sábado, 22 de agosto de 2009

1213) O filho e o carro (1.2.2007)



Recebo muitos trabalhos enviados por amigos ou desconhecidos: livros, poemas, CDs, crônicas, etc. Quando a gente tem com o autor um certo grau de intimidade, não há problema em dar nossa opinião, quando ele a pede. Mas quando é um desconhecido, e a gente nem sabe se é um principiante ou um artista já encaminhado, é difícil saber que o que dizer. Tenho o maior medo de dizer algo tipo “olhe, Fulano, escreva mais, amadureça mais, você tem muito talento em potencial, etc.” e o cara me responder que é mais velho do que eu e tem 20 livros publicados. Onde vou enfiar a cara?

Quem mostra um trabalho tem muitas vezes a atitude de quem mostra um filho. Uma vez encontrei na rua um conhecido que não via há alguns anos. Cumprimentamo-nos, trocamos um abraço, e ele me mostrou o garoto de uns cinco anos que o acompanhava: “Olha, este aqui é o meu filho”. Olhei pro guri e disse: “Parece muito contigo”. O guri me olhou de cima a baixo e disse: “Deus me livre, meu pai é muito feio”. Rimos muito, porque o que eu tinha dito era uma mentira social, e o guri dissera a verdade pura.

Minha pergunta é: se o guri fosse feio, teria eu o direito de dizer isto? Quem mostra um fiho não está pedindo uma avaliação crítica, está pedido um gesto de aprovação, a ratificação de um vínculo afetivo. Quem tem um filho orgulha-se dele, e ponto final. Um filho é uma extensão de nós mesmos, é prolongamento futuro de nossa passagem sobre a Terra, como uma árvore plantada ou um livro escrito. Quem mostra um filho está mostrando um fato consumado, ao qual nenum juízo crítico pode se aplicar.

Mas há casos em que alguém nos mostra um CD ou um poema com outra atitude. A atitude de quem leva um carro à oficina e diz ao mecânico: “Josias, dá uma olhada nesse carburador, que ele tá meio esquisito”. Às vezes o carburador não tem nada, mas a gente só confirma isto através de Josias, que entende de carburador mais do que nós. O que a pessoa pede nestes casos é uma opinião técnica, um diagnóstico entre colegas de ofício, mesmo que um seja um mestre e o outro um aprendiz. E nestes casos, quem pede deve estar preparado para ouvir o que precisa ser dito, e que nem sempre é agradável.

Não acho que devamos julgar com rigor excessivo o trabalho alheio, principalmente de um autor jovem. Conheço muitos casos de pessoas que desistiram de uma carreira porque a primeira crítica que receberam foi devastadora demais. E todos nós sabemos de autores que começaram medíocres, mas foram crescendo por esforço próprio, e depois de muitos anos produziram obras de alto nível. Devemos ter confiança no futuro. O primeiro CD da banda, os primeiros poemas da jovem universitária, o primeiro romance do rapaz meio prolixo... o talento talvez ainda não esteja ali, mas pode despontar um dia. Não devemos afagar demais sua vaidade, mas devemos dizer: “Pode ir pra casa, e fique tranqüilo. Seu carro não tem nenhum problema. Continue dirigindo que um dia você chega lá”.

1212) A crença de quem não crê (31.1.2007)




A Editora Record publicou em 1999 um debate, travado nas páginas da revista “Liberal”, entre intelectuais italianos sobre a questão da fé e da ética entre religiosos e leigos. O principal debate foi travado entre o escritor Umberto Eco e o Cardeal Carlo Maria Martini, sendo que na segunda parte do livro aparecem contribuições de filósofos, jornalistas e políticos. 

Tanto Eco quanto Martini defendem com erudição e clareza seus pontos de vista. Entre os demais, gostei dos argumentos do jornalista Eugenio Scalfari e do ex-secretário do Partido Socialista, Claudio Martelli. O livro tem como título Em que crêem os que não crêem?.

A principal diferença entre o pensamento religioso e o pensamento laico é que o primeiro exprime a necessidade de um Centro geométrico, e o segundo se contenta com um ambiente conceitual sem forma definida. 

As religiões monoteístas (cristianismo, Islã, judaísmo) exprimem esta concentração de valor num único ponto de referência dogmático, inquestionável, e neste sentido assemelham-se aos regimes políticos centralizadores, autocráticos (quando não são explicitamente autoritários e ditatoriais). 

As religiões politeístas parecem certas democracias parlamentares, onde a toda hora quem está mandando é um grupo diferente, de acordo com as flutuações de poder e de influência.

Passamos de um estado primitivo onde havia um grande número de deuses para a fase do Cristianismo em que tudo se concentrou num Deus uno (ou trino, nessas ambigüidades geométricas que fazem a alegria dos metafísicos). Com o Iluminismo, a Revolução Francesa, a separação entre igreja e Estado, e assim por diante, foi quebrado esse centralismo espiritual e retornamos a uma multiplicidade de valores que agora não mais se exprime por uma proliferação de divindades antropomórficas, mas por uma proliferação de crenças não-espirituais.

É esta proliferação que é questionada pelo Cardeal Martini em seu debate com Eco: essas pessoas que não crêem mais em Deus têm valores morais e éticos; mas de onde lhes vêm estes valores? Eles não podem ser totalmente relativos ao momento, senão teríamos que admitir que em tais e tais circunstâncias seria legítimo agredir, saquear, matar e fazer mal a outras pessoas. 

O debate entre os pensadores italianos retoma a frase crucial de Dostoiévski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Para os monoteístas, é preciso que haja um Centro, um Absoluto, um dedo que risca o limite entre o que podemos e o que não podemos fazer, ou, mais precisamente, uma escala de valores que vai desde o absolutamente obrigatório ao absolutamente proibido, com todos os estágios intermédios entre um e outro. E isto só pode vir de Deus.

A principal crítica feita pelos não-crentes é que, não existindo um Deus que “inspire” os Papas e outros líderes, as escolhas morais e éticas destes são subjetivas, historicamente condicionadas, politicamente interessadas – tanto quanto as dos cientistas ateus.




sexta-feira, 21 de agosto de 2009

1211) O encantamento da fala (30.1.2007)




Em seu romance Misery, Stephen King conta a história de Paul Sheldon, um escritor de sucesso que se recolhe numa casa de campo para terminar um romance. Com o livro pronto, ele sofre um acidente de carro e é salvo, numa dessas coincidências inevitáveis da literatura, por Annie, uma de suas fãs mais radicais. 

Annie mal consegue acreditar na própria sorte: ali está ela, salvando seu ídolo, que está com as pernas quebradas! Quando Sheldon volta a si, os dois começam a conversar, ele lhe mostra o manuscrito do livro novo, mas Annie fica chocada ao saber que o desfecho não é o que ela esperava. (O livro conclui uma série, com personagens já conhecidos) 

Ela exige de Sheldon que termine o livro do jeito que ela quer. E os argumentos físicos que usa são vigorosos, dolorosos, cruéis.

Não li o livro, mas vi o filme de Rob Reiner. Os livros de King passam bem para a tela, ainda mais neste caso, em que os atores são Kathy Bates e James Caan. Sheldon vê-se forçado a escrever sob as ordens de Annie, refazendo o livro inteiro de acordo com o gosto dela, e procurando ganhar tempo até que alguém descubra o que aconteceu e venha salvá-lo. 

Como Sherazade, o autor de Misery tem que contar interminavelmente uma história para salvar a própria vida, vivendo a situação paradoxal de não poder interromper a narrativa nem poder terminar a história, para não morrer. (Porque Annie, depois de algumas tentativas de fuga de Paul, decretou que ele não sairá dali vivo).

Como Penélope, na Odisséia, Sheldon finge que está adiantando um trabalho mas, sabendo que concluí-lo é perigoso, passa a sabotar sua própria atividade. 

E o poder meio encantatório que ele tem sobre Annie, sua carcereira e carrasca, parece um pouco com aquelas flautinhas ou rabecas mágicas dos contos folclóricos: o herói toca o instrumento ao ser atacado por dragões ou guerreiros, e põe os atacantes para dançar sem parar. O problema é que ele também precisa tocar sem parar, porque no momento em que fizer uma pausa o dragão ou os guerreiros vão fazê-lo em pedacinhos.

Será que Stephen King tem consciência da persistência da memória oral, desses contos populares com mil anos de idade, nos romances que escreve? 

Pode ser. King não é inculto nem “naïf”. Suas entrevistas são articuladas e interessantes, e seu livro Dança Macabra, sobre a evolução da história de terror na literatura e no cinema, é impecável, mostrando um sujeito que sabe ir direto ao que importa, numa história. 

King não é um estilista, não é um literato, não é um pensador. Tem uma imaginação mórbida e doentia demais para meu gosto. Mas é um animal literário, no sentido de ser um contador de histórias nato, aquele que, no instante do arrebatamento criativo, faz com que brotem dentro de si imagens e histórias que ele pensa serem criações suas, e o leitor também, mas que são apenas testemunhos do quanto o nosso Inconsciente é coletivo, e é quem manda na literatura popular.





1210) Canções de cidade (28.1.2007)



Como sabe o leitor, estou em plena campanha visando à redefinição dos gêneros da MPB a partir das letras, e não dos ritmos. Abaixo essa besteira de samba, xaxado, hip-hop. Que tal classificarmos as músicas pelo que elas efetivamente dizem, e não pela gratuita variação de padrões percussivos? Vejamos o exemplo de hoje: Canções de Cidade. Poderíamos encher um Napster inteiro só com canções que homenageiam cidades famosas ou obscuras, reais ou imaginárias. Está na memória racial da Humanidade, há milênios. É algo com mais tradição do que a valsa ou os blues.

Há cidades óbvias pela sua beleza ou sua importância histórica, portanto não vou perder tempo enumerando canções que celebram Paris, Nova York, Rio de Janeiro ou Campina Grande. Prefiro as canções onde alguém canta uma cidade que nunca nos tinha passado pela cabeça. Uma das cidades mais vilipendiadas de nosso país é São Paulo, mas o amor por ela gerou jóias como "Sampa" de Caetano ou "São São Paulo Mon Amour" de Tom Zé. São “canções de migrante” ao contrário: o migrante celebrando o lugar onde foi parar, e não o lugar de onde partiu. Algo parecido com que fez o exilado Caetano em “London, London”.

É natural que um compositor celebre a cidade em que nasceu, daí termos Ataulfo Alves falando de Miraí, Antonio Maria falando de Recife, Ednardo e Fagner falando de Fortaleza, Lennon & McCartney celebrando Liverpool através de “Penny Lane” ou “Strawberry Fields Forever”. Mas prefiro lembrar surpresas como Chico Buarque fazendo uma canção de ficção científica para a cidade natal de Zé Ramalho, Brejo do Cruz (embora ele intitule a música “Brejo da Cruz”). Garotos que comem luz, que voam pelos céus do Brasil, que viram mutantes nas grandes metrópoles... Uma homenagem indireta ao nosso bardo rock-surrealista, talvez, através da celebração do seu lugar de origem.

A improvável Londrina ganhou uma canção homônima de Arrigo Barnabé, defendida num festival por Tetê Espíndola: “Nuvens vermelhas no céu / na terra, silêncio...” Curiosamente, esta música aparece em vários saites atribuída a Eduardo Dusek. Outra curiosidade é a canção “Maringá” de Joubert de Carvalho, que cita uma cidade paraibana (Pombal) e batizou uma cidade paranaense. A famosa “Petrolina e Juazeiro”, regravada e recantada Brasil afora, consegue diplomaticamente celebrar as duas cidades separadas por um rio e unidas por uma ponte. Milton Nascimento homenageou sua “Três Pontas”. Chuck Berry homenageou “Memphis, Tennessee”. Leiber & Stoller celebraram “Kansas City”, gravada até pelos Beatles.

Celebrar uma cidade não é apenas fazer uma canção ufanista, mas capturar em letra, melodia e ritmo alguma coisa do espírito dessa cidade, o suingue local, a fala das ruas, o som do sotaque, o balanço de seu ritmo urbano, o sentido de suas casas e suas cores, mesmo quando a canção é sofrida, quando fala da distância entre a cidade e o poeta, que afinal é a distância entre qualquer cidade e cada um de nós.

1209) No reino da Dinamarca (27.1.2007)



Acabei de ler um artigo publicado no respeitável British Medical Journal. Na verdade, não sei se é tão respeitável assim, mas, com este título, permito-me ceder à mais conciliatória forma de preconceito, que é render homenagem imediata à pompa e à autoridade. Enfim: o BMJ afirma, num artigo assinado por dois cientistas dinamarqueses e um alemão, que os dinamarqueses são o povo mais feliz da Europa. O artigo está em: http://www.bmj.com/cgi/content/full/333/7582/1289. E não é só isto. Esta posição vem sendo ocupada pela Dinamarca desde 1975, nas pesquisas do chamado “Eurobarômetro”, com os habitantes da Holanda, Luxemburgo e Suécia revezando-se no segundo lugar.

Os dados podem ser conferidos também no “Mapa da Felicidade Mundial” divulgado pela Universidade de Leicester, que classifica o grau de bem-estar subjetivo dos países de acordo com um sistema de cores numa escala de seis, que vão de Infeliz (amarelo claro) a Feliz (vermelho escuro). Neste caso, vale a pena notar que os países mais felizes, além dos escandinavos, são os EUA e Canadá, Austrália, Nova Zelândia e alguns outros europeus. A Argentina, na segunda faixa, é mais feliz que o Brasil, que está na terceira.

No artigo do BMJ, os cientistas descartam fatores como genética, cor do cabelo (parece que na Europa se crê, por um consenso difuso, que os louros são mais felizes), alimentação, clima. Certa importância é dada à comida: os três países mais felizes de acordo com o Mapa de Leicester (Dinamarca, Suíça e Áustria) têm algo em comum: uma culinária meramente utilitária e sem imaginação. Anotem e meditem, amigos gastrônomos.

Os dinamarqueses estão entre os povos que consomem mais álcool e tabaco na Europa; têm altos índices de casamentos e de divórcios; têm uma das maiores taxas de fertilidade européias; praticam muito os exercícios, principalmente bicicleta. Será que isto influi ou contribui? Os cientistas também registraram que depois que a seleção dinamarquesa tornou-se campeã da Europa em 1992, derrotando a Alemanha, o gráfico da felicidade nacional deu um pulo para cima e nunca mais desceu.

Um parágrafo no final do estudo, no entanto, nos dá o que pensar. Dizem os profs. Christensen, Herskind e Vaupel:

“Foi sugerido que há uma relação com boas expectativas sobre o futuro, mas se tais expectativas são exageradamente altas podem também se tornar uma fonte de desapontamento e baixa satisfação. Os dados do Eurobarômetro remontam a 1980 e mostram que os dinamarqueses, embora satisfeitos, mantêm suas expectativas para o futuro bastante baixas, abaixo da média. Em contraste, Itália e Grécia, com índice mais baixos do que os deles, têm expectativas altas para o ano que vem. (...) Os dinamarqueses exprimem sua satisfação com a vida com a expressão “lige nu”, que significa “por agora”, e expressa a idéia de que ‘por enquanto estamos felizes, mas talvez não dure muito”. Quando acabar, é o brasileiro que vive para o aqui-e-agora!

1208) “Henry e June” (26.1.2007)



Vi no DVD este filme de Philip Kaufman, que narra o período, no início dos anos 1930, em que o americano Henry Miller e a francesa Anaïs Nin se conheceram em Paris, tiveram um caso amoroso e decolaram em suas respectivas carreiras literárias, ambas fortemente marcadas pelo erotismo. O filme poderia chamar-se Henry e Anaïs, mas o título que tem rende homenagem a June, a esposa americana de Miller, a qual durante muito tempo fez programas para sustentar a literatura do marido, que ela considerava um gênio. As duas mulheres executam em torno dele um complexo bailado de idas e vindas, atração e ciúme. Seu comportamento soa curiosamente reprimido e problemático, numa época permissiva como a nossa. Naquele tempo, as revoluções sexuais eram revoluções morais, porque os indivíduos se sentiam na obrigação de justificar moralmente seus atos. Hoje, o sexo tornou-se uma mercadoria como qualquer outra, mesmo quando não envolve dinheiro vivo. É moeda-de-troca nas relações de poder, de fama, de controle social. A imprensa descreve Henry Miller como “um dos pioneiros da liberação sexual de nossa sociedade”, mas se Miller visse o preço dessa liberação, pediria eutanásia.

Anaïs Nin é interpretada por Maria de Medeiros, atriz portuguesa com tipo de Betty Boop e enormes olhos expressivos. June é Uma Thurman, longa, esguia, problemática, depressiva. Miller é Fred Ward, que tem uma certa semelhança física com o escritor e cujo olhar de permanente deboche tem algo da sua impudência naquela época. Miller é um autor execrado pelas feministas, por sua masculinidade agressiva, escrachada, polígama. Sua obra foi um corte definitivo entre os conceitos de amor e de sexo, coisa que os autores (e autoras) de temperamento romântico jamais lhe perdoaram. Miller defendia a idéia de que o sexo é bom, é natural, é legítimo, e que o compromisso entre as partes se encerra quando elas saem da cama. Por outro lado, Miller dizia que a sociedade americana transformava tudo em mercadoria e em jogo de poder, e que o sexo deveria afastar-se disso, ser vivido fisicamente, duas mentes e dois corpos voltados um para o outro.

J. G. Ballard via em Miller o apogeu da literatura operária, da literatura feita por sujeitos simples, sem formação sofisticada, autodidatas, que se acham no direito de viver a vida como lhes dá na telha e de escrever uma literatura própria, sem se preocupar com modelos. Seus livros mais conhecidos são os “Trópicos” (de Câncer e de Capricórmio) e a trilogia da “Crucificação Encarnada” (Sexus, Plexus e Nexus). Não se espere de Miller a criação de tramas originais ou a descrição de personagens memoráveis. Sua literatura é um relato pessoal, centrado no próprio Eu, como um livro de viagens. Foi chamado de barroco, de beatnik, de surrealista, de pop. Tinha um pouco disto tudo, mas sua obra foi acima de tudo um dos maiores auto-retratos literários de seu século.

1207) Usina de Sonhos (25.1.2007)



Essa noite eu estava numa cidade qualquer com amigos, de madrugada, fazendo farra. Fizemos tanto barulho na rua que a polícia veio e nos levou para a delegacia, onde um delegado nos passou uma descompostura, dizendo que aquilo não era papel para jovens de família, e ameaçando fazer-nos passar a noite no xilindró. Eu estava meio de banda, sem dar muita atenção, e, para me distrair comecei a improvisar um repente, dizendo em voz alta: “Eu sou tão pobre / tenho um par de chinela / um paletó de flanela / pra fazer comida fria”. O verso saiu tão ruim que acordei, sobressaltado.

De vez em quando me acontece compor versos inteiros, geralmente sextilhas ou versos de embolada, durante um sonho. Imagino que jogadores de futebol sonhem que estão batendo um escanteio, e que mecânicos sonhem que estão às voltas com um platinado ou um virabrequim. Faz parte dos resíduos do cotidiano que a mente reprocessa durante o sono. Dizem algumas teorias psicológicas que quando dormimos o cérebro age como um caixa de Banco ao encerrar o expediente: dá uma geral em tudo que foi feito, verifica se não houve algum erro, joga fora o que não presta mais, arquiva no devido lugar as coisas que podem ter alguma importância. Esta seria, dizem os especialistas, uma das principais funções do sono e do sonho. Pessoas com privação de sono são acometidas, depois de certo tempo, de surtos de amnésia. Por que? Porque seu processo de “salvar arquivos” foi interrompido.

Ora, depois das 16:00 horas o caixa do Banco não se limita a salvar arquivos. Enquanto faz isto, ele conversa com os colegas, escuta MP3 no Ipod (se o gerente for gente boa), atende o telefone, fala da vida alheia. No caso do nosso cérebro, a função organizadora de memórias atua em paralelo com as outras funções, entre elas o que eu chamo de “função fantasista” ou “função fabulatória”, aquela que nos faz inventar pequenos episódios que não aconteceram, a partir de detalhes que vemos ou lembramos.

Fazemos isto o tempo inteiro quando estamos acordados. Às vezes, temos três convites para sair à noite: cerveja com amigos, cinema com a namorada, festa na casa de Fulano. Temos que escolher apenas um, e no processo de escolha criamos pequenas ficções antecipatórias para avaliar qual das opções é mais promissora. Imaginamos velozmente, em cada caso, como vai ser, como vamos chegar no local, quem poderemos encontar, as situações que podem surgir, o grau de diversão e de prazer de cada uma. E este sistema de criar historinhas nos ajuda a tomar decisões.

Durante o sono, inventamos situações, só que desta vez não é a mente consciente que cria, a mente voltada para administrar nossa relação com o mundo exterior. Desta vez quem cria não é o médico, é o monstro. No bom sentido, claro: o monstro é essa coisa torta, barroca, gigantesca, descomedida, a que o médico chama “o Inconsciente” e que deveríamos ter a coragem, como Augusto dos Anjos, de chamar apenas, em letras garrafais: EU.

1206) A ciência no escuro (24.1.2007)



Li uma receita infalível para perder peso. Não lembro os detalhes mas vou reinventar. Você pega um “santinho” de São Tomás de Aquino, benze na igreja com água benta, tranca durante 24 horas numa caixinha, junto com um grão de milho, um de arroz, um de feijão, e um galhinho de arruda. Depois, forre uma esteira no chão, coloque o “santinho” embaixo, e faça 100 flexões abdominais. Repita isso durante um mês, diariamente, não esquecendo de rezar um Pai Nosso no fim de tudo, e de doar no fim do mês 50 reais para uma instituição beneficente. É tiro e queda: você vai perder alguns quilos.

Não sei se ficou engraçado, mas não importa. Durante milênios a Medicina (assim como muitas outras práticas científicas) funcionou deste jeito, e em muitos aspectos é assim que ainda funciona. Em casos mais enigmáticos, que fogem ao feijão-com-arroz, temos um vago palpite sobre o que está afligindo o paciente, e aí tomamos uma série de providências, cruzando os dedos e rezando para que algum daqueles detalhes funcione; e às vezes funciona. O médico cura o sujeito, mas ele mesmo não sabe como, porque no estágio de conhecimento em que se encontra, todas aquelas providências são plausíveis, todas têm algum tipo de justificação. Houve um tempo (lembram-se do Dom Quixote?) em que não existiam médicos propriamente ditos. Quando um sujeito estava doente, chamava-se um barbeiro e este fazia uma sangria no enfermo, abrindo uma veiazinha e tirando-lhe alguns decilitros de sangue. Hoje parece absurdo, mas vai ver que em casos como pressão alta ou infecção localizada isso podia até ter um efeito positivo.

É o que me vem à mente quando vejo atividades extremamente subjetivas como a Cientologia (ou Dianética), a Meditação Transcendental, a Terapia Primal e assim por diante. Fazem um bem enorme a uma porção de pessoas, mas macacos me mordam se eu (ou qualquer dos envolvidos) puder apontar o dedo e dizer exatamente por quê. Todas elas me parecem tiros no escuro, tentativas de mexer com coisas que nunca conseguimos enxergar em sua totalidade, coisas de comportamento imprevisível. É como jogar bilhar no escuro, num navio. Quem foi que disse que a gente não encaçapa uma bola de vez em quando?

A Psicanálise é colocada nessa lista ainda hoje, mais de cem anos após seu início, por muita gente cética que não bota muita fé nas suas premissas e nos seus métodos. Nunca fiz psicanálise e lamento ter lido pouco sobre o assunto, mas como todo sujeito verbal tenho curiosidade por um método que examina o discurso verbal do paciente para perceber sintomas, e promove a cura através de estímulos verbais. Psicanálise é Literatura. O paciente chega com uma história troncha no juízo. O médico escuta, e ajuda o cara a recontar aquela história de uma maneira não-troncha, percebendo e eliminando as tronchuras. É uma forma de crítica literária que lida apenas com Autobiografias, ou Memórias.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

1205) Os piratas analfabetos (23.1.2007)



Chegam-me à razão de uma dúzia por dia, pela Internet. São mensagens contendo vírus, programas executáveis que depois de entrar no seu computador irão apagar o disco rígido, roubar senhas bancárias, etc. Mas o problema dos piratas internéticos é semelhante ao dos vampiros nas histórias de Drácula. Se o leitor está em dia com suas leituras de Bram Stoker, deve lembrar que um Nosferatu nunca pode entrar pela primeira vez na casa de alguém sem ser convidado por alguém da casa. A partir daí, entra e sai à vontade; mas para a primeira vez precisa de autorização. Esta é uma metáfora sutil e poderosa para certas manifestações do Mal. Elas só grudam em nós quando o permitimos.

Pois assim são os vírus: programas daninhos que para invadirem nosso PC precisam de uma autorização, ou seja, de um clique. Todas estas mensagens desembocam na famosa frase “CLIQUE AQUI”. São mensagens falsas do Submarino informando uma compra caríssima e dizendo que se quisermos cancelar a compra basta clicar aqui. Mensagens oferecendo vídeos de Daniela Ciccarelli dançando o galope da beira do mar. Mensagens oferecendo fotos das vítimas da cratera do metrô de São Paulo. Mensagens dizendo que nosso nome está no SPC e que para saber o motivo basta “clicar aqui”. Mensagens (esta é do tempo do escândalo do Mensalão) dizendo que o deputado Roberto Jefferson foi assassinado e que para ver as fotos do corpo basta clicar aqui.

Existem também os famigerados “VoxCards”, e os cartões sentimentais enviados por “Seu Amor” ou “Alguém Que Te Ama Muito”. Existem ofertas de fotos de turmas escolares, onde o remetente sempre fala que a gente está meio de lado, junto de uma árvore, e pergunta se a gente reconhece alguém. Existem as falsas mensagens do nosso Banco (ou de um Banco onde nunca tivemos conta) avisando de algum problema grave ou pedindo atualização de cadastro. Existem as mensagens dizendo “você está sendo traído, estou enviando as fotos feitas num motel, clique aqui”.

Meu caro leitor: nunca clique ali. Eu prefiro o risco de apagar mensagens enviadas por amigos do que clicar num troço desses. Cliquei uma vez para visualizar um cartum do saite Humortadela, e o técnico teve que ficar aqui do meio-dia às 3 da tarde consertando o estrago. O que me consola é que 99% dessas mensagens se auto-entregam: são redigidas por capadócios precariamente alfabetizados. Nunca vi uma mensagem pirata que não tivesse erros de ortografia, mesmo quando estão cheias de logotipos da Microsoft ou do Bank of Boston. Eis um exemplo recente: “Aconteceu um terrivel acidente envolvendo um membro da sua familia sei que essa nao e uma boa maneira de se dizer isso mais enfim e melhor que fique sabendo, prezenciei as imagens de como ficou a situação do carro e da pessoa e tirei algumas fotos se quiser dar uma olhada nas fotos estao aqui as fotos -- VISUALISAR F0T0S”. Não precisa ser Zarinha nem Anésio Leão pra perceber que é golpe. Não clique ali.

1204) O crime “naïf” (21.1.2007)




(Pulp Fiction)

Você gostaria, caro leitor, de mergulhar nos desvãos mais recônditos da mente humana, de desvendar os seus segredos mais contraditórios, de ter acesso aos seus mistérios mais sutis? Pois basta ler os jornais. É nestas humildes e farfalhantes páginas que a Humanidade acaba revelando, geralmente a contragosto, o que tem de mais incrível, mais espantoso, mais paradoxal. 

As notícias de crimes, por exemplo, não têm a nos revelar apenas as estratégias de guerrilha do tráfico de drogas ou a explosão cega da raiva mal administrada. Elas nos mostram também episódios de inocência e candura capazes de provocar a incredulidade de leitores mais céticos.

Em 1997, na cidade japonesa de Ishioka, um casal de jovens de 17 e 16 anos entrou num Banco com a intenção de assaltá-lo. O rapaz puxou a faca que trazia oculta, abordou um cliente e anunciou o assalto. O cliente olhou-o de cima a baixo, deu de ombros, e continuou a fazer o que estava fazendo. O garoto foi até o caixa e voltou a proclamar o assalto. Nisto, sua namorada começou a arengar com ele, dizendo em altas vozes que ele era incompetente até para assaltar um banco. Os dois começaram uma briga-de-namorados que não foi interrompida nem mesmo pela chegada da polícia. Foram levados num camburão, onde continuaram a “discutir a relação”.

Em 2002, um rapaz chamado Katsuhiro Sekine entrou armado numa loja de conveniência em Hitachi, e anunciou um assalto. Quando o balconista lhe entregou 10 mil ienes, ele começou a queixar-se de que esquecera de pôr uma máscara, que seria facilmente identificado, e que era melhor entregar-se logo. Pediu ao balconista que ligasse para a polícia, pegou o fone e ficou conversando com um investigador até que o camburão veio e levou-o embora.

Entre 1996 e 2003, Noboru Ohashi foi preso após realizar numerosos furtos em apartamentos, entrando pela janela. Como tinha medo de alturas, fazia isto com um paraquedas às costas. O jornalista pergunta: Qual é a chance de um paraquedas abrir quando você cai de uma altura de cinco andares? Não ficaria mais difícil de carregar o produto do roubo, com aquele volume às costas? E quem não teria sua atenção atraída por um cara que anda na rua usando uma mochila de paraquedas?

Estes casos (e outros, comentados num artigo de Ed Jacob, “The Ten Dumbest Criminals in Japan”) mostram que no crime, como em outras atividades, inclusive a criação artística, é muito grande o número de pessoas que ouviram o galo cantar mas não sabem onde. 

O criminoso que sai no jornal é geralmente um sujeito que fica ouvindo falar de gente que deu um golpe e se deu bem – e acha que ele pode fazer o mesmo. 

A seqüência inicial de Pulp Fiction de Tarantino mostra um casal decidindo se vale ou não a pena assaltar a lanchonete onde estão; guardadas as proporções, não são muito diferentes dos assaltantes jovens do banco de Ishioka. Existe também o criminoso “naïf”, o criminoso primitivo cuja pureza chega até a comover.