segunda-feira, 16 de março de 2009

0890) O Campinense Repórter (22.1.2006)


(Rádio Borborema, anos 1950, esquina da Cardoso Vieira com Venâncio Neiva)

Que me socorram os coleguinhas mais velhos (que já são poucos) e mais bem informados do que eu (que já são muitos). Não sei até hoje qual é a peça de música orquestral que servia de característica musical para o “Campinense Repórter”, o noticiário de emergência da Rádio Borborema em minha infância. Provavelmente um pedaço inocente de música clássica que, pela utilização que recebeu, transformou-se na música mais ominosa, ameaçadora e agourenta do mundo, para várias gerações da Serra.

Era uma época em que a Rádio Borborema dominava latifundiariamente as ondas hertzianas do brejo, sertão, cariri e agreste. A vida ia correndo mansa, fluindo tranqüila, e em dezenas de milhares de residências os rádios estavam ligados, fornecendo o fundo musical para as tarefas domésticas, os papos de botequim e de barbearia, as corridas de táxi, as salas de espera, quando de súbito a programação se interrompia. Soava então a música: aziaga, angustiosa, repleta de presságios de cataclismos mundiais ou de falecimentos na família. “Tan – taran – taran... Taranranranran – taran – taran...” Pois é, amigos, pena que esta coluna não seja interativa para que eu pudesse inserir aqui um link e uma gravação em MP3, fazendo com que os sobreviventes daquela época sentissem de novo o calafrio-de-desgraça-iminente que esta música nos causava.

Depois de alguns segundos a música baixava e ouvia-se em gravação a voz clara e firme de Hilton Mota: “O Campinense Repórter – inforrrrma!...” Uma vinhetazinha musical de transição, e o locutor de plantão começava: “Foi encontrado hoje às seis horas, nas proximidades da Estação Velha, o corpo de um indivíduo moreno, aparentando 35 anos, morto com dois tiros no abdômen..” e assim por diante. Terminada a leitura da notícia, voltava a voz de Hilton: “A qualquer momento – em qualquer lugar – pela onda da Rádio Borborema – o Campinense Repórter – voltará – a informarrrr!...” Voltava a vinheta, e voltava a vida ao normal.

Hoje o Brasil está globalizado, e essa função de anunciar as passagens da Pavoa Devoradora cabe ao “Plantão do Jornal Nacional” ou do “Jornal da Globo”, também com uma musiquinha urgente, nervosa, e aquela imagem de dezenas de microfones brotando da tela em nossa direção, como sanguessugas-robôs querendo nos devorar. Ver aquilo significa parar tudo e correr para a TV – porque “Deu-se Um Fato”. Lembro um dia em que eu caminhava pelo centro de João Pessoa, vi a vinheta na vitrine de uma loja de eletrodomésticos, entrei, e vi a notícia do falecimento do técnico da Seleção Brasileira, Cláudio Coutinho, afogado ao mergulhar nas Ilhas Cagarras. Lembro uma madrugada em que um filme foi cortado ao meio e surgiu a cara desnorteada de Leda Nagle, dizendo: “O presidente eleito Tancredo Neves acaba de ser internado para uma cirurgia no Hospital de Base de Brasília...” Raramente é coisa boa. Mas até hoje eu não sei de onde tiraram a música do “Campinense Repórter”.

0889) Com quem está falando (21.1.2006)



Que me perdoem os meus numerosos amigos que ganham a vida trabalhando em agências de publicidade, mas uma coisa que me dá nos nervos é quando o anúncio se dirige a mim sem cerimônia, me interpela, me provoca, me empurra de encontro à parede, me agarra pela lapela, me sacode: “Vamos! O que você está esperando? Não fique aí parado! Corra para as Casas Franquia, e compre um Plantador de Batatas, mesmo que não precise!” 

Já fiz um curso de criação publicitária e percebi que existe um vasto catálogo de códigos a serem empregados, de acordo com o público-alvo, a faixa de consumo e outros critérios mercadológicos. 

Essa forma de interpelar, por exemplo, só funciona com o consumidor que vai à loja de eletrodomésticos comprar ventilador no crediário. 

Não funciona, por exemplo, em publicidade de cartão de crédito. Aí é preciso baixar o tom, ser afável, ser cortês, dizer que está apenas sugerindo que o cara compre, porque na verdade ele “não precisa”.

Tem um livro interessante de Arthur Schopenhauer, que já folheei na livraria, intitulado Como vencer um debate sem precisar ter razão, onde ele lista numerosas técnicas para confundir o raciocínio do oponente. 

Imagino que uma delas seja essa que a publicidade emprega com tanta freqüência: fazer o interlocutor admitir uma premissa nossa sem que ele perceba a qual conclusão queremos chegar. 

“Estou falando com você – que é um indivíduo moderno, antenado com seu tempo! Você – que sabe o que quer, e que exige sempre o melhor! Você – que sabe que tem o direito de ser feliz... Você precisa de um Plantador de Batatas! Vamos, mexa-se! O que é que VOCÊ está esperando?!”

As anedotas são as grandes parábolas metafísicas de nossa sociedade, os grandes koans cósmicos que, no altar profano de uma mesa de botequim, nos desvendam os grandes segredos filosóficos do Universo. 

Um português vai passando apressado por uma rua do Rio de Janeiro, rumo ao metrô, quando alguém chega aos gritos: “Manuel! Corre, rápido! Assaltaram tua casa em Niterói, e tua mulher foi seqüestrada!” Ele se apavora, larga no chão os pacotes e a pasta, entra num táxi, manda tocar pra lá a toda velocidade, mas quando já está no meio da ponte ele exclama: “Espera aí! Tem alguma coisa errada! Eu não sou casado, não me chamo Manuel, e não moro em Niterói!” 

É exatamente assim que devem se sentir os incautos que acreditam na voz da publicidade e compram essas besteiras que, por algumas horas, chegaram a enxergar como o objetivo final de sua vida, e a utilidade principal de seu salário.

“Os anúncios querem lhe convencer de que você pode fazer o que nunca foi feito, pode ganhar o que nunca foi ganho, e enquanto isto a vida continua a mesma à sua volta” (Bob Dylan, “It’s alright, Ma”). 

Não venham me dizer o que eu quero, ou do que preciso. Quem se dirige a alguém nesse tom é porque está a fim de impingir-lhe um Lambedor de Sabão, ou um Penteador de Macacos.







0888) “2046” (20.1.2006)



As seqüências iniciais deste filme de Wong Kar Wai, com imagens deslumbrantes de uma megalópole futurista, nos arremessam de imediato no Futuro, “o lugar para onde todo mundo vai, mas de onde ninguém jamais voltou”. Logo logo, no entanto, o véu se rasga e estamos em Hong Kong nos anos 1960, onde vive um escritor de pulp fiction metido a charmoso, que costuma transportar para suas histórias as mulheres com quem se relaciona. Ficção científica é apenas um pretexto para falar de sutilezas existenciais, e nisto Wong Kar Wai está em boa companhia: Cronenberg, Godard, Tarkovsky, Resnais...

O filme é rico em close-ups dos ótimos atores, e em planos-de-detalhe de objetos e texturas. A narrativa é fragmentada, apesar de uma narração em “off” que nos guia, como se estivéssemos de olhos vendados. Existe uma verossimilhança palpável tanto dos ambientes físicos quanto da verdade humana por trás daquela sucessão de pequenos episódios descontínuos. O ponto frouxo do filme é o roteiro, que parece querer ficar sempre no mesmo lugar (certamente porque está gostando). É um desses filmes onde a cada vez que a tela se escurece ficamos esperando o “THE END”, só para ver que tudo continua, surgem novos desdobramentos, novas situações, novos rebates-falsos de Fim.

Um filme apenas reflete o modo de pensar do seu autor, e não precisa necessariamente do famoso “arco narrativo”, não tem que ter desfechos bombásticos e conclusivos. Ao que parece, Wong Kar Wai (não vi seus filmes anteriores) é um cineasta apaixonado por rostos, olhares, pela intensidade psicológica do entrechoque dos atores, sutilmente captada pela câmara e valorizada pelos cortes bruscos que encerram uma cena sem se estender em explicações. Falta-lhe (do ponto de vista dramatúrgico) aquela visão estrutural, em plano-geral, com que alguns diretores percebem a melhor maneira de valorizar um episódio pela geração-e-satisfação de expectativas. A essência da arte da Narrativa é o conceito de “um momento em movimento”, algo que existe com intensidade diante de nós mas que está sendo arrastado na direção de alguma outra coisa, e nos arrasta consigo.

Paradoxalmente, o que falta a 2046 é o empuxo gravitacional desse futuro dramatúrgico (e não me refiro ao futuro FC) “sugando” para si o momento que câmara e atores vivem com tamanha paixão recíproca. O filme existe num presente imóvel, cada cena valendo por si só (muitas delas diluídas por repetições desnecessárias). É como um vôo tipo 14-Bis: o avião decola, sobe dois metros, desce, repica no solo, sobe de novo, volta a descer, a repicar. Um defeito menor. 2046 tem algo da incomunicabilidade existencial do cinema europeu da época em que está ambientado. Personagens sempre em guarda, que não abrem o jogo, falam em código, buscam-se com ressalvas, repelem-se sem explicações, refugiam-se no silêncio, morrem de sofrer mas não abrem nem prum trem. E o trem que os levava ainda os deve estar levando, porque aquele filme é sem fim.

0887) Cantarão a minha glória (19.1.2006)



No Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna há um belíssimo verso que sempre admirei e que sempre me inquietou, por conter um aparente paradoxo que nunca me dei o trabalho de explorar até o fim. Tentarei fazê-lo agora. O verso aparece no Folheto LIV, “A Parada dos Fidalgos Sertanejos”, e ocorre num desafio de cavalhada entre cristãos e mouros, nas ruas de Taperoá. Respondendo à provocação do Rei Mouro, o Rei Cristão diz: 

“Esta é a nossa batalha, 
sangrenta, macha e tirana! 
Minha espada, a Durindana, 
não amostra uma só falha! 
Na forja desta Fornalha 
eu ganharei a Vitória! 
Mas ficarão na Memória 
meus malfeitos e perigos, 
e os Cantadores antigos 
cantarão a minha Glória!”

Perceberam a sutileza? Os cantadores antigos (mesmo já mortos e mudos) cantarão a minha glória. Não é “cantaram”: é “cantarão”. Neste verso, Ariano retoma aquela subcorrente mística que cerca todas as profecias, todos os movimentos messiânicos. Dias atrás eu estava assistindo A Vida de Brian, o filme do grupo Monty Python sobre um sujeito trapalhão que nasceu no mesmo dia de Jesus e acaba sendo confundido com o Messias. Arranja sem querer uma multidão de seguidores que vêem em cada gesto dele um Sinal, e de nada adianta ele dizer aos berros que não é o Messias. Quando alguém faz uma profecia com a ênfase adequada, poderosas forças do inconsciente coletivo começam a se mobilizar para fazer com que aquilo aconteça. Vai acabar acontecendo; é o que em inglês chamam de “self-fulfilling prophecy”, as profecias que forçam o próprio cumprimento.

Um Profeta não é um sujeito que teve um vislumbre do que vai acontecer no Futuro e transmite para nós essa visão; ele não “prevê o que vai acontecer”. O Profeta é alguém que deseja ardentemente, misticamente, obcecadamente, que algo aconteça, e passa a vida convencendo as multidões de que esse algo acontecerá. Impressiona tanto que, como diz o especialista Paulo Coelho, “o Universo inteiro passa a conspirar a favor dessa idéia”.

Quanto o Rei Cristão da Pedra diz que “os Cantadores antigos cantarão a minha glória”, ele implica que no futuro os versos dos cantadores antigos sofrerão uma releitura em função das façanhas que ele, o Rei, levou a cabo. Onde quer que haja um verso antigo celebrando os feitos de um herói, esses versos serão desconstruídos e reconstruídos para adaptar-se a ele, como se se tratassem apenas de uma previsão, um texto preparatório para a existência daquele herói específico. No Passado os cantadores “cantaram” uma glória abstrata, mas no Futuro “cantarão” as glórias de Fulano de Tal, porque serão lidos de uma maneira diferente. A História pode ser reformatada ao ser relida. O Passado é tão mutável quanto o Futuro. O Presente modifica o Passado, e pode fazer com que mudemos radicalmente a maneira como lemos os textos produzidos pelo Passado. O que os Profetas e os Cantadores antigos disseram ainda não terminou de acontecer.


sábado, 14 de março de 2009

0886) O verso de embolada (18.1.2006)



Todo brasileiro já ouviu muito esse tipo de verso; se for nordestino, já ouviu o dobro. Eu o chamo de “verso de embolada” porque para mim é no coco de embolada que ele tem sua origem histórica, mas ele se impregnou de tal forma em nosso inconsciente métrico que acabou abrindo franquias na Música Popular Brasileira, no Rock-BR e na poesia erudita.

“Vou lhe falar / meu amigo e camarada / eu aqui nessa calçada / canto até o sol raiar! // Eu sou poeta / sou artista brasileiro / na batida do pandeiro / na pancada do ganzá!” Todo mundo já ouviu algo assim, confere? À primeira vista parecem quadrinhas, estrofes de quatro versos setissílabos que herdamos de Portugal. O único detalhe que os diferencia é esse primeiro verso, curiosamente quebrado em relação aos demais. Em alguns casos (como no exemplo acima) o primeiro verso vem com quatro sílabas, mas às vezes são três, ou duas, ou cinco, depende do caso.

Já escrevi uma peça de teatro chamada Trupizupe, o Raio da Silibrina (ou O Casamento de Trupizupe com a Filha do Rei) em que o personagem-título era um embolador-de-coco. Ele se apresentava com uma embolada cujo refrão dizia: “Canta canta sabiá / no galho da bananeira / que a pedra da balieira / vem voando pelo ar!” Como tudo que eu faço, tinha um erro idiota (“Bananeira não tem galho”, diziam meus amigos naturebas, “tem folha”), e um grave defeito métrico. Na hora do palco, eu não conseguia cantar o refrão (que, como se vê acima, eram quatro versos setissílabos) duas vezes emendadas: era muito rápido e eu ficava sem fôlego. Solução: “dei uma comida” no primeiro verso, e o refrão ficou assim: “Oi canta sabiá / no galho da laranjeira”, etc. e tal.

Tecnicamente, o que caracteriza o verso-de-embolada é essa primeira linha quebrada, para que o recitante ou cantador (porque é verso oral, falado, boca-pra-fora) tenha tempo de respirar. Nesse rápido “buraco” métrico a gente enche o pulmão com ar suficiente para cantar os quatro versos seguintes. Uma quebra dessa natureza jamais ocorreria a quem escreve com caneta e papel. É fruto da poesia oral, “a plenos pulmões” como dizia Maiakóvski.

Essa peculiaridade técnica sobrevive em muitas letras da MPB. Não citarei exemplos de Gonzagão e Jackson porque seria covardia; mas os há de Catulo da Paixão Cearense (“Oh que saudade / do luar da minha terra / lá na serra branquejando / folhas secas pelo chão”; de Juca Chaves: “O tempo passa / só não passa este tormento / que corrói meu pensamento / de viver pensando em vão” (“O Tempo Passa”); de Chico Buarque: “O homem da rua / fica só por teimosia / não encontra companhia / mas pra casa não vai não” (“A Televisão”); de Renato Russo: “Não tinha medo / o tal João de Santo Cristo / era o que todos diziam / quando ele se perdeu” (“Faroeste Caboclo”); de Gilberto Gil: “Abacateiro / acataremos teu ato / nós também somos do mato / como o pato e o leão” (“Refazenda”)... Um verso 100% oral e 90% brasileiro.

0885) Shelley Winters (17.1.2006)



Faleceu semana passada Shelley Winters. Confesso que ao ver a notícia minha reação foi como a dos amigos de Dorothy Parker ao ver seu obituário nos jornais: “Oi, e ainda era viva?” Somos tão acostumados ao círculo vicioso da exposição à mídia, da indústria de fofocas, do tráfico de eventos, da política dos divulgadores e assessores de imprensa, que quando passamos alguns anos sem ouvir falar de alguém... bem, se não está aparecendo na TV, é porque deve ter morrido, não é mesmo?

Grande Shelley Winters, atriz rubicunda e desabusada. Nunca a considerei uma beldade, se bem que olhando agora algumas fotos suas com 20 ou 30 anos reconsiderei este julgamento. Não importa. Era boa atriz e, curiosamente, tinha algo de atriz brasileira ou italiana. Era aquela loura sem papas na língua que faz excelentes papéis de sogra atemorizante, de vizinha encrenqueira, de matriarca mão-de-ferro, de solteirona lamurienta. Suas interpretações às vezes passavam do limite, por excesso de veemência. Seu erro nunca era a falta de talento, mas o descontrole dele, o transbordamento, o desperdício de energia naquelas situações em que a metade teria produzido o dobro.

A única vez que vi uma estátua do Oscar em “carne e osso” foi quando visitei o Museu Anne Frank, em Amsterdam,. Não era réplica: era a estátua que Shelley Winters (de ascendência judaica) doou ao museu, depois de tê-la ganho em O Diário de Anne Frank, de George Stevens. Vi este filme aos 16 anos e me tornei um fã de Anne Frank até hoje. Shelley fazia a mãe de Peter Van Daan, o garoto que Anne parece ter amado em sua curta vida. Ela interpretou também a mãe da ninfeta no Lolita de Kubrick, e fez uma impagável mãe judia em Próxima Parada: Bairro Boêmio de Paul Mazursky.

Shelley brilhou mesmo, para mim, como Ma Barker, a matrona incestuosa que chefia os próprios filhos numa quadrilha durante a Depressão, em Bloody Mama (1970), um daqueles filmes-demo de Roger Corman, feitos em dez dias e com dez tostões. Irascível, desbocada, furibunda, ela rouba o filme inteiro. Ajudou Corman a escolher o elenco, inclusive mostrando-lhe um teipe de um jovem e pouco conhecido ator chamado Robert De Niro. Diz Corman que antes de rodar suas cenas ela ouvia, em todo volume, árias de ópera cantadas pelas grandes divas. Quando o diretor gritava: “Ação!” ela desligava o toca-discos e entrava triunfante no cenário.

Era o que nos EUA chamam de “uma atriz do Método”, discípulos do método de Stanislawski, muito usado no famoso Actor’s Studio de Nova York. Mergulhava de cabeça no personagem. Para filmar em Bloody Mama o enterro do filho viciado em drogas, rodado ao amanhecer, passou a noite num velório de verdade, olhando para o defunto desconhecido e vendo cenas do Vietnam na TV. Quando Corman preparou a cena, e perguntou por ela, viu-a irromper em prantos, descomposta, gritando pelo filho. Corman mandou rodar, e a cena estava pronta. Ela cultivava a estética do trapézio-sem-rede.

0884) O Maior Espetáculo da Serra (15.1.2006)



O milênio irá avançando. O mundo irá crescendo, e com ele as dimensões da vida. A população do Brasil será igual à da China de hoje. As cidades irão se expandindo, e na altura do Cajá os derradeiros subúrbios de Campina Grande já estarão se misturando aos primeiros de João Pessoa, as duas metrópoles com milhões de habitantes, estendendo-se uma rumo à outra como duas gotas dágua prestes a transformar-se numa só. Haverá um excesso de gente, um excesso de produtos e de consumo, excesso de demanda e de oferta; e um excesso de tempo a ser preenchido para o lazer das multidões insaciáveis.

Nesse tempo futuro, os acontecimentos míticos se agigantaram. A população presta culto aos grandes embates cuja estatura lendária só fez crescer ao longo das gerações. Campina Grande já é uma megalópole maior que Tóquio ou a Cidade do México, e seus milhões de habitantes mantém viva a chama do Treze x Campinense como o Grande Clássico.

Inchaço populacional, “boom” econômico, mega-indústria do lazer: tudo convergiu para criar a Idéia do Século: o “Clássico 24 Horas”. À meia-noite do reveillon de 2110-2111, perante um estádio lotado onde não cabia mais uma pessoa sequer, ao trilar do apito do árbitro, rolou a bola para o início do Grande Clássico dos Maiorais. Desde então, há várias décadas, Treze e Campinense estão sempre em campo, em tempos sucessivos de 45 minutos, enfrentando-se sem parar, com emocionantes alternâncias no placar. Um jogo 24 horas, que não pára. Jogadores são substituídos, voltam a campo dias ou meses depois. Atletas famosos de passagem pela Paraíba são convidados a dar uma “canja” de 45 minutos. Artilheiros célebres, que estrearam no clássico aos 17 anos, despedem-se dele aos 40. E o jogo não pára.

O jogo não pára. São 24 horas por dia, sete dias por semana. Chova ou faça sol, seja o pingo do meio-dia ou altas horas da madrugada, Treze x Campinense estão sempre em campo, diante de uma platéia flutuante que vai de 20% até a lotação completa do estádio, mas sempre presente, porque na cidade, no Nordeste e no Brasil todos conhecem a lenda do Jogo Que Não Pára. Ônibus de turistas uniformizados de Galo ou Raposa (vindos do Japão, da Índia, da Califórnia) desembarcam diariamente diante dos portões do Estádio. Equipes se revezam transmitindo o jogo por canais de rádio, TV e Internet exclusivos para a transmissão do Clássico dos Maiorais.

Quem vai ganhar? Não se sabe. Em certas épocas, um dos times chega a colocar sobre o outro uma vantagem de dezenas de gols; mas a sorte e a persistência ajudam o perdedor a reduzir essa vantagem até conseguir (num dia de “casa cheia”, ansiosamente esperado ao longo de anos) passar de novo à frente do placar. Gerações de jogadores e de torcedores se sucedem, recordes são batidos, estatísticas se avolumam... O jogo continua, eterno como a vida das espécies, intenso como a vida dos indivíduos: o Maior Espetáculo da Serra.

0883) Canções de amigo (14.1.2006)




("Clube da Esquina 1" de Milton Nascimento)


Canção de amor qualquer sujeito de boa memória faz, não é mesmo? “Eu te amo demais, sem você não sei viver, em você encontrei minha paz, não vejo a hora de abraçar você...” Três minutos desse repetitório e estamos conversados. Canção de amor, amigos, virou xerox de clichê. 

Assim como hamburger do MacDonald’s e churrasquinho-no-espeto de porta de Estádio são as mais rudimentares entidades que ainda podem ser chamadas de “comida”, canção de amor desse tipo é a pizza-congelada-de-supermercado da música popular.

Fazer canção de amigo é outra história. O amor é diferente da amizade, e, como disse Caetano Veloso, “quem há de negar que esta lhe é superior?” O amor pode ser um sentimento mais intenso e mais profundo, mas a amizade é algo mais equilibrado e mais amplo. 

Os Beatles têm um clássico como “With a little help from my friends”, ou então “Two of Us”, cançãozinha que exprime como nenhuma outra a sensação de excitação e liberdade de garotos correndo à solta pelo mundo, sem compromisso, “aprontando” sem preocupações: “Nós dois, mandando cartões postais, escrevendo cartas em cima do muro, riscando fósforos, destrancando portões...” (Embora algumas versões digam que MacCartney fez a música para sua então recente namorada Linda: “Eu e você temos recordações mais vastas do que a estrada que se estende à nossa frente”)

Lembrem-se de “Morro Velho”, a canção em que Milton Nascimento conta a vida de dois garotos de fazenda, um branco e um preto. É uma história da amizade que, na infância, se resume ao afeto puro e irrestrito, sem malícia, de garotos que vivem soltos no mato, tibungando em barreiro, caçando passarinho. O tempo passa, e a diferença de classes os separa na vida adulta: “E o seu velho camarada já não brinca, mas – trabalha...” 

Existem as amizades cuja origem só se explica no final, como em “Chico Mineiro” de Tonico e Tinoco, em que a tristeza do narrador após a morte do amigo se explica (folhetinescamente) ao descobrir que Chico era seu “legítimo irmão”.

A canção clássica que define os parâmetros da amizade é “You’ve Got a Friend” de James Taylor, que aliás pede uns versinhos emprestados a “Any Time at All” dos Beatles: “All you’ve got to do is call, and I’ll be there...” O próprio Taylor, ao vir cantar no Rock in Rio em 1985, quase caiu para trás ao ver 200 mil brasileiros cantando a música inteira a uma só voz. 

Em português, não conheço outra tão singela e tão tocante quanto a homenagem de Roberto Carlos para Erasmo: “Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada... Amigo de tantos caminhos e tantas jornadas...” Dentro da singeleza poética de Roberto, é uma canção mais verdadeira e mais contidamente emocionada do que muitas das canções de amor que ele (ou melhor, a dupla) compôs ao longo de muitas décadas. 

Dizer que você está doido por uma mulher é relativamente fácil; eu quero ver é o camarada fazer uma música falando de seu afeto por outro homem.





0882) O mundo de Holmes e Watson (13.1.2006)



No prefácio da recente reedição das aventuras de Sherlock Holmes (Jorge Zahar Editor, com notas de Leslie Klinger), John Le Carré afirma: “Ninguém escreve sobre Holmes e Watson sem amor”. Mulheres são vulneráveis a este amor (está aí minha filha Maria que não me deixa mentir), mas eu ouso afirmar que o universo sherlockiano é acima de tudo um universo masculino, ainda que não machista. As mulheres são tratadas com respeito e reverência, à maneira vitoriana, mas aquele é um mundo moldado pelos sonhos de homens autoritários, intelectuais, reunidos numa espécie de clube fechado onde sentam diante da lareira, bebem, fumam, jogam xadrez e decidem o destino do mundo.

A Inglaterra de Holmes e Watson é o símbolo do colonialismo no que ele tem de admirável. O que ele tem de desumano e terrível já o sabemos, nós, povos morenos do Terceiro Mundo, que estudávamos o marxismo e torcíamos pela guerrilha latino-americana. O lado admirável do colonialismo do século 19 pode ser cristalizado em dois tipos humanos a quem eu chamo os ícaros e os dédalos. Os ícaros são os aventureiros, os que gostam de enfrentar perigos, correr risco de vida, mergulhar no desconhecido, desbravar regiões selvagens. Os dédalos são os que gostam de se trancar em enormes bibliotecas onde estão acumulados os tesouros do saber, gostam de investigar o passado, solver enigmas, construir intrincados labirintos de idéias.

A fascinação que Sherlock Holmes desperta em todos nós é pelo fato de ele ser, ao mesmo tempo e alternadamente, um dédalo e um ícaro. E diante dele nós somos o Dr. Watson, o “homem comum” fascinado por aquele indivíduo (por aquela nação) que concilia aspectos tão opostos. Holmes é capaz de se enrolar num roupão velho e passar duas semanas encolhido numa poltrona, fumando e pensando, enquanto junta as peças de um quebra-cabeças que está tentando desvendar. No momento em que ele entende o que está acontecendo, e o que é preciso fazer, ele se transforma. Agarra o companheiro pelo ombro, com a frase famosa: “Come on, Watson! The game is afoot!” (frase que pode ser traduzida como “A caça está à solta” ou “O jogo começou”) Daí em diante, Holmes é outra pessoa: disfarça-se até ficar irreconhecível, enfrenta adversários de mãos limpas ou de revólver em punho, cruza e recruza Londres em caçadas frenéticas, pratica incríveis façanhas de coragem e de resistência física.

O escritor e diplomata Richard Francis Burton é uma figura histórica que também reúne estes dois lados (erudição e aventura) que caracterizaram a peculiaríssima forma de civilização que foi a Inglaterra vitoriana e, por extensão, a Europa colonialista do século 19. São personagens e histórias de um tempo em que o mundo tinha centro, e este centro era de raça branca, de sexo masculino, de mentalidade científica e materialista, exibia títulos de nobreza, e acreditava que sua civilização tinha por fim alcançado o Fim da História.

0881) Um primo mais distante (12.1.2006)



Talvez você não lembre, caro leitor, mas afinal, aqui nesta coluna só quem tem obrigação de lembrar sou eu. Em 21.12.2003 comentei aqui a descoberta do maior número primo (até então). Descobrir o “último número primo”, o maior de todos, é impossível, pois já foi provado que eles são uma série infinita. O grande lance é descobrir o próximo número primo, a partir do maior já conhecido, mas o problema é que esse próximo número parece cada vez mais distante, e descobri-lo requer sempre o uso de milhares de computadores interligados, rodando o mesmo programa. Estes números são expressos na forma de 2 elevado a uma potência enorme, menos 1. São conhecidos como “Primos de Mersenne”, em homenagem ao matemático francês que teorizou sobre eles há três séculos. Se você só lê português mas é cobra em matemática, pule aqui: http://www.mat.puc-rio.br/~nicolau/papers/mersenne/mersenne.html.

O número descoberto agora é o 43o. primo de Mersenne. Andei comendo mosca, porque o que noticiei em 2003 era o de número 40. Não faz muita diferença, até porque se eu visse ambos escritos lado a lado não conseguiria distingui-los. O de 2003 era um número com mais de 6 milhões e 300 mil dígitos; este novo, recém-saído do forno, tem exatos 9.152.052. Como o “Jornal da Paraíba” iria gastar muito papel e tinta para transcrevê-lo por inteiro, podemos recorrer à útil fórmula mersenniana: 2 elevado à 30.402.457a potência, menos 1. Há um prêmio de 100 mil dólares, oferecido pela Electronic Frontier Foundation, para a equipe que descobrir um Primo de Mersenne com mais de 10 milhões de dígitos. Tudo indica que será a turma do Projeto GIMPS (Great Internet Mersenne Prime Search), que descobriu os nove mais recentes: http://www.mersenne.org/prime.htm.

A utilidade disto tudo? Não sei, assim como não sei a utilidade de escrever sinfonias ou pintar paisagens. Acho que nos dá a sensação de estar tocando na medula da beleza universal, e em alguma lei não-escrita na fronteira entre a Ordem e o Caos do Universo. Em seu livro A Experiência Matemática Philip Davis e Reuben Hersh comentam que os números primos parecem se distribuir irregularmente ao longo da série dos números inteiros. Seu aparecimento é imprevisível, daí ser necessária toda essa gigantesca checagem, número por número, para saber se o próximo número inteiro é primo ou não. David & Hersh observam que na lista dos números primos notamos “a falta de qualquer tipo detectável de ordem ou de regularidade”. Por exemplo: nos 100 números inteiros entre 9.999.900 e 10 milhões existem nove números primos; mas nos 100 inteiros seguintes só existem dois. Por quê?

Minha teoria pessoal é de que os primos são os únicos números verdadeiros, de existência puramente matemática. São irredutíveis como os elementos químicos. Os tijolos básicos de uma matemática pura, pura Linguagem, não contaminada pela natureza física, pelo mundo das coisas contáveis.