(Polanski em Chinatown)
Nos filmes de Alfred Hitchcock tem sempre a cena em que ele
aparece ao fundo, entre os figurantes. Quando menos se espera, ou quando já se
está cansado de esperar, lá está Hitchcock, sentado num ônibus ao lado do herói
(O Homem que Sabia Demais, 1956) ou vendo a porta de um ônibus se fechar na
sua cara (Intriga Internacional, 1959). O escritor Tim Powers desdenhava esse
macete. Achava um exibicionismo meio infantil, que atrapalhava a credibilidade
emocional do filme: “Você está assistindo uma cena que se supõe séria e tensa,
e aí, de repente começa a apontar: - Lá está Alfred! Estraga tudo.”
A Aparição do Diretor virou cacoete, já utilizado de toda
maneira por todo o mundo. Mas o que eu acho mais interessante são aquelas
aparições meta-hitchcockianas, que vão além do que o que o gordinho fez. São
cenas com sua própria dramaturgia, seu próprio impacto, e o diretor não está
ali apenas dando adeusinhos para o eleitorado. Está carregando em si um papel,
numa cena forte, e com a obrigação de defendê-lo bem diante de sua própria
equipe técnica. Caso emblemático de “Cena do Diretor”: Roman Polanski em Chinatown (1974), no papel do gangster janota que pega um canivete e abre a
narina de Jack Nicholson.
Não me refiro àqueles filmes em que o diretor é de certa
forma o protagonista, como F for Fake (1974) de Orson Welles ou A Noite
Americana (1973) de François Truffaut.
Em casos assim o filme já é concebido em torno da imagem do
diretor-ator, o filme todo é a presença dele.
A Cena do Diretor é quando ele dirige a si mesmo e aparece nesse momento
específico, e praticamente não mais; uma cena curta, mas de peso. Marca
presença, tanto quanto Hitchcock; mas seu aparecimento não é um “gimmick”
meramente publicitário, como o do mestre, é um produto estético. Afinal, é uma
cena de filme! Uma coisa tão obra-de-arte quanto uma sextilha.

