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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

5223) Wells e o mundo do futuro (26.2.2026)



(A Máquina do Tempo, de George Pal, 1960) 

 
Desde o ano passado abri uma filial do “Mundo Fantasmo” na plataforma Substack, onde nossas postagens são enviadas em forma de newsletter para os assinantes. (Apareçam lá – o material que publico lá é diferente do daqui.). 
 
O link:
https://substack.com/@brauliotavares
 
Um dos autores que me animaram a assinar (gratuitamente) o Substack (além da insistência de Marcos Lobato – valeu, meu nobre!) foi Ted Gioia, cujos textos sobre música e eventualmente literatura eu já acompanhava há tempos. Gioia tem seu mural The Honest Broker, cujas publicações gratuitas venho seguindo desde que lá pus os pés. 


Nesta semana, o título da newsletter dele me trouxe arrepios, os quais se converteram em calafrios e tremores depois que comecei a ler seus “30 Fatos Sobre a Infância de Hoje Que Vão Horrorizá-lo”. Na amostra, copiei oito. Meu instinto de conservação me aconselhou a não consultar as 22 restantes. É demais para mim. Quem quiser se arriscar, vá em The Honest Broker. Resumo abaixo (excluo os comentários e dados estatísticos; podem ir direto à fonte). 
 
1) A média das crianças de hoje brinca fora de casa uma média de 4-7 minutos por dia.
2) O tempo que os jovens passam com amigos caiu pela metade.
3) Crianças entram na escola com sintomas próximos do autismo devido ao uso de aparelhos eletrônicos.
4) Crianças entram na escola com pouco vigor físico, retardo na fala, ossos com pouca densidade.
5) 70% das crianças abandonam a prática de esportes organizados por volta dos 13 anos.
6) Taxas de obesidade entre crianças foram às nuvens em anos recentes.
7) Algumas crianças chegam à escola sem força física para usar um lápis, ou para empunhar faca e garfo.
8) Algumas crianças são incapazes de usar sozinhas o toalete, pendurar seu casaco, e até de reconhecer o próprio nome.
 
Exagero, alarmismo, mimimismo, vitimismo? Não sei, mas todo mundo que tem filhos cedo ou tarde pega uma lista assim e a cada tantos ou quantos itens murmura: “Bingo”. 
 
As crianças e adolescentes estão enfraquecendo, não por subnutrição ou maus tratos, mas por um excesso de proteção mal direcionado, falta de experiências autônomas, receio de tudo que seja “presencial”, de atividades físicas, e principalmente de desconfortos físicos. A eletronização da percepção física (visão, ouvido, coordenação motora, orientação espaço-temporal) é um problema também, mas não é o único. A culpa não é “do videogame”, ou “do celular”. 
 
O pessoal da web criou o apodo sarcástico de “alecrins dourados” ou de “bolas de neve” para ridicularizar essa juventude débil, tartamuda, assustadiça, passivo-agressiva. 
 
Duas coisas me vieram à memória.


 
Os sinhôzinhos das Casas-Grandes dos engenhos de antanho, tão cruelmente e ternamente descritos por seu maior cronista, Gilberto Freyre: 
 
Mimos que em certos casos prolongavam-se pela segunda infância. Houve mães e mucamas que criaram os meninos para serem quase um maricas. Moles e bambos. Sem andar a cavalo nem virar bunda-canastra com os muleques da bagaceira. Sem dormir sozinhos, mas na cama-de-vento da mucama. Sempre dentro da casa brincando de padre, de batizado e de pais das bonecas das irmãs. O Padre Gama nos fala de meninos  que conheceu sempre “empapelados e envidraçados”, e tratados com tantas “cautelas de sol, de chuva, de sereno, e de tudo, que os pobres adquirem uma constituição débil, e tão impressionável que qualquer ar os constipa, qualquer solzinho lhes causa febre, qualquer comida lhes produz indigestão, qualquer passeio os fadiga, e molesta”. 
(Casa Grande & Senzala, Ed. Record, 40ª. edição, p. 426) 
 
Famílias medianamente abastadas apressam-se a proteger-se, defender-ser, guardar-se das menores ameaças; e com isso definham, perdem a energia que seus antepassados tiveram. 


(A Máquina do Tempo)
 

Sociedades inteiras podem se tornar assim, e neste caso valem as reflexões do Viajante no Tempo de H. G. Wells, que salta do ano de 1895 para o de 802.701 e se depara com um mundo aparentemente povoado apenas por jovens louros, sorridentes, pacíficos, inofensivos, cuja língua ele não entende, mas cujos hábitos começa a querer decifrar pela mera observação. 
 
São os Eloi, uma espécie de hippies do futuro. Um povo cuja finalidade nessa Terra do século 8000+ é um dos segredos do livro, sobre o qual não darei spoiler. Basta registrar a perplexidade do Viajante no Tempo diante daquela vida aparentemente tão despreocupada e inocente. Diz ele, no capítulo 4 (trad. BT): 
 
Tive a impressão de estar encontrando a humanidade na sua fase de lento declínio.  Aquele por-do-sol me levou a pensar no crepúsculo da própria espécie humana.  Pela primeira vez comecei a perceber uma consequência bizarra dos esforços sociais nos quais estamos mergulhados em nossa época.  E não obstante é uma consequência bastante lógica.  A força é um resultado da necessidade; a segurança conduz ao enfraquecimento.  O esforço para melhorar as condições de vida – o verdadeiro processo civilizatório que torna a vida cada vez mais segura – tinha avançado até atingir o clímax.  (...) 
 
Com essa mudança de condições vem, inevitavelmente, a necessidade de adaptação às novas condições produzidas pelas mudanças.  Qual é, a menos que nossa ciência biológica seja uma montanha de erros, a causa da inteligência e do vigor da raça humana?  Uma vida livre enfrentando condições adversas, condições nas quais os indivíduos ativos, fortes e sagazes sobrevivem, e os fracos são condenados; condições que premiam a capacidade dos homens para o esforço conjunto e solidário, além do auto-controle, da paciência, da capacidade de decidir.  E a instituição da família, e as emoções que ali são geradas, o ciúme, a ternura pelos filhos, a devoção dos pais, tudo isto é justificado e explicado pela presença de perigos que ameaçam os mais jovens.  E agora – onde estão esses perigos?  Há um sentimento crescente, e que irá crescer ainda mais, contra o ciúme conjugal, contra a dedicação exclusiva à maternidade, contra as paixões de qualquer espécie; coisas desnecessárias agora, e que nos deixam desconfortáveis.  São resíduos da vida primitiva, e se tornam dissonâncias na vida refinada e agradável de hoje. 
 
A visão de Wells é uma visão influenciada pelos pensadores de sua época: Darwin, Spencer, Marx, etc.  A percepção das mudanças biológicas e sociais foi a cara desse século em que era possível, com certa segurança científica (sempre ilusória, porque contingente, mas necessária) imaginar o futuro. 
 
Pensei na delicadeza física daquelas pessoas, na sua falta de inteligência, e nas ruínas que via por toda parte; isto aumentou a minha crença numa conquista total da Natureza.  Porque após a batalha vem a quietude.  A humanidade tinha sido forte, enérgica, e inteligente, e tinha usado essa vitalidade exuberante para alterar as condições do mundo em que vivia.  E agora vinha a reação do mundo que tinha sido alterado. (...) 


(A Máquina do Tempo) 


Calculei que há anos sem conta tinha deixado de existir ali qualquer risco de guerra ou de violência pessoal, qualquer perigo de ataques de animais selvagens, nenhuma doença grave a requerer uma constituição forte, nenhuma necessidade de trabalhos braçais.   Para uma vida assim, os fracos eram tão capacitados quanto os fortes, e nem podiam mais ser chamados de fracos.  Eram até mais bem capacitados, pois os fortes seriam perturbados por uma energia para a qual não havia uso.  Não havia dúvida de que a beleza peculiar dos edifícios que eu via eram o resultado dos derradeiros impulsos dessa energia na humanidade, energia agora desnecessária, depois que ela repousava numa harmonia perfeita com as condições ambientes: o último florescer do triunfo que resultou na paz definitiva.  Tem sido sempre este o destino da energia humana em condições de perfeita segurança: derivar para a arte e o erotismo, e depois para a languidez e a decadência. 
 
Mesmo o impulso da arte não duraria para sempre, e estava quase extinto naquele Tempo de que fui testemunha.  Adornar-se com flores, dançar, cantar à luz do sol: era tudo o que tinha sobrado do espírito artístico.  E mesmo isto estava condenado a desaparecer, no fim, dando lugar a uma complacente inatividade.   Mantemo-nos sempre afiados quando somos submetidos ao esmeril da dor e da necessidade, e agora me parecia que esse mecanismo fatídico tinha finalmente sido despedaçado! 
 
A narrativa de Wells acaba se desdobrando por terrenos inesperados, mas de momento o que me interessa é essa percepção, na Era Vitoriana, de que uma das armadilhas (são várias) do Progresso é a falsa sensação de dever cumprido, problema resolvido. 
 
Nenhum futuro nos trará a sensação de “a batalha foi ganha, podemos agora relaxar”. 
 
A sensação tentadora do “fim da História”, de que já se chegou ao estágio ideal de abundância, e que agora basta deixar a máquina do Estado ser manipulada pela mão invisível do mercado e tudo vai fluir em céu de brigadeiro (não vai). 
 
 



quarta-feira, 6 de março de 2019

4442) Como desperdiçar o Poder (6.3.2019)


(general Tom Thumb, 1838-1883)

O Poder é uma coisa engraçada. Quando a gente está por baixo, lascado, sem soluções, sem alternativas, a gente costuma se lamentar: “Ah, se eu ganhasse a Mega-Sena!...”

Não peça isso. Seria a pior coisa que poderia lhe acontecer. Não existe coisa mais perigosa do que o Poder nas mãos de quem não sabe usá-lo.

Uma vez, quando eu era redator de humor, escrevi um quadro com um personagem pobre chegando para um amigo rico e mostrando os volantes da Mega-Sena, em que tinha acabado de apostar. Quando ele se afasta, o amigo comenta: “Não sei pra quê pobre joga tanto na loteria. Se pobre tivesse sorte, nascia rico.”

É cruel, mas é psicologicamente verdadeiro. As pessoas pensam assim.

O Poder (dizem os Poderosos, os Capitanistas Hereditários) é pra quem está pronto para exercê-lo em sua plenitude.  Pra quem é preparado. Pra quem estudou. Pra quem tem “berço”. Pra quem foi criado num ambiente em que os meandros do Poder eram discutidos de modo até casual no café da manhã, no almoço, no jantar.

E de certa forma estão certos, porque o aprendizado do Poder é longo e espinhoso, é sempre feito às custas do pobre estudante. Não é pra quem quer, é pra quem pode.


Que o diga o mago Ged, da Trilogia de Terramar, de Ursula Le Guin, que teve de carregar pelo resto da vida uma cicatriz enorme no rosto, resultado de uma bazófia imprudente na adolescência. Ele quis mostrar que era o poderosão e desencadeou uma magia sinistra que quase o leva embora. (Pagou um preço alto. Não morreu; quem morreu foi o mago, seu professor, que conseguiu salvar-lhe a vida.)

O Poder nas mãos de um despreparado é sempre um desperdício. É exatamente por isso que os Poderosos: 1) tentam manter os despreparados longe do Poder; 2) tentam evitar que alguém se prepare e possa concorrer com eles próprios.

Uma pessoa despreparada não sabe o que fazer com uma bomba atômica, com um milhão de dólares, com uma Ferrari novinha em folha, com uma Miss Universo, com uma mansão de 99 quartos.

Todos sonham com isso, ou afirmam sonhar. No dia que conseguem, botam tudo a perder, porque não conseguem enxergar muito longe do próprio nariz.

É como aquela história do cara que se perde no bosque, descalço. A certa altura ele enterra o calcanhar num espinho e o espinho tora dentro. Ele sai mancando e chorando pelo mato afora. Dias depois, acha a Lâmpada de Aladim jogada por entre as moitas. Esfrega, o Gênio aparece e lhe diz: “Você tem direito a três pedidos.” E ele grita: “Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé!”.

O Poder é patético quando colocado em mãos aflitas, impacientes, despreparadas. É o bêbado ao volante, a criança com um 38 carregado, o craque sub-20 comandando uma mesa de 20 pessoas na boate. Pode até não resultar em desastre, mas quando resulta ninguém se admira.

Por falar em nariz, isso me lembra uma cena de um dos filmes da minha infância, o musical O Pequeno Polegar (“Tom Thumb”, George Pal, 1958, com Russ Tamblyn, Peter Sellers e Terry Thomas).


Um casal de lenhadores encontra na floresta a Rainha das Fadas, que lhes concede três desejos. Eles voltam para casa e começam a discutir. Vamos pedir isso, vamos pedir aquilo; vamos pedir uma casa nova, dinheiro, um castelo...

– Você não sabe o que pedir – diz o marido.

– Você vai estragar tudo – diz a mulher.

– Vamos fazer assim – diz ele. – Eu faço um pedido, você faz outro.

– Comece – diz ela.

– Eu quero uma salsicha DESSE tamanho – diz ele.

Tóinnnnn...  Uma salsicha enorme aparece em cima da mesa, e a esposa se desespera.

– Como você é burro ! Estragou o primeiro pedido! Podia ter pedido uma casa nova, tanta coisa... Ai, eu casei com idiota. Só queria que essa salsicha ficasse pendurada no seu nariz, seu bobão!

Tóinnnnn... A salsicha magicamente substitui o nariz do sujeito. Aí são os dois que se desesperam, se acusam mutuamente, se ofendem... Mas não tem jeito: o terceiro pedido é para que a salsicha desapareça e o nariz dele volte ao normal. E assim os três pedidos são jogados pela janela.


A cena não foi inventada pelo filme, claro. É uma função narrativa Proppiana ou Stith-Thompsoniana, que vem há séculos adquirindo novas formas. Sua estrutura é basicamente essa:

1)      Alguém conquista um poder imenso, mas de uso limitado.
2)      Usa esse poder, num primeiro arranco, para realizar as próprias fantasias, o que resulta numa situação de caos, colocando o próprio indivíduo em risco.
3)      O que resta do poder é consumido para “apagar incêndios”, ao invés de produzir qualquer melhora na situação anterior.

Claro que o Poder é um Fenômeno Complexo, não se resume a esse aspecto específico. Mas depois não digam que eu não avisei.