sexta-feira, 14 de agosto de 2009

1200) "O Fim da Infância" (17.1.2007)


(a tradução portuguesa, na "Colecção Argonauta")

Em seu romance com este título, Arthur C. Clarke lançou uma idéia perturbadora: o Diabo não existe, mas é nosso amigo. No livro, a Terra é invadida logo no início por uma frota de imensas espaçonaves alienígenas. Com um poder tecnológico que não podemos nem imaginar, os extraterrestres inviabilizam qualquer tipo de reação. Desativam nossas armas, apossam-se de nossas telecomunicações, e deixam a humanidade inteira, em termos práticos, de pés e mãos atados, totalmente à sua mercê. E isto sem nem sequer desembarcar: suas naves ficam pairando, fechadas e inacessíveis, por cima das maiores capitais do mundo. A partir daí, eles começam um paciente trabalho de desmonte de nossa estrutura bélica e de resolução de nossos problemas de infra-estrutura. O mundo passa por uma revolução benéfica como jamais conhecera. Só que os benfeitores continuam ocultos em suas naves, recusando-se a aparecer. Dizem eles que a Humanidade ainda não está pronta para encarar sua aparência física, e que só se mostrarão depois de transcorridos cinquenta anos.

Quando o prazo se esgota, as naves pousam, as portas se abrem, e eles surgem. E sua aparência é a reprodução exata da imagem tradicional do Diabo: são altos, peludos, com chifres na cabeça, cauda pontiaguda, etc. e tal. Eles explicam que não é coincidência. São oriundos de um planeta parecido com a Terra, por isto parecem uma mistura entre humanos e animais terrestres. A imagem ameaçadora do Diabo gerada em nossa cultura corresponderia à memória remota deixada por eles em outras visitas ao nosso planeta.

Clarke, que em 2001 nos deu alienígenas misteriosos, elusivos, que nunca se deixam ver, parece divertir-se com esse jogo de imagens entre Ciência e Religião. Para ele, o que chamamos de Deus ou de Diabo são criaturas de civilizações impensavelmente superiores. Todo o nosso panteão de divindades não passa de reflexos deixados por esses seres. Clarke representa a visão cientificista ocidental, para a qual tudo que chamamos hoje de religião, mitologia, misticismo, superstição, etc. são versões rudimentares de um conhecimento do mundo que irá pouco a pouco caducando e sendo substituído pelo conhecimento científico. Clarke é um Iluminista do século 20, um sobrevivente heróico daquela época em que o Ocidente embriagou-se de racionalidade e deu à Razão a tarefa de explicar tudo.

Para Clarke, a humanidade de hoje vive ainda a infância da espécie. Chegará o momento em que os Adultos da Galáxia nos tirarão do berço e nos adaptarão com cuidado ao seu mundo. Ele disse certa vez que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. E nesses dois livros parece dizer que os extra-terrestres distantes e poderosos são a verdadeira face de Deus. Ou do Diabo.

1199) Gangsterismo, comércio e política (16.1.2007)




Alguém já disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. Esta frase dá a entender que a política é o estado normal das relações humanas, e a guerra uma aberração.

Historicamente, contudo, é o contrário. O homem primitivo guerreava primeiro, negociava depois. A política veio ajudar a sobrevivência da espécie, evitando que as tribos se exterminassem mutuamente. A guerra é o estado "normal", "natural", instintivo do ser humano. É a compulsão de quando ver uma coisa de valor agarrá-la e sair correndo, a compulsão de quebrar a cabeça de quem discorda de nós, a compulsão de violentar, de pegar na marra, de apoderar-se do que interessa e exterminar os recalcitrantes.

A guerra é simplesmente isso -- de forma organizada e científica; mas a política é a civilização. Por mais que a classe política esteja em baixa cotação no Ocidente, nunca ela foi tão necessária. Quando a política se revela incompetente a guerra retorna, como um monstro de filme B.

O gangsterismo é uma forma intermitente de guerra, é o capitalismo reduzido a sua expressão mais rude. É o comércio abrindo mão da política e recorrendo à guerra: coagindo os fregueses, fuzilando os concorrentes, roubando a mercadoria alheia.

Não existe uma diferença essencial entre os traficantes dos morros cariocas, os chefões da Máfia americana, e muitos vultos históricos ilustres que em séculos passados promoveram a ferro e fogo a expansão comercial da Europa pelo resto do mundo.

O seriado da TV-Globo Cidade dos Homens, com os atores garotos "Laranjinha" e "Acerola", mostrou certa vez uma cena magistral em que um dos garotos, tendo que explicar as Guerras Napoleônicas na escola, interpretou-as pelo linguajar do morro: "Aí -- o cara tinha uma boca-de-fumo irada, mas o cara da boca vizinha quis invadir a boca dele, aí ele juntou os caras, invadiu lá, barbarizou, tomou a boca do outro..."

A política (em sua área legislativa e judiciária) é a arte de estabelecer controles recíprocos entre a sociedade e o Estado, para que nenhum dos dois tome as rédeas nos dentes e desembeste. Quando a sociedade perde o controle do Estado, ele vira ditadura armada, rodeada por uma burocracia deficitária e obesa. Quando o Estado perde o controle da sociedade, o gangsterismo campeia, porque as oportunidades de lucro rápido e ilimitado são muitas.

Entre 1964 e 1984, o Estado fez o que quis no Brasil. Daí em diante, por um compreensível movimento pendular, o liberalismo tomou conta. Ora, o gangsterismo não é mais do que o liberalismo com super-poderes. É quando o "laissez faire" se transforma em "liberou geral", que rapidamente degenera em "cada um por si", o qual logo desemboca no "salve-se quem puder".

Estamos agora no penúltimo destes estágios, em que o Estado, apodrecido por dentro e enfraquecido por fora, não governa mais nem a si mesmo, e todo mundo se acha no direito de invadir a boca-de-fumo do vizinho.

Quando o comunismo acabou na URSS, ela foi invadida pelo capitalismo em sua versão mais predatória: o gangsterismo. O Estado soviético perdeu o esqueleto militar e ideológico que o sustentava, e desmoronou. As máfias e quadrilhas campeiam. A Rússia de hoje é um trailer do que serão os países aqui do Ocidente quando o sistema capitalista internacional quebrar de vez daqui a algumas décadas. Acho que não estarei mais por aqui, embora isto não me sirva de consolo.






1198) As oferendas ao Minotauro (14.1.2007)



Quando o filme Cazuza estava em cartaz, li num jornal a carta de um leitor perplexo diante do culto que, segundo ele, nossa sociedade prestava à figura de um jovem pelo simples fato de ele ter sido homossexual, ter usado drogas e ter morrido de Aids. "Será que não temos exemplos melhores para exibir aos nossos filhos?", perguntava o aflito missivista. 

Eu entendo essas preocupações, mas discordo do diagnóstico final. Cazuza não é um cais do porto, é um farol; não é um exemplo, é um alerta. O que se celebra em torno de Cazuza é o mesmo que se celebra em torno de um piloto como Ayrton Senna ou de um alpinista como Vitor Negrete: o sacrifício voluntário de uma vida jovem no altar de uma religião inexplicável. 

Um dos mitos que cercam a figura do Minotauro de Creta diz que todos os anos a cidade de Atenas tinha que oferecer sete rapazes e sete moças para serem devorados pelo monstro. Este sacrifício parcial evitava que Atenas inteira fosse destruída por Creta, que era então militarmente superior. 

Algo parecido ocorre com os deuses-monstros que adoramos em nossa era tecnológica e industrial: a Guerra, a Droga, a Máquina, o Número

No centro de cada um deles existe um buraco-negro exercendo uma atração irresistível sobre quem se aproxima demais. Depois de ultrapassado um certo limite, não existe volta. E quem ousa aproximar-se desse limite são justamente alguns dos nossos jovens mais brilhantes, mais inquietos, mais corajosos, e, infelizmente, porque tais características muitas vezes insistem em vir juntas, mais imprudentes, mais autoconfiantes, mais egoistamente suicidas. 

Sacrificamos jovens no altar da Guerra porque ela nos traz a ampliação de territórios, a humilhação dos inimigos, a garantia de uma paz temporária. 

Sacrificamos jovens à Droga porque ela nos garante o êxtase dos paraísos artificiais, e para que um milhão possam conviver com a droga e desfrutá-la vale a pena perder sete rapazes e sete moças por ano. 

Sacrificamo-los também à Máquina, porque para criá-la e domesticá-la é preciso haver cobaias que extraiam dela o máximo, expondo seu poder e seus limites, ainda que explodindo mais cedo ou mais tarde. 

Sacrificamo-los ao Número: porque precisamos de façanhas que robusteçam nossa auto-estima como povo: somos nós o povo que foi mais longe, o que fez mais rápido, o que tem mais força, o que acerta mais vezes. 

Não sei o que responderiam os pais de Cazuza ou os de Senna se lhes fosse dado escolher que seus filhos vivessem vidas banais, felizes e pacatas até os 80 anos de idade. É uma dura escolha: é melhor ser um Mito, ou ser meramente feliz?. Todos os anos o Acaso sorteia os sete jovens com que pagaremos o tributo às forças que movem ou que inebriam nossa civilização. Por isto os admiramos: porque o destino de cada um nos mostra o umbral que não é possível cruzar vivo.





1197) O ovo e a galinha (13.1.2007)



Dois cientistas estão discutindo (chamemo-los Dr. Trurl e Dr. Klapaucius) uma questão fundamental para a Ciência: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Não é uma questão tão ociosa quanto parece à primeira vista. Para além de seu teor biológico ela envolve uma profunda carga alegórica que o caro leitor, espero, irá descortinando aos poucos. Diz Trurl: "Tenho o palpite, caro colega, de que a galinha surge primeiro. Ovos são postos por elas. Como, então, conceber a possibilidade de um efeito sem sua causa necessária e suficiente?" Klapaucius discorda: "Meu bom amigo, estás à deriva do rumo de nossa discussão. A seguir teu argumento, teríamos que supor a existência de uma galinha surgida do nada, ou talvez, como a deusa Palas-Atena, nascida já adulta da coxa de seu pai, o todo-poderoso Zeus. Ora, as deusas gregas não costumam ceder à plebe galinácea as mesmas mordomias metafísicas com que são contempladas pelos roteiristas da mitologi popular. Segue-se, portanto, que para cada galinha há que haver um ovo que a preceda".

A discussão entre Turl e Klapaucius é a que vem se estendendo há milênios, mas ao que parece o nó górdio acaba de ser cortado por uma equipe formada por um geneticista, um filósofo e um granjeiro. (Não, não é piada, daqui em diante estou falando sério) O Prof. John Brookfield, da Universidade de Nottingham (Inglaterra) bateu o martelo afirmando que existiam ovos de galinha antes de galinhas existirem. A galinha, segundo ele, não passaria de uma mutação de um animal pré-existente; como o material genético de um animal não muda durante sua vida, quem pôs o ovo não foi uma galinha (e sim algum tipo de ave pré-existente), mas o embrião no interior do ovo já cresceu vítima (ou beneficiário) da mutação que o tornaria, ao romper a casca, a Primeira Galinha.

Isto corresponde à modesta resposta que eu, cá por mim, sempre dei à questão em pauta. Parece-me que antes das aves havia no mundo répteis, os quais punham ovos, os quais por conseguinte seriam mais antigos que qualquer ave. Os espertinhos deveriam formular melhor a pergunta clássica, dizendo: "O que surgiu primeiro, a galinha ou o ovo de galinha?". Porque ovos de répteis, meu camarada, já existiam há milhões de anos.

Concordam comigo o filósofo David Papineau (do King's College de Londres) e o criador de aves Charles Bourns. Os ovos são muito mais antigos. Papineau afirma: "Pouco importa se quem pôs o primeiro ovo de galinha, ovo mutante, não foi uma galinha. Se o que emergiu dele foi uma galinha, era um ovo de galinha. Se um canguru pusesse um ovo e de dentro dele saísse um avestruz, eu diria tratar-se de um ovo de avestruz, e não de um ovo de canguru". O fato do Prof. Papineau meter um extemporâneo canguru no exemplo confunde em parte a credibilidade da sua argumentação, embora a lógica permaneça intacta.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

1196) Ariano e a música americana (12.1.2007)


(Woody Guthrie)

Na recente entrevista que fez para o Fantástico com Ariano Suassuna, o repórter Geneton Moraes Neto perguntou mais uma vez ao autor da Pedra do Reino o que ele achava de Madona e de Michael Jackson. Digo "mais uma vez" embora não saiba se Geneton já lhe tinha feito esta pergunta. É possível que não, e que não quisesse ser o último jornalista brasileiro a fazê-la. A impressão que eu tenho é de que todo mundo que entrevista o escritor a faz. Por quê? Em primeiro lugar (acho) porque jornalistas pensam que um indivíduo inteligente tem sempre alguma coisa inteligente a dizer sobre um assunto pelo qual não se interessa nem um pouco. Daí ficarem perguntando a atores de cinema o que eles acham da Guerra no Iraque, ou a socialites o que elas acham das pesquisas de célula-tronco.

Em segundo lugar, porque existe um prazer perverso nos entrevistadores em exibir as limitações do entrevistado. Ariano dedicou pouquíssimo tempo de sua vida ao estudo da música pop norte-americana, se é que dedicou algum; e não tem interesse pelo contexto industrial-cultural que a produziu. Dificilmente terá algo de original a dizer a respeito, não porque lhe falte inteligência, mas por absoluta falta de identificação com o assunto. Fico pensando se Guimarães Rosa já teve que dar opinião sobre a música de Little Richard, e se alguém já perguntou a João Cabral de Melo Neto se ele gostava do som de James Brown.

Em terceiro lugar, existe nos jornalistas a atração irresistível pela opinião sincera, dita de maneira curta e grossa. "Detesto. Acho uma idiotice. Não vale nada." Estas expressões são cada vez mais raras na indústria cultural, onde ninguém tem coragem de dizer em público o que pensa do trabalho dos colegas, e deixa para dizê-lo "em off", alimentando as revistas de fofocas. Diante dos microfones, todo mundo gosta de tudo, para não se comprometer. As entrevistas e debates viram uma rasgação-de-seda permanente onde o entrevistado desmancha-se em elogios que soam tão falsos quando as promessas dos políticos ou os elogios da propaganda. Quando aparece um sujeito que diz que não gosta, os entrevistadores se assanham. Não porque estejam a favor do não-gostador ou do não-gostado, mas porque o "não-gostar" é notícia. Tanto é assim que há também os não-gostadores profissionais, os sujeitos que só dão entrevistas falando mal de todo mundo e descendo a ripa no trabalho alheio. Toda regra serve de adubo às próprias exceções.

Se os jornalistas gostam tanto de música americana, por que não perguntam a Ariano sobre a música de Woody Guthrie, o cantador de esquerda que viajou o país inteiro durante a Grande Depressão, cantando e compondo para mineiros, lavradores, operários? Guthrie é tão representativo da América quanto Madona, ou mais. Pode ser que Ariano nunca tenha ouvido as músicas dele; pode ser até que os próprios jornalistas conheçam melhor o "corpus" da obra musical de Madonna do que as canções de Woody Guthrie. O que nos diz coisas interessantes sobre este Brasil tão pressuroso em tomar as dores da música americana.

1195) O avião na esteira rolante (11.1.2007)


(Ilustração: Carlos Magno "Maninho")

Sou um leigo quase total em ciências físicas, o que não me impede de admirar à distância as façanhas dos que as praticam, assim como admiro as façanhas dos ginastas ou nadadores olímpicos via TV. Nunca estudei Física, Química ou Biologia no colégio, pois sou do tempo em que a gente podia optar pelo Curso Clássico ou pelo Curso Científico (claro que optei pelo Clássico). Talvez venha daí, com um certo paradoxo, a minha admiração por estas disciplinas. Porque nunca tive que virar noites estudando mecânica-dos-fluidos ou cadeias-de-aminoácidos e precisando de 7 na prova final. Poupado destes traumas, vejo a Ciência como um mundo de assombrosos mistérios que -- como é grande o poder da Natureza! -- admitem respostas, desde que conheçamos as regras e os processos.

No saite BoingBoing os leitores estão engajados desde dezembro na discussão de um problema simples de Mecânica que me deixa meio embasbacado. Não porque o problema seja difícil; à primeira vista parece fácil. Mas porque os leitores têm se dividido em dois grupos antagônicos, ambos cobertos de argumentos para defender suas respostas. O problema proposto é o seguinte. Suponhamos que um avião comum está pousado sobre uma imensa esteira rolante que tem a largura e a extensão de uma pista de decolagem. O avião liga os motores para dar aquela taxiada inicial, rolar pela pista e levantar vôo. O problema é que a cada distância que ele percorre para a frente a esteira rola o-mesmo-tanto no sentido oposto. O avião conseguirá ou não decolar?

Quem quiser ver a discussão no saite pode ir para: http://www.boingboing.net/2006/12/11/airplanetreadmill_pr.html. Das dezenas de "posts" que li me pareceu que o avião pode, sim decolar. Não me pergunte por quê. O mais importante não é apenas o veredito de sim ou não. É a quantidade de fatores ocultos que estão em jogo. As diferentes possibilidades de atrito entre a esteira e as rodas do avião. O limite de aceleração possível da esteira. O atrito (desprezível, ou não?) dos rolamentos internos das rodas. A natureza da propulsão do jato. As diferentes aplicações da Segunda e da Terceira Lei de Newton. E por aí vai.

Um poeta, desses que se limitam a tirar o chapéu quando cruzam com um cientista na rua, dirá: "Ah, que besteira, esses caras perdem horas discutindo o sexo-dos-anjos". Data vênia, nobre colega! Discutir a possibilidade de um avião decolar em condições fora do comum é algo que pode salvar centenas de vidas, mais cedo ou mais tarde. Em circunstâncias excepcionais (ou seja, num acidente) um piloto tem que já ter pensado nesses assuntos, para poder tomar uma decisão rápida. A vantagem de discutir Ciência é que essa discussão pode salvar nossa vida um dia. A vantagem de discutir Poesia é que de Poesia ninguém morre, então consideremo-la como nosso playground, nossa hora-do-recreio, nossas férias-remuneradas.

1194) O xadrez como arte (10.1.2007)



O valor simbólico do xadrez como estilização da guerra é um lugar comum. Algumas pessoas estão levando isto a um notável grau de estetização. Os artistas Debbie e Larry Kline estão colocando à venda no saite MegaChess (http://www.megachess.com/sunusualstuff.htm) um jogo de xadrez intitulado "The Game at Hand", em que as peças brancas e pretas simbolizam respectivamente a coalizão liderada pelos EUA no Iraque/Afeganistão e os terroristas islâmicos. As peças são feitas manualmente, uma a uma, o que faz com que o jogo completo, incluindo tabuleiro, caixas, etc., custe a pechincha de 4.350 dólares.

O mais interessante do jogo (que aliás não me parece muito "jogável", do ponto de vista de quem vai usá-lo para uma partida de verdade) é a concepção que os artistas dão a cada uma das peças, feitas em cerâmica. Vejamos as Brancas, em primeiro lugar. O Rei é representado por três pilhas de moedas douradas, de diferentes tamanhos, que vistas de certo ângulo parecem duas e lembram um pouco a silhueta do falecido World Trade Center. A Dama ou Rainha é uma reprodução estilizada da Estátua da Liberdade. Visto em conjunto, o casal real é simbólico e expressivo. Os Bispos brancos são representados por duas figuras religiosas: um Papa católico e um Rabino judeu, com vestes longas, bem parecidas. Os dois Cavalos são representados por um tanque e um avião-caça pilotados por dois soldados. As duas Torres são, adequadamente, representadas por duas construções bem sólidas: uma miniatura do Pentágono e outra da Casa Branca. E os oito peões, claro são pequenos soldados de metranca em punho.

E quanto às peças pretas? Aqui vem um pulo-do-gato da imaginação dos artistas. Em vez de tentar encontrar equivalentes aos personagens das peças brancas (sob a forma de minaretes, califas, aiatolás, etc.) eles criaram dezesseis peças pretas praticamente iguais entre si, silhuetas negras vestidas de burka e chamadas de "Extremistas Islâmicos". É impossível distinguir quem é rei, dama, peão, cavalo, torre, bispo... Só é possível saber quem é quem se memorizarmos, ao longo da partida, onde cada peça estava na formação inicial -- o que não é tão difícil assim, para um enxadrista experimentado. Mas é um estresse a mais. E reproduz (pelas intenções dos artistas) a sensação de incerteza permanente de quem combate terroristas.

O xadrez fabricado pelo casal Kline não tem pretensões de jogabilidade, mas de alegoria. Suas peças brancas, representando o Ocidente capitalista, são fortemente individualizadas, distinguíveis entre si, e carregadas de um valor simbólico que se percebe ao primeiro olhar. Já as peças que representam as Pretas, o Oriente misterioso ou “o Eixo do Mal” como afirma George Bush, são incógnitas. Exprimem a ameaça onipresente. Exprimem a impessoalidade de criaturas sobre cuja natureza nunca podemos ter certeza alguma. Exprimem a maior ameaça ao Ocidente: sua imensa ignorância sobre o inimigo que enfrenta.

1193) Treze dias que abalaram o mundo (9.1.2007)



A TV exibiu nos primeiros dias de 2007 o filme Treze dias que abalaram o mundo, um thriller político de Roger Donaldson sobre a crise dos mísseis de Cuba em 1962. Para os que nem eram nascidos na época, basta resumir que os soviéticos instalaram uma base de mísseis atômicos em Cuba, de onde poderiam bombardear os EUA. O presidente John Kennedy ordenou um bloqueio naval a Cuba, e a retirada dos mísseis. Foram dias de negociações tensas, porque muitos oficiais soviéticos e americanos queriam a guerra atômica. Por quê? Meu palpite é que militares passam a vida inteira sendo preparados para a guerra, assim como jogadores de futebol se preparam para jogos. Imagine a inquietude de uma Seleção Brasileira que sabe ser muito boa, muito bem preparada, passa anos e anos treinando... e ninguém deixa ela jogar! Kennedy não deixou os militares americanos jogarem. Fez algumas concessões, os soviéticos retiraram os mísseis, e ficou por isso mesmo.

Os méritos do filme são a narrativa tensa e rápida, o bom elenco, e a impressão de verossimilhança que nos dá, mesmo com o desconto de alguns erros factuais e de interpretação, apontados por alguns críticos. Vemos intermináveis reuniões regadas a café e cigarros, bate-bocas ferozes tanto entre adversários ideológicos quanto entre parceiros que se gostam e se admiram, discussões que rodam, rodam, e voltam à estaca zero. A iminência de uma guerra nuclear tira o sono de todos, e há algo de kafkeano nesse grupo de homens preparadíssimos e poderosos sendo forçados a caminhar, sem poder fazer nada, na direção de um conflito que certamente mataria metade da população do mundo.

A direita norte-americana fez o que pôde para que o conflito fosse resolvido na bala. Os Kennedys (John e Bobby) conseguiram uma saída honrosa. Um ano depois, John foi fuzilado em Dallas; cinco anos após, Bobby também foi morto a tiros. Lembro de uma coluna de Arnaldo Jabor no Pasquim, na década de 1970, em que ele dizia: "Com a morte de Kennedy, a direita americana descobriu que tinha super-poderes. Foi como Superman, garoto, descobrindo que podia erguer um caminhão com uma mão só". Estas palavras têm uma amargura profética quando vemos hoje essa direita instalada na Casa Branca, invadindo países, e afundando-se em atoleiros militares que ela própria criou. O fato do filme de Donaldson ser um hino de admiração aos Kennedys talvez relativize sua crítica (há uma divisão nítida demais entre mocinhos e bandidos), mas, se não serve como documento veraz, que sirva como alegoria.

O mais impressionante é como dois sujeitos como os Kennedys foram simplesmente assassinados em público e ficou tudo por isto mesmo, como em qualquer republiqueta sul-americana. Inventaram dois bodes expiatórios para puxar o gatilho, e pronto. Um país que trata assim dois líderes políticos democraticamente eleitos acaba produzindo crias como Saddam Hussein.

1192) Incompatibilidade de gênios (7.1.2007)



Já falei aqui sobre a importância que teve, na minha infância, o fato de estudar em turmas onde se misturavam alunos de 12 até 20 anos (ver “Meus Ateneus”, 11.12.2005). Essa promiscuidade etária foi sofrida, mas muito educativa. Do mesmo modo, defendo a teoria de que meninos e meninas deviam estudar misturados desde cedo. Separar turmas masculinas e femininas, na infância, só faz isolar esses dois mundos que por si mesmos já são tão diferentes.

Há um artigo de G. K. Chesterton a este respeito, “Two stubborn pieces of iron”, em que ele diz que a co-educação não acarreta o menor perigo de tornar meninos e meninas todos iguais. São diferentes demais, diz Chesterton, são como dois pedaços teimosos de ferro: se quisermos que eles se fundam num só é preciso aquecê-los ao máximo, porque “as diferenças entre um homem e uma mulher são na melhor das hipóteses tão obstinadas e exasperantes que praticamente não podem ser superadas, a não ser numa atmosfera de ternura exagerada e interesse mútuo”. O amor e o desejo sexual atuam, neste caso, como motivações tão intensas que ambos os lados consideram, pela primeira vez, que vale a pena abrir mão de suas verdes convicções e dar um pouco de atenção àquelas criaturas chatas que até então eram objeto de desdém e galhofa.

Criar-se a uma distância excessiva pode produzir lacunas irremediáveis na comunicação. Vejam a Grã-Bretanha, por exemplo. Lá os carros têm o volante do lado direito e rodam no lado esquerdo das ruas e estradas. É uma simples convenção, mas só acontece porque o país é uma ilha. Se não o fosse, a partir de uma certa altura viaturas e estradas estariam se misturando às do país vizinho, e uma das duas convenções teria que se sobrepor à outra. Vejam o caso das concepções geográficas da China: lá, o Norte fica para baixo, e o Sul para cima. Claro que isto não é certo nem errado, é mera convenção, mas fica difícil usar noutro país um atlas impresso na China, mesmo com texto em outra língua. São dois exemplos de por que homens e mulheres pensam diferente.

Homens e mulheres devem ter direitos iguais e deveres iguais perante a lei. As exceções devem atentar para peculiaridades biológicas como gravidez, amamentação, etc. No mais, tudo deveria ser, se não compartilhado, vivenciado à vista uns dos outros, como aliás ocorre na maioria dos nossos colégios. As diferenças culturais são excessivas, enormes. Se os separarmos com um muro, acabaremos tendo de um lado uma horda de Schwarzennegers motorizados, e do outro um desfile de sílfides consumistas. Chesterton (cuja opinião neste caso difere da minha) diz: “É melhor que os sexos se desentendam entre si até se casarem. Não deviam ter conhecimento a respeito um do outro antes de terem a reverência e a caridade”. E neste ponto está certo. Meninos e meninas desentendem-se até o instante em que se sentem atraídos. Somente essa atração pode tornar possível algum tipo de entendimento entre os dois.

1191) Os “ensembles” musicais (6.1.2007)


("América Contemporânea")

Falarei sobre dois shows que vi no VII Mercado Cultural realizado recentemente em Salvador. O primeiro, “América Contemporânea”, reuniu músicos de diferentes países: Brasil (Benjamin e João Taubkin, Siba, Ari Collares, José Miguel Wisnik), Bolívia (Álvaro Montenegro), Venezuela (Aquiles Baez), Argentina (Carlos Aguirre), Chile (Christian Galvez), Colômbia (Lucía Pullido), Peru (Luís Solar). Olhando a ficha técnica o espectador mais cético pensa logo tratar-se de uma colcha-de-retalhos de música folclórica, mas não é o caso. Nada tenho contra o folclore ou contra a estética “colcha-de-retalhos”, mas o show América Contemporânea tem multi-instrumentistas passeando por regiões rítmicas e melódicas de cair o queixo. Tem de tudo, desde jazz até repente. É o tipo de show cuja divulgação se faz em cima de seu caráter pluri-nacional, mas que talvez funcionasse mais ainda se nos fosse possível comprar ingresso, sentar na poltrona e assistir o show sem saber quem é quem, e quem é de onde, entregando-nos ao prazer da música sem adjetivos.

O mesmo não se dá com o outro show, cuja fruição é valorizada pela informação do seu contexto. Durante o espetáculo, o grupo “Imigrassons” nos informa de que ele começou a nascer no Mercado Cultural de 2005, quando músicos de diferentes países, cada qual apresentando um trabalho diferente, começaram a trocar idéias e decidiram montar um espetáculo conjunto tendo como ponto de partida o tema “Migrações”. O grupo foi formado com os espanhóis Raúl Fernandez, Silvia Perez Cruz e Oriol Roca, os argentinos Guido Ivan Martinez Quinzio e Diego Alejandro, e o italiano Giovanni di Domenico. O show tem no repertório apenas cantigas (antigas e recentes) que falam da vida de migrantes, sendo algumas em catalão, outras em espanhol; e os números são intercalados com projeções de entrevistas de espanhóis que migraram para a América e vice-versa.

A criação de grupos ou “ensembles” desse tipo, ou seja, músicos que têm trabalhos pessoais, reúnem-se para um projeto específico, e depois separam-se de novo, tem sido uma tendência interessante das últimas décadas, inclusive no mundo do rock. Na música popular sempre existiram as “canjas”, as participações especiais, os “artistas convidados” que tinham uma presença de destaque no show de algum amigo. Mais recentemente, contudo, isto tem se transformado num formato mais ambicioso do ponto de vista das idéias e da criação musical. Não se trata de um encontro fortuito, mas de um encontro programado, agendado e intenso, mesmo que com prazo fixado para se concluir. Vejo nisto um sintoma de saúde da música popular. Quebra a tirania do grupo de sucesso, e o conceito empobrecedor de “artista exclusivo”. Favorece a troca de informações e de experiências, e multiplica as audiências ao reunir pessoas de diferentes origens, cada qual com seu público já formado. É um capítulo importante numa futura história do que está acontecendo à música de hoje.