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domingo, 17 de março de 2019

4447) "As esposas de Stepford" (17.3.2019)





Este livro de Ira Levin (The Stepford Wives, 1972) é um dos pesadelos mais curiosos da literatura fantástica dos anos 1970. Teve uma boa adaptação cinematográfica dirigida por Bryan Forbes em 1975, com Katherine Ross e Paula Prentiss.  E outra, em tom de comédia, que achei bastante fraca, dirigida por Frank Oz em 2004, com Nicole Kidman e Matthew Broderick.

Mas é do livro que quero falar, e acho que o tema já é tão conhecido que não vou dar nenhum spoiler muito grave. O título, aliás, já se incorporou à linguagem corrente, pelo menos em inglês.

O casal Walter e Joanna Eberhart mora em Nova York, não aguenta mais o caos da grande cidade, e resolve aderir à vida suburbana, que nos EUA corresponde a comprar uma bela duma casa espaçosa, numa cidadezinha próxima, e ir e voltar de trem todos os dias. Eles têm um casal de filhos pequenos. Joanna é fotógrafa semiprofissional, e é feminista.

É um Romance Gótico, de acordo com a divertida definição de Donald Westlake de que “um romance gótico é uma história de uma mulher que se muda para uma Casa”. O que essa Casa representa em termos de ameaça, fica a cargo da imaginação de cada autora(a). Pense em Jane Eyre, em Rebecca, em Outra Volta do Parafuso...


O livro é fininho (160 páginas, na edição da Pan Books) e bem escrito, narrativa rápida onde cada frase conta, muito detalhes psicológicos e de ambiente bem captados com poucas palavras. Os personagens são meio personagens de série de TV dos anos 1970, com exceção da protagonista Joanna e de sua amiga Bobbie, as duas feministas da trama, as únicas que (literariamente) são tratadas como pessoas de verdade.

Escrevendo aqui no Mundo Fantasmo sobre o filme, fiz tempos atrás a seguinte comparação:

Em O Bebê de Rosemary (1968) de Roman Polanski, um jovem casal que começa a ascender socialmente vai morar num grande apartamento no Central Park. Aos poucos, a mulher vê o marido se portando de maneira estranha, e descobre, para seu horror, que ele se juntou a um grupo de vizinhos satanistas que pretendem fazer com que ela engravide do Diabo e dê à luz o Anticristo. 

Em As esposas de Stepford (1975) de Bryan Forbes, um jovem casal que começa a ascender socialmente vai morar numa grande casa no subúrbio. Aos poucos, a mulher vê o marido se portando de maneira estranha e descobre, para seu horror, que ele se juntou a um grupo de vizinhos cientistas que pretende fazer com que ela seja substituída por um andróide programado para obedecer passivamente ao marido.



Os dois livros são de Ira Levin. É óbvio que Stepford foi uma tentativa (bem sucedida) de reutilizar o plot de Rosemary. Numa oficina de romance, a leitura e análise comparativa dos dois seria muito proveitosa para perceber como certos mecanismos de enredo podem ser infinitamente readaptados sem que a maior parte do público perceba. (Agora estou me coçando para ler O Bebê de Rosemary, do qual só vi o filme.)

Stepford é uma espécie de condomínio fechado de caras ricos, que começam a frequentar o jovem casal.

Um é um ilustrador famoso, especialista em mulheres lindas: Joanna Eberhart fica vaidosíssima quando recebe a visita dele e ganha um retrato feito na hora.

Outro é um cara que trabalhou na Disneylândia, ajudando a programar os robôs eletrônicos que fazem personagens históricos como Abraham Lincoln, etc.

Um terceiro faz pesquisas linguísticas, e pede a ela que grave em fita cassete um enorme vocabulário de palavras isoladas, para captar nuances de pronúncia e sotaque.

E todos esses caras são casados com mulheres lindas, que não gostam de ler, não gostam de sair, passam o dia bem vestidas, bem maquiladas, arrumando interminavelmente a casa, polindo copos, encerando pisos, escovando cortinas, cortando grama, cozinhando, sorrindo...

Existe na cidade uma tenebrosa “Men’s Association” onde as mulheres não podem entrar e os maridos se reúnem várias noites por semana. Não leva muito tempo para na cabeça de Johanna se formar a terrível suspeita de que as mulheres de Stepford estão sendo substituídas por andróides (ou “ginóides”, para ser mais preciso) feitas à sua imagem e semelhança (com o busto sempre um pouco maior, é bem verdade) e que nunca dizem “não” aos maridos.

A melhor coisa na narrativa de Ira Levin é a cuidadosa acumulação de pequenos detalhes que vão se encaixando uns aos outros com a exatidão aterrorizante de todas as paranóias.


Tal como O Bebê de Rosemary, é a narrativa de um pesadelo de uma mulher solitária (ou que, neste caso, tem uma amiga cúmplice, solidária, fiel – e a perde da maneira mais arrepiante) que várias vezes por dia diz a si mesma que não, que não é possível, que está ficando doida, que pessoas de verdade não seriam capazes daquilo, que o marido dela não seria capaz daquilo... e veem as evidências se acumulando a cada instante.

É uma narrativa arrepiante, por ser curta – esticá-la para 300 páginas faria estalar o fio leve de verossimilhança que Ira Levin mantém retesado com sua prosa rápida. Poderia ter sido escrita por Philip K. Dick, pela enorme identificação com sua temática, embora Dick não tenha essa narrativa precisa, cinematográfica, econômica.

Quanto ao tema, é curioso que este romance de 1972, da época em que tantas mulheres jovens norte-americanas estavam lendo Betty Friedan, Kate Millet, Nancy Friday e outras autoras questionadoras, seja talvez mais atual hoje do que quando foi lançado.



***

Aqui, neste canal do YouTube, é possível ver o filme original de 1975. É um canal interrompido aqui e ali por comentários, e não tem legendas em português, mas o som e a imagem são OK, e o filme parece completo.)

E para quem já viu o filme, aqui um documentário com diretor, produtor, atores, comentando o trabalho, a importância do filme:







quarta-feira, 26 de março de 2014

3456) Ferrovia subterrânea (26.3.2014)


“The Underground Railroad” foi uma organização clandestina criada nos EUA para facilitar a fuga de escravos.  Era uma série de endereços ao longo de uma linha, como uma linha de metrô onde em cada “estação” era possível esconder-se, descansar, alimentar-se, etc., mas o trajeto entre uma e outra geralmente era feito pelos fugitivos na base do “cruze os dedos e seja o que Deus quiser”.  Há um bom livro que reúne histórias de escravos e abolicionistas: Forbidden Fruit – Love Stories from the Underground Railroad de Betty DeRamus (New York, Atria, 2005).  De pouso em pouso, os escravos fujões se afastavam cada vez mais, indo rumo ao Norte, já que a maior parte da mão-de-obra escrava vivia no Sul.

Não sei se houve algo parecido aqui no Brasil, mas Joaquim Nabuco em Minha Formação (1900) faz referências às atividades abolicionistas de André Rebouças. No capítulo 21 de seu livro, Nabuco transcreve um itinerário redigido por Rebouças para a fuga de escravos paulistas rumo ao Ceará:

“Caminho de Ferro Subterrâneo do Alto São Francisco ao Ceará Livre. Estação inicial: São Paulo, junto ao túmulo de Luís Gama. Segunda estação: Pirassununga.  Terceira estação: Cachoeira de Mogi-Guaçu.  Quarta estação: Em pleno sertão, com rumo de Nordeste; o Sol deve amanhecer à direita e cair, à tarde, à esquerda.  Quinta estação: Piunhi, nascente do rio São Francisco, acompanhando sempre o belo rio, abundante de peixes e de frutos deliciosos.  Sexta estação: De um lado Goiás livre; do outro o sertão da Bahia, onde não há capitães-do-mato.  Sétima estação: Na Vila da Barra, onde começam as grandes cachoeiras do São Francisco.  Oitava estação: No varadouro das águas do São Francisco, para as do Parnaíba. Nona estação: no Paraíso – no Ceará Livre.”

Nabuco avalia esse texto de Rebouças como “pura fantasia, mas tão cheio para todos nós de vestígios de sua originalidade, de toques de sua generosa sensibilidade, quase impessoal”. 

Foi por acaso que descobri esse “exército das sombras” protegendo os negros dos EUA. Joguei “underground railroad” no Google para fazer uma pesca de livros de FC que usassem essa imagem. Por que?  Por causa do romance de Emilia de Freitas A Rainha do Ignoto (1899), descrevendo uma ilha no litoral do Ceará, onde se chega por um trem subterrâneo, num reino só de mulheres. O livro tem influências feministas e abolicionistas.  Na época em que a autora cearense escreveu, a expressão devia circular na imprensa abolicionista da época, e o que fez ela?  Recriou fisicamente essa expressão que antes era meramente metafórica.  No livro dela, entra-se numa gruta, pega-se o trem subterrâneo, chega-se à ilha.