segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

4063) O Cerco de Anathemburg (1.3.2016)



(Ilustração: Shaun Tan)

Ouves, Hermengarda?  Estão roendo as muralhas. Alcatéias de castores famintos sofreados por rédeas de nylon não-degradável. Em breve abrirão buracos para a bala envenenada, a flecha radioativa. Vamos, vocês todas, peguem esses sacos plásticos, guardem os jogos de xadrez, as granadas de estimação, os celulares encriptados, as lingeries luminosas. Miróscala, recolha os véus de musselina, tecle red-alerta, destrave os alçapões, afivele o capacete. Chamem o vizir, chamem meu cardeal, meus generais, meu síndico, chamem o chefe da segurança. O chão treme como se fosse feito de água.  Não devemos ficar aqui.  Corro aos armários: Aqualung? Escafandro estratosférico? Veste de látex?  Armadura?  Colete à prova de lança-chamas?  Todo excesso de opções imobiliza, e ainda nem sei o nível tecnológico ou o viés ideológico dos predadores.  Uma explosão abre um rombo na parede e me tira do dilema.  Saltamos no elevador privativo, Úrsula aperta um botão qualquer, justo quando um comando com cinto-laser salta no quarto fritando toda matéria orgânica em 360o à volta. O elevador desce, passa os seis andares do serralho, onde a fuzilaria pipoca. Iolanthe, Maud, Shemira, Tsuyoko, Lacy. Nunca mais as verei? Na despensa sou detido por um desmoronamento.  Me esgueiro para fora, avanço puxando a fila, e estou na adega, vizinha ao serralho.  Um corredor estreito, prateleiras cobrindo paredes, vinhos deitados como se fossem fuzis apontando uns para os outros. Lucíola recusa-se a sair. Vou até o alçapão, ergo-o com dificuldade, porque há um corpo caído sobre ele.  Na amurada, no teto, dois atiradores, de costas para mim, debruçados, fuzilam gente na rua. Saímos aos tropeções para o heliporto, mas quando o Locusto faz a manobra de aproximação os dois começam a disparar contra ele. Alguma das garotas explode seus crânios antes de maior prejuízo. Escada de nylon. Ajudam-nos a subir. Quem serão essas pessoas? Quem os mandou? Qual dos meus pedidos de socorro, disparados pelo alarme do seguro, caiu nas mãos do aliado mais próximo, algum idiota cujo partido ou cujo feudo vamos ter que acomodar na próxima gestão? Dou ordens breves, as mulheres se instalam nos bancos como podem. Agora voamos a uma altura de onde se vê metade da capital, os prédios e rios em chamas. Os parques estão juncados de corpos. Daqui de cima não dá para distinguir se são homens-de-armas envoltos em cotas-de-malha e de espadão em punho, ou se são snipers com um estojo infalível de morte-ao-alvo, ou se são astronautas com escafandros vibracionais cuja frequência foi curtocircuitada. Tudo que vai comigo é a destruição e a carnagem. Esqueci o ano. Esqueci o século.




sábado, 27 de fevereiro de 2016

4062) A fala paraibana (28.2.2016)



(cartunage.blogspot.com.br)


Dias atrás postei aqui um artigo onde comentava algumas expressões que me pareciam totalmente campinenses ou paraibanas. Penso nelas assim porque foi em Campina que as ouvi pela primeira vez, e muito pouco em outros lugares. Muitos leitores, de outros Estados, demonstraram conhecê-las há muito tempo, tê-las como típicas de sua região de origem. Serão brasileiras por inteiro? Serão uma compreensível assimilação da fala nordestina, a região que mais exporta falantes para o resto do Brasil? Não dá pra saber, mas aqui vão outros exemplos do meu Dicionário da Fala Paraibana.

“Andar de urubu baleado”: Um andar oscilante, sestroso e artificial, com as pernas meio arqueadas, usados por "playboys" de subúrbio ou por malandros de zona. "De vez em quando a gente está por ali, tomando uma cervejinha, aí de repente chega Fulano, com aquele andar de urubu baleado, usando óculos escuros de noite e mastigando um palito."  Variante: “Andar de urubu cangueiro”.

“Dar ponto”: Aprovar. “Ih, rapaz, dei ponto a essa sua camisa! Muito bonita!”  “Dei ponto à atitude de Fulano, eu não esperava outra coisa dele”.  Também se usa, no sentido passivo, “ganhar” e “perder ponto”.  “Fulano ganhou ponto comigo depois daquele discurso que ele fez”.  “Tome cuidado, que toda vez que você faz uma besteira como essa você está perdendo ponto com a família de sua noiva.” Equivalentes: “Dar valor”, “Dar o maior valor”.

“Salvou-se uma alma!”: Exclamação irônica que se usa quando acontece um fato inusitado, geralmente uma boa ação praticada pela pessoa menos provável.  “Minha gente... Salvou-se uma alma! Olha Fulano pagando uma conta!”  A origem é a crença popular de que cada vez que alguém na Terra pratica uma ação nobre, uma alma do Purgatório recebe anistia e sobe ao Paraíso.

“Todo penso é torto”: Usa-se para bloquear a argumentação de alguém que começa dizendo "Eu pensei que..." ou "Eu penso que..."  “-- Eu pensei que era melhor a gente marcar uma reunião pra discutir o assunto.  -- Todo penso é torto! Daqui que a gente faça a reunião, a coisa já está fora de controle.”  "Penso" é uma contração irregular, equivalente a "pendido", cambaio, coisa que está em desnível, pendendo para um lado:  "Essa mesa ficou pensa, o sr. vai ter que diminuir um pouco os pés deste lado."   O sentido imediato da frase é: "Aquilo que é apenas pensado é imperfeito."

“Roer a corda”: O mesmo que “bater pino”, voltar atrás, desistir ou “furar” na hora H.  “Já estava tudo pronto pra gente viajar, mas na última hora Fulano roeu a corda e a gente ficou sem carro”.  Tem ligação com a imagem de um animal amarrado que rói a corda que o prende, e foge.






sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

4061) O Eco do pêndulo (27.2.2016)



No Brasil, Umberto Eco publicou nos anos 1980 um best-seller incontestável (O Nome da Rosa) e depois um anti-best-seller (O Pêndulo de Foucault). A enorme vendagem do primeiro livro, pela Nova Fronteira, deve ter animado a Editora Record a arrebatar os direitos do segundo, que vendeu muito abaixo do esperado. Quase todos os exemplares dos sebos e da Estante Virtual são dessa edição que encalhou, a de 1989. Uma injustiça, pois para mim os dois livros são igualmente bons. (Se o encalhe fosse do primeiro, todo mundo diria: “Mas é claro! Uma história de frades medievais, cheia de termos em latim, quem vai comprar isso?!”).

O Pêndulo é um livro tão complicado e divertido quanto o anterior, com o bônus de ser contemporâneo. Sua sátira fere mais rente o pensamento ocidental, misturando alquimia, teoria da conspiração, mercado editorial, política, melodrama rocambolesco, Cabala, candomblé. Esta última parte pertence ao longo trecho ambientado no Brasil (capítulos 23 a 33). O argumento dos conspiradores que inventam uma conspiração e depois são engolidos por ela seria meio que retomado por Eco em seu último romance, Número Zero (2015). No Nome da Rosa ele tinha homenageado Conan Doyle e Borges; no Pêndulo, dá para sentir o espírito de Dumas, de Fantomas e da revista Planeta.

O romance é o que John Clute descreve como uma Fantasia da História, uma narrativa que revela uma História Secreta do Mundo. A erudição que Eco derrama nele não é nem excessiva nem extemporânea, porque o tema da obra é justamente a proliferação de interpretações místicas, mirabolantes e paranóicas que vêm atordoando o mundo ocidental desde o Renascimento. O romance segue a estrutura rígida e arbitrária dos “sephiroth” da Cabala, mas pelas suas fendas faz brotar uma jângal indisciplinada de teorias fantasiosas, hipóteses herméticas, narrativas ocultas. Eco cita uma ironia de Chesterton, para quem, quando se deixa de acreditar em Deus, não é para acreditar em uma outra coisa, é para sair acreditando em tudo quanto aparece pela frente.

Um dos temas do livro são as “vanity presses”, as edições autofinanciadas por gente que tem dinheiro bastante para publicar por conta própria as coisas sem pé nem cabeça que escreve. Isso resulta numa proliferação de informação insensata, e é de certa forma uma prefiguração da Internet de hoje, onde qualquer teoria escalafobética encontra crentes e seguidores, e onde basta um computador e um pouco de sorte para encontrar um milhão de espíritos desarvorados capazes de acreditar numa fantasia que criamos por brincadeira ou por delírio fabulatório. O Pêndulo é o livro mais profético do autor.





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

4060) Um Eco aberto (26.2.2016)



O recentemente falecido autor de O Nome da Rosa tem sido saudado na imprensa como um “Homem Renascentista”, igualmente capaz e talentoso em numerosas atividades complexas, daquelas que em muitos casos basta apenas uma para ocupar pelo resto da vida um intelecto robusto. Eu diria que Umberto Eco pertenceu a um tipo de intelectual contemporâneo que herdou o humanismo iluminista moderno mas sempre soube manter um olho atento para atividades ou temas considerados menores. Não é todo “Renaissance Man” que escreve sobre programas de TV, sobre orixás ou sobre torcidas de futebol. Os livros técnicos de Eco são opacos para mim (tentei ler 200 vezes A Estrutura Ausente) mas nos seus escritos para o leitor comum (como eu) ele é uma perfeita ilustração da máxima de Isaac Asimov, de que quem pensa com clareza consegue escrever com clareza.

Eco, daqui de onde o leio e observo, é um desses intelectuais de ampla erudição que não perderam o senso de humor, o interesse pelas coisas pequenas ou banais, a vocação lúdica, a capacidade fabulatória. São capazes de rir com as banalidades do cotidiano; mas não é o riso “blasé” e cínico de tantos pseudo-intelectuais de hoje, que se acham superiores ao seu próprio país ou mesmo ao mundo inteiro. Para os intelectuais, o mundo é uma fonte de diversão, de indignação, de prazer, de medo, de mistério. Vejo muito do seu espírito em Raymond Queneau, diretor editorial da coleção “Pléiade”, romancista (Zazie no Metrô), poeta, letrista de MPF (música popular francesa), matemático amador, ex-surrealista, amante dos trocadilhos e dos jogos verbais. Vejo-o em Julio Cortázar, capaz de construir pirâmides como O Jogo da Amarelinha e ao mesmo tempo de criar seus “almanaques” de microtextos e as divertidas Histórias de Cronópios e de Famas.

Outro que corre na mesma raia é Ítalo Calvino, leitor de vasta cultura, compilador de folclore (Fábulas Italianas), autor de romances metalinguísticos ou fantásticos, ensaísta literário capaz de reunir no mesmo texto profundidade de visão e clareza cristalina de exposição (Seis Propostas Para o  Próximo Milênio).  Ou então o também semiólogo Roland Barthes, cuja obra conheço menos, mas que influenciou o começo da carreira semiológica de Eco, com suas Mitologias. Barthes é dono de um humor mais contido e mais austero, mas sua percepção emotiva dos conflitos humanos, expressa com riqueza de filigranas mentais em Fragmentos do Discurso Amoroso, mostra (como Eco) que o verdadeiro intelectual é capaz de enxergar o que todo mundo viu e não percebeu, e ao dizê-lo pela primeira vez fazer aquilo parecer uma verdade eterna.





quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

4059) Eco, o humorista (25.2.2016)



Obituários recentes de Umberto Eco louvam o romancista, o semiólogo, o medievalista. Sem forçar muito a barra poderíamos louvar o humorista também. Eco escreveu numerosos textos de humor, textos destinados a extrair do leitor não a gargalhada, mas a risada, a risada de admiração, de incredulidade, de malícia, de susto, qualquer uma.  O humor produz uma reviravolta nas idéias (seja na lógica, seja na imaginação, seja na pulsão emocional) e puxa o tapete do leitor, fá-lo traçar no ar um zás-trás, e a risada é sua queda no chão. Um bom exemplo do humor de Eco é o seu texto sobre editores explicando por que recusaram obras como a Bíblia, a Recherche de Proust ou O Processo de Kafka.

No seu O Segundo Diário Mínimo (Record, 1994, trad. Sérgio Flaksman) Eco propõe os “Anagramas a Posteriori”, teste que consiste em baralhar as letras de um mesmo nome várias vezes, e “interpretar” os resultados, fazendo uma descrição cabível do personagem correspondente. Um calidoscópio de letras. O nome “Umberto Eco” é anagramado por Mário Giusti, que sugere exemplos como “Bruce O’Moet (nacionalista irlandês exilado em Reims no século XIX, fundador com Paul Chandon de uma célebre cave de champanhes)” ou “Toro Ecumbe (campeão sul-americano dos meio-pesados em 1953)” ou até “Buc Meteoro (personagem de histórias em quadrinhos dos anos 30)”. Os exemplos são numerosos e impagáveis. O jogo (proposto por Giusti) é encampado por Eco e por outros amigos, vira um torneio lúdico coletivo.

Não é humor narrativo, é humor enunciativo. No caso, com um ludismo verbal que proporciona ao autor a chance de desenvolver redes de associações verbais semiconscientes deflagradas pela junção de nomes próprios que trazem alusões étnicas, ou históricas, ou regionalistas, etc.  Isso é útil para quem, como romancista, tem que em cada obra inventar dezenas de nomes de personagens, nomes que podem até ser exóticos, mas precisam ser sempre nomes aceitáveis como de pessoas reais, no universo descrito.

Chamar o detetive de O Nome da Rosa de William de Baskerville não é apenas um alô-de-chapéu ao mito sherlockiano, é também trazer à cena Shakespeare, suas chacinas anunciadas, suas autoimolações. Dois autores popularíssimos, dois mitos ingleses cortando-se em cruz. Outros exemplos igualmente alusivos talvez passem batidos a boa parte dos leitores que não lhes conhecem as referências. A quantidade de imaginação e de esforço presente nessa brincadeira dos anagramas nos faz ver em Eco um espécie de Guimarães Rosa. Rosa tinha esse mesmo foco, e nenhum nome nas suas histórias deixa de trazer uma camada oculta de associações de idéias.




terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

4058) A depressão (24.2.2016)



(David Foster Wallace)

Uma obra literária pode levar ao suicídio uma pessoa depressiva? O caso mais famoso, ao que eu saiba, foi Os sofrimentos do jovem Werther (1774) de J. W. Goethe. É uma das grandes obras do romantismo alemão, um livro escrito aos 24 anos onde Goethe, reza a lenda, descarregou sua tristeza por uma paixão que não deu certo. O livro aparentemente provocou uma onda de suicídios de leitores jovens que se identificaram com o protagonista, um rapaz que se mata porque sua amada casou com outro.

Males de amores, contudo, raramente causam depressão. Ela pode ser deflagrada por problemas psicológicos profundos ou por desequilíbrio químico do organismo (neste caso é comum o tratamento pelo uso de remédios). Um caso recente de suicídio literário foi o de David Foster Wallace, o autor de A Piada Infinita (“Infinite Jest”). Wallace sofria de depressão desde jovem, e usava medicamentos. Já famoso, com mais de 40 anos, seu médico sugeriu interromper o tratamento ou tomar outra medicação. Ele o fez. Não deu certo, e a depressão voltou com tudo. Ele voltou ao remédio antigo – e este não fez mais efeito. Um dia a esposa deu uma saída rápida, e ao voltar encontrou Wallace enforcado no porão, com os cachorros da casa parados em volta, olhando.

Disse ele certa vez, sobre o problema: “É o motivo pelo qual quero morrer. (...)  É como se não fosse capaz de encontrar nada fora dessa sensação e por isso não sei que nome lhe posso dar. É mais horror que tristeza. É mais horror. É como se uma coisa horrorosa estivesse prestes a acontecer, a coisa mais horrível que se possa imaginar, não, pior do que se possa imaginar porque há também a sensação de que é preciso fazer qualquer coisa de imediato para se deter aquilo, mas não se sabe o que se deve fazer e de repente está acontecendo, durante o tempo todo, está prestes a acontecer e ao mesmo tempo está acontecendo.”

Essas coisas podem acontecer num contexto explicável (problemas pessoais, financeiros, de saúde, etc.) ou inexplicável (os ataques de pânico que acometem pessoas sadias e sem problema algum). A bebida e as drogas acabam sendo válvulas de escape para alguns. Parece óbvio que não resolvem o problema, e sim o agravam, pois a euforia momentânea do barato tem como reverso a rebordosa do dia seguinte. Toda pessoa deveria ter uma atividade, uma prática qualquer capaz de fazer frente a essas quedas terríveis na areia movediça do nada-vale-a-pena. Artistas muitas vezes fazem de sua arte um salva-vidas precário que os ajuda a manter-se à tona. Nem sempre funciona, mas quando funciona acaba sendo a única coisa que segura um sujeito do lado de cá até que passe a tempestade.






segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

4057) Cinco mal-entendidos (23.2.2016)



A lojinha de velhos vinis e CDs era larga mas atravancada, abafada, de teto baixo. Prateleiras e balcões cheios de velharias. Aqui e acolá, uma preciosidade. Uma mocinha bonita começou a passar lá de vez em quando, aparentemente quando saía do escritório para almoçar. Ficava mexendo nos vinis de jazz. Lauro, o dono da loja, fantasiou nela uma intelectual que lia poesia em inglês e sabia escolher vinhos. Um dia ela foi para o balcão de axé e lá se deteve. Ele não resistiu e foi perguntar se ela gostava daquilo. “Não,” disse a moça, “é que hoje o ventilador está virado pra cá.”

Paulo Jatobá, sertanejo, soldador, 47 anos, irrompeu furibundo num bar e fuzilou com cinco tiros seu vizinho Nestor Sá, 61 anos, aposentado, conhecido como Nestor Merdinha, o qual havia entreouvido numa conversa doméstica a esposa recente do dito Paulo, Marilinha da Silva, 20 anos, afirmar que era virgem, e saiu depreciando tanto o caráter da madame quanto a virilidade do esposo, por não ter entendido que se tratava meramente de uma comparação zodiacal entre donas-de-casa ociosas.

O pai leva o filho a um evento de mangás, RPGs, quadrinhos, com dezenas de estandes, milhares de pessoas, numa balbúrdia indescritível. A certa altura o garoto volta para junto dele, puxa sua camisa, excitado: “Pai, me dá cinco e cinquenta!”. Ele dá uma nota de dez, manda guardar o troco, volta a conversar com os amigos. Daí a pouco olha e vê o garoto num estande afastado, com expressão arrasada, quase chorando. Vai até lá e vê a vendedora segurando um álbum imenso, quase 500 páginas, e explicando ao guri: “São cento e cinquenta...”

A piriguete, em plena viagem turística acompanhando turnê da banda de forró Abaixa Que Eu Levanto, entra no hotel, pega a chave na recepção, sai batendo com os saltos altos no piso, rebolando dentro do shortinho. Entra no elevador, fala com autoridade para o ascensorista gordo e cinquentão: “Vamos para o quarto, por favor.” Ele responde: “Pois não, senhora. Em que andar fica?...”

César estava recebendo duas primas distantes, irmãs, que vieram passar férias com os pais dele. Mesmo tímido, levou as duas a um filme bem mulherzinha, depois a um terraço à beira mar para tomar cerveja e pendurar a conta até onde a vista desse. Apaixonou-se de imediato por uma delas. A certa altura (a música era ensurdecedora) criou coragem, aproximou-se do ouvido da outra e gritou: “Diga a sua irmã que ela é muito linda!”. Ela, também gritando: “O quêee?” Ele: “Muito liiinda!”. Ela deu um sorriso brejeiro, correu os dedos sobre o decote, ergueu os olhos para ele sem mexer a cabeça e disse: “Esperei tanto por isto...”





domingo, 21 de fevereiro de 2016

4056) O Tribunal do Facebook (21.2.2016)



Há uma frase clássica, que não sei se é ainda em latim ou já em italiano, que diz: “Cui bono?”. Significa: “Beneficia a quem? A quem favorece? A quem interessa?” Tudo no mundo, no meio das relações sociais, traz vantagens para Fulano ou para Sicrano. Na literatura policial surge de vez em quando essa perguntinha básica. O sr. Fulano dos Anzóis foi morto por pessoa ou pessoas desconhecidas. A quem beneficiou essa morte?

Sempre que uma coisa começa a acontecer repetidamente, com força, com insistência, eu me pergunto: “Cui bono?” Vejam, p. ex., o Tribunal do Facebook. É impressionante como as redes sociais, a de Zuckerberg principalmente, instilam nas pessoas esse espírito tribunalício. Cada um se senta em sua cadeira de mogno, de espaldar alto, vestido de preto, tendo na cabeça aquela ridículas perucas século 17 dos juízes ingleses, com um martelo na mão e uma tropa de guardas de prontidão. Abre o feice e começa a esquadrinhar as postagens, em busca de alguém a quem condenar.

Se você se indigna contra alguma coisa (gays espancados, mulheres assediadas, índios perseguidos, professores demitidos, empregadas exploradas), de nada adianta: o Juiz vai acusá-lo de indignação seletiva, porque denunciar um mal é sempre calar sobre todos os outros. (Toda indignação é seletiva. Não se pode ter conhecimento de todas as injustiças do mundo, nem indignar-se na mesma medida com uma dúzia delas, se forem tudo de que temos conhecimento.)

O tribunal do Facebook está desenvolvendo com uma rapidez impressionante, neste país (em outros também, provavelmente) a nossa capacidade de apontar o dedo, de julgar, de condenar, de castigar. Estamos ficando como aqueles puritanos da Nova Inglaterra que queimavam bruxas. Estamos nos transformando naquelas pessoas que investigam malfeitos e castigam malfeitores, não porque tenham amor e dedicação a algum Bem superior, mas porque amam o castigo em si, amam castigar, amam vigiar e punir. Cui bono? A quem beneficia esse estado de coisas? 

A grande tática dos regimes totalitários em sua fase de ascensão – que é o que parece estar acontecendo aqui – é a de desunir a população, jogar grupo contra grupo, vizinho contra vizinho, cidade contra cidade, região contra região, profissão contra profissão, raça contra raça, fé contra fé. Enquanto nós, os massacrados pela lavagem cerebral, estamos cuspindo baba venenosa uns contra os outros, eles vão construindo seu muro, um tijolinho jurídico por dia, uma parede legislativa por semana. O tribunal do Facebook julga, achincalha, ridiculariza, fofoca, produz mentiras e calúnias compartilhadas aos milhões, entra dia, sai dia. Cui bono?





4055) Queremos a censura (20.2.2016)




(ilustração: Rubem Grilo)


Estão se multiplicando, principalmente nos EUA, os pedidos para que o Estado ou as autoridades locais exerçam algum tipo de censura sobre livros e textos em geral, para proteger a estabilidade emocional nos leitores. Um artigo de Isabel Lucas (aqui: http://tinyurl.com/zuth66b) cita vários exemplos. Obras clássicas como as “Metamorfoses” de Ovídio, a peça “Lisístrata” de Aristófanes e outras são tidas como ofensivas por estudantes conservadores. Eles pedem que os livros sejam eliminados das bibliotecas ou que pelo menos “surjam com uma advertência na capa, chamando a atenção para o ‘perigo’ para o ‘bem-estar mental’ que representam os seus conteúdos, potencialmente causadores de sofrimento, trauma ou angústia’”. Segundo o artigo, humoristas como Jerry Seinfeld estão se recusando a dar espetáculos nas universidades, alegando que os estudantes “não são capazes de suportar uma piada”.

A mania chega a extremos surrealistas. Estudantes de Direito de Harvard pediram que não fosse ensinada a lei sobre estupro, alegando que a visão desta palavra poderia reacender o trauma em estudantes que pudessem ter sido vítimas desse tipo de abuso. (Essa paranoia de negação traz à mente imagens como o avestruz que enterra a cabeça na areia diante do perigo ou o marido traído que manda tirar da sala o sofá onde a traição foi flagrada.) Para a psiquiatra Manuela Correia, “estamos diante de uma excessiva psiquiatrização da sociedade”. Os ditames protetores da psiquiatria tomam o lugar da religião, a quem cabia, até certa época, esse tipo de controle. Isso seria indício de uma infantilização da sociedade, diz ela: uma “sociedade que não consegue lidar com o medo ou a pluralidade da linguagem”.

Se a pessoa é incapaz de suportar a mera visão da palavra “estupro” (tendo sido ou não estuprada), tem todo o direito de evitá-la, é claro. Todo mundo tem fobias ou angústias. Mas nesse caso, por que diabo vai estudar Direito? Não seria melhor estudar algo mais distanciado da realidade social, algo que não a obrigasse a refletir sobre o mundo, a convivência, o atrito ideológico do dia-a-dia? Outro detalhe que inquieta é que para muitos desses espíritos defensivos não basta evitarem os temas, querem que os temas sejam proibidos inclusive para os que não têm trauma nenhum e querem se informar sobre os tais assuntos. É uma regressão emocional perigosa. São pessoas a quem o mundo de hoje assusta (e acreditem, amigos, assusta a todos nós) e preferem fazer de conta que o mundo não existe, preferem refugiar-se numa bolha de segurança fictícia que nem uma ditadura militar seria capaz de manter intacta por muito tempo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

4054) Gosto e qualidade (19.2.2016)



Uma vez, no Cineclube de Campina Grande, preparamos uma lista dos melhores filmes do primeiro semestre. Todos líamos a crítica cinematográfica dos jornais da Paraíba, de Pernambuco, Rio e São Paulo. Sabíamos quem eram os diretores endeusados e quem eram os execrados, quem eram os gênios imprevisíveis e quem eram os “artesãos competentes” (termo levemente depreciativo).

Um filme que me causou uma impressão muito forte na época foi O Diário de Anne Frank de George Stevens, com Millie Perkins no papel da garota judia cuja família se esconde num sótão de Amsterdam durante mais de um ano mas acaba sendo descoberta pelos nazistas. Ao mesmo tempo, fiquei fascinado por Jules et Jim de Truffaut, que ente outros méritos enriqueceu meu conceito de beleza feminina ao me deparar com a anti-hollywoodiana Jeanne Moreau. Não hesitei, e na minha lista cravei palpite duplo. Indiquei o filme de Stevens como “Melhor Filme do Semestre Pelo Meu Gosto” e o de Truffaut como “Melhor Filme do Semestre, Cinematograficamente”. Achei que as duas obras não estavam “disputando a mesma Liga”, como dizem os norte-americanos.

Li há pouco um artigo de Jerry Fodor sobre ópera, onde ele diz: “Se você é apreciador de ópera, é bem possível que seja um admirador de Puccini. Mas provavelmente você acha que não deveria sê-lo. O gosto por Puccini é algo que é desaprovado inclusive pelos que o compartilham. Como se supõe que preferência pessoal e avaliação crítica devem coincidir, numa sensibilidade artística bem fundamentada, as óperas de Puccini colocam um pequeno mais genuíno paradoxo crítico.”

Nosso gosto pessoal e a opinião dos críticos coincidem apenas de vez em quando. A expressão “gosto não se discute”, para mim, revela um desejo de não querer conhecer a opinião dos críticos, de não querer discutir e aprimorar conceitos. Não se trata, na verdade, de gostar, e sim de perceber. Eu leio os críticos para tentar enxergar o que eles enxergam nos filmes, e decidir se aquilo me serve ou não. Leio para ser capaz de perceber melhor; para não ficar trancafiado no meu modo de ver de hoje.

Se eu gosto da ópera de Puccini é problema só meu, mas se a crítica oficial não gosta, é problema de todos. Em qualquer cultura há um saber oficial que, certo ou errado, é levado em conta na convivência social. Confrontar nossos gostos e porquês com os da crítica oficial não é obrigação de ninguém, mas é necessário para quem quer aprender a perceber melhor. Não basta, neste caso, dizer que A é bom ou B é ruim. É preciso começar a discutir a sério o que é arte, o que é música, o que é ópera, etc. Ninguém é obrigado a fazer isso, mas só evolui quem faz.




4053) Dicionário Aldebarã XII (18.2.2016)


(ilustração: Charles Demuth)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Karyang”: reunião de amigos para relembrar fatos ocorridos muito tempo atrás. “Vuvitos”: xícaras para café ou chá, cujo fundo se eleva à medida que há menos líquido nela. “Arnantrim”: a disposição peculiar dos vasos de plantas numa casa, nas áreas que em alguma hora do dia ou época do ano estarão sendo banhadas pelo sol. “Dalhassa”: escudo quadrado de combate, imantado, capaz de capturar armas inimigas.

“Satonima”: pequena sanfona com poucas teclas, que só consegue tocar meia dúzia de músicas, conhecidas por todos. “Balâmias”: cantigas saudosas onde cada improvisador principia dizendo o nome de sua terra natal e depois tentando encaixar versos com o maior número possível de rimas para ele. “Triamondes”: uma complexa hierarquia de favores mutuamente devidos, que em algumas aldeias chega a ter mais importância do que os laços de parentesco.

“Luhrvins”: sucos de frutas, de cores e densidades diferentes, que são misturados nas jarras e nos copos, visando efeitos cromáticos. “Andigoom”: o uso de bandeiras com símbolos coloridos, hasteadas junto à porteira de entradas das fazendas, para passar recados aos vizinhos. “Gundrillans”: espécie de besouros de carapaça colorida que se movem muito lentamente e são colocados nas paredes para formar desenhos ornamentais que se modificam aos poucos.

“Gampras”: movimentos de dança tradicionais, complexos, que em festas familiares cada dançarino tem que executar no centro de uma roda, acompanhando qualquer música tocada. “Klidudu”: estilo de decoração caseira envolvendo objetos aleatórios arrumados em volta de uma lâmpada que, quando acesa, projeta na parede formas ou palavras feitas das sombras. “Viniloy”: servidores públicos presentes em cada bairro para dirimir questões legais entre as pessoas, através de hipnose coletiva.

“Renevins”: pequenas serpentes domésticas, inofensivas, inteligentes, que ajudam na limpeza de lugares estreitos e de difícil acesso. “Lumlums”: hélices colocadas em pontos estratégicos da casa (janela, portas, clarabóias) para captar as correntes de ar e redistribuí-las, melhorando a ventilação interna. “Abôndis”: testes escolares onde, na hora que toca o recreio, cada aluno só tem direito de sair e brincar se der a resposta certa a uma pergunta feita de improviso pelo professor.




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

4052) O romance policial francês (17.2.2016)





Meu conhecimento de romances policiais “noir” escritos em francês é tão escasso que posso até completar a caixa com Albert Camus e Boris Vian para dar sustança. Mas existe um espírito, sim. Existe um feixe de rimas, bem visível, entre um certo tipo de romance policial popular norte-americano e um certo tipo de cinema/literatura jovem, urbana, anticonvencional e meio fatalista francesa. 

Não foi apenas Baudelaire que salvou Edgar Allan Poe, os cineastas da nouvelle-vague valorizaram as ações de Cornell Woolrich (La Mariée était en noir, La Syrène du Misssissipi) e de outros romancistas pulp.

Truffaut filmou também David Goodis (Tirez sur le pianiste) e o filmou a sério, muito mais envolvido do que por exemplo Godard, que em Bande à part até descreve crimes e mortes violentas, mas muito mais distanciadamente. 

Truffaut tem um talento saudável para o melodrama, enquanto o cinema de Godard sempre foi uma junção do stand-up com o PowerPoint. (Isto é um elogio.) 

Truffaut é da escola emocionalista do seu mestre Hitchcock, notório manipulador de platéias. Talvez mais ingênuo, ele, e Hitchcock meio cínico. Aliás, Hitchcock já tinha adaptado a Janela indiscreta de Woolrich, inclusive melhorando em muito o conto original. 

Cinema (francês) urbano, de vanguarda, e os heróis são todos bandidos, desde um cara à margem da lei por negligência existencial, como o Belmondo de Acossado, até os pequenos delinquentes de Os incompreendidos

O jeito bandidão dos norte-americanos se misturou aos genes de Rocambole, espalhados pelas demolições de Paris. Paris é a cidade que já esteve nas mãos de maior número de foras-da-lei incapturáveis, desde Fantômas, o arqui-criminoso, até o rei dos ladrões de casaca, Arsène Lupin.

Lupin, o herói de Maurice Leblanc, segue ao longo de mais de vinte livros uma trajetória que o leva de assaltante a detetive, de terror dos banqueiros e dos colecionadores de arte a colaborador da polícia na caça a um mal maior. 

Lupin não apenas se disfarça de vez em quando de policial, ele torna-se policial de fato. Seus golpes nunca são sangrentos (Lupin desmascara, expõe, ri, galhofa, moteja – mas não mata). 

Rocambole, o herói folhetinesco de Ponson du Terrail, é bandido nos primeiros quatro livros e policial nos outros quatro. Mas trata-se menos de um livro de gênero do que um livro de época. 

Os folhetins de Balzac iam para o lado social, os de Verne para o lado aventureiro-científico, os de Ponson para o melodrama policial, com sociedades secretas como “O Clube dos Valetes de Copas” e lutas contra thugs indianos estrangulando bandidos em Paris. Uma história policial francesa pode ser reconhecida mesmo sem assinatura.







segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

4051) Expressões paraibanas (16.2.2016)




São expressões tipicamente paraibanas, ou de Campina Grande. Não sei até onde se estendem pelo resto do Nordeste. Mostram o grau de inventividade da nossa linguagem diária, uma linguagem de imagens fortes, sem preocupação de verossimilhança mas com impacto imediato.
 
“Se fosse uma cobra, tinha me mordido!”. Usa-se quando se está procurando algum objeto e então se percebe que ele estava bem próximo, ao alcance da mão.

“Isto aqui tem dois “v”: vai e volta”. Advertência muito comum ao se emprestar um objeto qualquer, deixando claro que é para ser devolvido.

“Rouba até pano de pereba”. Diz-se do ladrão compulsivo, ou completamente sem escrúpulos.  “Olha, você tenha cuidado quando andar aqui na vizinhança, porque esse pessoal daqui rouba até pano de pereba.”  “Pano de pereba” é aquele pano com que os mendigos envolvem e protegem as feridas que têm no corpo: ou seja, a última coisa que a alguém ocorreria roubar.

“Felicidade que...” Equivale, precisamente, a: “Ainda bem que...”, “felizmente que...”, e deve ser uma forma abreviada de algo como “A felicidade [=sorte] dele foi que...”  Ex.: “Vocês souberam?  O carro de Fulano capotou ontem na estrada.  Felicidade que vinha outro carro atrás, e as pessoas socorreram eles.” “Houve um começo de incêndio no armazém, ontem de noite.  Felicidade que um vizinho viu a fumaça e telefonou pros bombeiros.”  Há uma variante mais próxima da linguagem comum:  “Por felicidade, eles tinham levado as coisas de valor para outro lugar, os ladrões só levaram umas bobagens.”

“O remédio de um doido é outro na porta”. Quando alguém começa a se portar de maneira extravagante, a melhor maneira de lidar com ele é usando a mesma tática. 

“É um só, como a roupa de Jesus”. Diz-se de algo que nunca varia.  "Faz seis meses que eu cobro esse dinheiro, e a conversa de Fulano é uma só, como a roupa de Jesus – mês que vem eu pago, mês que vem eu pago..."  Já vi cantadores de viola dizerem de algum colega: “A cantiga de Fulano é como a roupa de Jesus, é uma só, a vida toda”. Há duas explicações para essa idéia: 1) A roupa de Cristo não tinha costuras, era feita numa única peça (daí vem a expressão "clâmide (túnica) inconsútil (não costurada)”, usada por Emilio de Menezes num soneto famoso); 2) A roupa de Jesus foi a mesma desde a infância até a idade adulta – a acreditar nesta versão, a túnica teria aumentado de tamanho, por licença poética ou autorização divina, à medida que ele foi crescendo. Penso que a primeira idéia tem alguma origem clássica ou lendária, e que a segunda brotou por confusão das pessoas sobre o conceito de que "a roupa era uma coisa só". 





domingo, 14 de fevereiro de 2016

4050) Doce pássaro (14.2.2016)



Doce pássaro da juventude, comido no espeto à beira de uma fogueira de acampamento de praia, eu com a pele inflada de bolhas dolorosas, antes daquela noite de insônia-à-milanesa em que pensei a frase “ninguém desliga o mar”. Ribaçã salgada e suculenta, mordida com fome no balcão da Rodoviária velha, antes do copo espumante e gelado da décima saideira da noite. O corvo eterno, leit-motiv de madrugadas e firmamento, e o abutre que numa lenda alternativa era devorado todo dia pelo fígado de Prometeu.

A juventude é pássaro porque voa, porque logo se faz passar? Outra leitura possível é: a juventude não é algo que somos, é algo que de vez em quando pousa em nós, quando lhe dá na veneta, e vai embora mal erguemos os olhos. Todo sujeito tem o direito de sentir-se jovem uma vez por década, como acontece com certas torcidas de futebol. Doces pássaros, salgados pássaros, crocantes frangos à passarinho, desbastados por incisivos cuidadosos, vasculhando em cada minicâmara e desvão no meio de tantos ossinhos, pela carne, a tenra carne, a carne enquanto está quente e tem tanto a nos dar. 

Sweet bird of youth, é o nome do filme baseado na peça de Tennessee Williams. Por que a juventude é um pássaro?  “Happiness runs”, canta Mary Hopkin, a mesma que fez sucesso cantando que “bons tempos foram aqueles” (“Those were the days”). Uma cena que eu vi uma vez no trabalho, o diretor dizendo: “Olha, pessoal, nós temos exatamente a quantidade de película necessária para esse último take, são trinta e poucos segundos, vamos ensaiar direitinho, porque é uma só, sem poder errar.” Pense em trinta segundos pra passar voando. Pois mesmo assim é a juventude da gente. O tempo em que a gente é perigoso, e não existe um tempo melhor do que esse.

É um pouco como tibungar em piscina: você pula, segue-se um absurdo, e daqui a pouco você volta a ser você mesmo lá adiante, vivinho da silva. A mocidade passa rápido. É interessante que a juventude não lamente a perda da infância, pelo menos no mundo da poética pop, mas a maturidade lamente tanto a perda da juventude.  Os Rolling Stones (erodidos, sugados, reciclados por uma Ultra Ciência a serviço das empresas-de-tour) já fizeram rockzinhos adolescentes para umas quatro gerações sucessivas de jovens britânicos, que dificilmente não serão expostos a essa banda em algum momento da sua vida social. Você não pode fazer a juventude durar eternamente. Acho que se dermos um balanço bibliográfico serão bem poucas as histórias em que alguém aceita a imortalidade sem exigir que seja acompanhada de aparência jovem. Ninguém quer viver mil anos ao preço de envelhecer mil anos.



sábado, 13 de fevereiro de 2016

4049) Pedras de Roseta (13.2.2016)



No blog da London Review of Books, o redator comenta a publicação de parte da tradução chinesa de Finnegans Wake de Joyce (o livro deverá sair em 3 partes). A tradução foi feita por Daí Congrong, uma heroína. É de se imaginar como terá ficado em mandarim este famoso trecho, logo na abertura: “The fall (bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!) of a once wallstrait oldparr is retaled early in bed and later on life down through all christian minstrelsy.’

Que tipo de conhecimento de uma obra literária pode ter uma pessoa que não pôde ler o original, mas conheceu várias traduções diferentes?  A leitura de cem traduções de um só poema, como li na coletânea O Soneto de Arvers, teria ainda mais impacto se a língua original fosse indecifrável. Em francês, ainda dá pra checar.  Francês é, em nossa cultura, uma língua meio transparente, dá pra avistar alguma coisa através dela, pela sua ubiquidade na imprensa, na moda, na propaganda, nas artes. Dá para, meio pedestrianamente, comparar um soneto em francês e sua tradução brasileira. Todo mundo que estudou nos colégios onde eu estudei arranha um francês suficiente para entender os títulos das faixas de um disco de Françoise Hardy. Mas alemão, russo e chinês (pelo menos para mim) são um muro de berlim, uma cortina de ferro e uma muralha da china. Como posso afirmar que já li alguma coisa de Brecht, de Maiakóvsky ou de Lao Tsé? 

E no entanto li, sim. Alguma coisa passa numa tradução. Se não o glossário das palavras, pelo menos o dicionário das coisas. O que depender de visualização de imagens, ou do jogo de idéias, ou até um jogo de palavras que podem ser substituídas por outras totalmente diferentes na tradução, porque não é delas que se trata. Tudo que puder ser lido pode ser traduzido. (A ordem nesta frase pode ser qualquer uma, porque toda leitura é tradução.)

Claudio Weber Abramo organizou para a Editora Hedra (2011) uma edição crítica com traduções de “The Raven”, o poema de Edgar Allan Poe, em português, espanhol, francês e italiano. A cada versão que lemos desaparece um detalhe e reaparecem dez outros. O poema fica indo e voltando. O poema é algo que a gente reencontra em qualquer língua que consiga ler com fluência. É feito de palavras, mas não são as palavras em si, ou não poderia pular de língua em língua. É algo que é construído a partir das palavras. É ele que faz algo às palavras, ele as engata e modula e dá estrutura e cria uma frase que nenhuma palavra daquelas entende por inteiro. É tudo que sobrevive às traduções, paráfrases, imitações, transcrições defeituosas.





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

4048) T. S. Eliot e o romance policial (12.2.2016)



É um lugar comum dos estudos críticos sobre o romance policial invocar os nomes ilustres que a ele se dedicaram, que lhe deram uma importância maior do que a que lhes era atribuída pelos críticos de sua época. Nomes como W. H. Auden, Jorge Luís Borges, Vladimir Nabokov, Guimarães Rosa e muitos outros eram leitores atentos de histórias de detetive. A esta lista veio se somar T. S. Eliot. De acordo com um artigo de Paul Grimstad em The New Yorker (http://tinyurl.com/zgsssq5), a publicação de The Complete Prose of T. S. Eliot, pela Johns Hopkins University Press, recuperou um grande número de resenhas que ele publicou anonimamente no jornal The Criterion, em 1927. O sisudo poeta não apenas comenta os livros que lia, como cede à tentação de propor regras para esse tipo de literatura.

Não deixa de ser curiosa a adição do seu nome a essa lista. Eliot era o mais inglês dos norte-americanos. Essa dupla filiação espiritual e literária está presente também em grandes nomes do romance detetivesco, com Raymond Chandler e John Dickson Carr à frente, norte-americanos que viveram na Inglaterra. O fato dos ingleses verem essa literatura com respeito deve pesar. Chandler sempre se queixou de que nos EUA era visto como um simples autor de histórias de detetive, ao passo que na Inglaterra era tratado de igual para igual por romancistas de primeira linha.

Foi Eliot quem considerou The Moonstone (1868) de Wilkie Collins “o primeiro, o mais longo e o melhor romance de detetive inglês”. Para ele, “a personalidade e as motivações do criminoso deveriam ser normais”, e a história não deveria “basear-se nem em fenômenos ocultos nem em descobertas feitas por cientistas solitários”. Eliot, como a maior parte dos bons autores policiais da época, defendia o fair play, ou seja, o autor deveria indicar ao leitor as principais pistas que revelavam a identidade do criminoso e o método usado para praticar o crime. É bom lembrar que na chamada Era de Ouro do romance policial (as décadas de 1920-1930) o enorme sucesso do gênero atraiu para ele autores que não tinham o menor escrúpulo de puxar o tapete de baixo dos pés do leitor da maneira mais desavergonhada possível.

Por que tanto sucesso? Eliot dizia: “Aqueles que viveram antes da criação de termos como ‘literatura elevada’, ‘romances sensacionalistas’ e ‘ficção detetivesca’ sabem que o melodrama exerce uma perene fascinação sobre o público leitor”. Para ele, um romance policial mal sucedido era o que deixava de satisfazer duas necessidades: “o prazer puramente intelectual de Poe e a completude e abundância de vida que há em Wilkie Collins”.








4047) A Vida e os Tempos de Alma Loser (11.2.2016)



Cap. 1 – De como Alma Loser brotou pronta dos pés à cabeça, aos quinze anos, no Colégio Municipal Lima Barreto, em Conceição da Macuruí (Bahia), onde até então estava disfarçada de Maria Almarina da Rocha, filha de um caminhoneiro e de uma doméstica.

Cap. 2 – De como Alma dizia que essa expressão “doméstica” lhe provocava arrepios de repulsa, e que se tivesse que escolher entre a profissão do pai e a da mãe preferiria mil vezes ser caminhoneira, mesmo correndo o risco de assalto e surra de vez em quando, destino eventual do pai dela.

Cap. 3 – De como nome e personagem nasceram juntos quando Maria Almarina resolveu aceitar o convite para tocar baixo na banda feminina “OB Usado”, arregimentada para participar da festa dos Jogos Estudantis da escola, sob o nome de Las Bambas, é claro, porque o nome oficial enfartaria a diretora, uma chata.

Cap. 4 – De como uma vaia ensurdecedora afugentou do palco a banda, e Alma Loser rasgou furiosa o figurino, arrombou um locker, fugiu com o moleton de alguém e nunca mais a viram, nem no Lima Barreto nem em casa, onde ficou o casal de velhos, que mal deram pela sua falta.

Cap. 5 – De como na capital Alma Loser aprendeu russo com um vizinho de pensão, ascensorista de um hotel todo em ébanos e dourados.

Cap. 6 – De como Alma Loser perdeu vários empregos sucessivos até descobrir que russo no currículo queimava seu filme.

Cap. 7 – De como Alma Loser cruzou por acaso com um primo distante e machista, daqueles que sempre botaram olho ruim pra cima dela, mas família é família, mas como ela agora não era mais família coisa nenhuma, pensou ele, botando um olho bonito, ela ia ver o que é bom pra tosse.

Cap. 8 – De como as coisas não correram bem assim, e Alma Loser aplicou-lhe uma combinação de krav-magá que aprendera com o útil ascensorista e o deixou desacordado para pagar na manhã seguinte os estragos que fizeram na suite do motel.

Cap. 9 – De como Alma Loser juntou as economias, tomou um banho de loja, prendeu o cabelo, e foi admitida como flight attendant (ela detestava “aeromoça”) numa companhia aérea terceirizada.

Cap. 10 – De como um ano e meio depois ela desembarcou em São Petersburgo, seu objetivo desde o início, e lá mesmo queimou o passaporte e caiu na clandestinidade.


Cap. 11 – De como encontramos Alma Loser onze anos depois em Moscou, dona de butique, passaporte ucraniano, gorda como uma baronesa, falando francês, amante de dois políticos de partidos rivais, sendo entrevistada num talk-show da TV local e, indagada sobre o sonho da sua vida, dando um fundo suspiro e respondendo: “Conhecer o Brasil, porque dizem que é um país de homens lindos.”





4046) A palavra "hardboiled" (10.2.2016)



Esse termo indica os detetives durões do romance policial, mas não traduz bem para o português. A idéia se refere a ovos muito cozidos, que ficam muito duros. Passa a sensação de dureza (=valentia, violência, brabeza) e de algo ou alguém fervido, castigado, curtido pela vida. 

Aqueles detetives de sobretudo e chapéu mole interpretados por Robert Mitchum, ou então os policiais durões e silenciosos de Richard Widmark.

O detetive não é “hardboiled” somente porque pode recorrer à violência. Isso Sherlock Holmes também fazia. A diferença entre os dois é que Holmes, tido como tão frio e objetivo, é no fundo um romântico que acredita na Razão e um otimista que tem fé na Ciência.  Um detetive hardboiled não acredita sequer na autenticidade da nota de vinte que uma loura artificial lhe estende. É o cinismo que os separa. O Zeigeist da era do “sendo assim fica permitido tudo, cada um por si”. 

Philip Marlowe é durão, mas não somente por dar uns safanões em bandidos metidos a besta. Ele vive com a vida por um fio, e só tem de poderoso para protegê-lo a letra da Lei. A mesma lei que ele atropela, quando, pelo bem do cliente, ele suprime provas, mexe na cena do crime, confunde indícios, omite informações. 

Ele sabe que pisa terreno minado, e os policiais sabem do que ele anda fazendo.  Só querem uma chance para flagrá-lo, a pretexto de uma tecnicalidade qualquer, e depois fazê-lo cumprir uma turnê de insônias ao longo de mil delegacias, enquanto puderem fazê-lo de modo quase legal. 

É um personagem que vive num mundo pior do que o nosso, pois nele acontecem coisas que não fazem parte do nosso dia a dia, razão pela qual lemos esses livros, vemos TV, compramos jornais sensacionalistas. Em O Longo Adeus, diz Marlowe: 

“A outra parte de mim queria ir embora e ficar longe, mas essa era a parte a quem eu nunca dava ouvidos.  Porque se alguma vez eu a tivesse ouvido eu teria ficado na cidade onde nasci e trabalhado no armazém local e casado com a filha do patrão e tido cinco filhos e lido para eles os balões dos quadrinhos nos jornais das manhãs de domingo e dado uns tapas num e noutro que saíssem da linha e teria entrado em querelas com a esposa sobre quanto seria a mesada de cada um e quais os programas que eles tinham licença de assistir no rádio e na TV.  Eu podia até ter ficado rico, um interiorano rico, numa casa de oito quartos, dois carros na garagem, frango todo domingo e as Seleções do Reader’s Digest na mesa da sala, a esposa com o cabelo duro de permanente e eu com um cérebro igual a uma saca de cimento Portland.  Pode ficar pra você, amigo. Eu quero a cidade grande, sórdida, maculada e corrompida.” 




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

4045) Patafísica (9.2.2016)


A Patafísica é uma ciência, uma pseudo-ciência, ou uma paraciência? É um clube literário ou uma corrente filosófica?  É um grupo de humoristas ou de gozadores?  Ela foi criada por Alfred Jarry, o iconoclasta autor da peça Ubu Rei, que produziu grande escândalo, e surgiu no livro Gestes et opinions du docteur Faustroll, pataphysicien (1911, póstumo). “A patafísica será sobretudo a ciência do particular, mesmo que se diga que só existem ciências do geral,” diz ele. “Ela estudará as leis que regem as exceções.” O livro foi lançado agora pela Nephelibata, com tradução de Eclair Antonio Almeida Filho e Odulia Capelo Barroso.

Para honrar a memória de Jarry, que morreu na miséria, criou-se o Collège de Pataphysique, uma daquelas instituições francesas que motejam da solenidade da cultura oficial do seu país. O Colégio é uma mistura de academia de letras e de clube de aficionados. Entre os seus membros famosos estiveram os artistas Juan Miró, Max Ernst e Man Ray; o romancista e autor de “chansons” Boris Vian; Raymond Queneau, o autor de Zazie no Metrô, Exercícios de Estilo e muitos mais.

Queneau pertencia também ao grupo da OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), onde se reuniam ele, Georges Perec, Italo Calvino, Harry Matthews, François Le Lyonnais e vários outros. Parece ter sido inicialmente um departamento do próprio Colégio de Patafísica. O interesse da OuLipo era produzir ficção ou poesia seguindo algumas regras ou simetrias arbitrárias, de natureza numérica ou geométrica.

Tanto os patafísicos quanto os oulipoetas têm, não só no que escrevem, mas no modo como se comportam, uma mistura de informalidade estética aliada a espírito lúdico. A Patafísica é uma espécie de arte de jogar belota enquanto o absurdo não desaba. A oulipoesia é uma exploração de parâmetros meio aleatórios (e nisso se parece às ciberpoesias eletrônicas atuais) ou inconscientes, e nisso se aproximam de um terceiro movimento, o Surrealismo.

O Surrealismo se sonhou internacional mas a história situa seu epicentro em Paris. Dos três, é o movimento literário mais exaltado e talvez o mais crente, o menos leviano ou alienado. O movimento tem forçosamente a cara de seu líder, André Breton, o que é inevitável, já que ele excluía do grupo quem ficava diferente dele.

Não importa se os membros do Colégio de Patafísica acreditam que algumas de suas proposições mais anárquicas possam ser verdadeiras. Seria bom saber se elas ajudam a construir uma máquina de viajar no tempo, como aconteceu ao Dr. Faustroll, ou se desencadeiam chacinas até hoje inexplicadas como a de Maxwell Edison e seu martelo de prata.



sábado, 6 de fevereiro de 2016

4044) Oito fotografias (7.2.2016)



(foto: Andre Kertesz)


Peitoril de uma janela, em preto e branco bem granulado, sobre o qual repousa, apoiada no braço dobrado sobre o caixilho, a mão de uma menina de uns dez anos. Ao lado dela, uma pistola calibre 38, carregada, pousada sobre o peitoril. Na foto, a menina não toca ainda na arma.

Um canal cimentado, com águas verde-azuis, amuradas vermelhas, três garotos de camiseta e calção, em cores variadas, armando o pulo para saltar dentro dele, o primeiro já frecheirando de braços esticados em pleno ar, o segundo dobrando os joelhos e braços pra trás pro impulso final, o terceiro ainda se posicionando.

Uma estação de trem, acima do nível do pátio em volta. Uma escadaria de três trechos de doze degraus. E uma mulher, saias esvoaçantes, uma mala e uma sacola numa mão, uma mala maior e uma bolsa pequena na outra, bolsa grande a tiracolo em diagonal, uma mulher corpulenta e decidida, está subindo essa escada enquanto no último degrau um homem alto, magro e moreno a observa, à espera, com o pulso esquerdo soerguendo-se apenas o mínimo para indicar: “Olha a hora!”.

Um entrevistador perguntou a Pelé, já de chuteiras penduradas, qual a coisa do tempo de jogador que ele tinha mais saudade. Ele disse: “O pontapé inicial de todo jogo, quando o time da gente estava no auge. Quando a gente ir dar a saída, a gente olhava e via o medo nos olhos deles. O medo que eles tinham do Santos.” A foto mostra esse medo.

Foto noturna do lado de fora de uma “villa” a que se tem entrada por um pórtico. Do lado de cá desse pórtico, caído rente ao muro, bêbado, um homem bem vestido. Ao fundo, todas as casas da vila estão apagadas, menos uma, onde a luz está acesa e há uma mulher debruçada à janela, morta de sono.

O braço moreno de músculos longos e secos passa a peixeira com força num serrilhado que sai cortando em diagonal, jogando para o alto uma chuva de diamantes em forma de escamas de peixe.

Foto muito próxima, não dá para ver se é no meio da rua ou num clube, mas o ambiente é escuro, e a foto mostra um rapaz e uma moça se olhando, com gente fantasiada marcando o passo ao fundo. Só os dois, se olhando.

Na rua estreita de edifícios escuros e tortos explode para a rua pela janela do 5o. andar uma chuva de estilhaços de vidraças despedaçadas, e também dali emerge um pesado cofre de aço com um metro e meio de altura, e preso a ele, pela manga do casaco jeans que se enganchou quando ele ajudou a erguê-lo até o peitoril e depois empurrá-lo janela afora, um rapaz, mas a manga enganchou e lá foi ele, no instante exato em que a turista dinamarquesa fotografava tudo, pois tinha gostado de uma eira-e-beira qualquer no prédio colonial vizinho.




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

4043) As letras do crime (6.2.2016)



Você é um cidadão norte-americano que trabalha para uma empresa de pesquisa, contratada, em última análise, pelo governo do seu país. Sua missão é viver no Terceiro Mundo: em países quentes, com cidades de trânsito infernal, água pouco confiável, costumes incômodos, idioma inexpugnável, valores ininteligíveis.  Você avalia as coisas, preenche planilhas, faz uma pesquisa meio quantitativa e meio qualitativa. Deve transmitir suas impressões, opiniões, julgamentos, avaliações da probabilidade disto ou daquilo acontecer.

O narrador de The Names (1982) de Don DeLillo é um cara que produziu uma lista de 27 indignidades praticadas por ele na convivência conjugal; a lista foi escrita por ele meio que psicografando o que ele achava que a esposa pensava a seu respeito. Agora separado, ele se dedica a preencher as planilhas e estudar grego, afinal estão morando em Atenas. Há uma simetria incubada entre essa massa de tabulações e índices que ele, James Axton, manda via telex para seus patrões. E há em volta dele (que só o percebe mais adiante) uma série de crimes simétricos acontecendo. Crimes onde – como nos policiais clássicos de Agatha Christie (Os Crimes do ABC) ou de Ellery Queen (A Tragédia de X, ...de Y, ...de Z) ou de Borges (“A morte e a bússola”) – as letras, a grafia, o local do crime, são coisas cruciais. 

“Nunca pensei que teria saudade do meu apartamento,” diz uma amiga de Axton, em Jerusalém; “deve ser porque meu corpo ficou lá.” Seus amigos expatriados são todos razoavelmente abastados e vão toda noite aos restaurantes locais, onde têm noitadas espirituosas rodeados por figurantes gregos. Há um cineasta meio maldito, amigo de Axton, que quer transformar toda a investigação desse mistério (a esta altura já se percebe ser um culto clandestino) num documentário. É um desses artistas intensos, que se arrebatam por uma idéia e não abrem nem pra um trem. Ele e Axton conseguem conversar, separadamente, com homens do culto. Têm diálogos de terrestre com marciano, e vão embora.

DeLillo tem uma prosa como de quem tem um baralho bem traçado na mão e vai estalando cada carta na mesa, virando e estalando. Aquela maneira meio realista-modernista dos norte-americanos, cada frase fazendo cair pelo menos uma ficha. A descrição dialoga com o leitor sem que o personagem perceba. Ele tem também um olho bom para no meio da descrição de um passeio ou de uma conversa anotar vislumbres. “Uma mulher colocava estrume de vaca em fôrmas ovais para secar ao sol.” “Um chapéu de homem veio esvoaçando pela rua afora.” “Um homem a cavalo, uma mulher que caminhava atrás segurando a cauda do cavalo.”




quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

4042) Ser editor (5.2.2016)



Alguém já disse que depois do Autor, a pessoa a quem a gente deve ajoelhar e agradecer por um bom livro é o Tradutor. Eu concordo, mas estendo essa condição ao Editor. Ele é o cara que numa pilha enorme de envelopes pardos achou essa história pra mim. Não leu somente ela. Leu umas cem, e das cem tirou meia dúzia, inclusive esta. Por causa dele eu acabei de ler agora, e achei sensacional.

O editor a publicou sabendo que um dia um leitor anônimo, na outra banda do mundo, acabaria lendo aquilo, entusiasmado, e talvez nem pensasse no quanto seria remota a chance de ter lido aquilo se não fosse por esse editor. 

Ele é um descobridor. Um dia, já velho, ele vai estar numa mesa cheia de camaradagem, alguém vai erguer um brinde a ele chamando-o de “descobridor de talentos”, e ele vai dizer: “Pois é, eu ainda lembro como fiquei em dúvida, puxa vida, quem é Fulano de Tal, quem é Sicrano, dirá o público, quem vai se interessar em ler? Mas fui lá e banquei!  Por que? Porque eu sabia!”. 

Nem sempre o editor sabe, ou melhor, quase nunca.  Digo isso porque do lado de quem publica a esperança é sempre a mesma: “É este aqui que vai decolar, entrar em órbita, puxar minha conta bancária lá pra cima, e me dar a iniciativa do jogo.” 

Cada livro que a gente publica a gente vê nele o maior jeitão de best-seller. Pensamos isso com tanta força que quando um belo dia um dos livros efetivamente vende, a gente chega a ver naquilo um anticlímax, uma moeda que só nos chega às mãos depois de desvalorizada.

Para criar livro alheio, precisa ter os mesmos cuidados e o mesmo carinho que tem com o livro seu. Não ouvi de um editor essa frase, ouvi-a de uma nega véia, e não era livro a palavra, era filho, e a intenção é uma só. 

O livro é a obra do editor.  O escritor forneceu apenas o texto literário, sem dúvida o mais importante de tudo, mas por isso mesmo era preciso fazer um livro à altura. O texto é de quem escreve. O livro é de quem publica.

Mesmo quando os livros encalham, mesmo que hajam se vendido somente uns cem exemplares, o editor pode pensar nesses leitores agradecidos e achar que valeu. 

E não nos custa imaginar que às vezes o único propósito de haver uma primeira edição dos poemas que um tal de “Aaron Klopstein” publicou em Dresden em 1951, é que o derradeiro exemplar desse livro seja achado num sebo de Nova York, em 2008, e desde então ele venda em poucos anos mais de dois milhões, em cinco países. 

Tudo que certos livros precisam é não desaparecer. Se não desaparecerem, sua história irá acontecer, mesmo com décadas de atraso. O editor é justamente o cara que providencia esses milagres.
















quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

4041) "Os Nomes" (4.2.2016)




Em certo momento na história das guerras e conspirações internacionais, já no século 20, o mundo leitor se deu conta da existência de espiões. Como profissão já existia desde a antiguidade, certamente. Só que ainda não tinha toda uma literatura dedicada a reimaginar suas atividades. 

O pico de sucesso foi com James Bond, mas um sucesso tal condena um gênero à auto-paródia e à morte. Tinha que aparecer um gênero novo, que retratasse nossa época, ou pelo menos as décadas finais do século 20.

Depois do espião, surgiu agora o analista de riscos. 

Quem é essa figura ubíqua, anti-heróica, essa silhueta cinzentamente mainstream? São os personagens principais de The Names (1982), de Don DeLillo, um romance que transcorre em sua maior parte na Grécia. 

James Axton, o narrador, é um analista de riscos para empresas norte-americanas no Oriente. Ele e seus amigos, que são banqueiros, consultores, assessores governamentais, ficam pulando de país em país, desenraizados, estranhados, vivendo sozinhos ou com a família em apartamentos onde, mal começam a se sentir confortáveis, têm que desmanchar tudo e mudar para outro país, ainda mais indisciplinado, e de idioma imprevisível.

No meio de tudo isso, Axton e seus amigos descobrem a existência de um estranho culto, um grupo de pessoas que pratica assassinatos aparentemente rituais, por nenhum motivo aparente, a não ser o crime em si e certos detalhes externos a ele.

DeLillo tem um narrador excepcional neste livro; Axton é de uma fluência espantosa, principalmente quando está sendo mau caráter (como na sedução da esposa de um desconhecido, durante uma noitada). Ele e seus amigos comparam países como quem compara aeroportos. Vivem alerta em relação à violência local, mas têm a mais pura das certezas de que são alvos somente por sua nacionalidade, porque na verdade não têm nada do que se recriminar. 

Não são espiões.  São analistas de risco: dos seus relatórios emergirá, a milhares de quilômetros, um modelo informático de um país produzido pelo conjunto das interpretações pessoais de cada um. E decisões cruciais serão tomadas sobre o futuro dos gregos indefesos (o livro, é bom avisar, é de 1982).

Existe um limite perigoso numa sociedade tão baseada na informação. (DeLillo, em 1982, rasgava a superfície disto.) Não é só que a gente não tenha como combater o poder, é que o poder nos usa de um modo que não compreendemos. 

Os personagens deste livro, com todo o brilhantismo e espirituosidade dos seus diálogos, são cúmplices distraídos do que lhes acontece. Seu Olimpo literário é o mesmo dos megaempresários de Cosmopolis, ou da trilogia “Blue Ant” de William Gibson.