sábado, 24 de outubro de 2009

1320) A maldição da morte burra (6.6.2007)



Que sedução tem sobre nós a morte burra? A morte que não é suicídio, mas um acidente cruel e gratuito – ou procurado às cegas, como quem pisa no acelerador e fecha os olhos. Quando pequeno eu me admirava da história do almirante inglês que venceu batalhas, sobreviveu a naufrágios, e uma noite, ao voltar para casa, tropeçou, caiu com o rosto numa poça na calçada e morreu afogado. Ou com a história do sujeito que estava bêbado no apartamento, foi até a varanda e começou a urinar do alto do décimo andar, mas aí o jato líquido tocou num fio de alta tensão e ele morreu eletrocutado. Sem falar em mortes famosas como a do dramaturgo Ésquilo: ele estava numa praia onde as águias costumavam erguer tartarugas com as garras e soltá-las lá de cima sobre as pedras, para partir sua carapaça e poder devorar o recheio. Uma águia pouco observadora soltou uma tartaruga lá do alto sobre a cabeça calva do autor de Prometeu Acorrentado. (Mas, como ele próprio disse um dia, melhor morrer de repente do que sofrer eternamente)

Nos EUA foi criado o Prêmio Darwin (http://www.darwinawards.com/) para homenagear simbolicamente aqueles indivíduos que morrem de morte burra. Não me refiro a mortes involuntárias, como a de Ésquilo, mas àqueles acidentes que contam com a colaboração do acidentado, fazendo alguma enorme bobagem e perdendo a vida em conseqüência. Chama-se “Prêmio Darwin” porque os organizadores consideram que o cara que morre assim colabora para a conservação da espécie, deixando vivos apenas os indivíduos mais inteligentes do que ele. É o caso, por exemplo, do sujeito que depois de limpar um depósito de gasolina entrou nele e acendeu um fósforo para saber se tinha ficado algum restinho (e foi parar a cem metros de distância), ou do casal britânico que, certamente inspirado pela canção dos Beatles “Why don’t we do it in the road?” parou o carro no acostamento, à noite, e foi fazer sexo no meio da rodovia.

Vocês acham que ser engolidor de espadas num Circo é coisa arriscada? Mais arriscado ainda é fazer como fez um deles na Alemanha, que engoliu um guarda-chuva e por distração apertou o botão que o abria. Ou o advogado de Toronto que, para mostrar a visitantes o quanto o vidro de seu escritório era à prova de impacto, arremeteu contra ele com o ombro, estilhaçou a janela e caiu vinte andares. Tem também o casal americano que foi fazer “rappel” numa ponte por onde passa uma via-férrea: prenderam as cordas, e desceram, pendurados sobre o abismo, curtindo o panorama até que o trem veio e cortou as cordas – que estavam amarradas aos trilhos.

Morrer de um acidente ou de uma bala perdida pode acontecer com a mais precavida das pessoas. Mas existe gente que, numa mistura de imprudência, distração ou insensatez, parece procurar uma morte que jamais lhe aconteceria mesmo na mais improvável combinação de circunstâncias. Só aconteceu porque a vítima obrigou o Acaso a matá-la.

1319) Um cara que escreve bem (5.6.2007)


(François Villon)

Vi uma vez em algum artigo de revista uma frase cujo autor não recordo, mas, na falta do autor, vá a frase sozinha. Discutia-se o caráter de um certo literato, e no meio de críticas amargas ao seu perfil moral o comentarista saiu-se com esta: “Mas, vamos deixar pra lá. Um cara que escreve bem não pode ser um canalha completo”. Isto me sossegou pelo resto da vida até agora, porque eu sempre me havia deparado com este aparente paradoxo: canalhas irremediáveis que, no entanto, pintavam maravilhosamente, ou jogavam um futebol de encher as vistas, ou dirigiam filmes belíssimos, etc.

Talento e bom caráter não são sinônimos, e vou mais longe: não são coisas que tenham muito a ver uma com a outra. Se assim fosse, todo sujeito de espírito bom seria também um excelente profissional em sua atividade. Ser um artista de talento, em qualquer atividade, requer uma noção intuitiva de harmonia, equilíbrio, obediência a normas, capacidade de inovação, uma série de virtudes estéticas que, mesmo que não se estendam ao nível da Ética (que sempre é mais problemático) fazem com que pelo menos naquele terreno específico o cara demonstre virtudes. Pode ser um desorientado, um bruto, um sangue-ruim, um calhorda, mas não o é por completo. Alguma coisa nele se salva.

Quando falamos em casos assim, alguém sempre se sai com exemplos de escritores criminosos, como o poeta François Villon ou o Marquês de Sade; mas estes são casos extremos, que pelo próprio extremismo não valem como regra, e sim como exceção. A regra, no mundo literário e artístico, é o mau caráter em escala cotidiana: o poeta brilhante que dá calote em todo mundo, o romancista vigoroso que bate na mulher mais vigorosamente ainda, o cineasta que trata a equipe a pontapés, o jornalista que faz da mentira gratuita uma atividade remunerada, o roqueiro que cospe nos fãs e arrebenta quartos de hotel. Ou então é simplesmente o Gênio que é um Chato. Coisa mais freqüente do que podemos imaginar. Tudo que o cara tem de bom sai nos seus escritos, mas ninguém agüenta passar uma tarde conversando com ele.

Será que o talento redime sujeitos assim? Pelo que posso imaginar, os defeitos pessoais tendem a se esvair anos após a morte do sujeito, enquanto o seu talento, se for um talento real, vai ficando mais encorpado e mais visível. Que sabemos nós, afinal, da pessoa de Camões ou da de Michelangelo? Não mais que algumas páginas de dados biográficos. Talvez, se pudéssemos conversar com algum contemporâneo seu, ouviríamos algo como “Pelo amor de Deus, esse cara era insuportável, ninguém agüentava ele, só conseguia se manter porque as coisas dele faziam sucesso...” Do mesmo modo, fico imaginando que certos figurões intragáveis de hoje (mas talentosos) serão endeusados daqui a cem anos como se fossem anjinhos, e os pósteros comentarão entre si: “Coitado, foi tão incompreendido em vida... Realmente, era um indivíduo à frente do seu tempo”. E não terão entendido nada.

1318) A função da gíria (3.6.2007)



A favor ou contra a gíria? Eu sou a favor – dentro dos parâmetros! Apóio qualquer coisa que venha para tornar nossa relação com a língua mais rica, mais flexível. A Realidade é inesgotável, e precisamos sempre de novas maneiras de percebê-la e comentá-la. Volto ao tradicional exemplo dos esquimós, que têm dezenas de palavras diferentes para descrever a neve. Não é por serem desocupados ou porque são barrocos. É porque vivem cercados de neve, neve á uma coisa essencial para suas vidas, e é importante para eles distinguir dezenas de tipos diferentes.

A gíria vem muitas vezes para sacramentar a existência de uma nuance que existia na prática, era percebida por todo mundo, mas faltava uma palavra exata para ela. É a mesma coisa que na Matemática: existia um conceito que não era satisfeito pelos números naturais, porque nem era 3 nem era 4. Era mais do que 3, mas era menos do que 4. Aí chegou um gênio e inventou o 3,5. E com ele todas as nuances infinitesimais decorrentes deste gesto fundador. Pois na língua é a mesma coisa, e a gíria funciona como (anotem; estará nos dicionários daqui a meio século) o sistema fracionário e intersticial da nomenclatura, um sistema aberto, tipo Linux, de contribuições semânticas dos usuários.

A gíria é muitas vezes um erro voluntário para introduzir uma mutação numa palavra insuficiente para cobrir a área de significação desejada. Vou dar um exemplo de uma gíria campinense: o Pertubado (assim mesmo, sem um “R”). Todo mundo tem um amigo ou um conhecido que é descrito assim. “Sabe quem é Fulano de Tal?” “Conheço, é um pertubado que mora na Otacílio de Albuquerque”. O “pertubado” é um indivíduo encrenqueiro, difícil de lidar, pessoa problemática que acaba gerando confusão onde quer que se meta. Não é necessariamente um mau caráter, um mau sujeito. Muitas vezes é – ou seria – um cara até legal. Só não é legal porque é um pertubado.

Atenção, revisores: o detalhe está na grafia, porque se colocar a palavra gramatical, “perturbado”, estraga tudo. Tem que tirar esse segundo “R”, para distinguir a palavra nova da palavra anterior de onde deriva. Introduz-se um ruído, e esse ruído é, na Língua como na Literatura, a informação, a criação, a novidade. A gíria é a introdução de um erro aparente para suprir uma lacuna da língua, criando uma palavra que se encaixe com exatidão naquela categoria ainda sem nome que percebemos mas que só podíamos referir através de longas descrições, de circunlóquios.

As gírias são bem-vindas quanto aumentam nossa capacidade de expressão, e são mal-vindas quando a diminuem. (Ninguém usa dizer “mal-vindas”, não é mesmo? Pois eu uso.) Gírias são contribuições individuais para o todo, e seria uma pena se o surgimento de uma nova gíria cancelasse as anteriores, ou tornasse obsoleto o vernáculo tradicional. Em casos assim, a gíria seria uma perda, uma subtração à língua, um encolhimento, um sinal de decrepitude à vista.

1317) Douglas Hofstadter (2.6.2007)



Douglas Hofstadter é um dos indivíduos mais inteligentes que eu já vi. Muitos textos sobre Ciência que aparecem nesta coluna comentam assuntos extraídos dos seus livros. Três deles ocupam lugar de honra na minha estante : Godel, Escher e Bach (1979), um ensaio sobre inteligência artificial, consciência, linguagem e significação, com pontos de partida extraídos da Matemática (o Teorema de Godel), das Artes Plásticas (as gravuras de M. C. Escher) e da Música Barroca (as obras de Bach); Metamagical Themas (1985), uma enorme coletânea dos artigos que ele publicou durante vários anos na revista Scientific American, nos quais fala de computação, física, design, biologia, Teoria dos Números, cubo mágico, ativismo ambiental etc.; e Le Ton Beau de Marot (1997), em que ele retraduz compulsivamente um curto poema francês do século 19 e desafia outras pessoas a fazerem o mesmo, o que redunda em centenas de traduções, paródias e pastiches, além de longas elucubrações sobre linguagem, poesia e semiótica.

Uma preocupação de Hofstadter é definir o que é consciência: como nosso pensamento elabora e manipula conceitos, e como isto pode ser transmitido de uma mente para outra, de um idioma para outro, de uma linguagem-de-computador para outra, e assim por diante. É fascinante vê-lo comparar a linguagem das valsas de Chopin com a linguagem das fugas de Bach, e mostrar as estruturas expressivas que existem numa coisa tão artificial e abstrata quanto a música. Igualmente provocativo é ver suas discussões sobre a maneira como projetamos significado num sinal gráfico (a escrita), num gesto, numa expressão facial, etc. Lendo seus textos, percebemos que a mente humana é uma máquina de produzir significado, de traduzir o novo e o desconhecido em termos do que é velho e conhecido, e ao mesmo tempo de produzir idéias e formas totalmente novas nos contextos e nas circunstâncias mais inesperadas.

Hofstadter deu uma entrevista recente a Jorge Pontual no canal GloboNews, da GloboSat. Perguntado sobre o que diferencia a mente humana da mente dos animais, ele citou um exemplo que lhe ocorrera poucos dias antes: de madrugada, numa loja de conveniência, ele viu o caixa correr atrás de uma freguesa e devolver-lhe uma nota de 10 dólares que ela esquecera de pegar. Ele compara isto com a inacreditável capacidade de nosso cérebro para gerar conceitos abstratos, e dá como exemplo algo como: “Cancelamento de assinatura de revista de sinopses de séries televisivas”, algo que intuitivamente entendemos do que se trata, mas que para existir consiste num empilhamento de incontáveis níveis de fatos sociais e de abstrações resultantes destes fatos: “O que é TV? O que é série? O que é revista? O que é assinatura?”. Comparando nossa imensa capacidade intelectual e nosso impulso moral de tratar os outros como gostaríamos de ser tratados (devolvendo os 10 dólares), Hofstadter nos faz recuperar a nossa fé no futuro da espécie humana.