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domingo, 30 de novembro de 2014

3672) O enigma da Esfinge (30.11.2014)



Todo mundo conhece o enigma que a Esfinge da mitologia grega propunha aos viajantes: “Qual o animal que de manhã caminha com quatro patas, ao meio-dia com duas, e com três quando anoitece?”.  Somente Édipo resolveu a charada, dizendo: “É o homem, que engatinha quando criança, ou seja, no amanhecer da vida, depois anda com duas pernas quando adulto, e quando velho se apóia num bastão”. 

Os comentaristas dos textos clássicos observaram vários aspectos sutis dessa lenda.  Não sei se observaram que a aparência física da Esfinge (busto de mulher, asas de águia, corpo de leão, cauda de serpente) induzia os desafiantes a imaginar um “animal” igualmente extraordinário e híbrido, quando na verdade a resposta era bem simples – o animal era ele próprio, o Homem.  Isto pode servir de metáfora à literatura fantástica, que nos propõe enigmas bizarros que, bem examinados, têm sempre como resposta o Homem, o ser humano que escreve, publica e lê essas histórias.  Somos nós, humilde e gloriosamente, o princípio e o fim de toda literatura.

Um segundo aspecto é que o enigma é apresentado no contexto da história de Édipo, que é inteligente o bastante para decifrar a charada da Esfinge mas não a sua própria história.  Édipo (que, sem o saber, matou o pai e casou com a própria mãe) se vê diante de um problema (o misterioso indivíduo cujos pecados causaram a peste que assola Tebas) e quando finalmente resolve encará-lo descobre que a resposta é ele mesmo.  O homem é ele, ele é o homem que provocou aquilo tudo.

Eu arriscaria uma terceira interpretação, desta vez de caráter ciência-ficcional. O animal de quatro patas exprime, na manhã da História, a origem animal do ser humano, o fato de que, como os outros bichos, ele começou se arrastando de quatro sobre a Terra. Evoluiu, ganhou postura ereta, destacou-se entre os primatas. Tornou-se o que é.  E agora estamos entrando no terceiro estágio, o estágio da “terceira perna”, quando pela primeira vez surge, em nossa evolução biológica, a presença de próteses, de complementos artificiais, de partes mecânicas. O homem torna-se ciborgue, torna-se um híbrido entre o biológico e o mecânico (ou o eletrônico).  Édipo, o Édipo de Sófocles, poderia dizer: “Em seu terceiro estágio, o homem terá o apoio de tecnologias artificiais extra-corpo, com as quais nunca tinha contado, mas esse elemento estranho à sua natureza biológica virá para ficar. Sem ele, o homem não conseguirá mais caminhar sozinho; sem ele, será incapaz de viver, e apesar de num primeiro momento julgar-se superior ao que fora ao meio-dia, a presença dessa muleta comprova apenas que ele está vivendo seu estágio final”.




terça-feira, 12 de abril de 2011

2528) O Morto Agradecido (12.4.2011)




Era uma vez um rapaz que, numa época de guerra e de fome, foi embora de casa para procurar trabalho. Passou por perigos e aventuras. Um dia, quando se aproximava de um povoado, viu um corpo caído na beira da estrada. Era um homem, vítima dos assaltantes, que parecia ter morrido há várias horas e continuava ali. Como pertinho havia uma fonte, o rapaz parou para beber água e descansar. Demorou mais de uma hora, e durante aquele tempo passaram dezenas de pessoas que paravam, iam olhar o cadáver, e seguiam caminho. 

O rapaz começou a propor a algumas delas que enterrassem o morto, mas todas diziam: “Pra quê? Já está morto mesmo...” Quando se decidiu a seguir caminho, o rapaz pegou um pedaço de madeira, cavou um buraco, colocou o morto lá dentro e cobriu com terra, fazendo depois uma cruz rústica com dois galhos de árvore.

Algum tempo depois, o rapaz se envolveu em um conflito, foi preso e ficou a ponto de ser enforcado. Quando parecia estar sem saída, apareceu um homem que magicamente conseguiu tirá-lo daquele aperto e levá-lo embora. Quando o rapaz agradeceu a intervenção, e perguntou ao salvador quem era ele, o homem disse: “Sou aquele que ninguém quis ajudar depois de morto, e só você se importou”. E desaparece.

A figura do Morto Agradecido está presente em muitos folclores; gerou, entre outros efeitos colaterais, o nome da banda californiana Grateful Dead. (Ao que consta, Jerry Garcia escolheu o nome aleatoriamente, como era hábito na Contracultura, abrindo um livro ao acaso.) 

Stith Thompson (The Folktale, 1977) observa que no Livro de Tobias, no Velho Testamento, este tema reaparece, sendo que o Morto Agradecido é substituído por um anjo. A história tem uma variante em que o Morto pede, em troca de sua ajuda, metade de tudo que o rapaz ganhar; quando ele se casa, o Morto sugere que a noiva seja serrada em duas (o que não chega a ser feito). Outras variantes (um duelo para ganhar a noiva, etc.) foram se juntando com o correr dos séculos.

Deixando de lado as variantes colaterais, o núcleo da história (o morto, o sepultamento, a aparição misteriosa) se mantém intacto em centenas de histórias na Ásia, na Europa e na América. 

Por um lado, a ação do rapaz serve como um termômetro de humanidade. O mundo pode estar devastado pela peste ou pela guerra, mas enquanto houver alguém capaz de sepultar os mortos existe a esperança de um retorno à normalidade, à convivência humana. 

Por outro lado, sepultar um morto que está abandonado por todos é praticar uma boa ação sem esperança de retorno ou pagamento. Quando ajudamos um vivo, há sempre a expectativa, mesmo inconsciente, de que um dia aquele indivíduo irá se lembrar de nossa ajuda e retribuí-la. 

Ajudar um morto, contudo, é uma ajuda “a fundo perdido”, pois o sujeito sequer sabe que está sendo ajudado. O aparecimento sobrenatural do Morto Agradecido é uma compensação simbólica por esse gesto de altruísmo.





terça-feira, 25 de maio de 2010

2072) Os ideogramas mitológicos (29.10.2009)



A história das religiões e das mitologias pode ser vista como um alfabeto de símbolos, os quais em si mesmos já são complexos, e quando se articulam uns aos outros geram possibilidades infinitas de interpretação. Um símbolo mitológico não é algo simples e uno como uma letra do nosso alfabeto, que só significa a si mesma. Seria mais parecido com um ideograma japonês, que é um desenho composto de desenhos menores, cada qual significando uma coisa diferente, e o sentido geral do ideograma é maior que a soma dos sentidos isolados de cada um. O exemplo clássico, muito citado nos manuais, é o do ideograma que significa “vermelho”, o qual é composto de quatro ideogramas menores que indicam “rosa”, “cereja”, “ferrugem” e “flamingo”. Vendo estes quatro ideogramas justapostos, todos eles sugerindo imagens que incluem a cor vermelha, podemos deduzir o significado geral do conjunto.

Indagado sobre o título de seu romance O Nome da Rosa, visto que nenhuma rosa é mencionada com destaque no livro inteiro, Umberto Eco ponderou que a Rosa é um símbolo universal, que pode significar a vida, o renascimento, a mulher, a paixão, a efemeridade, a beleza... É uma imagem com muitas facetas, e cada uma delas poderia ser associada ou contrastada àquela narrativa de crimes, mosteiros, livros clássicos, ascetismo, luxúria, transcendência espiritual e morte. Esta é a função de um símbolo: poder ser lido de formas diferentes, quando justaposto a coisas diferentes ou enxertado em contextos diferentes. Alguém dirá: “Ora, então qualquer coisa pode ser símbolo”, e eu concordo. Um ferro-de-engomar pode ser um símbolo, uma jaca pode ser um símbolo, um acento circunflexo, um cadarço de tênis, uma rolha de garrafa, uma verruga, um cágado. O que acontece é que, por motivos variados, alguns símbolos produzem leituras mais ricas e mais complexas do que outros.

O mesmo se dá com formas geométricas, que se prestam a mil associações. Um triângulo pode ser Deus: por ser uma figura de três lados ou três angulos, representa a Santíssima Trindade. Também pode ser uma imagem erótica – um triângulo com a ponta para baixo representa (pelo menos pra mim) o púbis feminino. Pode ser um símbolo do plano, da superfície, por ser a menor figura possível com apenas duas dimensões. Pode ser um símbolo do Infinito, se o virmos como uma verticalização do ponto-de-fuga de um desenho em perspectiva: a base é onde estamos, a ponta é o horizonte remoto para onde parecem convergir as paralelas. E assim por diante.

O que a linguagem poética, iconográfica, etc. tem feito é promover combinações diferentes desses materiais. Osman Lins utilizou A Espiral e O Quadrado como base para seu livro Avalovara. Que obras (de qualquer tipo) resultariam, por exemplo, da junção entre As Asas e O Quadrado? Ou entre O Labirinto e A Nuvem? Ou entre O Relógio, A Esfera e O Crocodilo? As possibilidades, como sempre, são infinitas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

2004) Orfeu em Solaris (11.8.2009)



(Orfeu)

No filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, a jornada de Kris Kelvin é de certa forma uma jornada de Orfeu às avessas. Orfeu é o herói grego que penetrou no reino dos infernos para resgatar sua amada Eurídice e trazê-la de volta à vida. O deus dos infernos, Hades, atende seu pedido e diz que ele pode retornar à Terra, mas adverte que se durante o trajeto ele olhar para trás perderá Eurídice para sempre. Ora, em qualquer relato mitológico as proibições são feitas para serem desobedecidas. Orfeu, a certa altura da caminhada, começa a imaginar que Hades está trapaceando, e que ele na verdade está voltando sozinho para casa. Olha por cima do ombro... e vê Eurídice, que o seguia, desaparecer para sempre. (Não, leitor, não corra a consultar os gregos. Estou contando a versão que circula hoje. No original, vai ver que é diferente.)

Em Solaris (tanto no filme quanto no romance de Stanislaw Lem) o protagonista viaja para o planeta em busca de conhecimento. Na época (imprecisa) em que transcorre a história, já faz cerca de um século que a Humanidade descobriu o planeta Solaris, coberto por um oceano que já deu demonstrações de ser uma criatura pensante. (Imaginem um cérebro maior que os oceanos Atlântico e Pacífico somados.) Mas o contato tem sido impossível, porque o Oceano não dá mostras de perceber a presença dos humanos explorando sua superfície.

Kris Kelvin tem um nome que evoca tanto a religião (Cristo) quanto a ciência (Lord Kelvin, o físico britânico). Ele vai para o planeta em busca do conhecimento; quer decifrar o enigma de Solaris. Chegando lá, encontra na estação planetária uma réplica perfeita de sua falecida esposa, Harey, que se suicidou aos 19 anos. Fascinado mas cético, Kris a examina e descobre que ela não é um ser humano, e sim uma formação de neutrinos destinada a reproduzir (para os cinco sentidos) a pessoa que ele guardava na memória. A mulher parece ter amnésia: não sabe que morreu, não sabe como foi parar ali, sabe apenas que o ama e que quer ficar ao lado dele.

Kris é um Orfeu que foi parar no inferno, o Inferno dos Cientistas, que não é o dos tormentos físicos, mas o da incapacidade de compreender algo; e ali reencontra sua amada. Ele sabe que não é ela. Mas a réplica é tão perfeita que ele volta a se apaixonar. Os cientistas da Estação já chegaram à conclusão de que o Oceano é capaz de perscrutar seus inconscientes e materializar algo que esteja lá dentro, algo que pareça ser mais importante do que todo o resto. Eles se propõem a construir um desestabilizador de neutrinos, o que teria o poder de dissolver “Harey” em partículas subatômicas. E Kris acaba perdendo novamente sua amada, porque duvida, porque olha para trás. Ele sabe que ela não é de verdade, e permite que seja destruída. Prefere o conhecimento, mesmo precário, à ilusão do amor. Prefere destruir a cópia pirata, mesmo sabendo que o original foi perdido para sempre.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

1916) Eldorado e Juventa (30.4.2009)



Eram dois os mitos principais que atraíam conquistadores portugueses e espanhóis para as florestas, para os platôs, os cerrados, as cordilheiras e os sertões da América recém-descoberta. O primeiro era o Eldorado, a cidade fabulosa cujas ruas eram calçadas com pedras de ouro. O segundo era a Fonte de Juventa, onde brotava uma água que dava vida e juventude eternas a quem a bebesse. As ramificações literárias dessas duas idéias encheriam uma biblioteca estadual. Claro que nenhuma das duas nasceu com a América, e nas mitologias grega, nórdica, etc. encontramos suas versões beta. Mas ressurgiram como mitos tropicais da era do descobrimento. E se fincaram em nossa memória cultural.

Estão na literatura por toda parte. O País da Cocanha de Voltaire, em Cândido e o País de São Saruê de Manoel Camilo dos Santos, em seu cordel clássico, são versões diferentes do mito da riqueza a-dar-com-o-pé, dos torrões de ouro espalhados pelo chão, da fortuna banalizada porque inesgotável – mas que voltaria a ser fortuna se trazida para uma Europa depauperada pelos marajás da monarquia. “O Imortal” de Jorge Luís Borges fala de um rio cujas águas dão a imortalidade a quem as beba, e restituem a morte a quem conseguir reencontrá-las e beber de novo. É o mesmo prodígio proposto pelo suco do pajé em “O Imortal” de Machado de Assis, que foi visto pela crítica como uma sátira à homeopatia (“similia similibus curantur”, ou seja, um pouco mais daquilo mesmo produz o efeito contrário ao efeito inicial), e depois por Coelho Neto em Imortalidade (1925).

Uma cidade com ruas calçadas e ouro. Uma fonte cujas águas dão a juventude eterna. Eram mitos independentes, mas complementares. Porque - de que vale um sem o outro? De que valeria a riqueza inesgotável para um conquistador cinquentão, consumido pelas batalhas, enfraquecido pelo escorbuto e pelas doenças venéreas? A riqueza não traz a saúde nem mesmo hoje, como todo o nosso aparto high-tech, quando mais no século 16. Por outro lado, de que valeria a juventude eterna aliada à pobreza, à raiz plebéia que impedia a ascensão social num mundo de aristocratas? Ser miserável para sempre não é um bom prospecto, e mesmo que indivíduos mais aguerridos pudessem usar essa prazo-de-validade-indeterminado para tornarem-se ricos, a maioria preferiria desfrutar dos seus ilimitados vinte-anos erodindo uma ilimitada fortuna.

C. G. Jung afirmou que quando os alquimistas medievais buscavam a Pedra Filosofal, capaz de transformar os metais inferiores em ouro, na verdade estavam usando uma linguagem metafórica. Os anos e anos de trabalho obscuro, paciente, longe dos olhos do mundo, vencendo a preguiça, o desânimo e as tentações, não produziam um bloco de ouro, e sim uma alma humana incapaz de deixar-se corroer ou corromper pelo tempo e pela vida. O Eldorado, a Fonte de Juventa e a Pedra Filosofal são metáforas narrativas de uma intuição abstrata: eternidade é riqueza, e vice-versa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

1875) Ronaldo Lero (13.3.2009)



Uma das melhores coisas do futebol é o fato de ser ele um pequeno laboratório de experiências mitológicas cujo arco de começo-meio-fim se dá em poucas décadas ou mesmo poucos anos, ao contrário das mitologias da História, as quais geralmente precisam de longos prazos de consolidação. Um jogador bem sucedido tem em média vinte anos de atividade, digamos dos 15 aos 35 anos. Nesse período, criam-se os grandes mitos do esporte, as grandes lendas, os grandes episódios, os momentos únicos (conquanto banais) que nos dão o orgulho de um dia dizer aos netos: “Meninos, eu vi!”

Domingo passado eu estava em São Paulo na tarde do jogo Corinthians x Palmeiras que marcou a estreia de Ronaldo Fenômeno diante da torcida corintiana, mesmo que num desses jogos canhestramente desviados para uma cidade interiorana qualquer – no caso, Presidente Prudente. O Palmeiras ganhava de 1x0. Ronaldo entrou, com aquela barriguinha de peladeiro de fim de semana, mas fez umas duas jogadas de arregalar os olhos, e aos 47 do segundo tempo enfiou um gol de cabeça.

Eu estava ao computador, trabalhando, nem me lembrava desse jogo; mas o clamor que se ergueu na capital paulistana me fez correr à janela com a impressão de que de repente estávamos numa Copa do Mundo e tinha sido gol da Seleção Brasileira. Pistolas-de-7-tiros pipocavam, havia um alarido unânime nos quatro pontos cardeais, e na sacada de um prédio vizinho surgiu um cidadão mais gordo do que o ídolo, esgoelando-se: “Ronaaaaaaldoooo!” E só então eu percebi o que tinha acontecido e liguei a TV, ainda a tempo de vê-lo, sacudindo o alambrado, todos os dentes de fora, eufórico como um menino que faz seu primeiro gol.

Claro que desde então não há outro assunto no futebol brasileiro. Os momentos históricos que Ronaldo já nos presenteou dariam um livro de crônicas e dois álbuns de fotos. Lembro-me de ter visto ao vivo, numa tarde de meio de semana, o momento em que seu joelho estourou num jogo da Inter, durante uma arrancada rumo ao gol, projetando-se para fora como se fosse uma miniatura de Alien, o Oitavo Passageiro. Vi os gols fenomenais, vi o misterioso amarelão da Copa de 98, vi a ressurreição brilhante na Copa de 2002... E agora vi o gol pelo Corinthians, que talvez fique por isso mesmo, mas bastaram esse gol e essa tarde para nos dar de novo aquela vertigem do “impossível acontece” que somente os grandes craques nos proporcionam.

Jornais italianos ironizaram: “A enésima ressurreição de Ronaldo”. Podem rir, “compagni”! Vossas redes não perdem por esperar. Só quem ressuscita “n” vezes são os mitos da estirpe do Rei Artur, de Lampião, de Ulisses. Dados dez vezes por mortos, erguem-se flamejantes e invulneráveis do lugar de onde menos se espera. Ronaldo está gordo, rico, vive na balada, bebe, fuma, falta ao treino. Mas o Mito nele não se esgotou, e a História ainda há de se curvar, outras e outras vezes, à sua presença, e seguirá na direção em que ele for.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

1725) Machado: “O Anel de Polícrates” (21.9.2008)





(Machado, por Sergio Leo)

Este conto de Machado (em Papéis Avulsos, 1882) inspira-se na lenda de Polícrates, tirano da ilha grega de Samos. Cumulado de favores pela sorte, Polícrates temeu que o Destino lhe reservasse algum castigo. Um assessor o aconselhou a fazer um sacrifício, desfazendo-se de um bem precioso. Ele atirou ao mar um anel que prezava muito; no dia seguinte, o cozinheiro do palácio abriu o ventre de um peixe, encontrou o anel, e o devolveu ao rei. 

É a versão benigna da tragédia grega. Não se pode fugir ao destino, e mesmo a sorte, quando insistente, parece uma maldição.

Isak Dinesen retoma a lenda (em “O Peixe”, no livro Contos de Inverno) para romancear a história do rei Erik da Dinamarca, que acha no ventre de um peixe um anel de pedra azul. Alguém reconhece nele o anel de uma dama da corte, Ingeborg, cujos olhos eram da mesma cor. O rei diz: 

– Quando as mulheres formosas usam jóias, procuram harmonizá-las com alguma parte do seu rosto ou do seu corpo. Pérolas exprimem a beleza do seu colo ou dos seus seios; rubis e granadas evocam seus lábios, suas unhas, seus mamilos. Você me diz, então, que esta pedra é igual aos olhos dessa dama?... 

A crônica se encerra dizendo: “Srig Andersen matou o rei Erik por vingança, depois que este seduziu sua esposa, Ingeborg”.

Freud comenta Polícrates no ensaio O Estranho (Das Unheimlich), observando que uma sorte excessiva, ou a sistemática realização de todos os desejos, não são algo para se desejar. Diz que o rei do Egito afastou-se de Polícrates horrorizado, ao ver que todos os desejos do amigo eram imediatamente satisfeitos, afirmando que “também o homem feliz tem que temer a inveja dos deuses”. 

Freud vê nessa crença uma manifestação da crença na onipotência dos pensamentos, como se cada desejo intenso que experimentamos fosse imediatamente convertido em realidade.

Machado usa o anel para ilustrar com ironia sua teoria pessoal dos memes, para mim uma visão satírica da vida cultural do Rio, com todo mundo copiando, plagiando, imitando e apropriando-se de idéias alheias. Desenvolve o mesmo tema em “Evolução” (Relíquias de Casa Velha, 1906): o narrador diz uma frase a um conhecido, e no correr dos anos vê o outro repeti-la com pequenas variantes, assenhoreando-se dela pouco a pouco.  

O protagonista de “O Anel de Polícrates", Xavier, é um típico personagem machadiano: o Sonhador Pródigo, o indivíduo com talento mas sem foco, que vive espalhando idéias, iniciando projetos que não leva a cabo, concebendo planos mirabolantes que nunca dão em nada. Machado reverte a alegoria da sorte, contida na lenda grega, usando o anel (a frase) como símbolo do caiporismo de Xavier. Inventor da frase, ele a ouve nos lábios deste e daquele mas não consegue memorizá-la de novo, apossar-se dela. 

A frase é anel e ao mesmo tempo um peixe escorregadio ou ave arisca que sempre lhe foge: “Quando ele supunha pôr a mão em cima da idéia, ela batia as asas, plás, plás, plás, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho”.





domingo, 31 de janeiro de 2010

1593) O Cérbero (20.4.2008)




Conta a mitologia grega que à porta do Inferno havia um gigantesco cão de guarda, o famoso Cérbero, cão de três cabeças prontas a dilacerar qualquer incauto. “Mas pra quê?” pensava eu. “Quem diabo vai querer entrar no Inferno?” Na verdade, Cérbero estava ali para evitar que os condenados ao fogo eterno fugissem. Era um cão-de-guarda ao contrário dos que temos aqui – não guardava a entrada, guardava a saída. Mesmo assim, também cumpria a função oposta, porque somente as almas dos condenados poderiam entrar no reino de Hades. Pessoas vivas não – daí o grave incidente diplomático ocorrido quando Orfeu apareceu por lá querendo trazer de volta sua amada Eurídice. E quando Hércules chegou para levar o próprio Cérbero consigo, cumprindo o último dos seus Doze Trabalhos.

Acho que a lenda grega morre aí, mas pretendo enriquecê-la noutra direção. Por que motivo o cão se chama Cérbero? Respondo: porque ele representa o nosso Cérebro, a nossa mente pensante, a nossa consciência. Exatamente por isto ele é figurado com três cabeças (em diferentes versões da lenda, números muito maiores, que chegam até a cem). É o excesso de proteção, de controle, de censura. A função ditatorial do nosso Super-Ego ou que nome lhe queiram dar – a função controladora que nos impede de fazer bobagens mais sérias e de praticar crimes, mas ao mesmo tempo nos proíbe um comportamento mais relaxado, mais intuitivo, mais espontâneo. Toda vez que você vir aquele sujeito todo certinho, todo tenso, todo bem comportado e impecavelmente limpo, todo politicamente correto, aquele cara que na hora de pagar a conta vai até a última casa decimal e paga trinta e dois reais e sessenta e sete centavos – não duvide, amigo: é um prisioneiro de Cérbero, um prisioneiro de sua própria mente controladora.

E por qual estatuto mitológico ele é colocado justamente como guardião da saída do Inferno? A explicação mais lógica que me ocorre é que o Inferno protegido por esse cérebro não é um Inferno externo a nós, e sim interno a nós, um inferno aqui dentro. Como dizia o poeta Gilberto Gil: “Teu inferno é aqui”. O Inferno é o Inconsciente, é o lugar para onde arremessamos tudo que não presta, tudo que nos inquieta e perturba, tudo que é uma ameaça à ordem, à limpeza e à disciplina. O cérebro está ali justamente para evitar que esses pensamentos mal comportados se evadam do porão e venham perturbar o chá-das-cinco que nossa “persona” pública toma na sala de visitas, recebendo as autoridades.

Todas as vezes que tentamos acessar nosso Inconsciente (rastreando um ato falho, dissecando uma neurose, confrontando um trauma daquele bem brabos, ou meramente analisando um sonho), o Cérebro de não-sei-quantas-cabeças aparece rosnando seu recado pitbull: “Pra trás!” rosna ele. “Aqui, não! Aqui só tem o que não presta!” E recuamos, temerosos. Talvez menos com medo das 100 cabeças do Cão do que com medo do nosso verdadeiro Rosto, que estamos a ponto de enxergar.




quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

1409) As estrebarias de Augias (19.9.2007)





(André Breton)

Num dos Manifestos do Surrealismo, André Breton aconselhava aos poetas que escrevessem, escrevessem muito, escrevessem qualquer coisa, qualquer besteira, não importa o quê; escrevessem tudo que lhes viesse à cabeça, sem prejulgar, sem analisar, sem escolher. Para quê? “Para limpar as estrebarias de Augias”, dizia ele.

Breton achava que nossa mente está bloqueada pelo excesso de educação, de disciplina, de leitura de textos alheios. Quando começamos a escrever (a criar, no sentido mais amplo) estamos apenas repetindo o que já vimos, reciclando clichês, copiando lugares-comuns. É preciso jogar todo este lixo fora, escrever abundantemente, copiosamente, irresponsavelmente, para que um dia, quem sabe, a nossa própria voz comece a se fazer ouvir.

A metáfora usada por Breton diz respeito a um dos Doze Trabalhos de Hércules. O herói foi encarregado de limpar as estrebarias do Rei Augias, que tinha o maior rebanho de gado da Grécia, e cujos estábulos jamais tinham sido limpos. Havia ali décadas e décadas de cocô de gado acumulado, cristalizado, transformado numa crosta com metros de espessura, mais dura do que basalto vulcânico. E Hércules tinha que limpar aquilo tudo em apenas um dia.

Conta-se que este trabalho foi executado mas cancelado pelo Rei Euristeu (o tal rei que obrigou Hércules aos doze trabalhos). Por que? Porque ao que parece os trabalhos visavam testar a força e a coragem do herói, e neste Hércules usou a inteligência.

Quando ele chegou lá nos estábulos e viu o tamanho do problema, teve uma idéia brilhante. Em vez de pegar uma marreta e sair quebrando, ele andou alguns quilômetros e construiu com pedras uma represa, desviando o curso de dois rios próximos. Somados, os rios produziram uma enxurrada irresistível que passou por dentro dos estábulos, corroendo, minando, desagregando, esfarelando, desconjuntando toda aquela placa tectônica de cocô-de-rocha. Depois de um dia inteiro de enxurrada, os estábulos estavam mais limpos do que os salões do palácio de Euristeu.

Breton era um freudiano de primeira hora e sabia do que estava falando. As estrebarias são um símbolo de todo o dejeto mental que se acumula no nosso inconsciente, seja através das leituras, seja através dos nossos complexos, traumas e outros processos. A cabeça está suja por dentro. Há um acúmulo gigantesco de problemas não-resolvidos, de excreções que não foram jogadas fora e estão bloqueando o fluxo das emoções e das idéias. É preciso desviar para ali um fluxo irresistível de energia mental criadora – que para Breton era a “escrita automática” – para diluir, esfarelar e expulsar todos aqueles resíduos cristalizados.

O que faltou a Breton dizer, talvez, foi:

“Escreva – mas não publique. Isso aí é seu dever-de-casa terapêutico. Ainda não é literatura. Literatura é só depois que a água estiver correndo limpa, e sua voz pessoal puder se fazer ouvir. Não publique agora. Tem tempo.”






sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1361) Os tesouros não merecidos (25.7.2007)



Nos contos fantásticos que envolvem algum tipo de comércio com o sobrenatural (lâmpada mágica, três pedidos, etc.) existe uma lei não-escrita segundo a qual tudo que se pede com facilidade acaba custando um preço inesperado. Em “O demônio da garrafa” de Robert Louis Stevenson, o sujeito pede à garrafa mágica uma mansão; logo vem a saber da morte de um tio, que lhe deixa de herança exatamente o dinheiro necessário para construí-la. Em “A pata do macaco” de W. W. Jacobs, o velho casal pede à relíquia miraculosa as 200 libras que faltam para pagar a hipoteca da casa; recebem-na como indenização trabalhista pelo acidente fatal que seu filho único sofre no dia seguinte. Existe uma lógica cruel no atendimento a esses pedidos ingênuos de pessoas que acreditam que a riqueza é grátis. Ora, como dizia um célebre economista norte-americano, “almoço de graça não existe”. Tudo cobra um preço, mais cedo ou mais tarde.

Outro lugar comum romanesco é a herança inesperada. Foi tão usado que virou anátema – o sujeito que usar isso hoje cai em descrédito, e nem estou me referindo à literatura, falo mesmo em novelas de TV. Fulana é uma viúva jovem, honesta, sofredora, que dá duro no batente para criar três filhos. Faltando dez capítulos para o fim da novela, ela recebe a notícia de que morreu uma tia-avó dela no Mato Grosso e lhe deixou de herança um milhão de reais. Surpresas desse tipo foram tão usadas para resolver problemas que perderam a credibilidade. Mais sábios são os criadores folclóricos, porque num conto-de-fadas não há nenhuma herança que não venha com uma maldição (“o tesouro é seu, mas você não pode se casar”) ou com uma condição misteriosa e geradora de problemas futuros (“o castelo tem 99 quartos, mas há um que você não pode abrir”).

A sabedoria popular desconfia dos tesouros não merecidos, quer dizer, daqueles que são conquistados magicamente, que caem do céu em nosso colo, que chegam às nossas mãos sem nenhum dispêndio de sangue, suor e lágrimas. Nos contos populares coexistem realidade e fantasia, por isso há tesouros que o sujeito acha simplesmente dando uma topada numa pedra (a fantasia, o desejo infantil da riqueza fácil) mas no pacote vem sempre uma ameaça ou uma punição.

Maldo eu que seja isto também uma reação freudiana (êpa!) das populações camponesas medievais, em cujo seio essas lendas brotaram, a instituições que eles viam com estranhamento, como a da herança. Naquele tempo feudal, em que os servos nada tinham de seu, devia ser para eles algo fantástico o modo como a morte de um nobre transferia magicamente para um parente distante seus títulos, seus brasões, seus castelos, seus vinhedos, seus servos. Uma casa nobre em ruínas e farrapos ressurgia para a riqueza devido à morte de um parente distante. Uma fortuna às vezes imerecida, geradora de contos de advertência, sinais de perigo tentando restaurar o equilíbrio de um mundo abalado por esses caprichos divinos.

sábado, 12 de setembro de 2009

1260) A diluição dionisíaca (28.3.2007)




(Dionisos)

Os filósofos descreveram estes dois aspectos do ser humano. 

O lado apolíneo, que vem do deus Apolo, é o lado do equilíbrio, da harmonia, das proporções corretas, da beleza obtida através da razão, do auto-domínio. 

O lado dionisíaco vem de Dionisos, ou Baco, que é o deus da farra. É o nosso lado exagerado, sensual, contraditório, voltado para a satisfação dos sentidos, das emoções, das paixões primitivas e corporais. 

O lado apolíneo nos conduz para as regiões mais elevadas da arte, da ciência e da filosofia; o lado dionisíaco nos conduz ao sexo, às drogas e ao rock-and-roll. 

Todo mundo tem algo de ambos, todo mundo oscila entre o predomínio de um ou do outro. Em alguns tipos humanos um deles prevalece; os nossos clichês e preconceitos nacionais se cristalizam muitas vezes em torno desses aspectos. Aos nossos olhos, um sueco ou um alemão são invariavelmente apolíneos; um jamaicano ou um camaronês têm que ser dionisíacos.

O Brasil é um quebra-cabeças em forma de colcha-de-retalhos, mas quem nos vê de longe, da Europa, digamos, tende a nos achar dionisíacos. Para eles, somos um povo eternamente voltado para a festa, a comemoração ruidosa, o prazer, a sensualidade, o hedonismo. E de fato, basta olhar em volta para ver o quanto isto está presente em nossa vida. E o quanto é justamente este aspecto que irrita e impacienta muitos dos nossos intelectuais, que vêem o povo pulando carnaval ou dançando axé-music na praça e dizem: “Por isso que o Brasil não vai pra frente!”

Esta é uma questão interessante, porque o dionismo (valha a palavra nova) não é bom nem mau, em si, é apenas uma possibilidade do ser, tanto quanto o seu reverso, o apolismo. 

Se me perguntassem a proporção ideal entre os dois eu diria que precisamos ser 51% apolíneos e 49% dionisíacos. Por que? Porque para mim existe um princípio fundamental na natureza, inclusive a natureza da alma humana, que é o equilíbrio. Sem equilíbrio, a coisa desanda; e o equilíbrio, virtude suprema, é uma característica apolínea.

Para esta questão, vale a lei do mel e da farinha: quando temos muito de um, precisamos equilibrar as coisas adicionando o outro. Quando vivemos num ambiente basicamente apolíneo, a tendência é irmos nos tornando cada vez mais sérios, cada vez mais formais, cada vez mais civilizadamente escandinavos. Aí é preciso que Dionisos entre pela janela para bagunçar as coisas, para instaurar por alguns momentos o Reino da Gréia e da Bagunça. 

Por outro lado, quando o mundo está bagunçado demais, festivo demais, permissivo e hedonista demais, e principalmente quando tem grupos econômicos fortíssimos impondo esta situação porque extraem dela enormes lucros, é preciso a gente chamar Apolo e a voz da razão. Nem a ditadura, nem o caos. Equilíbrio acima de tudo, para que Apolo e Dionisos possam conviver pacificamente. Festa é bom, mas o ano letivo tem que começar em algum momento.






sexta-feira, 14 de agosto de 2009

1198) As oferendas ao Minotauro (14.1.2007)



Quando o filme Cazuza estava em cartaz, li num jornal a carta de um leitor perplexo diante do culto que, segundo ele, nossa sociedade prestava à figura de um jovem pelo simples fato de ele ter sido homossexual, ter usado drogas e ter morrido de Aids. "Será que não temos exemplos melhores para exibir aos nossos filhos?", perguntava o aflito missivista. Eu entendo essas preocupações, mas discordo do diagnóstico final. Cazuza não é um cais do porto, é um farol; não é um exemplo, é um alerta. O que se celebra em torno de Cazuza é o mesmo que se celebra em torno de um piloto como Ayrton Senna ou de um alpinista como Vitor Negrete: o sacrifício voluntário de uma vida jovem no altar de uma religião inexplicável.

Um dos mitos que cercam a figura do Minotauro de Creta diz que todos os anos a cidade de Atenas tinha que oferecer sete rapazes e sete moças para serem devorados pelo monstro. Este sacrifício parcial evitava que Atenas inteira fosse destruída por Creta, que era então militarmente superior. Algo parecido ocorre com os deuses-monstros que adoramos em nossa era tecnológica e industrial: a Guerra, a Droga, a Máquina, o Número. No centro de cada um deles existe um buraco-negro exercendo uma atração irresistível sobre quem se aproxima demais. Depois de ultrapassado um certo limite, não existe volta. E quem ousa aproximar-se desse limite são justamente alguns dos nossos jovens mais brilhantes, mais inquietos, mais corajosos, e, infelizmente, porque tais características muitas vezes insistem em vir juntas, mais imprudentes, mais autoconfiantes, mais egoistamente suicidas.

Sacrificamos jovens no altar da Guerra porque ela nos traz a ampliação de territórios, a humilhação dos inimigos, a garantia de uma paz temporária. Sacrificamos jovens à Droga porque ela nos garante o êxtase dos paraísos artificiais, e para que um milhão possam conviver com a droga e desfrutá-la vale a pena perder sete rapazes e sete moças por ano. Sacrificamo-los também à Máquina, porque para criá-la e domesticá-la é preciso haver cobaias que extraiam dela o máximo, expondo seu poder e seus limites, ainda que explodindo mais cedo ou mais tarde. Sacrificamo-los ao Número: porque precisamos de façanhas que robusteçam nossa auto-estima como povo: somos nós o povo que foi mais longe, o que fez mais rápido, o que tem mais força, o que acerta mais vezes.

Não sei o que responderiam os pais de Cazuza ou os de Senna se lhes fosse dado escolher que seus filhos vivessem vidas banais, felizes e pacatas até os 80 anos de idade. É uma dura escolha: é melhor ser um Mito, ou ser meramente feliz?. Todos os anos o Acaso sorteia os sete jovens com que pagaremos o tributo às forças que movem ou que inebriam nossa civilização. Por isto os admiramos: porque o destino de cada um nos mostra o umbral que não é possível cruzar vivo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

0829) O Saci e o Halloween (12.11.2005)


(o Saci Pererê, de Ziraldo)

O mês de outubro espalha pelos muros do Rio as pichações: “Halloween é o cacete!”. São os nacionalistas inconformados com mais esta moda norte-americana que invade nossas escolas, nossos shopping centers, nossas TVs. De fato, o Halloween, ou Dia das Bruxas, é uma coisa típica da cultura de língua inglesa, e só recentemente está botando as unhinhas de fora, doido para penetrar no belo mercado que a classe média brasileira representa. Depois dele, meu Deus, vamos importar o que mais? O Dia de Ação de Graças? O 4 de Julho?

Parece que o deputado Aldo Rebelo, comunista histórico e defensor do idioma, deu entrada num projeto de lei instituindo o Dia do Saci. Eis aí uma contra-ofensiva folclórica que teria divertido Monteiro Lobato! Se bem que este não tinha preconceito algum contra os EUA, pelo contrário: achava que tínhamos mesmo era que imitar o pragmatismo e a seriedade dos americanos, e não hesitou em fazer de Tom Mix, o Gato Félix e Shirley Temple personagens das histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Quem é mesmo contra os monstrinhos anglo-saxônicos é o presidente Hugo Chávez, que recentemente andou criticando a importação de hábitos norte-americanos na Venezuela, e o Halloween em particular, argumentando que isto faz parte da cultura americana: “uma cultura do terror, de instilar o medo nos outros países e em seu próprio povo”.

Devagar com o andor, Presidente Chávez. O culto ao medo, o culto aos monstros, aos seres sobrenaturais, não é uma invenção do Governo Bush. Está em todas as culturas, e está muitíssimo na nossa. Se quiséssemos produzir um Halloween tipicamente local, não precisaríamos fazer mais do que consultar a Geografia dos Mitos Brasileiros de Câmara Cascudo, obra tão fascinante e degustável quanto o Livro dos Seres Imaginários de Jorge Luís Borges.

O Halloween americano é uma festa onde se presta culto a esses seres. Nós, aqui no Brasil, não temos uma festa semelhante. Acreditamos em boitatá, mula-sem-cabeça, iara, boto, saci pererê, cramondongue e pé-de-garrafa, mas nunca organizamos essas crenças em torno de uma festa com data e rituais. E por um lado isto é bom, porque mantém essas crenças afastadas das manipulações de publicitários desocupados e comerciantes sem imaginação. Eu mesmo não gostaria de entrar num shopping no “Dia do Saci” e ver a imagem do Saci (ou de outro monstrinho merecedor de respeito) servindo de chamariz para vender tênis (“Compre um pé de Nike para seu saci, e leve o outro de graça!”), cachimbos, bonés ou sei lá o que. O Halloween é uma festa de celebração de rituais pagãos e de medos ancestrais, mas transformou-se numa evento comercial, movido pelo mais terrível medo do mundo capitalista: a Queda nas Vendas. O seu problema não é falar inglês, é falar em cifrões. O perigo que corremos não é perdermos a suposta pureza de nosso folclore, mas reafirmarmos nossa subserviência diante da máxima de que Tudo Pode Ser Vendido.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

0699) Deuses Americanos (15.6.2005)



Recomendo a quem gosta de literatura fantástica o romance de Neil Gaiman Deuses Americanos, lançado recentemente pela Conrad Editora. Gaiman é mais conhecido como roteirista da série de quadrinhos Sandman, mas de dez anos para cá tem publicados vários romances. Coraline, uma história de terror para crianças, é muito bom. Este American Gods também. A premissa do livro é que os antigos deuses e criaturas mitológicas européias se transportaram para a América do Norte durante a colonização, mas estão decadentes e sem poder. Eles andam pelas ruas, transformados em pessoas de carne e osso; têm uma enorme longevidade, mas podem morrer, tanto de morte-morrida quanto de morte-matada. E estão travando uma batalha feroz contra os Novos Deuses: os deuses da Mídia Ambiente, ou seja, da publicidade, do cinema, da TV, etc.

Gaiman é um escritor fluente e ótimo contador de histórias. Uma espécie de Stephen King sem a morbidez doentia que King muitas vezes tem, uma vontade de espremer até o fim o suco de terror e repulsa que uma cena pode fornecer. Gaiman oferece uma boa quantidade de imagens arrepiantes, mas concede apenas uma dúzia de linhas a elas, não mais, e segue em frente – o que me parece literariamente mais eficaz. O livro conta a história de Shadow, um sujeito que ao sair da prisão depois de uma pena leve por assalto vê sua vida familiar destruída e logo depois é contratado como guarda-costas de um sujeito que parece ter poderes sobrenaturais e está sendo perseguido por mafiosos igualmente estranhos.

A humanização dos deuses nórdicos, eslavos, africanos, etc. é um dos aspectos mais interessantes do livro, porque o autor consegue nos dar a idéia de que esses personagens têm poderes imensos e ao mesmo tempo são tão frágeis, complicados e indefesos quanto nós. Eles podem muita coisas que não podemos; mas não podem tudo. Eles também têm que “ir à luta”, têm que “batalhar pelo seu espaço”, etc. O mundo sobrenatural é tão competitivo quanto um escritório ou um mercado financeiro. Gaiman (que é inglês) tem um olho crítico muito arguto para certos aspectos da vida americana: os museus e atrações surrealistas de beira-de-estrada, a cidadezinha pacífica mas cheia de terrores sob a superfície ao estilo Twin Peaks, os golpes e falcatruas dos vigaristas profissionais. Tudo isto é misturado à narrativa sobrenatural com a mesma eficiência de um Tim Powers.

Cultura pop e mitologia milenar são duas galáxias em lenta colisão nos últimos cem anos da Literatura. São dois universos que à primeira vista não têm nada a ver um com o outro, mas que são gerados pelo mesmo impulso humano: o de fantasiar, criar um panteão imaginário de seres excepcionais, que nos servem de espelho, modelo, farol, alerta ou ameaça. O livro de Gaiman deveria interessar a quem gosta de ler sobre mitos. É o mesmo universo de Câmara Cascudo, Joseph Campbell, Miracea Eliade, J. G. Frazer, Umberto Eco (cultural medieval + cultura de massas).

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

0491) A indústria dos super-heróis (15.10.2004)



Como muitos garotos da minha classe social e da minha geração, passei grande parte da minha infância com o nariz enterrado em gibis de histórias-em-quadrinhos. Alguns eram inevitáveis: Superman, Batman, Mandrake, Fantasma. Outros eram menos conhecidos, como “C. B.” (“Crime Buster”, criado por Charles Biro). Ao mesmo tempo, movido pelo entusiasmo de todo mundo lá em casa pelo charadismo e pelas palavras cruzadas, eu devorava com aplicação livros e mais livros sobre Mitologia Grega, desde as aventuras dos personagens do Picapau Amarelo (O Minotauro, Os 12 Trabalhos de Hércules) até o Dicionário da Fábula de Chompré e a Enciclopédia Delta-Larousse.

Não relato isto por mera nostalgia, nem para me gabar da variedade de minhas leituras (e ainda precisa?), mas apenas para comprovar de novo o que vou dizer agora. A indústria cultural é o novo folclore. Aquilo que há 3 mil anos era produzido pelas pessoas em volta das fogueiras, em bate-papos na pracinha, ou em histórias mirabolantes passadas de boca-em-boca no zum-zum-zum das feiras e dos mercados, é hoje uma indústria que movimenta bilhões de dólares e envolve milhões de pessoas. Folclore profissional, remunerado. Criação industrial de mitologias.

Saem de campo Hércules, Ulisses, Perseu, Sansão, Thor e Siegfried, e entram os X-Men, o Homem Aranha, o Demolidor e o Spawn (além dos citados acima). O processo de criação desses tipos continua a ser semi-inconsciente (existe algo mais semi-inconsciente do que a indústria cultural?), feito às pressas, sem preocupação com verossimilhança ou qualidade. Se em nossa vida real precisamos de heróis, em nossa vida imaginária precisamos de super-heróis, de semideuses, só que agora eles têm de ser semideuses com a credibilidade avalizada pela genética, pela energia atômica, pela percepção extra-sensorial, e por outros pretextos que, aos olhos do leitor comum, não se distinguem muito da Magia.

Na cena inicial do filme Highlander (o que deu origem à série sobre espadachins imortais que se enfrentam ao longo dos séculos) vemos um ringue de luta de tele-catch, onde aqueles sujeitões musculosos e peludos se agarram uns aos outros e fingem que estão brigando. Um espectador afasta-se dali, e ao chegar à garagem é atacado por outro: são dois highlanders, e o que vemos em seguida é um duelo mortal, a sério, entre dois guerreiros pra valer. Esta seqüência inicial é a melhor de toda a série, e expressa muito bem esta dualidade entre heróis de mentira (o tele-catch) e heróis de verdade (os highlanders). Vistos daqui de fora, são os highlanders que são os heróis de mentira, os que sabemos que não existem mas que, encenando suas brigas de mentirinha, encarnam nossas aspirações de grandeza e coragem. A diferença é que o que antigamente era feito por um processo espontâneo, pessoal e descentralizado de criação de tipos e de histórias, hoje tem o suspeito perfil de uma indústria lucrativa e deliberada.

terça-feira, 1 de abril de 2008

0347) Os heróis esquizóides (30.4.2004)




Por que tantos heróis da cultura popular têm dupla identidade? Quando eu era garoto e lia quadrinhos, me parecia óbvio que fosse assim. Todos nós sabíamos que Clark Kent e Super-Homem eram a mesma pessoa; que Billy Batson se transformava no Capitão Marvel quando dizia a palavra mágica “Shazam”; que o milionário Bruce Wayne descia à Caverna do Morcego para sair dali disfarçado de Batman. A lista era longa. Durante muito tempo, me pareceu que todo herói tinha que ter uma face pública e pacata, e uma face oculta e sobrehumana.

Depois percebi que não era apenas nos quadrinhos. Nessa época eu era leitor devotado das aventuras do Zorro, bem como das histórias do “Coyote”, pistoleiro mexicano criado por J. Mallorqui, o qual na vida civil era o pacato fazendeiro Dom César Echagüe, mas quando se disfarçava era um justiceiro temido, que deixava um desenho em forma de cabeça de coiote nos locais onde fazia justiça, e costumava marcar os maus elementos arrancando o lóbulo de sua orelha com um tiro, para reconhecê-los depois.

Em seu inestimável volume de ensaios Seis Propostas para o Próximo Milênio, Italo Calvino usa a mitologia grega (inspirando-se em um livro de André Virel) para explicar essa dualidade do ser humano, e, por extensão (esta por minha conta), dos heróis da cultura de massas. Diz ele que o homem tem um lado Mercúrio (que representa a “sintonia”, a nossa troca de informações com o mundo à nossa volta) e um lado Vulcano (que representa a “focalização”, ou seja, o nosso pensamento concentrado e criador). (Sobre Mercúrio, veja-se a coluna “O deus das coisas certas”, 10.3.2004) Um é o nosso lado público, social; o outro o nosso lado íntimo e profundo. O fascínio exercido pelos heróis de dupla personalidade está no aparente paradoxo de que o “rosto oficial” (Bruce Wayne, Clark Kent) fica em segundo plano, enquanto que a personalidade secreta (Batman, Super-Homem) é o verdadeiro foco das atenções.

No fundo, é um retrato do artista criador, que é um super-herói conhecido e admirado por todos, capaz de façanhas espantosas... mas que, quando o encontramos em carne-e-osso, nos surpreende por ter os nossos mesmos defeitos, inseguranças, limitações. Pedimos o autógrafo, tiramos a foto com o braço sobre o seu ombro, e ficamos matutando se foi mesmo esse cara de roupa amassada, olhos cansados e barba por fazer que dirigiu aqueles filmes maravilhosos, escreveu aqueles livros impressionantes, compôs aquelas músicas que ficarão para sempre. O artista é um super-herói ao contrário. É um sujeito banal em público, mas que se transforma em alguém grandioso quando está a sós, no momento da criação. Mesmo que a gente tome um drinque ao seu lado, chegue mesmo a conviver com ele e ter amizade, é sempre o lado Clark Kent que ficaremos conhecendo. Como é ele quando se transforma em Super-Homem, nunca saberemos, mas a transformação ocorre, e a prova disto é o livro, é o filme, é a canção.


quinta-feira, 27 de março de 2008

0303) O deus das coisas certas (10.3.2004)



(Hermes, de Giovanni da Bologna, 1580)

Minha fama é de ser ateu e cético, mas na verdade a definição que mais se aplica a mim é “politeísta neo-tecnológico”. Tenho uma certa dificuldade em acreditar na existência de um Deus único, onipotente, onisciente e sempiterno; de um Super-Ser que concebeu e conduz cada átomo deste Universo espantosamente grande, e ainda tem tempo de se preocupar com questões morais como se o guarda de trânsito recebe propinas ou se a filha da vizinha está pulando a cerca. Mas, se alguém me dissesse que existe um Deus para cuidar somente da energia elétrica, outro para a proliferação da matéria orgânica, outro para coordenar as formações geológicas do planeta, e assim por diante... eu acharia isso bem mais lógico.

Os antigos acreditavam que para cada movimento na Natureza correspondia um Deus. O nome ou as características físicas do Deus não importam muito, mas quando analisamos suas atribuições podemos entender um pouco sobre ele. Veja-se por exemplo o caso do deus grego Hermes (Mercúrio, entre os romanos). Ele é considerado (estou consultando a “Encyclopedia Mythica”, em http://www.pantheon.org/) “o deus dos pastores, das viagens terrestres, dos mercadores, dos pesos e medidas, da oratória, da literatura, dos atletas e dos ladrões, e é conhecido por sua esperteza e astúcia. Sua função mais importante é ser o mensageiro dos deuses.”

Parece um samba-do-crioulo-doido, mas se abstrairmos o que há em comum entre estas funções, veremos que Hermes é o deus da troca de informações. As “viagens terrestres” e a profissão dos “mercadores” servem justamente para isto: para pegar o que existe em A e transportar para B, e assim por diante. Os “pesos e medidas” têm uma função semelhante: eles servem para unificar conceitos e facilitar a troca, ou seja, para que as mercadorias possam fluir com maior rapidez e facilidade. A “oratória” e a “literatura” fazem o mesmo com as informações propriamente ditas e com as idéias: colocam-nas em circulação, pegam o que existe na mente de A e transportam para a mente de B. E macacos-me-mordam se os “ladrões” também não cumprirem uma função parecida, porque não há dúvida de que cabe a eles, em qualquer sociedade, mesmo no Brasil de hoje, um importante papel no transporte de informações, valores e mercadorias. Basta lembrar a pirataria de CDs e o tráfico de drogas. Não questiono, neste caso, se as mercadorias são boas ou más do ponto de vista moral: Hermes é apenas o deus da circulação, da veiculação, do fluxo.

Imagino que as outras atividades de que Hermes é padroeiro (pastores, atletas) têm mais a ver com sua função sociológica na sociedade grega, mais do que com seu significado simbólico. (Boa tática esta, para justificar as exceções que não se encaixam!) Em essência, ele é o Deus do comércio, da literatura, das viagens: de tudo que faz circular a energia do universo, a mais importante mensagem dos deuses para todos nós.