terça-feira, 19 de janeiro de 2010

1543) O caçador de pipas (22.2.2008)



Esse tal de Mercado é uma coisa engraçada. Para os que mandam na cultura, ele é hoje o Júpiter Tonante, o Todo Poderoso. Os índices de Ibope, de bilheteria ou de vendagem são o crivo-de-Eratóstenes que elimina todo o redundante e chancela apenas o essencial, o que vale pra valer, o que são favas contadas. Vender é o que importa. Para eles, cultura que não pode ser vendida é inútil para o artista, e cultura que não precisa ser comprada não vale nada para o consumidor.

Sinal dos tempos, sinal do Fim dos Tempos, mas em vez de me cobrir de saco e cinza prefiro sentar no batente da janela, apontar a luneta e secretariar as peripécias. Por exemplo: sou um fã do filme Blade Runner, de Ridley Scott, que considero um dos 10 (ou um dos 100, ou um dos 435) clássicos da FC. Vi várias vezes, revi em VHS, depois em DVD. Em 1992 saiu a versão do autor (“Director’s Cut”) em que Scott cortou uma porção de coisas impostas na época pelo produtor. E agora, em 2007, saiu o chamado “Final Cut”. Das duas uma: ou os produtores esperam que o consumidor guarde lado a lado todas as versões, ou espera que a mais recente invalide as anteriores (e quem me garante que daqui a pouco não virá mais uma, invalidando a atual?).

O Mercado se volta hoje para os “completistas”, para aquela faixa endinheirada e fanatizada do público que, quando gosta de uma obra, está disposta a comprar todos os subprodutos dela. O grande sucesso livreiro atual é O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini, cuja edição normal está à venda por R$ 39,90. Para quem já a leu, foi lançada (e está vendendo bem) a edição ilustrada, por R$ 69,90. Se não bastar, o cara pode comprar por R$ 29,90 o áudio-livro. O filme já está passando nos cinemas; em breve sairá em DVD, e... o céu é o limite. O Mercado ordenhará o texto de Hosseini sob todas as formas possíveis, até a última gota de leitura.

Alguns anos atrás, um cantor de sucesso se queixava: “Tenho canções inéditas suficientes para dois discos, mas a gravadora não aceita. Só querem regravações, discos temáticos, tributo a Fulano, homenagem a Sicrano. Só querem regravações de canções já conhecidas. Ninguém quer arriscar no novo”. A filosofia por trás disto é que se o público demonstra interesse por algo vale a pena oferecer-lhe essa mesma coisa sob qualquer pretexto. Reedições de livros com novo prefácio de A, nova introdução de B e comentário crítico de C. Versões remixadas de discos, versões remontadas de filmes. Versões colorizadas de filmes em P&B (isto, felizmente, parece que nunca colou). Regravações incontáveis de canções de sucesso. “Sessões Nostalgia” em que são recuperados até mesmo os filmes detestados trinta anos atrás (o bang-bang italiano, a chanchada, a pornochanchada, o filme-de-monstro japonês). Na defensiva, aposta-se na máxima do “um pouco mais daquilo mesmo”. Sinal de um Mercado em crise, apavorado, apegando-se à minoria que tem muito dinheiro e não sabe muito bem onde gastar.

1542) As mães inocentes (21.2.2008)



No Almanakito que remete regularmente para seus leitores, a jornalista Maria do Rosário, sob o título “Mães Inocentes”, compara os filmes O Gangster de Ridley Scott e Meu Nome não é Johnny de Mauro Lima, dizendo: “A mãe do personagem de Denzel Washington sai da pobreza, com os filhos, para viver numa mansão cinematográfica. Desfruta de todo o luxo do mundo, sem problemas. Quando a coisa pega, ela dá sermão no filho: não mate polícia, nunca perguntei de onde você tira seu dinheiro (quer dizer que ela não sabia que o filho era traficante de heroína trazida do Leste asiático em caixões de soldados norte-americanos?????). No filme brasileiro, a personagem de Julia Lemmertz ganha jóia cara do filho e não desconfia que ele está arrumando dinheiro "fácil" com tráfico de drogas. No cinema, "mãe é mãe", né??”

No caso da mãe do americano Frank Lucas, eu me atrevo a supor (sem nenhuma informação além do filme, confesso) que a situação na vida real era muito diferente. A mãe não era cega nem boba, e sabia que o filho ganhava um milhão de dólares por dia vendendo heroína. Na cena em que ele pega numa arma para ir atrás dos policiais corruptos que invadiram sua casa, a matriarca, que é esperta, chama o filho à realidade. Vender droga é uma coisa, matar policial é outra muito diferente.

Quanto à mãe do personagem interpretado por Selton Mello no filme brasileiro, imagino (sem base, mais uma vez) que era assim mesmo, tintim por tintim. O filho dava festas toda noite para 30 ou 40 pessoas, e a mãe não sabia de onde vinha o dinheiro. Separada do marido, foi embora de casa e perdeu o interesse por tudo. O filho lhe dava jóias caras e certamente a sustentava. Para ela, provavelmente era mais cômodo limitar-se a saber que João “trabalhava com vendas”. Quando a gente tem medo da resposta, é melhor nem fazer a pergunta. “É o meu guri...”

Algumas mães são inocentes por excesso de afeto. Outras, por limitações mentais ou de informação – simplesmente não entendem o mundo em que os filhos vivem. Este é parcialmente o caso da mãe de João Estrela no filme. Fazer esse tipo de comentário sobre um filme inspirado em pessoas reais, e que ainda estão vivas, é sempre arriscado. Mas, levando em conta exclusivamente o que é mostrado no filme, a personagem de Julia Lemmertz é do tipo que prefere não saber. O filho está bem, vive atarefado, mantém a casa, tem uma bela namorada, centenas de amigos, dá festas de arromba, dá-lhe jóias de presente... Perguntar, pra quê? Se o filho fosse um fracassado, vivesse deprimido, jogado em cima de um sofá, sem emprego, sem conhecidos, somente vendo TV e tomando Coca-Cola, ela provavelmente cairia em cima dele com um-quente-e-dois-fervendo, no velho discurso do “vai trabalhar, vagabundo”. Mas sucesso não se questiona. Dinheiro é dinheiro. Como diziam os romanos, “pecunia non olet”, “dinheiro não fede”. Se dinheiro sujo fedesse, a Suíça já tinha sido interditada pela Organização Mundial de Saúde.

1541) O homem na capa do disco (20.2.2008)


Diz uma piada antiga que certa vez Henry Ford, no auge do sucesso de sua indústria automobilística, requereu uma audiência com o Papa. O papa o recebeu com cortesia, os dois trocaram amabilidades, e aí o americano explicou a razão de sua visita: “Eu gostaria que o sr. colocasse a palavra ‘Ford’ no Pai Nosso”. 

O Papa se assustou: “Que é isso, eu não posso”. Ford insistiu: “Falei com meus acionistas e estou pronto para pagar cem milhões de dólares”. E o Papa: “A oração faz parte da tradição cristã, não posso mexer nela”. Ford era persistente: “Santo Padre, estou autorizado a ir até 500 milhões de dólares, porque o merchandising seria muito positivo para nós”. 

O Papa, desesperado: “Não, não, é pecado, saia daqui”. Ford retirou-se, matutando consigo: “Como será que a Fiat conseguiu?...” 

Muita gente fica famosa porque aparece, para manter o clima cristão, como Pilatos no Credo. Ou seja: a fábrica Fiat jamais desembolsou um centavo, mas a frase “fiat voluntas tua” (“seja feita a vossa vontade”) está lá para quem quiser ver. 

Descendo a um terreno mais profano, quantos de nós não dariam os 500 milhões de Henry Ford, caso os tivessem, para aparecer na foto da capa oficial de um disco dos Beatles? Pois essa sorte coube, de graça e à revelia, a um americano chamado Paul Cole, que morreu esta semana. Cole estava de férias em Londres, passeando com a esposa, e certo dia, quando ela quis visitar um museu, ele falou; “Já estou de saco cheio de tanto museu. Vá lá, que eu vou dar uma volta, e mais tarde a gente se encontra”. E lá se foi ele, bater pernas na ensolarada manhã londrina.  

A certa altura, parou junto a uma van da polícia estacionada junto ao meio-fio. “Parei do lado e comecei a conversar com o policial, perguntando sobre a cidade, o trânsito, essas coisas,” recorda Paul Cole. Eram cerca de dez da manhã do dia 8 de agosto de 1969. 

De repente, Paul virou-se e viu, num canteirozinho no meio da rua, uma escada em V no alto da qual um sujeito empunhava uma câmara fotográfica. E de repente quatro sujeitos de aparência estranha começaram a cruzar a rua, em fila indiana: um cabeludão de óculos e terno branco, um sujeito menorzinho de cigarro no dedo, outro de terno escuro e pés descalços, e por último um cara de imensa barba, vestindo camisa e calça jeans. Paul Cole pensou: “São uns malucos. Não se anda descalço em Londres.” 

Um ano depois, Paul estava em sua casa, nos EUA, enquanto a esposa ouvia o disco novo dos Beatles, Abbey Road, e tentava aprender a tocar no órgão a música “Something” de George Harrison. Quando pegou na capa do disco, ele teve um susto. Lá estava a van! Lá estavam os quatro malucos! E lá estava ele! (Cole é visível junto à cabeça de John Lennon, parado junto da van escura da polícia). A foto lhe rendeu entrevistas o resto da vida, e obituários no mundo inteiro quando morreu agora, aos 96 anos. Ficou famoso – e não gastou um tostão.







1540) O som de Godard (19.2.2008)



Estilo é algo que está em tudo que um artista faz e que você não encontra, daquele jeito, em nada feito por outra pessoa. Muitas vezes a gente não sabe pôr o dedo em cima e dizer o que caracteriza o estilo de Fulano ou Sicrano. Com um pintor, às vezes a gente pensa que são os temas, mas subliminarmente o que se impressiona são as cores. Com um cantor, a gente pensa que é o timbre da voz, mas é o jeito de dividir as sílabas. E assim por diante. O que nos pega no estilo de Fulano é muitas vezes algo que nossa mente percebe e decodifica intuitivamente, sem refletir, porque estamos com nossa atenção consciente fixada noutra coisa. Isso acontece muito com artes de entretenimento como a música, como o cinema. A gente está grudado nas ações dos personagens e não percebe que está percebendo os movimentos da câmara.

Para mim uma das coisas que marcam o estilo de Jean-Luc Godard, ou pelo menos do Jean-Luc Godard dos filmes entre 1959 e 1967 (o que prefiro, embora ele tenha feito bons filmes depois) é a sua maneira totalmente anticonvencional de usar o som. Vendo um filme de Godard estamos muitas vezes presos à história, ou ao charme dos atores. Ou estamos tentando fazer sentido de uma narrativa feita com cortes bruscos e seqüências que não seqüenciam as anteriores. E o tempo todo é a trilha sonora que nos invade lateralmente e nos dá aquela esquisita sensação de “estar vendo um filme de Godard”.

Diz-se que o primeiro filme feito por Godard com som direto foi Uma mulher é uma mulher (1961). Nos anteriores (Acossado, 1959; O pequeno soldado, 1960), talvez para simplificar o tedioso processo de sonorização, sincronização, mixagem, etc., ele desenvolveu uma maneira anti-convencional de tratar o som. Em numerosas cenas Godard elimina todos os ruídos de uma cena movimentada e deixa apenas um piano ao fundo. Vemos um casal conversando e não ouvimos o que dizem; carros passam, motoristas apertam a buzina, portas se abrem e fecham, e tudo que nos é dado escutar é aquele piano melancólico como se fosse um filme mudo passado nos antigos cinemas, com um pianista entediado ou distraído que não se preocupasse em adequar sua trilha sonora àquilo que passava na tela.

Godard é também um mestre da narração em “off” simultânea, ou seja, o personagem está descrevendo uma cena que está ocorrendo ali, diante dos nossos olhos. O rapaz faz uma pergunta à moça, e em seguida ouvimos sua voz, em “off”, dizendo: “Ela acendeu um cigarro e perguntou por quê”. E no instante seguinte ela faz exatamente isto. Em “O pequeno soldado”, a história é um longo flash-back, contada em “off” pelo protagonista; mas é típico de Godard essa maneira de fazer o passado tornar-se presente através da ação direto, enquanto que o tempo presente (o da voz que conta a história) fica superposto à ação do filme, como nesses DVDs em que nos é dada a opção de ver o filme escutando ao mesmo tempo os comentários e as explicações do diretor.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

1539) Munevada glimou vestassudente (17.2.2008)



Num número recente da revista
Língua Portuguesa (n. 26, de 2007) o poeta Eucanaã Ferraz contribui com uma excelente análise da poética de Vinícius de Moraes. 

O foco de Eucanaã é nas inovações lingüísticas de Vinicius, e boa parte de sua análise é centrada num dos meus poemas favoritos: “Sombra e Luz”, um delírio surrealista que li aos 10 anos de idade e que bouleversou meus conceitos do que era poesia, que até aquele período flutuavam em torno de Olavo Bilac, Castro Alves, etc. “Sombra e Luz” é um exercício de livre associação de idéias, de imagens, de vocábulos. 

A certa altura, diz Eucanaã: 

“Todo esse jogo chega a seu ponto culminante no verso que abre a segunda parte do poema: ‘Munevada glimou vestassudente’. Trata-se de uma língua estrangeira? Será um código? Como decifrá-lo? Depois de relutarmos contra a presença de um conjunto de signos vazios, resignamo-nos e deixamos de lado nosso impulso racional”. 

O verso de Vinícius é uma citação ao conto de Jorge Luís Borges “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, onde ele imagina um mundo paralelo ao nosso, cuja filosofia e linguagem se baseiam no idealismo, e não no materialismo. Ou seja, as idéias são mais reais do que o mundo físico, o qual muda arbitrariamente para adaptar-se a elas, ao contrário do que ocorre em nosso mundo. 

A certa altura, tentando explicar a língua de Tlön, diz Borges (Nova Antologia Pessoal, Ed. Sabiá, 1969, trad. Maria Julieta Graña e Marly de Oliveira Moreira): 

“Não há substantivos na conjetural Ursprache (língua primordial) de Tlön, da qual procedem os idiomas 'atuais' e os dialetos: há verbos impessoais, qualificados por sufixos (ou prefixos) monossilábicos de valor adverbial. Por exemplo: não há palavra correspondente à palavra ‘lua’, mas há um verbo que seria em espanhol ‘luezer’ ou ‘luar’. ‘Surgiu a lua sobre o rio’ diz-se ‘hlör u fang axaxaxas mlö’, ou seja, em ordem: para cima (upward) atrás duradouro – fluir luezeu. (Xul Solar traduz brevemente: upa tras perfluye lunó. Upward, behind the onstreaming it mooned”. 

Este conceito de uma linguagem sem substantivos, apenas com verbos, é um desafio desconcertante. (Xul Solar era um pintor meio surrealista amigo de Borges, e seu palpite certamente é verídico.) 

Foi certamente isto que motivou Vinícius a engendrar seu verso. “Munevada” é “lua (moon) cor de neve”. “Glimou” vem do verbo inglês “to gleam”, brilhar, cintilar. “Vestassudente” indica uma direção, através da palavra francesa “vers” (=na direção de), e “sudente” decerto indica o Sul. 

Não pode ser coincidência. O poema de Vinícius é dos anos 1950 (conheci-o na antologia da Editora Sabiá, que é de 1960). Nessa época, Borges já era famoso em Buenos Aires, e uma parte substancial dos seus textos tinha sido traduzida na França, graças ao entusiasmo de admiradores como Roger Caillois. 

Me parece óbvio que Vinícius leu “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” (ou algum comentário do conto que transcrevia o texto citado acima) e, como qualquer sujeito que gosta de brincar com palavras, tentou uma tradução pessoal da frase.








1538) O Bandido Gente Boa (16.2.2008)


(Frank Lucas)

Frank Lucas, o “gangster americano” interpretado por Denzel Washington no filme homônimo de Ridley Scott, é visceralmente americano em sua atividade (vendedor de heroína na cidade grande), em sua história racial (negro da Carolina do Norte emigrado para o Harlem), e até mesmo em suas conexões políticas (trazia a droga nos aviões que retornavam do Vietnam, graças à cumplicidade de oficiais do exército). Por outro lado, é um tipo que a nós brasileiros toca muito de perto: “o Bandido Gente Boa”. O Rio de Janeiro, que contemplo agora pela minha janela, está cheio deles.

O Bandido Mau, que é seu oposto, não dura muito tempo. O Bandido Mau se comporta errado com todo mundo. É, por exemplo, o psicopata descontrolado – porque até mesmo um psicopata pode se relacionar bem se for controlado, como é o caso do notório e nefário Hannibal Lecter de O Silêncio dos Inocentes. Seria exagero chamar o Dr. Lecter de “gente boa”, mas não há dúvida de que ele é um homem fino, culto, senhor de si, e que pode, se necessário (para passar incógnito, por exemplo) se comportar como se fosse um gentleman britânico, um sujeito tão fidalgo quanto o ator Anthony Hopkins.

Bandido Mau são as “almas sebosas” da periferia do Recife, ou é um desclassificado como Elias Maluco, ou um obtuso arrogante como o Tango que, no filme, Frank Lucas abate em plena luz do dia com um tiro na testa, diante de centenas de testemunhas. Quando Lucas lhe aponta o revólver, Tango provoca: “Vai fazer o quê? Me matar aqui, na frente de todo mundo?” Lucas lhe explode os miolos, guarda a arma e volta para sua mesa do café, limpando as mãos no lenço. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Esta é a lição que ele dá para os irmãos e primos, recém-trazidos da Carolina do Norte, e que assistiram toda a cena boquiabertos.

O Bandido Gente Boa é generoso com seus auxiliares e a população em geral, e implacável com os inimigos. Ele precisa dessa população, e na hora do aperto diz: “Eu posso contar com o Harlem, porque o Harlem sempre contou comigo”. O mesmo fazem ao chefões dos morros cariocas. Vejo no jornal de hoje a imagem do bicheiro Anísio, na Escola de Samba Beija-Flor, desfilando num carro de bombeiros enquanto aproveita uns diazinhos fora da prisão, garantido por um habeas-corpus. Os bicheiros cariocas são colegas de geração de Frank Lucas, que foi imperador do Harlem entre as décadas de 1960-70. Distribuem perus no Natal, cestas básicas durante o ano todo, financiam escolas de samba e times de futebol. Alguns são predadores truculentos; outros são chefes de família bonachões e afetuosos, fazem a linha “mafioso emotivo” que o cinema e a TV vêm ordenhando com sabedoria há tantas décadas. O Bandido Gente Boa está um passo além da linha da legalidade, e não se distingue muito do Político Populista que está um passo aquém dessa linha. A distância que os separa é a de um braço estendido. De um aperto de mão.

1537) Congresso Internacional do Medo (15.2.2008)



Dias atrás o Sheridan College, no Canadá, passou por uma crise cada vez mais freqüente na América do Norte. Um professor estava dando aula quando pela janela viu passar um indivíduo vestindo um casaco de camuflagem do Exército e carregando ao ombro algo que se assemelhava a um rifle. Oito estudantes o viram também, e o grupo deu o alarme. Sirenes soaram, salas de aula foram trancadas, avisos de emergência brotaram dos alto-falantes. A polícia foi acionada, e até as 4 horas da tarde todo mundo na universidade ficou trancado no lugar em que se encontrava, cruzando os dedos. Por fim, a polícia chegou a um veredito: não era um homem armado. Era apenas um sujeito carregando um tripé de câmara ao ombro.

Segundo consta, o Sheridan College é famoso pelos cursos de cinema de animação que oferece, de modo que não é nada estranho alguém cruzar o campus conduzindo um tripé. Mas o fato dá uma medida realista do clima de terror que vivem as universidades e colégios norte-americanos. O Canadá parece ser um lugar mais pacífico do que os EUA, mas ainda assim têm havido nos últimos anos os chamados “assassinatos de campus”, em que um maluco qualquer sai alvejando colegas.

Outro fato recente: numa plataforma de petróleo no Mar do Norte foi dado o alarme da existência de uma bomba no dormitório dos operários. Eram 9 e meia da manhã. Quinhentos trabalhadores e técnicos foram rapidamente evacuados através da passarela que liga o dormitório à parte principal da plataforma. Cinco helicópteros e um avião da RAF foram enviados para o local, e 161 de um total de 539 trabalhadores foram levados para plataformas vizinhas. Por volta do meio-dia, como as buscas não localizaram nada suspeito, os operários foram liberados para retornar ao local.

E aí veio a melhor parte, quando os investigadores finalmente deram ouvidos a alguns trabalhadores que desde o início das manobras tentavam explicar que era tudo um engano. Ao que parece, uma das operárias estava comentando com amigos o sonho que tivera durante a noite – sonhou que havia uma bomba no dormitório. Alguém deve ter ouvido de passagem o que ela dizia e entendeu que a coisa era pra valer. Depois de dado o alarme, ninguém se entendeu mais. Jake Molloy, secretário do sindicato dos trabalhadores, comentou: “Isto é uma loucura. A garota sonhou que havia uma bomba a bordo e estava um pouco abalada. Quando menos se esperava, estávamos sendo evacuados. Esta foi uma das maiores operações de segurança já ocorridas no Mar do Norte. O custo financeiro foi astronômico, e em momento algum houve necessidade disto tudo”.

Não foi Nostradamus, foi Carlos Drummond de Andrade que disse: “Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços / não cantaremos o ódio porque esse não existe, / existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro. (...) Cantaremos a morte e o medo de depois da morte, / depois morreremos de medo / e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

1536) Seis macacos escrevendo (14.2.2008)



Dizem que foi Thomas Huxley o idealizador deste experimento mental (eis aqui um curioso oxímoro!): se colocarmos seis macacos diante de seis máquinas de escrever, dentro de um milhão de anos eles terão escrito todas as obras de Shakespeare. As versões do mito são muitas – algumas, mais ambiciosas, prevêem: “todos os livros do Museu Britânico”. É o típico caso da profecia inútil, porque se damos como premissa o prazo de um milhão de anos é o caso de dizer, como Fernando Pessoa, que até lá morrerão os macacos, morrerá o Museu Britânico e morrerão as línguas em que os livros foram escritos.

Esta lenda foi citada por Rubem Fonseca num dos saborosos artigos de O romance morreu, seu livro mais recente. Fonseca fornece outra versão da proposta: “Se um número infinito de macacos for colocado à frente de um número infinito de máquinas de escrever, os macacos acabarão produzindo as obras completas de Shakespeare”. A mera proposta de uma quantidade infinita de objetos materiais (ou, pior ainda, de seres vivos) nos dispensa de levar adiante o experimento.

Meu primeiro contato com este cheque-sem-fundos-filosófico foi através do conto “Lógica Inflexível” do obscuro Russell Maloney, numa antologia de contos fantásticos da Cultrix. É um conto em que um milionário excêntrico, Mr. Bainbridge, ouvindo falar dessa teoria, resolve pô-la em prática, com seis chimpanzés e seis máquinas. Dias depois ele chama a sua casa um cientista e, cheio de perplexidade, exibe a produção dos macacos até aquela data: “A prosa de John Donne, um pouco de Anatole France, Conan Doyle, Galeno, as peças teatrais de Somerset Maugham, Marcel Proust, as memórias da falecida Maria da Romênia, e uma monografia de um certo Dr. Wiley sobre as gramas dos pântanos de Maine e Massachusetts”.

Este último detalhe é o mais saboroso, e o que nos dá melhor idéia do gigantismo da tarefa. Os macacos de Mr. Bainbridge não se limitam a copiar as obras de Shakespeare ou dos grandes autores, mas parecem capazes de reproduzir tudo que já tenha sido colocado em letras de forma pelos seres humanos. O amigo de Mr. Bainbridge, contudo, não arreda pé de suas convicções. Diz que se alguém jogar uma moeda para o ar e der cara cem vezes seguidas, isto nada prova: a longo prazo, cara e coroa se sucederão numa proporção de 50% para cada uma. E prediz: “Logo estes chimpanzés começarão a escrever coisas sem pé nem cabeça”.

Não direi como acaba o conto, mas remeto o paciente leitor para “A Biblioteca de Babel” de Borges, onde estão enfileirados nas estantes os produtos dos seis chimpanzés de Mr. Bainbridge, mesmo sabendo que, como nos diz o narrador, “por uma linha razoável ou uma notícia justa há léguas de cacofonias insensatas”. Tempo havendo, e macacos não faltando, foi-nos dada a oportunidade de escrevermos Shakespeare e todas as obras do Museu Britânico, e não desperdiçamos nossa chance.

1535) As línguas que morrem (13.2.2008)



Morreu há poucos dias, no Alasca, Marie Smith Jones, uma mulher de 89 anos que era a última falante nativa da língua “eyak”. Com ela, morreu o idioma em que foi criada. Ao que parece, a língua eyak foi sendo substituída aos poucos pelo “tinglit”, outra língua nativa, e pelo inglês após o início da colonização dos EUA. O número de línguas ameaçadas de extinção é grande. São populações cada vez menores e mais idosas apegando-se à língua que aprenderam na infância, sem ter como passá-la adiante.

Alguém pode se perguntar por que motivo Marie Smith não passou o idioma eyak para seus filhos. A resposta mais óbvia é que um indivíduo não pode conhecer a totalidade de uma língua. Quem sabe a língua é uma comunidade. Uma língua não é apenas uma lista de palavras e um conjunto de regras, é uma forma de relacionamento entre as pessoas, e se as pessoas deixam de se relacionar dessa forma e preferem outras, a língua vai sumindo, por desuso.

Certas línguas são colocadas em segundo plano por um idioma nacional unificador, mas nem por isso deixam de existir. Um exemplo bem claro é o da Espanha, onde o castelhano é o primeiro idioma obrigatório de todos, mas ainda assim o catalão continua a ser ensinado e praticado na Catalunha, e o basco no chamado” País Basco” no norte do país. Estas línguas secundárias são ensinadas nas escolas, faladas pelas crianças; publicam-se livros e jornais escritos nessa língua, e para aquelas populações manter vivo o idioma de seus avós é uma questão de auto-estima.

Uma língua que vive morrendo e ressuscitando é o córnico (“Cornish”), falado na região da Cornualha, a sudoeste da Inglaterra. Há registros de que a última pessoa a praticá-la morreu em 1777, mas havia (ao que parece) registros escritos e cem anos depois havia um pequeno grupo de pessoas tentando botar o idioma em funcionamento outra vez.

Quem descreve com clareza a dificuldade de um tal processo é Geoffrey Pullum, num “post” que pode ser lido em: http://itre.cis.upenn.edu/~myl/languagelog/archives/001783.html. Diz ele: “Permitam-me recordar o que é necessário para que um idioma possa ser considerado vivo: deve haver crianças que falem nessa língua umas com as outras porque é a sua única língua, ou a sua língua favorita. Crianças que falariam assim mesmo que isto lhes fosse proibido. Não basta que haja uma comunidade de adultos que aprenderam esse idioma em livros e que se reúnem todas as terças-feiras à noite na casa de alguém para ler textos em voz alta. (...) Faça uma pesquisa à sua volta, perguntando quem são as pessoas mais jovens que usam uma determinada língua em suas conversas e interações da vida diária. Se a idade mínima dessas pessoas for cinco anos, esse idioma provavelmente está morrendo. Se for mais de dez anos, ele provavelmente está condenado. Se for mais de vinte, pode dar-lhe adeus. Nenhuma revalorização nostálgica será capaz de mantê-lo vivo por mais uma geração”.

1534) “O Gangster” (12.2.2008)



Drogas e terrorismo são dois grandes temas para o cinema norte-americano de hoje. Em cartaz na Paraíba, este filme de Ridley Scott conta a ascensão e queda de um chefão do tráfico de drogas de Nova York entre os anos 1970-80. Talvez fosse mais adequado dizer: “ascensão, queda e mítico retorno”, porque figuras desse tipo, depois que são presas, condenadas e expurgadas pela justiça (ou, no linguajar pomposo da imprensa, “pagam sua dívida para com a sociedade”) costumam voltar glorificadas pelo cinema ou pela literatura. Castigado o crime, endeusa-se o criminoso que já não pode fazer o mesmo mal que fazia. Ocorre com todo mundo, desde cangaceiros até serial killers, desde terroristas até ladrões granfinos.

O Frank Lucas interpretado com solidez implacável por Denzel Washington é uma figura carismática. Sua história real foi recuperada num artigo de Mark Jacobson publicado na revista “New York” em 2000. (O artigo é brilhante, e pode ser lido aqui: http://nymag.com/nymetro/news/people/features/3649/). Jacobson passeou vários dias com o ex-gangster (saído da prisão, e agora com mais de 70 anos), revisitando as ruas em que ele criou seu império baseado em heroína importada da China e trazida clandestinamente para os EUA nos aviões que traziam os corpos de soldados americanos mortos no Vietnam. Duas grandes derrotas (o Vietnam e a droga) se juntaram num único episódio que mostra a melancólica descida do império americano rumo à sua morte anunciada.

Frank Lucas é simpático porque é bom filho, bom irmão, bom patrão e bom esposo. Ele encarna os sólidos valores interioranos e puritanos da América. Por exemplo: sua quadrilha não empregava rapazes novaiorquinos, porque ele os considerava vaidosos, arrogantes, deslumbrados com a grana fácil do tráfico. Empregava gente de sua própria família, pagava bons salários, vendia heroína com o dobro da qualidade pela metade do preço. Era um capitalista exemplar no coração do capitalismo. E é sintomático do capitalismo que para ele fosse indiferente o fato de sua mercadoria estar matando gente como moscas pelas ruas do Harlem. Lucas dizia, como tantos traficantes; “Eu apenas vendo a droga, o que o pessoal faz com ela não é da minha conta”. É como o anzol dizer: “não tenho nada a ver com o peixe”. A ética do capitalismo só abarca o processo de produção e troca. Se o que se fabrica são armas ou cocaína, tanto faz.

Lucas manteve um perfil discreto durante anos, sem que a polícia entendesse quem estava passando a Máfia para trás. Foi preciso um detetive obsessivo e incorruptível (interpretado por Russel Crowe) para descobri-lo e derrubá-lo. O filme mostra estes dois indivíduos em rota de colisão, rumo a um confronto pessoal que só acontece nos últimos dez minutos. A direção de Ridley Scott é tensa, com cenas curtas que dizem o necessário e passam adiante.

O filme é longo mas tem bom ritmo, passa rápido, dá muito bem o seu recado.