quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

1395) Na estratosfera da globalização (2.9.2007)



Chamo-me Gunther Schneider, e trabalho num conglomerado financeiro com sede em Munique. Moro num apartamento de seis quartos com minha esposa Greta, um casal de filhos e um cachorro “husky siberiano” chamado Flash. Assumi esta semana o posto de CEO (Chief Executive Officer, assim mesmo, em inglês) do grupo, com a missão de fazer uma varredura em suas finanças. O CEO anterior foi demitido por roubalheira, e além do mais, bebia. Nos últimos dois anos o grupo perdeu seis posições no ranking. Estou aqui para botar a casa em ordem.

É uma manhã fria de segunda-feira, e recebo no meu escritório climatizado o grupo de auditores que “deu uma geral” na gestão anterior. Estive em contato permanente com eles por um mês; agora assumi oficialmente o cargo, e hoje é o primeiro dia de tomar decisões. Cumprimento a todos, peço águas e cafezinhos. Dieter Bohrmann, o porta-voz da equipe, um rapaz de rosto magro e óculos espessos, me estende duas folhas de papel grampeadas, com uma lista de 52 itens. Do 1 ao 30, estão em tinta azul; do 31 em diante, em vermelho. São os investimentos que estão dando prejuízo.

Percorro a lista com os olhos. Já vi do que se trata a maioria, e já sei o que vou fazer. Lá perto do fim vejo um nome desconhecido e pergunto o que é. Dieter responde: “É a editora brasileira que compramos em 2003. Pareceu um bom investimento na época”. Surpreendo-me: “Publicam-se livros no Brasil? Pensei que apenas jogavam futebol e dançavam o samba”. Dieter retruca: “É um mercado promissor. Os espanhóis estão entrando lá com tudo”. Peço detalhes, ele remexe na pasta, me entrega algumas planilhas.

Examino aquilo como um médico vendo um raio-X de um alienígena enfermo: sem saber que procedimento aconselhar. Os nomes próprios, ilegíveis, parecem todos iguais. “É grande o prejuízo?”, pergunto. “Mediano. Investiram muito, compraram muitos títulos estrangeiros, lançaram muitos títulos nacionais. Há quatro anos nos garantem que em um ano sairão do vermelho. E não saem.” “Quanto custa para fechar?” “Pagando os custos trabalhistas e jurídicos, e vendendo o catálogo e os bens, fica uma coisa pela outra”.

Vou até a janela. Lá fora, a neve se deposita em flocos suaves sobre o parque, sobre a arquitetura sólida dos ministérios da Blümerstrasse. Tenho 22 itens vermelhos para eliminar da minha lista, e é bom começar mostrando serviço. Viro-me para os auditores e digo: “Então, fecha”. Todos concordam num gesto breve de cabeça que parece ensaiado; Dieter pega sua cópia da lista e rabisca alguma coisa. “O próximo,” peço. Ele consulta a lista e diz: “A mina de diamantes em Angola.” Surpreendo-me de novo. Extraem-se diamantes em Angola? São 8:15 da manhã, e tenho até as cinco da tarde para decidir 22 itens. Estou ganhando quase o dobro do salário do sujeito a quem substituí. Sou um CEO. Estou aqui para resolver problemas, e quero ser uma mulata sambando se esses problemas não fôrem resolvidos.

1394) Luís Buñuel e Nelson Rodrigues (1.9.2007)




Um artigo recente de Nuno Ramos na revista Piauí de abril faz uma boa análise da obra teatral de Nelson Rodrigues. A matéria-prima de Nelson são os sonhos e pesadelos da classe média suburbana: emprego e desemprego; casamento e adultério; obediência e desobediência às convenções; pecados e remorsos; impulsos de ascensão social e de afirmação erótica. 

Seus personagens se debatem entre uma luxúria poderosa que os arrasta a todos os tipos de pecados, e uma ânsia desesperada por um amor puro, espiritualizado, não maculado pela sordidez humana. Querem fazer sexo no Inferno, e depois adormecer em paz no Céu. Diz Nuno Ramos sobre Nelson: 

Sua persona foi sempre mais específica, particular e lenta – o reacionário, aquele que não se universaliza, como uma má notícia ambulante a assombrar a velocidade do mundo lá fora. (...) A sua matéria é o particular, entendido como o detalhe significativo que produz escândalo e denota a falsidade do resto. (...) O Brasil do dramaturgo não é aquele que se procura, mas o que não se deixa ir – aquele que ao ser esquecido volta para assombrar. 

Nelson é um conservador, no sentido de que é fiel aos fantasmas que o obcecavam na infância e adolescência. Dedicou sua vida adulta a dialogar com eles, em vez de varrê-los para baixo do tapete (como faz a maioria, inclusive seus personagens) ou de transcendê-los através da psicanálise ou da revolução sexual dos anos 1960. 

Nelson foi chamado de pornógrafo por uns e de moralista por outros, o que é sempre um indício de que estava remexendo camadas profundas. Nisto ele se assemelha a Luís Buñuel, que, como ele, foi um grande leitor de romances em estilo folhetim, muitos dos quais (Tristana, Belle de Jour, Diário de uma Camareira, etc.) adaptou para o cinema. Quanto a Nelson, usou o pseudônimo de Suzana Flag para escrever ele próprio alguns folhetins imensos que li quando adolescente e foram agora reeditados: Meu Destino é Pecar, Escravas do Amor

A obra de ambos revela os exageros próprios do folhetim, que em Nelson são redimidos artisticamente através de sua concepção peculiar de dramaturgia e diálogo, e em Buñuel são enriquecidos pelo imaginário surrealista francês. 

Ambos extraem sua inspiração do melodrama, mas o melodrama moderno que fazem deixaria desconcertados os artistas a quem copiam ou parafraseiam. Sexo e morte são seus temas preferidos. Criados em sociedades machistas e repressoras, o erotismo era sua obsessão. Buñuel diz em suas memórias: 

Os homens da minha geração, e além disso espanhóis, sofriam duma timidez ancestral relativamente às mulheres e dum desejo sexual que era talvez o mais forte do mundo. (...) Sem sombra de dúvida que um espanhol tinha um prazer superior ao copular do que um chinês ou um esquimó. 

É essa a mesma luxúria irresistível que conduz os personagens de Nelson a todo tipo de pecado. Para eles, pecar é uma forma de auto-afirmação e de auto-conhecimento.








terça-feira, 1 de dezembro de 2009

1393) O culto à personalidade (31.8.2007)



Eu estava descansando-o-almoço diante do History Channel, degustando um programa sobre a Era do Stalinismo, cujo roteiro ilustrava o culto à personalidade que ajudou Stálin a se manter no poder durante décadas. Todos nós sabemos do que se trata. O comunismo acabou com a religião, declarou Deus “persona non grata”, pulverizou a monarquia, os rituais, as pompas e circunstâncias que recobrem essa antiquíssima instituição. E o roteiro dizia: “Alguém teria que ocupar esse vácuo, e ele foi ocupado, naturalmente, pelo próprio Stálin”. E aí, pronto: nos anos 1930 você chegava na cidade de Stalingrado, pegava a Avenida Stálin, hospedava-se no Hotel Stálin, e à noite ia ao Teatro Stálin ver o Balé Stálin apresentar a coreografia “Vida e Glória do Camarada Stálin”.

A monarquia, como já falei aqui, é uma causa-e-conseqüência da visão monoteísta. Um só Deus no Céu, um só Rei na Terra. O universo religioso e monárquico é um Círculo com um ponto no centro. Essa visão-do-mundo foi pulverizada após a Revolução Francesa e a instituição, no mundo ocidental, dos governos republicanos. Se as monarquias correspondem ao monoteísmo, a República é um politeísmo democrático, uma espécie de Monte Olimpo onde os deuses vivem brigando pelo poder, intrigando e conspirando uns contra os outros, mas são forçados a manter as aparências, conviver civilizadamente, dar tapinhas nas costas dos adversários e chamar-se em público de “Vossa Excelência”.

A mentalidade republicana acabou a visão-do-mundo como um círculo com um centro. Visualmente, a República é uma pirâmide cujo conteúdo executa um movimento ascendente. Quem está na base sonha em subir para o meio, quem está no meio está bem pertinho do topo, e quem chega ao topo briga para se manter ali. O Topo é o novo Centro. E – este é o grande salto qualitativo da república – existe um rodízio no Topo. Em vez de seus ocupantes serem escolhidos por Deus, como eram os reis, eles são (para resumir um processo intrincado) escolhidos pelo Topo, ratificados pelo Meio e eleitos pela Base. Mais ou menos isto.

Daí que o culto à personalidade nos países democráticos e republicanos seja diferente do que ocorre nas monarquias e nas ditaduras. É um culto à personalidade pulverizado, diluído, democraticamente atirado no ventilador. Qualquer um pode ser objeto do culto à personalidade. Quem descobriu isto foi Hollywood, depois a TV e a indústria fonográfica tomaram conta, e agora é isto que se vê. As capas das revistas, os talk-shows, as colunas sociais, os cadernos de variedades: estes são os novos templos do culto à personalidade no universo republicano, onde, em princípio, qualquer um pode ser eleito presidente e qualquer um pode ir parar na capa da Veja ou no programa de Jô Soares (ou na capa da Time e no programa de David Letterman). A pirâmide não cessa de produzir gente, e todos se acotovelam tentando chegar na luminosa telinha triangular que reluz no seu Topo e o oculta.

1392) Crimes de arte (30.8.2007)


("A Fonte", de Duchamp)

O que leva alguém a praticar um crime contra uma obra de arte? Os ladrões de quadros querem ganhar dinheiro; é um roubo banal. Mas o que passa na cabeça de um sujeito que entra num Museu com uma faca escondida na roupa, e, na primeira bobeira dos seguranças, pula sobre um quadro e começa a cortá-lo em tiras?

O saite “Art Crime” (http://renewal.va.com.au/artcrime/pages/front.html) reúne material sobre vários casos famosos, uns incompreensíveis, outros grotescos, todos meio absurdos. O famoso quadro de Rembrandt A Ronda Noturna já foi atacado três vezes, no Stedelijk Museum, de Amsterdam, duas delas a faca e uma com ácido sulfúrico. Nos dois primeiros casos, houve restauração; no último, os guardas agiram a tempo e o ácido só atingiu a camada superficial de verniz. O primeiro ataque, em 1911, foi por parte de um ex-marujo demitido que queria protestar contra o Governo. E Rembrandt pagou o pato.

Alguns ataques são “conceituais”, como o do artista performático Pierre Pinoncelli contra A Fonte de Michel Duchamp. Para quem não sabe, esta obra consiste num simples urinol de porcelana, desses de mictório público, retirado do seu contexto e exposto como obra de arte. Pinoncelli urinou no urinol (até aí tudo bem) e depois o atacou com um martelo. Recebeu uma multa de algumas centenas de milhares de francos. Também performático foi o ataque do russo Alexander Brener contra o quadro Suprematisme do seu conterrâneo Malevich em 1997, sobre o qual ele pintou com spray um cifrão. Brener é conhecido pelo seu hábito de interromper eventos públicos, (principalmente os que envolvem alguma discussão sobre arte) praticando alguma ação desmiolada.

Há casos em que o artista ajuda isso a acontecer. Yoko Ono, uma conhecida advogada da interatividade, teve suas obras “interferidas” por um estudante de arte em 1997: ele pegou uma caneta vermelha e riscou cinco de uma série de 25 painéis expostos pela artista numa galeria nos EUA. Em sua defesa, alegou uma frase da viúva de John Lennon: “Ninguém pode proibir você de tocar numa obra de arte”.

E há aqueles que são doidos mesmo e fim de papo. Um dos sujeitos que atacaram o quadro de Rembrandt era um desequilibrado que, depois de cumprir algum tempo numa clínica psiquiátrica, fugiu e foi até Amsterdam onde arrancou um tampo bem no meio de um quadro de Picasso, Mulher Nua Diante de um Jardim, no mesmo Stedelijk Museum.

Os performáticos, tudo bem; mas os doidos, por que motivo atacam obras de arte, e não um telefone público ou um cartaz de propaganda? Eu acho que é porque uma forma de ser doido é não entender a arte. Perceber a adoração das pessoas àquele objeto, e não saber por quê. Ele sabe apenas que é algo sagrado, mas, como um cachorro diante de um animal que nunca viu, sua única reação é arreganhar os dentes e partir pra cima. Porque, afinal, não estão sozinhos. Muita gente que não é doida também agiria assim, se pudesse, diante do que não compreende.

1391) O julgamento de Salomão (29.8.2007)





("O Julgamento de Salomão", por Gustave Doré)

Philip K. Dick dizia que uma máquina é alguém incapaz de agir como um ser humano, mesmo que seja um ser humano biológico. 

Não é um paradoxo gratuito, porque muitas pessoas só têm de humano o corpo em carne e osso, mas sua mente se comporta como a mente de um robô ou (como Dick lembrava) a mente de um inseto, que não faz julgamentos, não tem sentimentos, apenas sabe que precisa alimentar-se e para isso precisa devorar essa outra coisa viva à sua frente. Essa outra coisa viva podemos ser eu e você.

Um psicótico grave ou um viciado em drogas em estado avançado são “máquinas”, na visão de Dick. 

O que dizer de um serial killer, desses que tocaiam as vítimas, seqüestram, torturam e matam, apenas para extrair disso um prazer bestial? Não é um ser humano. O que dizer de um viciado em heroína que, no auge da crise de abstinência, sai para a rua à procura de 10 dólares e mata uma pessoa para vender por 10 dólares um relógio que vale 500? É uma máquina. 

São seres biologicamente humanos cuja mente está dominada a tal ponto por uma “função” que eles deixam de fazer as escolhas tipicamente humanas, tomar as decisões mais caracteristicamente humanas. Existem com a idéia fixa de cumprir aquela função que se apoderou se suas mentes por completo.

No filme Clube da Luta o personagem de Edward Norton trabalha para uma empresa de consultoria de seguros ou coisa parecida. Seu trabalho consiste em acompanhar acidentes de automóvel provocados por falhas mecânicas nos carros, e avaliar o que é mais caro: chamar os compradores de volta (fazer o “recall”) para trocar os produtos defeituosos, ou pagar os seguros dos acidentados, mesmo as vítimas fatais. Se o seguro for mais barato, eles deixam as pessoas morrerem. 

Quem toma decisões assim (e sabemos que decisões assim são tomadas o tempo inteiro no mundo corporativo) é um humano ou uma máquina?

Há um episódio famoso do Rei Salomão (I Reis, 3: 16-28) em que duas mulheres disputam um bebê, cada qual dizendo ser sua mãe. Salomão sugere que o bebê seja cortado ao meio e cada mãe fique com uma metade. Uma delas concorda, mas a outra prefere que o bebê seja entregue inteiro à rival – e Salomão percebe que esta última é a verdadeira mãe. 

O teste de Salomão é um verdadeiro “teste de Turing”, o teste proposto pelo matemático Alan Turing para distinguirmos (sem ver) as respostas de uma pessoa das respostas de uma máquina. Diz a Bíblia: “A mulher porém, cujo filho estava vivo, disse ao rei (porque as suas entranhas se enterneceram por seu filho): Senhor, eu te peço que dês a ela o menino vivo e não o mates”. 

A imagem literária das entranhas tem tudo a ver com a situação de quem foi mãe, e mãe recente. Mas em verdade vos digo, caros leitores, que se diante de situações como algumas que referi neste artigo, e muitas outras que rolam por aí, as nossas entranhas metafóricas não se revoltarem, é porque somos máquinas. Não somos homens, e não merecemos ser tratados como tal.





1390) O realismo naturalista (28.8.2007)




(Julio Cortázar)

Os critérios do realismo na arte às vezes não batem uns com os outros. Algo é realista se visto de um ângulo, e não é, se visto de outro. 

Numa novela das 8 nada acontece que não possa acontecer na vida real (ultimamente têm aparecido fantasmas em tudo quanto é novela, mas estes sempre podem ser atribuídos a alucinações, etc.). Mas nelas aparece muita coisa que não bate com a realidade. Não questionarei a verossimilhança psicológica (“não é realista uma mãe se comportar assim!”), porque psicologicamente qualquer coisa pode ser justificada. 

Também não discutirei erros de continuidade ou anacronismos: “se a história se passa em 1958, a música tal, que é de 1962, não podia estar tocando no rádio”. Coisas assim são descuidos, não fazem parte da concepção da obra.

No mundo das telenovelas constatamos a ausência inexplicável de detalhes realistas, que nos levam a perguntar que mundo é aquele onde as pessoas vivem. Um exemplo muito citado é a total ausência, naqueles apartamentos, de interfone no prédio ou de olho-mágico na porta, o que proporciona aquelas surpresas de fim-de-capítulo, em que a campainha toca e as pessoas abrem sem poder verificar quem está tocando. Algo absurdo em nosso mundo; mas no mundo da novela é assim, e todo mundo aceita.

Julio Cortázar discutiu esta questão certa vez, quando um crítico questionou o fato de um personagem num romance seu chegar em casa depois de meses fora, ligar o carro e o motor deste “pegar” imediatamente. O crítico perguntou se isto era um exemplo do “realismo mágico”; Cortázar replicou que não, porque bastaria ao personagem ter deixado uma cópia da chave com um vizinho de confiança, como tanta gente faz, para que de vez em quando ligasse o motor, evitando que a bateria arriasse. 

“O realismo mágico,” disse ele, “se ocorre, é num plano muito menos banal”.

O mundo das telenovelas é interessante porque violenta o naturalismo o tempo inteiro. Basta assistir novelas mexicanas, perto das quais as da Globo são verdadeiros filmes de Luchino Visconti. Ali vemos aquelas mulheres que de madrugada são acordadas pelo telefone, acendem a luz de cabeceira e estão maquiladíssimas e com o cabelo todo armado, como se acabassem de chegar numa festa. Aqueles indivíduos que pegam uma briga de socos, e saem sem uma marca no rosto. Para um espectador de TV mais escolado, acostumado a produtos feitos de maneira mais exigente, tudo isto provoca risos de incredulidade. Os mesmos risos de um espectador de filme de Visconti quando se depara com o pseudo realismo da novela das oito.

Cada gênero usa um realismo aparente na medida de suas necessidades para que suas características de gênero prevaleçam. Até uma comédia de Mel Brooks, dos Irmãos Marx ou de Monty Python, que desmontam qualquer convenção, tem que ser verossímil e convincente em tais ou tais elementos para que as piadas possam funcionar. É preciso convencer o espectador de que, no mundo proposto, aquilo está de fato acontecendo.






segunda-feira, 30 de novembro de 2009

1389) Papai Noel existe! (26.8.2007)


Uma das lições literárias mais inspiradoras que já recebi me foi dada involuntariamente (como aliás ocorre com a maioria das Grandes Lições), e por um guri de 5 anos. Era época pré-natalina e eu estava conversando com um casal de amigos na praça de alimentação de um shopping. (Na verdade não foi bem assim, mas se eu disser onde era ninguém vai acreditar, então vamos em frente com uma ficção plausível.) Aí chegou o garoto deles todo excitado: “Pai! Mãe! Acabei de conversar com Papai Noel!” Eu estava numa veia implicante e disse ao meu amigo: “Mas Fulano, você ainda não explicou a seu filho que Papai Noel não existe?!” O pirralho me fitou de cima a baixo com soberano desprezo e falou: “Claro que existe. Ele falou comigo, eu sentei no colo dele, ganhei um chocolate, puxei a barba dele...” Aí fez uma cara de conspirador, pôs a mão juntinho da boca e sussurrou: “É falsa!”

Um garoto de cinco anos entende melhor o que é ficção do que qualquer marmanjo de cinqüenta. De fato, como você vai dizer que o sujeito não existe, se em dezembro as ruas e as lojas estão cheias dele?! É o mesmo que se dá com o príncipe Hamlet, da Dinamarca. Se pudéssemos reunir todos os indivíduos que já usaram seu nome, vestiram suas roupas e disseram suas falas, encheríamos vários Maracanãs. Alguém tem a coragem de dizer que Hamlet não existe? Existe mais do que eu ou você, caro leitor, que se desaparecermos amanhã a Humanidade nem toma conhecimento. Mas desapareça Papai Noel, e você vai sentir o abalo no PIB.

Papai Noel e Hamlet podem não ter uma existência individual como a minha e a sua, mas a existência que têm é de causar inveja a qualquer um de nós. Para começo de conversa, são imortais, porque quando um ator morre o personagem continua. Depois, são ubíquos, podem estar em várias partes do mundo na mesmíssima noite. Por fim, são extremamente maleáveis, adaptam-se às culturas, às circunstâncias, às modas, aos momentos históricos. E, o que é mais importante, influenciam um número muito maior de pessoas.

Eles são o gérmen da humanidade futura, quando conseguirmos criar receptáculos eletrônicos capazes de registrar em si personalidades complexas, memórias totais, biografias inteiras. Temos hoje a ilusão de imaginar que os personagens literários são meras sombras ou reflexos das pessoas de verdade. O avanço da ciência nos mostra, para o bem ou para o mal, que sombras e reflexos somos nós. Que somos um mero estágio para a criação dos seres indestrutíveis do futuro, criaturas com muito maior complexidade mental do que a que nos dão nossos poucos bilhões de neurônios. Criaturas que serão feitas, como diz William Gibson, não de um iceberg, mas de uma Antártida de informação. Serão personagens, serão imortais, serão ubíquos, e nas suas memórias virtuais dedicarão alguns trilhões de terabytes para cultivar a memória dos bípedes mamíferos que os antecederam e que os inventaram.

1388) Puxa o rabo do tatu (25.8.2007)




Comprei num sebo uma edição de bolso de um dos livros mais fascinantes que já li, O Teatro do Absurdo, de Martin Esslin, que foi meu livro de cabeceira por volta de 1971, quando eu era um estudante de cinema que flertava à distância com o teatro. O livro de Esslin descreve e comenta a obra dos grandes dramaturgos do absurdo: Ionesco, Beckett, Genet e Adamov. Mais interessante, contudo, é o capítulo “A Tradição do Absurdo”, onde Esslin aponta com perspicácia a existência de um absurdo não-literário presente em todas as culturas, especialmente nas cantigas folclóricas e nas parlendas infantis.

Esse absurdo verbal é mais visível nos livros de autores como Lewis Carroll ou Edward Lear, nos “limericks” irlandeses; mas sua origem são as cantigas infantis, ou “nursery rhymes” dos países de língua inglesa, uma fonte que nem sempre a crítica parece levar a sério. Nossas cantigas e parlendas infantis também estão cheias disso. Lembram-se dos sistemas de escolha para brincadeira de toca, de se-esconder, e outras? A pessoa que tira vai recitando frases e a cada sílaba toca numa pessoa ao longo de um círculo: “Fui-na-ma-ta-cor-tar-le-nha / San-tan-tônio-me-cha-mou / quand-do-san-to-cha-ma-gen-te / é-si-nal-de-pe-ca-dor... / Pu-xo-ra-bo-do-ta-tu, quem-tá-fo-ré-tu!” Sempre achei essa quadrinha uma coisa ominosa, ameaçadora, esse santo na floresta chamando o pecador para levá-lo... pro Céu? Tem uma que é puro mistério de Agatha Christie: “Lá em cima do piano, tem um copo de veneno, quem bebeu morreu... Puxa o rabo do tatu, quem tá fora é tu”.

Uma das malícias desse sistema de escolha era quando a gente dava uma suingada no ritmo e fazia com que o gesto não coincidisse com a voz: recitava no mesmo ritmo, mas o toque da mão adiantava ou atrasava de acordo com nossa conveniência, para que o “tu” colocasse de fora alguém que a gente escolhesse.

As frases não precisam fazer sentido. Havia uma cantiga de roda que terminava com todo mundo gritando: “A bença, vovó! Ficou no caritó!” Eu não era tão pequeno que não pensasse: “Oi, se ficou no caritó, não casou. Se não casou, como pode ser avó de alguém?” Essas cantigas infantis são o melhor exemplo do “nonsense”, o não-senso, o que não quer nem precisa fazer sentido. Resíduos de versos, de frases cotidianas, fragmentos de histórias, onomatopéias, coisas que nada querem dizer: querem apenas ser, apenas soar.

O universo dessas cantigas explica em parte a atração que as letras que-não-dizem-nada exercem sobre o público, o que pode ser aferido vendo-se o sucesso de marchinhas de carnaval, canções da axé music, e mesmo muita coisa da MPB. Não estou com isto recusando o sentido, mas não se deve esperar que toda letra de música seja tão cartesiana quanto as de Chico Buarque ou de Renato Russo, compositores sempre preocupados com o “conteúdo”. Há uma área da canção que nasce como brinquedo sonoro, brota como brinquedo, e como brinquedo tem que ser considerada.

1387) O Estranho e o dr. Freud (24.8.2007)



Num ensaio de 1919 (“O Estranho” ou “O Sinistro” -- Das Unheimlich) Freud procura examinar nossa sensação de estranheza e de ameaça quando nos deparamos com imagens que ele enumera: mortos, aparições, membros ou crânios decepados, pessoas enterradas vivas, autômatos que parecem humanos ou vice-versa, coincidências ou fatalidades, a compulsão de repetir atos inexplicáveis, etc. Freud compara essa sensação com a palavra alemã correspondente, “unheimlich”, que é a forma negativa de “heimlich”. E é o caráter desconcertante desta última que ele discute, porque é uma palavra que tanto pode significar “doméstico, aconchegante, familiar” como também “secreto, oculto” – dois sentidos aparentemente contraditórios.

Freud faz em seu ensaio um espantoso levantamento lexicográfico dos usos dessa palavra na língua alemã, e através das dezenas de exemplos que ele cita é possível até mesmo para um analfabeto em alemão, como é o meu caso, perceber as conotações que a palavra assume através das épocas, e de diferentes dicções: literária, regional, antiga, moderna... Minha teoria é que os dois sentidos de “heimlich” não se contradizem; um é a intensificação do outro.

Nossa mente atua em três círculos, ou esferas. Uma é a esfera pública, onde usamos nossa “persona”, nossa face social para consumo externo: nosso nome, rosto, profissão, função no mundo. Mas dentro dessa esfera temos uma outra onde nos refugiamos em busca de tranqüilidade. É o nosso espaço caseiro, doméstico, familiar (e isto é o sentido 1 de “heimlich”). Poderíamos compará-lo à sala de visitas, onde nos recolhemos para conviver com aqueles que nos são íntimos.

Dentro dessa esfera, no entanto, existe outra mais reservada ainda. Uma esfera secreta, oculta (e este é o sentido 2 de “heimlich”), um lugar onde existimos a sós, dentro de nós mesmos. Não temos nenhuma palavra em português para abranger os dois sentidos de “heimlich”; talvez a que mais se aproximasse fosse “privado”, palavra que tanto pode se aplicar ao espaço do convívio familiar (residência privada, aposentos privados) quanto ao local cercado de tabus e proibições (a Privada propriamente dita).

O Estranho, para Freud, é o que envolve ressonâncias emocionais ligadas a estas esferas. Não é simplesmente o que provoca terror – porque um tigre faminto, um criminoso armado ou um terremoto também o provocam, mas esse terror não vem acompanhado pela sensação do Estranho. O Estranho (“unheimlich”) é algo que foi familiar e não o é mais, porque foi reprimido, tornou-se oculto. E é algo que foi oculto e também não o é mais, porque emergiu, escapou à repressão, retornou para nos assombrar como algo que supúnhamos morto e sepultado. O Estranho é portanto essa contradição em termos, algo “estranhamente familiar”, que nos produz uma sensação de angústia como a que temos quando vemos uma pessoa de aspecto desagradável e só depois percebemos que é o nosso reflexo no espelho.

1386) “Cão sem dono” (23.8.2007)



Este filme realizado no Rio Grande do Sul, escrito por Marçal Aquino (baseado em um livro de Daniel Galera) e dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, poderia também se intitular “No mato sem cachorro”, boa descrição da vida do personagem Ciro (Julio Andrade), um rapaz com idéias literárias que vive sozinho num apartamento de boêmio (colchão de casal no chão, livros empilhados, posters nas paredes) e tenta ganhar a vida fazendo traduções. Sua namorada Marcela (Tainá Muller) é um modelo que vive com um pé na boemia noturna e outro no sonho de uma carreira internacional.

Ciro patina na perplexidade de muitos rapazes que se formam, saem da casa dos pais, conquistam a liberdade da vida adulta, e julgam que é sua obrigação “viver intensamente”, ou seja, fazer sexo a torto e a direito, fumar, beber, experimentar drogas, comer e tomar banho apenas quando tiver vontade, trabalhar o mínimo necessário para pagar as contas. As primeiras conseqüências desse estado de coisas são uma rápida deterioração dos níveis de prazer proporcionados por essas atividades, uma exaustão física que faz o cara aos 25 anos ter um vislumbre de como se sente um cara de 80, e uma perplexidade crescente que pode ser sintetizada na frase “E agora?”.

Estes sintomas recebem o rótulo de “angústia existencial” quando o paciente tem pendores filosóficos. O sujeito se sente boiando. Tem tudo que sonhara ter aos 15 anos, mas, e daí? O cão sem dono do título não é o simpático Churras que faz companhia a Ciro, é o próprio Ciro, acossado dia e noite pela clássica pergunta existencialista: “O que fizemos com a nossa liberdade?”

O filme tem algumas belas cenas isoladas, que não são belas por serem excepcionais ou fora do comum, mas porque conseguem transportar para a tela, com naturalidade, pequenos episódios da vida de jovens brasileiros que parecem com gente de verdade, e não com gente fantasiada de jovem americano – embora eles ouçam rock, fumem maconha e dancem nas boates. Um acidente bobo de moto leva Julio e Marcela a um jantar na casa de outro casal, no qual as pessoas falam, bebem, fumam como se não existissem câmeras e equipe em volta. Um longo monólogo do pai de Ciro (Roberto Oliveira), comentando sua próprias experiências com drogas, tem aquele tom de contenção e ansiedade daquelas pessoas que nunca falam aos filhos sobre certos assuntos e quando o fazem temem que seja tarde demais. O porteiro do prédio de Ciro pinta uns quadros meio toscos, meio abstracionistas, pelos quais ele fica fascinado. Há uma cena em que, sentados no colchão do quarto, Marcela canta e Ciro a acompanha ao violão, de maneira descontraída e amadorística, exatamente como milhões de casais de namorados têm feito desde que surgiram no planeta os namorados, os violões e os colchões de casal. Momentos assim, breves, desjuntados, verdadeiros, dão a Cão sem dono um jeito de cacos de uma vida que não formam um todo. Um belo e melancólico filme.