sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

1449) “Nighthawks” (4.11.2007)


Uma esquina deserta, de madrugada, num cruzamento de ruas estreitas onde todas as lojas estão fechadas e às escuras. Ocupando o centro e o lado direito do quadro, um café iluminado por luzes fluorescentes. Através das vidraças altas e extensas, vemos o balcão de madeira com banquinhos redondos enfileirados. Apenas quatro pessoas estão ali. Dentro do balcão, um barman com uniforme e bonezinho branco está curvado, aparentemente lavando algo na pia. Diante dele, um homem de terno escuro e chapéu cinza e uma mulher alva, ruiva, de vestido vermelho. Na outra lateral do balcão, de costas para o observador, vê-se outro homem, também de terno e chapéu.

O quadro é “Nighthawks” (algo como “Predadores, ou Aves de Rapina Noturnas”), e foi pintado em 1942 por Edward Hopper, homenageado agora em Nova York com uma retrospectiva. A obra de Hopper é numerosa e variada, e este quadro sempre me fascinou. Somente quem já “fez a noite”, quem se deu o trabalho de passar madrugadas inteiras andando a pé pelo centro velho de uma cidade, tomando uma cerveja aqui, um café acolá, e puxando papo com os boêmios da madruga, pode entender o fascínio e o mistério desta cena. (Que pode ser vista em: http://www.artchive.com/artchive/H/hopper/nighthwk.jpg.html).

Já vi todo tipo de interpretação. Para Fulano, o quadro mostra um café aconchegante, onde as pessoas encontram calor humano e simpatia na presença de meros estranhos. Para Sicrano, mostra a solidão desesperadora das grandes cidades, com pessoas taciturnas e depressivas evitando os olhares umas das outras. Para Beltrano, mostra o deflagrar de um triângulo amoroso que redundará em crime, com o barman servindo de testemunha involuntária e indiferente. Análises freudianas se basearam no fato de que Hopper pintou o casal usando como modelos ele mesmo e sua esposa. Também sugerem que o homem de costas é um Duplo, um “Doppelgänger” do outro. Ele é livre, solteiro, altivo, enquanto o outro, tenso e carrancudo, está visivelmente num beco-sem-saída conjugal.

Quando ainda não lhe sabia o título, batizei este quadro de Deadline at Dawn (“Prazo-limite ao amanhecer”), título de um livro policial de Cornell Woolrich (1944, sob o pseudônimo de William Irish) que transcorre entre a meia-noite e a aurora, em Nova York. Um homem conhece uma mulher num night-club. Os dois descobrem que são da mesma cidade do interior e que detestam Nova York. Apaixonam-se, e decidem voltar no primeiro trem da manhã para a terra natal. Mas ele se envolve num crime, é perseguido pela polícia e tem até o amanhecer para descobrir o assassino e provar sua inocência. Os dois saem pela cidade, numa corrida contra o relógio, percorrendo bares, cafés, em busca de pistas.

Na madrugada, as pessoas de bem estão dormindo: os pais de família, as donas de casa, os velhos, as crianças. A madrugada é dos predadores e daqueles que não os temem. Só sai à rua quem tem negócio, ou quem está à procura do improvável.

1448) O soneto anagrama (3.11.2007)





(o quadro de Leutze)

A intersecção da Literatura com os quebra-cabeças (jogos em que uma regra arbitrária precisa ser seguida à risca) nos dá os palíndromos, os lipogramas e outros barroquismos já comentados nesta coluna. 

Folheando o magnífico livro de Douglas Hofstadter Le Ton Beau de Marot (New York: Basic Books, 1997), que examina problemas abstrusos de linguagem e tradução, encontrei um soneto de um tal David Shulman, intitulado “Washington Crossing the Delaware”. O título alude a uma famosa pintura a óleo de E. G. Leutze que retrata um momento da Guerra da Independência norte-americana em 1776, quando George Washington cruzou com suas tropas o Rio Delaware para pegar de surpresa as tropas britânicas.

Não transcreverei aqui o soneto inteiro. Para ilustrar minha tese (que é a mesma de Hofstadter) basta-me o primeiro quarteto, que assim diz: 

A hard, howling, tossing water scene: 
strong tide was washing hero clean. 
‘How cold!’ Weather stings as in anger 
O silent night shows war ace danger!

Os versos dizem algo como: 

Uma cena fluvial árdua, cheia de uivos e de agitação: 
uma poderosa maré lavando por inteiro o herói. 
‘Que frio!’ O tempo dá agulhadas, como que furioso. 
Oh, noite silenciosa, que mostra ao ás da guerra o perigo! 

Não boto a mão no fogo por esta tradução, porque o texto original me parece truncado, sem beleza. (Quem quiser o soneto todo é só pedir.)

Mas... Faça uma pausa, amigo. Confira as letras de cada verso, e perceba que cada uma das quatro linhas citadas acima é um anagrama perfeito (ou seja, contém exatamente as mesmas 29 letras, inclusive as repetições) do título do soneto. 

E o soneto todo é assim: suas catorze linhas são catorze anagramas do próprio título, e conseqüentemente todas são anagramas umas das outras. E o soneto inteiro retrata, de maneira aceitável, a cena descrita. É aquilo que os franceses chamam de “tour de force”, uma demonstração fenomenal de habilidade.

Isto é poesia? Não sei. Tecnicamente é, pois se trata de um soneto que obedece às regras básicas da forma, ainda que não seja um grande soneto, ou sequer um bom soneto. 

Coloca uma questão curiosa: um péssimo poema é poesia? O que define a presença da poesia: a presença de um conjunto de regras, ou a qualidade literária do resultado? 

O texto de Shulman pertence a uma zona intermediária entre a literatura e o que eu chamo de “ludismo verbal”, que inclui desde os travalínguas dos repentistas até os caligramas (poemas cujas palavras criam um desenho na página) dos poetas barrocos portugueses ou de Guillaume Apollinaire.

A façanha de Shulman talvez só seja possível numa língua como o inglês, mais monossilábica que a nossa. Duvido que alguém consiga compor em português um soneto com quinze anagramas (título mais catorze versos) que faça um mínimo de sentido. 

(Pronto, já sei que acabo de atrapalhar a vida de meia dúzia de malucos, os quais de agora em diante se dedicarão a provar que é possível, sim.)





1447) A Copa de 2014 (2.11.2007)



Liguei a TV para acompanhar a confirmação do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014, e fiquei entusiasmado. Na delegação que representava nosso país estavam o presidente Lula, o presidente da CBF Ricardo Teixeira, o técnico Dunga, o craque Romário... e o mago Paulo Coelho! Agora sim, eu fico confiante. Com Paulo Coelho na comissão técnica, duvido que alguém nos tire esse título.

Mas, futebol à parte, eu desconfio desses mega-eventos. Primeiro, acho que essa história de construir ou reformar uma dúzia de estádios acaba resultando na costumeira festança das empreiteiras e dos atravessadores. Um estádio de 50 milhões acaba custando 100, porque outros cinqüenta têm de ser empregados no pedágio da burocracia, onde cada trâmite de processo, cada liberação de verbas, cada rubrica de fiscalização tem que ser comprada a peso de ouro. Copa do Mundo no Brasil é uma excelente notícia para esse pessoal. Agora mesmo tive de ir fechar a janela da sala, devido ao ruído ensurdecedor das rolhas de champanha de mil reais a garrafa pipocando Brasil afora.

Em segundo lugar, a enxurrada de turistas endinheirados que aflui para um evento desse porte é uma tentação irresistível para nosso submundo. Lembram as matérias mostrando como as casas de prostituição proliferaram na Alemanha durante a Copa do ano passado? Se é assim na pátria de Lutero, avalie como vai ser aqui, na pátria de Bruna Surfistinha. E olhem que estou falando no lado (digamos) inofensivo do problema. Se a gente extrapolar essa situação para o âmbito dos traficantes e vendedores de drogas, dos batedores de carteiras, dos assaltantes a mão armada, dos gatunos de hotel, das quadrilhas de seqüestro-relâmpago... É um pouco como fazer uma maratona de natação para dez mil participantes na praia de Boa Viagem. Os tubarões agradecem.

Voltando ao aspecto futebolístico, a Copa vir para cá em 2014 nos traz uma boa e uma má notícia. A boa notícia é que dificilmente perderemos o título, mesmo jogando sob a sombra tenebrosa dos fiascos de 1950 e de 2006. A má notícia é que a Copa de 2010 já está perdida por antecipação, porque, resultados no campo à parte, existe um sutil direcionamento nessas disputas “aconselhando” Fulano a perder agora para ganhar depois. Os leitores mais ligados hão de recordar que previ, nesta coluna, que nossa Seleção perderia em 2006 e 2010 caso tivesse chances de sediar a Copa em 2014. A primeira parte da minha profecia já se cumpriu, de maneira inesperada até para mim: uma das seleções mais “galácticas” que já montamos entregou o ouro aos bandidos, de mão beijada. Como, e por quê? Fiquei sabendo hoje.

Se o Brasil se distanciasse muito no número de títulos, a disputa perderia a graça. Antes de 2006 tínhamos cinco títulos, contra três da Itália e três da Alemanha. A Itália subiu para quatro. Profetizo que a Alemanha ganhará a próxima, mas que no Maracanã ninguém nos tira o título, a não ser que algum adversário escale Obdulio Varela.

1446) A economia de Zinaldo (1.11.2007)


Eu comparo o Capitalismo Selvagem a uma floresta tropical, onde florescem as espécies animais e vegetais mais improváveis. O Capitalismo é aquela “selva selvaggia” lembrada por Dante, em cujo interior um poeta extraviado acaba encontrando o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Ou seja: tem de tudo. Com a Divina Comédia, o poeta de Florença inculcou na nossa cultura o interessante conceito de que o Paraíso existe, mas para chegar a ele é preciso passar pelo Inferno. Tem gente que, por medo desse estágio intermediário, acaba recuando e refugiando-se no limbo do ateísmo. Questão de escolha.

Vejam o que é escrever de improviso – eu fico falando em Dante Alighieri quando meu propósito era falar sobre Zinaldo, que estudou comigo no Estadual da Prata e a quem encontro vez por outra quando retorno a Campina. Zinaldo está hoje mais gordo e menos grisalho do que eu. Sempre de bom humor, freqüenta o Miúra nos fins de semana e o Chope do Alemão após o expediente na repartição pública onde bate ponto. Ganha pouco, sustenta mulher e três filhos, e vive numa economia na ponta do lápis, uma balança de ourives capaz de registrar a entrada ou a saída de cada centavo.

Zinaldo é chamado pelos amigos de “amarrado”, “unha-de-fome”. Dizem que se ele agarrar um Alka-Seltzer e pular numa piscina o comprimido não corre o menor risco, porque ele não abre a mão nem por um decreto. Usa há dez anos as mesmas camisas e os mesmos sapatos. Quando chega a conta no bar, diz: “Vou pagar uma cerveja...” e os amigos pagam o resto, porque o adoram. No aniversário de sua mãe, Dona Zilda, leva-a ao shopping e paga-lhe uma banana-split.
Acontece que Zinaldo, vivendo nessa corda-bamba financeira, não resiste a uma liquidação. Quando vê uma dessas vitrines anglófilas anunciando: “SALE – 50%!!!” ele entra de imediato e compra um cinto, uma meia. Pega livros em bibliotecas e os xeroca, porque sai mais barato que comprar o livro. Copia todos os DVDs das locadoras, porque sai mais barato pagar 1 real no DVD virgem do que 20 ou 30 no filme propriamente dito. Promoção é com ele mesmo. Quando aparece na Internet uma campanha de passagem aérea “por 50 reais” ele parcela em doze vezes no cartão uma passagem para Foz do Iguaçu ou para a serra gaúcha, viagens que não estavam nos seus planos. Tudo para fazer economia.

Na última vez em que bebemos juntos, no Ceboleiro, Zinaldo pegou um guardanapo e me fez um retrato aterrorizante de sua situação financeira. Ponderei que ele acabava gastando mais do que devia, seduzido pela possibilidade de estar gastando pouco. Disse-lhe que quando um produto de 200 reais é oferecido por 50 é porque deve ter custado 30, e o lojista abriu mão do lucro delirante para garantir uma margem mais realista. Disse-lhe que esse Capitalismo acha mais prático tirar um real de 50 milhões de pessoas do que 50 milhões de reais de uma pessoa só. Zinaldo não entendeu. Ou não acreditou.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

1445) A tecnologia dos corvos (31.10.2007)


A revista Science publicou uma pesquisa feita por cientistas da Universidade de Oxford na Nova Caledônia (Oceano Pacífico), investigando os hábitos alimentares de uma espécie de corvo. Segundo eles, os corvos são capazes de fabricar e guardar instrumentos rústicos que os auxiliam na busca de alimento. A pesquisa foi feita com o auxílio de uma câmara digital minúscula presa ao corpo da ave, que depois é solta na floresta e algum tempo depois capturada de novo. Isto dá aos pesquisadores acesso visual a atividades impossíveis de reproduzir em laboratório: um corvo buscando comida em seu habitat natural.

Descobriu-se que os corvos arrancam pequenos galhos, cortam fora as partes excedentes e depois os dobram para introduzi-los no ocos das árvores, conseguindo assim capturar lagartas e larvas de besouros. Também costumam procurar e curvar pequenos pedaços de arame com o mesmo fim. Quando uma dessas ferramentas se mostra útil, os corvos as guardam num lugar protegido e recorrem a elas sempre que precisam.

Eu já vi, em documentários da TV, aves pegando com o bico um graveto e introduzindo-o num oco de árvore para fisgar uma lagarta ou outra iguaria do cardápio ornitológico. Para mim, isto é uma fagulha civilizatória semelhante à cena de 2001, uma Odisséia no Espaço em que o macaco percebe que empunhando um osso pode rachar com mais facilidade o crânio de uma caça ou de um inimigo.

Mas isto envolve apenas o uso momentâneo de um “ready made”, de algo que já está ali, e que precisa apenas ter sua função deslocada. A fabricação de instrumentos é diferente, porque envolve uma capacidade de abstração de fases sucessivas do pensamento, coisa que os animais não têm. O ser humano olha para um “objeto selvagem” (fase 1) e percebe se se produzir nele tais ou tais modificações (fase 2) poderá transformá-lo em algo que servirá para alcançar um alimento de difícil acesso (fase 3).

É esta capacidade de ver o que não está diante de si e de concatenar fases sucessivas de um processo que distingue o homem dos animais. Se os corvos desbastam pequenos ramos para introduzi-los em orifícios, e se depois de usados eles os guardam para usar de novo noutro dia, isto indica uma possibilidade de lidar com dois tempos, o tempo do aqui-e-agora e o tempo em que esse aqui-e-agora, com seus possíveis problemas e suas possíveis soluções, irá se apresentar de novo. Fala-se muito da importância da mão do “Homo Faber”, o Homem Fabricador, da importância do “polegar oposto” como elemento civilizatório, porque permite empunhar objetos com firmeza. Mas para mim o mais importante é a refração da noção de tempo que ocorre no cérebro, quando o Homem (ou o Corvo) é capaz de concatenar espaços e tempos diferentes numa seqüência pragmática: “Isso que estou fazendo agora eu já fiz, já deu certo no passado, portanto preciso mantê-lo para usar de novo quando precisar”. Daí para a Bomba Atômica e a Internet é só uma questão de tempo.

1444) O ponto enigmático (30.10.2007)


Existem dois tipos de narrativas de mistério. O primeiro obedece ao que eu chamo de Protocolo da Resposta. Nestas histórias, um mistério é proposto no início, e esclarecido no final. O prazer estético resulta da comparação entre a complexidade do mistério e a engenhosidade da solução. O segundo tipo obedece ao Protocolo da Pergunta. Nele, o mistério é exposto mas não é resolvido no final; a narrativa se encerra com a pergunta ainda no ar. Nestas histórias, o prazer estético resulta da tensão não-resolvida e da possibilidade de inesgotáveis leituras posteriores. Um dos maiores equívocos dos leitores e dos críticos é julgar os méritos de uma obra que obedece ao protocolo A pelos critérios do protocolo B, e vice-versa.

Eu aprecio por igual os dois tipos. Me formei como cinéfilo numa época em que o Protocolo da Pergunta reinava soberano. A gente não ia ao cinema para buscar respostas, mas para compartilhar indagações. E, curiosamente, esses mistérios sem solução não nos deixavam nervosos, impacientes, irritados. Pelo contrário, eram fonte de fascinação intensa e faziam com que esses filmes virassem companheiros de viagem. De vez em quando voltávamos a eles, para ver se tinham algo novo a nos dizer, e sempre, tinham – mesmo que nunca fosse A Resposta.

Em A Aventura de Antonioni nunca ficamos sabendo se a moça desaparecida na ilha deserta morreu, fugiu, ou o quê. Em O Ano Passado em Marienbad de Resnais nunca ficamos sabendo se aquele casal realmente tinha tido um caso amoroso no ano anterior (como insistia em afirmar o homem) ou se os dois não se conheciam (como insistia a mulher). Em Blow Up de Antonioni nunca ficamos sabendo quem era o homem cujo cadáver o fotógrafo registrou sem querer num parque, quem o matou, por quê, e até mesmo se de fato houve crime. Em O Anjo Exterminador de Buñuel nunca sabemos que força fez aquele grupo de milionários ficarem impedidos de sair da sala onde acabaram de se reunir.

Isto tem a ver, claro, com a literatura da mesma época. Em Os Prêmios de Cortázar nunca sabemos por que motivo os passageiros do navio são proibidos de acessar certas áreas do mesmo. Nos livros de Kafka, nunca ficamos sabendo por que motivo Joseph K foi preso, por que motivo o Conde de West-West não recebe o agrimensor em seu Castelo.

Cada história destas tem no centro um Ponto Enigmático, um vazio que não pode ser preenchido por explicações. As explicações são criadas, ajustam-se provisoriamente a ele, mas não o anulam. A fascinação do mistério, a possibilidade de lidar com coisas incompreensíveis, é um dos impulsos que nos aproximam das obras de arte e das grandes narrativas. Daí, talvez, o sucesso de séries como Arquivo X (que acompanhei por muitos anos) e Lost (que infelizmente nunca assisti). Nunca temos acesso a uma visão geral do que está acontecendo, e essa tensão entre a necessidade e a impossibilidade de “saber tudo” gera nos espectadores algo que é parecido com o amor.

1443) As sete maravilhas de Campina (28.10.2007)




A cultura de massas é um efeito-cascata de modismos. Aconteceu este ano a escolha das “Sete Maravilhas do Mundo”, entre as quais ficou o nosso Cristo Redentor. Depois, o Rio de Janeiro promoveu a eleição das sete maravilhas do Estado. Agora, é Pernambuco que está escolhendo suas sete maravilhas, numa lista onde aparecem a praia de Porto de Galinhas, o Alto da Sé de Olinda, as pontes do Capibaribe, etc e tal. 

Antes que a coisa comece a degenerar em farsa e paródia, que tal fazermos um concurso para as Sete Maravilhas de Campina? Não apenas os nossos monumentos históricos, nossas belezas arquitetônicas, mas aqueles lugares que parecem encerrar em si a essência local. Sendo assim, aqui vão meus votos.

Para começar: o Açude Velho. Nada mais parecido com Campina, principalmente o Açude Velho ao anoitecer, refletindo as luzes dos prédios por entre o violeta sangüíneo do crepúsculo. Espelho maior das nossas histórias, e ainda por cima guardando a virtude mágica de enfeitiçar para sempre o estrangeiro desavisado que beber da sua água. 



Depois, o conjunto formado pela Praça da Bandeira e o prédio dos Correios, pelo seu valor arquitetônico e também por me recordar sempre os momentos emocionantes pré-Internet em que subi aqueles degraus para comprar livros vindos pelo Reembolso Postal, fossem aventuras de Sherlock Holmes em 1960 ou contos de Borges em espanhol em 1974. 



Em termos de arquitetura, tomo outra decisão salomônica: tombar por conta própria toda a Rua Maciel Pinheiro com seus sobrados e sacadas “art-déco”, aos quais nunca dei muito valor porque sempre achei que todos os prédios do mundo se pareciam aos nossos. Depois fiquei sabendo que somos raros e preciosos – vejam só o que é a vida.



Em quarto lugar permitam-me a inclusão do Estádio Presidente Vargas, por motivos históricos, poéticos e freudianos, porque ali tive as mais intensas alegrias e os mais abismais desesperos de minha ainda curta vida. 



Em quinto, o Seminário do Alto Branco. Não estranhem, mas passei 20 anos da minha vida vendo-o erguer-se à esquerda da paisagem divisada do terraço de minha casa paterna, e para mim ele sempre foi uma entidade misteriosa e medieval, guardadora de sabedoria e transcendência. 



Em sexto, eu destacaria o Colégio Estadual da Prata, o inesquecível “Gigantão” que me ensinou a vida dos 13 aos 19 anos, e cuja organização arquitetônica trago nítida e intacta na memória, sala por sala.



E para fechar eu elejo a Rodoviária velha, na Praça Lauritzen, hoje transformada em mercado popular. É um símbolo da vocação de Campina para o varejão, o mercadinho, o vuco-vuco; e foi durante décadas o lugar dos abraços, das despedidas e dos reencontros dos milhares de “paraíbas” que partiam para o Sul cheios de esperança ou dele voltavam cheios de experiência. 



Pois é. Nada de jardins suspensos, nada de obras faraônicas... Mas cada povo tem as maravilhas que lhe cabem, e eu me orgulho das minhas.





segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

1442) Referências literárias (27.10.2007)




“Quais as referências literárias da sua escrita?” A resposta que damos a esta pergunta revela mais sobre nossas fantasias do que sobre nossa prática. 

Vejo muitos poetas jovens sendo entrevistados, mercê da publicação de seu primeiro livro, e quando lhes perguntam suas referências literárias, ou os autores que os influenciaram, abrem um leque impressionante: “Fui muito influenciado por Dante, Homero, Camões, Garcia Lorca, Pablo Neruda, Rimbaud, Baudelaire, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral e Mário Quintana”. Eu tenho vontade de cair ajoelhado no chão e gritar: “Caramuru! Caramuru!”

Será possível que um único poeta consiga ter influência simultânea de tanta gente, e de gente tão diferente entre si? Duvido muito. 

Quando o jovem poeta confessa que leu esse pessoal está afirmando que sentiu-se emocionado e transformado pelo que leu, e que ao escrever tem a ambição íntima de causar nos seus futuros leitores o mesmo tipo de emoção e de transformação. 

É a isto que ele chama “influência” – o fato de que a leitura daqueles autores o modificou pra sempre.

A palavra influência nos induz a pensar em ascendência, poder. É a pressão de uma personalidade mais forte sobre uma mais fraca, dizendo-lhe o que dizer, e como. Mesmo ausente, mesmo manifestando-se apenas através da obra, a personalidade mais forte encontra pouca resistência naquele espírito geralmente jovem, ávido de experiências, ansioso para dizer algo mas sem saber o quê e como. 

O jovem leitor de Baudelaire torna-se um psicógrafo de Baudelaire, mesmo que o que há de Baudelaire em seus escritos seja imperceptível, ou redundante. O jovem cineasta defende-se das críticas com veemência: “Claro que a câmara está tremendo, e com a luz estourada! É Glauber!”

Não é Baudelaire e não é Glauber, mas não é esse o problema. O problema é que na obra também não se percebe o Fulano que fez aquilo. As influências estilísticas são as mais difíceis de domesticar, porque nos autores de origem aqueles recursos exprimiam uma visão das coisas, e na obra dos influenciados exprimem apenas a ausência de uma visão qualquer.

Quando admiramos algum aspecto técnico da obra de um artista, deveríamos nos dedicar a copiá-lo, a reproduzi-lo, até sermos capazes de dominá-lo. 

Mozart era capaz de imitar e parodiar qualquer compositor de sua época. Hunter Thompson decorava e datilografava textos inteiros de Hemingway, para absorver seu ritmo. A obra dos Beatles é um vasto panorama de técnicas alheias copiadas tintim por tintim. 

Uma influência é como um cavalo selvagem, que joga você no chão cada vez que você tentar obrigá-lo a ir para onde você quer. Mas ela pode ser domesticada, pode ser transformada em técnica, recurso, instrumento que utilizamos quando precisamos de uma voz narrativa específica, de um timbre sonoro, de um colorido, um tema. Deveríamos poder dizer algo como: “Dez por cento do que faço eu peço emprestado a Baudelaire, a Fellini, a Portinari”.






1441) O jogo de 722 gols (26.10.2007)



Eu vou ter mais cuidado com o que escrevo, porque toda fantasia que ponho no papel tende a degenerar em fato real. O leitor talvez recorde o meu artigo “O Maior Espetáculo da Serra” (15.1.2006), no qual imaginei uma partida eterna entre Treze x Campinense, 24 horas por dia. Pois os jornais noticiam que os argentinos estão se preparando aos poucos para realizar esta minha profecia, assim como o conhecido Pierre Menard tentou reescrever o Dom Quixote. Noticiam os jornais que no aniversário de fundação de Nocochea, cidadezinha a 520km de Buenos Aires, decidiu-se comemorar o evento com um jogo entre duas equipes que foram batizados com os nomes dos fundadores da cidade, “Victorio de la Canal” e “Angel Murga”. O jogo durou 46 horas e terminou com a vitória de Victorio de la Canal pelo elástico placar de 387 x 335. A notícia também informa que tomaram parte na disputa um total de 1.320 jogadores.

Minha primeira visualização do evento foi um campo de futebol gigantesco, com quilômetros e mais quilômetros, e duas equipes, cada uma com 660 jogadores, perseguindo uma bola cujo paradeiro eles só conseguiriam descobrir ligando para o celular dos colegas. Depois me toquei que não. Desse jeito o mais provável é que o jogo terminasse 0x0, mesmo depois de 46 horas. Cada um dos times deve ter utilizado, num campo normal, 60 equipes normais de 11 jogadores, que foram se substituindo umas às outras nos intervalos da disputa.

Esse gigantismo dá uma idéia do fascínio que o futebol exerce sobre a nossa capacidade de fantasiar. Recordo que nos primeiro anos do Pasquim alguém (não lembro o autor) publicou um texto chamado (acho) “O Grande Jogo”, em que duas barras eram colocadas em extremos opostos do Brasil (tipo Oiapoque e Chuí), e num ponto intermediário (digamos, a Bahia) era dado o pontapé inicial para esta partida que iria teoricamente envolver toda a população brasileira. A tarefa seria levar a bola, de acordo com as regras, até o local da “baliza” e marcar o gol. (Imagino que depois que alguém fizesse 1x0 seria permitido dar uma nova saída sem a necessidade de transportar a mesma bola, de avião, para o “círculo central”).

Na época eu considerei este conto uma espécie de ficção científica ou ficção especulativa tipicamente brasileira. O gigantismo (e o absurdo inevitável, kafkeano, desse projeto) era algo que só poderia ocorrer a uma mente brasileira. Que os argentinos sejam capazes não apenas de imaginar, mas realizar um jogo nas dimensões referidas neste artigo prova que podemos até ser os melhores, mas não somos os únicos. Um jogo de 722 gols, 46 horas e 1.320 jogadores é algo de uma intensidade poética que me comove quase até as lágrimas. Se no ano que vem acontecer de novo, eu compro uma passagem aérea para Buenos Aires e de lá vou assistir e cumprimentar os organizadores. É um delírio à altura do país de Borges e de Maradona, o país de Cortázar e de Riquelme.

1440) O Prêmio Nobel alternativo (25.10.2007)




(Ted Gioia)

O escritor Ted Gioia criou uma página em seu saite propondo uma questão que muita gente já se propôs: e se os vencedores do Prêmio Nobel, em vez de terem sido aqueles sujeitos obscuros que contemplamos nas estantes, tivessem sido os autores que hoje qualquer leitor mediano conhece e admira? Gosto não se discute, claro, mas a lista feita por Gioia de 1901 até 2007 nos propõe mudanças tão óbvias que chegamos a nos perguntar: “Ora, e não foi assim não?...” Começa pelo começo: em vez de Sully Prudhomme, o primeiro ganhador, teríamos Leon Tolstoi. Em 1902, em vez de Theodor Mommsen ele sugere George Meredith (pra mim, confesso, é trocar seis por meia dúzia). Mas em 1903, em vez do impronunciável Bjornstjerne Bjornson o vencedor seria Anton Tchecov; depois, em vez de Frederic Mistral e José Echegaray, venceria Julio Verne; e em 1905, em vez do Henryk Sienckewicz de Quo Vadis, o premiado teria sido Henrik Ibsen, o dramaturgo de Casa de Bonecas.

Gioia leva em conta os regulamentos do Prêmio (o autor tem que estar vivo), e os premiados que ele sugere são autores que no ano em questão já tinham uma obra consolidada e conhecida, e seriam candidatos legítimos. Não vou comentar todos os nomes (que podem ser vistos em: http://www.greatbooksguide.com/NobelPrize.html). Mas me parece que seria mesmo mais justo ter premiado Mark Twain em vez de Giosuè Carducci (1906), Henry James em vez de Maurice Maenterlinck (1911), Sigmund Freud em vez de Verner von Heidenstam (1916), Franz Kafka em vez de Jacinto Benavente (1922), Conan Doyle em vez de Grazzia Deledda (1926), G. K. Chesterton em vez de Erik Axel Karlfeldt (1931)... Não parece óbvio?

Gioia não é totalmente crítico da Academia Sueca. Muitos premiados reais são endossados por ele, como Rudyard Kipling (1907), W. B. Yeats (1923), George Bernard Shaw (1925), T. S. Eliot (1948), William Fulkner (1949)... E aqui para nós tem umas sugestões dele que eu não concordo: eu não tiraria o Nobel de Herman Hesse (1946) para premiar Hermann Broch, nem o de Bertrand Russel (1950) para dá-lo a Wittgenstein, como ele sugere.

O mais divertido é quando a lista vem se avizinhando da época atual, porque as sugestões de Gioia ficam menos convencionais. Ele sugere que em vez do poeta Derek Walcott (1992) a Academia deveria ter premiado Bob Dylan, e que em vez de Odysseus Elytis (1979) o prêmio deveria ter ido para Philip K. Dick. Premiar Hunter S. Thompson em vez de Dario Fo (1997) é uma sugestão divertida, porque o próprio Dario Fo já parece uma idéia de Gioia.

Perda de tempo, ficar discutindo isto? Não acho. Um Nobel, além do milhão e meio de dólares que concede ao premiado, premia também uma cultura, um gênero literário, um país, um mercado editorial. Ajuda a moldar e direcionar o rumo da literatura, mesmo quando o premiado se dissolve em anonimato poucos anos depois. (Alguém sabe quem foi Halldor Laxness? Foi o cara que ganhou em 1955, em vez de Bertolt Brecht).