Eu estava vendo no YouTube uma
interessante mesa-redonda (“Oscar Actors Roundtable”), realizada no fim do ano
passado, com alguns atores que naquele momento estavam sendo cotados para
indicação ao Oscar e a outros prêmios de Hollywood.
Ali está o nosso Wagner Moura (O Agente Secreto) batendo papo com
Benicio Del Toro (Uma Batalha Atrás da
Outra), Jacob Elordi (Frankenstein),
Will Arnett (Is This Thing On?) e Jesse
Plemons (Bugonia).
Outro participante é o veterano Stellan Skarsgard, de Sentimental Values. Os rapazes estão
trocando idéias sobre a arte de ser ator de cinema, e a certa altura o sueco dá
um exemplo do filme Breaking The Waves, de Lars von Trier.
Diz ele que no set de filmagem havia uma placa enome, colocada
bem alto, na parede, para todo mundo ver: Cometam
alguns erros. E o próprio Von Trier dizia de vez em quando: “Ei, vocês não
estão cometendo muitos erros, vou cometer um agora!...” E fazia uma bobagem
qualquer, e todos riam.
Esse tipo de recomendação tem um efeito terapêutico. Não
existe trabalho artístico mais tenso e mais arriscado do que o de ator e atriz.
Você chega ali, na frente de dezenas de estranhos, com a incumbência de criar
uma pessoa que não existe, baseando-se em instruções que geralmente foram
escritas sem saber que era você que iria interpretá-las.
(Gloria Swanson)
E tudo que você tem a oferecer é sua cara, seu corpo, sua
voz, seus gestos... E muitas vezes cometer erros ridículos, pagar micos
imperdoáveis diante da uma equipe de técnicos que (você sabe) estão ali num
silêncio respeitoso, mas à noite, no alojamento, se esbaldarão de gargalhadas
lembrando a besteira que você fez.
Não existe entrega maior, disponibilidade maior,
auto-sacrifício maior. É somente por isso que eu relevo e descarto os defeitos
que às vezes se grudam ao casco de quem exerce essa profissão. Como a vaidade, uma
espécie de glutoneria de louvações para aplacar o medo do ridículo, esse medo
latejante que é pior que o medo da dor física. A pose blasé, a carapaça de artificialidade protetora. E os rompantes de
criança mimada, os pitis, as exigências mirabolantes, as chantagens
passivo-agressivas... Tudo isso é perdoável. Fiquem em paz, e Deus os abençoe.
Vocês são uma fênix que morre em cada take
para renascer no próximo.
(Shelley Duvall / Stanley Kubrick)
Devia ser um pesadelo trabalhar com gente como Stanley
Kubrick, famoso por ordenhar cada gota de sangue do seu elenco. “Take 175!... Vamos, faça de novo.” Alguns artistas se abalavam para sempre, como
Shelley Duvall (O Iluminado). Outros rasgavam
o contrato e iam embora, como Harvey Keitel (Eyes Wide Shut). Um ator, uma atriz reivindicam o direito de errar,
mas isso é outra coisa.
E o que é “errar”? Quem trabalhava com um neurótico
perfeccionista como Kubrick via-se meio que obrigado a ler o pensamento dele,
adivinhar o que ele queria com tantas repetições. Nos primeiros 20 ou 30 takes, o ator se diverte, experimentando
variantes, mudando a voz, mudando o andar, arriscando coisas que nunca seriam
sua primeira opção. Mas... Chega uma hora em que ela pensa: “Esse cara tá de sacanagem comigo.”
Samuel Beckett já disse, famosamente (fornecendo a cada um
de nós o alívio de um álibi):
Sempre tentei. Sempre falhei. Não importa. Tente de novo. Falhe de
novo. Falhe melhor.
Me valho também da sabedoria popular do futebol, para mim
encarnada neste princípio que o técnico Vanderlei Luxemburgo não cansava de
repetir: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”.
Quando você tem medo de errar, acaba fazendo apenas o
mais previsível, o já conhecido, o já garantido, o que comprovadamente já
funcionou cem vezes. “Fulano, fale pra gente sobre seu trabalho no filme tal.” “Mas eu não trabalhei nesse filme. Eu fui lá,
fiz tudo no piloto-automático, embolsei a grana e voltei para casa”. Quantas
vezes a gente não já viu conversas assim?
A placa colocada no set
por Lars Von Trier é um recado apaziguador, uma espécie de “Relaxa, vamos trabalhar duro, sim, mas vamos
também nos divertir um pouco”. E não
existe nada mais divertido, para quem gosta deste ofício, do que experimentar
coisas. Naquele ótimo programa Inside the
Actor’s Studio (tem muitos no YouTube) a gente tanto escuta histórias
arrepiantes de terror profissional quanto histórias divertidas sobre o lado
lúdico, brincalhão, experimental, dessa profissão de inventar coisas “do nada”
diante de uma câmera rodando.
Já vi um diretor dizendo como combinou um papel difícil com
uma atriz:
Eu disse a ela: esse papel é complicado, fique tranquila, vamos
experimentar várias vozes, várias posturas, várias dinâmicas... Faça de conta que
está na loja experimentando vestidos na frente do espelho, sem compromisso, até
achar um que você diga: Maravilha, vai ser este aqui.
O difícil, claro, é manter essa descontração lúdica num
ambiente de trabalho carregado, nervoso, às vezes numa situação de estouro de orçamento
e de cronograma. Ou num ambiente de hostilidade, rivalidade pessoal. Ou de
indiferença impaciente, do tipo “Vamos,
meu rapaz, não dê maçada na gente, resolva logo essa sua cena para a gente poder
fazer algo mais importante.”
Uma vez perguntaram a uma atriz jovem como ela sabia se o
take tinha ficado bom ou não, e ela
disse:
O diretor geralmente diz que ficou uma maravilha, e pede pra fazer de
novo. Está no papel dele, que é tranquilizar os atores. Mas eu olho para o
pessoal da técnica, o pessoal que está em volta da câmera, ou com o equipamento
de som. Pela reação deles, a gente sabe se ficou bom ou se ficou um porcaria. Ninguém
presta atenção neles, e a reação deles é de verdade.
Todo mundo erra, e quem mais erra, em geral, é quem
acerta muito – porque ousou muito. É como no futebol. Diante de uma área
repleta de zagueiros, o mais fácil é trocar passes laterais. Alguém vai ter que
receber a bola e pensar: “Vou entrar
driblando e vou chutar, e seja o que Deus quiser”. Quando perde a bola, é
chamado de idiota. Quando faz o gol, se ajoelha e ergue os dois indicadores pro
céu.
É como dizia Fernando Pessoa: “Às vezes sou o Deus que trago em mim.”
(Stellan Skarsgard)
Quem mais paga mico em toda a história do cinema (teatro,
etc.) são os grandes atores e atrizes. Na mesma mesa-redonda do YouTube, a
entrevistadora Yvonne Villareeal quer saber se eles, como atores, dão ouvidos
aos críticos, se leem resenhas. E mais uma vez o veterano Skarsgard conta que estava
atuando numa peça teatral e um crítico, numa resenha devastadora, apontou
alguma coisa que ele estava fazendo errado. “E você fez o quê?”, pergunta
alguém. E ele, com simplicidade: “Corrigi o erro nas noites seguintes”.
Abençoado teatro, essa possibilidade de Reencarnação, de
metempsicose, essa segunda-chance de viver de novo uma vida inteira, corrigindo
os próprios erros. O cinema é impiedoso. O erro que vai para a tela fica lá o
resto da vida, e vida ali só existe uma.
(Sir Alec Guiness)
É fato sabido que o grande Alec Guiness, o inesquecível
Obi-Wan Kenobi de Star Wars, nunca
deu muita importância a esse papel, que provavelmente aceitou só pela grana.
Mas li uma entrevista dele, na época, em que ele dizia (estou parafraseando):
É um filme infanto-juvenil, eu fui lá e fiz o que me pediram. Só me
arrependo de uma coisa, um gesto que fiz numa cena, perto do fim do filme... Uma
coisa ridícula, que me dá vontade de esconder a cara toda vez que me lembro, mas
no atropelo das filmagens acabou ficando, e não deu para refazer, vou ficar com
essa vergonha para o resto da vida.
O mais interessante é que eu já revi o filme mais de uma
vez e não sei que gesto é esse.
Não ter medo de errar é não ter medo de acabar carregando
pelo resto da vida esse constrangimento, esse arrependimento, esse “duh”, esse “facepalm”, esse “cringe”.
Fazer o quê? É uma lei da vida. Só cai da montanha quem subiu a certa altura.
Ou, como se diz no futebol, “sucesso” é poder ajeitar a
bola na marca do pênalti e recuar cinco passos.
Só erra quem tenta, e só acerta quem tenta, também. E por
incrível que pareça o público não apenas perdoa a maioria dos erros, como nem
percebe. Já vi muito músico, em camarim pós-show, batendo com a cabeça na
parede por ter errado uma convenção ou falhado um acorde, erro que foi notado
pelos outros músicos e por ZERO PESSOAS na platéia.
Um grande filme não é grande por uma suposta ausência de
defeitos. Eles geralmente tem uma porção de defeitos. O que o torna um grande
filme é a presença de uma série de qualidades que o tornam memorável, forte, e
que nos fazem revê-lo com a mesma expectativa pela segunda vez, a terceira, a
quarta.
O filme tem defeitos? Ora, todo filme bom tem defeitos. O
ator fez umas caras-e-bocas ridículas? Tem algumas cenas chatas? A câmera treme
aqui, desfoca ali? A música não é grande coisa? Não importa. É para rever as
qualidades que voltamos ao cinema. Para rever as qualidades de Casablanca, ou de Deus e o
Diabo na Terra do Sol, ou de Blade
Runner, ou de Acossado, ou de Veludo Azul, ou de After Hours ou de O Agente
Secreto, nosso espião infiltrado em Hollywood.
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