terça-feira, 23 de junho de 2009

1120) A arte do quebra-cabeças (17.10.2006)




Todo mundo já brincou de quebra-cabeças na infância. Pode ter sido um daqueles mais simplezinhos, com desenhos da Turma da Mônica. Talvez tenha tido a sorte (eu não tive) de ser promovido àqueles que vejo hoje nas lojas de brinquedos, os famosos “puzzles” de 1.500 peças que mostram enormes castelos medievais ou deslumbrantes paisagens de florestas.

O quebra-cabeças propõe ao jogador o desafio de reconstituir a figura, baseado em dois critérios: a imagem e o corte. O corte das peças (que é padronizado) não coincide com a imagem. Se fosse assim era muito bom – a árvore era cortada em forma de árvore, o cachorro em forma de cachorro, etc. 

Corte e imagem, no quebra-cabeças, são, por definição, mutuamente irredutíveis. Não podem coincidir.

Georges Perec (“A Vida Modo de Usar”) cita o exemplo dos quebra-cabeças artesanais, de madeira, nos quais o artesão corta a peça individualmente, dando a cada uma um formato ligeiramente diferente do formato das outras, mesmo que num primeiro olhar as duas pareçam idênticas. Não há duas peças cortadas de modo idêntico nestes puzzles, e não há dois jogos idênticos saídos da mão do mesmo artista.

Nossa tarefa é encaixar as peças pelos dois critérios. Tem horas em que duas peças se encaixam pelo corte, mas não pela imagem. Tem horas em que parecem se encaixar pela imagem (digamos, dois pedaços de céu azul), mas não encaixam pelo corte.

Esse processo lembra a poesia, que também parece um “puzzle”. Isto pode se dar em dois níveis. 

Numa forma fixa, como o cordel ou o soneto, as frases gramaticais não coincidem com a extensão métrica dos versos e das estrofes. Ficam o tempo inteiro transbordando para a linha ou a estrofe seguinte. Uma das habilidades do poeta consiste em conseguir produzir um texto gramaticalmente fluente e ao mesmo tempo obedecer com rigor aos “cortes” que a métrica impõe ao discurso verbal.

Num nível mais elevado, a "imagem" é o conteúdo, tema ou assunto; aquilo que estamos tentando ler, entender. E o corte são as escolhas feitas pelo artista: as palavras que usou, o modo como organizou frases, versos, estrofes. 

Ler um poema corretamente não é lê-lo em função da “imagem”, embora ela deva estar presente em nossa atenção. Ler bem uma obra literária é lê-la tendo em vista os “cortes” verbais feitos pelo poeta, o seu modo pessoal de recortar a substância do poema, o seu “conteúdo”. Se nossa leitura não satisfizer plenamente esses cortes, será uma leitura errada, de peças que parecem se encaixar, mas não se encaixam.

Perec afirma que o “puzzle”, por estas características, não é um jogo solitário: 

“Todo gesto que faz o armador de puzzles, o construtor já o fez antes dele; toda peça que toma e retoma, examina, acaricia, toda combinação que tenta e volta a tentar, toda hesitação, toda intuição, toda esperança, todo esmorecimento foram decididos, calculados, estudados pelo outro”. 

É assim que o poeta, como um maestro, rege a leitura do poema.



(imagem de Perec recolhida no blog Besta Quadrada, de Halem Souza, Belo Horizonte)




1119) Para encurtar a história (15.10.2006)




Faz uns quinze anos. Eu tinha ido passar o feriadão na fazenda de um amigo, no interior de Pernambuco. Perto de lá ficavam as ruínas de um antigo Engenho abandonado. 

Durante o dia a gente caminhava e tomava banho de rio (era uma turma de oito ou dez pessoas); de noite, cerveja e violão. Depois do terceiro dia ninguém agüentava mais uma rotina tão estafante. Começamos a procurar alternativas. 

O dono da casa sugeriu que ficássemos fazendo hora até meia-noite e fôssemos para as ruínas do Engenho, aproveitando que era noite de lua. Por quê?, perguntamos. Ele explicou que o Engenho era mal-assombrado, e que à meia-noite apareciam coisas esquisitas lá. As esposas (havia várias esposas na turma) disseram que “nem mortas”, e que fôssemos nós, o contingente masculino. Um dos caras piscou o olho discretamente e disse que tudo aquilo era pretexto nosso para um encontro clandestino com algumas moçoilas da vila próxima. Houve um certo reboliço, e, para encurtar a história, acabou indo todo mundo.

O trecho acima é mentira, ou ficção, se quiserem. Inventei-o apenas para enaltecer as virtudes dramatúrgicas desta expressão, “para encurtar a história”, cuja utilidade nunca pode ser superestimada quando se trata da Arte da Narrativa. 

O leitor já terá ouvido referências ao Paradoxo de Zenão de Eléia; se não ouviu na Faculdade, ouviu aqui nesta coluna, que não fica devendo a muitas Faculdades que tem por aí (“O Paradoxo de Zenão”, 24.8.2005). É aquela situação filosófica em que antes de tomar uma decisão o sujeito examina um número tão grande de alternativas ou possibilidades que a decisão nunca chega a ser tomada. 

Do ponto de vista literário, isto se manifesta através de cenas onde personagens estão discutindo algo, e o autor, inebriado pela própria capacidade de saltar da mente de um para a mente do outro, e do outro, e do outro, acaba redigindo uma discussão interminável, cuja primeira consequência é fazer o leitor largar o livro e pegar outro.

Surge então esta agudíssima espada capaz de cortar de um só golpe o mais complicado nó dramatúrgico: “para encurtar a história”. Use-a com parcimônia, caro candidato a escritor, mas use-a sempre que sentir seus pés afundando na areia movediça de uma troca de argumentos onde ninguém consegue desferir o golpe final. 

Voltemos à nossa ficçãozinha aí em cima. Se isso for um conto, é claro que os rapazes e as moças discutiram por algum tempo mas acabaram indo ver o Engenho assombrado, sem o qual não haveria história digna de ser contada, não é mesmo? Botar personagens para discutir vantagens e desvantagens de algo, contudo, é uma armadilha onde a maioria dos ficcionistas novatos cai, e nunca mais consegue sair. Ele mostra um lado, o outro, um lado, o outro... 

Então, chega! O leitor já entendeu. O leitor quer ver serviço. Então, amigo, não hesite. Enfie a mão no bolso do colete, e puxe o papelucho mágico, onde está escrito: “Para encurtar a história...”





1118) O espírito cristão (14.10.2006)


(os Amish, no filme de Peter Weir)

Há alguns dias, nos EUA, um homem chamado Charles Roberts entrou numa escola da comunidade Amish, na Pensilvânia. Mandou todos os meninos saírem. Queria apenas as meninas. Ficaram dez garotas entre 8 e 12 anos. Ele amarrou todas, e atirou nelas de uma em uma, antes de se matar também. Cinco das garotas morreram, outras cinco estão hospitalizadas no momento em que escrevo. As escolas norte-americanas “têm um chama” para esses Exterminadores do Futuro, que agem como se quisessem matar um Messias qualquer mas tivessem que fazê-lo às cegas.

Os Amish são um grupo religioso conservador, concentrado em alguns estados ao Nordeste dos EUA. Eles recusam coisas como a eletricidade, o automóvel, o telefone, etc. Muitos hão de se lembrar do filme A Testemunha, onde Harrison Ford, no papel de um policial disfarçado, vai viver numa destas comunidades para proteger um garoto que presenciou um assassinato. Após o crime da Pensilvânia, um grupo de 30 ou 40 pessoas da comunidade Amish foi ao enterro do criminoso, para prestar solidariedade à família. Quando eu leio uma coisa assim, perco o prumo. Se eu tivesse uma filha de dez anos e ela fosse rendida, amarrada e fuzilada a sangue frio por um sujeito, eu não compareceria ao enterro dele. Faria o possível para comparecer ao linchamento.

Como sou agnóstico na teoria e cristão na prática, é claro que não lincharia ninguém. Sou até contra a pena de morte. Mas descubro que os Amish, com seus chapéus largos, suas barbas soturnas, seus cabriolés negros, são muito mais cristãos do que eu. Li em algum lugar que sua prática religiosa (eles são cristãos anabatistas, de origem suíço-alemã) se baseia em dois conceitos. Um é o de “Gelassenheit”: submissão à vontade de Deus, deixando que as coisas sigam seu próprio rumo; e “Demut”, humildade, que para eles é o contrário de “Hochmut”, arrogância, orgulho, “húbris”. Os Amish cultivam a solidariedade, e sua recusa às máquinas deve-se em parte a acreditarem que estas diminuem a necessidade do trabalho coletivo e do apoio mútuo. Eles rejeitam a competitividade, a vaidade pessoal (não gostam de fotografias), o individualismo.

Vai daí que, depois de sepultadas as suas próprias crianças, eles se aprontam, trocam de roupa, pegam as charretes e vão confortar a viúva e os filhos pequenos do criminoso, porque acham que aquela família, tanto quanto as deles, foi vítima de uma tragédia. Seu senso comunitário os leva a solidarizar-se até mesmo com aquela família que não pertence à sua comunidade, mas que, por causa do crime cometido por um de seus membros, uniu-se a eles. Um antigo e profundo mote de Cantoria de Viola diz: “Chora a mãe do assassino / e a mãe do assassinado”. Um crime de morte é sempre uma tragédia com duas vítimas, porque pior do que morrer, para muitas religiões, é matar. No mito bíblico do primeiro assassinato, quem sofreu mais, a mãe de Abel ou a mãe de Caim?

1117) A linguagem dos sonhos (13.10.2006)




A afirmativa de Sigmund Freud de que a linguagem dos sonhos funde numa mesma imagem objetos contraditórios, é facilmente comprovada. Sempre que alguém conta um sonho, diz coisas como: 

“Eu estava na minha casa, só que minha casa era um navio. Aí chegava minha tia Florisbela, que vinha passar uns dias. A gente começava a arrumar um lugar onde ela pudesse dormir, na sala. Enquanto arrastávamos os móveis para abrir espaço ela me dizia que ia ficar apenas uma semana, mas aí já não era Tia Florisbela, era Madre Teresa de Calcutá”. Ou coisa parecida.

Uma característica do pensamento onírico (e agora estou falando por conta própria, não sei se o Dr. Freud concordaria) é que ele muda de idéia o tempo todo. Nossa mente sonhante começa a dizer uma coisa mas aí pensa melhor e a substitui por outra. 

Há quem ache que isto é feito pela nossa rememoração, depois de acordar; eu acho que ocorre durante o próprio sonho.

Essas substituições absurdas e inesperadas se parecem muito com os processos de idas e vindas durante o trabalho criativo da ficção. Quando temos uma idéia para escrever uma história, essas mudanças são freqüentes: 

“Já sei. Vou escrever um cordel sobre um casal que tem três filhos. Não, três filhos homens é muito clichê. Vou dizer que são três mulheres! Aí todas três têm um sonho que precisam ir num reino distante. A filha mais velha parte, mas aí se perde no caminho e fica presa numa caverna. Não, melhor dizer que ela cai num poço. Aí a segunda filha sai, e é presa por um feiticeiro. Ou melhor: ela é enfeitiçada por ele, mas não percebe. Aí a filha mais nova sai e no caminho encontra três pássaros que querem ajudá-la. Ou melhor: um pássaro, um sapo e um peixe”.

Já falei aqui do estudo de Freud sobre palavras iguais que significam coisas opostas. Isto mostra o quanto a linguagem onírica é literária. Me traz a mente uma frase de Machado de Assis, ao descrever uma mulher já madura: “Uma senhora que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo”. 

Toda a força do trecho reside nesta palavra com dupla negação, à primeira vista desnecessária. Ele poderia dizer: “Ornara os salões do primeiro reinado, e ornava então os do segundo”. Mas reconhece implicitamente que a beleza da dama acusou a passagem do tempo; já não orna tanto quanto antes. Mas ao mesmo tempo se corrige: ora que diabo, já não é mais tão bela, mas também não é feia! Não desorna! 

E esta dupla negação, de braço dado com esse verbo um tanto raro (mesmo dicionarizado, o verbo “desornar” não é de uso corrente) são os sintomas visíveis do processo interno de dúvidas, recuos e auto-correções do autor à medida que a pena corre no papel. Ele vai caminhando, recua um passo, avança dois... 

O resultado é uma palavra pouco comum, resultado de sucessivas interferências. Palavra que é sintoma do vai-e-volta da mente que a gerou, exatamente como as imagens de um sonho.







segunda-feira, 22 de junho de 2009

1116) Polkadot Bikini (12.10.2006)



A canção “Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polkadot Bikini”, gravada por Brian Hyland em 1960, foi provavelmente a primeira que aprendi a cantar em inglês, sem entender uma palavra, mas copiando fielmente a pronúncia dos versos cantados por minha irmã (“Detchiuó fordefês táimtudêi”, etc). Mas o nosso drama não era a pronúncia, era a tradução. Nossos modestos dicionários não davam conta desse título. As únicas palavras encontradas neles (“yellow” e “bikini”) eram justamente as que a gente já sabia. Mas eu hoje cismei dos pés e resolvi traduzir essa butina.

“Itsy-bitsy” é um adjetivo composto quer dizer minúsculo, miudinho, dimensionalmente prejudicado. Deriva certamente do pronome “it” (“ele” ou “ela” neutro, muito usado como objeto: “isto, aquilo”) e de “bit”, partícula, palavra hoje tão freqüente na Informática. Portanto: pedacinhos, aquilozinhos, coisicas. O American Heritage sentencia: “Composto de pequenos fragmentos sem coesão”.

“Teenie” tem definição interessante: “medida de valor representando 1/16 ou 0,0625 de unidade”. Usa-se no mercado de valores: se uma ação subiu “one teenie”, significa que subiu um dezesseis-avos de um ponto. “Weenie” é mais engraçado. É um termo pejorativo para conotações de fraco, pequeno, insignificante, ridículo, etc. Usa-se para dizer “pênis pequeno” por associação com a palavra alemã “wiener”: “uma salsicha de textura lisa, feita de carne de boi ou porco, em geral defumada, servida com rosquinhas”. A origem é o topônimo “Wien” (Viena, capital da Áustria). Um uso moderno de “weenie” é na subcultura da Web, onde o termo designa usuários de forums (em geral adolescentes) que se envolvem em polêmicas agressivas e melodramáticas, postando mensagens em linguagem exagerada. Também significa, em alguns contextos, “ponto-e-vírgula”.

“Polkadot” é um termo de uso corrente, e se refere a tecido, papel, etc. com textura de bolinhas, em padrão geométrico ou irregular. “Dot” significa “ponto”, é claro (“dotcom company” significa uma empresa “ponto-com”, que funciona apenas via Web, sob endereço eletrônico). E o termo “polka” refere-se à polca, ritmo muito popular no século 19, inclusive aqui no Brasil (leiam Machado, crianças). Como esses tecidos de bolinhas surgiram na mesma época, foram batizados em homenagem à polca que rolava nos salões. A propósito, “polca” significa “polonesa”, em polonês.

Portanto, é semanticamente correta (embora poeticamente insatisfatória) a versão brasileira: “Era um biquíni de bolinha amarelinha, tão pequenininho”. Como se sabe, os biquínis são como as estatísticas dos governos: o que mostram é interessante, mas o que escondem é mais interessante ainda. E esta coluna não teria sido escrita sem o saite OneLook Dictionary (em: http://www.onelook.com/), onde hoje em dia, caro leitor, basta digitar a palavra para receber 20 ou 30 links de diferentes dicionários on-line que desmancham qualquer nó, até aquele do ladinho do biquíni.

1115) Aprendendo a nadar (11.10.2006)



A Unisinos, de São Leopoldo (RS), iniciou neste segundo semestre de 2006 um curso para “Formação de Escritores e Agentes Literários”. A grade curricular para o semestre inicial do curso inclui “Elementos da Narrativa “ (60 horas/aula), “Oficina 1: Ensaio, Memória, Crônica, Biografia” (80 h/a), “Edição, Leitura e Sociedade” (80 h/a), “Gênese do Ensaísmo no Ocidente” (40 h/a), “Best-Sellers” (40 h/a) e “Viagem ao Redor do Cinema” (40 h/a). Estas duas últimas são interligadas.

O curso anuncia que sua intenção é “formar escritores e agentes literários empreendedores e inovadores, com domínio das técnicas de linguagem e mídia, além de uma sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade. O escritor formado na Unisinos terá capacidade para criar, formular livros e mediar entre diferentes públicos, planejar negócios e desenvolver produtos nas diversas áreas do mercado editorial e do cenário cultural”. Quem quiser mais informações, procure em: http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/.

A discussão é longa e farta, e convido o leitor a ir no saite indicado acima, onde também é possível acessar os blogs mantidos pelos alunos da primeira turma do curso.
Em todo caso, mesmo discordando de alguns aspectos anunciados no saite, acho importante ensinar conhecimentos básicos de técnica literária. Todo mundo precisa saber exprimir-se por escrito, de uma maneira inteligível e pessoal. Muitos escritores já com livro publicado, no Brasil, ainda não sabem.

É possível que haja por aí um grande escritor que não domine muitas técnicas mas possua um estilo próprio, fora do comum, de imensa originalidade. A história da Literatura está cheia de exemplos. Um escritor assim talvez não precise de curso, mas um curso não se dirige às exceções, e sim à regra. Dirige-se a sujeitos comuns como eu. Eu não sou Joyce nem Mallarmé, mas quando tinha 20 anos queria escrever meus romances e meus poemas, e teria gostado muitíssimo de conviver com escritores já tarimbados e dispostos a discutir questões técnicas, para tirar algumas dúvidas. Tem coisas elementares da profissão que eu só vim aprender depois dos quarenta anos, por um golpe de sorte qualquer. E o problema é que tem muitíssimas outras que não aprendi ainda.

O Brasil precisa de escritores profissionais bem preparados, para ver se sobre o nível médio da produção, e é a isto que o curso da Unisinos se propõe. Mas é claro que não basta um curso para ser Affonso Romano de Santanna, ou boas notas para virar um novo Moacyr Scliar (os dois, aliás, são professores neste curso da Unisinos). Não se pode matricular um rapaz numa universidade e achar que ele sairá dali um Jorge Luís Borges (que, por falar nisso, tinha somente o curso secundário), assim como não basta mandar um rapaz para a zona e esperar que ele se transforme em Gregório de Matos ou François Villon. Um grande escritor, como um craque de futebol, forma-se a si próprio.

114) Biquíni de bolinha amarelinha (10.10.2006)



Está rolando uma polêmica nos EUA a respeito da autoria da música “Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polkadot Bikini”. Morreu um tal de Paul Vance, e os jornais começaram a noticiar a morte do autor da canção, grande sucesso na voz de Brian Hyland em 1960. Logo logo apareceu outro Paul Vance afirmando ser ele o autor, e exibiu os comprovantes de direitos autorais que recebe há décadas.

A viúva do primeiro Paul Vance declarou à imprensa estar arrasada, pois o marido sempre afirmara ser o autor da música, e nunca lhe passou pela cabeça que ele não fosse. Disse a viúva que seu marido tinha composto esta canção aos 19 anos. Era um rockzinho bobo destinado ao público adolescente (o cantor que a gravou tinha apenas 16), e ele não botou muita fé na música, vendendo os direitos autorais para outro cara. Uma prática muito comum no meio musical, tanto na Praça Mauá dos sambistas cariocas quanto na Tin Pan Alley da música pop norte-americana.

A história ainda está em desdobramento, e ambas as versões são plausíveis. Um rapaz de 19 anos compõe uma música e vende sua autoria? Muito plausível. Digamos que alguém lhe oferecesse, sei lá, 500 dólares naquela época. Qual o garoto que não venderia? Meu conselho aos jovens compositores é: não vendam. Pode ser que vocês tenham em mãos, sem saber, uma grande música. E se a música não parecer nada grande, parecer uma música bobinha, aí é que não devem vender mesmo, porque ela já tem meio caminho andado para virar uma mina de ouro.

O que é estranho na história do falecido é que ele tenha vendido a canção dele para um sujeito com o nome igual ao dele! Levemente improvável. Em filosofia existe um princípio chamado de “navalha de Occam”, criado por um filósofo que tinha este nome, e que diz algo como: entre duas explicações, prefira sempre a mais simples, a que percorre caminhos menos tortuosos. Para se acreditar no falecido compositor, ele fez a música e foi abordado por um cara homônimo seu que lhe comprou os direitos. Muito mais prático é imaginar que a música já era do outro, e ele, ouvindo o rádio atribuir a autoria da canção a “Paul Vance”, começou a dizer que era ele próprio.

A música foi sucesso aqui no Brasil como “Biquíni de Bolinha Amarelinha”, cantada por Ronnie Cord (filho do compositor Hervê Cordovil), que era um dos ídolos do incipiente rock adolescente da minha infância, o qual envolvia outros artistas como Tony e Celly Campello, Sérgio Murilo, Sônia Delfino e outros. Foi quando as meninas aprenderam a dançar rebolando os quadris, técnica desenvolvida na calçada, praticando com o bambolê. Lembram do bambolê? Devem lembrar, quando mais não seja por causa da música de Antonio Barros gravada por Jackson do Pandeiro: “Mas inventaram um tal de bambolê / mas que negócio da mulesta foram inventar...” Os pais de família levavam as mãos à cabeça, achando aquilo o fim do mundo. O rock, quem diria, já foi ingênuo e franco.

1113) A Macaca Tioa (8.10.2006)



Quando eu vi que Paulo Maluf teve 700 mil votos e foi o deputado mais votado do Brasil, cambaleei. Pensei: “O Brasil é um filme de Coppola, onde quadrilhas de mafiosos vivem se exterminando umas às outras mas há sempre uma delas no poder”. Depois vi que Fernando Collor teve 500 mil votos e agora vai atacar o Legislativo. Corrigi-me: “Não! O Brasil é um filme de vampiros, dirigido por Terence Fisher, em que criaturas sobrenaturais vêm sugar nosso sangue e não tem estaca-no-coração capaz de dar cabo delas”. Aí fiquei sabendo que o costureiro Clodovil teve 500 mil votos, e relaxei. Deixa pra lá. O Brasil é um filme do Casseta & Planeta, e é melhor a gente ir cuidar de outra coisa.

Quando digo cuidar de outra coisa não me refiro a deixar o Brasil entregue aos tais políticos. A “outra coisa” de que devemos cuidar é o País, que é sempre feito pelo Povo, com a eventual colaboração (ou a freqüente sabotagem) dos funcionários públicos que esse mesmo povo elege para os Três Poderes. Se Maluf, Collor e Clodovil estão no outro prato da balança, mais uma razão para que a gente se mobilize: para equilibrar o placar.

Clodovil criou de propósito a imagem de um sujeito esnobe e de nariz torcido para todos. Tem sempre aquela atitude de “antes que você me despreze, eu desprezo você”. Uma vez, na TV Manchete, recebeu Dominguinhos, que ia apresentar seu novo disco. Ele anunciou, sem sequer cumprimentar o entrevistado na poltrona ao lado: “Bom, agora vamos falar do disco do sanfoneiro Dominguinhos, que está aqui com a gente”. Olhou o LP de um lado, do outro, e perguntou: “É seu primeiro disco?...” Dominguinhos, com aquele sorriso calmo de Confúcio sertanejo, respondeu: “No Brasil, é o décimo-quarto”.

O brasileiro já votou no rinoceronte Cacareco, no “Bode Cheiroso” de Jaboatão, e no Macaco Tião do zoológico do Rio. Clodovil emergiu das urnas como o Macaco Tião paulistano -- ou, com todo respeito, a Macaca Tioa. Dizem que quem elegeu Clodovil foi o voto gay. Será que os gays de São Paulo pensam que Clodovil na tribuna vai defender projetos de lei relativos a tratamento da Aids, à união conjugal de pessoas do mesmo sexo, e outras causas que lhes interessam? Podem ter essa esperança, porque um parlamentar não-homossexual (ou pelo menos que não o seja publicamente) fica sempre meio cauteloso para defender esse tipo de causa. A questão é: um sujeito como Clodovil é capaz de defender algo pelo mero senso de dever ou de solidariedade, sem obter nenhuma vantagem pessoal na transação?

Mas, já que não tem mais jeito, vamos relaxar e assistir. Vai ser um espetáculo felliniano. E se pode um destrambelhado mental como Enéas, por que não pode Clodovil? Se pode um cleptomaníaco eufórico como Maluf, por que não pode Clodovil? Se pode o deputado Hildebrando, que mandava matar com motosserra os inimigos, por que não pode Clodovil? Já estou imaginando um cordel: “A Condessa Descalça Entra no Instituto Butantã”.

1112) Três lapsos da língua (7.10.2006)




(a Torah)

A história das visitações do Santo Ofício (a Inquisição) ao Nordeste, no século 16, registra um episódio curioso. Murmurava-se que alguns cristãos novos (ex-judeus) praticavam sacrilégios, entre os quais a adoração da Toura, uma cabeça de boi sem chifres. Hoje, acredita-se que essa efígie, que de fato aparece nos registros, era uma forma cifrada de dizer “a Torá”, o livro sagrado dos judeus. A confusão era causada por alguém que entendia mal o que ouvira, e o erro depois teria sido assimilado pelos próprios judeus, que usavam a efígie da “Toura” como disfarce para sua verdadeira referência de culto.

Antigamente havia na Semana Santa uma brincadeira chamada “Serra-Velho”. Escolhia-se algum velho avarento que houvesse na vizinhança, e, durante a noite, a casa dele era trancada pelo lado de fora. Portas e janelas eram pregadas com tábuas e pregos, enquanto os brincalhões faziam um barulho danado para despertá-lo, serrando tábuas para fazer seu caixão, e lendo em altos brados um testamento cômico em que ele legava os seus bens, a viúva, etc. O nome da brincadeira, na verdade, é Cerra-Velho (“cerrar”, trancar), mas por contaminação auditiva o verbo “serrar” apareceu na história, surgindo depois, para justificá-lo, o pretexto de serrar as tábuas para o caixão.

No Nordeste, os crentes ou protestantes eram chamados muitas vezes de Nova Seita (hoje em dia, esse termo foi substituído por “evangélico”). Ou seja, era uma nova seita religiosa que estava aparecendo. Por contaminação auditiva, muita gente escrevia (há folhetos de cordel que escrevem assim) “Nova Aceita”. E justificava-se: eram pessoas que aceitavam uma nova religião.

Estes três processos, que nada têm a ver entre si, ilustram a maneira como Sigmund Freud via a formação dos erros e dos lapsos involuntários de linguagem, os quais denunciam o modo como nosso Inconsciente funciona. Misturamos o conteúdo de duas palavras que não guardam entre si nenhuma relação senão a semelhança de som. Como o resultado é aparentemente absurdo, sentimo-nos na obrigação de justificá-lo dizendo que não, que aquilo surgiu em função do significado. E inventamos uma explicação das mais complicadas para mostrar que aquilo ali faz sentido, sim, claro que faz, claro que tem uma explicação racional – que papo é esse de que as palavras são livres para violar a hierarquia da Significação?

Nosso pensamento funciona assim. A linguagem individual e a linguagem coletiva obedecem a processos parecidos. Nos sonhos, nos atos falhos, nos neologismos, na gíria, na criação poética, produzimos associações de palavras que se organizam por critérios às vezes aleatórios, às vezes totalmente “de veneta” por parte do autor, às vezes por uma associação de idéias que só ele entende. Aquilo é passado adiante, e a certa altura surgem as pessoas que tentarão racionalizar, retrospectivamente, como aquilo teve origem. E inventarão exemplos como as três pequenas jóias citadas acima.




1111) Lição das Urnas (6.10.2006)



Não falarei aqui de candidatos, falarei de processos. O Brasil, com suas urnas eletrônicas, dá um banho de eficiência em outros países, principalmente os EUA. Depois das eleições presidenciais norte-americanas de 2000, vi na TV a cabo um especial sobre o tumulto daquela votação em que George W. Bush derrotou o candidato democrata Al Gore. Gore teve 500 mil votos a mais que Bush, mas perdeu no Colégio Eleitoral. Foi a primeira vez no século 20 em que um candidato teve mais votos do que o oponente mas foi derrotado, porque nos EUA quem ganha o voto popular num Estado fica com a totalidade dos votos daquele Estado no colégio eleitoral, que é quem na verdade elege o Presidente. (Pois é, amigos. Aqui, o último eleito por “colégio eleitoral” foi Tancredo.)

A derrota decisiva de Gore foi no Estado da Flórida, cujo governador era o irmão de George, Jeb Bush. Ali, houve uma espantosa bagunça que até hoje não ficou muito bem esclarecida. Votos desaparecidos, votos rasgados, votos apurados mas não transferidos para os boletins... E quando a imprensa brasileira quer citar exemplo de coronelismo político, só se lembra do pobre do Nordeste.

O verbete “United States Presidential Election, 2000” da enciclopédia livre Wikipedia tem números, imagens e detalhes que não tenho como reproduzir aqui (ver em: http://en.wikipedia.org/wiki/U.S._presidential_election%2C_2000). As irregularidades foram tantas que as recontagens de votos levaram cerca de um mês, enquanto o país inteiro fervia em polêmicas, sem saber quem tinha ganho. (Imagine se fosse no Brasil) No fim, a Suprema Corte, já sem muita paciência, bateu o martelo e disse que Bush era o vencedor. Al Gore poderia ter prolongado a batalha, questionando as recontagens, mas, segundo se diz, admitiu a derrota para não dividir o país. Tem gente que até hoje não o perdoa por isto. Eu, por exemplo.

Nos condados onde houve recontagem, conferiam-se primeiro as tabulações, e, se havia dúvida, recontavam-se os votos manualmente. O que vi na TV era um caos: cédulas rasgadas, amarfanhas, cédulas onde não se sabia onde estava a marca, cartões perfurados mais de uma vez... Nos EUA, cada condado adota um sistema diferente de votação: fazendo “x”, apertando botão, perfurando cartão... Se isso fosse o sistema de voto na Rússia, eu pensaria, “puxa, que coisa atrasada”. O que pensar, então, quando se vê tamanho absurdo na pátria da eficiência e da Informática?

É paradoxal que o Brasil dê um banho de tecnologia justamente nos EUA, e justamente no modo de pôr em prática a democracia. Os norte-americanos são capazes de bombardear e invadir outros países para obrigá-los a votar para Presidente, mas, casa de ferreiro, espeto de pau. A eleição deles em 2000 foi uma mistura de pesadelo de Kafka com esquete do Monty Python. Se levassem mesmo a democracia a sério, o voto lá seria obrigatório, e o sistema de votação seria uma coisa decente, como é aqui.