
A primeira história diz respeito a Spider Robinson, norte-americano, autor de histórias de ficção científica ambientadas num bar chamado Callahan’s, nome do seu proprietário. É um bar frequentado por alienígenas, viajantes no Tempo, etc., e ali se contam histórias divertidas. Robinson conta que certa vez estava com a esposa numa convenção de FC, e um grupo de fãs os convidou para jantar. Como estavam sem um centavo, aceitaram. Entraram num carro. Rumaram para o subúrbio, pegaram a estrada. O tempo passando, e tome estrada. Robinson e a mulher impacientes; e os fãs piscando uns para os outros e dando risadas. Uma hora e meia depois, pararam num restaurante, chamado, é claro, “Callahan’s”. Diz Robinson que não apenas a comida era horrível, mas descobriram que os fãs também não tinham grana para pagar o jantar.
Um cantor profissional me contou que chegou na cidade onde ia fazer um show à noite, e no aeroporto foi recebido por um sujeito que disse ser da produção local, encarregado de levá-lo para o hotel. Ele guardou a bagagem e o violão no carro do sujeito, e os dois seguiram. No meio do caminho o cara perguntou se o artista se incomodava de passar antes num local onde ele precisava pegar alguma coisa. “Tudo bem”, disse ele. Daí a pouco desceram numa casa onde estava rolando o maior churrasco, e o motorista anunciou: “Aqui está ele!”. O cantor teve que descer, sentar, fingir que bebia, até conseguir ligar para o verdadeiro produtor local ir buscá-lo; mas antes teve que pegar o violão e cantar algum dos seus grandes sucessos.
Affonso Romano de Sant’Anna narra o episódio ocorrido com Michel Foucault, em sua vinda ao Rio de Janeiro em 1973. Foucault veio fazer conferências na PUC-RJ, com cobrança de ingresso. No primeiro dia, ele e Affonso foram abordados por estudantes de filosofia que se queixaram de não poder comprar ingresso. O filósofo se dispôs a falar de graça para eles em outro horário. Depois, contou a Affonso que os estudantes o levaram para uma cobertura em Ipanema, onde ficou bastante claro que eram muito mais bem-de-vida que o próprio filósofo.
Nem todo fã apronta situações desse tipo, é claro. Mas acontece tanto que dá o que pensar nessa relação meio canibalesca que o fã mantém com seu ídolo. Os jovens leitores que levaram Spider Robinson para aquela roubada estavam querendo não só homenageá-lo, mas querendo que ele achasse graça na piadinha deles. O pessoal do churrasco e os ouvintes de Foucault certamente eram admiradores sinceros de suas vítimas (não aprontariam aquilo com qualquer um), mas narcisistas, acima de tudo. Fizeram aquilo para sair dizendo coisas como “Fulano cantou no meu churrasco”, “Foucault esteve lá em casa semana passada...” O fã é capaz de extremos de altruísmo e de extremos de egoísmo, porque existe no seu Ego uma fome voraz que só o ídolo sacia. Quanto mais importante a gente se torna para um fã, mais cuidado precisa ter com ele.
