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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

4377) O último processo de Kafka (17.8.2018)




(ilustração: Misha Vyrtsev)

Em março de 1939, quando o Alemanha nazista anexou a Tchecoslováquia, um escritor judeu chamado Max Brod fugiu imediatamente de Praga, e por vias tortuosas acabou se refugiando em Tel Aviv. 

Brod não quis correr riscos: era um judeu militante, e uma figura pública na capital tcheca. Aos 24 anos publicara um romance de grande sucesso, O Castelo Nornepygge (1908), logo seguido por outras obras que tornaram seu nome conhecido não só nos meios literários tchecos, mas também na Alemanha – como muitos tchecos cultos do seu meio, ele escrevia em alemão.

Ao fugir, ele levou consigo, curiosamente, uma grande quantidade de manuscritos deixados por outro autor, grande amigo seu, chamado Franz Kafka, um nome que apenas algumas centenas de pessoas do meio literário de Praga sabiam quem era.

A obra de Max Brod parece ter sido esquecida; ao salvar o espólio do amigo, ele parece ter condenado a si próprio a ser eternamente “o amigo que salvou da destruição a obra de Kafka”.

Kafka é um dos dez ou doze autores de quem já disse algo tipo “sua obra condensa, resume e define o que foi o século 20”.

Em vida, Kafka (que trabalhava como um advogado) era conhecido nos meios literários por coletâneas de contos como Contemplação (1912) e Um Médico Rural (1919), além das noveletas A Metamorfose (1915) e Na Colônia Penal (1919). Quando morreu em 1924, coube a Brod editar postumamente obras como O Processo (1925), O Castelo (1926) e America (1927).

Na fuga de 1939 para Tel-Aviv, Brod levou consigo uma quantidade de outros escritos deixados por Kafka. Esse espólio, desde então, tem sido objeto de uma briga jurídica tipicamente kafkeana, sobre a qual já escrevi aqui:


Esses manuscritos, depois da morte de Max Brod em 1968, em Tel Aviv, acabaram ficando presos num limbo supranacional. Estão como aquele personagem de Tom Hanks no filme Terminal (2004) de Steven Spielberg, que não pode sair do aeroporto nem embarcar em nenhum voo porque seu país de origem deixou de existir.

Os alemães reivindicam para si o material, que é escrito em alemão. Os judeus querem mantê-lo consigo, por ser a obra de um autor judeu.

A obra de Kafka tem recebido ao longos destas décadas numerosas leituras. Para os de viés psicanalítico, ele se debatia contra a autoridade implacável e surda de um pai dominador, contra o qual escreveu a famosa Carta ao Pai (1919).

Para os religiosos, ele se defronta com o silêncio de um Deus que se manifesta através de decisões incompreensíveis e se recusa ao diálogo.

Para os de formação política, ele prenuncia os estados totalitários de hoje, que se valem de instrumentos como a burocracia, a tortura e a arbitrariedade jurídica. Ou então como o pesadelo de um judeu prefigurando a catástrofe que as décadas seguintes trariam sobre o sue povo.

A labiríntica batalha jurídica entre alemães e judeus pela obra ainda inédita do autor tcheco é descrita no livro (a sair em breve) Kafka’s Last Trial de Benjamin Balint, resenhado aqui por Adam Kirsch:


Kirsch chama a atenção para o fato de que esse limbo, essa indefinição, esse confuso estatuto de pertencimento e de não-pertencimento que caracteriza a vida e a obra de Kafka talvez seja um dos motivos profundos do seu apelo para o leitor moderno.

Kafka era tcheco por nascimento, judeu por etnia e cultura, alemão pelo idioma. Tinha lealdades e afiliações contraditórias. Como todos nós, hoje.

O século 19 em que nasceu era ainda o século do colonialismo, da Europa que se supunha onipotente, dos nacionalismo em consolidação ou em expansão voraz. Supunha-se, naquele tempo, que para alguém era possível (e até desejável) ser apenas alemão, ser apenas francês, ser apenas inglês, e que isso bastaria para fornecer toda a “fórmula química” capaz de definir um cidadão.

A falácia nacionalista (ou a fantasia nacionalista, para usar um termo mais suave, mais compreensivo) foi estilhaçada pela economia e pela política do século 20 – o Século de Kafka.

Nenhum ser humano pertence a uma só categoria, e à medida que as crises sociais e as revelações históricas se expandem, essas categorias se tornam cada vez mais contraditórias, rasgando e dilacerando a alma de cada um.

Pergunte-se (para dar um exemplo extremo) a uma mulher negra do Nordeste brasileiro se ela se considera “mais” mulher, ou “mais” nordestina, ou “mais” brasileira, ou “mais” negra. Qual dessas categorias a define de forma mais essencial? Cada pessoa dará uma resposta diferente.

São lealdades contraditórias. Cada pessoa (também eu, e cada um de nós) é produto do Século de Kafka, o século das essências fragmentadas, da busca de um Centro que não mais existe.














segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

4318) Mário de Andrade e o fim da geografia (26.2.2018)



Em seu prefácio ao Macunaíma (1928), e depois nos manuscritos do relato de viagem O Turista Aprendiz (concluído em 1943, publicado em 1976), Mário de Andrade usou algumas vezes o termo “desgeograficar” para descrever o seu  método criativo pouco ortodoxo.

Inspirando-se nas pesquisas de Koch-Grunberg e outros, ele se muniu de uma extensa documentação sobre mitos amazônicos (bem como de outras regiões), e passou tudo no liquidificador.

No chamado “2º. Prefácio” de Macunaíma, ele diz:

“[O livro] Possui aceitação sem timidez nem vanglória da entidade nacional e a concebe tão permanente e unida que o país aparece desgeograficado no clima na flora na fauna no homem na lenda na tradição histórica até quanto isso possa divertir ou concluir um dado sem repugnar pelo absurdo. Falar em ‘pagos’ e ‘querências’ em relação às terras do Uraricoera é bom”

Como se vê, Mário queria pegar esse material etnográfico bruto e puxá-lo todo de uma vez para um nível mais alto, mais abstrato, mais apenas-literário. “Abstrato” no sentido de não estar mais com raízes fincadas numa realidade regional obrigatória – daí sua sugestão se usar o vocabulário gaúcho (“pagos”, “querências”) para falar do mundo amazônico.

Por um lado, ele queria (imagino) se permitir uma certa liberdade criativa no aspecto literário, sem que lhe aparecesse à porta um antropólogo de plantão, de caderneta em punho, tocando na campainha e avisando que a palavra tal era desconhecida dos tupiniquins e usada apenas pelos tupinambás.

Mário tinha espírito científico suficiente para saber com clareza em que instâncias este espírito deve se impor, e em que instâncias ele é um desnecessário freio-de-mão-puxado, travando a imaginação narrativa, fabulatória. Deixar de contar uma história boa porque algum ponto necessário a ela contradiz um dado da ciência é um erro gratuito. Se tem alguma Musa ou Deusa que conhece o seu lugar, é a Ciência. Ela sobrevive. (Isto vale para a ficção científica também. É a ficção que dá a última palavra.)

Mário deixa isso bem claro numa nota de 1926 ao primeiro prefácio (estou citando a reedição anotada e comentada de O Turista Aprendiz, Brasília, Iphan, 2015):

“(Um dos meus interesses foi desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim desregionalizava o mais possível a criação ao mesmo tempo que conseguia o mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea – um conceito étnico nacional e geográfico.)”

Desgeograficar na prática corresponde a uma tentativa (acho eu) de desregionalizar na literatura, porque já naquela época era forte o viés “regionalista” em nossa ficção, preparando a explosão dos grandes romances da década seguinte: Rachel de Queiroz, Graciliano, José Lins, etc.

Era muito enxerimento de Mário querer “conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea”, mas era exatamente isso que se fazia necessário, por equilíbrio – em paralelo ao trabalho dos escritores da outra tendência, os regionalistas de precisão etnográfica, precisos no uso de cada termo ou na descrição de cada plantinha, peça de roupa, geringonça de trabalho.

O “homogeneizar” de Mário não era transformar tudo em cópia idêntica disso ou daquilo, mas remover as barreiras da alfândega cultural segundo a qual só os nordestinos deviam falar do Nordeste, só os mineiros de Minas, os baianos da Bahia. Tornar toda a cultura brasileira um banco-de-dados com livre acesso aos brasileiros.

Por isso mesmo que um dos maiores poemas amazônicos, Cobra Norato (1931), foi escrito pelo gaúcho Raul Bopp.

É curioso comparar essa idéia-projeto de Mário com a expressão do cyberpunk William Gibson ao dizer que certas corporações de hoje não são mais propriamente “multinacionais” e sim “pós-geográficas”. É um movimento parecido de anular a geografia, mas no sentido inverso, de cima para baixo, do macro para o micro, do universo das grandes invasões uniformizadoras, para quem as fronteiras nacionais, os idiomas, as culturas, são problemas de discrepância que precisam ser resolvidos como alguma espécie de Raio Homogeneizador.

Mário queria o contrário disso. Queria exaltar o único, o diferente, o individual, todas as faunas e floras, todas as lendas e parlendas, para que se tornassem moedas com valor de troca para além da sua tribo de origem.

Pensava ele (penso eu) na necessidade de despregar essas obras tipo Macunaíma da obrigação servil de funcionar como mera ilustração da realidade e ganhar autonomia literária. Pode parecer que não, mas sempre foi e ainda é grande a vigilância etnográfica em nossa literatura, uma ansiedade ou angústia que é uma doença infantil do Realismo literário.

Realismo é a ilusão de que a literatura é capaz de reproduzir a Realidade, e é consequência da ilusão renascentista-vitoriana de que podemos um dia saber o que é a Realidade.

Por outro lado, Mário não estava querendo, a julgar por suas explicações, que a literatura virasse um samba do crioulo doido, virasse uma cantoria de Zé Limeira. Ele ressalva: “até quanto isso possa divertir ou concluir um dado sem repugnar pelo absurdo”.

Isso sem dúvida é uma opção estética das mais problemáticas, porque não serão poucos os casos em que um leitor desavisado como eu irá basear uma argumentação em algo que leu num romance e supôs com ingenuidade que era um dado factual indiscutível. “—Mas é claro que os amazonenses chamam seus territórios afetivos de querências!... Está lá no livro de Mário!...”

Paciência. Essa atitude dele me parece aquele impulso eterno da literatura para se despregar do meramente factual e ir ao cerne fabulatório das histórias a serem contadas, contadas à revelia dos fatos e lugares onde tiveram origem.

Num poema de A Volta ao Dia em 80 Mundos, Cortázar diz num poema dedicado a Borges que ele falava em Babilônia e pouca gente entendeu que ele se referia ao Rio da Prata.

Bertolt Brecht desgeograficava a Alemanha que queria criticar, transformando-a em Manhattan, China, Londres, Cáucaso. Era uma maneira de dizer: “Esqueçam a geografia. Esta estória é sobre a História”.








segunda-feira, 2 de novembro de 2009

1342) Contradições do nacionalismo (1.7.2007)



Hoje, quem diz ser nacionalista é taxado de antiquado, e logo escuta: “Essa coisa de nação acabou. Com a globalização da economia, os governos vão perder cada vez mais poder, as fronteiras vão passar a ser limites meramente simbólicos. Os governos serão administrações territoriais eleitas pela população, mas quem manda de fato são as grandes corporações, o grande capital”. É o que está acontecendo, concordo, e em alguns casos a única maneira de um país se opor a essa invasão silenciosa é através do autoritarismo esbravejante, como é o caso de Hugo Chávez na Venezuela, e de sua versão com menos decibéis na Bolívia de Evo Morales.

O Nacionalismo não deve ser xenofobia, recusa rancorosa a tudo que é estrangeiro. Pelo contrário. Tudo que é estrangeiro deve nos interessar – menos, é claro, uma invasão militar estrangeira, ou uma invasão econômica estrangeira. Dos estrangeiros me interessa a sua Cultura. Quero saber o que eles pensam, conhecer o que eles criam. Me interessa o turismo, para que eles possam vir conhecer as coisas interessantes que temos aqui com a mesma alegria e proveito com que eu conheço as deles quando viajo. Me interessa a possibilidade de fazer trabalhos conjuntos em que ambos possamos ganhar dinheiro e sair satisfeitos. Mas para isso tudo eu preciso ter uma situação política estável, uma economia firme, uma cultura altiva e em paz consigo mesma a ponto de não ter complexo de inferioridade diante da cultura alheia.

O nacionalismo está para os países assim como a cidadania está para os indivíduos. Não se trata de negar os direitos alheios, mas de afirmar os seus. Se a economia se globaliza cada vez mais, e os países perdem a autonomia sobre o que se passa dentro de suas fronteiras, então isto está se equivalendo ao que mais se criticava no Comunismo: os indivíduos perdendo a autonomia sobre sua própria casa, e o Estado onipotente invadindo tudo, mandando e desmandando em tudo. A Globalização Econômica pode criar isso: um Stalinismo em escala mundial, um Super-Estado transnacional formado por grupos sem ideologia, sem pátria, cujo único objetivo é a aplicação maciça de capital num país para arrancar o máximo possível de lucro no mínimo possível de tempo. Nacionalismo é dizer a esse pessoal: “Vão fazer isso na casa-da-mãe de vocês! Na minha casa não”.

Algumas pessoas que defendem o “exercício da cidadania”, os “direitos do cidadão”, “direitos do consumidor” e tudo o mais falam também que no mundo cosmopolita todas as nações se equivalem, que as fronteiras não existem mais. Eu discrepo. Acho que os povos têm personalidades próprias, como os indivíduos, e devem dialogar como os indivíduos dialogam: cooperando fraternalmente, respeitando-se, ajudando-se, tendo uns arranca-rabos de vez em quando como acontece com os indivíduos, e resolvendo tudo na base da diplomacia. Mas acima de tudo conscientes de que todos são únicos, diferentes, cada um tem algo de específico para contribuir.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

1258) Resistência Cultural (25.3.2007)




(Monteiro Lobato)


Às vezes me acontece estar numa mesa-redonda ou coisa parecida e alguém me apresentar assim: “E agora vamos passar a palavra a Braulio Tavares, escritor, compositor, um batalhador da resistência cultural nordestina”. Sei que é um elogio, e que se aplica a mim, até certo ponto; mas gostaria de ir agora um pouco além deste “certo ponto”.

“Resistência” lembra a Resistência Francesa, do tempo da ocupação da França pelos nazistas, na II Guerra Mundial. Indivíduos heróicos, agindo na clandestinidade, lutando contra um ocupante poderoso e bem armado, mas conseguindo atingi-lo de vez em quando por meio de táticas de guerrilha. Lembra também a luta atual de alguns grupos de iraquianos contra a presença do exército americano no país. (Nem todos, é claro. Grande parte não passa de gangues religiosas aproveitando o caos da guerra para liquidar os membros das gangues rivais.) A “resistência” é um movimento que cerra fileiras em torno de um território qualquer que está sendo invadido, e tentar rechaçar esta invasão.

Até aí, tudo bem. Se o nosso time está sendo atacado, precisamos de uma zaga eficiente. A questão é que, quando se trata de cultura nordestina, precisamos de muito mais do que meia-dúzia de zagueiros e volantes rebatendo bolas para a lateral. Precisamos de um meio-de-campo que receba essas bolas e as repasse para um ataque. Ou seja: não basta resistir ao lixo cultural que vem de fora, precisamos exportar o nosso Não-Lixo cultural, invadir os espaços alheios, proclamar a alta qualidade do que fazemos. A melhor defesa é o ataque.

Caetano Veloso, numa canção famosa, disse: “Sejamos imperialistas!” Como tudo que o baiano diz, tem uma ambigüidade crítica muito útil. Criticamos o imperialismo cultural que quer invadir nossa cultura, mas precisamos reconhecer que, se tivéssemos o mesmo poderio econômico deles, faríamos a mesma coisa. Então, tentemos fazê-la mesmo sem ter esse poderio. Sejamos imperialistas. Vamos fazer os filmes de Vladimir Carvalho passarem nos shoppings da Califórnia, vamos promover tributos a Jackson do Pandeiro em Paris, vamos obrigar “The New Yorker” a dar matéria de capa sobre Augusto dos Anjos. Como? Não sei, mas se a Bahia e Pernambuco fazem isso com seus figurões, então não é impossível fazê-lo.

Monteiro Lobato também afirmou: "Nada de imitar seja lá quem for. Temos de ser nós mesmos. Ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não seguir". Lembro isto porque falar apenas de “resistência” acaba tendo uma conotação imobilista, conservadora. Temos que resistir às mudanças impostas de fora, e nesse impulso acabamos resistindo a qualquer mudança, acabamos imobilizando e fossilizando nossa própria cultura. Mas se somos um exército que invade o território alheio não podemos ficar imóveis, temos que nos expor ao imprevisível, ao imponderável, temos que nos adaptar, nos modificar, se quisermos sobreviver. A melhor maneira de resistir à expansão alheia é expandir-se.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

1234) Os nacionalismos (25.2.2007)



O mundo está cheio de nacionalismos de natureza muito diversa, e poucos conceitos são tão suscetíveis, quanto este, de provocar brigas insensatas. O mais interessante nesta discussão, para mim, é a imensa auto-estima com que umas pessoas se proclamam nacionalistas, e o imenso amor-próprio com que outros afirmam que não o são. Dá para perceber que o Nacionalismo envolve, tanto nos que o aceitam quanto nos que o rejeitam, valores muito íntimos, muito pessoais, muito definidores que cada um desses grupos vê de melhor em si mesmo.

Não posso resolver aqui o problema, quem me dera, vou apenas anotar alguns sintomas. Falarei do nacionalismo cultural, que se distingue do nacionalismo econômico ou político – cada um tem exigências distintas. Em cultura, existe algo a que chamo de “mau nacionalismo”, e que afirma mais ou menos o seguinte: a) Tudo que é nacional é necessariamente bom, porque a Pátria se auto-justifica; b) Tudo que não é nacional é estranho à Pátria, portanto não tem valor intrínseco, e portanto não há motivo para conhecê-lo ou utilizá-lo; c) Tudo que vem de fora é ameaça.

Atitudes como estas são muitas vezes estimuladas por Estados autoritários que planejam exigir da população sacrifícios e sofrimentos, e sabem que fazê-lo em nome da Pátria é mais seguro do que em nome do Governo. Quem pretende iniciar campanhas militares de ampliação do território, invadindo países vizinhos, costuma alertar a população de que tudo que vem de fora constitui ameaça, o que dá um caráter “preemptivo” às suas próprias invasões. Claro que num clima político desta natureza, a produção cultural que vem de fora, sobre a qual o governo local não tem controle, só pode mesmo ser vista como perigosa.

O erro principal, a meu ver, é defender o nacionalismo baseado na premissa de que somos superiores a alguém. O verdadeiro nacionalismo cultural deve se basear no conceito inverso: o de que não somos inferiores a ninguém. Neste último caso, fica pressuposto o respeito a quem quer que seja, mas sempre ressalvando o fato de que estamos a exigir respeito idêntico. O nacionalismo saudável deve partir do princípio de que nosso povo faz parte da Humanidade e tem a mesma importância e o mesmo valor intrínseco de outros povos. Mesmo que estes sejam mais poderosos em termos políticos e econômicos. Mesmo que tenham uma cultura muito mais antiga que a nossa. Mesmo que vivam num ambiente socialmente mais justo e digno de admiração. Mesmo que esses povos, que achamos ter razão para admirar, não nos admirem. Porque cabe a nós provar-lhes que somos dignos de admiração, que o que produzimos é, apesar de diferente do que eles fazem, tão valioso e tão fundamentalmente humano quanto a produção cultural de quem quer que seja.

É uma atitude que se baseia numa auto-estima e num amor-próprio temperados pelo respeito ao Outro e pela curiosidade natural pelo Outro, sem os quais não pode haver amizade nem convivência.

segunda-feira, 10 de março de 2008

0184) O estrangeiro (23.10.2003)

Existe um certo heroísmo no indivíduo que deixa para trás um mundo ao qual pertencia, e se transfere para um mundo completamente diferente. O migrante, principalmente o migrante involuntário, é sempre o herói de um poema épico. Pena que desse poema existam apenas meia dúzia de versões orais, que circulam ao longo das gerações de uma família até se esvaírem no esquecimento. Muitas vezes, netos e bisnetos mantêm registros cuidadosos das aventuras e desventuras de seus antepassados, um pouco por orgulho e afeto, e para ter certeza de que aquilo tudo não foi em vão.

Os que fogem da terra natal por causa de uma seca, de uma guerra, de uma perseguição racial ou política, sabem muitas vezes que estão num caminho sem volta. Vão para o outro lado do mundo; chegam ali ainda jovens, estudam, trabalham, casam com alguém local, criam ali suas famílias, envelhecem, ficam pensativos. Uns voltam a visitar, de vez em quando, o seu antigo mundo. Outros recusam-se a pensar nele, a falar sobre ele. Outros encolhem os ombros, indiferentes. Outros criam ficções sobre aqueles tempos remotos e acabam por acreditar nelas. Cada um tem seu modo de lidar com a existência desse mundo extra em seu passado.

Estou misturando numa só panela retirantes, exilados, refugiados políticos; não importa. Todos eles são o Estrangeiro, o sujeito que veio de fora, o indivíduo vindo de um lugar que não conhecemos, e com um passado de que é a única testemunha. No mundo que escolhe para viver, o Estrangeiro pode vir a ter uma aura de mistério, à qual alguns podem reagir com desconfiança, outros com curiosidade. Em linguagem dramatúrgica, diz-se às vezes que um personagem “tem um passado”. Todo mundo tem um passado, mas nesses casos particulares subentende-se algo que está oculto nesse passado mas que irá ser revelado ao longo da narrativa. Nos antigos folhetins, volta e meia aparece um personagem “recém-chegado das colônias, onde passara os últimos vinte anos...” Um passado assim é um baú trancado, não se sabe o que pode conter. No momento do aperreio, o dramaturgo abrirá esse baú para tirar dali uma solução de enredo.

Grupos de migrantes costumam agregar-se, criar rituais, formar pequenas comunidades artificiais onde tanto podem desenvolver um apoio mútuo quanto a neurose coletiva. Alguns livros de Julio Cortazar, como O jogo da amarelinha ou Livro de Manuel reproduzem de forma notável a vida de intelectuais argentinos morando em Paris. A falta de ajustamento ao novo mundo pode levar a pesadelos como os do protagonista de O Inquilino de Roman Polanski ou a tragédia como a de O homem do prego de Sidney Lumet. Por mais que tente se misturar, o estrangeiro vê as coisas de um modo diferente, sente diferente, reage diferente. Cedo ou tarde, alguma coisa acaba por trair a existência daquele passado, daquele outro mundo onde só ele sabe o que aconteceu, e cuja simples existência nos inquieta.

0179) Os americanizados (17.10.2003)

Sou capaz de apostar que se entrarmos numa favela em qualquer metrópole brasileira, de São Paulo a Recife, de Belo Horizonte a Porto Alegre, vamos encontrar um garoto preto, subnutrido, descalço, mastigando um picolé de morango e usando uma camiseta suja onde está escrito: “Columbia University”. Num bairro mais adiante, se pararmos para tomar um refrigerante diante do grupo escolar ou do Ciep local, vamos ver sair da aula um outro garoto, branco, ou preto, ou mulato, mas mais limpo, mais arrumado, livros embaixo do braço, vestindo o inevitável bermudão e usando uma camiseta onde está escrito: “Chicago Bulls”. À noite, se entrarmos num apartamento da Zona Sul, talvez encontremos um terceiro rapaz que poderia ser irmão mais velho dos outros dois, ouvindo um CD e vestindo uma camisa com o nome de uma banda como “Wallflowers” ou “Linkin Park”.

O primeiro menino não tem a menor idéia do que seja a Universidade de Columbia. Veste aquela camisa porque foi a única que alguém lhe deu. O segundo sabe quem são os Chicago Bulls: é o maior time de basquete do mundo, o time de Michael Jordan. (Não é mais, mas é a mesma coisa do Santos de Pelé, continua existindo) O terceiro provavelmente não apenas sabe que banda é aquela como tem os discos, conhece os integrantes, canta as músicas. São estágios sucessivos no que o pessoal chama “a americanização” da juventude brasileira. O curioso é que uns acham essa americanização a primeira trombeta do Apocalipse; para outros ela é um grito de vitória, mistura de “independência ou morte” com “abre-te sésamo”.

Quando alguém veste uma camisa onde está escrito um nome que não conhece, ele está abrindo uma janela em si mesmo. Está entrando num lugar desconhecido, tomando posição num ritual cuja finalidade ignora, bebendo num copo sem saber o que tem dentro. Vestir uma dessas camisas esfregar uma lâmpada mágica sem saber o que vai brotar dali, se é um gênio que concede três desejos ou um dragão de fogo que carboniza o descuidado. Não importa. A curiosidade é maior do que a cautela. Ele sabe que existe um mundo lá fora, além do seu entendimento, e que esse mundo se exprime através de palavras em inglês. Ele até poderia dizer: “Não, obrigado, não quero, só me interessa o que já conheço, só me interessa o que já é o meu mundo.” Mas ele diz: “Eu queria saber o que é isso. Eu queria experimentar. Me mostre.”

Abrir o próprio espírito e deixar que seja invadido pela imensidão do mundo é o gesto mais desprendido, mais indefeso e de mais grandeza que um ser humano pode ter, e esse gesto de quase inconcebível coragem é mais praticado por jovens do que por homens e mulheres maduros. A única recompensa justa para essa coragem seria dar-lhes a escolher não apenas camisetas norte-americanas, mas que pudessem escolher também camisetas (e mitologias) chilenas, húngaras, espanholas, mexicanas, indianas, argentinas, portuguesas, irlandesas, russas, palestinas, judias. O mundo é grande.