produziram essa dor. Quando associado, no entanto, aos momentos de triunfo, de auto-afirmação, de bem-estar, de Poder, o cinismo é o pior dos instrumentos.

A Razão Cinica insiste que todo o mundo é desonesto: “Venha! Junte-se a nós! Não seja otário, não fique aí parado!” Tenta nos fazer acreditar que de nada adianta lutarmos por uma causa perdida, ou insistirmos num trabalho que não faz sucesso, ou defendermos idéias que não dão resultado. Ela nos diz que numa negociação entre um egoísta (que só pensa em si) e um altruísta (que se preocupa com os outros) é matematicamente certo que o egoísta sairá ganhando, assim como um violento sempre ganhará num embate contra um não-violento. Um bom argumento contra isto é mostrar que se o número dos altruístas e dos não-violentos se multiplicar o bastante, suas chances de vitória aumentam proporcionalmente: são virtudes cujo poder está no coletivo. Esta é a idéia por trás das ideologias civilizatórias. A melhor maneira de eliminar a selvageria e a violência é diluindo-as numa maioria que rejeita o cinismo e defende um contrato social em que todos se respeitam e se apóiam mutuamente..


(Este texto está publicado no livro 78 Rotações, Natal, Editora Jovens Escribas, 2015.)




1492) “Enquanto houver Natal” (25.12.2007)


No mercado editorial norte-americano existe uma tradição, pouco frequente entre nós, de publicação de textos relativos ao Natal e a outras efemérides religiosas ou civis. São as chamadas “holiday anthologies”, e o lado mais divertido delas é ver de que maneira os escritores conseguem reunir o tema proposto e as convenções do gênero. Enquanto Houver Natal – oito estórias de ficção científica é uma antologia cujo título é auto-explicativo, e foi publicada em 1989 por Gumercindo Dórea em sua tradicional Editora GRD, de São Paulo. A GRD foi a principal editora de FC no Brasil na década de 1960. Ao mesmo tempo em que lançava para o grande público as obras de estréia de jovens desconhecidos como Rubem Fonseca e Nélida Piñon, a GRD publicava os melhores títulos da FC internacional, além de antologias e de coletâneas de autores brasileiros como Dinah Silveira de Queiroz e Fausto Cunha.

Meu conto preferido na antologia natalina é o de José dos Santos Fernandes, “Atendimento Domiciliar”, em que um grupo de viajantes no Tempo tem problemas técnicos e fica preso por algumas horas no passado remoto. O conto evita com habilidade qualquer indicação clara de que lugar é aquele, quem são aquelas pessoas. Os viajantes no Tempo são identificados por seus nomes (Prof. Franz, Dr. Armand, etc.), mas não temos idéia da região do planeta onde desceram. Um dos personagens, ao conferir seus cálculos, diz que estão a mais de 5 mil anos de sua própria época – o que nada revela. Mas quando a nave em que viajam (é uma nave espacial que viaja no Tempo) precisa pousar, o piloto diz: “Se eu usar os desaceleradores, nós vamos brilhar mais do que a lua cheia”. E em seguida “a nave riscou o céu noturno como uma estrela cadente de brilho jamais visto, indo descer no sopé de umas colinas, fora dos limites da cidade”.

Enquanto a nave é consertada, o médico e o historiador exploram o terreno em volta e acabam descobrindo uma gruta “sombria e abafada”, com “palha e capim espalhados por toda parte”, e onde, num cercado ao fundo, estão dois jumentos e um cavalo. Ao se aproximarem dali eles vêem um homem de meia idade sair correndo, rumo à cidadezinha; quando entram, percebem uma mulher muito jovem está em trabalho de parto, com risco de morrer. O cirurgião faz uma cesariana a laser e depois fecha a cicatriz, deixando-a imperceptível. E diz: “Ninguém jamais poderá dizer, nesta época, que ela foi operada e teve um filho”. Deixam o bebê com a mãe e, quando a nave fica pronta, embarcam de volta, e ainda têm tempo de ver um grupo de pastores e camponeses aproximando-se da gruta.

É um desses contos “à clef” da ficção científica, em que uma situação familiar ao leitor é descrita pelo ponto de vista de observadores externos, e a charada vai se resolvendo aos poucos. É também um tipo de conto em que o autor procura dar uma explicação científica, ainda que com elementos imaginários, aos milagres e aos mitos de nossa cultura.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1491) Mamute Morto Bom (23.12.2007)



Estávamos reunidos em nossa caverna paleolítica, os três anciãos da tribo: eu, Urgh e Humm. Como se sabe, cabe aos anciãos decidir o rumo das coisas, o evoluir dos usos e costumes. Não porque os anciãos sejam mais sábios. Mas porque os jovens da tribo estão muito ocupados – matando mamutes, acasalando, mascando ervas perigosas. Nós, os anciãos, ficamos na cavernas, examinando etimologias e definindo tecnicalidades.

Por exemplo: hoje um bando de jovens matou um mamute e inventou essa palavra para designar as criaturas peludas que nos cedem (um tanto a contragosto) sua alcatra, seu patinho e seu acém. “Ma-mu-te!”, ficaram eles cantando e pulando em volta da carcaça, enquanto as mulheres cortavam os bifes. “Ma-mu-te!” Isso inquietou os anciãos. Nossa linguagem monossilábica, consciente da necessidade evolutiva inerente a todas as atividades da Cultura, tem feito uma aproximação gradual rumo às palavras de duas sílabas. Mas os jovens – ah, os jovens! – são impacientes. Querem avançar demais, querem tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Começam com trissílabos, daqui a pouco estarão querendo proceder anticonstitucionalissimamente.

Reunimos o Conselho e decidimos: o nome do bicho é “mut”, e não mamute. Estão pensando o quê? Somos trogloditas mas aqui há normas, há princípios. Os jovens voltaram para a caverna enfarruscados, resmungando. Nessa noite ninguém acasalou – ficaram conferenciando junto à fogueira. Na manhã seguinte, uma delegação veio negociar uma proposta. “São três palavras”, explicaram. “Ma quer dizer mim. Mut quer dizer a carne. Te quer dizer para ti. Ou seja: eu estou oferecendo carne.” Fiquei encalacrado, porque na verdade quem decide tudo no Conselho dos Anciãos sou eu (tem um que só faz concordar, o outro só faz ficar em dúvida). “Não há precedentes, não há jurisprudência firmada”, argumentei. “Que história é essa de palavras significando relações? Palavras significam coisas. A gente aponta o indicador, emite uma sílaba, e todo mundo sabe a que estamos nos referindo. Foi sempre assim”.

Os jovens insistiram: “Mas precisamos de uma sintaxe, de partículas que indiquem finalidade, dependência, junção, posicionamento...” Fui canônico, fui radical: “Não! Nem vem! Não tem pra tu!” Retiraram-se fumaçando e no outro dia apareceu um Comando de Greve dizendo que “aqui ninguém caça mais, se quiserem comer peguem suas azagaias e vão à luta”. As mulheres, sempre nervosas, prorromperam em pranto. Depois de três dias com as barrigas roncando, chamei o restante do Conselho e marcamos nossa rodada de negociações para depois da caçada.

Por garantia, resolvemos ir junto (vai que os jovens resolvem cooptar o Mut!). Eu não me lembrava do tumulto que é uma caçada. Para resumir – foi tudo muito rápido. Quando a poeira baixou, os jovens gritavam: “Mamute Vivo Mau! Mamute Morto Bom!” Fui me aconselhar com Urgh e Humm mas parece que algo muito pesado tinha passado por cima deles.

1490) A arte da digressão (22.12.2007)




(Marcel Jean, Specter of the Gardenia)

Uma das críticas mais injustas que se pode fazer a um romance é censurar ao autor o uso de digressões. Uma digressão é um afastamento do assunto principal para contar uma história secundária, refletir sobre algum aspecto da vida ou do mundo, ou explicar algum detalhe acessório da narrativa enquanto a história principal fica esperando. 

Como tudo o mais na esfera da arte, tem gente que gosta e gente que não gosta. Eu sou dos que gostam, e vou explicar por quê.

Primeiro, uma pequena digressão. Quando eu tinha dezesseis anos, vi dois caras conversando sobre um curso de Leitura Dinâmica anunciado no jornal. Um deles perguntou qual era a vantagem de ler cinco ou dez vezes mais depressa (era o que o curso prometia). O outro retrucou: “Quando você está lendo um livro, qual é a coisa que você mais quer saber?” O outro embatucou. Eu, que escutava ali por perto, também. O primeiro respondeu: “Ora, você quer saber o fim, quer saber como o livro acaba. E com a Leitura Dinâmica o livro acaba mais depressa”.

A digressão desagrada esse pessoal: os que querem que o livro acabe depressa. Esse tipo de leitor (a que eu chamo, quando estou de mau humor, “leitor americanizado”) tem uma visão utilitária da leitura, e quer maximizar a eficiência do ato leitoral. Quer ler cada vez mais depressa, consumindo cada vez mais palavras por minuto. E exige do autor que não fique enrolando, vá direto ao ponto, conte a história em linha reta, como uma seta em vôo instantâneo rumo à palavra “Fim”.

Cada um lê do jeito que lhe apraz, e não sou eu quem irá ensinar aos outros como viver. Mas os leitores como eu não querem que o livro acabe logo, não querem saber já como é o fim, a não ser quando a leitura é feita por obrigação profissional, para publicar uma resenha na semana que vem. 

Quando lemos por interesse próprio ou por prazer, não estamos disputando uma corrida de cem metros rasos. Avançamos no interior do livro como alguém que passeia numa cidade onde deverá passar os próximos dias: sabendo que não vai dar para ver tudo, sem pressa de conhecer todos os detalhes, caminhando meio ao acaso, sem lugar específico para ir e sem hora para lá chegar.

As digressões são como mudanças de rumo provocadas pelo impulso súbito de pegar um ônibus que parou ao nosso lado, ou de entrar por uma galeria de lojas que surgiu à nossa direita, ou de saltar do metrô numa estação desconhecida para saber o que existe ali em volta. 

Não há necessidade de caminhar em linha reta, rumo a um objetivo, porque tudo ali nos interessa igualmente. A digressão serve para abrir janelas, links de hipertexto, notas de pé de página. Traz temperos e sabores diferentes ao prato principal. 

O rei da digressão, Laurence Sterne, dizia que as digressões são “a luz do sol”. Elas não são a história que estamos lendo, não são a paisagem onde viajamos, são a luz que ilumina tudo aquilo e os torna reais aos nossos olhos.








1489) Coincidências (21.12.2007)



(Salvador Dali, "A Retrospective Bust of a Woman")

Há pessoas que vêem na mais banal coincidência um sinal do Destino, uma mensagem mística para dizer-lhes que Alguém, num plano portentoso e sobrenatural, está velando por elas. 

Não precisa ser uma revolução total em suas vidas, como encontrar na calçada um bilhete premiado de Loteria. Bastam pequenos sinais. 

A costureirinha está sacolejando no ônibus, rumo ao trabalho. Fecha os olhos e lembra do namorado. Pensa: “Meu Deus! Será que ele gosta mesmo de mim? Me dê um sinal!...” Abre os olhos e vê pendurado na banca de revistas um DVD intitulado “Amor Sincero”. E considera isto uma resposta divina.

A jornalista Leonor Amarante me relatou um fato que foi direto para minha coleção de coincidências. 

Ela estava em Natal, organizando uma exposição de artes plásticas, sua área de atuação. Conheceu um artista chamado Guaracy Gabriel, os dois trocaram telefones e ficaram de se ligar. Dias depois, no hotel em que estava, ela ligou para o número do artista. Acontece que ela tinha anotado erradamente o número, como percebeu depois; tinha trocado um ou outro algarismo.

A ligação foi atendida e ela perguntou: “É da residência (ou do ateliê) de Guaracy Gabriel?” 

O sujeito que atendeu disse: “Não senhora, isto aqui é um orelhão, na rua tal”. 

Ela disse: “Eu estou ligando para esse número porque quem me deu foi essa pessoa, dizendo que era o da casa dele”. 

O cara do outro lado disse: “Não, é um telefone público, mas... a senhora disse que estava ligando para Guaracy Gabriel, o artista?” 

“Sim, para ele mesmo” 

“Um momento... Ei! Guaracy! Telefone pra você!”

Ou seja, a ligação errada caiu num telefone público, foi atendida por alguém que conhecia a pessoa para quem ela estava ligando, e ainda por cima o destinatário da ligação estava passando por acaso justamente ali, naquele momento! 

Calculadoras em punho, amigos: quais são as chances matemáticas de uma coisa assim acontecer? Minha vontade é traduzir esta história para o inglês e remetê-la para Alan Vaughan, autor do interessante livro Incredible Coincidence, repleto de ocorrências tão estranhas quanto esta, e até mais.

O caso de Leonor se parece com outro que achei na Internet. Em 1953 o jornalista Irv Kupcinet foi fazer uma reportagem em Londres. No quarto do Hotel Savoy, onde se hospedou, encontrou alguns objetos pessoais esquecidos por outro hóspede. Examinando-os, descobriu que seu dono era Harry Hannin, um jogador de basquete que fazia parte da famosa equipe dos Harlem Globetrotters, os quais viajavam pelo mundo inteiro fazendo jogos-exibições. 

Kupcinet, que conhecia Hannin pessoalmente, guardou os objetos para devolvê-los quando encontrasse o amigo. 

Dois dias depois, recebeu uma carta de Hannin. Ele dizia que tinha se hospedado no Hotel Meurice, em Paris, e no quarto em que ficou lá tinha encontrado uma gravata com o nome de Kupcinet bordado – que o próprio havia esquecido ali, antes de ir para Londres. Se não é verdadeiro, é bem inventado.




1488) A doce pornografia (20.12.2007)


(Doll, de Hans Bellmer)

Carlos Drummond já dizia: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos... Por que seremos mais castos que nosso avô português?”. A pornografia é a mais incompreendida das artes, até porque quando usamos este termo estamos nos referindo à Pornografia do Sexo, às artes voltadas para a descrição dos atos sexuais. Ora, existe também a Pornografia da Violência, hoje em dia tão em moda no cinema e nos videogames. Existe a Pornografia da Afetividade – os livrinhos e fotonovelas de amor destinados às jovenzinhas e às donas-de-casa. Existe a Pornografia da Política, mais conhecida como “o romance engajado”, aquele em que todas as relações humanas são reinterpretadas em função da luta de classes e da ascensão do proletariado. Pornografia é qualquer arte que bate o tempo inteiro numa única tecla, numa única nota.

A Pornografia do Sexo parece ser mais antiga que todas estas, e nas bibliotecas tradicionais era confinada a um setor chamado “O Inferno”, ao qual só tinham acesso leitores autorizados. (Uma interessante metáfora do próprio sexo, ou seja, a genitália humana sendo uma parte a que só têm acesso pessoas autorizadas pelo Estado e pela Igreja, através do casamento civil e religioso.) A Biblioteca Nacional de Paris está abrindo neste mês de dezembro (até 2 de março) uma exposição intitulada L’Enfer de la Bibliothèque - Éros au secret, organizada por Marie-Françoise ­Quignard e Raymond-Josué ­Seckel, na qual estão expostas mais de 350 obras, entre livros, fotos e gravuras, que fazem parte desse acervo proibido. Ali estão autores obscuros dos séculos 18 e 19, além dos inevitáveis Georges Bataille, Jean Genêt, Guillaume Apollinaire e o Marquês de Sade (do qual está em exibição o manuscrito original de Justine, ou Os Infortúnios da Virtude). Baixem o catálogo aqui: http://www.bnf.fr/pages/catalog/rtf/enfer.rtf.

A mostra conta com um interessante recurso publicitário: uma estação desativada do metrô (Croix Rouge, na linha 10) está sendo usada como vitrine: o trem não pára ali, mas ao passar por ela os passageiros a verão iluminada e cheia de cartazes e reproduções de obras, convidando o público a comparecer à Bibliothèque. A exposição é proibida para menores de 16 anos, o que levou os jornalistas do websaite The Literary Salon a afirmar que “a proibição é apenas um truque dos bibliotecários para atrair a atenção dos garotos e fazê-los pensar que os livros podem ter algo interessante para oferecer”.

Resta uma questão. Uma exposição assim prova que, finalmente, a cultura ocidental conseguiu chegar a um acordo com o erotismo e a sexualidade, e não mais considera essas obras transgressoras como uma ameaça? Ou significa que a pornografia (principalmente após o excesso de oferta na Internet) invadiu o mundo como um exército de bilhões de cupins triunfantes, e que não há outro recurso senão depor as armas e render-se ao seu poder? Quem puder ir a Paris, dê uma olhada e me informe.

1487) O Número da Besta (19.12.2007)




Escândalos científicos sacolejam de vez em quando a comunidade acadêmica, quando se descobre que a pesquisa do Professor Tal foi falsificada para corresponder aos resultados de sua hipótese. O sujeito mexe uma vírgula pra cá, adiciona um zero onde ele estava faltando, valoriza resultados próximos ao que ele esperava, descarta resultados incômodos... 

Se isto se faz no vigiadíssimo e desconfiado ambiente científico, o que dizer do ambiente místico-esotérico, onde os mecanismos de vigilância são meramente espirituais?

Não sou um grande leitor, mas sou um bom folheador de livros. Quando eu tinha dez anos estava tentando ler Guerra e Paz de Tolstoi, porque eu gostava de qualquer história que contivesse batalhas, espaldeiradas e tiroteios. 

Não li o livro até hoje, mas lembro que a edição brasileira daquela época era em dois volumes – eu imaginava que o primeiro descrevia a guerra, o segundo a paz. 

A certa altura, havia algumas páginas cheias de cálculos numéricos que me chamaram a atenção. O personagem Pierre Bezukhov (ou “Bésuhoff”, na grafia francesa) está se divertindo com cálculos numerológicos para descobrir quem será, naquela época belicosa de princípios do século 19, a Besta do Apocalipse.

Pierre pega uma tabela de correspondências alfanuméricas (A=1, B=2, etc., e em seguida K=20, L=30, M=40 – algo assim). E começa a escrever nomes próprios e somar seus valores numéricos, para ver se acha 666, que, como sabe até quem não leu a Bíblia, é o número da Besta. 

Pierre é um cara culto e usa o idioma culto da época, que é francês. E a certa altura ele escreve: “L’Empereur Napoléon”, soma os números... e obtém 666. Aquilo lhe dá um calafrio de descoberta e de premonição, porque a Rússia está justamente em guerra contra o imperador francês.

Ele imagina (se bem me lembro) que o povo ou a pessoa destinada a derrotar Napoleão deverá ter uma soma numérica equivalente. Repete o cálculo com seu próprio nome, mas a soma é muito grande ou muito pequena. 

Depois de tentar algumas combinações, ele tenta: “Le russe Bésuhoff”, e o resultado é 671. Uma diferença de 5 pontos a mais sobre o resultado pretendido. Ora, 5 é o valor da letra “E”, que havia sofrido elisão na expressão “l’empereur”. Quando ele refaz o processo, mesmo violando as regras da gramática, a expressão “L’russe Bésuhoff” soma 666. E ele considera isto uma prova de que seu destino é derrotar a Besta.

Esta é uma típica experiência em que o experimentador vai tentando incontáveis coisas e descartando todos os resultados que não lhe interessam. 

E quando obtém um resultado parcialmente interessante, ele faz pequenas adaptações pouco ortodoxas até que “a conta feche sem deixar resto”. 

(Este artigo não tem como tema a Bíblia, o Apocalipse, as Guerras Napoleônicas ou a obra de Tolstoi; o tema deste artigo é: “Quando alguém, mesmo um cientista, precisa muito encontrar um resultado, acaba convencendo a si próprio de que encontrou”.)






quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

1486) Zeca tuas ventas (18.12.2007)



A cervejaria Brahma está se excedendo na própria falta de assunto e de idéias. Tempos atrás tentou inventar uma moda – que não pegou nem vai pegar – de mudar o nome da “quarta-feira” para “zeca-feira”, sendo Zeca, no caso, uma alusão a Zeca Pagodinho. A quarta seria o dia de Zeca – o dia de tomar cerveja. Agora, inventaram outra – que não vai pegar, nem pegou – de chamar a “happy hour” (aquela saidazinha com os amigos após o expediente) de “Zeca hora”. Eu estou com vontade de fazer uma aposta. Cada vez que eu ouvir alguém chamando espontaneamente a quarta-feira de zeca-feira, ou uma “happy hour” de zeca-hora, eu passo um dia inteiro sem beber cerveja.

Vamos examinar esse papo de zeca-hora, o que está indo ao ar. Começa com uma suposta boa intenção, a de substituir por uma expressão em português mais uma dessas coisas que dizemos em inglês para bancar os cosmopolitas e nos diferenciarmos da plebe rude que não sabe pronunciar essas coisas. Na hora de trocar “happy hour” por alguma coisa, a propaganda escorrega quando a traduz por “hora alegre”. Não é, amigos. “Happy hour” quer dizer “hora feliz”, o que não é a mesma coisa. Alegria é quando estamos satisfeitos, eufóricos, mas com a consciência de que se trata de um momento passageiro. Felicidade é quando estamos na mesma situação mas pensamos que esse estado vai perdurar indefinidamente. Para resumir: a gente diz que “está alegre” e diz que “é feliz”.

Traduziram errado – mas não por ignorância, visto que todo publicitário brasileiro é alfabetizado em inglês, e só aprende a língua de Zeca Pagodinho para se comunicar com os nativos. É porque “hora feliz” não lhes proporcionaria o duplo sentido que “hora alegre” proporciona, e que eles exploram no anúncio, sugerindo que “hora alegre” é coisa de homossexual.

Por que? Ora, porque a palavra “gay”, antes de designar homossexual, era um inofensivo adjetivo que significava “alegre”. O uso foi se desviando desde o século 19 para indicar promiscuidade e vida dissipada (“gay house” era bordel, assim como chamamos as prostitutas de “mulheres de vida alegre, ou vida airada”). O uso moderno de “gay” como substantivo indicando um homossexual masculino é da década de 1970, e tem contaminado em retrospecto muitos textos antigos, principalmente letras de músicas, em que o sujeito cantava “Oh, today I am so gay...” ou coisas que o valham. (A palavra vem do francês “gai”, alegre, e é um adjetivo de pouco uso em português, vide “A gaia ciência”, tradução do livro de Nietzsche, ou “A ingaia ciência”, poema de Drummond)

Vai daí que os publicitários da Brahma, querendo combater a expressão “happy hour”, não tiveram como questionar “hora feliz” e inventaram que é “hora alegre”, para nos ameaçar com a pecha de homossexual e nos impingir esse desajeitadíssimo “zeca-hora”. É por essas besteiras e outras que um inglesismo como “happy hour” tem tudo para se fixar em nosso idioma nos próximos cem anos. Zeca-hora o quê, rapaz.