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terça-feira, 22 de maio de 2018

4349) Dez álbuns: 5 - "Rain Dogs" (22.5.2018)




Vou dar continuidade ao desafio que me foi feito via Facebook por Toinho Castro e Mario Bag: postar dez discos que a gente ouviu até a agulha furar o vinil, e continua ouvindo até hoje.

Corria o ano de 1985, 86 e eu cheguei, certa noite, no quarto-e-sala de Lenine e Anna, lá no Jardim Botânico, onde estava uma turma sentada ouvindo um disco com a atenção de quem escuta um holograma de Hari Seldon.

Não era: era Rain Dogs, o disco de um desconhecido chamado Tom Waits, que Alex Madureira advertiu logo de cara: “É a sua cara, B. Tavares”. E era.

Link para o disco:

Eu tenho uma relação engraçada com o rock, porque para mim o rock seria uma espécie de síntese entre as festas de rua de New Orleans e a tecnologia da Nasa, ou seja, depois de uma fagulha como essa não há fogo que não pegue. Fausto Fawcett costuma dizer que por dentro de todo Jetson existe um Flintstone, e para mim o rock é isso, distorção elétrica e bombos tribais.

Tom Waits tinha uma dimensão a mais, um viés numa direção harmônica e cançonetista que sem deixar de ser tipicamente norte-americana me toca como uma coisa muito próxima de certa música brasileira. É rock, mas é um rock da Lapa, um rock Praça Tiradentes, um rock com perfume de lupanar, não para grandes multidões, mas para pequenos salões com pista de dança e palquinho mambembe.

Boa parte das canções de Rain Dogs são acompanhadas por uma espécie de bandinha roufenha, desafinada, com sopros, cordas e sanfonas, como se fosse aquilo uma meia-dúzia de músicos que tocam pela bebida e não por um cachê, e que depois de acabada a bebida naquele botequim eles descem do palco, enfileirados e cambaleantes, e saem à rua, às 3 da madrugada, sob neve e vento frio, com um Hermeto Paschoal meio catacego a guiá-los, e lá vão eles tocando, bradando impropérios, aos escorregões, dando a volta ao quarteirão e se encaminhando por sensibilidade telepática rumo ao penúltimo puteiro ainda aberto.

E a guitarra. A guitarra está para o rock assim como a espaçonave está para a ficção científica. É uma espécie de senha, de password, uma espécie de “pra entrar aqui tem que saber o que é isso”, mas muita gente confunde os sinais e pensa que vai abrir uma porta para um lugar onde só existem guitarras (ou um lugar onde só existem espaçonaves).

Isso é um erro. O rock não é uma instrumentação. O rock é um estado de espírito. (Não, por favor, não me deixem repetir essa platitude tão constrangedora. Esse clichê é a coisa menos rock do mundo. Quem “é um estado de espírito” é a canção romântico-agrícola do Brasil Central.)

O rock é um estado do corpo, uma espécie de corrente elétrica que se projeta pela medula espinhal e se ramifica por onde quer que haja neurônios e outras partículas equivalentes.

Daí que me parece um desperdício total não utilizar no rock instrumentos tão cheios de possibilidades quanto o bombardino, o xilofone, as maracas, o trombone de vara, o bandoneon, o clavicórdio, o berimbau-de-boca, o cajón, o clarinete, a tuba... E vou parar por aqui, vocês já captaram a idéia; senão este parágrafo vai ficar parecendo aqueles trechos do “Cara de Bronze” onde Guimarães Rosa despejou miliduzentos nomes de ervas e arbustos mineiros.

Daí que uma das minhas primeiras bandas de rock preferidas tenha sido The Band – em parte pelo fortíssimo trio guitarra-baixo-bateria formado por Robbie Robertson, Rick Danko e Levon Helm, mas em grande parte também pelas iluminuras sonoras proporcionadas pelos sopros e teclados de Garth Hudson e Richard Manuel.

Esse tempero timbrístico se enriqueceu com o rock jazzeado do Blood, Sweat & Tears, mas o crescimento da música soul nos anos 1970 foi puxando tudo cada vez mais para uma música eletrificada para grandes bailes. E não era isso. Eu queria ouvir uma coisa meio cabaré berlinense nos anos 1930, uma coisa com pegada roqueira mas com uma injeção poderosa de music-hall, de café concerto. E letras de expressionismo poético informado pelo Dadaísmo dos anos 1910 e pelo pop dos anos 1950. Um rock que tivesse sido alimentado com canções de Brecht & Kurt Weill.

Tom Waits, na primeira audição de Rain Dogs, me trouxe de volta essas sonoridades, e me agasalhou quentinho o coração com aquela surpreendente voz de um Louis Armstrong redneck.

Tinha guitarra? Tinha sim senhor. Um tal de Marc Ribot que, sabiamente, em vez de tentar emular a ululação lancinante de um Clapton ou um Jimmy Page, ficava pontilhando umas notinhas dissonantes, secas, cristalinas. Uns solos-de-acompanhamento iguaizinhos um bordado feito no camarim por uma cantora meio doidona cujos pontos acompanham a linha riscada sem nunca se cravar em cima dela mas sem perder-lhe o rumo.

Rain Dogs tem uma porção de ritmos que eu mal e mal reconheço – diria até que tem polca, tem mazurca, tem valsa? Tem rock?

Algumas canções são desabafos truculentos, canção de marinheiro esbravejante, como “Cemetery Polka”, “Singapore”, “Rain Dogs”. Outras são semiboleros à luz-negra no Recife Velho, como “Jockey Full of Bourbon”, pra balançar os quadris, ou “Hang Down Your Head”, pra fungar agarradinho. Ou então uma marcha fúnebre em dia de chuva para um garimpeiro de Serra Pelada, como “Diamonds & Gold”.

Sim, tem uma seresta feita por um violonista e um sanfoneiro ao pé de uma escada-de-incêndio numa madrugada num beco onde ninguém escuta, como “Time”. Tem um monólogo noturno de Philip Marlowe, fumando à janela do escritório enquanto espera o telefone tocar (“9th & Hennepin”).

É uma poética suja de sarjeta, com olho para tipos sociais captados com um nome-de-guerra e dois traços meio caricaturais, como nos versos de Aldir Blanc ou Itamar Assumpção. Imagens que seriam surrealismo puro se não evocassem de cara os quadrinhos urbanos-FC de Alan Moore ou Warren Ellis. Waits é um poeta que bebeu tanto quanto Dylan nas fontes brechtianas da decadência metropolitana, não a decadência dândi dos granfinos que cruzam a madrugada em busca de sensações novas, mas a dos boêmios de bolso furado para quem a madrugada é um globo-da-morte onde basta estar ligado e seguir o fluxo, e tudo vai dar certo.

E voltando àquele capítulo inicial: na época acabamos formando (Lenine, Lula Queiroga, Ivan Santos e eu) uma banda conceitual intitulada “Wolf Gang” – pouco tempo antes, Amadeus de Milos Forman tinha sido o grande sucesso no cinema, e todo mundo danou-se a escutar Mozart.

Passamos meses ensaiando, nunca subimos num palco (falei que era uma banda conceitual), mas meia dúzia de músicas foram compostas, entre elas “Mais Além” (gravada depois por Lenine, além de Ney Matogrosso e Rhana). Que de início pretendia ser um plágio de “Clap Hands” de Waits, mas depois, como todo rock, acabou encontrando um caminho próprio. Pra vocês verem as coisas como são.











terça-feira, 17 de setembro de 2013

3293) "Baque Solto" (17.9.2013)






“Um reencontro de meninos grisalhos”: é uma das maneiras de descrever o show Baque Solto, de Lenine e Lula Queiroga, no Baile Perfumado, casa noturna no Recife, no fim de semana passado. O pretexto do show era a comemoração dos 30 anos da gravação (em 1983) do álbum Baque Solto, gravado pelos dois após o sucesso do show Trem Fantasma, o primeiro em que dividiram o palco. O disco foi feito, passou despercebido, mas virou um ponto de referência para muita gente, para mim inclusive, sobre os futuros caminhos da música nordestina. Era um disco ousado, cheio de referências jazzísticas, de um grupo de músicos de 20-25 anos, talentosos, e, como se diz na Paraíba, “doidos pra se amostrar”.



Isso pode ser bonito, mas mais bonito ainda é ver 30 anos depois todos se reunirem e reproduzirem durante duas horas o repertório completo do disco, com canjas de quatro convidados especiais (eu, Ivan Santos, Tadeu Mathias e Zé Rocha). Foi uma alegria reencontrar os músicos do disco e do show original, alguns já afastados dos palcos, vários deles trazendo ao Recife suas famílias. E ouvir as guitarras de Alex Madureira, Paulinho Muylaert e Caxa Aragão; os teclados de Márcio Brandão e Alberto Rosenblit; a percussão de Durval; a bateria de Cláudio Wilner; o baixo de Fábio Girão; os sopros de Marcelo Bernardes. 



Baque Solto tem alguns momentos de quebra-quebra rítmico, de convenções ziguezagueantes que exigem atenção total e destreza em dia. Maracatus como “Auto dos Congos” (Lenine & Pedro Osmar) ou “Maracatu Silêncio” (Zé Rocha & Erasto Vasconcelos) continuam tão novos e inclassificáveis como em 1983. “Girassol da Caverna” (Lula) passeia pelo martelo agalopado e pela marcha-quadrilha. “Mote do Navio” (Pedro Osmar) continua sendo de uma euforia capaz de arrastar multidões. “Trem Fantasma” (Lenine & Lula), primeira composição conjunta dos dois, já tem algo do espírito de “A Ponte”. Se não fosse “Prova de Fogo” (Lenine & Zé Rocha) eu teria tido mais dificuldades em aceitar o System of a Down que vi no Rock in Rio do ano passado. É uma performance meio Gurdjieff, envolvendo quase uma mecanização perfeita de uma série de ações complexas. 


É um disco composto, arranjado e tocado por quem ouvia maracatus e Weather Report, cantadores e Clube da Esquina. Seu lançamento coincidiu com a explosão do Rock-BR e isto o eclipsou diante de parte de um público que talvez fosse seu, talvez pudesse aceitar e assimilar suas quebras rítmicas e fraseados melódicos complexos. O lado bom é que é um disco de estréia de um grupo de jovens, que sobreviveu justamente pela ousadia criativa que teve. O que é bom, fica.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

2769) A palavra peneirar (18.1.2012)




Grande parte do nosso vocabulário se forma através de estágios sucessivos. No primeiro, usa-se uma palavra para fazer uma alusão direta a alguma coisa concreta e familiar a todos. No segundo, essa palavra é transposta para significar algo também concreto, mas completamente diferente, por um processo de semelhança, alusão, associação de idéias, etc. No terceiro, passa a designar uma noção abstrata que já não tem nada a ver com a coisa concreta original; ninguém seria capaz de traçar o percurso até a imagem que deu origem a tudo. Toda aquela rede de utilizações anteriores produziu um sentido genérico que justifica o uso, mas fica difícil entender como o significado “Z” veio do significado “A”.

Usarei o exemplo do verbo “peneirar”, tão nordestino. Ele indica os movimentos circulares que uma peneira faz nas mãos de uma cozinheira; este é o primeiro estágio. Num segundo estágio, passa a indicar qualquer movimento parecido, daí o uso feito por Luiz Gonzaga em “Marimbondo”: “O marimbondo vindo peneirando as asas / pra entrar em nossa casa / chega chuva pro sertão...”. A origem do verbo fica ainda mais clara na canção “Peneirou Gavião”, em que Jackson do Pandeiro compara diretamente os dois movimentos: “Peneirou, peneirou, peneirou gavião / nos ares para voar; / tu belisca mas não come, gavião / da massa que eu peneirar”. O gavião é um exemplo melhor que o marimbondo, porque se parece mais com uma peneira com aquele seu jeito de planar baixo, oscilando horizontalmente, sem subir nem descer.

Ora, daí a pouco qualquer movimento circular começa a ser açambarcado por esse verbo, por associação de idéias – como o dos quadris de uma mulher que dança ou se rebola. Em O Mundo Mágico de João Redondo, de Altimar Pimentel, vê-se uma fala assim: “ROSINHA - O que é seu tá guardado, meu fio. Eu me chamo Rosinha, né Quitéria não. Vamo, seu tocadô, qu'eu quero penerá uma coisinha! (A música recomeça e ela dança) Ai, ai, ai meu tempo!”.

O verbo acaba assumindo a conotação de “mulher rebolando, atraindo atenções masculinas”, como na canção “O mistério do fundo do olho” de Lula Queiroga: “Tô peneirando, peneirando / Bar da Mira, Burburinho / Pina de Copacabana / Galeria Joana Darc, peneirando / Essa menina tem classe / até quando me deixa sozinho”. E desse sentido erótico, provocativo, o verbo ganha um sentido semelhante mas abstrato, também como “oferecer-se de maneira explícita, não disfarçada”: “Fulano está há anos no PDT mas agora vive se peneirando para ir pro PSD”. Cada novo significado abre caminho para novas associações de idéias serem feitas, cada vez mais afastadas do sentido inicial.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

2247) Minha vida é a minha cara (21.5.2010)



O Canal Futura, da TV a cabo, começa a exibir esta semana um projeto a que eu tenho me dedicado há mais de um ano, com resultados imprevisíveis, porque às vezes a televisão é como a literatura, a gente só vem a saber o que os outros acharam depois que a obra está pronta e não dá mais para mexer. (Como se sabe, isto é a exceção – toda a TV de hoje é baseada no conceito de interatividade, de feedback, de pesquisar o público para ver o que está agradando e fazer correções de percurso o tempo inteiro).

O programa Minha Vida é a Minha Cara surgiu de uma idéia que apresentei para o Canal Futura e que, aprovada, foi entregue à Luni Produções, de Recife (comandada por Lula Queiroga, meu parceiro em numerosos trabalhos). Qual é a idéia? Um programa de entrevistas em que dois grupos de entrevistados explicam dois estilos de vida completamente opostos, e cada um argumenta a favor do seu. A idéia não é botar os dois para discutirem entre si, mas fazer com que cada um possa “vender seu peixe” e dizer: “Eu sou assim, minha vida é assim, e eu me sinto super bem, não vejo razão para mudar”.

O programa estreou em dezembro passado no canal Fashion TV, mas como este é um canal recente, que não está incluído nos pacotes básicos das operadoras, pode-se considerar que a estréia para o grande público foi 4a.feira passada, às 21:30, com o programa “Visto preto x Visto branco”. De um lado, góticos e punks de São Paulo, que só vestem preto; do outro, sambistas como Billy Blanco e forrozeiros como Alcymar Monteiro, que só usam o branco. Todos muitos satisfeitos e confortáveis com sua maneira de ser.

O programa foi dirigido por Marcelo Pinheiro e Alexandre Alencar, com direção geral de Lula Queiroga, e tem como apresentadores o cantor Otto e a atriz Hermila Guedes. Vai ao ar no Canal Futura todas as 4as.feiras às 21:30 horas, e será reprisado nos seguintes horários: quinta às 14:00, sexta às 00:00, sábados às 22:00 e domingos às 13:00. Cada semana, portanto, há cinco chances de assisti-lo.

Serão 52 programas, cada um deles com 25 minutos, um por semana, e os temas são variados. Podem ser sobre o trabalho, como “Eu trabalho em casa x Eu alugo espaço para trabalhar”, ou então “Trabalho de madrugada x Madrugo para trabalhar”. Podem ser sobre características físicas, como “Gente grande x Gente miúda”. Podem ser sobre hábitos alimentares, como “Carnívoros x Vegetarianos”, ou sobre ideologia, como “Eu sou místico x Eu sou cético”. Pode ser sobre o jeito de morar: “Moro no morro x Moro na cobertura”, ou “Moro numa grande avenida x Moro num vilarejo”. Os assuntos são variados, e os entrevistados são principalmente do Nordeste, Rio, São Paulo e Minas Gerais. Gente famosa, gente anônima, gente rica, gente humilde, de todas as idades e de todos os jeitos. Para nós, que fizemos entre 300 e 400 entrevistas ao longo de um ano, é um curioso retrato do Brasil através dos brasileiros.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

0951) O astronauta brasileiro (4.4.2006)



Enquanto escrevo estas linhas, nosso astronauta Marcos Pontes já decolou para o espaço há duas horas, e em breve a nave que o conduz estará se acoplando à Estação Espacial. Momento histórico, sim, e acho que devemos comemorar o fato de um brasileiro ir ao espaço. (Alguns mais calejados me sussurram: “Calma, espera pra ver se ele volta inteiro”) Vi matérias eufóricas dizendo que finalmente entramos na maioridade científica, e matérias dizendo: “Nós quem, cara pálida?” Alguns cientistas parabenizaram o astronauta, mas lembraram que a viagem dele está custando o equivalente a um terço do orçamento total do programa espacial brasileiro. É como se o Treze pagasse 100 mil reais à CBF para que Beto jogasse uma partida pela Seleção Brasileira. Seria ótimo, principalmente para Beto, que entraria para a História, e para a CBF, que faturaria uns trocados.

Vendo essa festa, lembro uma canção de Lula Queiroga dos anos 1980, que ao que eu saiba nunca foi gravada, cujo refrão diz: “Eu tô com medo! Sou o primeiro astronauta brasileiro!” A letra de Lula fala das paranóias do astronauta tupiniquim imaginando a quantidade de equipamentos que podem dar defeito de um momento para o outro; mas só tem graça porque ele imagina que a nave é brasileira também. Não é o presente caso. A viagem de Marcos Pontes é toda feita como tecnologia lá de fora. Não representa uma conquista científica; no máximo, é (que ironia) uma conquista econômica, uma prova de que o país é rico e pode pagar para que ele faça uma viagem cara como esta.

Estou sendo cruel com o nosso Flash Gordon. Marcos Pontes é certamente um desses garotos que, como eu, leram aventuras espaciais na infância e sonharam em subir ao céu em foguetes, ver se a Terra é mesmo azul. Eu sonhei com isto aos dez anos, achava que lá por volta do ano 2000 já teríamos bases na Lua, ônibus espaciais indo e voltando, e quem sabe eu, já cinqüentão, faria uma dessas viagens na qualidade de jornalista. Não deu pra mim. Deu pra Marcos Pontes que, pelo menos, está indo realizar experiências científicas que podem ser de alguma utilidade futura.

O que importa é que com a ida dele, garotos brasileiros poderão perceber que nenhum sonho está vedado aos garotos brasileiros. Que não são somente os garotos russos ou norte-americanos que podem sonhar com isto, mas garotos do Brasil, da Bolívia, de Angola, da Tailândia ou do Uzbequistão. As barreiras econômicas existirão sempre, mas tudo que é definido como barreira pode, por definição, ser transposto, contornado ou derrubado. O que há de mais bonito nas conquistas da Ciência é o seu caráter universal. Tudo que a Ciência inventa ou descobre é para todos. A Ciência e o Saber unem; quem separa são a Política e o Poder. Todos têm direito de sonhar, de querer, de tentar conseguir também. Nada é tão democrático quanto a Ciência, e ver um brasileiro no espaço é mais uma maneira de lembrar desta verdade tão simples.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

0511) Blade Runner (7.11.2004)



Andei revendo a “versão do diretor” de Blade Runner, o filme com que Ridley Scott em 1982 deu uma balançada nas estruturas do cinema de ficção científica.

Confesso que não vi muita diferença entre as duas versões, e acho uma grande besteira essa moda, se não me engano inaugurada com Contatos Imediatos do Terceiro Grau de Spielberg, o qual nos convenceu a pagar um novo ingresso anos depois só para ver o interior da nave na cena final.

No caso de Blade Runner, foi pior: pagamos novo ingresso e deixamos de ouvir a narração em “off” de Harrison Ford, a qual era detestada pelo ator e pelo diretor, mas foi imposta pelos produtores que (como sempre ) achavam que sem ela o público, que é burro, não entenderia a história.

Neste caso, dei razão aos produtores. Eu entenderia a história de qualquer maneira (já li 257 histórias iguais àquela), mas é o tom da voz, lembrando os romances policiais de Chandler, que dava ao filme original um charme que o de agora não tem.

Um detalhe interessante (e controvertido) do filme é a origem do seu título. O filme se baseia num romance de Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep? (“Será que os Andróides Sonham com Carneiros Elétricos?”), mas está na cara que Hollywood jamais usaria um título assim.

O roteirista Hampton Fancher lembrou-se então de um livro de Alan E. Nourse, um médico que escreveu numerosas obras de FC onde a Medicina tem papel importante. Em 1974 ele publicou The Bladerunner, romance ambientado num futuro próximo em que a Terra está com super-população e a medicina está sujeita a camelôs, traficantes, falsificadores, etc. Os “bladerunners” são, literalmente “contrabandistas de lâminas”.

Acontece que o escritor William Burroughs (o autor de Almoço Nu, Junky e outros clássicos da literatura beat) também gostou do termo e o utilizou num livreto de 1979, Blade Runner – A Movie, que apesar do título nunca foi filmado.

Ridley Scott mandou comprar os direitos de utilização do título, mas não usou nada dos livros de Nourse e de Burroughs. No filme, “blade runner” é o nome que se dá aos policiais encarregados de prender ou exterminar os replicantes, ou andróides, que se rebelam, mais ou menos como os capitães-do-mato faziam com os escravos fugidos aqui no Brasil. Alguns acham que o termo guarda uma semelhança eufônica com “bounty hunter”, caçador de recompensas.

Ao pé da letra, no entanto, o termo significa “aquele que corre por cima de uma lâmina”, ou que (no verso de Lula Queiroga) “tem que saber andar num chão de navalha”.

O que é uma evocação de um episódio da Demanda do Santo Graal: os cavaleiros da Távola Redonda chegam a um abismo que só pode ser atravessado por sobre o gume de uma lâmina imensa e afiadíssima. Os cavaleiros precisam deitar-se sobre esse gume e arrastar-se ao longo dele, cortando-se todos, até chegar ao lado oposto. Um belo simbolismo para o processo de auto-conhecimento, que não se dá sem sangue e cicatrizes.







segunda-feira, 17 de março de 2008

0279) Nos tempos da Casa Nove (11.2.2004)


(Ivan Santos, 2003 - foto de Gustavo Moura)

Era a casa número 9 de uma vila em Botafogo, no começo dos anos 1980, onde residiam Ivan Santos, Alex Madureira e Lenine. Estes eram os residentes titulares, a quem cabia pagar o aluguel e manter a casa funcionando; mas havia um contingente flutuante de moradores provisórios, músicos que iam lá para passar o dia e acabavam passando a noite, ou que iam lá para passar uma semana e acabavam passando vários meses, como aconteceu comigo. O melhor da Casa Nove, além do espírito de festa permanente que imperava ali, era a diversidade de pessoas que a frequentavam. Tinha músicos de jazz, zabumbeiros de forró, poetas e escritores, artistas plásticos, atrizes e atores, jornalistas da imprensa alternativa e cineastas profissionais. Tinha gente famosa e gente anônima. A Casa Nove era um território livre, uma espécie de UNESCO administrada por Ionesco, o dramaturgo do Absurdo.

Alguma coisa das músicas dessa época está preservada no disco Baque Solto de Lenine & Lula Queiroga, que foi relançado em CD, e no Zuada de Boca de Tadeu Mathias, que não teve ainda esta chance. Muito do espírito desta época foi retomado quando pessoas que tinham se conhecido na Casa Nove criaram num bar da Lapa uma programação lítero-etílico-musical chamada Falange Canibal. Maiores detalhes sobre esta fase-2 podem ser colhidos no CD homônimo lançado por Lenine em 2002.

O mesmo espírito está presente no CD Songs From Nowhere, que está sendo lançado hoje à noite no Teatro Santa Roza por Ivan Santos, um dos membros da “troika” de nomes russos que imperava naquela casa mais agitada do que a escadaria de Odessa. Conheci Ivan um pouco antes desse período, quando eu era cabeludo como o Led Zeppelin e ele era barbudo como Los Hermanos. Tínhamos muitas coisas em comum, a começar pelo hábito de escrever martelos agalopados e uma fascinação permanente por Bob Dylan. Tudo isto se filtra nessas canções-de-lugar-nenhum, que bem poderiam intitular-se o contrário: “Songs from Everywhere”.

Aqui no bucólico recanto carioca onde habito, onde mal se escuta o barulho do trânsito, me chegam notícias de uma Europa high-tech, futurista-retrô, ariana-mestiça, um arquipélago de ilhas étnicas no mar da globalização. É lá que mora hoje o “Cabo Ivan”, numa Alemanha fatiada em feudos mega-corporativos, tornada cosmopolita a golpes de acordos e tratados, encurralada entre a invasão pacífica dos netos mulatos do colonialismo e as metástases de um racismo de direita nunca totalmente extirpado. Nesse crisol de DNAs culturais miscigenados às cegas, cujo idioma parece ser um desesperanto pós-Babel, a música de Ivan fala uma mistura de portunhol com alemanglês, mas traz uma cruz-das-armas carimbada em cada rima, uma dicção multi-mameluca de quem diz falando por preguiça de cantar, o artesanato amador de bolar “gatos” eletrônicos para acender a luz de um disco feito sem sair de casa.

sábado, 8 de março de 2008

0106) O inglês de João do Pife (24.7.2003)



Vou pegar carona com Lula Queiroga, na sua coluna “Baque Solto” de sexta-feira passada no Diário de Pernambuco. Mestre Lula comenta o espetáculo realizado em Nova York em que artistas pernambucanos, como Dona Selma do Coco, se apresentaram no Lincoln Center, em Nova York. E narra uns episódios pitorescos, como o de Heleno dos 8 Baixos, que em 1991 teve um disco indicado ao Prêmio Grammy. 

O repórter Francisco José, da Globo, estava em frente à TV com Heleno aguardando o resultado. Demorou, demorou... Heleno acabou cochilando, e nisto foi anunciado o prêmio, que acabou saindo para um grupo africano. Ao ser despertado, Heleno perguntou logo: “Ganhamos?” Ao saber que não, deu de ombros e arrematou: “Então fica pra próxima.”

Nesta reação existe toda uma enciclopédia-britânica de filosofia popular. Uma prova de que quanto mais terceiro-mundo um sujeito, mais ele precisa de reservas inesgotáveis de tranquilidade, bom humor, e aquela auto-confiança de Didi na decisão da Copa de 58, quando a Suécia abriu o placar, e ele foi lá na rede, pegou a bola e trouxe pro meio de campo, dizendo: “Calma, o jogo começou agora. Vamos encher esses gringos de bola.” 

Tá certo Heleno dos 8 Baixos. Afinal, ele já foi indicado para um Grammy, e o século 21 começou agora. Quem disse que não vai ter “a próxima”?

Melhor ainda é a resposta de João do Pife, que também está se apresentando no coração de Manhattan. Perguntaram-lhe sobre a dificuldade de comunicação, afinal de contas é um matuto indo pela primeira vez à mais famosa metrópole do mundo. E João respondeu, na maior tranquilidade: "Aqui em Nova York é fácil. Hotel é hotel, táxi é táxi, pizza é pizza, sanduíche é sanduíche, uísque é uísque, tchau é tchau. A gente fala, e eles entendem na hora".

João do Pife é ainda mais centrado e mais otimista do que Heleno. Ele deve ter se maravilhado ao descobrir que o Bicho não tinha tantas cabeças quanto ele ouvia falar, e que existe, sim, uma possibilidade de comunicação entre pessoas que vivem no mesmo mundo. 

Eu, com toda minha literatura, morro de inveja dos músicos e dos desenhistas, cujas obras podem ser apreciadas instantaneamente por um grego, um russo, um japonês, um mexicano, um suíço.

É claro que numa situação mais braba João ia sentir falta de um pouco mais de vocabulário, mas isso não é um privilégio-às-avessas dos artistas humildes do povo. Muita gente de anel no dedo se apavora quando se perde num metrô em terra estranha. 

Dizem que quando a Princesa Diana veio ao Brasil durante o governo Collor, a primeira-dama brasileira tomou um curso intensivo de inglês para quebrar o galho durante a recepção. A Princesa, com seu sorriso de sempre, perguntou: “Do you speak English?...” A brava Rosane titubeou, depois ergueu os dedos polegar e indicador, afastados meio centímetro, e respondeu: “Short...” Por que não convidaram João do Pife, minha gente?






sexta-feira, 7 de março de 2008

0023) Os piratas e os corsários (18.4.2003)




(by Henk van Rensbergen)

Em sua coluna de hoje no “Diário de Pernambuco” (“Baque Solto”, sai todas as sextas-feiras, não percam) Lula Queiroga lamenta o fato de que uma atividade tão interessante quanto o pirateamento de CDs tenha sido açambarcada por gangsters milionários de Taiwan ou Hong Kong. Pegar uma matriz, copiá-la num estúdio de fundo-de-quintal e vender o produto por um terço do preço de loja é atividade para guerrilheiros culturais: galera do boné virado, piercing no nariz e tatuagem no ombro da vacina. É um recurso para a rapaziada fazer circular o CD raro daquela banda etno-jazz da Hungria ou daquele duo de italianas que vocalizam samplers de transmissões da Nasa. Não é coisa pra gangster.

Infelizmente, o dinheiro no mundo anda tão faminto que até essas táticas de guerrilha são monopolizadas pelos capitalistas do Caixa-2. Os sujeitos não pirateiam apenas discos: eles piratearam a própria pirataria. Porque o ato de piratear produtos industrializados é, como a guerra de guerrilhas, um recurso da Lei do Mais Fraco. Quem não pode bater de frente fuzila por trás. Disco pirata é para circular por baixo do pano, como nos anos 70 circulavam aqueles Manuais de Guerrilha Urbana do tamanho de um maço de cigarros. É uma atividade “cult”, conceitual, altruísta. Seu intuito não é acumular dinheiro, é distribuir informação. “Information wants to be free”, era o lema dos escritores cyberpunk que deram uma sacudida na literatura dos EUA nos anos 1980.

Lucro é sangue. Onde quer que haja lucro começam a aparecer os gangsters, como piranhas assanhadas, farejando. Uma gravadora faz um milhão de CDs de Britney Spears, e no dia do lançamento o mercado já está saturado por CDs clonados, com capa vagabunda, som mixuruca, mas, por 5 reais (e Britney Spears), quem liga? Quem percebe?

Ao contrário do meu mestre Queiroga, eu não fico com remorsos quando compro CD pirata. Gravadoras multinacionais e mafiosos intercontinentais brigam, cada um, com as armas de que dispõem. Nesse Fla-Flu eu sou botafoguense. Como compositor que recebe direitos autorais, eu torço para que as gravadoras vendam bem. Como consumidor que vê um disco dos Travelling Wilburys por 32 reais, confere a carteira e segue em frente, só me resta sonhar em ver o mesmo disco na calçada da Rua do Catete, por “cinquinho”.

A indústria fonográfica desperdiça mais dinheiro do que a administração doméstica de Saddam Hussein. É uma babilônia de coquetéis, videoclips, lançamentos, passagens aéreas, boca-livre, hotel cinco estrelas, jabá para radialistas, uísque e canapés para a imprensa, kits de divulgação que parecem propostas de arte de vanguarda. Tudo isso para quê? Para alimentar uma máquina de mil bocas comendo e uma boca cantando, a do sujeito que aparece na capa do disco. A indústria pirata economiza isso tudo, vampiriza operários chineses, e não paga imposto nem direitos autorais. Não se enganem. Capitalista que rouba capitalista tem cem anos de carência.