sábado, 13 de setembro de 2008

0545) Ratinho, a isca e a ratoeira (17.12.2004)


(Brian White)

Dias atrás estive participando de um ciclo de palestras promovido pela ONG “Leia Brasil”, numa mesa onde se discutiam assuntos ligados à indústria cultural. O mais interessante dessas discussões é que geralmente toma-se algum exemplo-símbolo de uma situação qualquer. Neste caso, as pessoas começaram a citar o programa de Ratinho como exemplo do que havia de pior na indústria cultural. De dez em dez minutos, lá vinha ele no meio de uma argumentação qualquer: “O problema de país é a baixa instrução, o pouco acesso à cultura, porque se as pessoas tivessem acesso à boa literatura elas não iriam assistir o programa do Ratinho”.

Coitado do programa do Ratinho, do qual não gosto nem um pouco, mas que acaba concentrando em si bordoadas que poderiam ser mais bem distribuídas. Em primeiro lugar, eu não acho que se toda a população brasileira de repente ficasse alfabetizada e culta esse tipo de programa iria desaparecer. O programa de Ratinho (pelo que me lembro dele, das 10 ou 12 vezes que o vi até hoje) se baseia num tipo de sensacionalismo que já vem desde a imprensa escrita, desde Gutenberg. É a exploração dos crimes, das tragédias familiares, dos episódios mundo-cão, de personagens grotescos ou ridículos, tudo isto misturado com uma atitude veemente de defesa da moral e dos bons costumes, e da “proteção às camadas populares”. A própria literatura de cordel, que tanto exaltamos, tem ciclos inteiros dedicados a explorar esse filão.

A TV americana faz a mesma coisa. Não é a escolaridade-média que resolve. Programas desse tipo sempre vão existir. Eles satisfazem algum tipo de fascinação mórbida que todos nós temos na direção do que é grotesco. Proibir esses programas (como alguns mais exaltados sugerem) não iria resolver nada. O problema não são os programas ruins, é o fato de que, sendo impostos de cima para baixo, a população se acostuma com eles e passa a tê-los como uma espécie de ritual diário. E o que leva a isto é a enorme concentração de poder nas mãos de uma meia-dúzia de grupos que controlam as telecomunicações.

Ratinho é apenas a isca da ratoeira. Ele serve como o chamariz para atrair a curiosidade meio doentia do público e fazer os níveis de audiência (e o preço do minuto de publicidade naquele horário) subirem à estratosfera. Se em vez de 3 ou 4 grandes redes de TV tivéssemos 30 ou 40, talvez tivéssemos dez vezes mais Ratinhos, mas nenhum teria esse mesmo peso, e as probabilidades de que surgissem programas de boa qualidade (do nossos ponto de vista) seriam muito maiores. Quebrar o monopólio das grandes redes, regionalizar a produção, é o único caminho para melhorar a TV. Muita besteira nova ia aparecer, decerto. Mas eu preferiria correr o risco de ter dez ratinhos em cada Estado, desde que as coisas boas que certamente existem em cada Estado, e que não têm vez nas redes centralizadas no Rio e em São Paulo, pudessem também aparecer.

0544) Ser gordo e ser magro (16.12.2004)


(Laurel & Hardy, 1956)

Não sei o que é mais triste: ser gordo ou ser magro. Digo isto, a bem da verdade, com o confuso sentimento de culpa daqueles que têm braços e pernas finos, e uma ligeira protuberância no equador-ventral, devida ao consumo indiscriminado de cerveja e sanduíches. O culto ao corpo (dietas, academias, malhação incessante) acaba se tornando uma escravidão. As pessoas consomem anos inteiros de suas vidas em busca de um ideal inatingível de perfeição. Por mais que se esfalfem, por mais que martirizem suas articulações e músculos, por mais que se encham de traumas e condicionamentos para evitar comer as coisas que mais gostam, jamais terão os corpos torneados e estonteantes dos rapazes e moças que aparecem nas capas das revistas.

Olho-me no espelho, e de perfil a minha silhueta lembra a do saudoso Marlon Brando em O Poderoso Chefão. Eu decidi me conformar com o que sou, mas não permitir que nenhuma característica minha se acentue mais do que as outras. Pretendo manter este peso, este formato e esta silhueta até o apito final, aumentando ou diminuindo as doses de alimentação e exercício conforme necessário. Já tive (não tenho mais) inveja de sujeitos bonitões como Brad Pitt ou Keanu Reeves. Quero ver esses caras quando tiverem a minha idade e meu saldo médio.

Passo pelas academias e vejo aquele monte de masoquistas se auto-destruindo (ver “Precisa-se de chapeados”, 19 de setembro). Levam uma vida de privações, de torturas auto-infligidas. São como a Pequena Sereia do conto infantil, que sonha em ter pernas como as moças de verdade, e quando as adquire descobre que o preço a pagar por isto é sentir, a cada passo, as solas dos pés sendo picadas por milhares de agulhas. As academias abrem aquelas vidraças amplamente devassáveis para nos lembrar esta lição metafísica: não há beleza sem sofrimento.

A contrapartida seria, então, abrir mão da Beleza e abraçar esta outra divindade sedutora, o Prazer. Cervejas e salsichas consumidas sem culpa na poltrona, assistindo futebol, corujão e talk-show. Doces e mais doces. Queijos, iogurtes, batatas fritas, xistudos, Big Macs, nuggets de frango empanados, todos eles acompanhados por niágaras de Coca-Cola. E uma pilha de livros junto do sofá, ao alcance da mão.

O Prazer, contudo, é uma divindade tão traiçoeira quanto a Beleza. Esta quer escravizar a nossa auto-estima, mas o Prazer vai igualmente longe, escraviza nossa força de vontade, transforma cada um de nós num títere, num fantoche dos próprios instintos. Tenho algo de puritano em minha formação que me faz ver com certo desprezo as pessoas que se entregam a um prazer sem limites. Não creio em pecado e não faço uma crítica moral: mas prefiro mil vezes a disciplina masoquista dos atletas à auto-indulgência dos que se empanturram de guloseimas (concretas e abstratas), dos idólatras que veneram o bezerro-de-chocolate, e que não conseguem dizer um “não” a si próprios.

0543) O cachorro sagrado (15.12.2004)


(Imagem: William Wegman)

Ouvi uma história interessante sobre um acadêmico que se dedicou durante anos a uma pesquisa sobre as possibilidades de consumo da carne de cachorro. Levando em conta que a população dos EUA (onde ele vivia) cresce a cada ano, ele achou que seria interessante considerar a carne de cachorro como uma possível alternativa de consumo. Fez todos os tipos de exames, em busca de possíveis toxinas ou outros elementos que desaconselhassem a ingestão de carne de cachorro. Não encontrou nada. É uma carne tão saudável e tão aceitavelmente saborosa quanto a de vaca ou a de porco. Então, ele fez a pergunta: Por que os americanos não comem carne de cachorro?

Chegou à conclusão de que eles não a comem por motivos espirituais. Assim como os hindus morrem de fome mas não sacrificam uma vaca, por razões culturais e simbólicas, os norte-americanos, tão pragmáticos, agem da mesma maneira com os cachorros, por motivos igualmente culturais e simbólicos. E o pesquisador, com uma certa ironia, disse que do mesmo modo que os hindus cultuam a Vaca Sagrada, os americanos cultuam o Cachorro Sagrado.

As razões neste caso não são religiosas, são sentimentais. Americano adora cachorro. Segundo um velho princípio na publicidade americana, qualquer coisa que mostre uma criança e um cachorro atrai a atenção e a simpatia do público. O cachorro não é propriamente um animal sagrado, porque não há motivação religiosa no seu culto. Mas pode-se dizer que é, nos EUA, um animal semi-humanizado. Posso estar enganado, mas creio que nenhum outro povo refinou tanto o conceito de “animal de estimação” (“pet”) quando o americano. É como se o poderoso empuxo da ascensão social das classes altas arrastasse para cima, na direção de “ser quase humano”, até mesmo os lulus e os totós que fazem a alegria daquelas famílias.

Ninguém comeria um bife de Lassie ou um filé de Rin-Tin-Tin. São criaturas parecidas conosco, às quais atribuímos, graças a uma dramaturgia que chega quase a ter algo de liturgia, emoções e desejos semelhantes aos nossos. Nos EUA existe um imenso folclore de episódios pitorescos ou bizarros envolvendo cachorros e seus donos, dos quais o mais reiterado é o do milionário que ao morrer deixa uma fortuna para o cachorro, traduzida em criados, moradia, alimentação de primeira, etc. e tal.

O cachorro dos americanos não passa de um tamagochi orgânico (ver “Gatos e Cachorros”, 8 de abril), beneficiário dessa imensa ternura represada que têm as pessoas ricas para com alguém que lhes dá carinho e aconchego e dos quais eles não precisam temer que estejam botando olho-grande na herança. O cachorro só quer uma comidinha quente, uma festinha atrás da orelha, e nossa presença. Ele nos adora: aquele arquejo não é cansaço, é a excitação dos apaixonados. Matá-lo, temperá-lo, cozinhá-lo, e servi-lo à mesa para saciar nossa fome nos transformaria em alguém pior do que o canibal Hannibal Lecter, que por alguma razão fascina os americanos.

0542) A volta do Inspetor Clouseau (14.12.2004)



Todo mundo gosta de fazer piada com os portugueses, inclusive eu, mas vejam só o que os nossos civilizadíssimos franceses andam aprontando. Dias atrás, a polícia francesa estava fazendo um treinamento com cães farejadores, no aeroporto Charles De Gaulle. Uma certa quantidade de explosivo foi colocada no interior de uma mala escolhida aleatoriamente numa esteira de bagagens. (Não me perguntem por que eles pegaram a mala de um pobre coitado, em vez de levarem uma mala deles mesmos. Não acho que o cachorro fosse perceber a diferença.) Em todo caso, os explosivos foram colocados na mala, e alguém foi buscar o cão.

Foi aí que alguém se distraiu... e a mala, com os explosivos dentro, foi colocada de volta na esteira rolante, que a levou embora. Ao chegarem os policiais com o cão farejador, estava o canto mais limpo, ninguém tinha idéia de onde a mala tinha ido parar. Cerca de 80 a 90 aviões estavam partindo do aeroporto naquele horário, entre as 5:30 e as 7 horas, e a mala poderia ter ido para qualquer um deles. Não houve como pegá-la de volta. O máximo que os franceses conseguiram fazer foi avisar as autoridades dos EUA para revistarem todos os vôos que chegassem do Charles De Gaulle. O que deu no belo bafafá. Um avião que desceu em Los Angeles, por exemplo, foi evacuado, as bagagens de 300 passageiros foram revistadas, e o vôo só prosseguiu rumo ao Taiti com várias horas de atraso.

A polícia apressou-se a explicar que não havia perigo de explosão, uma vez que os explosivos não estavam conectados a um detonador, mas duvido que isso me deixasse muito tranqüilo se eu descobrisse aquela má-notícia dentro da minha valise. São apenas 150 gramas, ou seja, dificilmente o portador da bagagem vai sentir um peso extra e desconfiar. Provavelmente ele só vai perceber o objeto estranho quando desembarcar aqui no Rio (sim, havia vôos de Paris rumo ao Brasil naquele horário), e não vai saber do que se trata. Mais paranoicamente ainda, podemos imaginar que o desafortunado passageiro estava indo na direção de Londres, e acabou sendo preso no aeroporto de Heathrow, sem saber explicar o que diabo era aquilo que trazia entre suas meias e cuecas.

Osama Bin Laden, no seu vídeo mais recente, divulgado há mais de um mês, dizia que iria destruir os EUA usando a própria força e riqueza destes. Disse ele: “Basta um árabe aparecer em qualquer recanto do seu país dizendo que pertence à Al-Qaeda para mobilizar um aparato militar e policial, e gastar centenas de milhares de dólares.” Há muitas maneiras de destruir um inimigo poderoso, um inimigo dado a excessos, um inimigo que tem muito poder e que na hora de um aperto é obrigado, pelo simples fato de dispor desse poder, a usá-lo em sua plenitude. Se Bin Laden quiser, leva os EUA à falência nos próximos 10 anos, sem precisar disparar um tiro sequer. Basta-lhe criar alarmas falsos e ameaças fantasmas. Além de contar com as ameaças que os próprios trapalhões que o combatem irão criar para si próprios.

0541) O obscuro enigma de Drummond (12.12.2004)




(quadrijet.blogspot.com)

“O Enigma” é o último texto do livro Outros Poemas, que reúne os poemas escritos por Carlos Drummond de Andrade entre 1946 e 1947. É um dos raros poemas em prosa de Drummond, pelo menos naquela fase inicial de sua obra, dos dez primeiros livros enfeixados em Reunião

Sempre o considerei uma espécie de parábola kafkeana, de alegoria hermética. Nunca me detive sobre ele, e é um texto de Drummond que jamais vi comentado por quem quer que fosse. Relendo-o, dias atrás, ocorreu-me uma interpretação óbvia. Nada nos parece tão óbvio quanto uma coisa que não conseguimos ver durante décadas e de repente enxergamos.

O texto começa assim: “As pedras caminhavam pela estrada. Eis que uma forma obscura lhes barra o caminho.” 

A curta parábola é contada do ponto de vista das pedras (que são seres pensantes e sentintes), as quais se deparam inesperadamente com essa “forma obscura”, com essa “coisa sombria, desmesurada” que se coloca à sua frente, sem nada dizer, sem nada fazer. 

As pedras tentam em vão comparar este acontecimento a outros do passado, mas aquele objeto “em nada se assemelha às imagens trituradas pela (sua) experiência”. As pedras param, imobilizam-se diante daquilo.

Diz o narrador: “É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios”. E a Coisa nada diz, nada faz, limita-se a colocar-se à frente das pedras, que se lastimam, achando inúteis sua “inteligência” e sua “sensibilidade”, incapazes de ajudá-las naquele impasse. 

E o impasse não se resolve: anoitece, o luar se espalha sobre a paisagem, e “...a Coisa interceptante não se resolve. Barra o caminho e medita, obscura.”

Eu tenho pra mim que esse poema é um recontar às avessas do mais famoso poema de Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra... Nunca esquecerei deste acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas...” 

Desta vez, o mesmo evento é relatado do ponto de vista das pedras que se deparam com essa criatura, que “travou o avanço das pedras” e que acabará fazendo o mesmo com todas as criaturas: “o enigma tende a paralisar o mundo”

O enigma é o Homem, a criatura que ao ver a pedra registra sua existência mas não chega a uma conclusão sobre ela. “No meio do caminho” é um exemplo perfeito do poema existencialista, onde se constata a apavorante realidade das coisas físicas, e o (mais-apavorante-ainda) vazio espiritual ou transcendental por trás delas.

A incapacidade do poeta para entender as pedras no primeiro poema encontra simetria na incapacidade das pedras para entendê-lo, no segundo. Ambos são enigmas um para o outro. 

Muitos anos depois do seu poema emblemático, Drummond revira pelo avesso a experiência numinosa que tivera naquele “meio do caminho” (que evoca o “nel mezzo del camin di nostra vita” de Dante) e parece nos dizer que não somos apenas alguém que não decifra um Enigma, somos um Enigma também, que outras criaturas não conseguem decifrar.






terça-feira, 9 de setembro de 2008

0540) O socialismo digital (11.12.2004)



Como todo universitário brasileiro da década de 1970, passei muitas noites com o nariz enfiado em manuais de marxismo. Naquele tempo, a ditadura cometia barbaridades contra comunistas e militantes de esquerda em geral. Simpatizar com essa turma era um imperativo moral até mesmo para sujeitos como eu, incapazes não só de pegar em armas contra o regime, mas até de acordar cedo para derrubá-lo. Em seu poema “A Torre sem Degraus”, Carlos Drummond fala de pessoas decididas a mudar o mundo, desde que para isto não seja preciso mover uma palha. Era o meu caso.

Sei que há uma dúzia de marxistas que lêem esta coluna, portanto, companheiros, corrijam-me se eu estiver errado. Um dos grandes problemas do Socialismo foi que uma revolução socialista num país atrasado teria como efeito inicial “socializar a miséria”, dividir o pouco entre os muitos. O Socialismo em País Pobre teria uma distribuição de riquezas justa, mas as riquezas seriam poucas, devido ao pouco desenvolvimento dos meios de produção. Esta era, aliás, a razão por que Karl Marx duvidava que o comunismo desse certo num país agrário e retrógrado como a Rússia – como aliás não deu.

O Socialismo teria que brotar, idealmente, num país de capitalismo avançado, um país onde a tecnologia, a ciência, os meios de produção material pudessem suprir as necessidades de toda a população, se fossem socializados. Inglaterra ou Alemanha tinham industrialização sofisticada, e relações de produção ainda arcaicas, por haver uma classe que ficava com toda a riqueza em detrimento das outras. Seria necessário, portanto, uma revolução para fazer com que toda essa evolução técnica tivesse seus benefícios voltados não apenas para um pequeno grupo, mas para toda a população.

Desculpem meu simplismo, mas nunca discuti marxismo com Fernando Henrique nem com Luiz Inácio, meu marxismo foi aprendido em mesa de bar, conversando com futuros sociólogos, poetas, diretores de teatro, músicos, estudantes de engenharia e jornalistas. Mas vejam como o mundo digital de hoje (internet, queima de CDs, pirataria, Napster, MP3, downloads gratuitos, filme baixado em banda larga, códigos abertos, “Creative Commons”, etc.) é uma Revolução Socialista em processo. Distorções ocorrem (a pirataria de CDs, em primeiríssimo lugar), mas é porque ainda estamos em plena vigência da lei-da-selva capitalista, onde o aparato high-tech ainda está voltado para o enriquecimento de grupinhos de espertalhões sem escrúpulos.

A revolução digital, contudo, está a caminho de uma Estação Finlândia que já desponta no horizonte. É a reprodução em série, a mídia independente, as redes de troca, o conceito de “copyleft”, todo o fervilhar de atividades subterrâneas e informais criado nos quartos-dos-fundos, nos laptops, nos PCs canibalizados de uma galera que forçou tanto o crescimento dos meios de produção que acabou explodindo as relações produtivas. E agora não tem mais volta, babau Tia Chica.

0539) Lixo (10.12.2004)


(Lixo em Nápoles)

O que é lixo? Em Tóquio, por exemplo, lixo pode ser um computador Pentium III de 500 Mhz, com disco rígido de 80 Gb, igual a este onde todos os dias venho tomar minha vacina contra o Tédio. O japonês compra uma máquina com o dobro da capacidade e aí pega o computador velho e coloca no corredor do prédio, para ser recolhido pelo porteiro. É lixo para o Sr. Nakayama, que acabou de fazer a troca, mas deixa de ser lixo no momento em que é recolhido pelo porteiro, um rapaz de Guaratinguetá que está no Japão fazendo seu pé de meia, e até então não tinha tido tempo de escolher um PCzinho para o filho jogar The Sims.

O que é lixo para um deixa de sê-lo, magicamente, quando cai nas mãos de outro. Uma sociedade inteligente é a que prevê e administra as possibilidades dessa reciclagem. Quando tomo meu café da manhã, todos os dias, produzo coisas de que não preciso mais: pó de café, cascas de ovos, bagaço de laranja. Tudo isso vai para o lixo, mas não tinha de ser assim. Quando eu era pequeno, lá em casa não se jogava fora uma casca de ovo. Todas eram lavadas, guardadas, torradas no forno, pulverizadas, e guardadas num saleiro, em forma de um pozinho branco muito fino, composto de puro cálcio, que era polvilhado no prato do almoço e até hoje me garante estes ossos fortes que nunca foram quebrados. Algo me diz que a grande maioria das coisas que vai para a lixeirinha da pia poderia ter o mesmo destino.

Falei acima que a sociedade deveria prever e administrar essa reciclagem, mas prefiro reformular esta proposta. Dizer assim dá a impressão (tão cara ao pessoal da direita e da esquerda) de que reciclar lixo é tarefa do governo, de que deveria haver funcionários públicos encarregados de toda manhã tocar à nossa campainha para pegar nosso lixo reciclável, conduzi-lo para uma indústria estatal, etc. etc. Na verdade, acho que deve caber ao governo apenas a criação desses centros e a educação do povo (minha e sua, caro leitor) para aprender a separar, guardar e encaminhar. Quem tem de se organizar para fazer isso são as pessoas, as famílias, os condomínios, os bairros, as vizinhanças. Se esperar por Governo, o mundo cai de podre.

Lixo é tudo aquilo para o qual ninguém consegue descobrir uma nova utilização. Enquanto tiver um cara esperto capaz de olhar para aquilo (pó de serra, pilha descarregada, quenga de coco, plástico de CD, prego enferrujado) e descobrir uma nova utilização, nada está perdido para sempre. As escolas poderiam dar o exemplo, reciclando, com a participação dos alunos, tudo que é utilizado em suas cantinas e salas de aula. Assim como o planejamento urbano e a construção civil são obrigados hoje a prever o acesso e a locomoção de portadores de deficiência, deveriam prever também instalações de recolha e distribuição de lixo reciclável. Não é tão difícil. No Brasil, por exemplo, basta promulgar uma Lei e convencer a Rede Globo a encampar a idéia.

0538) O Código Da Vinci (9.12.2004)



Não, leitor, sinto muito mas não li esse thriller policial de Dan Brown, que está vendendo mais do que coca-cola no Saara. Mede-se o sucesso de um livro pela quantidade de outros livros que tentam pegar carona nele, não é mesmo? Tem horas que eu penso que endoideci, mas já temos nas prateleiras de nossas livrarias títulos como Revelando o Código da Vinci (Martin Lunn), Quebrando o Código Da Vinci (Darrell L. Bock & Heiko Bock), Decodificando Da Vinci (Amy Welborn), Decifrando o Código Da Vinci (Simon Cox), e A Fraude do Código Da Vinci (Erwin Lutzer). É mole ou quer mais?

Quando o livro começou a fazer sucesso, no ano passado, fui numa dessas livrarias online (tipo Amazon ou Barnes & Noble) que oferecem de graça o primeiro capítulo, baixei, e li. Confesso que não me entusiasmei muito. Eu esperava um thriller cheio de enigmas e muito bem escrito, mais ou menos como O Clube Dumas de Arturo Pérez-Reverte. O primeiro capítulo que li me lembrou a “pulp fiction” dos anos 30: uma narrativa melodramática, estilo pedestre, e havia um tal dum telefonema com uma voz arquejante do outro lado recitando uma porção de lugares-comuns... “Pulp-fiction por pulp-fiction,” pensei, “acho que vou reler Fu-Manchu ou Fantomas.”

Pelos comentários que vi, Dan Brown explora a teoria conspiratória segundo a qual Jesus Cristo teria sobrevivido à cruz, casado com Madalena e deixado uma linhagem de descendentes. Este segredo teria sido guardado durante séculos pelos Cavaleiros Templários, até que estes entraram em rota de colisão com as monarquias européias, que temiam o aparecimento de um sujeito qualquer dizendo: “Eu sou o tatataraneto de Jesus, e quero ser coroado rei da França...” Pense num problema diplomático! Pegaram os Templários, queimaram seus arquivos e por via das dúvidas queimaram todos eles também.

Toda essa história está milimetrada num livro-reportagem (este, sim, interessantíssimo) de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, já publicado no Brasil. Encontrei este livro por acaso, há quinze anos, num sebo de Lisboa, e como tinha passado a tarde inteira percorrendo as criptas da Torre de Belém e os corredores do Mosteiro dos Jerônimos, pareceu-me muito plausível essa teoria mirabolante sobre mensagens cifradas, tesouros enterrados, heranças misteriosas, e sociedades secretas.

Vi na imprensa que os autores do “Santo Graal” estão processando Dan Brown, o que é uma bobagem. Os fatos da reportagem são agora públicos, e qualquer um teria o direito de reutilizá-los numa obra de ficção. Daqui a pouco vai ter escritor brasileiro querendo seguir o mesmo filão. Que besteira. Bem que podíamos ter “thrillers” brasileiros de mistério histórico, falando do retorno de Dom Sebastião, tesouros ocultos nas ruínas de Canudos, uma máquina-do-Tempo deixada incompleta pelos holandeses em Pernambuco, ou a guerra de xamãs que deixou em ruínas as Sete Cidades do Piauí.

0537) Os 14 sintomas do fascismo (8.12.2004)




(desenho de Raoul Vaneigem)

Encontrei meio por acaso uma página com o resumo da pesquisa feita pelo Dr. Lawrence Britt (que não faço idéia de quem seja) sobre vários regimes fascistas: Hitler, Mussolini, Franco, Suharto (da Indonésia) e algumas ditaduras latino-americanas. Britt fez um balanço e descobriu que todos estes regimes tinham catorze traços em comum. Acho que vale a pena ficar de olho neles, porque é de um em um que costumam vir se instalando no país da gente.

1) Nacionalismo constante e intenso, com profusa utilização de bandeiras, símbolos, hinos, etc. 

2) Desprezo pelo reconhecimento dos direitos humanos, e uma aceitação da tortura, prisão arbitrária, etc., como um “mal necessário” para perseguir os inimigos da democracia. 

3) Denúncia de inimigos e de bodes expiatórios para promover a uniformidade ideológica da população, geralmente mobilizando-a contra um país vizinho ou contra uma minoria étnica, religiosa, etc. 

4) Supremacia militar: mesmo quando o país tem problemas sociais da maior urgência, grande parte da verba é destinada para os salários e investimentos da área militar. 

5) Preconceito sexual, geralmente na direção de um profundo conservadorismo; o machismo predomina, e há fortes restrições contra o divórcio, o aborto e o homossexualismo.

6) Controle dos meios de comunicação, seja através da censura propriamente dita, seja através de políticas de concessões e financiamento, ou da utilização de personalidades populares da mídia como propagandistas do regime. 

7) Obsessão com a segurança nacional, usando o medo como justificativa para políticas internas e externas. 

8) Mistura entre Governo e Religião: a religião mais popular do país é usada como fator de mobilização do povo, e os líderes usam retórica e valores pretensamente religiosos para justificar suas atitudes. 

9) As grandes corporações são protegidas, até porque o governo é elevado ao poder através da aristocracia empresarial e industrial, para defender-lhe os interesses. 

10) A organização dos trabalhadores é sabotada, por ser a única força capaz de se opor a um governo fascista.

11) Desprezo pelos intelectuais e artistas; regimes fascistas tendem a promover ou tolerar a hostilidade aberta à cultura universitária e acadêmica, e a impedir a livre expressão através das artes e das letras. 

12) Obsessão com crime e castigo. Nas nações fascistas, prender e punir tornam-se atividades constantes, e a população é levada a tolerar abusos nesta área em nome do patriotismo. 

13) Política de apadrinhamento e corrupção explícitas: os países fascistas favorecem a proliferação de grupos de amigos que se nomeiam uns aos outros para cargos importantes, e se protegem mutuamente enquanto saqueiam as riquezas da nação. 

14) Eleições fraudulentas, perseguição e mesmo assassinato de candidatos de oposição; legislação que favorece a perpetuação de grupos no poder; uso do poder judiciário para manipular e controlar as eleições.

Depois não digam que eu não avisei.


domingo, 31 de agosto de 2008

0536) Exoterismo e auto ajuda (7.12.2004)



Não, amigo, não está errado não, é “exoterismo” mesmo. Todo dia, em algum órgão da imprensa, um redator sem assunto resolve explicar esta importante diferença, e hoje é minha vez. Conhecimento esotérico é aquele que é reservado a grupos fechados (“eso” significa justamente “por dentro”, ou “nas internas” como se diz na gíria). São aqueles segredos cruciais a que os sócios não têm acesso, só a Diretoria. Por outro lado, conhecimento exotérico é justamente o contrário: aquele que é divulgado para informação de todos, que é acessível a todos. “Exo” quer dizer “por fora, ou para fora”: “exorcizar” é expulsar o demônio, “exoesqueleto” é o esqueleto exterior dos crustáceos, “exogamia” é a prática de casar com pessoas de fora do clã.

Dito isto, determino que todos os órgãos de imprensa do Brasil eliminem imediatamente de suas páginas a expressão “livro esotérico”, substituindo-a pelo termo correto, com “x”. O próprio conceito de “livro esotérico” é uma enorme contradição, pois um conhecimento verdadeiramente esotérico é por sua própria natureza um conhecimento oral, transmitindo pessoalmente entre gerações de iniciados. No máximo, existe aqui ou acolá um papiro ou pergaminho com anotações cifradas, mas a idéia de um livro, impresso industrialmente em grande quantidade, com conteúdo esotérico, é tão absurda quanto a de um cofre-forte sem porta.

Aliás, é bem sintomático que em todas as listas do mais vendidos, nos catálogos das editoras e nas prateleiras das livrarias vejamos estes dois rótulos sempre lado a lado: “Esoterismo e auto-ajuda”. Porque em princípio, pelo menos para mim, uma coisa não tem nada a ver com a outra. A relação entre os verdadeiros conhecimentos esotéricos e os manuais de auto-ajuda é a mesma que existe entre o ouro puro e as bijuterias de camelô. Mas o exoterismo cumpre uma importante função social. Sob a aparência de sabedoria oriental, medieval ou renascentista, ele dissemina entre a população uma porção de mensagens positivas, com uma aura de autoridade conferida pelo mistério.

Qualquer livro de auto-ajuda está cheio de coisas certas. É difícil eu folhear um deles e discordar de alguma coisa, porque eles só reiteram o óbvio. Seja otimista. Trate bem os outros. Não esquente demais a cabeça. Procure se dedicar ao que gosta. Se uma coisa estiver lhe fazendo mal, afaste-se dela. Comunique-se: procure saber o que os outros estão pensando, procure explicar o que você mesmo está pensando. E assim por diante. Tudo isto é óbvio, tudo isto são verdades que intuitivamente reconhecemos, mas precisamos da chancela de uma autoridade qualquer. Daí que os livros de auto-ajuda se dividam entre os da área científica (psicologia, medicina, nutrição, educação física) e os da área mística (astrologia, tarô, runas, ocultismo,, etc.). Tudo que dizem é verdade, é claro, é evidente, mas parece tão simples que só valorizamos se vier avalizado por alguma Sabedoria remota e imponente.