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sábado, 9 de março de 2019

4443) Eu me lembro XIV (9.3.2019)



1
Eu me lembro das lojas de instrumentos agrícolas que havia na rua João Pessoa, quando eu era garoto e às vezes passava uns dias no apartamento de Tia Adiza, lá no final da rua, no Monte Santo. Em algumas lojas havia tratores vermelhos, com rodas traseiras imensas, muito maiores do que as rodas dos carros, pneus com sulcos profundos e geométricos. O banco do motorista era pequeno, desconfortável, sem acolchoado, mas eu olhava de longe e tudo que eu queria na vida era sentar ali pelo menos uma vez. A cor vermelha era profunda, brilhante. Muitos anos depois, foi a cor desses tratores que me veio à mente quando escutei a canção”Meu Nome é Pablo”, com Milton Nascimento: “Meu nome é Pablo, como um trator é vermelho”. E quando li o famoso poema de William Carlos William, “The Red Wheelbarrow”: “Tanta coisa depende / de um carro-de-mão vermelho / brilhante de água da chuva / entre galinhas brancas”.


2
Eu me lembro que na campanha presidencial de 1960 meu pai torcia pelo general Henrique Teixeira Lott e minha mãe por Jânio Quadros. As pessoas usavam adereços de metal dourado que pregavam na roupa (isso era muito antes dos buttons, que as pessoas hoje chamam de bóttons). O símbolo de Lott era uma espada, o de Jânio uma vassoura. Eram adereçozinhos pequenos, com uns 2 centímetros no máximo, presos à roupa com um broche. Eu torcia por Lott meio por identificação com meu pai, e porque a espada me parecia um símbolo masculino, e a vassoura um símbolo feminino. Lembro também de uma propaganda de Jânio que era um disco fonográfico gravado em cima de um cartaz do tamanho de um livro: a gente colocava na vitrola e ele tocava uma música: “Ele vem aí, não demora não... ele vem aí com a vassoura na mão! / Tanto faz ser de Mato Grosso / tanto faz ser de Macaé / o que interessa é ser bom brasileiro / isso ele é!”.


3
Eu me lembro, ainda no capítulo sobre “espadas”, que eu tinha tamanha idéia-fixa com as histórias de aventuras medievais, fantasia heróica, etc., que os meus dois santos preferidos eram São Jorge e Santa Joana d’Arc, porque eram os únicos santos que eu via vestidos de armadura e empunhando uma espada. Eu também tinha uma devoção por Santa Luzia, de quem tinha uma gravura, uma mulher alva, de roupa preta, segurando uma bandeja onde havia dois olhos humanos. Dizia-se que os olhos dela tinham sido arrancados durante uma sessão de tortura, e por isso ela era protetora da vista. Como eu tinha muito medo de ficar cego, todas as noites, depois de rezar, eu dizia: “A bênção Santa Luzia, protegei a minha vista.”


4
Eu me lembro das peladas no Alto Branco, na beira da estrada; eu teria uns 12 anos e a única bola que a gente tinha era a famosa Bola Verde, que era de plástico e tinha um rasgão, de modo que cada vez que a gente “prensava uma bola” tinha que parar o jogo e desamassar a respectiva com as mãos. Nossa independência começou depois que comecei a trabalhar no Diário da Borborema, com 15 anos, e eu e Severino Brasil, que também trabalhava lá, rachamos o preço de uma bola de couro no. 3, com gomos marrons e brancos, na Casa Esporte, quase em frente à TV Borborema, e descemos eufóricos no fim da tarde pelo Beco dos Bêbos, a rua Alexandrino Cavalcanti, o Ponto Cem Réis, a ponte do canal e a subida do Alto Branco, correndo e trocando passes pelo meio da rua até chegar na casa dele, que era pertinho da nossa.


5
Eu me lembro que meu pai, charadista nato, colecionava uma revista portuguesa chamada Brasil Enigmista, cheia de charadas, palavras cruzadas, rébus, etc. A revista tinha uma seção chamada “Você é o Sherlock”, escrita por Leiria Dias, com pequenos casos policiais cuja narração era interrompida a certa altura. Havia concursos para ver quem deduzia quem era o assassino (e justificava). Publicavam contos também, e me lembro de ter lido uma história de "William Irish" (pseudônimo de Cornell Woolrich) chamada “Prato Frio”, um crime dentro de um elevador enguiçado e cheio de gente.


6
Eu me lembro que minha mãe, costureira dedicada, colecionava uma revista chamada Jornal das Moças, cheia de matérias sobre moda, vida doméstica, beleza, etc.  Tinha também uma seção de piadas, e uma de curiosidades com o nome “Tudo Isto é Verdade”. E tinha uma história em quadrinhos, serializada, em preto e branco: “Mark Taylor”, com as aventuras de um cara no norte gelado dos EUA, ou Canadá. Como eu pegava as revistas fora de ordem, acabava lendo esses quadrinhos como quem pula capítulos rayuelamente, numa ordem totalmente imprevista, mas que não nos impede de montar o quebra-cabeças.

















sábado, 13 de maio de 2017

4234) Ser mãe (13.5.2017)



(Ela, "a Marquesa")

Ser mãe é ter na parede um quadro com a foto do Padre Cícero e enfiar na moldura, num ritual protetor, dezenas de retratos 3x4 de pessoas conhecidas, parentes ou não, crentes ou não.

Ser mãe é gostar de escutar Agostinho dos Santos, Capiba, Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Gal Costa, Altemar Dutra.

Ser mãe é botar água-pra-café no fogo às duas da manhã.

Ser mãe é ler escondido as cartas que o filho recebe das namoradas e dias depois abordar um assunto qualquer como se aquilo tivesse caído do céu no seu colo.

Ser mãe é dizer pro malcriado: “Ah, tá prendendo o choro? Pois vai apanhar até chorar”, e dizer depois: “Agora vai apanhar até parar”.

Ser mãe é contar a história de quando era garota na fazenda, e a porteira do curral caiu por cima dela enterrando-a na lama, e as vacas passaram por cima, e quando arrancaram a porteira e a tiraram dali ela estava inteira e viva, mas passou uma semana tirando terra do caroço do olho.

Ser mãe é receber um poema pelo correio e responder em versos.

Ser mãe é gostar de ler romances de capa-e-espada de Michel Zevaco, e livros sobre discos voadores, os Exilados de Capela e a vida no planeta Marte.

Ser mãe é iniciar a noite com um olho na novela e outro na sopa no fogão.

Ser mãe é passar alguns anos da vida rodando de ônibus por cidades pequenas do Nordeste vendendo e doando botijões de uma infusão vegetal que é tiro-e-queda contra o câncer.

Ser mãe é perder uma hora antes de ir dormir amarrando um pano com Neocid no cabelo de um sujeito que se recusa a cortá-lo porque o cabelo faz parte da revolução mundial.

Ser mãe é ganhar de presente uma garrafa de Ballantine, agradecer, guardar no armário de bebidas, e ir lá dentro tomar uma dose de Natu Nobilis.

Ser mãe é repetir uma recomendação qualquer nunca menos de três ou quatro vezes, não importa quantas vezes o resignado interlocutor diga: “Sim, eu já sei”.

Ser mãe é saber preparar orelha-de-pau, doce de leite com cravo, imbuzada, gemada com farinha e açúcar, pão torrado com nata.

Ser mãe é ir pro Céu e não voltar pra puxar o pé do filho ateu durante o sono (conforme ameaçado), porque o bichinho está tão cansado, passou a noite escrevendo aquelas coisas que só ele entende.







domingo, 8 de fevereiro de 2015

3732) O escritor e a mãe (8.2.2015)



(Cortázar e sua mãe)


“Momma boy”, filhinho-da-mamãe, há expressões igualmente desdenhosas em qualquer idioma.  Foi feita para aplastrar aquele menino assustado ou impertinente que não larga a saia materna, e o máximo de independência que ganha ao crescer é uma certa autonomia para chantageá-la e extrair o que quer.  

Porém são igualmente numerosos os casos de meninos criados na órbita de uma matrona e que se tornaram, se não grandes homens, pelo menos grandes artistas (o que, pelo menos pra mim, parece melhor negócio.)

Penso em Julio Cortázar, cujo pai sumiu por completo quando ele tinha cinco anos.  Quando o filho estava famoso, o velho escreveu-lhe pedindo que por gentileza se assinasse “Julio Florencio Cortázar”, para que não fossem confundidos um com o outro. Ele respondeu: “Querido senhor, nada sei do senhor, espero que esteja muito feliz, mas eu vou continuar assinando Julio Cortázar”. 

John Lennon reagiu com mais acidez ainda, quanto o pai o procurou depois da fama; mas Lennon não teve por muito tempo “a virtude de dormir entre dois seios”, como versejou Lourival Batista.  A mãe morreu atropelada quando ele era ainda garoto, mas a preferência afetiva por ela sempre foi muito clara em tudo que ele escreveu.

Penso em Cornell Woolrich, o rei do “roman noir” levado ao cinema (A Sereia do Mississipi, A Noiva Estava de Preto, Janela Indiscreta, etc.). Pais separados; ele ao que parece era gay, teve durante 3 meses um casamento frustrado e depois viveu num hotel com a mãe até a morte dela, quando ele tinha 54 anos. Bebeu até apagar.

Raymond Chandler, que nunca conheceu o pai (alcoólatra, como ele viria a ser), e cuidou da mãe até os 35 anos, quando ela morreu. Meses depois ele casou-se com Cissy Pascal, 18 anos mais velha, e cuidou dela até a morte. 

Não muito diferente foi a trajetória de Jorge Luís Borges, que após a morte do pai cuidou da mãe, D. Leonor (cuidou é eufemismo para “foi cuidado por”).  Teve também um casamento mal sucedido e voltou para morar com a mãe até a morte dela aos 99 anos, quando ele próprio tinha 75. 

Todos parecem ter feito tudo isso em parte pelo bem delas e em parte para si mesmos.  Pode ser imaturo, mas essa convivência gerou talvez um canal de entendimento que foi bom para a literatura de cada um.  

Mas talvez nenhum deles tenha tido o espírito arlequinesco e lúdico que Sartre afirma (As Palavras) ter experimentado na infância ao lado da mãe, que enviuvou muito jovem, o que gerou entre ela e o filho uma convivência de cúmplices numa família dominada por um avô tonitruante; ela e o menino partilhavam passeios, filmes, pequenas aventuras de gente sem culpa que se diverte com bem pouco.







quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

3433) Quando eu era criança (27.2.2014)


(Eu e Tide no carnaval)

Tem um blog impagável (http://coisasqueeuachavaqdoeracrianca.tumblr.com/) onde as pessoas contribuem com suas lembranças de infância, aqueles pequenos equívocos meio absurdos que toda criança comete por não entender direito o mundo dos adultos. Exemplos do blog: “Eu pensava que em hotéis só entravam homens, e em motéis, mulheres”; “Eu pensava que uísque 12 anos era para crianças de 12 anos tomarem”; “Eu achava que sexo oral era de hora em hora e sexo anal de ano em ano”, etc.

Bem... Eu me lembro que eu achava que a Terra boiava solta no espaço, junto com planetas e estrelas, e que por baixo de tudo havia o Oceano Atlântico, que se expandia até o infinito em todas as direções.  Outra: meus pais mandavam ter cuidado com giletes, dizendo que havia perigo de alguém se cortar, etc., de modo que sempre que eu via uma gilete de bobeira eu a pegava, me trancava no banheiro, quebrava-a em pedacinhos, jogava na privada e dava descarga. Quando pequeno, eu ouvira dizer que o Inferno era embaixo do chão, então quando eu via um buraco qualquer na terra eu me agachava para espiar, para ver como era o inferno.

Uma vez perguntei a minha mãe o que tinha dentro do corpo da gente, eu ficava apontando: “E aqui?”, e ela dizia: “O fígado”, etc., até que a outra pergunta ela respondeu distraída “o ovário”, e dias depois eu disse: “Não posso ir pra aula, estou com dor no ovário”. Ainda nos mistérios sexuais, eu lia nos contos da época coisas como “e daquele beijo apaixonado nasceu um dia nosso filhinho...” e imaginava que as mulheres engravidavam com um beijo, o que trouxe um suspense adicional a qualquer filme, pois bastava haver um beijo e eu ficava imaginando que a mocinha ia ser botada de-casa-pra-fora.

Uma vez, ouvindo uma novela de rádio, eu lamentei que não fosse TV para a gente ver as aventuras dos heróis na selva, e minha irmã Clotilde disse: “Não, se fosse TV a gente ia ver uma sala cheia de microfones e as pessoas lendo o texto em folhas de papel”, e eu achei a TV uma decepção. Minha Tia Adiza, que era solteira, morou conosco muitos anos, e como ela todo dia trocava de roupa e ia para o trabalho, tal como meu pai, eu perguntei a minha mãe se Tia Adiza era mulher ou homem.

Durante algum tempo acreditei que quando alguém era condenado a prisão perpétua ele ia para a cadeia e nunca mais morria. Uma vez discuti com Tide sobre a pronúncia do nome Washington, que eu dizia que era Uachínton e ela dizia que era Vasguitón.  Vendo filmes de guerra, eu cheguei à conclusão de que quando dois países entravam em guerra eles mandavam os respectivos exércitos brigar na África, que era uma espécie de continente baldio.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

2833) A voz da mãe (1.4.2012)



Uma mãe está aprontando o seu bebê de alguns meses para ir a um passeio. “Ih-ih...”, diz ela. “Joãozinho vai ficar tão lindo, tão fofo com essa roupinha nova... ‘- Vou, mamãe, vou ficar a coisa mais linda que mamãe já viu...’ Bora, deixe de ser teimoso, bote o bracinho aqui nessa manga... Eita, que é teimoso igual ao pai! Isso!... Assim!... Tá vendo como fica mimoso? Coisinha fofa de mamãe?... Ah, minha Nossa Senhora, eu tou atrasada de novo! ‘- É mamãe, a senhora não tem jeito mesmo, fica dizendo que a culpa é minha, que eu dou trabalho... Trabalho nada, essa minha mãe é que deixa pra fazer tudo em cima da hora! E depois diz que a culpa é da minha coisinha fofa. Vamos, bote o pezinho. João, fica parado por favor! Ai meu Deus que coisa linda, eu preciso tirar outra foto.”

Esse monólogo interminável das mães (babás, avós, etc., alguns pais inclusive) com as crianças que não falam é um bom exemplo de linguagem literária. Não pelo lado da elaboração técnica, mas no que a linguagem literária (ou pelo menos uma extensa faixa das linguagens literárias) tem de afetivo, de imediato. Uma expressão instintiva, com elaboração super-rápida, do que o “enunciador” está pensando e sentindo.

No exemplo acima, Joãozinho aparece como terceira pessoa descrito por alguém que o observa de fora, e logo em seguida como primeira pessoa, um “Eu” suposto pelo enunciador do discurso, a mãe, falando em nome dele, mas claramente dizendo em nome dele algo que quem pensa é ela própria. Em seguida, instruções impositivas, imperativas (“bote o bracinho”). Para o garoto podem funcionar apenas pelo tom de voz (crianças entendem tons de voz muito antes de entenderem palavras), mas ao pé da letra servem apenas para a própria mãe reafirmar em voz alta a própria intenção. O “é teimoso igual ao pai” é um comentário dela para si mesma, ficticiamente endereçado ao filho. Segue-se um enunciado dela para si mesma (“estou atrasada de novo”), com o filho ausente como interlocutor; depois o garoto volta como 1a. pessoa fictícia, dirigindo-se a ela (“a sra. não tem jeito mesmo...”). E a frase seguinte tem uma torção, começa sendo enunciada pelo bebê (“essa minha mãe...”) e no trecho final volta a ser em nome dela (“...minha coisinha fofa”). Tudo no espaço de poucas linhas. Fazemos isto o tempo todo na vida diária, porque as rápidas variações emocionais (carinho, impaciência, distanciamento, etc.) nos fazem trocar instantaneamente de registro verbal, num discurso ziguezagueante mas sempre sob controle. Quando encontramos algo assim na literatura não percebemos o quanto aquela “prosa complicada” reproduz mecanismos que nós mesmos dominamos.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

1654) A Copa de 1958 (1.7.2008)




Num domingo igual a qualquer outro, eu e minha irmã Clotilde fomos à matinal das 10 horas no Cine Babilônia. As matinais daquele tempo incluíam um desenho animado curto, um episódio de série (com 30 ou 40 minutos) e depois um filme de longa-metragem. Não lembro qual era o filme desse dia, mas a série era com Superman, e o cartaz mostrava Superman amarrado a um poste, cercado por zulus que dançavam erguendo as lanças.

Voltamos para casa por volta do meio-dia (morávamos ali pertinho, na Miguel Couto) e estava havendo uma festa. Meu pai e uma meia-dúzia de amigos bebiam em voz alta. No rádio ligado a todo volume, por entre um chiado permanente, a voz metálica do locutor não parava um instante sequer. Havia uma eletricidade no ar, os homens estavam afogueados e nervosos, embora exultantes. Minha tia nos levou para o quarto, e explicou: “O Brasil está ganhando a Copa...” Depois fui dar uma espiada na sala, e foi justo quando o locutor no rádio expandiu e alongou uma nota musical, fazendo com que aqueles homenzarrões gigantescos (eu tinha 7 anos) explodissem todos ao mesmo tempo, pulando, abraçando-se como meninos, derrubando garrafas, entornando baldes de gelo.

Daí em diante a festa não parou mais. O rádio foi esquecido, a gritaria continuou. Guardei (talvez por não tê-la entendido) uma frase eufórica dita por um amigo de meu pai: “E ainda dizem que galo no terreiro dos outros não canta!” Daí a pouco parou um carro em frente de casa, e desceram pessoas dançando, com os braços para o ar. Meu pai foi recebê-las no meio da rua e só então percebi que por alguma razão os vizinhos sabiam do que estava se passando, porque nos terraços e nas janelas também eles gritavam, agitando bandeiras verde-amarelas.

Lembro que na calçada houve um momento de contradição e perplexidade. Meu pai erguia os dedos e gritava para os recém-chegados: “4x2!” E eles retrucavam o gesto: “Cinco! Foi cinco!” Vim a entender depois que a gritaria lá em casa era tão grande que perdemos a irradiação do último gol de Pelé, marcado aos 44 minutos.

Saímos dali em carreata. Era um dia tão excepcional que nós crianças fomos também. Fomos para o SESI, onde estava havendo uma festa muito alegre, com música tocando, e as pessoas se abraçando como se fosse o aniversário de cada uma delas. A certa altura, meu pai, já triscado pelo rumontila, subiu ao palco, pegou o microfone e gritou: “Minha gente! Viva o Brasiiiiil!” Fiquei meio constrangido (“Ele pensa que todo mundo escutou o tal do jogo!”), mas todos gritaram vivas e agitaram bandeirolas.

A Copa mesmo eu só entendi nos anos seguintes, lendo, pela ordem, todos os números da “Manchete Esportiva”, que meu pai colecionou e encadernou. Sofri, de jogo em jogo. Mesmo sabendo o resultado, ler os relatos me arrastava de volta no Tempo, alternadamente temendo a catástrofe e acreditando na vitória final. Na vida é assim, primeiro a gente vive, depois entende, e quando entende, vive de novo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

1542) As mães inocentes (21.2.2008)



No Almanakito que remete regularmente para seus leitores, a jornalista Maria do Rosário, sob o título “Mães Inocentes”, compara os filmes O Gangster de Ridley Scott e Meu Nome não é Johnny de Mauro Lima, dizendo: “A mãe do personagem de Denzel Washington sai da pobreza, com os filhos, para viver numa mansão cinematográfica. Desfruta de todo o luxo do mundo, sem problemas. Quando a coisa pega, ela dá sermão no filho: não mate polícia, nunca perguntei de onde você tira seu dinheiro (quer dizer que ela não sabia que o filho era traficante de heroína trazida do Leste asiático em caixões de soldados norte-americanos?????). No filme brasileiro, a personagem de Julia Lemmertz ganha jóia cara do filho e não desconfia que ele está arrumando dinheiro "fácil" com tráfico de drogas. No cinema, "mãe é mãe", né??”

No caso da mãe do americano Frank Lucas, eu me atrevo a supor (sem nenhuma informação além do filme, confesso) que a situação na vida real era muito diferente. A mãe não era cega nem boba, e sabia que o filho ganhava um milhão de dólares por dia vendendo heroína. Na cena em que ele pega numa arma para ir atrás dos policiais corruptos que invadiram sua casa, a matriarca, que é esperta, chama o filho à realidade. Vender droga é uma coisa, matar policial é outra muito diferente.

Quanto à mãe do personagem interpretado por Selton Mello no filme brasileiro, imagino (sem base, mais uma vez) que era assim mesmo, tintim por tintim. O filho dava festas toda noite para 30 ou 40 pessoas, e a mãe não sabia de onde vinha o dinheiro. Separada do marido, foi embora de casa e perdeu o interesse por tudo. O filho lhe dava jóias caras e certamente a sustentava. Para ela, provavelmente era mais cômodo limitar-se a saber que João “trabalhava com vendas”. Quando a gente tem medo da resposta, é melhor nem fazer a pergunta. “É o meu guri...”

Algumas mães são inocentes por excesso de afeto. Outras, por limitações mentais ou de informação – simplesmente não entendem o mundo em que os filhos vivem. Este é parcialmente o caso da mãe de João Estrela no filme. Fazer esse tipo de comentário sobre um filme inspirado em pessoas reais, e que ainda estão vivas, é sempre arriscado. Mas, levando em conta exclusivamente o que é mostrado no filme, a personagem de Julia Lemmertz é do tipo que prefere não saber. O filho está bem, vive atarefado, mantém a casa, tem uma bela namorada, centenas de amigos, dá festas de arromba, dá-lhe jóias de presente... Perguntar, pra quê? Se o filho fosse um fracassado, vivesse deprimido, jogado em cima de um sofá, sem emprego, sem conhecidos, somente vendo TV e tomando Coca-Cola, ela provavelmente cairia em cima dele com um-quente-e-dois-fervendo, no velho discurso do “vai trabalhar, vagabundo”. Mas sucesso não se questiona. Dinheiro é dinheiro. Como diziam os romanos, “pecunia non olet”, “dinheiro não fede”. Se dinheiro sujo fedesse, a Suíça já tinha sido interditada pela Organização Mundial de Saúde.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

1425) Hitler e minha mãe (7.10.2007)




Herdei de meu pai a poesia e de minha mãe a prosa. Esta é uma simplificação excessiva de uma situação mais complexa, pois o fato é que era Dona Cleuza quem me cantava folhetos de cordel e romances orais, e Seu Nilo quando estava na veia era um contador de histórias que não devia a nenhum outro. 

Mas não há dúvida de que foi ele quem me aplicou Bilac, Augusto, Castro Alves, até poetas hoje obscuros como Guerra Junqueiro ou Luís Dantas Quesado.

Já minha mãe costumava contar histórias sobre a época da II Guerra Mundial e seus reflexos no Brasil e em Campina. O monte de ferro-velho acumulado pelas autoridades para ajudar no esforço de guerra, ali na confluência entre as ruas João Pessoa e João Suassuna, em frente ao antigo Banco Industrial. Os blecautes que havia em Olinda (onde ela e meu pai moraram depois de casar), as luzes todas apagadas para não atrair a aviação inimiga (nunca entendi por que diabos Hitler iria querer bombardear Olinda). 

E havia uma historieta, provavelmente apócrifa, mas que para mim faz parte das lendas urbanas que um tempo de guerra é mais propício a criar do que um tempo de paz.

Hitler costumava aprisionar num país invadido, a Polônia por exemplo, centenas de crianças, e as trancafiava num imenso galpão. Ali os meninos e meninas eram deixados durante dias e noites sem comer, sem nada. 

Quando o desespero estava grande, entrava um oficial nazista de megafone em punho e gritava: “Vocês estão com fome?!” Havia uma gritaria que sim. E ele tornava: “Pois peçam comida a Deus! Vamos, gritem! Gritem bem alto para que ele ouça!” E saía. Os garotos começavam o maior berreiro: “Deus, me dê comida! Deus, me dê um copo dágua!”

Por motivos teológicos que não tenho espaço para analisar aqui, Deus não se manifestava, e um dia depois a fome tinha recrudescido ainda mais, devido à reversão da expectativa. Era o momento em que o oficial voltava. Perguntava se ainda tinham fome, recebia a resposta ululante que era de se esperar, e aconselhava: “Pois peçam comida a Hitler”. E ia embora. 

Os meninos, que a esta altura não tinham mais nada a perder, começavam o coro: “Hitler, me dê comida! Hitler, me dê água!”

E aí (ela gesticulava, encorpava a voz, abria os braços para sugerir uma encenação digna de Spielberg) abriam-se enormes clarabóias no teto e de lá desciam, mediante correntes e engrenagens, vastas plataformas de madeira cobertas com terrinas fumegantes, bandejas de pastéis e sanduíches, receptáculos cheios de macarrão com molho, carnes suculentas, jarras de água, de leite e de suco, frutas em abundância, e doces, doces, muitos doces. Os garotos atiravam-se sobre aquilo, balbuciando orações e agradecimentos ao Fuhrer.

Minha mãe não era nazista, caro leitor. Ela usava isto como um conto caucionário, uma parábola acauteladora. No fim da história ela aproximava o rosto, encatitava o olho, erguia no ar o indicador e sussurrava, com intensidade: “Des-con-fie!”






quinta-feira, 16 de abril de 2009

0986) Dia das Mães (14.5.2006)




Pense num dia problemático! Nunca fui bom para escolher presentes, ainda mais para a Marquesa, como se auto-intitulava Dona Cleuza (que vários leitores desta coluna conheceram pessoalmente). Não que ela fosse complicada. Num dia como hoje, bastaria estarmos os dois, no fim da tarde, tomando café a sós na mesa da cozinha, como fizemos milhares de vezes, e bastaria que eu pegasse uma bolacha creme-craque e a estendesse para ela: “Ah, sim, quase me esqueço, tá aqui seu presente do Dia das Mães”. Ela encheria os olhos de lágrimas, empurraria a cadeira para trás, daria a volta à mesa e apertaria minha cabeça junto ao seu peito, dizendo, “Ô meu filho lindo... ô meu santo...” Era assim.

Um livro? Talvez. Algum capa-e-espada de Michel Zevaco, que líamos tanto, lá na casa da Miguel Couto; alguma aventura de Arsène Lupin... Ou quem sabe eu encontrasse uma edição antiga de Jean Christophe, um livro que ela endeusava e que nunca cheguei a ler. Depois que virou espírita, ela se concentrou em Chico Xavier, Divaldo Franco... Vivia me aconselhando um livro chamado Os Exilados de Capela, mistura de discos voadores e kardecismo, e eu argumentava: “Mãe, pelo amor de Deus, isso não tem a menor base científica...” Ela dava uma rabissaca e dizia: “Deixa pra lá. Você é cético.”

Uma jóia, um perfume? No tempo em que ela usava isto, eu era pequeno demais para comprar. Teria oito, dez anos, e olhava ela se aprontando para alguma ocasião elegante. Lembro o cheiro do perfume, o contraste violento entre os cabelos negros e a boca pintada de vermelho. Lembro as jóias; um broche de esmeraldas (que celebrei num poema), um bracelete dourado que eu sempre pensei ser de ouro maciço.

Podia ser um disco. Aí não havia dúvida: Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Anísio Silva, o onipresente Roberto Carlos... A Marquesa adorava cantar. Adorava falar. Caririzeira (de Coxixola) até a medula, era quase uma “mamma” italiana, exuberante, barroca. Sua vida pessoal e seus sentimentos mais íntimos forneciam o teor de um monólogo a plenos pulmões que se estendia por manhãs e tardes inteiras, enquanto ela varria a casa, arrumava, fazia o almoço, lavava e estendia roupa, sempre à frente da empregada, a quem cabia apenas finalizar as tarefas.

Eu poderia dar-lhe hoje uma efígie (mais uma!) do Padre Cícero, ou um filhote de gato (mais um!) para ser criado e paparicado. Podia dar-lhe um livro de receitas, um livro de costura, um livro de bordados, para que ela passasse noites inteiras com os óculos cavalgando o nariz, destrinchando aquelas (para mim) álgebras incompreensíveis com a curiosidade de uma criança e o crivo exigente de um cientista. Podia dar-lhe qualquer coisa: uma flor, um rapa-coco, uma tartaruga (mais uma!), uma poncheira, uma sandália havaiana, dois fios do meu cabelo (um preto, outro branco). Pois é, tantas opções de presente e eu sem nada para lhe dar, tendo apenas as mãos vazias de quem durante a vida inteira só fez receber.





terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

0842) A flor do coco (27.11.2005)




Minha mãe vivia fazendo bolos, tapiocas, cocadas, um monte de quitutes caseiros que requeriam coco. E toda vez que ela pegava um coco para partir perguntava aos filhos que estivessem por perto: “Vai querer a água ou a flor?” 

Eram duas opções irresistíveis, profundo dilema filosófico, daqueles de travar a placa-mãe de qualquer filho. Partido o coco, a água era recolhida num caneco e entregue a um, enquanto outro recebia a “flor”, ou seja, a primeira raspagem da carne branca e úmida que o coco guarda em seu interior. 

Coco ralado já é uma coisa gostosa; avaliem a primeira raspa, a raspa daquela superfície molhada, macia, ainda guardando a leve carnosidade que tem a polpa do coco verde. Depois de raspada a flor, o resto do coco, conquanto saboroso, não tinha o mesmo frescor, não trazia a mesma brisa ao paladar.

Chamem-me pseudo-intelectual, se quiserem, mas acho que com os livros se dá algo parecido. Quando descobrimos no balcão ou na prateleira um livro que nos atrai e o compramos, tudo nele ainda tem o sabor de novo. 

E nada se compara àquele primeiro contato quando, na tranquilidade do gabinete de leitura, abrimos o pacote e podemos por fim examiná-lo devagar, folheá-lo, conhecê-lo aos poucos. Examinamos a capa, lemos o texto de contracapa, as orelhas; vamos ao índice, vamos ao índice remissivo quando o há, corremos o polegar pelas folhas, admiramos as ilustrações, lemos um pedacinho aqui, outro ali, saboreamos o prefácio...

E aí ocorre algo curioso. No dia seguinte, quando pegamos o livro de novo, é como se um pequeno encanto já tivesse se desvanecido. O livro não tem mais aquele frescor, aquele gosto de coisa nova. 

Para todos os efeitos, não o lemos ainda, mas por outro lado é como se ele já tivesse perdido a novidade. Porque o que ele nos deu, naquela primeira noite de contato, foi a sua flor-do-coco, foi a superfície intacta e virgem de coisa nova, desconhecida, repleta de infinitas possibilidades. 

Depois daquela manuseada inicial, depois daquelas primeiras folheadas, o livro perdeu o seu verniz de Desconhecido e de Mistério. Fazia parte do mundo e seus mistérios; agora faz parte de nós mesmos e de nosso bocejante repertório de coisas já conhecidas.

Chamem-me moralista, mas palpita-me que é isto que ocorre também com o Cavalheiro Casanova, com Don Juan e com os demais grandes conquistadores da História. O que eles buscam não é uma mulher, é o verniz de Desconhecido, de Novidade e de Mistério que qualquer mulher traz num primeiro contato; é aquela sensação de frescor de um sabor jamais provado antes, de um sabor que tivesse estado se guardando a vida inteira para ser desfrutado pelo paladar do conquistador. Experimentada a flor, os 99% restantes do coco tornam-se (para eles) redundantes e supérfluos. 

O conquistador é um vampiro que não se alimenta de sangue, mas de ineditismo. Sua vida é uma busca incessante de novos amores, não por serem amores, mas por serem novos.






segunda-feira, 20 de outubro de 2008

0611) É Carnaval! (4.3.2005)




(BT e Tide)

Lá vem de novo essa história de carnaval fora de época, micarande, micaroa, carnatal, recifolia. Não vejo graça nessas festas, e me desculpem os amigos que não sabem passar sem elas. Para certas coisas na vida, sou um conservador incorrigível. Não por simples saudade do passado, mas porque o que era festa amadorística virou indústria, e em alguns casos virou gangsterismo econômico, que ao que parece é o destino final de toda indústria na casa-de-mãe-joana que é este país. Criou-se um conceito de Carnaval onde você se diverte, mas paga caro por isto.

Carnaval pra mim é bagunça, é surrealismo do cotidiano, é happening dadaísta. Respeito mas dispenso aquele show-da-churrascaria-Plataforma que virou o desfile das Escolas de Samba. Não gosto de festinha fechada a céu aberto, com cachê, crachá e cordão de isolamento. Carnaval de trio é o velho carnaval dos Clubes aristocráticos invadindo a coitada da rua, já que os clubes vivem às moscas. O pessoal endinheirado fecha a rua e sai brincando, e se pobre chegar perto tem os seguranças para afugentar. Isso não é carnaval fora de época, é uma festa fora de si.

Quando meus pais já estavam velhos, com os filhos todos criados e morando fora, o carnaval deles se resumia a uma tocaia solerte. Meu pai ficava lendo no terraço, minha mãe na cozinha administrando as coisas. De vez em quando parava um carro e um amigo deles subia a escada até o terraço, para um dedo de prosa. Minha mãe vinha, havia aquela troca de cumprimentos, ficavam por ali, jogando conversa fora. Meu pai perguntava: “E tu, Fulano, tás brincando?” Quando o incauto respondia que sim, sua sorte estava selada. Meu pai fazia um sinal imperceptível, minha mãe pedia licença e ia lá dentro. O papo prosseguia, sobre assuntos variados, até que Mãe vinha lá da cozinha, às vezes ajudada pela empregada, trazendo um enorme caldeirão-de-fazer-buchada cheio dágua, que era despejado sobre a cabeça do visitante. O sujeito quase enfartava do susto, ficava tirando água dos olhos, apalpando o cigarro, a carteira e as roupas empapadas, enquanto Dona Cleuza e Seu Nilo se abraçavam com ele, pulando, às gargalhadas: “É Carnaval! É Carnaval!”

Carnaval é bagunça. Um dos melhores carnavais que já brinquei foi o de Olinda entre 1978-1983, quando a cidade ainda não tinha virado um imenso mictório com orquestra. Era o tempo em que a gente fazia um bloco com dez violões e duzentas latas vazias, e brincava três dias sem parar. O cara podia se fantasiar de índio peruano e passar o carnaval inteiro batendo num tambor inaudível pendurado ao pescoço. Ou então se vestir de mulher, sair pra tomar cachaça, e dois dias depois perceber que ainda estava com a mesma roupa. Ou então pegar um coco-verde, começar a jogar bola com outros bêbos, e vir driblando a multidão da Rua do Amparo até a Praça do Jacaré, ida e volta, a noite toda, sem que ninguém me tomasse a bola. Não me perguntem como, nem por quê. É Carnaval.




sexta-feira, 7 de março de 2008

0075) As quatro etapas da vida (18.6.2003)



(minha mãe)

Na primeira etapa da nossa vida, do nascimento até os vinte e poucos anos, somos Filhos dos Nossos Pais. São eles que nos sustentam, nos formatam, nos ensinam o básico do básico, nos preparam para as batalhas do mundo. Ao longo disso, também nos massacram, nos reprimem, entulham nossa mente com advertências terríveis, sufocam nossa iniciativa com ordens, regras, proibições. Chega uma idade em que tudo que a gente quer é cair fora dali, ir morar fora, cometer os próprios erros, sem ninguém nos explicando o tempo todo como evitar uma topada. Aí a gente vai embora, topa até não poder mais, e acaba casando.

Aí começa a segunda etapa: crianças aparecem, e nos tornamos os Pais dos Nossos Filhos. Começamos a ver o mesmo filme, só que agora estamos do outro lado. Somos nós que começamos a dar duro para alimentar, cuidar, prover. Chega a nossa vez de negar o brinquedo, de mandar pentear o cabelo, de obrigar a tomar sopa, de ralhar, de proibir. E também é a nossa vez de pôr no colo, acarinhar, ensinar a ler (tem coisa mais bonita do que um filho lendo, uma filha escrevendo?). Mas a lei do mundo é de ferro. Eles crescem. Sentem-se sufocados. O dedão começa a coçar-lhes, pedindo-lhes a chance de sair de mundo afora, dando as próprias topadas. Adeus!

Pensamos que o filme acabou, mas quando nos viramos de lado, avistamos quem? Eles, nossos pais, que agora estão velhinhos e meio escangalhados pelo catabis da vida. As crianças sumiram, não precisam mais de nós, mas aqui estão estas crianças enrugadas, de cabelos brancos, já batendo biela e precisando de uma supervisão técnica. E nessa terceira fase, por volta dos quarenta, viramos Pais dos Nossos Pais. É nossa vez de proibir coisas (“Papai, largue esse cigarro agora mesmo, onde já se viu”), de dar ordens (“Pois pode ir trocar de roupa que a senhora vai pro médico é agora”). Velamos as suas febres, aturamos seus achaques, pagamos agora em paciência a paciência que velou tantas noites (só agora reconhecemos a cena) à nossa cabeceira.

E eles se vão. Tantos outros estão a ir-se que começamos a pensar se um dia não nos iremos nós também. E na curva vagarosa dos setenta percebemos que nos cansamos um pouco: criamos os filhos, cuidamos dos pais, será que a vida é só trabalho? Será que ninguém vê que a gente não é de ferro, que a gente se cansa, que a pessoa se estressa? E aí, por uma dessas simetrias que parecem desenhadas por mão divina, os papéis mais uma vez se invertem. E viramos os Filhos dos Nossos Filhos. Tudo que demos voltamos a receber. “Vivendo e aprendendo”, diz a sabedoria popular. E ensinando também. Se a vida se limitasse só a aprender, ou só a ensinar, seria de um egoísmo insuportável. Recebemos, e passamos adiante. A melhor maneira de pagar um favor, às vezes, não é devolvê-lo, é passá-lo adiante. Pagar, mas não a quem nos deu, e sim a quem esteja precisando. Se a vida não ensinar isso, não ensinou nada.